quinta-feira, março 30, 2006

“Entrou o Bispo”

Dizia-se quando a sopa se pegava ao fundo da panela e ficava a saber a queimado! A origem da expressão nunca a soube ao certo e por isso sempre associei a distracção e euforia que se apoderava das pessoas quando o Bispo as visitava em suas casas, cumprindo uma arreigada prática pastoral. Já se sabe, panela da sopa ao lume, toda a gente de volta do Bispo...e a dita esturricava-se!
Mas o Bispo não entrou! Passou diante do muro da quinta, terá olhado de soslaio para a imponência do portão, e seguiu em direcção ao Asilo mais próximo!
Afinal, tantos velhinhos para visitar, tantos doentes para se inteirar, que não houve tempo para a prevista passagem lá por casa.
As fatias douradas que a minha mãe fez, a ‘irmandade’ convocada, o desconsolo e a incompreensão, tudo isto... porque o Bispo não entrou!
A mensagem poderia ter ficado por aqui, a vaidade também poderia ter ficado por aqui, mas existe um outro ditado, este de origem conhecida, que reza assim: ‘Quem não se sente, não é filho de boa gente’.
E pela minha mãe, que as fatias douradas como eu, arrisco a excomunhão dizendo o seguinte:
Prior e Bispo, umas santas pessoas, mas que comungam por certo daquela deformação que invadiu a Igreja ao mesmo tempo que invadiu o mundo! A regra das maiorias! Com todos os complexos de esquerda daí derivados.
Termino com uma pergunta-resposta: Então os paroquianos não são todos iguais?
Eu acho que não. Prior e Bispo também acham que não, mas por outra razão!
Temos o caldo entornado, mas não esturricado.

terça-feira, março 28, 2006

Segunda-feira à noite

Mais uma noite de guarda àqueles que me protegem, mais uma noite de silêncio, para ouvir falar de teatro! Na televisão!
Programa com um início surpreendente! Desde o primeiro minuto rendido à expressão de Fátima, cada vez mais bela, de encarnado e bem segura! Ontem, enquanto olhava com enlevo e carinho para Manuel de Oliveira, pareceu-me a Lollobrigida!
Eu sei que o isolamento e o próprio ambiente um tanto soturno, que me rodeava, prestam-se por vezes a devaneios que a realidade no dia seguinte desmente, mas foi assim, neste estado de alma, que acompanhei a evolução dos ‘prós e contras’!
Manuel de Oliveira, confirmei-o ontem de novo, é de facto muito mais interessante que os seus filmes. Que são naturalmente obras-primas, não para ver, mas para existirem como tais. Talvez as próximas gerações as entendam...
Não me lembro de ter assistido do princípio ao fim a nenhum desses monumentos, mas fiquei com pena de não ter visto aquele que conta, ou não conta, a história do nosso desventurado Afonso VI, um Rei, que se fosse Inglês, teria direito a verso e prosa pela pena de um Shakespeare. Mas nós estamos assim, incapazes de nos distanciarmos do objecto dos nossos ódios e estimações. Incapazes de dar vida a um personagem histórico que tenha sido Rei! Ou há-de ser um herói indiscutível, ou há-de ser um vilão indiscutível!
Manuel de Oliveira teve e tem no entanto o mérito de ter tentado levar esse drama para uma tela, e será lembrado por isso.
Mas por exemplo, quem se atreveria a ir ver um filme sobre D. Sebastião?
Ou antes, que cineasta, ou que autor, estaria hoje em condições de fabricar uma obra de referência sobre tão controverso personagem? Que lhe fizesse justiça? A ele e a nós? Uma obra que imaginássemos ao mesmo tempo da carne e do osso da nossa história presente... e futura?!
Foi com este pensamento que me esqueci de Fátima, que estava agora de pé e de costas, menos favorecida, a conversar com uma Ministra da Cultura, de pescoço atlético na estreiteza dos ombros, penteado ‘à la diable’, a boca recortada no além-mar, o princípio de outro devaneio!
Tempo para o pano descer sobre mim. Estávamos no segundo acto...

