segunda-feira, agosto 29, 2005

O paciente português

A gente aguenta tudo! Albardados à nascença, com a canga bem ajustada ao feitio dos ossos ancestrais, repetimo-nos e repetimos em coro qualquer idiotice, qualquer novidade que venha “lá de fora”, qualquer sofisma interessante, e só assim nos sentimos todos diferentes uns dos outros!
“Mísera sorte, estranha condição” – desabafou certa vez Luís Vaz, também ele surpreendido com este género humano!?
Apetece ensaiar o silogismo: não houve feudalismo em Portugal, assim como não há hoje Oposição. Logo, está tudo certo ou como se diz na gíria dos que se ausentaram do sistema – está-se bem!
A algazarra que de vez em quando se ouve, que para ouvidos desprevenidos poderia soar a zanga, discórdia, conflito insanável, não corresponde à suposição – à noite jantam todos juntos no mesmo restaurante ou no restaurante defronte, com o telemóvel ligado aguardando as infalíveis explicações e justificações.
Somos todos amigos!
Sabemos inclusivamente (pelas inúmeras revistas) que se cruzam uns com os outros, não em breves encontros, mas em fórmulas “familiares” criativas e neste contexto tribal, de circuito fechado, parece até que são felizes! Pelo menos enquanto durarem as mordomias provenientes da tal “entidade patronal” que bem conhecemos.
Há férias para todos que isto nunca esteve tão bom! A mensagem que passa palavra é que enquanto houver propriedades (leia-se território) para vender ou negociar, que é mais bonito, a festa vai continuar.
Parece que ainda temos “coisas” nos Açores, a plataforma não sei quê, as zonas exclusivas que valem um dinheirão e já está tudo com “escritos” – a Espanha está muito interessada...
O “tipo” da Madeira é que é um “chato” (e malcriado), não quer vender, não autoriza visitas guiadas e agora chegou ao desplante de não querer alinhar no “iberismo”, esse longínquo e persistente sonho dos nossos patriotas republicanos!
Para as memórias mais curtinhas, lembram-se das cores da bandeira da União Ibérica?! Tão parecidas com umas cores que eu cá sei!
Pois é, pois é, mudemos de assunto que conversas desagradáveis não ligam com mergulhos nas excelsas ondas... ou ardentes safaris...
Pacientemente aguardo pelo toque “da trombeta castelhana” ou por novas “Cortes” (nem Cortes deve haver!) em Almeirim. Mas juro-vos que nessa altura não serei “Febo Moniz”!
É a minha vez de ir de férias...

quinta-feira, agosto 25, 2005

O Plano de Salvação

Com este Governo de costas... para a realidade, atrevo-me a sugerir um P.S. (Plano de Salvação) diferente, que pode talvez ser aproveitado quando todos os outros P.S. falharem!
O estilo e a prosa são um bocadinho vanguardistas para o meu gosto, mas cá vai:
- Considerando que Portugal não era assim, todo cravejado de pinheiro bravo e eucalipto, a tal “riqueza” dos madeireiros e das celuloses, mas que não enriqueceu os centenares de “proprietários de meia dúzia de pinheiros”, obrigados a abandonar as suas terras para irem trabalhar e viver na “cidade-grande”!
- Considerando que hoje, esses “proprietários”, só voltam à terra no mês de Agosto, pelas festas!..
- Considerando que quem lá vive todo o ano, são os pinheiros e os eucaliptos, matéria combustível entregue à sua sorte e que vai ardendo sempre que possível!
- Considerando que esta “riqueza florestal” ameaça levar-nos rápidamente à ruína!
- Considerando, por último, a impossibilidade de pôr um guarda atrás de cada pinheiro!

Proponho,

Que o Governo assuma o controle efectivo dos fogos florestais, retirando a iniciativa aos incendiários profissionais, amadores, ocasionais, distraídos, imprevidentes, etc., e deve levar a cabo essa tarefa patriótica de incendiar o País, com método, por quadrícula, em segurança e com custos reduzidos! E escusa de ser no Verão, porque a época aconselhada para as “queimadas” é, como se sabe, no Outono.
A resistência ou a possível incompreensão das populações perante esta nova visão do problema deixará de se fazer sentir logo que o Governo consiga explicar as vantagens e inconvenientes em confronto.

Principais vantagens:
- Ficávamos todos a conhecer com exactidão a área ardida!
- Os fogos florestais deixavam de ser arma eleitoral, com os benefícios que se adivinham!
- Não se gastavam os rios de água e de dinheiro a tentar apagar os fogos (agora interessava não apagar)!
- A despoluição de alguns rios e do meio ambiente em geral, pelo regresso das fábricas de celuloses aos países de origem (norte da Europa)!
- Em vez de repovoamento florestal fazia-se o repovoamento humano, invertendo a inexorável desertificação do interior!

Vejamos agora os inconvenientes:
- Desde logo o “desemprego” forçado para os incendiários no activo!
- Para madeireiros, celuloses e interesses afins que teriam de procurar outras regiões (mais propícias) para desenvolverem os seus negócios (sugere-se a China pela mão de obra barata e, assim como assim, o rio já é amarelo)!
- Para as empresas que vendem equipamentos para combate a incêndios, que teriam de refrear as suas vendas (são empresas comerciais e os equipamentos são todos importados)!
- Para o deficit que assim diminuiria substancialmente (eu nem quero imaginar os “custos” invisíveis com os serviços públicos ou quase públicos, com os aviões, os helicópteros, autotanques, e toda a parafernália envolvida no combate aos incêndios... e ainda por cima em vão!!!)!
- Para a comunicação social, especialmente os telejornais, que teriam de reciclar-se e arranjar outro assunto para manter o País em estado de alerta!
- E finalmente para o Governo, que teria que sair da “sombra”!

Vistos os inconvenientes e reconhecendo que são graves, ainda assim penso que este P.S. (Plano de Salvação), ao contrário dos outros, tem pernas para andar!

“Uma forma larvar de terrorismo, toma o pulso ao País, infiltra-se e vai avançando sobre a inércia e a incapacidade dos governantes...”
A estação do fogo

segunda-feira, agosto 22, 2005

Miguel exemplar

O muro não caiu, está de pé, aqui em Portugal! Lá fora a liberdade, cá dentro, uma união soviética qualquer, alojada no inconsciente colectivo, embrutece e tiraniza tudo à sua volta, e nós, indiferentes, nem sequer nos importamos com isso!
Se alguma dúvida houvesse, o desfecho vergonhoso do chamado “caso Miguel”, convocaria todas as certezas.
Claro que como não podia deixar de ser, o futebol está sempre envolvido, já que é a única manifestação visível da sociedade civil que somos, (como acontece em qualquer regime de matriz soviética), e nesse sentido, não posso fugir à questão, indispensável para explicitar a minha declaração inicial.
Analisemos factos e intervenientes:
Miguel, pela mão do Sindicato dos jogadores (?) e após “enterro” preparado e anunciado por toda a comunicação social, foi obrigado a retratar-se e a pedir desculpas, publicamente, com base em acordo judicial (!), para satisfazer os interesses (quais?) dos membros da auto-denominada “instituição nacional de referência” – o Benfica!
Como também seria prática numa qualquer democracia popular de leste, os termos precisos do que realmente aconteceu, permanecem obscuros e a comunicação social que temos encarregou-se de desfocar o assunto!
Miguel, assim punido, pelo clube do povo ou do partido, do exército ou da polícia política, pode enfim emigrar para o “Ocidente”, para um país livre!!!
Mas deixemos este caso elucidativo e fixemos os aspectos gerais, mais preocupantes:
Antes de tudo, a alienação pelo futebol, corrijo, pelos clubes grandes, nunca vista, (nem no tempo de Salazar), ocupando intermináveis noticiários, com declarações patéticas de desígnio nacional, com “plateias” ridículas a assistir aos jogos, (lembram-se de Sevilha?!), com os presidentes dos clubes grandes, impunes, (enquanto forem presidentes), a tomarem atitudes que qualquer cabo de esquadra deveria impedir, etc., etc., etc.,...
Depois, temos os comportamentos dos que deveriam dar exemplo, mas que estão num estado de alienação muito mais avançado que o comum da população:
Refiro-me aos representantes do povo, os deputados – o que é que vemos? São todos adeptos fervorosos dos clubes grandes, sejam eleitos por Faro, por Viseu ou por Coimbra, sejam por onde for!
Esta mentalidade redutora, filha primogénita do medo e da vergonha de perder, da vergonha de serem naturais de outra terra que não de Lisboa, é uma tara que tem vindo a agravar-se com esta “democracia”, e é um dos argumentos mais fortes que sustentam a tese que o regime é insalubre. Reparem que nem existe qualquer motivação de natureza económica, (atenuante e preocupante ao mesmo tempo), é pura e simples infantilidade!
E não me venham com o argumento de que o país é pequeno, porque eu respondo, que pequeno é o cérebro de quem assim se justifica. Lembro apenas que ainda há poucos anos, em plena ditadura franquista, os Galegos, por exemplo, também eram todos do Real Madrid ou do Barcelona, assim como era impossível imaginar que o Deportivo da Corunha pudesse alguma vez sonhar em ser campeão de Espanha!
Mas, restabelecido o regime legítimo, os espanhóis (incluindo os Galegos), trataram-se, e pelos vistos a doença tinha cura!
Não posso entretanto terminar sem disparar sobre a nossa “intelectualidade”, meu Deus, tão semelhante aos equivalentes soviéticos: também aqui existem poetas que exaltam o clube do povo! Sentindo o incómodo, defendem-se dizendo que têm um segundo clube no coração! Pior a emenda que o soneto, porque então deviam pagar imposto pelo luxo de terem dois clubes (!) e, não ficava mal, serem confrontados sobre a fidelidade!
Pena é que o estro não lhes dê nunca para se inspirarem no pequeno clube da sua terra...
E os maestros do regime, que lindo, a comporem marchas, hinos e outras partituras, ao glorioso clube dos “não sei quantos” milhões! E que bonito seria, se houvesse só um clube, vá lá dois, para ser um “casalinho”!
E se eu me ficasse por aqui, que isto já me começa a meter nojo?!
Com despedida a preceito:
- Até sempre, camaradas!

