terça-feira, novembro 29, 2005

Manobras de diversão

Há oliveiras na Beira Baixa! Já sabíamos, não me esqueci da frase que ‘escapou a muitos’: ‘Não tenho capacidades nem talento para ser primeiro-ministro de Portugal’!
Mas, pela calada, lá vai levando água ao seu moinho.
Primeiro foi aquela falsa questão do referendo sobre o aborto, farto que estava de saber que o Presidente, não queria sair de cena com o cognome de, Sampaio, o do ‘Aborto’! Depois, vieram as ameaças veladas a Souto Moura, para, de longe, contar espingardas, ver como é que se pode dar a volta á ‘situação’. O apoio a Mário Soares para dividir a esquerda e fazer eleger Cavaco, comprometendo-o na crise do regime, também foi uma jogada bem vista.
Faltavam duas ‘abébias’: uma, aos homens da massa, e outra, á Igreja.
Assim se explica esta dupla manobra de diversão, só aparentemente contraditória.
A ‘Ota’ para entreter o pessoal e garantir expectativas de negociatas várias, embaladas nas grandes derrapagens orçamentais; e a ‘guerra dos crucifixos’ para, oportunamente, surgir magnânimo, e reafirmar que será impossível eliminar o ‘Cruzeiro’ do espaço público e da vida dos portugueses!
Qualquer idiota sabe isso, mas vai ficar agradecido quando o primeiro-ministro o proclamar solenemente.
Mas a vida não está fácil para ninguém, nem para este albicastrense adoptado. A sua teimosia e impaciência puxam mais para as suas origens transmontanas, o que poderá condicionar e afectar um jogo que exige sobretudo frieza e maleabilidade.
Além disso os tempos são outros. Vai ser difícil convencer o povo de que o que é bom para Sócrates é bom para Portugal.
E depois, há esta ‘chatice’ da Casa Pia.

sábado, novembro 26, 2005

Os sítios da minha rua

Sou um animal de hábitos, gosto de frequentar os mesmos sítios, as mesmas ruas, sentir que o mundo começa e acaba no meu quarteirão. Existem outros bairros, outras avenidas, cafés e cinemas mais atraentes, mas é aqui que me sinto bem. Mudei-me há pouco tempo, estou ainda a ambientar-me, mas já vou conhecendo pessoas e lugares.
E depois, para um ‘miguelista ultramontano’, (na feliz expressão que me identifica), já não existem muitas surpresas. Este bairro está muito bem, tem tudo o que preciso.
É uma rua direita, sem curvas, sem sobe e desce, mas o que mais aprecio, é a sua solidez. É raro aparecer um buraco, vê-se que foi feita no bom tempo!
A volta diária segue a rotina: - ‘paro’ no ‘Sexo dos Anjos’, inteiro-me das notícias, pergunto pelas novidades, e tenho que admitir, confio no dono do estabelecimento. Escreve com elegância e clareza, sobre assuntos que me interessam e ainda me adverte, generosamente, para outras leituras importantes! Já aconteceu devolver-me à procedência – para ler melhor o que escrevi! Daqui ao Pasquim é um pequeno salto. Para dizer a verdade, leio o Corcunda desde que me iniciei nestas lides, e não me esqueço que os seus comentários, foram incentivos que me ajudaram a continuar!
Mas os deveres chamam-me – vou estudar ao ‘Combustões’, admiro aí o talento, e se for caso disso, leio com inveja a prosa escorreita na ‘Nova Frente’. Depois do almoço, a bica é outra vez no ‘Sexo’, sem qualquer problema. Entretenho-me por ali, ponho a escrita em dia.
À tardinha vou arejar – entro no deslumbrante ‘Misantropo’ com os sentidos despertos – é o melhor estabelecimento da zona! Tenho afinidades com o ‘encarcerado’ e gostamos de tagarelar. É quase perfeito, pena aquele plebeísmo... encarnado!
No regresso passo pelo ‘Santos’, já tivemos as nossas divergências, mas sei que estou a jogar em casa. Espreito ainda o ‘Ultimo Reduto’, que também é Belém, e vou jantar com o Velho da Montanha. Somos da mesma idade, temos os mesmos gostos, já não temos paciência para algumas coisas, enfim, um encontro de velhos companheiros (de armas).
À noite, pela calada, tomo um aperitivo no Portugal Profundo, porta aberta (e corajosa) a ventos e marés, e dali, sigo para o incontornável (e imprevisível) Dragão. O dito, é um homem de génio, intratável. Vá-se lá saber porque é que simpatiza comigo... e eu com ele!
De resto, as visitas obrigatórias aos estabelecimentos monárquicos, e, um indispensável salto a Aljubarrota (de Vila Viçosa), para abraçar e incentivar o nosso jovem Condestável!
Falta só falar das visitas:
Aos que frequentam a minha ‘casa’, só posso dizer, sem ser cartomante ou borda d’àgua – que são pessoas inteligentes, cultas e bem formadas! Uma excelente ‘reserva da república’!!!
Já agora esclareço, que também trabalho (até aos sessenta e cinco anos – antes de Sócrates!). E que há alturas na vida em que um homem precisa de desabafar.