domingo, março 26, 2006

A Madeira do Vosso Descontentamento

Já por mais de uma vez aqui o escrevi a letras garrafais, e repito convictamente:
Quando a história se referir a esta III Republica, iniciada em 25 de Abril de 1974, apenas registará de positivo, na coluna dos ganhos, a criação das Regiões Autónomas da Madeira e dos Açores!
Em termos de perdas, em lugar de grande destaque, a miserável descolonização, a que alguns traidores chamaram exemplar!
Vem isto a propósito do contínuo desgaste a que é submetido o Governo Regional da Madeira, e o seu Presidente, sistematicamente acusados de tudo e mais alguma coisa, nomeadamente de deficit democrático.
Nos Açores a situação só não é semelhante, porque tem havido alternância no Bloco Central, ou seja, entre as duas ‘famílias republicanas’ que desde sempre nos governam.
Criadas em contexto revolucionário, as Regiões Autónomas escaparam ao controle dos seus criadores, que hoje se pudessem recuariam, e daí o arrependimento e raiva, neste caso, de ambas as ‘famílias’!
Não há oposição em Portugal, e a oposição que há, é esta farsa que se repete de tantos em tantos anos, que não é alternância, muito menos alternativa, e corresponde apenas a ciclos de dominação, de uma ou outra das citadas facções.
Eu sei que há quem veja grandes diferenças entre o Estado Novo e a República de Abril! Para mim, para além de frequentarem as mesmas tascas, a democracia orgânica de Salazar, não é assim tão diferente desta democracia super corporativa em que vegetamos.
Era nisto que pensava enquanto lia um artigo de fundo no DN, da autoria do Professor António Costa Pinto, a perorar sob o título: ‘semidemocracias’!
O termo de comparação seria a República Portuguesa! A Madeira, o mau aluno e o mau exemplo! A plena democracia, aqui, na república restante! Mitigada, na ‘mexicana’ pérola do Atlântico! E os sintomas do costume – ‘no partido dominante, nem o dirigente do partido muda’!
Um duplo erro do articulista. A nossa República, globalmente considerada, também é semidemocrática, e estou a ser benevolente: os mesmos dois partidos no poder há trinta anos! A mesma Constituição antidemocrática, vagamente em vigor, com os mesmos dois partidos incapazes de a pôr de acordo com a realidade portuguesa! E aí, continuam de acordo!!!
A Madeira de Alberto João limita-se a responder em termos dialécticos à animosidade que vem do continente, carregada de sonhos de sujeição. Nada mais lógico.
Por isso, enquanto a ‘semidemocracia’ da III República vigorar, Alberto João Jardim vai continuar a ganhar eleições.
E ainda bem.

sexta-feira, março 24, 2006

Se o Iraque não existisse...

Foi uma fatalidade o Iraque...Mas que podia eu fazer? Apertado pelo castelhano, tive que ir até aos Açores!
Mas vou dar a volta por cima, e já não é a primeira vez!
Lembram-se do MRPP?
Para enfrentar os cães do Cunhal, ultrapassei-os pela esquerda. Depois foi só virar à direita e seguir o meu caminho. Fui um herói na Faculdade! A partir daí pude escolher um Partido decente. Sá Carneiro, aliás, esperava por mim, porque sabia que eu era um jovem patriota!
Não me digam que acreditaram na história do maoísmo? Só os otários!
Nasci burguês, morrerei burguês, tudo normal. Aquilo foi mais por causa da miúda... Sempre soube de que lado soprava o vento. É do outro lado do Atlântico. Os américas ajudaram-me bastante, e afinal foram eles que ganharam a guerra.
Arranjei bons amigos na direita, a minha folha de serviços permite todas as liberdades! As nódoas ainda lá estão – “nem mais um soldado, nem mais um tostão para as colónias...” – vão demorar tempo a desaparecer, mas isso já não é para a minha vida.
Quando me lembro disso, até me arrepio! Mas como é que chegava ao Ministério dos Negócios Estrangeiros? Às Colónias? Como é que dialogava com os tiranetes que lá pusemos?
Tudo junto, deu-me a União Europeia!
Aqui um parênteses de elementar justiça: toda a gente vê que eu não tenho nada a ver com aquela malta. Sou um político com outro nível, aquilo é uma cambada de jacobinos! Lembram-se do pobre Buttiglioni!
Mas o Iraque é de facto um problema... A invasão foi um crime, não tenho dúvidas, uma mentira pegada, e prejudicial para as nossas cores. Sempre falei disso com os meus botões, mas ainda bem que eles não falam.
Aquilo é um desastre, qual democracia qual carapuça, guerra civil não tarda...
Aqueles americanos, com os ingleses à arreata, não podem andar para aí a fazer asneiras a torto e a direito! No tempo da guerra-fria eram mais comedidos. É caso para dizer que são piores sozinhos, que mal acompanhados!!!
A União Europeia não conta, quando toca a unir, vigoram como sempre vigoraram os interesses nacionais...dos grandes.
O que me preocupa é como é que eu vou sair desta história?!
A China?
Não há nada como o primeiro amor...

