terça-feira, outubro 25, 2005

"O Fim do Regime"

- Quando aparece alguém a anunciar convictamente o fim do regime, o Interregno interessa-se e amplifica a mensagem, com a devida vénia:

".... O fim do regime

A candidatura de Cavaco Silva à Presidência da República constitui a última hipótese de salvação do regime do Bloco Central mas, paradoxalmente, é também o sinal de colapso desse mesmo regime.

O regime do Bloco Central criado no seguimento do Período Revolucionário em Curso (1974-1975) está em crise em grande parte por causa da máquina administrativa do Estado que criou e multiplicou. Estado esse que já nem tem verbas para se servir a ele próprio, mantendo os salários e as pensões, quanto mais para servir o país. Os últimos governos do PS e do PSD tentaram fazer pequenas adaptações, mas a reforma do Estado sovietizado montado e consolidado ao longo de trinta anos dificilmente se leva a cabo com pequenos remendos.A candidatura de Cavaco Silva pretende ser um factor de estabilidade mas a agenda que de facto defende é de garantir o controle necessário para que se implemente uma urgente instabilidade no aparelho administrativo do país. Todos sabemos que não há outra saída e a candidatura de Mário Soares tem de prosseguir exactamente os mesmos objectivos de reforma do Estado. Aliás Mário Soares já desempenhou esse papel quando, como Primeiro Ministro, permitiu que Ernani Lopes fizesse cortes de 30% no rendimento dos funcionários públicos, mas que agora não temos os instrumentos que a inflação permitia para os implementar.
Em suma, teremos um Presidente da República a fazer as funções de um primeiro ministro popular o que levará a perder grande parte da popularidade com o apoio às reformas urgentes do Estado. E quando as reformas forem implementadas nem teremos Governo nem teremos Presidente da República porque ambos se aliaram a fazer política que nenhum deles quis fazer sozinho.
Imaginem o que será quando a popularidade do Presidente da República descer abaixo dos dez por cento. Será que pede a demissão e o presidente da Assembleia da República assume o poder até novas eleições? Será que os militares intervêm derradeiramente no país instaurando o Presidencialismo, o Parlamentarismo, o Autonomismo ou a Monarquia? Qual será o papel da Espanha, dos Açores e da Madeira?
O Regime do Bloco Central acabou e será um dos seus protagonistas que o vai terminar.
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* Tomás Dentinho
Director de 'A União'
Angra do Heroísmo. ..."

A questão Turca

“Aqui venceremos ou morreremos” – foi a divisa de D. João de Áustria!
A 7 de Outubro de 1571, a armada católica esmagou o turco Ali-Pachá em Lepanto, numa batalha decisiva para a sobrevivência da Cristandade.
Mas a longa tenaz do Islão nunca deixou de apertar. A ameaça que vinha do Oriente não abrandou e manteve-se às portas de Viena.
Metternich, o chanceler austríaco que “travou” Napoleão, quando lhe perguntavam “onde era o Oriente?”, explicava – “O Oriente começa no fim da minha rua”!
O Império Otomano, que durava desde o século XIII, desfez-se enfim, batido pelas forças Aliadas, nas sequelas da primeira guerra mundial. Kemal Ataturk e os seus “jovens turcos”, tentaram então “ocidentalizar” a Turquia e construíram sobre as ruínas do velho Califado, o Estado republicano e laico que chegou aos nossos dias.
Esta breve resenha histórica para situar a questão da actualidade:
Deve a Turquia fazer parte da União Europeia?
A resposta seria simples se houvesse um entendimento comum sobre o que é a União Europeia, que como se sabe não há!
É uma simples associação de comércio livre? É uma Instituição comercial que pretende ter uma política comum? É uma associação política de Estados, que visa tornar-se um Estado federal? É uma regra moral? É uma circunstância política?
Da resposta a esta e outras perguntas poderia resultar uma aproximação ao que se pretende – satisfazer ou compensar os turcos pelos serviços prestados durante a guerra-fria à causa do Ocidente, representada pelos Estados Unidos.
Aliás as posições contraditórias e egoístas de alguns Estados comunitários (a França, por exemplo), fazem lembrar curiosamente as mesmas desconfianças que no século XVI se instalaram entre os estados Cristãos, disponíveis para fazer frente à ameaça turca! Com efeito os esforços de S. Pio V para unir a Cristandade, esbarravam muitas vezes nos protestos da Espanha, que acusava a Sereníssima República de Veneza de fazer pactos com os turcos, à revelia da causa comum!
Mas regressemos às dúvidas: as do lado turco.
Os turcos perderam a memória e já esqueceram o seu passado de grandeza?
Setenta anos de “deslocação de interesses”, sublimados nas pequenas vitórias de Ataturk, serão suficientes para apagar as grandes vitórias, como a tomada de Constantinopla?
Os optimistas europeus, terão imaginado que poderia acontecer aquilo que em séculos nunca aconteceu – a possibilidade dos turcos serem assimilados, já não digo pelos nossos valores, em claro declínio, mas pela miragem de uma sociedade de abundância?
E podemos também acrescentar os convenientes e inconvenientes afincadamente discutidos nas reuniões de Washington e Bruxelas – a decepção e a reacção turca!
Como se vê problemas não faltam.
Por exemplo – se abrirmos o espaço Shengen, bastará que os emigrantes turcos chamem as suas famílias para junto deles, para provocar de imediato um entupimento geral na União!
Ou ainda – e se eles, ressentidos connosco, resolvem estender a sua influência a oriente e regressar ao Califado?!
Não vale a pena andarmos às voltas porque as coisas são aquilo que são e só os aprendizes de feiticeiro pensam ter descoberto a pólvora, ou então repetem, que o mundo entretanto mudou. Claro que o mundo está sempre a mudar, infelizmente, nem sempre no melhor sentido! Pelo contrário, em termos de carácter e dignidade, regredimos. Como esperar então que os outros tenham mudado para melhor?!
Os turcos são os turcos e nós somos nós. Temos culturas diferentes, religiões diferentes – eles pelo menos, têm religião, e não vão abdicar dela em nome de qualquer laicismo que lhes queiramos impingir. Nesse sentido, os turcos devem continuar a ser tratados como turcos para que não haja equívocos desnecessários.
E para que a vitória de Lepanto não tenha sido em vão.

sexta-feira, outubro 21, 2005

“Há quatro orientes”