sábado, agosto 20, 2005

Um poema de Ruy Cinatti

Maggiollo Gouveia

Este homem Maggiollo tem sido falado.
Comandante da Polícia em Timor-Díli.
Em comissão. Era tenente-coronel ou qualquer
coisa.
Não gostei, desconfiei dele, ao princípio.

Motivo: Ele simpatizava com a U.D.T.,
hoje partido unido a Indonésia, outro remédio
não tinha...
Naquele tempo, não era. Era um partido de
velhos-relhos hábitos ligados ao Portugal
-glórias do Império cediço e ultramarino.
O que foi, foi...
Tudo isto nas barbas do Emboóte
ou bode vocálico, o que quer que seja, voceliço,
snr. governador,
assediado pelos papafigos
infantaços traidores jónatas e motas e mais uns
tantos tontos
da Metrópole - ministros, presidentes,
comissões de descolinazações, etc... cujo
nome há-de vir a lume, alguns já vieram...
Aquele partido e os outros, os jónatas e os
motas capitães-majores
fizeram do governador um trapo
altas horas da noite, a horas mortas,
com a FRETlLIN. A APODETI não valia um caco,
hoje é o que se está vendo...
O que digo, digo, eu não minto, sinto...
e não pertenço a nenhum partido político, o PPM
não o considero,
pelos tempos dos tempos etereamente...
Ah, Timor, Timor, berço de inocente...
Isto é Tomás Ribeiro, és indecente!...
mas de que eu gosto e repito...
Berço de inocentes...
de acerbos, sim de etéreos espinhos!
Isto é meio-Garrett, és cotovia!
Acaba rapaz com o narcisismo.
Voltemos à vaca quente, ao búfalo, ao Maggiollo.
Foi em qualquer dia-noite da época seca ou
das chuvas,
quando os eflúvios frigoríferos se evolavam
do Caicóli,
como se sabe, o pseudo-pântano de Díli, há o
verdadeiro, como também se sabe...
que a explosão excluiu, não este, aquele...

Emoldurada de muita papelada a UDT
apresentou provas
de que a FRETILIN preparava manobras
na sombra e dignas de registo.

Sei que o paspalhão dignou-se ouvi-la (à UDT).
Sexa meteu o dedo no olho e vazou-o
(desculpem, eu queria dizer boca, mas o dedo
enganou-se
e foi direito ao olho, valha a verdade!)
Feito isto, a UDT apoderou-se do Quartel da
Polícia de Díli
e o Maggiollo concordou O.K. vamos a isto,
porque o Maggiollo não podia com jónatas e
motas...
porque eles meteram o dedo do governador no
olho
ou no ouvido das(?) tropas-do-fagote
ou no outro das tripas-medo-fedolosas...
e no fim de contas o Maggiollo era português,
católico de religião, etc. e português
que não gosta que lho enfiem no tótiço,
enquanto que o vocálico, o jónatas, o mote, et
relíquias
foram uma pouca de merda,
os segundos merda que deu a volta ao mundo
- Timor, Timor! Estou acordado!
porque o primeiro foi para Ataúro!...
Enfim, merda activa ou papas, uma pouca de
merda!

Claro, que ouvida a história da UDT,
o jónatas e o mota meteram no jeep, foram a
Taibesse e avisaram a fretilíssima malta:
Atenção, ordinário-marche, a casa é vossa e
o material, nós vamos pisgar-nos quanto
antes...
e assim a FRETlLIN se apossou de Díli, a capital,
e do Maggiollo, comandante da Polícia,
enquanto a UDT, a APODETI, a KOTA e toda a
franklinada dos chefes de suco, cuda-reino,
etc., cavalos e luliks
marchavam pró Katano, quero dizer Indonésia,
palavra japonesa aquela que quer dizer porra
afiada,
não sem terem enviado para o katano os
portugueses furta-cores,
a banhos do futuro.
O Maggiollo não foi, outra a vilegiatura.

Recuemos um pouco. Não uso fichas.
É o que me sai, cai do bestunto
e nem sequer sou prudente e verifico os factos-
datas.
Sou assim como o Xenofonte ou o Fernão
Mendes Pinto,
o que para a história trágico-burlesca da burla
não tem grande significado, a significação.

Sim, porque na verdade, a manobra
de há muito preparada,
como se provou pela tal papelada,
foi pela frente e levou-se de arrancada
e ousadamente.

Ousada não, tinha a seu favor
a porreirice dos motas mai-los jónatas...
Conseguido o desideratum,
a FRETILIN agarrou no Maggiollo,
deu-lhe porrada até ficar sangue,
deu-lhe carne de crocodilo podre
e mandou-o passear para qualquer parte,
praia, ilhas, monte, não a prisão de Aipêlo-Tibar
ontem
e ainda há pouco praia de domingo.
Julgo que o enviaram para Aileu a tomar ares
- bom clima...
O melhor foi que as tareias continuaram e
aumentaram
sempre que chegavam as brigadas Che
Guevara
muito senhoras
das poucas cervejas que ainda havia, das
galinhas, dos porcos
que os timores locais lhes entregavam atónitos,
dizendo para si: Os Portugueses voltaram?
Até parecem administradores malais
(quero dizer, portugueses chefe de posto,
secretários, administradores, enfim a
cafreada do costume)
e quando lhes não chegava a paparoca (às
brigadas)
sobremesavam-se com pudim flan-porrada no
Maggiollo
até o Maggiollo adormecer, cair de sono.
Grandes pontos estas brigadas «cubanas» da
FRETILIN !

O que se passou, não sei. Não leio jornais. Sei
que o mataram
uns portugueses, como é costume, via timores
educados em Lisboa...
Lembro outro português, Canto Rezende,
morto em Timor-Alor por outros traidores iguais
a estes,
poucos mas muitos e chega dizer basta!
e eu não acredito.
Desculpem o tom displicente do relato.
A história repete-se, já estou habituado e o
hábito é canja!

Maggiollo Gouveia foi morto de joelhos, a tiro
(«Grande condestabre, alma pura e bela!»),
de joelhos, de pé
(de pé ou sentado, tanto se me dá).
Rezava a Nossa Senhora de Fátima
(segundo o testemunho-carta-idóneo do
Bispo de Díli, D. José-Joaquim). Depois de
assassinado disse: Atirem!
Rezava a Jesus Cristo-Portugal!