quarta-feira, novembro 23, 2005

Soares, Escutas e Casa Pia

No ‘court’ central do Diário de Notícias, disputou-se esta quarta-feira, mais um notável jogo de pares, opondo de um lado, Soares e um dos seus valetes, neste caso o recém promovido director A. Teixeira, e do outro, Souto Moura, outra vez a jogar sozinho!
Imaginamos que a oportunidade destes encontros se fica a dever, por um lado, à necessidade de defender o segredo de justiça, e por outro, contribuir para uma maior independência dos Tribunais.
O primeiro a bolar foi o Director do DN. Uma prosa sibilina, cheia de efeito, na direcção de Souto Moura, com a seguinte mensagem: afinal o poder político não manda, nem condiciona o poder judicial! É exactamente o contrário!!! Os coitados dos nossos políticos é que são umas vítimas nas mãos dos juízes! Estão sequestrados pelas ‘escutas’, e assim não se pode governar.
Se fizermos um paralelismo com o nosso futebol, a ideia até se compreende. Claro que são os árbitros que andam a subornar os dirigentes. O apito é uma arma perigosa na boca daqueles sujeitos vestidos de preto. Ainda por cima têm a colaboração dos bandeirinhas, que lhes fazem sinais que passam despercebidos ao comum dos espectadores. Não devia ser assim, é um mau exemplo para a juventude. O escutado é que devia, não apenas validar as escutas, mas ser ele a tomar a iniciativa das mesmas. Assim já ninguém era acusado de andar a fazer ‘queixinhas’... e o segredo de justiça estava garantido.
O jogo seguiu com mais umas bolas para o pinhal, na tentativa de obrigar Souto Moura a agachar-se... e muda o bolar.
Soares dá a sua primeira raquetada em falso. O velho jogador não resistiu, bateu a bola com muita força e ela foi parar à Casa Pia. Tinha conseguido evitar a jogada até agora, mas aquele processo... que parece encomendado para dar cabo do Partido Socialista, foi mais forte do que ele. Depois de uma subida á rede, para falar dos inconvenientes das escutas, fez a ligação com o processo de pedofilia. Segundo concluiu, há ali inocentes! Não estava a pensar nas vítimas, referia-se aos indiciados, vítimas das escutas.
A jogada de fundo adivinha-se. Como se adivinha o preço da sua recandidatura. As escutas estão contra o Partido Socialista. A Casa Pia também.
Aníbal tem aqui uma oportunidade de ouro para infligir uma dura derrota ao seu adversário. Basta-lhe conduzir os seus ‘elefantes’, evitando o atoleiro da Casa Pia. E não pode pisar Souto Moura.
Os dados estão lançados.

terça-feira, novembro 22, 2005

Desparasitar, Privatizar, Educar

As funções do Estado têm que ser revistas.
Mendes levantou o problema, durante a discussão do Orçamento de Estado. Em Madrid desfilaram milhares pela liberdade de ensino. O estado em que vivemos não larga o osso. Quer educar o povo, vai reproduzindo o sistema, quer manter-se à tona de àgua custe o que custar.
Um monárquico, em estado de sítio, grita – fechem a universidade! É de lá que saem as ninhadas que alimentam a voragem.
Desparasitem o sistema, reclama o interregno. Mas com eficácia.
Nada conseguiremos se não substituirmos a Presidência republicana, a chave e o fecho do regime, corredor aberto por onde passam e entram todos os parasitas que engordam o Estado, na exacta medida em que o enfraquecem. Onde estão os monárquicos? Vão continuar a gerir o silêncio? Em intervenções difusas? Entretidos com os candidatos dos partidos?
E os outros, essa imensa maioria de resignados, que desesperam por uma solução?
A solução sempre existiu, não é preciso inventar a roda, é a Instituição Real. Trata-se de introduzir um elemento cujo poder assenta numa legitimidade diferente do resto da ‘manada’. Tão simples quanto isso.
Porque é que a ‘direita’ não o fez em meio século? Porque não soube? Porque não quis? Porque afinal, é jacobina e apenas se diferencia da esquerda, pelo lugar que ocupa na bancada?
Há qualquer coisa a ressumar, a vir ao de cima. Andam a suspirar pelos cantos, falam de independência, não falam do Rei, o seu garante!
Revisões? ‘Reprises’? Vinganças? Não há colónias, já não temos nada em comum, não é possível pedir o último sacrifício, invocando apenas o passado. É preciso autenticar o presente. Para que se pressinta que o futuro é de todos. Não mobiliza quem quer, mas quem pode.
Voltemos ao princípio, ao Príncipe.
Depois de desparasitar o sistema, avancemos ao contrário de Pombal. Privatizemos o ensino e a educação, renovando a parceria com a Igreja Católica. É a única parceria identitária que conheço, e que nos justifica como Pátria independente. Precisamos das nossas ‘madrassas’, para não acabarmos a estudar nas outras.
Isto não pode ser feito por nenhum ditador, da esquerda ou da direita. Por nenhuma ‘democracia’, chame-se ela, bloco central ou aliança democrática. O Rei tem que estar supra presente. Tem que haver a noção de continuidade, que a dinastia assegura. As pessoas começam a perceber isso. E depois, só o Rei pode conter os ‘sacerdotes’. Onde há Rei não há fundamentalismos religiosos. Nunca houve, desde os Faraós!
Por isso, não queremos constituições à francesa. Tem que lá estar inscrita, na primeira linha, na primeira frase, a palavra – Deus.
Pode ser assim – ‘Portugal, pela Graça de Deus, Pátria dos povos que a História uniu, é serviço de repúblicas livremente constituídas. O seu Defensor é o Rei’. Segue-se um articulado necessariamente curto.
Não é politicamente correcto?
Pois não, felizmente.