À volta da mesa estavam sentados cinco comissários presidenciais. Curiosamente, o número dos partidos representados na Assembleia da República! Se rápida e inadvertidamente fizéssemos as contas, chegaríamos à conclusão que havia um partido com dois candidatos, e inversamente, um candidato para dois partidos. Mas as coisas nunca são tão simples.
Eu estava sentado defronte.
O centro de mesa era ocupado pela incontornável Judite, que virava e revirava os olhos para um e para o outro lado. Sorriso permanente, mas não sou capaz de definir se era prazer ou dor!?
Enquanto ouvia mais ou menos desinteressado a conversa, fui apanhando algumas coisas – palavras soltas, tiques, umas sentenças aqui e ali. Mas houve revelações importantes.
Chamou-me a atenção o facto, de pelo menos três dos comissários, garantirem que os seus candidatos eram rigorosamente apartidários. Eram a reserva da República, que à vista do naufrágio iminente da Pátria, tinham saído de suas casas, recolhido umas assinaturas, para se sujeitarem ao voto dos portugueses. Achei bonito!
O comissário de Jerónimo e a pequena Drago não confirmaram a tese. Estavam ali para outra coisa e não esconderam: fazer propaganda partidária pura e simples. Também achei bonito.
Judite continuava a virar-se e a revirar-se porque o diálogo era sobre a esquerda e a direita! Os comissários, aparentemente todos da esquerda, acusavam no entanto um deles, de ser da direita. A conversa estava neste ponto quando surgiu a frase da noite, proferida em primeira-mão pelos chineses – “há quatro orientes”!
A revelação foi demasiado forte. A grande arquitecta, que estava ali por Alegre, reagiu de imediato e esclareceu que havia mais um oriente – o que tinha a mania de estar sempre por cima! Houve uns momentos de silêncio e desnorte, até que Roseta desfez as dúvidas, dizendo que se estava a referir a Cavaco! Ultrapassado o incidente, o comissário de Soares, exemplificou sobre a produtividade na Ásia, afinal o grande oriente que faltava, e confirmou que Mário era o candidato do futuro.
Depois de mais esta revelação importante, o debate baixou nitidamente de nível, com a pequena Drago a interromper sistematicamente o comissário de Cavaco, revezando-se nessa tarefa com o nosso sósia do “Duce” (semelhança física, naturalmente). Aguentei enquanto pude, mas tive que desligar a televisão.
Estava em causa a próxima Chefia de Estado, mas ninguém conseguiu subir o indispensável degrau. Falaram do que são capazes – de contabilidade.

quarta-feira, outubro 19, 2005

Passos para Deus

“Há o homem grande e o homem pequeno, há o homem maduro e há a criança, mas a trama da humanidade, a trama do coração existe tanto no homem maduro como na criança.
Nós somos crianças, mas somos chamados por este caminho, onde nada é perdido, nada é omitido, nada é, sobretudo, renegado. Mas tudo é reencontrado, tudo é, finalmente encontrado. Da aparência da beleza vem a dor que a faz resgatar e, finalmente, amar, porque a palavra amar não tem qualquer possibilidade de ambiguidade: é afirmar com espanto, com o espanto de todo o próprio ser, o Outro, o Destino, e esta presença do Destino, este sinal, este corpo do destino que são o outro homem e o céu e a terra e tudo o que acontece. O meu bem, a minha dor e o meu mal tornam-se dignos de amor, tudo é novo.
“Tudo é novo”, diz São Paulo. Eis que passou o que é velho, já não existe, somos crianças, mas esta é a estrada pela qual somos chamados, frente a todas as coisas. Não há que omitir ou renegar nada, não há qualquer mutilação.
Há só uma ressurreição.”

Luigi GIUSSANI, “A descoberta de don Juan” in As minhas leituras.

terça-feira, outubro 18, 2005

Inferioridades

Duplicados e em inferioridade face ao outro grande colonizador ibérico, Portugal marcou presença na cimeira de Salamanca. O Director do jornal ‘A União’ de Angra do Heroísmo, também tem dúvidas sobre a qualidade da nossa representação! Com a devida vénia, transcrevo:

“ Cimeira Ibero-americana


Estou por aqui ao lado, em Bragança, bem perto de Salamanca onde está a decorrer mais uma Cimeira Ibero Americana congregando grande parte dos presidentes, chefes de governo e ministros dos negócios estrangeiros das duas dezenas de países que compõem a América Latina, Espanha e Portugal.

Apetece ir lá, tomar uma cerveja com Hugo Chavez na Praça Mayor, ouvir a conversa de Lula sobre a corrupção, ouvir um bom som brasileiro, escutar os comentários dos estudantes universitários, e fazer uma saúde qualquer ao jantar no restaurante a Mesta, falando de touros e de mar. Se estivermos com atenção às notícias o que preocupa os espanhóis são as migrações. O projecto é conseguir um modelo comum de gestão de migrações entre os vários países de forma que os mais amarrados à Europa possam passear, investir e trabalhar para os vários sonhos por construir na América Latina. E também para que recebamos brasileiros e venezuelanos que é uma das soluções de irmos competindo com a China sem atrair muitos sub – saharianos e ucranianos. O que preocupa os castelhanos é assim uma gestão dinâmica da cultura que é a forma mais bruta de procurar um modelo comum de gestão de migrações. No concreto tratar-se-á talvez e somente de relativizar o Espaço Shengen, produto da Alemanha e da França, para facilitar vistos, permitir acessos aos sistemas de saúde e de educação e facilitar a cobrança de impostos e contribuições. Os portugueses, estranhamente, estão preocupados com um piloto que aguarda há um ano julgamento na Venezuela por ser suspeito de tráfego de droga. A atender às notícias parece que a ausência de Fidel de Castro também é uma questão essencial para a estratégia nacional face à América Latina e a Espanha. Á primeira vista apetece ridicularizar esta personalização da política internacional, como se tudo dependesse do José e do Fidel. Todavia, de um ponto de vista mais abrangente, talvez seja mesmo mais importante para o futuro das pessoas e dos sítios da América Latina a forma como se controla o circuito da droga no mundo e a maneira como evolui o regime de Castro. Para quê mais um papel para supostamente facilitar uma melhor circulação de pessoas se essa burocracia será difícil de melhorar em países como os nossos? Sabemos bem que ou há uma liberdade de circulação quase total e o controle é feito pelos colegas de trabalho e vizinhas de bairro, ou então o dito modelo de gestão de migrações só melhorará a vida para alguns e criará mais papéis impossíveis para os outros. Vamos então à agenda portuguesa que passa por beber um copo com Hugo Chavez e marcar um jantar em Trinidad de Cuba com Fidel, Lula, Hugo, João Carlos e... A chatice é que não sei se temos um representante nacional à altura!