terça-feira, março 21, 2006

Nuno Álvares no Feijó

Sexta-feira passada, dia 17 de Março, a notícia de uma palestra sobre o Santo Condestável. Oportunidade para ouvir de viva voz o Duque de Bragança falar daquele seu ilustre antepassado! A sul do Tejo, no salão paroquial da Igreja do Feijó e por iniciativa do Corpo de Escuteiros local.
Bela iniciativa e belo pretexto.
Grande simplicidade como convém a um Santo, muita juventude, um livrinho a propósito e vamos lá reavivar os meus escassos conhecimentos:
Rompeu com a linha dinástica, soube purificar a memória, não destruiu nada, acrescentou-lhe um novo conceito – Pátria!
Deus, Pátria, Rei. Simples e eficaz!
Herói da minha juventude, outro Galaaz ou Parcifal, foi perdendo fulgor, usurpado pelo regime usurpador. Esteve para ser saneado no 25 de Abril!!! Com outros egrégios Avós!!! Tal foi o uso que dele fizeram, a confundirem o povo, tantas estátuas e ruas...quando ele exigiria apenas o exemplo.
Modelo para a juventude, a juventude não o conhece. Modelo de militar, os militares não o seguem. Modelo de dedicação ao próximo. O próximo que feche a porta!
A conversa seguia informal, o Senhor Dom Duarte falou da canonização em curso e do que isso representaria para Portugal. “Uma lança em África”, digo eu! Lembrando-me da sua insistência em participar, já velhote, na expedição a Ceuta!
Mas um militar que mata castelhanos pode ser Santo?
Na crueldade sem rosto do mundo de hoje, no tempo das ‘guerras preventivas’, a pergunta soa a falso. Nuno Álvares defendeu a Sua Pátria, não atacou ninguém. Poupou até ao limite a vida dos seus homens, e a dos seus inimigos! Que o respeitavam, que o admiravam.
O povo dizia que ele era Santo! Então não há-de ser Santo quem, com o mundo a seus pés, abdica de tudo e entra para um Convento! E mesmo aí, nesse Convento do Carmo, escolhe um lugar subalterno, para se dedicar totalmente aos pobres, aos que tiveram menos sorte na vida.
Por esta altura o espírito do Beato Nuno de Santa Maria já invadia o salão paroquial, os escuteiros atentos, ainda ouviram o empenho com que sempre protegeu as minorias, mouros e judeus, em testemunhos que o tempo não apagou! Uma vez mais a deixar a sua marca intemporal!
Uma última questão. E se o Condestável aparecesse de novo, se visse tantos castelhanos, tanta Europa a dar as suas ordens por aqui, como reagiria?
A pergunta está no ar e respondo eu: por muita compreensão e boa vontade que conseguisse angariar, estou convencido que Nuno Álvares Pereira, repetiria o gesto ameaçador que exibiu perante o embaixador castelhano: a cota de malha ainda ali estava debaixo do burel do monge, para o que desse e viesse. O embaixador castelhano percebeu imediatamente a mensagem.
E entre nós, alguém percebe alguma coisa?

sábado, março 18, 2006

As Cores de Portugal

Interpelado por um ilustre visitante, que não conheço, mas que demonstra preocupação e sapiência sobre a simbologia que presidiu à escolha das ‘cores nacionais’, regresso ao assunto, que por manifesta falta de espaço, não cabe, nem coube, na caixa de comentários do postal anterior.
Já me referi a este tema no ‘Portugal no arco-íris’, mas agora pretendo ser mais explícito.
Quais são, afinal, as cores de Portugal?
A própria dúvida, assim colocada, já indicia uma triste realidade: um dos objectivos do partido republicano foi atingido – ninguém tem certezas, estamos divididos, fomos enganados, já não sabemos quem somos. Os republicanos falsificaram a história, adulteraram os nossos símbolos. Não adianta ver o que não está visível, o que não se entende. O que não está lá, porque foi retirado, de propósito.
Retiraram a Coroa do Fundador, símbolo da Realeza e portanto da Independência, introduziram o ‘verde e encarnado’, seja da União Ibérica, seja da carbonária italiana, símbolo da dependência!
O Branco, onde tudo se pode inscrever, onde inscrevemos o sinal da nossa Missão, a CRUZ, esse caíu! O Serviço que justificou a Independência, ‘o aumento da pequena Cristandade’, aparece apenas, de forma velada, na formação dos escudos e quinas!
O Azul das Terras de Santa Maria, o Azul de Nª Senhora da Conceição, Rainha coroada na Restauração, também desapareceu!
O que resta?
A esfera, coroa fechada de um quinto império, onde não existe a Cruz?
A armilar que abraça o mundo, sem o símbolo Superior do Padrão dos Descobrimentos?
Onde está a Missão? O Estado separado da Nação? Cada um para seu lado?
Paremos para pensar. Existem três momentos culminantes da Independência Pátria, a saber:
Ourique, Aljubarrota e Restauração: Em todos eles se fez juz ao símbolo Fundador – o Branco e a Cruz Azul, mais tarde, o Branco e o Azul em Cruz! A Coroa, quando conquistámos a Independência.
Cabe aqui recordar, para que não existam dúvidas, que o Condestável, ao pôr em causa o direito dinástico, foi percursor, mas no sentido da tradição: ‘Se Deus nos deu uma Pátria, devemos defendê-la’.
Porém, ‘entre os portugueses, traidores houve algumas vezes’.
Assim, no lado errado da história, as datas do anti-Portugal são três também:
O jacobinismo de 1820, acentuado em 1910, e a cobardia de 1974.
Em todos eles fugimos de nós próprios, adoptámos símbolos dos outros, em todos eles trocámos independência por dependência!
Em 1820 renegámos a tradição e aprisionámos o Rei atrás das grades de uma constituição anti-portuguesa. A seguir veio o que se esperava, a guerra civil e a República. Esta, sabe-se hoje, sempre se soube, patrocinada pela Inglaterra que ambicionava as nossas Colónias, tal como as outras potências.
Em 1974, a República consumou o acto e foi altura de nos reformarmos, abdicando de ser uma Pátria Livre e Independente. Não conseguimos assinar a Constituição Europeia, mas estamos muito contentes na Europa. A Europa que nos ature!
Os símbolos seguiram naturalmente todo este percurso de dependências, várias e para todos os gostos.
A matrona de grandes seios mostra à evidência a sociedade infantil em que nos transformámos! O Regicídio, como em França, revela nova faceta infantil e doentia: um acirrado complexo de Édipo. Pelo avesso revela orfandade. Matámos o Pai e procuramos um sucedâneo em qualquer padrasto! De preferência solteiro e beato. Também escolhemos ateus. A seguir vamos a Fátima!
Haverá esperança?
Responde-me o ilustre visitante que o Interregno, não este, o verdadeiro, é ele próprio o sinal iniciático da ‘nova era’! É possível desde que a bandeira volte a ser símbolo do caminho que percorremos juntos há oito séculos. Os desvios e os erros servem apenas para nos indicar que nos afastámos.
O verde e encarnado, são desvios.
A Coroa que falta, é um erro.