terça-feira, novembro 15, 2005

Os pés em cima da mesa

Fixem o personagem: Rui Marques, de cognome ‘O Integrador’!
Fixem o exemplo: “devemos aceitar que pessoas de outras culturas, quando sentadas à nossa mesa, não sejam obrigadas a usar talheres”! Tudo em nome do multiculturalismo integrador!
A educação, a convicção de que estamos certos naquilo que fazemos, não existe, é tudo muito relativo. Ensinar os indígenas a adquirirem hábitos civilizacionais, pedir ao ‘cromagnon’ que se liberte da caverna, pode não ser bom! Principalmente se resolvem visitar-nos em nossa casa! Neste caso particular, e em nome da boa integração, será melhor deixá-los à vontade, a fazerem aquilo que lhes apetecer! Se saltarem para cima da mesa, e as nossas criancinhas acharem graça, a educação ‘integrada’ obriga-nos a esse supremo gesto de solidariedade – trepam os miúdos, e trepamos todos para cima da mesa!
Claro que pode acontecer, que os nossos estimados candidatos à integração, não satisfeitos com os pés em cima da mesa, comecem a exigir que nos comportemos como eles, que abdiquemos dos nossos princípios, tudo isto, sob a ameaça de nos atirarem com os talheres à cabeça! Nesta emergência, devemos ter o cuidado de não ofender o seu bom nome, e nunca pronunciar a palavra – ‘escumalha’. É o que se retira dos ensinamentos de Rui Marques. ‘Escumalha’ é uma expressão chave, que pode a qualquer momento degenerar em grande violência, como se viu agora em Paris de França!
O grande ‘Integrador’ vai mais longe, e acredita que em Portugal se pode aplicar o modelo multicultural do Canadá!
Vamos esquecer rapidamente essa experiência de colonização e integração defeituosa, quinhentos anos a brincar com as pessoas, quando afinal o Canadá é que sabe!
Rui Marques parece saído de uma teoria da relatividade, não é decerto ‘da raça dos navegadores’, e com ele ao leme, acabávamos nas ‘galés’!
Escravos, naturalmente.

domingo, novembro 13, 2005

‘Diário XII’

Ilha de Moçambique, 5 de Junho de 1973

- Louvado seja Deus Nosso Senhor! Até que enfim posso regressar sossegado, com a viagem justificada em todas as minhas exigências de homem e de português. Aqui, sim. Aqui a pátria chegou e sobrou. Aqui todos os que vieram se transcenderam, deram o melhor de si, mereceram a aventura e a glória. Que orgulho legítimo eu sinto a compartilhar este sincretismo de raças, de culturas, de fé e de sentimentos! Brancos, pretos, pardos e amarelos num convívio fraterno, os vivos a mourejar ombro a ombro, os mortos a repousar lado a lado. O docel de um púlpito que lembra uma sombrinha chinesa, altares cristãos que parecem destinados a Buda, uma capelinha manuelina a dar guarida ao corpo do primeiro bispo do Japão. Ah, génio lusíada, quando acertas! Quando não te abastardas! Quando te medes com o impossível! Fazes de um banco de coral o centro geométrico da concórdia do mundo!

Miguel Torga

sábado, novembro 12, 2005

‘Venho de longe...’

Venho de longe e trago no perfil,
Em forma nevoenta e afastada,
O perfil de outro ser que desagrada
Ao meu actual recorte humano e vil.

Outrora fui talvez, não Boabdil,
Mas o seu mero último olhar, da estrada
Dado ao deixado vulto de Granada,
Recorte frio sob o unido anil...

Hoje sou a saudade imperial
Do que já na distância de mim vi...
Eu próprio sou aquilo que perdi...

E nesta estrada para Desigual
Florem em esguia glória marginal
Os girassóis do império que morri...

Fernando Pessoa

sexta-feira, novembro 11, 2005

Não há justiça neste mundo?

Fizeram tudo para termos os mesmos problemas que os franceses!
Mataram frades, fecharam conventos e missões, exigiram ’concordatas’!
Apagaram o Cristianismo das constituições e dos livros, proibiram a evangelização!
Liquidaram, no Rei, todas as referências e raízes!
Não contentes,
Gritaram no cais do egoísmo (e da cobardia) – ‘nem mais um soldado, nem mais um tostão, para as colónias’!
Ainda assim, em campanha eleitoral, e antecipando distúrbios, acham-se em “melhores condições para dialogar com o pessoal das colónias”, segundo Soares, ou, “não vamos ter os mesmos problemas que a França, porque os nossos imigrantes não são islâmicos”, segundo Vitorino!!!
O que é que apetece fazer? Ou dizer?
É só desfaçatez? Será também ignorância?
Ergue-te Francisco Xavier, apóstolo das Índias, levantem-se Vieira e Anchieta, missionários do Brasil, e todos os que em África, Ásia e Oceania se esforçaram e sofreram, para que os povos recebessem a Luz e a Paz do cristianismo! Regressai por um instante da eternidade das Vossas vidas, e castigai estes incréus. Se for pecado, converteio-os e livrai-nos a nós da tentação do ódio e da vingança.
É que se não vindes, temo pela vida destas criaturas. Os islamitas, têm por adversários os Cristãos, mas têm por inimigos todos os ‘laicos, republicanos e socialistas’, a quem resumidamente apelidam de “cães infiéis”.
E eles estão aqui próximo... em Alcacer-Kibir...

quinta-feira, novembro 10, 2005

A vitória de Pirro

A dúvida insanável assaltou os juízes na hora de pronunciar ou não o nome de um político do regime. O corredor da justiça portuguesa tornou-se mais estreito, a república manteve-se igual a si própria, nunca julgará os seus.
Se quisermos ser justos na análise dos sistemas políticos, verificaremos que naqueles em que existe a crença numa certa verdade política, em alguns valores políticos absolutos, são também aqueles em que o exercício da justiça, mantém um prestígio assinalável. Estou-me a lembrar da Inglaterra, por exemplo.
Pelo contrário, onde as formas políticas passaram a ter mero valor relativo, a justiça é olhada com grande desconfiança e o seu prestígio é nenhum.
Nem sequer lhes tem valido o espectáculo de um certo folclore justiceiro, pontuado aqui e ali, com detenções mediáticas. Quem não gosta de ser enganado, fica com a ideia do mero ajuste de contas.
Podemos assim traçar uma fronteira nítida entre os Estados, consoante a sua justiça é ou não respeitada. É ou não independente do poder político.
Hoje, em Portugal, a classe política celebra vitória e repete – fez-se justiça!
De vitória em vitória...