sábado, outubro 15, 2005

Repúblicas de exportação

O produto completo, (comercializado sob a forma de Kit), inclui “democracia” e “separação da Igreja do Estado”, mas aceitam-se encomendas para “ditaduras especiais” ou outras fórmulas sustentadas de “colonização”!
Os leaders de mercado desta antiquíssima “novidade”, com patente registada e bons resultados (veja-se o caso de Portugal), são os Ingleses. Uma longa experiência e uma retaguarda muito sólida, dão garantias de assistência imbatíveis.
O modelo americano tem dado problemas! É um subproduto da casa-mãe britânica, com péssimo apoio de retaguarda (por causa da “república”), uma assistência incompetente, e tem conhecido vários reveses nos últimos tempos.
Por exemplo, no Iraque, e outros mercados semelhantes, onde o cliente não quer “a separação da Igreja do Estado”, o modelo americano insiste em vender o kit completo, e tem havido muitas reclamações por isso. Os clientes protestam e com razão, dizendo que quer na Inglaterra, quer nos Estados Unidos (e já agora Israel), o produto é comercializado sem “a separação da Igreja do Estado”, e querem portanto o mesmo tratamento!
Os vendedores americanos (com os Ingleses por perto) lá vão explicando, que uma coisa são produtos exclusivamente para exportação e outra coisa são produtos para consumo interno. Não há confusão possível.
É só ler as instruções: “Este produto, conhecido por ‘República democrática laica’, é exclusivamente destinado à exportação, e tem como principal objectivo, enfraquecer o cliente por dentro, para poder ser explorado por fora. Trata-se de um brinquedo que entretêm imenso e que dá uma enorme sensação de independência, enquanto o cliente não acorda! Depois vem a inevitável ressaca, que deve ser devidamente acompanhada pelos nossos técnicos, ‘eleitos’ no local, com a máxima protecção e sigilo. As reclamações deverão ser tratadas pela comunicação social, entretanto livre, e ao serviço do nosso produto!
Contra indicações: Deus, Pátria, Rei.”

terça-feira, outubro 11, 2005

O que interessa

Terminou o arraial... ao longe, ainda se ouvem os ecos da festa – são os dirigentes do bloco central a repetir o habitual refrão: estas eleições “não contam para o totobola”, porque os partidos, dizem eles, apenas participam nesta quermesse, em nome dos superiores interesses da República! Ninguém duvida.
Trata-se de orientar os autarcas na melhor maneira de distribuírem obras e benesses, entre empreiteiros e amigos. Mas deixemos isto, porque é matéria dada.
O que me interessa verdadeiramente é o que se está a passar em Ceuta e Melilla. Deixo Viena de Áustria para outra ocasião.
No flanco Sul a Europa fraqueja.
Se recuarmos ao século VIII, poderíamos imaginar que Gebal Tarique, quando atravessou o estreito, que tem o seu nome, teria sido precedido por muitas levas de emigrantes berberes, que assim prepararam a invasão e o triunfo! É a imaginação a falar?! Pois que seja.
Mas a realidade não é fácil de escamotear ou esconder.
Os resultados do apoio ao terrorismo por parte das forças bem pensantes e progressistas, na Europa e nos Estados Unidos, as descolonizações apressadas e “exemplares”, o surrealismo dessa miríade de “estados” (de sítio?) afro-asiáticos, sem qualquer sustentabilidade ou futuro, toda essa imensa estupidez e ganância, está à nossa vista, defronte das “muralhas” de Ceuta e Melilla.
Estão desesperados, com fome e com sede, e preferem morrer ali, a voltar para os paraísos terreais, imaginados e metodicamente construídos, por todos nós! Muitos dos galardoados com o Nobel da Paz, estão entre os possíveis carrascos.
E agora?
Deixar entrar toda a gente?! Deixá-los a morrer no deserto?!
Ou encontrar um meio-termo hipócrita: entram uns e morrem outros?!
Estas são as questões incómodas que gostaria de ver tratadas com seriedade e coragem pelos actuais políticos portugueses, muitos deles com especiais responsabilidades nesta matéria.
Em lugar disso, Sócrates entusiasma-se com os sucessos do futebol angolano, a face de ouro de uma moeda que esconde a miséria dos miúdos de Luanda, a comer nos caixotes de lixo, enquanto os pais tentam desesperadamente entrar na Europa, à procura de trabalho e pão.
O futebol, para enganar o estômago?
Não se iludam, enquanto não tivermos uma política que sem sofismas, resolva satisfatoriamente a herança colonial, Portugal não conseguirá sair deste atoleiro em que se vai revolvendo. Uma política que não pode continuar a pactuar com regimes absurdos, que apenas mostram aptidão para governar diamantes e petróleo.
Portugal e a Europa não podem receber os emigrantes de Ceuta e Melilla. Mas Portugal e a Europa podem e devem criar condições para que os naturais dessas antigas colónias, possam viver condignamente nas terras onde nasceram, quando se sabe, que muitas delas são ricas e férteis!
É aceitável que um angolano tenha que emigrar?
Então para que serve a “independência”?

segunda-feira, outubro 10, 2005

Domingo começa

Não acaba, como escreveu Vasco Pulido Valente em brilhante artigo que, com a devida vénia, transcrevo na parte que me interessa:

- “ (...) A bem ou a mal, temos de saber que existem eleições e conviver com criaturas que não se recomendam. Fugitivos da justiça, trapalhões de carreira, corruptos comprovados, frades sem roupeta e filósofos fictícios berram, injuriam, agarram, puxam e abanam o cidadão para o convencer da sua excelência. Recebendo do Estado mais de 50 por cento do dinheiro que gastam, não são responsáveis financeiramente. Impedidos de tocar na lei do arrendamento, não são responsáveis pela direcção urbanística de parte alguma. Sem autoridade sobre a PSP e a GNR, não são responsáveis pela segurança. Não são também responsáveis pelo ordenamento territorial, pelo trânsito, pelo sistema escolar (felizmente!), pela saúde ou até por obras públicas de certo peso. São, em suma, irresponsáveis por 308 parcelas do território (tirando as freguesias), metade das quais se devia abolir, e servem principalmente para distribuir dinheiro (com duvidosa utilidade) e prover os compadres com empregos, quando não com negócios. Não admira que este enorme ‘saco azul’ inspire uma campanha estridente. Só é pena já não haver maneira de lhe escapar, como Jane Austen docemente escapou ao terramoto da Europa. Ao menos, domingo a feira acaba.”
“Domingo acaba” – Jornal Público de 7/10/05