Não fui prolixo, apesar de tudo.
Continuo farto, à boca cheia.
No poema, considero os fins,
não os efeitos fáceis da mistura.
Eu não quero literatura, eu quero poesia,
igual ao livro, eu quero mudar a vida!
Como é bom assim...
Foi tudo escrito ab initio in illo tempore...
do sacrifício de Abraão...
seu filho lsaac... pelo realizador
de um filme célebre – TRAGÉDIA EM TIMOR.

Farto, farto, farto,
é(?) fardo que pesa, uma maravilha de fato.
Pareces um S. João Baptista, coberto de
andrajos!
E peço desculpa à Mãe de Maggiollo Gouveia.
E estou de rastos, não sei soluçar... Agora digo.
Não te conheço, mas sinto-te
ó Senhora Mãe, para que me entenda!...

Búfalos, búfalos, búfalos...
Matem-nos, imolem-nos... Antes matar búfalos
do que matar homens.
Eu sou agrónomo-etnólogo, conheço
o poder puríssimo do sangue.
Quero dizer: lava e polui.
Polui, mas estruma e depois lava-se no sangue
puríssimo...
Mas 100.000 mortos homens-búfalos, basta, já
chega, não matem mais! Bastavam dois,
uma dúzia ou... nenhum.

Maggiollo Gouveia é o meu retrato.
Sou filho e J. C. de Jesus Cristo.
Se os Timores quiserem outra vida que, como é
sabido, lhes substitua um búfalo,
ofereço-me.
Eu já escrevi em Uma Sequência Timorense,
livro esgotado há muito tempo:
Os Timorenses só terão razão
quando me matarem.
Tudo isto nas barbas de outro governador
ou bode, «voceliço», o que quer seja.

Repito, repito, repito:
Não vou, não vamos, não vou dar gritos
selvagens
- Vingança! Viva Portugal!
O meu perdão é outro (fora a vingança).
Timor perdido para Portugal, que não é política,
a de antes e depois do 25 de Abril,
nobre Povo!...

A minha amiga Fulana telefonou-me:
Tu não escreves poema ao Maggiollo?
Eu disse: Não! Há coisas que me irritam,
assim a noite estúpida e eufórica,
assim a morte estúpida ou empírica
de um passarinho pelo capricho de intuitos de
criança
(essa inocente), o resultado o mesmo.
Os mortos não me interessam.
Os heróis não me interessam.
Interessam-me os que não querem nem pensam
em heroísmo.
Se fosse Burton: A Man for all Seasons...
Explico - Arcebispo de Cantuária e Tomás
Beckett...
Seria bispo em Timor-Díli.
Diria, como D. José-Joaquim, bispo de Timor-Díli,
afinal disse,
atirando as patas ao «voceliço»:
Honra de Timor, dos Portugueses, senhor
governador!
Não vou com V. Exa. para Ataúro. Eu fico!

Eu, Ruy Cinatti, diria:
Honra de Timor, de Portugal,
o que vem a dar ao mesmo,
eliminados alguns...

Quanto, a heroísmos, lembro St. Exupéry,
Terre des Hommes - poderia ser Terra de
Timores:
«Et Je poursuivis mon voyage parmi ce peuple
dont le sommeil était troublé comme un
mauvais lieux. Il flottait un bruit vague fait de
ronflements rauques, de plaintes obscures,
du raclement des godillots de ceux que,
brisés d'un coté, essayaient rautre. Et
toujours cet intarissable accompagnement
de gallots retournés par la mer».

Recuando um pouco,
Inspiro-me em(?) St. Exupéry, antepondo
qualquer coisa pouco mais ou menos.
O que me interessa não é a merda que há neste
poema,
mas em cada um de nós homens um Maggiollo
assassinado.
Agora St. Exupery, o autêntico
(com todos os enganos de tradutor-traidor, esse
desgraçado...):
Só o Espírito, soprando no fio da Espada pode
criar o Homem.
Seul l’Esprit, s’il souffle sur la glaive, peut créer
l’Homme.

Prefiro a Espada (sou feito de barro, greda,
como é costume)
sobre a geada gélida e vidro argênteo, um lírio
azul roxo divino...
E que ninguém ouse servir-se, servindo
caminhos ínvios, conhecidos,
servindo neste poema os seus ilegítimos
interesses íntimos...
Maldito! - direi como João, o Evangelista,
apocalíptico profeta do Amor!

IN - Pública nº. 377 / 17/08/2003
Jornal PÚBLICO 4896


O Interregno está para Ruy Cinatti
como o poeta para a Poesia .

quinta-feira, agosto 18, 2005

O Império debaixo do tapete

Se em vez das "Otas" o Governo decidir fazer uma ponte, por exemplo, de Angola para a metrópole, perdão, Portugal -- vêm todos, menos o governo (!) de lá! Depois, se experimentar fazer qualquer outra ponte de uma das outras antigas colónias, na mesma direcção, vêm também todos, incluindo alguns governos!
Claro que existe uma experiência, ao nível das obras públicas, que o nosso governo não deve arriscar fazer -- refiro-me a uma ponte sobre o Atlântico, seguindo a rota de Cabral, porque atendendo à paradoxal atitude dos brasileiros, que votaram no Lula mas não querem viver com ele (!), a esperada afluência, poderia afundar (por causa do peso) o nosso País !
Bem, mas deixemos de lado este plano megalómano de obras públicas, até porque é perigoso dar ideias a este governo, e regressemos à nossa realidade.
Apesar de não haver pontes, o Império ultrapassa bem essa dificuldade e todos os dias se encaminha para as nossas fronteiras e lá vai arranjando lugar em casa de um familiar, de um amigo, de um amigo de um amigo, porque não é impunemente que convivemos juntos durante quinhentos anos!
É assim, que onde quer que vamos, para onde quer que olhemos, por toda a parte, o Império está aí, à nossa volta e só é estranho que políticos, economistas e os génios que temos em diversas áreas, não reparem nisso, que isso não entre nas análises, nas contas, no déficit?!
A verificação óbvia que ninguém quer fazer, ou que ninguém quer ser o primeiro a fazer vai contudo sair-nos muito cara, e quanto mais tempo demorarmos a enfrentar a situação, pior.
Claro que esta "distracção" tem razões que a razão conhece muito bem:
A má consciência da descolonização, os povos que abandonámos à sua sorte, apressadamente, em terras longínquas ou no meio do Atlântico, pesa-nos como um fardo! Na "Europa", para onde nos refugiámos, contávamos esquecer o passado, fazer vida nova, e explorar convenientemente essa grande "descoberta" de Abril -- somos um País europeu! ! !
Só que Portugal está onde sempre esteve, até porque a geografia não é coisa que se mude facilmente, e ainda que queiramos esquecer o passado, este, nunca se esquece de nós!
Por isso, o magno problema que temos que resolver, se calhar, o único e decisivo problema que temos que enfrentar, onde se joga a nossa independência... é o mesmo de sempre -- que estratégia de relacionamento vamos ter com as "colónias", "ex-colónias" ou "palop", e aqui o nome é indiferente!
Disto é que temos que falar abertamente !
Entretanto, vamos empurrando o assunto para debaixo do tapete...

terça-feira, agosto 16, 2005

A estação do fogo

É indiscutivelmente a nossa "silly season", ano após ano, com data marcada e temperatura a condizer, esta apoteose pirotécnica ameaça transformar-se em cartaz turístico (mais um) deste país de eventos! Imagino o slogan: "não se fique pela praia, vá ver os fogos florestais em Portugal"!
O pior é que já não são só fogos florestais, é onde calha! Uma forma larvar de terrorismo, toma o pulso ao país, infiltra-se e vai avançando sobre a inércia e a incapacidade dos governantes, apenas preocupados com a sua imagem e a do partido a que pertencem.
Sabe-se que os regimes não morrem de morte natural, preferem suicidar-se, e valha a verdade que já vi isto mais longe... mas como português, não posso assistir indiferente à destruição, à desgraça e ao pânico generalizados enquanto o primeiro-ministro anda a caçar ou a ver caçar leões, ainda que autorizado pelo ministro Costa!
Aliás, estas férias de Sócrates, quatro meses depois de tomar posse e dois meses depois de ter aumentado os impostos aos portugueses, são simplesmente incompreensíveis, para não dizer outra coisa!
Quem não meteu férias foram os incêndios e os bombeiros, que dia e noite, fazem os impossíveis para conter uma situação, que temos que admitir, já está para além de qualquer controle.
Pois é, isto já não vai com "prevenções" e mais dinheiro para as "prevenções". E também não vai com mais "eficácias" no combate aos incêndios e mais dinheiro para as "eficácias", porque assim não há dinheiro que vede!
Precisamos de uma revolução, de preferência tranquila, mas que não tenha medo da palavra revolução! O regime republicano que despovoou o interior, que aniquilou a agricultura e a pastorícia, a troco de madeira e pasta de papel para a indústria (afinal para arder!), não tem quaisquer condições, nem sabe, como reverter a situação.
De facto - quem acantonou a população no litoral, a viver em sanzalas de cimento armado, à volta de Lisboa e Porto; quem não percebe que Portugal era um país habitado em toda a sua extensão, que tinha matas, tapadas, soutos, montados e pinhais na orla marítima, mas não é um país florestal nem amazónico; quem está em vias de reduzir o território continental a uma ridícula "república litoral portucalense" - não pode continuar a dirigir os nossos destinos.
Está na hora de uma drástica lei de "condicionamento florestal" que limite severamente a área do pinheiro bravo e eucalipto com destino à indústria.
Está na hora de convocar o exemplo de Sancho I, o Povoador!
Está na hora da colonização interna e recorrer, se for preciso, à lei Fernandina das sesmarias !
Está na hora de recomeçarmos (e reconquistarmos) Portugal.

