Limpeza das almas
Numa sala de aula, perante os protestos de uma estudante que insistia em usar o traje da tradição, o professor explicava que não, que não podia ser, porque assim é que ela poderia vir a ser discriminada!
(Sampa)
“Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza Ipiranga e a Avenida São João
É que quando eu cheguei por aqui
Eu nada entendi…
Da dura poesia concreta de tuas esquinas
Da deselegância discreta de tuas meninas…
Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza Ipiranga e a Avenida São João
(…)
E foste um difícil começo…”
Ouve-se e não podemos deixar de gostar! E sorrimos do conhecido complexo de Édipo deste famoso baiano! Depois, é sempre reconfortante sermos criticados em português, ainda por cima com sotaque.
Mas não é isso que hoje me faz atravessar o Atlântico.
Vamos lá acertar algumas contas em nome da “purificação da memória” com os nossos “irmãos” “caçulas”:
Irmãos, não, filhos. Esta história de os filhos tratarem os pais por tu ou por irmãos, deu e dá mau resultado – cria confusão e é deseducativo.
Claro que a culpa é dos pais!
Feita a rectificação, recordemos os passos infelizes de ambos os Países em direcção à República e portanto à decadência:
“No confronto, que requer estudo, entre as condições históricas que cercaram a queda da monarquia no Brasil e em Portugal – ambos os regimes instaurados por D. Pedro IV ou I e onde reinavam, sob a cúpula de uma quase idêntica Constituição, igualmente outorgada pelo mesmo Dador, as duas linhas da sua descendência dinástica – haveria um saldo positivo de virtudes públicas a favor do Brasil.
É estranho, mas, onde se poderia supor menor maturidade política, houve mais dignidade de vida pública.
(…)
A República no Brasil foi implantada por um pronunciamento militar contra o Gabinete, que derivou ocasionalmente para um golpe de Estado …, sem turbulências de momento, a que também não precederam perturbações anárquicas do Parlamento e desvairamento da imprensa. Afora esporádicas manifestações individuais…, foi sempre exemplar o respeito colectivo das corporações partidárias, das casas legislativas, das forças armadas, dos grandes órgãos de imprensa pela dinastia e pela Monarquia.
E, não digo a transição, a substituição do regime operou-se no Brasil sob o signo dum comportamento político mais cordato do que em Portugal: não foram mudadas a bandeira e o hino – símbolos de uma continuidade histórica e de uma tradição nacional que cumpria salvar. Na bandeira, conservadas a disposição e as cores das peças heráldicas essenciais, em campo verde um losango de oiro, apenas foram substituídas (aliás, com muito mau gosto) as armas do Império, de tão alto significado, com a esfera armilar e a cruz de Cristo, por um globo azul salpicado de estrelas e enlaçado pelo dístico positivista.
E no hino, deixada inalterada a música (uma das mais belas no género, pela sua singular vibração marcial), trocaram a letra – no que não houve nem perda nem lucro, por que aos inexpressivos e mal alinhavados versos anteriores sucederam estrofes de um preciosismo monótono e dolente.
Portugal, porém, foi às últimas, em matéria de alteração dos símbolos nacionais: à bandeira azul e branca do Constitucionalismo deram como sucessora (contra a exaltada opinião de Guerra Junqueiro) a bandeira verde e encarnada da propaganda, e ao “Hino da Carta” (que “gingava” – como dizia João da Ega) “A Portuguesa”.
(…)”
* “O ultimo Rei” de Cardoso de Miranda
Que tristeza, até os que ensinámos, nos ensinam…
Entretanto, no Brasil, ficou estabelecido que o novo regime seria ratificado pelo Povo brasileiro. Passados 103 anos sobre a queda da monarquia, esse compromisso foi honrado e os brasileiros decidiram em referendo continuar com o regime republicano.
Em Portugal, como se sabe, os portugueses nunca foram chamados a pronunciar-se sobre nada …
Mas voltando à música de Caetano Veloso, ele, até nem tem razão para se queixar da sua triste orfandade porque teve decerto a oportunidade (que eu que o ouço agradecido, nunca tive) de rectificar essa situação através do citado referendo. Tal como todos os outros brasileiros.E a pergunta que lanço aos vencedores e por isso desembarquei outra vez em terras de Vera Cruz, é simplesmente esta: passados quinze anos, ainda não estão arrependidos da escolha?