segunda-feira, março 13, 2006

As nacionalizações continuam

Somos uma florescente economia de direcção central. Nacionalizamos tudo! Agora é o ‘Gato Fedorento’!
Disseram umas graças, algumas tinham graça, uns anúncios, e aí está a consagração nacional! Com mais juizinho, sem palavrões, porque a audiência é selecta!
Como se houvesse uma audiência mais ‘selecta’ no canal do Estado.
O processo já não sofre dos furores do PREC, e visto de longe parece bastante linear:
- A ‘coisa’ primeiro amadurece, estabelece-se de seguida um largo consenso, os media por sua vez fazem eco, e entre os media, a Televisão Pública chega-se à frente e nacionaliza a ‘coisa’. Fecha-se assim o circuito.
O País entretanto rejubila, mais tarde queixa-se dos impostos, dos funcionários públicos, e finalmente, queixa-se de si próprio!
Vejamos alguns exemplos de nacionalizações de sucesso:
O Benfica em primeiro lugar, esteja em que lugar estiver; o Sporting está sempre em vias de nacionalização; a Catarina Furtado fartou-se rápidamente das agruras do mercado e logo que foi possível quis ser nacionalizada; a PT é um ‘case study’, ninguém percebe se está nacionalizada ou não!
Uma característica une todas estas entidades: adoram ser nacionalizadas! E ao mesmo tempo adoram dizer o contrário!
A única privatização conhecida foi o Herman, que terá caído em desgraça.
Nesta altura quase que apetece gritar: força camaradas, a luta continua.

sábado, março 11, 2006

Uma família feliz

De mão dada, sobem a rampa do Palácio de Belém, felizes da vida, como se tivessem chegado ao topo do mundo. Cume de uma carreira política bem sucedida, um justo troféu para tanta ambição e canseira!
Rei por um dia, ou por cinco anos, talvez por dez, quem não gostaria de ser?
Escrevo estas linhas no divã da psicanálise, expurgado da inveja, do sofrimento da rejeição, dos traumas de infância, de tudo o que possa ofuscar ou diminuir este momento de glória, aquela imagem de felicidade.
Antes porém, debati-me com o meu outro eu, mais selvagem, primário, que me gritava ao ouvido uma série de disparates: que Mário Soares foi coerente ao não cumprimentar o inimigo da véspera, e que essa é uma atitude que está na lógica republicana. Para quê fingir que estou contente com a vitória do outro, se não estou, e se assim a minha neta não pode fingir de princesinha por mais uns anitos?!
O meu outro ouvido também não foi poupado! Dizia-me então a besta que habita dentro de mim: para a República, os Palácios devem ser Museus e não locais de habitação. Os Palácios não são do povo, porque eu nunca vi o povo habitar em Palácios. E continuava o maldizente: o Presidente deve tomar posse no notário e com testemunhas, não há necessidade de festividades e convites. Imagino que quem não votou nele, e ainda foram uns quantos, não deve estar virado para grandes festas, nem quer pagar a conta.
Mas como disse, isto foi antes do correctivo que o psiquiatra me aplicou. Nada de confusões, que eu até simpatizo com o homem.