segunda-feira, agosto 15, 2005

Comunicações em rede

O que é que a miúda foi dizer?! Não se faz!
Então ela não sabe que todas as repúblicas têm umas quantas empresas ou “sítios” para encaixar os filhos, mulheres, irmãos e outros adesivos da nomenclatura?! Então ela não leu as regras do jogo?
Bem, mas aproveitemos a miúda enquanto não estiver ligada à rede!
Primeiro que tudo, vamos esclarecê-la, porque é jovem, e está naquela fase impulsiva em que “remata para onde está virada”:
A “cunha” tem uma função social, a saber – permite que os menos dotados pela fortuna (leia-se natureza) possam chegar onde chegam os ases! É esse factor correctivo que explica, por exemplo, o preenchimento de uma série de cargos públicos por notórios incapazes, reequilibrando assim o que estava desequilibrado! E não deixa de ser justo, diga-se.
Entendido isto, vejamos agora onde é que a miúda falhou rotundamente e revelou, ao mesmo tempo, uma indisfarçável disponibilidade para aceder (também tu, Joana?!) ao funcionalismo público:
Ela não se lembrou, nem questionou, porque é que tão talentosos “rebentos”, verdadeiros génios, filhos de génios, estavam ali estacionados, com os seus brilhantes curricula, numa empresa feita e mais que feita, quando o País precisaria das suas capacidades para novas iniciativas, novos empreendimentos, enfim, novas Índias!!!
Mas não, os fifis já nascem com aquela irreprimível vocação para o serviço público ou semi-público, e não há nada a fazer!
Aliás, bem vistas as coisas, esta é uma verdadeira vocação nacional e portanto só me resta despedir de Vexas., lembrando que os monárquicos têm desde longa data uma ideia muito concreta sobre este assunto: - nós sustentamos de bom grado uma família portuguesa (a Família Real) precisamente para não termos que sustentar a miríade de famílias republicanas que invariavelmente se fixam à mesa do Orçamento de Estado!
Sem mais, subscrevo-me atentamente.

sábado, agosto 13, 2005

Entre o épico e o hípico

Quando a última "incursão monárquica" chegou a Cacela, no sotavento algarvio, estava reduzida a dois homens - tio e sobrinho!
Corria o ano de 1975, a coberto da noite, dois vultos aproximaram-se da velha Torre do Bispo, uma quinta em ruínas à saída de Vila Nova de Cacela, onde então habitava "António da Torre", nome poético do nosso contacto no Algarve!
O velho monárquico, rijo nos seus oitenta anos, recebeu-nos a meio da escada, com um candeeiro a petróleo na mão, e confesso que aquela cena, tão recuada no tempo, instalou momentaneamente alguma dúvida sobre o sucesso da causa?!
Mas a saudação espontânea e surpreendente, trouxe-nos de novo a certeza de que era quem procurávamos :
- Como estão os meus ex-futuros amigos?
António Drago, advogado de profissão, mas sobretudo advogado do seu semelhante contra as inclemências da sorte ou da política, era conhecido em todo o Algarve, de sotavento ao barlavento, e dele se dizia que era "um homem cheio de partes", tradução para algarvio de "homem das arábias"!
Não precisava de usar documentos ou dinheiro, não tinha carro, e ainda dava "as suas ordens” à população, no largo da Vila ou na Praça do mercado! Isso mesmo constatámos nós, no dia seguinte, quando se tornou necessário ir a Faro para contactar potenciais candidatos monárquicos.
A presença e os conhecimentos de António Drago eram fundamentais e por isso pedimos-lhe que fosse connosco. Sem hesitar, olhou em volta e chamou:
- Ouve lá "Manel", aonde é que vais? -"Vou almoçar, Doutor, que se faz tarde!" - Não vais nada! Almoças comigo! - Precisamos de ti e do teu carro para irmos todos a Faro!
Resignado e com um sorriso de compreensão, o "Manel", que não tinha nada a ver com as "nossas monarquias", limitou-se a repetir - "Se o Doutor diz que é preciso ir a Faro, vamos a Faro!" E fomos!
Mas a "história" que a memória se recusa a esquecer, aconteceu quando António Drago, na força da vida e das conspirações, foi detido, mais uma vez, para averiguações !
No Posto da Guarda, o Comandante, querendo inteirar-se sobre as suas "ligações perigosas", encaminhou a conversa para o nome de Mouzinho de Albuquerque!
Ora, este Mouzinho de Albuquerque, provável descendente do herói de Chaimite, (o que aprisionou o Gungunhana), era ao tempo, oficial do Exército e cavaleiro olímpico de nomeada, tendo inclusivamente conquistado para Portugal uma medalha de bronze na Taça das Nações de hipismo!
Fosse pelo que fosse, o Comandante da Guarda insistiu na ligação e perguntou-lhe:
- Doutor Drago, o senhor conhece o Mouzinho de Albuquerque?
António Drago, de imediato, lança a dúvida fulminante:
- Qual deles? O épico ou o hípico?
O Comandante da Guarda, assim desarmado, rendeu-se... com um sorriso!

terça-feira, agosto 09, 2005

"Naming rights"

A expressão assusta pela densidade mas traduz-se bem. Quer apenas dizer: "as mil e uma maneiras de vender o bilhete de identidade" !
Esta recente "descoberta" da engenharia financeira, fruto directo de uma união de facto entre a "alta gestão" e a publicidade, acaba por ser o resultado de inúmeras e aturadas experiências à volta de um dogma da ciência que, finalmente, ganhou outra clareza: "nada se perde, tudo se vende" ! ! !
Mas lamento desiludir a ciência, porque esta “descoberta” já é prática generalizada entre a marginalidade, nomeadamente para evitar uma "ressaca" eminente.
De facto, para arranjar a verba em falta, o pressionado cliente, resolve a questão através de um acto comercial bastante simples: vende o bilhete de identidade a um desses muitos imigrantes que do Mundo se dirigem para as "obras públicas portuguesas" !
Mal sabe ele que esse seu gesto tem uma componente de serviço público, pois alivia os guichets do Serviço de Estrangeiros e possibilita ao mesmo tempo que no Zaire ou no Biafra alguém possa receber o conhecido "rendimento mínimo de reinserção", com todas as vantagens universais inerentes! Excepto para o deficit, claro!
Seja como for, a "descoberta" está a ser devidamente implementada, e com aplauso geral, pelas luminárias que dirigem Benfica e Sporting, enquanto Pinto da Costa resiste!
No Benfica equaciona-se para já vender o nome do Estádio e desenvolvem-se esforços para convencer a águia "vitória" a aceitar uma vantajosa troca de identidade.
Sem querer imiscuir-me, atrevo-me a sugerir, para a águia - "caixa geral de depósitos" e para o padrinho - "idiota".
No Sporting, o "naming rigts" fica-se por enquanto pelas portas e portões, mas pelo ar triunfante de Dias da Cunha, o próprio Título do Visconde está em risco!
Eu sei que a Invicta não gosta de vender a alma seja a quem for, mas apesar de tudo, sugiro daqui uma pequena vingança, em nome da febre dominante que ameaça reduzir tudo a patacos: lembram-se da célebre louça sanitária do Estádio das Antas, que o Fisco resolveu penhorar?
Pois bem, sugiro que a troco de uma renda a combinar com o respectivo ministro, a citada retrete entre para a História com o nome de - "ministério das finanças e do plano" !
Esta ideia de troca permanente de identidades, longe de confundir, dizem os percursores que clarifica imenso a imagem do planeta e também a deste "jardim à beira mar plantado", e já nem me aventuro chamar-lhe outro nome, pois existe sempre a probabilidade de estarmos a preparar algum bom negócio...
Eu próprio estou tentado a mudar de nome para ganhar uns cobres e não me importaria nada que me passassem a chamar João da PT, enquanto não conseguisse despachar o João!
E não havia confusão nenhuma, já que os íntimos podiam continuar a tratar-me pela alcunha!