Para lá do desencanto pelo paraíso perdido, que deliberadamente omiti, (porque nós ainda não desistimos), o autor sintetiza de forma magistral, a inutilidade desta “feira” autárquica, ao mesmo tempo que explica o enorme interesse que os partidos e o Estado napoleónico restante, têm na continuidade do “sistema”.
Pelo avesso, Pulido Valente fornece a doutrina para a reconstrução de Regiões Autónomas, onde os respectivos eleitos tenham de facto alguns daqueles poderes que actualmente irresponsabilizam os autarcas. Sem desculpas, directamente responsáveis perante as populações, empenhando a sua palavra, estes são os únicos eleitos que podem refrear as ambições centralistas dos partidos. Ainda que concorram com o seu emblema.
Discordo, claro, da via redutora de concelhos, porque isso significaria que não se tinha invertido a desertificação do interior do País. E eu quero crer que a autonomia regional é remédio para essa maleita.No resto, estamos de acordo.

sábado, outubro 08, 2005

Reflexão autárquica

Quem assistiu ao último debate dos cinco candidatos à Câmara de Lisboa, deve ter ficado elucidado sobre o que é que está em jogo nestas eleições!
Não é decerto Lisboa. A cidade e as suas gentes, mais buraco, menos buraco, mais barulho, menos barulho, mais assalto, menos assalto, ficará mais ou menos na mesma. Qualquer que seja o candidato vencedor.
Porque estas, como outras eleições locais, enquanto estiverem completamente partidarizadas, servem para tudo menos para o objectivo a que se propõem: melhorar a condição de vida dos munícipes, em articulação com outras autarquias, já existentes ou a criar.
Mas não, no Domingo, os candidatos estarão apenas preocupados com os resultados, em função das estratégias traçadas pelos respectivos partidos, na luta sem tréguas pelo poder central.
Nos outros Países Europeus também é assim, dirão.
Pois é, só que esses Países da União Europeia, a que não há maneira de aderirmos (salário mínimo incluído), já fizeram as reformas do Estado necessárias e não “construíram” as assimetrias regionais que por aqui, laboriosamente, vamos dilatando!
Percebe-se que a questão das assimetrias não preocupe muito os partidos, e por duas boas razões – todos eles vivem em Lisboa e são eles que provocam as assimetrias!
Mas pergunto eu, o que fazem os partidos nas autarquias?!
No saneamento básico ainda se admite que a esquerda tenha alguma prática, adquirida intensivamente a seguir à revolução dos cravos, e nesse sentido, autarquias que precisem de obras desse tipo, devem arriscar uma escolha socialista, CDU (grande especialista em saneamentos) ou no Bloco de Esquerda (estes, sem prática, mas muita vontade de experimentar!).
Mas com franqueza, não me parece que a concepção democrata Cristã de uma “rotunda” seja muito diferente da visão trotskista da mesma! E também estou convencido, que a série de piscinas olímpicas prometidas, para além de arruinarem definitivamente os cofres das autarquias e do Estado, pouca diferença fazem, se for o PS ou o PSD a executar a “loucura”!
Haverá sempre gente disponível para discutir e argumentar que sim, que é muito importante, não tenho dúvidas sobre isso. Portugal é que não tem dinheiro para pagar a tanta “importância”, nem aguenta tamanho impacto eleitoral.
Por falar em dinheiro – meio milhão de candidatos envolvidos, durante onze dias, e depois de eleitos, todas as despesas visíveis e invisíveis, todas as mordomias, hoje e no futuro, de tanta gente! Mas isto é a ponta do iceberg!
Esta gente eleita, só serve para reunir e discutir, “fiscalizar” e intrigar. Depois, como cogumelos, temos os técnicos de tudo e mais alguma coisa. Não esquecer de acrescentar nesta lista, os outros funcionários autárquicos, porque há sempre, outros!
O País é pequeno?!.. A gastar o que não produz, não é nada pequeno!
Debate encerrado. Quem ganhou?
A televisão é que sabe.

quinta-feira, outubro 06, 2005

Escrito em Outubro

Escrever neste dia, para quem nunca conseguiu desligar a ideia de Pátria do regime que a edificou, é trabalho pesado, e difícil, se já era difícil quando a musa, que inspira poetas e trovadores, nem sequer nos conhece.
Por aqui, não encontramos literatura verdadeira. E se ela era precisa, nesta hora...
Em lugar disso, uma espécie de cartazes que vou afixando, gratuita e regularmente, na secreta esperança, que uma dúvida mais certeira, acorde outras dúvidas, capazes de fazer implodir o regime em que vivemos.
Grande intróito para coisa nenhuma.
Mas lembrei-me de um certo dia de Julho, catorze, por sinal, e de uma conversa de circunstância com um parzinho de jovens turistas franceses, que muito contentes e orgulhosos me anunciaram – “hoje é o dia nacional de França, comemora-se a tomada da Bastilha”. Ele a olhar para ela, ela a olhar para ele, sorridentes, à espera do meu sorriso (ou aplauso)!
Resolvi estragar a festa e perguntei: - vocês também gostam de comemorar guerras civis?
Como não percebessem, insisti – os que perderam, os descendentes dos guilhotinados, os que acham que foi um tremendo erro tudo o que se passou, também estão contentes? Também festejam?
Confusos, disseram-me que nunca tinham pensado nisso! Então, “au revoir”.
Enquanto se afastavam, continuei a perguntar a mim mesmo – será que não percebem que, de cada vez que nesse dia, gritam “Vive la France”, ofendem a memória de S.Luís e daqueles Reis cruzados que resgataram, em Jerusalém, o túmulo de Cristo?! E como se sentirão as “majestades fidelíssimas”, que talvez não fossem o sol na Terra, mas contribuíram decisivamente para a verdadeira grandeza da França?!
O sacrifício de Joana d’Arc, também terá sido em vão? Ela que reconheceu o Rei em Bruges, reconheceria a actual França? A que manda retirar crucifixos das salas de aula?
Rei e Pátria decapitados, no mesmo cadafalso, e ainda assim os franceses festejam?
Será que esse crime não lhes pesa nas consciências?
“Depois de mim, o dilúvio” – a profecia de Luís XV segue o seu curso destruidor!
A troco de quê?
Do brilho de uma campanha militar a cargo de um “condottieri” corso, cujos compatriotas, hoje, nem sequer querem ser franceses?
Do inevitável Waterloo?
Da “boa nova” de Rousseau, que anunciava a utopia e a decadência da França? E se fosse só da França...
Decadência, que os franceses, como o marido enganado, teimam em ser os últimos a saber?!
Enfim, hoje a falar da França... e a pensar em Portugal.