A frase que serve de título disse-a o grande Rolão Preto e consubstancia a única proposta verdadeiramente revolucionária pós 25 de Abril. Para os espíritos mais sensíveis ou para aqueles que ainda pensam que a Monarquia é um conto de fadas apresso-me a traduzir o alcance da feliz expressão que todos os dias parece fazer mais sentido. Corrigindo o idiótico slogan “O Povo e o MFA” o “jovem” de oitenta anos explicou que não, que não era nada disso que Portugal precisava para cumprir o seu destino histórico mas sim da velha e sempre renovada aliança entre o Rei e o Povo, entre o Rei e as Comunidades ou, actualizando a formula, entre o Rei e as Repúblicas Regionais. Claro que a Portugalidade agradece. A mensagem não foi entendida e a História apenas recordará da 3ª República a feliz criação das Regiões Autónomas da Madeira e dos Açores cujo espectacular desenvolvimento ninguém se atreverá a negar. É indispensável prosseguir neste sentido reconhecendo as outras Regiões Históricas que se torna necessário reactivar e que aliás se descortinam sem grande esforço porque estão hoje praticamente abandonadas. Mas para realizar tudo isto é preciso substituir de imediato a Chefia de Estado Republicana pela Instituição Real introduzindo no sistema as referências de unidade e rumo histórico que só o Rei consegue representar.
Como é que isto se faz?
Em primeiro lugar é preciso alterar a Constituição antidemocrática que temos para podermos escolher em Referendo entre a Republica e a Monarquia. Claro que a opção pela Republica ganharia folgadamente mas a consulta teria o mérito extraordinário, para além do esclarecimento de posições, de, pela primeira vez, desde a implantação da Republica, responsabilizar directamente a sociedade civil pelo regime em vigor. Todos concordam que um dos traços mais marcantes do nosso atraso reside na incapacidade da sociedade portuguesa de crescer mentalmente, de se libertar da excessiva dependência do Estado, em suma, de se tornar adulta. Aí temos a grande oportunidade de começarmos a existir e só por isso já se justificaria o Referendo. Depois, bem, depois as queixas e as lamúrias por parte daqueles que preferiram a República já não seriam aceitáveis e, a não ser que ocorresse um milagre, sempre poderíamos olhar de vez em quando para a vizinha Monarquia Espanhola e interrogarmo-nos – qual é a diferença?
Adorava Constituições! Quanto mais novas, melhores. Buscava nelas, o retrato perfeito, a identidade sonhada, sem as rugas do passado, sem os seus podres, sem as suas dívidas. Do passado queria apenas as coisas boas.
Curiosamente, ou talvez não, tinha uma vida amorosa semelhante. Perseguia amantes, umas atrás das outras, na esperança de encontrar, finalmente, a alma-gémea com quem seria eternamente feliz.
Claro que isto estava a dar com ele em doido! Mas não desistia, a próxima é que era…
A paixão (o vício) Constitucional nascera da leitura de um livro sobre a tomada da Bastilha e os acontecimentos posteriores, em França!
Ficara verdadeiramente deslumbrado com a possibilidade de um Povo, construir, de um jacto, uma nova identidade, livre de todas as grilhetas, de todas as superstições! E depois, a epopeia daquele general italiano, que à frente das tropas francesas, levara a boa nova a quase todos os povos da Europa… deixava-o sempre comovido…
Sabe-se que a coisa não correu bem e que outras tentativas no mesmo sentido, ainda correram pior, mas ele considerava-se um resistente.
A oportunidade de reescrever a História sem olhar para trás, aí estava de novo com uma nova Constituição, agora, Europeia! O vício acordou-o, mas pela primeira vez, a vontade hesitou. Começava a estar cansado da busca e algo desiludido com os resultados.
Um bom amigo já o tinha aconselhado a tratar-se, e adiantara inclusivamente, que as sucessivas crises de identidade de que visivelmente padecia, tinham origem na sua baixa auto-estima, provavelmente provocada por uma memória maliciosamente selectiva. Nada, que um bom psiquiatra não lhe soubesse explicar.
Se pensasse bem, insistiu o amigo, nem tinha razões para estar assim! Afinal, bastar-lhe-ia aceitar a globalidade da herança com um espírito de humildade e grandeza, e então descobriria, na sua história pessoal e colectiva, factos e feitos suficientes para se motivar. Quanto ao bilhete de identidade, escusava de o procurar na nova Constituição, porque decerto ele estaria lá em casa, fechado ou perdido nalguma gaveta…