sexta-feira, março 10, 2006

Um Cabo de Esperança

Quarta-feira, 8 de Março, dia de S. João de Deus.
Um passeio ao Cabo Espichel para festejar os doze anos do Vale de Acór!
Apetece repetir o verso de Camões: ‘Porém já cinco sóis eram passados, que dali nos partíramos, por mares nunca dantes navegados...
Foram mais do que doze sóis... de solidariedade e esperança para muitos, se calhar para todos, sem aritmética, recomeçando sempre, porque é preciso recomeçar sempre.
O dia era de festa mas o promontório, na sua rude majestade, impunha serenidade e limites. Pelo contrário, a memória do Santo rasgava horizontes!
Houve jogos e ensinamentos, almoço e divertimentos, um pouco de tudo.
O casario arruinado, ainda imponente, que inclui um teatro de ópera, recorda aos presentes que aquele local já foi um importante Santuário. Durante o século dezoito chegou a mobilizar vinte e sete freguesias da região saloia, que aqui vinham, em peregrinação, para oferecerem um ‘círio’ à Senhora do Cabo.
No fim, a Missa, para falar com Deus e de João de Deus.
João Cidade, assim se chamava o Santo que nasceu em Montemor-o-Novo, em meados do século XV, que desde criança serviu em Espanha, que trabalhou como pedreiro nas muralhas de Ceuta, que levou uma vida pouco recomendável, que se converteu aos gritos de “Jesus, Misericórdia!”
E que fundou a Ordem dos Irmãos Hospitalários para tratar dos pobres e doentes, e que deixou de pensar em si para pensar nos outros, e que é o padroeiro do Vale de Acór.
O passeio fez-me bem.

quinta-feira, março 09, 2006

O milagre republicano

Com pompa e circunstância cumpriu-se o ritual, Cavaco Silva foi empossado. É o décimo nono Presidente em noventa e cinco anos! O verde e encarnado em pano de fundo e muitos convidados. O Palácio parecia pequeno!
Lá estavam os adversários de ontem aos abraços, esquecidos os insultos da véspera, porque afinal somos todos amigos.
“Não se esqueçam que eu sou o Presidente de todos os portugueses, dos que votaram em mim, mas principalmente dos que não votaram em mim”!
A frase, uma vez proferida, opera o milagre: somos irmãos, estamos de acordo e vamos remar todos para o mesmo lado!
O resto são detalhes do discurso:
Em matéria de política interna, é preciso olhar pelos mais desfavorecidos, até porque eles não param de aumentar!
A construção da Europa precisa do nosso contributo, e nós precisamos do "contributo" da Europa, porque continuamos pobres!
O mar é o nosso destino, e por isso sentei os PALOP à minha mesa. Mas não estamos todos!
A NATO é a nossa defesa, e provávelmente voltaremos a ceder na questão dos Açores, se precisarem de bombardear o Irão!
Mais atentos, os mais interessados: O Príncipe das Astúrias, o Rei de Marrocos, o representante Inglês, e o pai Bush. A União Europeia com Durão e Delors.
Por fim, os ‘finalmente’: o brinde e a medalha. O brinde foi para todos, mas a medalha foi para Jorge. É caso para dizer – a Jorge o que é de Jorge!
E se isto tudo é verdade, e independente da dignidade do empossado, falta no entanto ‘a verdade de tudo isto’!
Falta a verdade da representação, falta o Rei.

terça-feira, março 07, 2006

Promoções de Inverno

Hoje é um bom dia para restaurar a monarquia.
Com Sócrates na Finlândia, entretido com os telemóveis, e Cavaco Silva próximo da investidura, estão reunidas as condições para uma revolução em Portugal!
Não se assustem, não haverá derramamento de sangue, nem transtornos de maior na circulação rodoviária. Será uma revolução tranquila.
Sócrates vai continuar a tratar do choque tecnológico, acumulando o cargo de director-geral da Nokia para o hemisfério sul, e Cavaco pode manter-se como presidente da economia e turismo do Reino do Algarve, para já, sem o além-mar.
Entretanto, uma Regência assegurará o Governo de Portugal.
Que terá como tarefas prioritárias:
Reconhecer que não basta vegetar entre a Europa e o Atlântico. É preciso ter vida própria, ter um rumo, capacidade de manobra e de escolha, o que em gíria política se chama independência.
Reconhecer que apesar dos dislates, incompetências e traições, de que ninguém está isento, as circunstâncias históricas colocaram de novo ao nosso alcance a possibilidade de reconstruir o Reino Unido de Portugal e Brasil, incluindo todas as outras antigas Colónias.
Foragidos da globalização, atirados para a miséria pela ditadura do mercado, cruzam as nossas fronteiras muitos brasileiros, africanos e asiáticos, à procura de alento e pão, para si e para os seus.
Trazem na bagagem a memória de uma longa convivência de séculos que pelos vistos deixou saudades.
Nestas condições, a Regência entende que Portugal não se esgotou, nem se esgotou tão pouco, o contributo que a comunidade internacional deve esperar dos portugueses.
Com efeito, nos territórios onde se fez sentir a nossa colonização, não existem questões raciais ou religiosas por resolver! Caso único no mundo!
Assim, e sem quaisquer complexos, podemos reafirmar que esta é a grande verdade política que mobilizará todo o mundo lusíada, e o único desígnio nacional compatível com a nossa vocação histórica.
O actual regime não tem solução e há muito que vive fora da realidade: já quis ser a Cuba da Europa! Ou o México! A Albânia não foi possível, paciência! Agora anda entusiasmado com a Finlândia e com as semelhanças entre os dois povos!
Em pano de fundo, já sabemos que a solução Filipina é sempre aquela certeza!
Ser Portugal é que está difícil!!!
É por isso que eu penso, que hoje era um bom dia para restaurar a monarquia.