terça-feira, novembro 08, 2005

O Terror

Quando ouço falar de terror, em França, lembro-me dos ‘Robespierres’. Quando me falam de argelinos, lembro-me do General Salan, de Jean Lartégui e dos seus ‘centuriões’.
Nunca fui a França, nunca me apeteceu ir. Dizem-me que Paris é lindo, o Sena, etc., o problema para mim são os franceses.
Sei que nos anos sessenta, os portugueses emigraram em massa para aquele País, fugindo à pobreza, à guerra nas colónias, mas sobretudo à incapacidade republicana de transformar Angola e Moçambique em novos Brasis.
A minha Avó ainda sonhava em francês, mas hoje, em francês, só temos pesadelos.
A decadência, fácilmente verificável no enorme declínio da língua, prossegue alegremente, e só os próprios, e alguns indefectíveis, não compreendem as suas causas.
Não se pode ver um filme francês, nem ler um livro francês (à semelhança do que se passa com os filmes e livros portugueses), pela simples razão que os franceses de hoje, não têm nada para dizer ou acrescentar à nossa esperança, à felicidade dos povos, ao futuro da humanidade. Claro que há gente que consome tudo. Gentinha que se rebola no século XIX, que confunde a ‘cidade-luz’ com os carros incendiados.
Essa terra, que já foi de heróis e santos, tudo renegou e trocou, pela curta glória de uma campanha militar que acabou mal, e por uma utopia (em que nunca acreditaram!) que acabou pior.
Matou o rei, não consegue arrepender-se, e, num misto de estupidez e má consciência, tem vindo a ensaiar a fuga para a frente. Não lhe tem valido de nada. O tempo e o espaço encurtam-se cada vez mais.
Desde que o último dos Capetos caiu guilhotinado, o que é que podemos recordar da História da França? Que sinais de perenidade? Que sinais de futuro, se a juventude não os entende?
O que está a acontecer em França não é fruto do acaso, não é nenhuma surpresa. A recente comunicação de Chirac meteu dó e explica tudo.
Tiraram os crucifixos das paredes, mas sabem que os islamitas nunca retirarão os seus símbolos de nenhuma parede. Porque os amam, porque os respeitam, porque não têm vergonha deles, porque sentem, que sem eles, perdem a sua identidade. E não são assimiláveis, porque a sua cultura é mais forte. São mais fortes porque acreditam em Deus.
Os franceses (e os nossos afrancesados) já nem percebem isso, o que é verdadeiramente dramático. O laicismo que não dá alma, nem para ganhar ao chinquilho, tolda-lhes os sentidos e a razão.
Estes franceses vão ceder sempre e quando se sentirem encurralados, irão disparar, vão matar magrebinos. As famílias destes, na Argélia, em Marrocos, por toda a parte, como irão reagir?
A Europa está farta de pagar pela irresponsabilidade da República Francesa e da ‘sua revolução’. Mais uma vez não se vislumbra nada de bom. Não tardará muito, e vamos ter problemas no flanco sul por causa destes jacobinos.
E já agora, mandem vir os turcos também.

sábado, novembro 05, 2005

As Côrtes da Guia

Passado um ano, é possível estabelecer uma leitura dos factos:
Na liberdade que vai da Senhora da Guia para a boca do Inferno, entre a luz e as trevas, a partir do mais raso dos cabos, distingo pela expressão representativa – o Padre que celebrou a Missa, o Duque de Bragança, o Régulo de Peciche, um brasileiro de Espírito Santo e a memória convergente de Henrique Ruas, entre muitos outros convivas.
Quinze de Setembro, dia de todas as dores. Plena consonância entre as palavras, os sons e os actos.
Na singularidade deste encontro, sucedeu estarmos todos de frente para uma realidade mais forte – a representação não se esgotava na soma das partes.
No fim, foi distribuído um pequeno livro que deu sentido à festa.
O cronista diria:
Desde o Rei D. Miguel que não se reuniam as Côrtes!

Imagino a possibilidade de convocar e reunir, sob a égide do Príncipe Português, as representações necessárias e suficientes da diversidade Lusíada, com o sentido de reconstruir o mosaico de serviço universal que já fomos e continuamos a ter capacidade para ser.
O mundo português desarticulado, órfão, que não se sente representado nas instituições republicanas, sem o rei, ainda assim vem ao encontro da esperança no antigo acolhimento, de um rumo certeiro para as suas vidas, hoje entaipadas em conceitos artificiais e enganadores. No fundo, nunca deixaram de acreditar. Sabem que os portugueses acabarão por dar a volta por cima e que isso será benéfico.
Essa grande comunidade de comunidades, anseia por muito mais que uma sigla inócua, sem qualquer conteúdo, porque não possui o indispensável “traço de união” que a todos irmana, que simboliza a verdade histórica, a vida em comum, a unidade do passado, presente e futuro.
As “Côrtes do Mar”, como passarei a designá-las doravante, seriam convocadas informalmente com o objectivo de preencher todo esse vazio da representação que sentimos, náufragos em terra, saudosos dos caminhos marítimos que nos uniam.
Assim instituídas, realizar-se-iam regularmente, seguindo a rota dos descobrimentos, abertas a todo o mundo lusíada que quisesse celebrar o reencontro de um destino comum. Uma única condição: – honrar os compromissos legitimamente assumidos no passado e os que se firmarem para o futuro.
Reconstruir uma utopia? Não.
Mas reconstruir as estruturas do poder misto, compromisso que sempre existiu entre o permanente e o efémero, base e referência para qualquer comunidade humana com futuro. Os alicerces, ainda visíveis, merecem esse esforço, a benefício da Independência dos povos envolvidos.
Os novos “trabalhos de Hércules” abrangeriam inicialmente todas aquelas áreas desprezadas pelos “poderes eleitos”, que não rendem votos ou proventos imediatos. Campo de acção não faltaria.
Tem a palavra o Príncipe.