sexta-feira, agosto 05, 2005

As sociedades infantis

Quando a república exorbita da representação do efémero e se arvora em sistema totalitário, está instalado um regime deseducativo, inevitável fabricante de sociedades infantis, ou imaturas, para ser mais subtil.
É o que acontece entre nós.
E não é necessário desenvolver grandes teorias ou raciocínios complicados para demonstrar esta evidência, já que as manifestações pueris são tais e são tantas que só os próprios não as admitem, como também é norma nas crianças.
Comecemos pelo símbolo, que não engana - uma mulher de seios generosos, que diz tudo sobre a idade da população, as suas carências e até as deficiências ao nível das proteínas!
Mas há mais: a irresponsabilidade assumida na expressão frequente – “eles lá sabem" ou "eles é que mandam", etc.
A orfandade ao canto do olho, que espera ansiosamente, não pelo pai que o complexo de Édipo cegou, mas pelo padrasto que deixou saudades!
Sinal deste desespero infantil vimo-lo ainda há pouco tempo quando fugimos todos, em debandada, do papão comunista e nos atirámos para o colo da União Europeia!
Enfim, a aspiração perpétua de que alguém tome conta de nós...
Desagradável mesmo, só para quem nos visita e é apanhado de surpresa neste Portugal dos pequeninos que vai fazendo a sua vida entre o recreio e a creche !
Directamente da creche vêm os telejornais da televisão pública com a obrigatória visualização de todos os jogos do Benfica, de todos os treinos, acontecimentos no balneário e outras intimidades! Segue o Sporting, na mesma dose! E finalmente, por descargo de consciência, dão qualquer coisa do Porto !
Ou não fosse o futebol um "'desígnio nacional", na feliz expressão do Presidente deste País de juniores !
A programação infantil encerra com uma espécie de papa nestlé chamada contra-informação, para ver se a gente bolsa aquilo tudo!
Existem outros aspectos da deseducação permanente e da consequente impossibilidade de crescermos, mas penso que hoje, é melhor ficarmos por aqui. Lembro apenas a alteração em curso do célebre lema: cresce e aparece - em português actualizado, quer dizer:
- Não cresças, para aparecer!

quinta-feira, agosto 04, 2005

Os árbitros...

Portugal tem indiscutivelmente um sério problema de arbitragem!
Todos os dias, em todos os jornais, todos os comentadores, políticos ou não, e também nos adeptos, de todos os clubes, de todos os partidos... uma única palavra acode à ideia e é a chave de todos os enigmas, a porta de todas as esperanças, e porque não dizê-lo, de todas as vitórias – o ÀRBITRO!!!
O resto não interessa para nada!
Colocado assim, nesse cume de expectativas, nessa fronteira entre o ser e o não ser, não admira pois, que todos e cada um queiram ter ao seu alcance, do seu lado, a seu favor, essa mítica criatura que depois de finalmente escolhida, passa a ser amada por uns e odiada por outros!
Antes porém, temos que assistir a esse espectáculo verdadeiramente educativo do – nomear, propor, apalavrar, desnomear, contratar, achincalhar, renomear, e finalmente, garantidas as espingardas, vestir a criatura de preto e pôr-lhe um apito na boca!
Espera-se então que a “independência em pessoa” apite bem... de preferência a favor de quem o nomeou, perdão, elegeu!!!
E a malta gosta?!
Ao menos assim, sempre podem gritar “fora o árbitro”!...
Mas só gritar!

terça-feira, agosto 02, 2005

Vasco e os antepassados

Lê-se bem! E já o ouvi, há muitos anos, dissertar sobre o seu tema preferido – o século dezanove português!
Lembro-me, que desconsiderou todos os empresários do liberalismo e a ideia de que o País é uma “choldra” já habitava o seu espírito!
Hoje está mais lúcido e entusiasmei-me quando levantou, ainda no DN, a questão do regime! Ingenuamente, pensei estar a referir-se à alternativa monárquica e recortei o bocadinho do jornal!
Recentemente, no “Público”, escreveu dois artigos brilhantes, o último dos quais intitulado – “ O Pântano Português” – onde analisa com rigor a índole e os defeitos dos portugueses! E tenho que concordar que os defeitos estão lá todos...
E as virtudes?
Vasco Pulido Valente desconfia dos contemporâneos e sobretudo não gosta dos antepassados!
Os nossos avós, bisavós, trisavós, etc., deviam ser ingleses, segundo Valente! A Igreja Católica, é uma fonte de obscurantismo! O Estado, é o lugar do arbítrio! E conclui: “... o Liberalismo, a Republica e a Ditadura não mudaram, neste capítulo, nada de essencial.”
A própria situação geográfica do País, também não é famosa, acrescenta Valente! Mas aí todos concordamos que não há nada a fazer!
Portanto, descobrir virtudes neste “deserto” é complicado!?
Vasco Pulido Valente quase que me convenceu... estou de rastos e sinto-me uma nulidade, descendente de portugueses!
Mas vou reagir e corrigir: – apesar do Liberalismo, da 1ªRepublica, da Ditadura republicana (2ª República) e já agora, desta 3ª República, o povo português tem conseguido manter a sua religiosidade, alguns valores históricos e ainda tem vontade de continuar Portugal!
O Liberalismo, introduziu no País um sistema político importado, que só se conseguiu impor pela força das armas! O regime aprisionou o Rei atrás das grades de uma constituição anti-portuguesa, e quando o soberano, em legítima defesa da Pátria, tentou libertar-se, foi assassinado!
É a partir do Liberalismo que a distância para os outros Países da Europa se acentua!
A subsequente República, em qualquer das suas três versões – é o desastre!
O traço de união entre o Liberalismo e a República é que ambos os regimes se constituíram e impuseram contra os alicerces da Pátria que já levava quase oito séculos de História verdadeiramente singular!
Oito séculos que consubstanciam a razão de ser português e de ser Portugal.

Mas que ninguém se iluda!

A História das Nações é uma coleccionadora muito selectiva!
A concorrência é feroz e não perdoa a ninguém!
As Pátrias independentes, são-no porque prestam um serviço universal melhor que outras candidatas!
Portugal ainda é uma estrutura de serviço necessária ao concerto das Nações e as suas qualidades e capacidades todos os dias se revelam!
As nossas “elites” pensantes é que andam distraídas ou então têm graves problemas de auto-estima como Pulido Valente!
Precisamos de nos reconciliar com os nossos avós que não tinham vergonha dos bisavós!
Depois tudo se torna mais fácil!
A História ainda não desistiu de Portugal e continua à nossa procura!

sábado, julho 30, 2005

Quem vai nu?

Ninguém repara nisso?
Não é evidente?
Rei e Presidente?
Quando se encontram?!
Numa fotografia?!
Em qualquer recepção, oficial ou não?!

Nos Açores, por exemplo?
Ou em qualquer parte?

Rei e Presidente! É sempre diferente!
Um degrau os separa!
Um pormenor, cada vez maior!

O Rei nem precisa de falar, de explicar,
basta-lhe ser e estar!
E representa tudo,
de cima abaixo,
da esquerda à direita,
de trás para a frente!

E ao Presidente?!
Falta qualquer coisa!
Por mais que se esforce, não tem dimensão!
Representa a metade de um momento da Nação! ! !

Podia lá estar o nosso primeiro.
Eis a questão!
Estamos a mais e estamos a menos !
Somos duplicados,
inutilmente,
sem razão!

Ali, nos Açores,
com o dono ausente,
O Presidente,
Feitor deslocado, mostra os limites,
Coitado!
E vai repetindo,
- Sou um seu criado !