quinta-feira, março 02, 2006

A minha resposta

Mulher do deserto, que desafiaste o Ocidente civilizado, que reclamaste desculpas pelo ultraje, aqui te respondo correndo o sério risco de não ser entendido entre os meus! Esta Europa dos direitos, outrora Cristã, é agora conduzida por homens sem Fé, não sabe pedir desculpas a ninguém!
Tu e a tua burka são a própria negação daquilo que conquistámos, e é por isso que não podemos garantir esse direito mais simples: o respeito pelo outro!
Sabes, quando fizeram aquela caricatura vergonhosa contra o Papa João Paulo II, os católicos, na sua grande maioria, nem reagiram, escudando-se em argumentos que denunciam fragilidade e descrença.
Em Portugal, esse cartoonista deu-se ao ‘luxo’ de publicar na edição seguinte do mesmo jornal, uma nova caricatura a ofender a Igreja Católica, e nada lhe sucedeu. Em nome da liberdade de expressão!
O Governo nada fez, não demandou o insolente, o Ministério Público ficou quedo.
A Assembleia da República limitou-se a analisar um longo abaixo-assinado que solicitava um desagravo. Nada se concluiu.
Existiria sempre a possibilidade de um pedido de desculpas à comunidade católica, por parte do dito representante de todos os portugueses, o Presidente da República. Desculpas que assim chegariam ao mais anónimo dos crentes.
Mas não, o Chefe do Estado ficou impávido.
Como vê, em Portugal, as coisas mudaram muito desde os tempos da reconquista aos mouros, que são, presumo, os seus antepassados. Posso até prever, pela Fé com que continua a defender a sua crença, que não lhe será difícil a si e ao seu povo reinstalar-se de novo aqui na península. Não encontrará grande resistência, porque os católicos estão fraquinhos e a grande maioria dos habitantes são ateus, com mentalidade de escravos.
Agora quanto ao seu assunto, eu tentava um último recurso: escreva à Rainha da Dinamarca.
Estou convencido que ela saberia pedir desculpa em nome dos dinamarqueses.

terça-feira, fevereiro 28, 2006

Partida de Carnaval

Só pode ser!
Recebi esta estranha mensagem, directamente do deserto, em caracteres difíceis de decifrar, mas que ainda assim deixo à Vossa consideração:
“Sou uma pobre mulher, vivo para lá do sol-posto, na Arábia ardente, e soube que fui insultada e vexada na Europa, porque um jornal dinamarquês, resolveu publicar umas caricaturas ofensivas do Profeta Maomé!
Muitos outros dos meus vizinhos também estão revoltados e queixosos contra semelhante atitude e não sabem o que hão-de fazer!?
Dizem-me que o Governo da Dinamarca não é responsável pelo sucedido, pois só lhe cabe assegurar a liberdade de expressão em toda a sua plenitude! Se quiser queixar-me, devo reclamar junto dos tribunais, na Dinamarca!
Como o meu camelo, decerto que não aguenta semelhante viagem, sinto-me de mãos atadas, tal como os meus compatriotas, e imagino que muitos milhões de maometanos?!
Dirijo-me a si porque sei que é católico e também se sentiu vexado quando fizeram uma caricatura indigna do anterior Papa. Que em nome da liberdade de expressão, ficou impune!
Se puder, ajude-me. Se não puder, não respondo por mim quando me aparecer um dinamarquês pela frente.”
Mensagem, de facto, estranha!

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

TIMOR 2006

Ainda se servem de ti, da tua doce ingenuidade, para saírem em beleza!
Fazem discursos ao futuro, ocupam o teu palanque! Trinta anos passados, perdidos e envenenados!
Quem responde pelo tempo?
Rapariguinha sem gramática, de gramática na mão! Sabes por acaso, quem te roubou a gramática, por uma geração?
Tu não sabes e ainda bem.
Agradeces o livrinho do fundo do coração!
A cerimónia prossegue e o Bispo fala do pão. O laico não o entende, insiste na religião!
O fanatismo, diz ele!
É caso para perguntar: quem encomendou o sermão?


Rapariga de Timor,
Pátria na Oceania!
Devolveram-te a gramática,
(a história conheces tu)
Pede-lhes a geografia.