terça-feira, novembro 01, 2005

Celebrar a vida

Hoje celebra-se o “Dia de todos os Santos” mas a maior parte das pessoas não sabe, até porque os ‘media’ têm vindo a alertar a população para o terramoto de 1 de Novembro de 1755.
Alguns políticos que vivem em zonas de risco, Lisboa e Algarve, já foram incomodados com a seguinte pergunta dos jornalistas – se hoje ocorresse o terramoto de 1755, estaríamos preparados para o receber?! Chegou-se, inclusivamente, à conclusão, que o Marquês estava em melhores condições do que nós!
Aos “Santos”, espécie lendária para a maioria, disseram nada.
Esta é, portanto, a animalidade que nos rodeia e que, mais uma vez sem o saber, nos anuncia o próximo fim dos tempos, para que se cumpram as Escrituras.
Os sinais, aqui em Portugal, multiplicam-se. Não se limitam a comemorar guerras civis, terramotos ou mudar os nomes às ruas e pontes – fazem estátuas a tudo o que ‘mexe’, usam as datas como arma de arremesso, são afinal, piores que os animais.
No tempo da Monarquia, daquela que não tinha medo dos sismos, porque tinha outros alicerces, as expressões da memória colectiva, fixavam-se na pedra ou no bronze, mas viradas para Deus. Os sinais da nossa passagem, assinalavam-se na simplicidade de um padrão, encimado com a Cruz.
Hoje, perdida a esperança na eternidade, o furor comemorativo ultrapassa tudo o que se tem visto – fazem (imprudentemente) estátuas aos vivos, condecoram-se uns aos outros, e virá o tempo, em que serão embalsamados à nascença! É a cultura da morte, não da vida.
A cultura da vida tem outros sinais. Que se descobrem no último e contraditório soneto de Bocage – “ oh gente ímpia, rasga meus versos, crê na eternidade”.

terça-feira, outubro 25, 2005

"O Fim do Regime"

- Quando aparece alguém a anunciar convictamente o fim do regime, o Interregno interessa-se e amplifica a mensagem, com a devida vénia:

".... O fim do regime

A candidatura de Cavaco Silva à Presidência da República constitui a última hipótese de salvação do regime do Bloco Central mas, paradoxalmente, é também o sinal de colapso desse mesmo regime.

O regime do Bloco Central criado no seguimento do Período Revolucionário em Curso (1974-1975) está em crise em grande parte por causa da máquina administrativa do Estado que criou e multiplicou. Estado esse que já nem tem verbas para se servir a ele próprio, mantendo os salários e as pensões, quanto mais para servir o país. Os últimos governos do PS e do PSD tentaram fazer pequenas adaptações, mas a reforma do Estado sovietizado montado e consolidado ao longo de trinta anos dificilmente se leva a cabo com pequenos remendos.A candidatura de Cavaco Silva pretende ser um factor de estabilidade mas a agenda que de facto defende é de garantir o controle necessário para que se implemente uma urgente instabilidade no aparelho administrativo do país. Todos sabemos que não há outra saída e a candidatura de Mário Soares tem de prosseguir exactamente os mesmos objectivos de reforma do Estado. Aliás Mário Soares já desempenhou esse papel quando, como Primeiro Ministro, permitiu que Ernani Lopes fizesse cortes de 30% no rendimento dos funcionários públicos, mas que agora não temos os instrumentos que a inflação permitia para os implementar.
Em suma, teremos um Presidente da República a fazer as funções de um primeiro ministro popular o que levará a perder grande parte da popularidade com o apoio às reformas urgentes do Estado. E quando as reformas forem implementadas nem teremos Governo nem teremos Presidente da República porque ambos se aliaram a fazer política que nenhum deles quis fazer sozinho.
Imaginem o que será quando a popularidade do Presidente da República descer abaixo dos dez por cento. Será que pede a demissão e o presidente da Assembleia da República assume o poder até novas eleições? Será que os militares intervêm derradeiramente no país instaurando o Presidencialismo, o Parlamentarismo, o Autonomismo ou a Monarquia? Qual será o papel da Espanha, dos Açores e da Madeira?
O Regime do Bloco Central acabou e será um dos seus protagonistas que o vai terminar.
.
* Tomás Dentinho
Director de 'A União'
Angra do Heroísmo. ..."