Por mais Otas que faças
Por mais Tegevês que ligues,
aqui ou ali,
A centralidade não muda.
Do que aprendi,
e sei!
Nem sequer é Madrid,
É o Rei !

A tua centralidade é atlântica
E foi construída a duras penas...


E se mesmo assim,
Não queres ver!?
A alegoria a saber:
Não é o Rei que vai nu,
És tu!

sexta-feira, julho 29, 2005

A última guerra púnica

Quem é que esperava por esta?
No início do século XXI, assistir ao vivo, neste canto da Península, a um último combate entre o romano Mário e o cartaginês Aníbal?
Nem na Playstation, digo eu?!
Entretanto, “os dados estão lançados” e como na tradição, Roma vai ganhar. Mas será muito interessante tentar adivinhar que surpresas bélicas apresentará Aníbal?!
Quais serão os seus “elefantes” desta vez? Que momentaneamente poderão confundir o Império? Que ardis utilizará?
E se tiver uma pequena hipótese de destruir o adversário, será que numa nova hesitação, se perderá por Cápua?
Curioso, é que como antigamente, romano e cartaginês representam mundos e ideias sobre o mundo diferentes! De novo, a continentalidade de Mário a opor-se à brisa marítima que o descendente de Ulisses inevitavelmente transporta!
E a nós portugueses essas diferenças não serão indiferentes!
A raiz ou a viagem, eis a questão?
Para os indecisos, segue a citação de um poeta...

Temos ideias gregas e ruínas romanas
Fernando Pessoa

quinta-feira, julho 28, 2005

O último cartucho

Está prestes a ser disparado! Soares vai ser candidato! “Abril” atira a carne toda (e os ossos) para o assador!!!
Porquê tanto desespero? Que já nem poupa os velhinhos?
Que algo de terrível poderá ou poderia acontecer se o Professor Cavaco ganhar ou ganhasse as eleições?
A tal arbitragem ou o tal poder moderador correriam assim tantos riscos se o circunspecto professor de finanças ficasse com o apito na boca?
O que descobriria ele? O que destaparia?
Perguntas e mais perguntas que só o futuro e os resultados eleitorais poderão dar alguma resposta.
Para um monárquico, que nunca votou nem votará numa eleição para a Chefia de Estado, este assunto não deixa de ser preocupante, e neste caso, pelo que revela de “fim de festa”, assume ainda contornos mais dramáticos!
Os ciclos republicanos são sempre iguais e encerram-se sempre da mesma maneira – recriminações, desculpas, irresponsabilidades, saneamentos, violências várias e quando acaba o dinheiro, ainda pior...
Portanto, a questão entre Cavaco e Soares, para mim, não é saber quem ganha, mas saber se o vencedor terá a coragem e o despojamento para propor o fim do interregno português?!
É por isso que não posso terminar sem relembrar, mais uma vez, a clarividência patriótica de Henrique Barrilaro Ruas: “... apenas desejo que os Portugueses não tenham de sofrer muito mais desastres e desilusões antes de se convencerem, por um acto sereno de inteligência, que tudo quanto é autenticamente republicano tem lugar em monarquia”.

O Governo Sombra

Quando um Governo sombra sobe ao Poder deveria, em coerência, manter-se na sombra, e tentar passar despercebido!
Mas este, como insiste em “governar”, está a revelar-se perigoso para a saúde dos portugueses e, como agora se verifica, para os nervos dos próprios governantes!
O Ministro das Finanças não resistiu, meteu baixa!
O Ministro Freitas, decididamente, não é homem para andar na sombra!
Desnorteado, não apenas do ponto de vista cardeal, abriu o livro e desatou a disparar em todas as direcções?!
O Ministro Costa, bombeiro sombra deste Governo, anda desesperado a tentar controlar os fogos que lavram no País real e as fagulhas que de quando em vez, irrompem da Casa Pia! Os outros Ministros não se sabe onde estão! Provavelmente continuam na sombra?!
Falta o primeiro?! O primeiro-ministro sombra, que ficará na história como o governante mais silencioso do planeta, no seu tempo!
A táctica do silêncio é aliás, o seu grande argumento! Não abrir a boca para não sair asneira, é a sua divisa.
E é um homem de sorte, a comunicação social que temos, gosta dele e trata-o nas palminhas! As notícias são sempre boas, as derrotas são pequenas vitórias e quando não é possível ignorar o desaire, viram-se para o líder da Madeira, e pronto!
O Presidente deste País sombrio... nem um pio!
Mas sem sombra de dúvida que temos que tirar alguma ilação de tudo isto!?
Para memória futura, recordamos que este é o Governo que subiu ao poder através de um “golpe de Estado comunicacional”!
Partindo da cabalística expressão “trapalhada” e com o beneplácito da “nomenclatura”, a nossa comunicação social resolveu aniquilar o anterior Governo para pôr no seu lugar este “competentíssimo” grupo de homens sombra!
O resultado começa a estar à vista de todos e as sombras da nossa imaginação começam a perceber o nervosismo que se apoderou de tanta gente, face à perspectiva de aceder à Presidência da República um antigo governante, que pode ter todos os defeitos, menos incompetente!
Aguardemos os próximos capítulos deste romance genuinamente português...

sábado, julho 23, 2005

O dia da Independência

Não serão quarenta os conjurados, nem sequer serão conjurados!
É um pequeno grupo de patriotas! Na sua maioria, Republicanos!
Sabem que a Pátria corre enormes riscos pelo Erro, pelo nó cego que a enreda!
Sentem-se responsáveis, cabe-lhes desfazer o nó e o erro!
Seguem unidos – o exemplo de Egas Moniz inspira-os!
Reconhecemos alguns – lado a lado, monárquicos de sempre, veneráveis, antigos carbonários, um provável bisneto dos regicidas!
Quebram juramentos, esquecem diferenças, pensam nos filhos. A terra onde nasceram, que ainda receberam livre e independente, por mais sofismas que inventem, está à mercê de qualquer tirania!
Os Pais da República vão à frente, indicam o caminho. O seu destino é o Paço!
Pedem ao Duque de Bragança que assegure a continuidade da Pátria!
Este não hesitará!
Na Homilia do dia, o Patriarca dirá aos fiéis que nesta hora grave para os destinos da Comunidade os Portugueses estão outra vez reunidos! Podemos ter esperança!
A História registará a data acrescentando um painel ao célebre Políptico.
O longo Interregno terminou!
Portugal terá futuro!

terça-feira, julho 19, 2005

S. A. o Duque de Bragança ao Semanário 'O Independente'.

O Interregno transcreve, com a devida vénia, a entrevista de Sua Alteza o Duque de Bragança, concedida ao Semanário ‘O Independente’ no dia 15 de Julho p.p.

D. DUARTE

É UM MONARCA SEM TRONO. EM TEORIA, ACEITA QUE A REPÚBLICA É UM REGIME MAIS DEMOCRÁTICO.
MAS ACREDITA QUE NA PRÁTICA AS MONARQUIAS FUNCIONAM MELHOR. O DUQUE DE BRAGANÇA NÃO TERIA DEMITIDO SANTANA LOPES, DEFENDE A LEGALIZAÇÃO DA PROSTITUIÇÃO, NÃO CONSIDERA JUSTO QUE AS MULHERES SEJAM CONDENADAS PELA PRÁTICA DE ABORTO E ENTENDE QUE OS BOMBISTAS SUICIDAS SÃO TUDO MENOS COBARDES.


«Sinto-me rei dos portugueses»

Quando tem de preencher um impresso o que coloca no espaço reservado à profissão? – Normalmente, agricultor. Ou então administrador da Fundação D. Manuel II. Geralmente prefiro a primeira. Acho mais interessante.

É da agricultura que vem a principal fatia dos seus rendi­mentos? – Não. Ultimamente até tem dado prejuízo.

De onde vêm então os seus proventos? – Uma parte vem das propriedades da minha mãe no Brasil. Juntamente com os meus tios, somos proprietá­rios de muitos terrenos na cidade de Petrópolis. E tam­bém tenho feito trabalhos de consultoria para algumas empresas exportadoras. Mas tenho uma vida simples. Gasto apenas o estritamente necessário para cumprir as minhas obrigações. O desperdício é um erro. O último carro que tive durou 20 anos. Agora tenho um Volkswagen Sharon e espero que dure outros 20.