“ (...) na estrada de Sintra, perto da meia-noite ao luar, ao volante
Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação,
Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra,
Na estrada de Sintra, cada vez mais longe de mim...”
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Fernando Pessoa

quarta-feira, outubro 05, 2005

“Frederico Chagas”

Do insuspeito Fialho d’Almeida, o relato de um exemplo de HONRA, na data em que o anti-Portugal venceu.

“Quando d’aqui a anos se fizer a história tranquila do ‘cinco d’outubro’, e fora das hipérboles ronflantes e das romanticidades forçadas do triunfo se houver posto em prosa simples (a prosa simples da vida, a prosa científica dos automatismos nervosos colectivos) este acontecimento que deu de si a proclama da República, ver-se-á que o melhor da ruidosa epopeia se reduziu na essência a alguns casos brilhantes de bravura pessoal, e a uma sucessão de correrias, escaramuças e vedetas que devem trazer a proporções menores o facto histórico.
(...) É o momento em que todas as bochechas sopram marchas de glória enfática aos vencedores.
- Mas, dirão outros, e a intemerata nobreza d’alguns vencidos?
Naqueles dias de fratricídio as subserviências foram tantas que quem se salvar do atoleiro precisa ser cantado em verso heróico. Ora entre os heróis legítimos uma admirável figura destaca-se: Frederico Chagas, símbolo resplandescente dessa coisa supérflua, a lealdade; Frederico Chagas que não querendo render-se em Vale de Zebro à marinhagem revoltada, mete no coração duas cargas de revolver.
Sacrifício romântico, inútil como escudo d’uma causa perdida, inútil como síndroma d’uma alma íntima e orgulhosa, inútil como protesto, inútil como exemplo...
Mas, por essa inutilidade mesma, sacrifício sublime, lance intangível, supremo, numa época em que o ideal cavalheiroso se afunda, e à medida que as sociedades avançam, parece que o carácter vai retrocedendo.
A susceptibilidade do poder militar deste marinho, como as exalações do nardo, fuma do seu sepulcro e enche o ambiente heróico de legendas. Quantos entenderão o sentido deste cavalheiroso aniquilamento?”

“Saibam quantos...” de Fialho d’Almeida

segunda-feira, outubro 03, 2005

A história das traições

“ (...) Decisivo, o ano de 1906 marca na história dos partidos uma data memorável. Caíram os liberais. De ambas as partes: dos regeneradores e dos progressistas, os chefes observam o campo de batalha e tomam disposições. Hintze julga-se árbitro da política portuguesa e, vendo os republicanos avançarem, quer opor-se-lhes. José Luciano vê o seu partido em cheque pela escamoteação imprevista da confiança da Coroa, – que assim de certo modo consagra as campanhas jornalísticas dos tabacos, – e quer salvá-lo na aliança com a virtude franquista, que lhe restituirá o condomínio de um poder, que o Rei lhe arrancou com desaire.
Nessa hora de perigo, o monarca hesita e supõe tudo salvar jogando a carta fatal que vai decidir da sorte da Realeza em poucos lances.
Sustentando os regeneradores, facilitaria talvez a reconstituição dos dois grandes partidos, recompondo em novas bases e novos programas o equilíbrio estável da política. Tudo deixava prever a infusão dos dissidentes progressistas no partido regenerador e a fusão dos progressistas desalentados no franquismo absorvente.
Abandonando Hintze Ribeiro, chamando o conselheiro João Franco ao poder, o Rei, que é antes de tudo um soldado, – ‘O Rei, simples no seu trato como um guerreiro, dum sangue frio imperturbável, levava bravamente a sua audácia até às extremas da temeridade...’ (Bernardino Machado), – não conta com o maquiavelismo do chefe progressista, que tem duas contas a ajustar e as ajustará: com o soberano, que o imolou ao inimigo, e com o chefe dos regeneradores, que lhe negociara secretamente a sucessão, ao supô-lo na agonia.
(...) A luta já não era contra o ditador subalterno. Era contra o trono responsável. Provas? Os historiadores irão colhê-las aos depoimentos públicos dos jornais arquivados nas bibliotecas: essas testemunhas ajuramentadas, que depõem perante a posteridade. E via-se na primeira fila dos atacantes o Correio da Noite, o órgão dos progressistas – os recém-aliados do franquismo! – dando o exemplo da luta sem quartel à Realeza. A erva não crescia na Rua dos Navegantes (atribui-se ao Conselheiro José Luciano de Castro, por ocasião da demissão do ministério progressista, em 1906, a frase de desafio à Coroa. ‘A erva não crescerá, enquanto eu viver, diante da minha porta!’).
O palácio do Maquiavel liberal era o centro irradiante da conspiração política contra o monarca imprudente que ousara afrontar o seu valetudinário conselheiro, cujo cérebro ainda relampejava de inteligência. Os próprios conservadores lá vão buscar o santo e a senha da batalha.
Era a reviviscência da luta dos barões feudais contra o soberano: o feudalismo político em guerra contra a Coroa.
Depois é o 28 de Janeiro, é o 1 de Fevereiro. A monarquia ficara sem Rei. Tinha agora a presidi-la uma criança, servida pelos adversários do pai...”