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

Liberdade de expressão

Falaram-me de ir ao cinema! Fazer o quê, se nem gosto de pipocas?! Aliás, não conheço programa mais antiquado!
Mesmo assim pus-me a imaginar como seria uma deslocação, com ou sem companhia, a um desses tugúrios onde mandam as sapatilhas, algumas cuidadosamente colocadas em cima das cabeças da frente.
Estou a exagerar de propósito. Para afastar essa tentação de reviver ‘um antigamente’ onde a matinée de sábado representava o sonho de uma semana de espera.
Mas afinal qual é o cartaz? O que é que a Meca do cinema nos reserva para esta sessão?
Uma informação confidencial: eles agora trabalham em pacotes de propaganda e infestam as muitas saletas de cinema com poucos filmes, mas de mensagem forte, direccionada ao espírito fraco da massa cinéfila. Gasta-se o que for preciso, o dinheiro não é problema!
A arrogância é minha mas a realidade é de publicidade e consumo. De tudo e mais alguma coisa!
Em exibição temos, disse a menina do guichet:
‘Munique’ do Steven Spielberg, para maiores de doze anos; ‘Match Point’ de Woody Allen, também para maiores de doze; ‘O Segredo de Brokeback Mountain’ de Ang Lee, para... – já sei, interrompi eu.
E ainda temos o ‘Bambi II’ e o ‘Orgulho e Preconceito’, acrescentou.
- Sabe, estava-me a apetecer ver um filme com ayatollas e turbantes a fazerem miséria no arraial Cristão?! Uma biografia do Saladino!? Os árabes a serem maltratados pelos judeus?!
- Não temos e digo-lhe já que nunca ouvi falar nesses filmes!
Bem, então ficamos com o ‘Orgulho e Preconceito’.
Dois bilhetes, sem pipocas.

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

“FRACASSO”

Quando supus ser vitória é fumo apenas.

Fracasso, linguagem do fundo, pista de outro espaço mais exigente, difícil de entreler é tua letra.

Quando punhas tua marca em minha fronte, nunca pensei na mensagem que trazias, mais preciosa que todos os triunfos.
Teu rosto chamejante perseguiu-me
e eu não soube que era para salvar-me.
Para meu bem desterraste-me para lugares recônditos,
negaste-me êxitos fáceis, cortaste-me saídas.
Era a mim que querias defender ao não me conceder brilho.
De puro amor por mim manejaste o vazio que tantas noites me fez falar febril a uma ausente.
Para proteger-me deixaste passar outros, fizeste que uma mulher prefira alguém mais ousado, afastaste-me de ofícios suicidas.

Vieste sempre dar a cara.

Sim, teu corpo chagado, cuspido, odioso, recebeu-me na minha mais pura forma para me entregar à nitidez do deserto.
Por loucura amaldiçoei-te, maltratei-te, blasfemei contra ti.

Tu não existes.
Foste inventado pela soberba delirante.

Quanto te devo!
Levantaste-me a um nível limpando-me com uma áspera esponja, lançando-me para o meu verdadeiro campo de batalha,
cedendo-me as armas que o triunfo abandona.

Levaste-me pela mão à única água que me reflecte.
Por ti não conheço a angústia de representar um papel, manter-me à força num alto, trepar com esforços próprios, discutir por causa de hierarquias, inchar até rebentar.
Fizeste-me humilde, silencioso e rebelde.
Não te canto pelo que és, mas pelo que não me deixaste ser. Por não me dares outra vida. Por me teres diminuído.

Ofereceste-me somente nudez.
É verdade que me ensinaste com dureza e tu mesmo trazias o cautério!, mas também me deste a alegria de não te recear.
Obrigado por me tirares espessura em troca de uma letra grande.

Obrigado a ti, que me privaste de vaidades.
Obrigado pela riqueza a que me obrigaste.
Obrigado por me construir com meu barro a minha morada.
Obrigado por me afastares.
Obrigado.

Rafael Cadenas (trad: José Bento)

terça-feira, fevereiro 21, 2006

“O Caso Americano”

Igreja livre e Estado limitado

O carácter religioso da cultura americana e o papel da Igreja no debate público. Eis por que, do outro lado do oceano, uma concordata entre o Estado e a Igreja é supérflua.

Por Paolo Carozza

È difícil, para um europeu que não tenha passado um período de tempo significativo nos Estados Unidos, aperceber-se até que ponto nós, americanos, somos difusa e sinceramente, um povo muito religioso. Sem esta consciência, o frequente hábito americano de invocar Deus em público pode parecer somente um gesto cínico e instrumental e as intervenções por parte dos líderes religiosos em questões de interesse público pareceriam representar uma corrupção da política democrática. Todavia, constata-se sobretudo uma realidade simples: o que afirmamos em público é um reflexo da centralidade da religião na vida da grande maioria dos americanos. Como consequência, os que quereriam tentar eliminar as expressões religiosas da vida política e censurar os contributos públicos dos líderes religiosos, estão a tentar ignorar e negar aquela que é, com efeito, a realidade e a origem do significado da vida de muitas pessoas. Também nos Estados Unidos existem muitos apoiantes de semelhante laicismo anti-humanista mas, nos últimos tempos, tenho notado que em Itália este fenómeno está algo mais difundido e é certamente mais agressivamente ideológico. Mesmo o forte anti-catolicismo presente em grande parte da história americana nunca foi, senão em tempos muito recentes, uma oposição à religião em geral.