Como é o quotidiano de um rei sem trono? – Administro as minhas coisas e acompanho os filhos nos estudos e noutras actividades. Depois há muitos convi­tes que tenho de aceitar e que implicam deslocações dentro e fora de Portugal. Agora estou também a pre­parar um livro sobre a minha vida.

Sente-se rei de Portugal? – Não. Mas, em certa medida, sinto-me rei dos portu­gueses.

Em que sentido? Tenho um dever para com o país. Se os portugueses me quiserem, aceito as minhas responsabilidades políti­cas. Se não quiserem, ou não puderem exprimir-se, assumo da mesma forma os meus deveres morais, cul­turais e sociais.

Gostava de ser rei? – Gostaria de poder fazer mais por Portugal. E, como rei, teria muito mais possibilidades de ser útil ao país do que na minha situação actual.

É um sonho? – Não. Sinto apenas que o país tem essa necessidade. Os portugueses estão órfãos de Portugal. Não sabem para onde vai o seu país, sentem-se perdidos e desorienta­dos. Perderam a fé na democracia.

Acredita que Portugal voltará a ser uma monarquia? – Era muito útil para o país se isso acontecesse. Mas tudo depende da evolução da nossa democracia. Neste momento é imatura. Os portugueses são tratados como crianças incapazes de decidir sobre o seu futuro. A pro­va disto é um artigo na Constituição que diz que "a for­ma republicana de governo é inalterável". Devia alterar-se para "forma democrática de governo". Muitas das repúblicas que há no mundo são ditaduras ou demo­cracias insuficientes. E, por outro lado, quase todas as monarquias têm regimes democráticos avançados.

Há países monárquicos em que as coisas não funcionam bem... – Há, de facto, algumas monarquias árabes, ultra-tradicionalistas, que estão muito longe do que entendemos por democracia. Mas em África as monarquias fun­cionam melhor do que as repúblicas. No Sudoeste Asiático, a Tailândia é certamente um dos países mais democráticos da sua região. O Japão é muito mais democrático do que a China...

Por que motivo uma monarquia parlamentar há-de funcionar melhor do que uma república? – Só há dois motivos válidos para se ser republicano. Um é acreditar que é indispensável um poder presidencial forte. O outro é querer ser Presidente da República. Todos os parlamentos funcionam melhor com um rei, porque não há conflito de poderes. Nunca um rei demi­tiria um governo com maioria parlamentar.

Não teria demitido Santana Lopes? – Nenhum rei o teria feito. Todos os primeiros-ministros dos países monárquicos dizem que os reis são uma grande ajuda para o seu trabalho. Têm uma influência discreta mas muito positiva. Em Portugal não há um só governo que tenha gostado do relacionamento com o Presidente da República.

Porque razão um rei nunca demitiria um primeiro-ministro? – Porque o rei respeita o Parlamento e considera que os deputados estão ali em representação do povo.

Santana Lopes não tinha sido eleito... – Mas tinha maioria no Parlamento. Os eleitores votam em partidos políticos. Não se pode demitir um governo apenas porque não se gosta dele.

Foi isso que aconteceu? – O Presidente da República limitou-se a falar dos “motivos que todos sabem”. Os motivos que todos sabíamos eram os comentadores políticos na televisão e nos jornais. Nunca apontou justificações para o que fez. E nem sequer demitiu o primeiro-ministro...

Dissolveu a Assembleia... – O que é pior ainda, porque o Parlamento tinha uma maioria estável. Obviamente que o fez com a melhor das intenções e por acreditar que estava a servir os interesses de Portugal. O que ponho em causa não é esta situação em concreto. É o facto de, numa república, serem frequentes os confrontos entre o governo e a presidência. Isto atrasa o país. Se o próximo presidente, qualquer que ele seja, não for do PS vai acabar por entrar em conflito com o Governo.

Quem gostaria de ver em Belém? – Não posso dizer. Mas preferia um militar. Têm um sentido da dignidade do Estado e de independência em relação às forças políticas que os aproxima mais da tradição monárquica.

Só pelo facto de o rei não ter cor politica os conflitos de interesses com os governos desapareceriam? – O rei limita-se a exercer uma magistratura de influência. Só intervém em caso de emergência, numa situação de caos e desordem generalizada. Nunca interfere em situações de normalidade política.

Então um rei teria muito menos poderes do que o Presidente da República... – Há reis que têm muitos poderes, só que não os usam. Reservam-nos para situações-limite.

Há pouco dizia que gostaria de ser rei para cumprir a sua obrigação para com o país. Reservando os poderes apenas para situações de emergência, como é que poderia intervir na situação actual? – Basta ver o que acontece na Europa do Norte, onde os reis têm uma grande influência cultural e pedagógica. Dão o exemplo através das causas que defendem. Os presidentes também o tentam mas, quando já sabem fazê-lo, acaba o mandato e não podem ser reeleitos.

Qual a razão para os presidentes não poderem ser reeleitos se o povo assim o quiser? – É simples. Os repu­blicanos que elaboraram as consti­tuições vêem um presidente como um potencial ditador. Outra expli­cação pode ser que muitos gosta­riam de ser presidentes e não con­vém que alguém lá fique eterna­mente. A limitação dos mandatos presidenciais é absurda.

Duas das premissas da democracia são a igualdade de direitos e de oportuni­dades entre todos. A monarquia não é o oposto de tudo isto? – Em teoria, a república é mais per­feita como regime democrático. Mas o que interessa no funciona­mento dos Estados é a prática. E os reis, muitas vezes, defendem melhor as liberdades democráticas do que os presidentes. Por outro lado, a sucessão não é automá­tica. O rei tem de ser aprovado pelo parlamento. Os perigos aparentes da monarquia estão previstos e con­trolados pelas leis.

Não pode chegar ao trono alguém manifestamente incapaz? – E o presidente da república pode ser um louco e estar ligado a narcotraficantes. Pode ser completamente inca­paz e ser eleito. Basta que tenha dinheiro e uma boa equipa de publicitários brasileiros. Não há testes psi­cotécnicos para os candidatos a presidente.

Quais são neste momento os principais problemas que Portugal enfrenta? – O primeiro é a falta de raciocínio lógico. No sistema educativo não se treina a lógica, e isso leva a que não se compreenda a importância do civismo. A falta de lógica faz também com que os governantes ainda não tenham definido um modelo de desenvolvimento para o país. Vai variando por modas e por interesses de gru­pos. Continuamos, por exemplo, a estimular a utilização de automóveis quando se devia apostar no transporte ferroviário. Tudo quanto seja desperdício de energia é sintonia de um modelo de desenvolvimento errado.

Falta qualidade à classe política portuguesa? – Há, evidentemente, pessoas sem qualquer qualidade moral que, infelizmente, continuam a ser eleitos para as câmaras municipais...

Quer dar exemplos? – Não é preciso. Felizmente a opinião pública já começa a estar atenta a esses casos. Mas há pessoas manifesta­mente desonestas que continuam a ser apoiadas pêlos partidos. Os políticos, aos poucos, também desacredi­taram o Parlamento, e isso é perigoso para a demo­cracia. É claro que, por todos os governos, também têm passado ministros de prestígio e qualidade.

Costuma votar? – Voto sempre nas eleições municipais e tenho votado nas legislativas.

E nas presidenciais? – Não. Se considero que a instituição está errada não faria sentido proce­der de outra forma.

Vota Partido Popular Monárquico (PPM) nas legislativas? – Não vou dizer em quem voto, mas é importante que haja mais depu­tados que dêem prioridade aos problemas ambientais.

Faz sentido um partido monárquico con­correr a eleições num regime republi­cano? – Durante a monarquia havia um par­tido republicano que chegou a reu­nir sete por cento dos votos e ven­ceu algumas eleições municipais. Mas penso que não é bom identifi­car a monarquia com um partido político. Há monárquicos em todos os partidos.

Nuno da Câmara Pereira, presidente do PPM, diz-se o legítimo herdeiro do tro­no. Como comenta? – Do ponto de vista jurídico e histó­rico não tem base nenhuma. Sempre tive uma boa relação de amizade com ele, até que um dia se zangou comigo por qualquer razão que me escapa.

Que opinião tem dele? – É um excelente artista.

O aborto voltou a estar na ordem do dia. Concorda com nova consulta popular? – Fazer referendos sobre o direito à vida é um terreno muito perigoso. A seguir teremos uma consulta sobre a eutanásia... E quem tem o direito de matar os doentes? O médico, a família, o Estado?