Carlos Malheiro Dias – “Em redor de um Grande Drama”

sexta-feira, setembro 30, 2005

Chissano ao poder

Se o próprio concordar, creio ser a alternativa mais patriótica para a próxima eleição presidencial. Não acreditam?
Vejamos, Joaquim Chissano está neste momento livre de compromissos, vive connosco há mais de quinhentos anos, já desempenhou o cargo em Moçambique, não se lhe conhecem fraquezas ou tentações de querer ser alemão, francês ou espanhol e tem hoje, uma perfeita noção do que custa ser independente! Pode portanto, pôr na ordem esta gente que nos desgoverna e conduz para abismos, já dantes navegados!
Como vêem, é o candidato necessário, nesta emergência.
Descontando o surrealismo que a proposta encerra, o que se pretende significar é que o Império, no seu interesse e de Portugal, deve manter-se atento ao rumo que as coisas estão a tomar, sendo agora a sua vez de intervir, se estiver em risco a nossa independência. Pode então gritar bem alto, que eu não me importo – “Para Portugal, e em força”!
Do Brasil a Timor, a Monarquia construiu esforçadamente, ao longo de séculos, a golpes de vontade, uma fantástica apólice de seguro para a sobrevivência da Portugalidade.
Estou certo, que todo esse esforço não terá sido em vão. E já o afirmei, em caso de necessidade, e na altura própria, serão os povos das colónias que nos “obrigarão” a ser independentes!!!
Enquanto isso, vamos continuar a aturar as brincadeiras destes republicanos, cheios de vontade de ser espanhóis ou finlandeses!!!
Haja Deus.

quarta-feira, setembro 28, 2005

Onde é que estavas no 28 de Setembro?

A pergunta é para todos, e se ainda não tinhas nascido a 28 de Setembro de 1974, podes também tentar responder, imaginando qual seria a tua posição nessa ultima luta de trincheiras, que opôs a chamada “reacção”, às hordas triunfantes comandadas pelos comunistas de Cunhal.
- "A “reacção” não passará", gritaram na altura, todos os imbecis, todos os traidores, todos os apologistas da descolonização exemplar, adesivos aos montes, repetindo cenas da nossa proverbial “coragem”, que uma conhecida expressão imortaliza – “trezentos na Rotunda, trinta mil na Avenida”!
Depois, veio o “Gonçalvismo”, com o seu cortejo de nacionalizações, saneamentos, ocupações de casas e terras, roubos vários e, para nossa vergonha, que a História se encarregará de lembrar – o abandono cobarde, os compromissos rasgados, as responsabilidades coloniais atiradas ao lixo!
Este triste episódio não se confunde, nem se justifica, com outras descolonizações europeias, porque nós estávamos lá há mais tempo e prometemos mais.
Veio então a “fonte luminosa”, onde, mais lúcidos e arrependidos, lá se juntaram os “imbecis” de ontem para travar o passo aos seus inimigos recentes. Foi a “coroação” de Soares!
O 25 de Novembro de 1975, já reduzidos ao rectângulo, pouco acrescentou – foi um ajuste de contas interno entre os MFA’s, que apenas teve o mérito de arrumar Cunhal e os seus pares, no inevitável depósito da história.
Mas voltemos atrás, à tal “reacção” que não passou, mas que se tivesse passado, ainda poderia ter evitado muitos dos subsequentes desastres, nomeadamente a “descolonização exemplar”!
Era gente jovem, idealista, uma minoria que acreditou que era possível encontrar um caminho diferente para Portugal. Gente que não queria mais ditaduras, que estava, fundamentalmente preocupada com as colónias, mas que não tinha nada nas colónias a não ser o sentimento que vem da herança, e que por tudo isso, tentou a todo o transe evitar a demissão de Spínola. Vieram para a rua e enfrentaram com coragem os lacaios de Moscovo e seus satélites.
Foram presos, alguns conspiraram em Espanha, diluíram-se no tempo. Hoje, não são ministros, não são Conselheiros de Estado, nem magnatas de sucesso.
Quem hoje continua a mandar, são os tais “imbecis” e “traidores” que no 28 de Setembro travaram o passo a Portugal!

segunda-feira, setembro 26, 2005

A lógica autárquica

Se eu fosse candidato, com o Partido a “exigir-me” a vitória ou o crepúsculo na carreira, com as populações a esperarem de mim a realização de todos os seus sonhos, e sabendo que os meus adversários fariam o mesmo, eu também prometia tudo:
- Estádio de futebol, clube a subir de divisão, piscina olímpica, palco de eventos, duplicação de rotundas e, no comício de encerramento diria triunfal – ‘vamos, finalmente, pôr esta terra no mapa’.
É assim por todo o País, promessas a rodos, empreiteiros aos molhos, e, naturalmente, golpes baixos e cofres falidos. E não vale a pena abrir a caça às bruxas. Todos têm telhados de vidro, pela simples razão, de que os telhados são mesmo feitos de vidro!
E enquanto assim for...

Em texto já publicado, com o título “O Rei e os Sovietes”, esbocei algumas ideias sobre o “regionalismo terapêutico” que penso ser o remédio ideal para deixarmos de ser o “três em um”, ou seja, três países num só, a saber:
- O país interior, pobre e desertificado, o país litoral, onde está acantonada a maior parte da população, e o país dos partidos, que suga os outros dois.
Não inventei a roda. Já aplicámos com êxito esta terapia nos Açores e na Madeira, e aqui ao lado, em Espanha, é receita de sucesso – refiro-me às Regiões Autónomas!
As propriedades medicinais deste tratamento são por isso conhecidas e só alguns parasitas tentaculares vêem nele contra-indicações, e percebe-se porquê – é que o princípio activo actua duplamente, por um lado, trava a desertificação, e por outro, contém em limites razoáveis o “polvo” partidário.
Começaríamos assim pelo “país interior”, a necessitar de cuidados intensivos, recuperando um saudável “espírito regional”, que ao contrário do que dizem os tais parasitas, não enfraquece, mas antes, fortalece a coesão nacional. O que destrói qualquer coesão nacional são as assimetrias cada vez mais gritantes entre o litoral e o interior, que levam ao abandono das terras, das actividades, com as populações que restam, a procurarem resolver os seus problemas, cada vez com maior frequência, no outro lado da fronteira!
Esta é que é a realidade preocupante.
E que faz o regime para resolver a situação? Faz a única coisa que sabe fazer – reduz ou pensa reduzir!
Pensa reduzir concelhos, fechar escolas, eliminar actividades. Precisamente o contrário do que é forçoso fazer, para que seja possível voltar a nascer e a viver, com um mínimo de qualidade e esperança, numa qualquer terra do interior de Portugal.
As Regiões Autónomas podem ser a solução, e agora já ninguém tem dúvidas, mais económica e útil que a actual “partidarite” autárquica.
Fica a ideia.

sexta-feira, setembro 23, 2005

Então, e agora? Ninguém se demite?