A questão Turca

“Aqui venceremos ou morreremos” – foi a divisa de D. João de Áustria!
A 7 de Outubro de 1571, a armada católica esmagou o turco Ali-Pachá em Lepanto, numa batalha decisiva para a sobrevivência da Cristandade.
Mas a longa tenaz do Islão nunca deixou de apertar. A ameaça que vinha do Oriente não abrandou e manteve-se às portas de Viena.
Metternich, o chanceler austríaco que “travou” Napoleão, quando lhe perguntavam “onde era o Oriente?”, explicava – “O Oriente começa no fim da minha rua”!
O Império Otomano, que durava desde o século XIII, desfez-se enfim, batido pelas forças Aliadas, nas sequelas da primeira guerra mundial. Kemal Ataturk e os seus “jovens turcos”, tentaram então “ocidentalizar” a Turquia e construíram sobre as ruínas do velho Califado, o Estado republicano e laico que chegou aos nossos dias.
Esta breve resenha histórica para situar a questão da actualidade:
Deve a Turquia fazer parte da União Europeia?
A resposta seria simples se houvesse um entendimento comum sobre o que é a União Europeia, que como se sabe não há!
É uma simples associação de comércio livre? É uma Instituição comercial que pretende ter uma política comum? É uma associação política de Estados, que visa tornar-se um Estado federal? É uma regra moral? É uma circunstância política?
Da resposta a esta e outras perguntas poderia resultar uma aproximação ao que se pretende – satisfazer ou compensar os turcos pelos serviços prestados durante a guerra-fria à causa do Ocidente, representada pelos Estados Unidos.
Aliás as posições contraditórias e egoístas de alguns Estados comunitários (a França, por exemplo), fazem lembrar curiosamente as mesmas desconfianças que no século XVI se instalaram entre os estados Cristãos, disponíveis para fazer frente à ameaça turca! Com efeito os esforços de S. Pio V para unir a Cristandade, esbarravam muitas vezes nos protestos da Espanha, que acusava a Sereníssima República de Veneza de fazer pactos com os turcos, à revelia da causa comum!
Mas regressemos às dúvidas: as do lado turco.
Os turcos perderam a memória e já esqueceram o seu passado de grandeza?
Setenta anos de “deslocação de interesses”, sublimados nas pequenas vitórias de Ataturk, serão suficientes para apagar as grandes vitórias, como a tomada de Constantinopla?
Os optimistas europeus, terão imaginado que poderia acontecer aquilo que em séculos nunca aconteceu – a possibilidade dos turcos serem assimilados, já não digo pelos nossos valores, em claro declínio, mas pela miragem de uma sociedade de abundância?
E podemos também acrescentar os convenientes e inconvenientes afincadamente discutidos nas reuniões de Washington e Bruxelas – a decepção e a reacção turca!
Como se vê problemas não faltam.
Por exemplo – se abrirmos o espaço Shengen, bastará que os emigrantes turcos chamem as suas famílias para junto deles, para provocar de imediato um entupimento geral na União!
Ou ainda – e se eles, ressentidos connosco, resolvem estender a sua influência a oriente e regressar ao Califado?!
Não vale a pena andarmos às voltas porque as coisas são aquilo que são e só os aprendizes de feiticeiro pensam ter descoberto a pólvora, ou então repetem, que o mundo entretanto mudou. Claro que o mundo está sempre a mudar, infelizmente, nem sempre no melhor sentido! Pelo contrário, em termos de carácter e dignidade, regredimos. Como esperar então que os outros tenham mudado para melhor?!
Os turcos são os turcos e nós somos nós. Temos culturas diferentes, religiões diferentes – eles pelo menos, têm religião, e não vão abdicar dela em nome de qualquer laicismo que lhes queiramos impingir. Nesse sentido, os turcos devem continuar a ser tratados como turcos para que não haja equívocos desnecessários.
E para que a vitória de Lepanto não tenha sido em vão.

sexta-feira, outubro 21, 2005

“Há quatro orientes”

À volta da mesa estavam sentados cinco comissários presidenciais. Curiosamente, o número dos partidos representados na Assembleia da República! Se rápida e inadvertidamente fizéssemos as contas, chegaríamos à conclusão que havia um partido com dois candidatos, e inversamente, um candidato para dois partidos. Mas as coisas nunca são tão simples.
Eu estava sentado defronte.
O centro de mesa era ocupado pela incontornável Judite, que virava e revirava os olhos para um e para o outro lado. Sorriso permanente, mas não sou capaz de definir se era prazer ou dor!?
Enquanto ouvia mais ou menos desinteressado a conversa, fui apanhando algumas coisas – palavras soltas, tiques, umas sentenças aqui e ali. Mas houve revelações importantes.
Chamou-me a atenção o facto, de pelo menos três dos comissários, garantirem que os seus candidatos eram rigorosamente apartidários. Eram a reserva da República, que à vista do naufrágio iminente da Pátria, tinham saído de suas casas, recolhido umas assinaturas, para se sujeitarem ao voto dos portugueses. Achei bonito!
O comissário de Jerónimo e a pequena Drago não confirmaram a tese. Estavam ali para outra coisa e não esconderam: fazer propaganda partidária pura e simples. Também achei bonito.
Judite continuava a virar-se e a revirar-se porque o diálogo era sobre a esquerda e a direita! Os comissários, aparentemente todos da esquerda, acusavam no entanto um deles, de ser da direita. A conversa estava neste ponto quando surgiu a frase da noite, proferida em primeira-mão pelos chineses – “há quatro orientes”!
A revelação foi demasiado forte. A grande arquitecta, que estava ali por Alegre, reagiu de imediato e esclareceu que havia mais um oriente – o que tinha a mania de estar sempre por cima! Houve uns momentos de silêncio e desnorte, até que Roseta desfez as dúvidas, dizendo que se estava a referir a Cavaco! Ultrapassado o incidente, o comissário de Soares, exemplificou sobre a produtividade na Ásia, afinal o grande oriente que faltava, e confirmou que Mário era o candidato do futuro.
Depois de mais esta revelação importante, o debate baixou nitidamente de nível, com a pequena Drago a interromper sistematicamente o comissário de Cavaco, revezando-se nessa tarefa com o nosso sósia do “Duce” (semelhança física, naturalmente). Aguentei enquanto pude, mas tive que desligar a televisão.
Estava em causa a próxima Chefia de Estado, mas ninguém conseguiu subir o indispensável degrau. Falaram do que são capazes – de contabilidade.

quarta-feira, outubro 19, 2005

Passos para Deus

“Há o homem grande e o homem pequeno, há o homem maduro e há a criança, mas a trama da humanidade, a trama do coração existe tanto no homem maduro como na criança.
Nós somos crianças, mas somos chamados por este caminho, onde nada é perdido, nada é omitido, nada é, sobretudo, renegado. Mas tudo é reencontrado, tudo é, finalmente encontrado. Da aparência da beleza vem a dor que a faz resgatar e, finalmente, amar, porque a palavra amar não tem qualquer possibilidade de ambiguidade: é afirmar com espanto, com o espanto de todo o próprio ser, o Outro, o Destino, e esta presença do Destino, este sinal, este corpo do destino que são o outro homem e o céu e a terra e tudo o que acontece. O meu bem, a minha dor e o meu mal tornam-se dignos de amor, tudo é novo.
“Tudo é novo”, diz São Paulo. Eis que passou o que é velho, já não existe, somos crianças, mas esta é a estrada pela qual somos chamados, frente a todas as coisas. Não há que omitir ou renegar nada, não há qualquer mutilação.
Há só uma ressurreição.”