E se for o próprio a decidir sobre a sua vida? – Isso é o suicídio.

Pode haver um desejo expresso... – Nesse caso ninguém se pode opor. Se alguém se quer matar está no seu direito. Não podemos é correr o ris­co de o Estado, aos poucos, autorizar que decidamos sobre a vida de outros.

Ainda sobre o aborto. As mulheres que os fazem devem sen­tar-se no banco dos réus? – Penso que não. É uma decisão difícil, tomada em gran­de stresse.

Então é a favor da descriminalização? – Julgo que as mulheres não devem ser julgadas nem con­denadas. Quem deve ser perseguido são os praticantes do aborto. Os médicos, as clínicas, as abortadeiras... Esses devem ser condenados.

E a prostituição, deve ser legalizada? – Penso que sim. A prostituição é um mal, mas a situação vigente é a pior de todas. É caos, a desordem, a falta de higiene... E, numa sociedade livre, ninguém tem o direito de proibir uma mulher de vender serviços sexuais. Por outro lado, existem muitas formas de pros­tituição que são aceites pela sociedade, como a secre­tária que tem relações sexuais com o patrão e recebe algo em troca. É a mesma coisa.

Nos últimos tempos muito se tem falado das tensões étnicas em Portugal. O que defende em termos de política de imi­gração? – A abertura descontrolada das fronteiras conduz a todo o tipo de situações perigosas, a começar para os pró­prios imigrantes. Quando um povo se sente ameaçado por uma minoria muito afirmativa, como é o caso dos muçulmanos em França, surgem reacções hostis. Em Portugal o problema é que não houve apoio à inte­gração da segunda geração de imigrantes. As crianças de raça negra têm dificuldades de adaptação à escola, problemas de pobreza e de exclusão social. Ou se faz um grande trabalho tendo em vista a sua integração, ou vamos ter muitos problemas no futuro.

Defende que as entradas devem ser controladas. E quem já cá está? – Se têm uma actividade económica e uma posição correc­ta perante a vida, os imigrantes devem ser respeitados. Se se dedicam a actividades marginais e não são portu­gueses devem ser expulsos. Não faz sentido ter margi­nais estrangeiros em Portugal. Já bastam os portugueses.

Na semana passada, em Londres, assistimos a mais um aten­tado terrorista. Esta espiral de violência pode ser vista como um a guerra entre o Ocidente e o Islão? – É, de facto, uma guerra. Faz-me alguma impressão ver certos políticos, com ar de virgens ofendidas, queixar-se da cobardia dos bombistas que se suicidam. Podem ser muitas coisas mas cobardes não são. Só se matam porque acreditam que estão a lutar por uma causa jus­ta. É complicado dizer isto mas nós, portugueses, tam­bém estivemos envolvidos numa guerra terrorista durante dez anos. Uma guerra que ganhámos militarmente mas que perdemos no aspecto político.

Como se ganha uma guerra contra o terrorismo? – Pela via militar é muito difícil. E preciso analisar as cau­sas e atacar o assunto do ponto de vista político. As situações de pobreza e miséria favorecem o cresci­mento do fundamentalismo. Em parte é por aí que se deve atacar o problema. Por outro lado, não podemos deixar pregar a guerra santa entre nós e nada fazer em nome da liberdade de expressão. Não podemos deixar que os fundamentalistas promovam o terrorismo e actuar só depois de as bombas explodirem.

Devemos reprimir essa liberdade de expressão? – Tal como não aceitamos discursos de ódio racial, tam­bém devemos perseguir a promoção da violência e do terrorismo. Temos de pensar que estamos numa situação de guerra e não podemos deixar que as liberdades se tor­nem fraquezas. Felizmente, em Portugal, a comunidade muçulmana é exemplar e muito trabalhadora.

Se neste momento lhe aparecesse o génio da lâmpada que três desejos pedia? – Desde criança que acredito na ideia do Quinto Império. Uma época em que os governantes actuariam sempre com base na Justiça e nos princípios do Espírito Santo.

Faltam dois.

– Impedir que a Humanidade destrua o Ambiente. – E, finalmente, que a minha família consiga ser feliz e ao mesmo tempo contribuir de forma válida para a comu­nidade em que vive.

Essa contribuição passa pela instituição da monarquia em Portugal e pela sua aclamação como rei? – Não é necessário. Pode passar por muitos outros domí­nios da intervenção cívica, social e cultural.

Entrevista> José Eduardo Fialho Gouveia
Fotografia> João Cortesão Gomes
In – "O Independente"
15 Julho 2005

sábado, julho 16, 2005

O Lázaro

O Lázaro sou eu, não foi o outro,
O das migalhas e das chagas podres.
O Lázaro sou eu, aqui sentado
À mesa do Vice-Rei
A mastigar com nojo estes faizões!...
Sou eu, vestido de holanda,
A pregar a nudez que sempre usei
Nas grandes ocasiões!...

Sou eu, nado e criado para amar,
e que não sei amar!
Sou eu, que disse não e me perdi!
Que vi Deus e nunca acreditei!
Que vi a estrada impedida
E passei!...

Sou eu, que não sou feliz no Céu nem no Inferno,
porque no Céu há paz, e no Inferno há guerra,
e a minha Paz é outra, e a minha Guerra é outra...
Sou eu, tão Grande e Pequeno
que nem sirvo para grão
da parábola da mostarda!
Sou eu, que há vinte e sete anos
Vivo sem Anjo da Guarda!

Sou eu, que ou tudo ou nada, ou Vida ou Morte,
E acerto sempre na Morte!
Que espeto sempre o punhal
Onde não quero ferir!...
Que sou assim, às cegas e às golfadas,
como as dores abençoadas
de parir!

Sou eu, que me disse adeus
E fiquei à minha espera!...
E que naquela manhã de ano bissexto
- que podia ter sol e teve chuva –
recebi nestes meus braços
o esqueleto verdadeiro
da saudade amargurada
de quem não tem ausentes nem distâncias!

Sou eu, o louco sem asas
Que se lança aos abismos a cantar
A Canção do Inocente...
E que do fundo desse sonho novo
Atira a praga
Que o traga
àquela redentora incompreensão
do seu povo!...

Sou eu – e mostro-me todo!
Quem puder, arranque os olhos
e venha cheio de Fé
ver o Lázaro real
que não vem nos Evangelhos,
mas é!...

Miguel Torga
in “O outro Livro de Job”

terça-feira, julho 12, 2005

Coutinho contra o Povo

É a minha sina. O DN não me dá descanso! Coutinho está contra o Povo!...
Diz ele, que Avelino Torres e Alberto João Jardim, são parecidos – o Povo (“pimba”, segundo Coutinho) gosta deles, e no caso de Avelino, nem sequer é pela obra?! É mesmo amor verdadeiro – no Marco ou em Amarante!
Mas afinal o que é que os Coutinhos querem?
Não lhes chega ter o Poder Local quase todo indexado aos aparelhos partidários de Lisboa?
Querem a domesticação total?
Bem, nesse caso sugiro que os autarcas passem a ser nomeados como os antigos Governadores Civis!
Assim, está bem?

Noutro registo:
O Interregno é um diário de convicções e por isso não intervém sem abrir caminho.
Miguel Coutinho, jornalista que não conheço, Director do DN, vou tentar explicar-lhe porque é que o Povo gosta de “Avelino e Alberto” como você lhes chamou – o que as pessoas apreciam nesses personagens é a independência que evidenciam em relação aos partidos políticos, precisamente o contrário do que se passa com a grande maioria dos autarcas que você deve apreciar!
Os aspectos menos positivos das suas personalidades, que de facto existem, são irrelevantes. As populações vêem nesses homens o que mais lhes interessa – um vago símbolo de liberdade e independência.
E essa sensação é boa, garanto-lhe.
Se o seu editorial, em lugar de se distrair com questões menores, versasse sobre a independência dos autarcas em relação aos aparelhos partidários, provavelmente você não receberia as pancadinhas nas costas de uns quantos amigos, mas o Povo, as tais populações que sofrem este sistema iníquo, ficavam-lhe agradecidas.
E eu passava a ler mais vezes o Diário de Notícias.

Note:
Juro que não vou passar férias à Madeira (nunca fui, infelizmente) nem a Amarante (uma região bonita).