Santana volta, estás perdoado. As tuas “terríficas trapalhadas” que abalaram o país da comunicação social, situado algures entre o leninismo e o terceiro mundo, que suscitaram a análise dolorosa dos economistas, que levaram Sampaio ao discurso do Finis Patriae, eram afinal um grão de areia nesta tempestade que todos os dias fustiga a nossa triste existência!
Começam a aparecer os contornos da verdadeira cabala, a explicar a necessidade premente da conquista do poder, para abafar, para não julgar, para não interrogar, para que não se saiba nada do que se vem escondendo ao longo de décadas de corrupção do Estado, com as moscas revezando-se, ordeiramente, no banquete orçamental!
Os mesmos colunistas que te apontaram a porta da rua como incompetente, choram agora a triste situação a que chegámos, escrevem longas e curtas prosas sobre os dislates intermináveis, sobre as vergonhas descaradas, com a gravidade sempre a crescer, sem solução à vista!
Então foi para isto que te mandaram embora?
Mas calma, que nem tudo são rosas. Terás de vir sozinho, sem a ganga partidária, com as nódoas limpas, porque também tens nódoas, disponível, com a única coisa que parece distinguir-te de quase todos, um certo patriotismo ingénuo, mas ainda assim, patriotismo!
Deves levantar a questão do regime, directamente, sem medo, no sentido de darmos uma oportunidade ao povo, para decidir se quer continuar com esta República (a mesma de sempre) ou se quer regressar à Monarquia.
Faz isso, e já ficas na História.
A ideia é simples – trata-se de emendar o erro de Salazar que na década de cinquenta não quis, ou não soube, seguir o exemplo franquista instituindo uma Regência, que preparasse o regresso do Rei.
Faz como os afegãos, e em vez de ires a Roma, vai a São Pedro de Sintra, pedir ajuda ao Duque de Bragança, única entidade que ainda nos lembra que já fomos um povo verdadeiramente independente!
E não percas muito tempo a pensar.

Nota: Não conheço pessoalmente Pedro Santana Lopes e por isso o tratamento por “tu” apenas pretende transmitir outra força ao texto.

quarta-feira, setembro 21, 2005

Portugal Triangular

Viram o anúncio? Vale a pena ver...somos nós, é a nossa cara chapada!
Um estádio de futebol triangular, iluminado, repleto de público (!) a vibrar, com três balizas. Uma coisa única!
Esta criatividade toda já deve ser o resultado da política de admissões da empresa, que tem dado preferência, como se sabe, a jovens talentos, descendentes de outros talentos bem conhecidos! Sim senhor, parabéns!
O projecto vê-se que tem futuro e nem é difícil prever a sequência lógica da “criatura”, pois estamos certos que vai acompanhar o perfil mental de tão inspirados criadores! O triângulo, à semelhança da inteligência, irá perdendo espessura até ficar reduzido e achatado numa apoteose unidimensional!
Visto sem perspectiva, cumpre-se um velho sonho da ditadura – um Presidente, um Clube e uma Baliza!!! E a gente a rematar todos para o mesmo lado! Então sim, haverá dias de glória, grandes “cabazadas”, e dificilmente sofreremos qualquer golo nas balizas inexistentes!
Se ainda conseguirmos sonhar, vislumbramos o grande “timoneiro”, a testa florida, e nós com as bandeirinhas agitadas a marchar ao som, por exemplo, de uma partitura vitorina, alegremente cantando, “levados, levados, sim...”
Pronto, já sei que vão dizer que eu ando sempre a bater no “ceguinho”, mas averigúem primeiro, se não é essa cambada de “ceguinhos” que anda a bater em nós?!

Nota: Escrevi em tempos um texto intitulado “Os Clubes do Estado”, que talvez elucide melhor o meu pensamento sobre esta matéria.

segunda-feira, setembro 19, 2005

Febo Moniz

A história não se repete, dizem os sábios, e é bem possível que tenham razão!
Mas enquanto o homem continuar a nascer debaixo do sol e for essa criatura fácil de reconhecer quando está um espelho por perto... se a história não se repete, ele há muitas coincidências!
E tinha logo que se chamar Filipe, o futuro Rei de Espanha! E tinha logo que ser a Espanha essa potência rompante que se adivinha, enquanto o “vizinho” definha, sem resistir à rima, porque é verdade!
E tínhamos que estar sem rei nem roque, à deriva, pedindo a todos os santinhos que tomem conta de nós!
E tinha que ser neste estado de alma, sem vontade nenhuma de lutar pela nossa independência, à semelhança do que aconteceu em 1580, nas tristemente célebres Cortes de Almeirim!
Ontem como hoje, Febo Moniz votou vencido, último sopro de uma nação anestesiada e atemorizada com o futuro! A viver de mão estendida, entregando-se por um prato de lentilhas!
Filipe II foi lapidar – “Portugal?!.. Herdei-o, conquistei-o e comprei-o”.
Para nossa memória, fica o registo da patriótica alegação do procurador de Lisboa, dirigindo-se ao indeciso Cardeal-rei:

– “Se el-rei D. Filipe é cristão, não quererá mover uma guerra entre cristãos, por causa duvidosa, contra a justa sucessão; porque sendo assim, não terá bom sucesso, e Deus não será em seu favor; e quando o quisesse fazer, faremos o que sempre fizemos; bem sabemos perder a vida pela liberdade, e, posto que sejamos poucos e desarmados, e ele poderoso e apercebido, esperanças tenho em Nossa Senhora, que ajudará a efectuar uma sentença dada por um rei tão católico e tão santo e que não permitirá sermos vencidos, pois levamos a verdade e a razão por guia. Atónito estou de ver que, sendo a justiça igual, e estando ainda o parecer de Vossa Alteza tão duvidoso, se incline para Castela! Como poderá Vossa Alteza extinguir uma nação, que os reis seus antecessores trabalharam tanto para enobrecer? Não sei como Vossa Alteza poderá acabar aquelas cinco chagas, que Jesus Cristo Nosso Senhor deu por armas no Campo de Ourique a este reino?! Poder-se-ão elas, sem receio ou temor, meter entre os leões de Castela? Este negócio é maior que todos os do mundo, por árduos que sejam! Que falta é esta de amigos, que pobreza de vassalos reais? Porque não tenho por amigos do vosso serviço, nem por criados leais, quem tal coisa vos aconselha. Porque quereis que vos estale o reino nas mãos? Não vê Vossa Alteza a nódoa que põe em seu nome? Aonde se dirá que se entregou este reino a Castela, por temor de se defender do seu poder? Pelas lágrimas dos órfãos, que vivem das esmolas do reino e de seu rei natural; pelo remédio dos fidalgos, que ides entregar a um rei estranho; pelas necessidades das viúvas; pelas misérias dos pobres, peço-vos, senhor, que conserveis este reino na liberdade em que os reis vossos antepassados o puseram! Representai ante vossos olhos, que todos comigo dão vozes: a quem nos deixais, senhor? Porque nos cativais?! Aonde nos levais?! Clama o povo, clama a nossa consciência, clama a justiça e a razão, e os nossos clamores hão-de chegar ao céu! Dai-nos liberdade, e, se vos parecer que a não merecemos, tirai-nos a vida, para que com ela se acabe o nosso cativeiro: que antes queremos os verdadeiros portugueses, entregar de boa vontade a vida, do que perder a liberdade.” (*)

Seguiram-se sessenta anos de união ibérica, com graves prejuízos para os interesses de Portugal e dos portugueses.

(*) - De uma transcrição do manuscrito original feita pelo historiador Oliveira Martins.

sábado, setembro 17, 2005

Impunidade

O processo da Casa Pia continua a surpreender-nos! Denunciado em pleno Tribunal pelas próprias vítimas dos crimes que terá ou não cometido, Paulo Pedroso continua fora do julgamento!
A juíza Ana Peres, confrontada com a situação, ralha com as vítimas e diz que não pode tomar conhecimento dos crimes públicos ali relatados, porque Paulo Pedroso não consta daquele processo, não sendo por isso arguido!
Este é o terceiro mundo que nos está reservado e só podemos andar satisfeitos com os nossos estimados governantes.
Entretanto, aguarda-se a todo o momento (desde Maio de 2004!) a decisão do recurso sobre o não pronunciamento do antigo ministro da tutela da Casa Pia (o dito Pedroso), mas já se adivinha o veredicto – não existe “matéria” para o levar a julgamento!!!
O afilhado de Sampaio, delfim de Ferro Rodrigues, jovem esperança socialista, pode ficar descansado – a República Portuguesa não julga os seus políticos, pela simples razão de que são eles que fazem as leis, que se nomeiam juízes e que estão por isso acima da lei.
Podem descansar também o Costa, o Lacão, a confraria toda, porque a “ética republicana” que exibem e apregoam não engana – liberdade, igualdade e fraternidade entre eles, para eles e mais ninguém!
Podem ainda descansar os “preocupados” defensores de mais (!) garantias processuais, porque elas, em Portugal, serão sempre infinitas quando se trata de “safar” alguém da quadrilha!
Mas, há sempre um mas, vem agora o advogado Serra Lopes, habilmente, lançar a estratégia da “absolvição geral” e diga-se, tem argumentos!
Depois de considerar, no mínimo, “exótica”, a circunstância de Paulo Pedroso não constar da lista de arguidos no processo da Casa Pia, e no caso provável da Relação decidir novamente não o pronunciar, a “doutrina” absolutória surge cristalina: - se os depoimentos das vítimas não são credíveis para incriminar Paulo Pedroso, então porque é que os mesmos depoimentos das mesmas vítimas servem para incriminar e levar a julgamento todos os outros arguidos?!
Esta a questão caricata e vergonhosa que se desenrola à frente de todos os portugueses de boa fé e que se está a tornar insuportável para o regime em que mal sobrevivemos!
Sampaio pode dizer o que lhe apetecer sobre a reforma das Nações Unidas, que ninguém o ouve, Sócrates pode fazer implodir o que quiser, que ninguém o vê, porque a Casa Pia, para o Bem ou para o Mal, já marcou os seus destinos.

quinta-feira, setembro 15, 2005

Asfixia partidária

A expressão não é minha, é de um jornalista-escritor muito em voga, mas não deixa de ser uma realidade absoluta em Portugal! A prevista nomeação do socialista “independente” Guilherme Oliveira Martins para o Tribunal de Contas, órgão destinado a fiscalizar o Governo, é apenas mais um acto esclarecedor, que fecha o círculo vicioso em que vivemos! Mas há mais – com as eleições autárquicas reduzidas à magna questão de expulsar ou eliminar dissidências partidárias, a futura eleição para a Chefia de Estado Republicana, é um verdadeiro hino à partidocracia vigente!!!
A segunda República, que muitos gostam de chamar Estado Novo, escamoteava a questão com um número de ilusionismo – as eleições eram a fingir e o candidato apresentava-se fardado!
Hoje o que é que vemos?!
Como na Roma Cesarista, lutas fratricidas, traições, intrigas várias a cargo dos escribas de turno, dos afilhados, dos camaradas e confrades, vale tudo desde que o “árbitro” seja “nosso”!
Os saudosistas sabem que o filme não está completo: faltam as legiões e as consequentes revoluções! Mas convenhamos que não se pode ter tudo – desfeito o Império, desfizeram-se as legiões, e enquanto os ordenados forem pagos pela UE, não há nada para ninguém!
“Esta é a ditosa democracia minha amada” em que vamos navegando (baloiçando) sem sair do mesmo sítio – ao leme, seguem os traidores. Falta apenas aquela frasezinha do Wiston Churchill, pronunciada pelas habituais aventesmas, a “explicarem” que a “democracia é, apesar dos seus naturais defeitos, o melhor que conseguimos arranjar...” – expressão encantada, do tipo pass-word, que normalmente cala todas as controvérsias.
O “interregno” é que não enfia barretes! Descodifica e replica: W.C., disse essa frase, no contexto de uma monarquia assente numa constituição histórica, o que faz toda a diferença para todos os outros regimes que se reclamem de uma constituição feita “de encomenda”, normalmente atentatória dos valores e cultura dos povos que as sofrem. Portugal é nessa matéria um “belíssimo” exemplo.
Aqui chegados, os diagnósticos situacionistas, começam a falar de mudança de regime (!), um avanço sem dúvida, numa sociedade imóvel como a nossa!
Mas o que querem eles dizer com isso?!
Analisaremos o assunto em próximo postal.