Luigi GIUSSANI, “A descoberta de don Juan” in As minhas leituras.

terça-feira, outubro 18, 2005

Inferioridades

Duplicados e em inferioridade face ao outro grande colonizador ibérico, Portugal marcou presença na cimeira de Salamanca. O Director do jornal ‘A União’ de Angra do Heroísmo, também tem dúvidas sobre a qualidade da nossa representação! Com a devida vénia, transcrevo:

“ Cimeira Ibero-americana


Estou por aqui ao lado, em Bragança, bem perto de Salamanca onde está a decorrer mais uma Cimeira Ibero Americana congregando grande parte dos presidentes, chefes de governo e ministros dos negócios estrangeiros das duas dezenas de países que compõem a América Latina, Espanha e Portugal.

Apetece ir lá, tomar uma cerveja com Hugo Chavez na Praça Mayor, ouvir a conversa de Lula sobre a corrupção, ouvir um bom som brasileiro, escutar os comentários dos estudantes universitários, e fazer uma saúde qualquer ao jantar no restaurante a Mesta, falando de touros e de mar. Se estivermos com atenção às notícias o que preocupa os espanhóis são as migrações. O projecto é conseguir um modelo comum de gestão de migrações entre os vários países de forma que os mais amarrados à Europa possam passear, investir e trabalhar para os vários sonhos por construir na América Latina. E também para que recebamos brasileiros e venezuelanos que é uma das soluções de irmos competindo com a China sem atrair muitos sub – saharianos e ucranianos. O que preocupa os castelhanos é assim uma gestão dinâmica da cultura que é a forma mais bruta de procurar um modelo comum de gestão de migrações. No concreto tratar-se-á talvez e somente de relativizar o Espaço Shengen, produto da Alemanha e da França, para facilitar vistos, permitir acessos aos sistemas de saúde e de educação e facilitar a cobrança de impostos e contribuições. Os portugueses, estranhamente, estão preocupados com um piloto que aguarda há um ano julgamento na Venezuela por ser suspeito de tráfego de droga. A atender às notícias parece que a ausência de Fidel de Castro também é uma questão essencial para a estratégia nacional face à América Latina e a Espanha. Á primeira vista apetece ridicularizar esta personalização da política internacional, como se tudo dependesse do José e do Fidel. Todavia, de um ponto de vista mais abrangente, talvez seja mesmo mais importante para o futuro das pessoas e dos sítios da América Latina a forma como se controla o circuito da droga no mundo e a maneira como evolui o regime de Castro. Para quê mais um papel para supostamente facilitar uma melhor circulação de pessoas se essa burocracia será difícil de melhorar em países como os nossos? Sabemos bem que ou há uma liberdade de circulação quase total e o controle é feito pelos colegas de trabalho e vizinhas de bairro, ou então o dito modelo de gestão de migrações só melhorará a vida para alguns e criará mais papéis impossíveis para os outros. Vamos então à agenda portuguesa que passa por beber um copo com Hugo Chavez e marcar um jantar em Trinidad de Cuba com Fidel, Lula, Hugo, João Carlos e... A chatice é que não sei se temos um representante nacional à altura!

sábado, outubro 15, 2005

Repúblicas de exportação

O produto completo, (comercializado sob a forma de Kit), inclui “democracia” e “separação da Igreja do Estado”, mas aceitam-se encomendas para “ditaduras especiais” ou outras fórmulas sustentadas de “colonização”!
Os leaders de mercado desta antiquíssima “novidade”, com patente registada e bons resultados (veja-se o caso de Portugal), são os Ingleses. Uma longa experiência e uma retaguarda muito sólida, dão garantias de assistência imbatíveis.
O modelo americano tem dado problemas! É um subproduto da casa-mãe britânica, com péssimo apoio de retaguarda (por causa da “república”), uma assistência incompetente, e tem conhecido vários reveses nos últimos tempos.
Por exemplo, no Iraque, e outros mercados semelhantes, onde o cliente não quer “a separação da Igreja do Estado”, o modelo americano insiste em vender o kit completo, e tem havido muitas reclamações por isso. Os clientes protestam e com razão, dizendo que quer na Inglaterra, quer nos Estados Unidos (e já agora Israel), o produto é comercializado sem “a separação da Igreja do Estado”, e querem portanto o mesmo tratamento!
Os vendedores americanos (com os Ingleses por perto) lá vão explicando, que uma coisa são produtos exclusivamente para exportação e outra coisa são produtos para consumo interno. Não há confusão possível.
É só ler as instruções: “Este produto, conhecido por ‘República democrática laica’, é exclusivamente destinado à exportação, e tem como principal objectivo, enfraquecer o cliente por dentro, para poder ser explorado por fora. Trata-se de um brinquedo que entretêm imenso e que dá uma enorme sensação de independência, enquanto o cliente não acorda! Depois vem a inevitável ressaca, que deve ser devidamente acompanhada pelos nossos técnicos, ‘eleitos’ no local, com a máxima protecção e sigilo. As reclamações deverão ser tratadas pela comunicação social, entretanto livre, e ao serviço do nosso produto!
Contra indicações: Deus, Pátria, Rei.”

terça-feira, outubro 11, 2005

O que interessa

Terminou o arraial... ao longe, ainda se ouvem os ecos da festa – são os dirigentes do bloco central a repetir o habitual refrão: estas eleições “não contam para o totobola”, porque os partidos, dizem eles, apenas participam nesta quermesse, em nome dos superiores interesses da República! Ninguém duvida.
Trata-se de orientar os autarcas na melhor maneira de distribuírem obras e benesses, entre empreiteiros e amigos. Mas deixemos isto, porque é matéria dada.
O que me interessa verdadeiramente é o que se está a passar em Ceuta e Melilla. Deixo Viena de Áustria para outra ocasião.
No flanco Sul a Europa fraqueja.
Se recuarmos ao século VIII, poderíamos imaginar que Gebal Tarique, quando atravessou o estreito, que tem o seu nome, teria sido precedido por muitas levas de emigrantes berberes, que assim prepararam a invasão e o triunfo! É a imaginação a falar?! Pois que seja.
Mas a realidade não é fácil de escamotear ou esconder.
Os resultados do apoio ao terrorismo por parte das forças bem pensantes e progressistas, na Europa e nos Estados Unidos, as descolonizações apressadas e “exemplares”, o surrealismo dessa miríade de “estados” (de sítio?) afro-asiáticos, sem qualquer sustentabilidade ou futuro, toda essa imensa estupidez e ganância, está à nossa vista, defronte das “muralhas” de Ceuta e Melilla.
Estão desesperados, com fome e com sede, e preferem morrer ali, a voltar para os paraísos terreais, imaginados e metodicamente construídos, por todos nós! Muitos dos galardoados com o Nobel da Paz, estão entre os possíveis carrascos.
E agora?
Deixar entrar toda a gente?! Deixá-los a morrer no deserto?!
Ou encontrar um meio-termo hipócrita: entram uns e morrem outros?!
Estas são as questões incómodas que gostaria de ver tratadas com seriedade e coragem pelos actuais políticos portugueses, muitos deles com especiais responsabilidades nesta matéria.
Em lugar disso, Sócrates entusiasma-se com os sucessos do futebol angolano, a face de ouro de uma moeda que esconde a miséria dos miúdos de Luanda, a comer nos caixotes de lixo, enquanto os pais tentam desesperadamente entrar na Europa, à procura de trabalho e pão.
O futebol, para enganar o estômago?
Não se iludam, enquanto não tivermos uma política que sem sofismas, resolva satisfatoriamente a herança colonial, Portugal não conseguirá sair deste atoleiro em que se vai revolvendo. Uma política que não pode continuar a pactuar com regimes absurdos, que apenas mostram aptidão para governar diamantes e petróleo.
Portugal e a Europa não podem receber os emigrantes de Ceuta e Melilla. Mas Portugal e a Europa podem e devem criar condições para que os naturais dessas antigas colónias, possam viver condignamente nas terras onde nasceram, quando se sabe, que muitas delas são ricas e férteis!
É aceitável que um angolano tenha que emigrar?
Então para que serve a “independência”?

segunda-feira, outubro 10, 2005

Domingo começa

Não acaba, como escreveu Vasco Pulido Valente em brilhante artigo que, com a devida vénia, transcrevo na parte que me interessa:

- “ (...) A bem ou a mal, temos de saber que existem eleições e conviver com criaturas que não se recomendam. Fugitivos da justiça, trapalhões de carreira, corruptos comprovados, frades sem roupeta e filósofos fictícios berram, injuriam, agarram, puxam e abanam o cidadão para o convencer da sua excelência. Recebendo do Estado mais de 50 por cento do dinheiro que gastam, não são responsáveis financeiramente. Impedidos de tocar na lei do arrendamento, não são responsáveis pela direcção urbanística de parte alguma. Sem autoridade sobre a PSP e a GNR, não são responsáveis pela segurança. Não são também responsáveis pelo ordenamento territorial, pelo trânsito, pelo sistema escolar (felizmente!), pela saúde ou até por obras públicas de certo peso. São, em suma, irresponsáveis por 308 parcelas do território (tirando as freguesias), metade das quais se devia abolir, e servem principalmente para distribuir dinheiro (com duvidosa utilidade) e prover os compadres com empregos, quando não com negócios. Não admira que este enorme ‘saco azul’ inspire uma campanha estridente. Só é pena já não haver maneira de lhe escapar, como Jane Austen docemente escapou ao terramoto da Europa. Ao menos, domingo a feira acaba.”
“Domingo acaba” – Jornal Público de 7/10/05

Para lá do desencanto pelo paraíso perdido, que deliberadamente omiti, (porque nós ainda não desistimos), o autor sintetiza de forma magistral, a inutilidade desta “feira” autárquica, ao mesmo tempo que explica o enorme interesse que os partidos e o Estado napoleónico restante, têm na continuidade do “sistema”.
Pelo avesso, Pulido Valente fornece a doutrina para a reconstrução de Regiões Autónomas, onde os respectivos eleitos tenham de facto alguns daqueles poderes que actualmente irresponsabilizam os autarcas. Sem desculpas, directamente responsáveis perante as populações, empenhando a sua palavra, estes são os únicos eleitos que podem refrear as ambições centralistas dos partidos. Ainda que concorram com o seu emblema.
Discordo, claro, da via redutora de concelhos, porque isso significaria que não se tinha invertido a desertificação do interior do País. E eu quero crer que a autonomia regional é remédio para essa maleita.No resto, estamos de acordo.