Uma questão de história
Todavia, embora seja um ponto de partida necessário, o carácter religioso da cultura americana só por si não é suficiente para compreender o papel da Igreja no debate público nos Estados Unidos. É também uma questão de história, de direito, do conceito tipicamente americano de Estado e, finalmente, do significado atribuído à razão.
Desde o início, a nossa história foi repetidamente marcada pela forte presença da experiência religiosa em cada acontecimento público importante. Da fundação das colónias por parte de exilados religiosos ao papel central desenvolvido pelos cristãos na luta pela abolição da escravatura e no subsequente movimento pelos direitos civis, até aos debates actuais sobre o papel da América no mundo, a concepção religiosa da vida deu significado e forneceu razões à maneira como os americanos entendem a liberdade, a igualdade, a responsabilidade e o bem comum. Ajudou a responder às perguntas sobre que tipo de pessoas somos e sobre o que aspiramos a ser, perguntas que qualquer controvérsia pública importante apresenta, ao menos ao nível implícito.

Liberdade religiosa
A nossa lei defende e respeita o papel central que a religião representou na vida pública. Temos uma concepção de grande amplitude da liberdade religiosa, que reconhece que um elemento importante da liberdade das comunidades religiosas consiste na possibilidade de falar e agir publicamente. Ao mesmo tempo, na América o conceito de “liberdade de expressão” é substancialmente mais amplo que na Europa. A nossa tolerância para com a presença de opiniões baseadas em convicções religiosas em relação a questões sociais controversas, nasce, em grande parte, da ideia que deve ser dado espaço de presença pública a qualquer opinião, por muito impopular ou desagradável que possa ser para alguns. Isto é particularmente importante, dada a grande diversidade de identidades e de práticas religiosas presentes entre os americanos. Não cabe ao Estado determinar o que é aceitável como discurso público, por isto a lei defende a liberdade de todos de exprimir as próprias opiniões.
Aqui existe uma estreita ligação entre a opinião dos americanos sobre o papel da religião nos assuntos públicos e as suas opiniões no que respeita ao Estado. Enquanto que a herança das teorias constitucionais do século dezanove na Europa continental põe em evidência o monopólio do Estado como encarnação do interesse público, os Estados Unidos pertencem a uma tradição constitucional muito mais propensa a ver o Estado como um actor limitado no tecido social. Deste lado do Atlântico uma Concordata parece ser uma resposta à necessidade de instituir uma série de defesas a favor da Igreja contra a pretensão do Estado em deter poder e autoridade exclusivos e definitivos. Todavia, num contexto como o nosso, onde a liberdade da Igreja é amplamente garantida pelos limites estruturais do Estado, uma Concordata parece supérflua. Um exemplo: não há nenhuma necessidade de um acordo especial que garanta à Igreja o direito de instituir o seu sistema educativo, visto que o Estado não detém o monopólio da educação e não pode proibir a criação e a actividade de escolas religiosas.

Troca aberta de ideias
A nossa concepção de liberdade de religião ou de expressão favorece de um modo decisivo uma troca de ideias aberta e sem limites, enquanto que o papel dos grupos religiosos no debate público é submetido a regras e limitações, como (talvez duma forma surpreendente para os europeus) é amplamente demonstrado pelo direito fiscal americano. Entidades sem fins lucrativos, incluindo as organizações religiosas, estão isentas de taxa desde que não se identifiquem politicamente com partidos.
Consequentemente, as igrejas e as outras organizações religiosas estão sempre atentas a não tomar posições que possam favorecer a escolha de um partido em relação a outro ou de um indivíduo em relação a outro, concentrando-se em vez disso sobre os princípios e sobre as questões reais em jogo nos debates de interesse social. Esta tornou-se, portanto, a linha de demarcação entre as intervenções geralmente aceites por parte dos grupos religiosos e aqueles que são considerados ilícitos.
Implícita nesta distinção entre inaceitáveis tomadas de posição politicamente marcadas e intervenções públicas aceitáveis está a convicção de que os juízos sobre questões de interesse público baseados em convicções religiosas podem ser razoáveis. Ou que sejam capazes de dar motivações aos outros, motivações que possam fazer apelo à concepção comum do que é bom para toda a sociedade e de convencer os outros acerca da verdade de tais afirmações. Na América, como na Europa, se bem que talvez a uma escala menor, os que negam que uma perspectiva baseada em convicções religiosas possa falar duma forma adequada de questões de interesse público, têm uma opinião assaz redutora da capacidade da razão humana. Isto é, em definitivo, a grande questão que está em jogo nas discussões sobre a participação da Igreja no debate público democrático. Permitir e defender tal papel é uma afirmação da mais ampla e alta concepção da capacidade da razão de compreender, propor e apoiar a verdade.

In “Passos – Revista Internacional de Comunhão e Libertação”, nº1/2006.

sábado, fevereiro 18, 2006

Portugal no arco-íris

Restabelecido o sistema que rege actualmente a minha ligação com o mundo, posso enfim escrever algumas notas sobre um dos temas centrais da nossa vida colectiva – as cores dos novos equipamentos da selecção de futebol!
É triste mas é verdade, por mais que rebusque, estamos reduzidos à selecção de futebol, vago ponto de encontro entre os portugueses, e mesmo assim envenenado pela simbologia republicana.
Mas olhemos para as novidades:
O equipamento principal é todo em ‘bordeaux’, dos pés à cabeça, com uma pequena risca verde nas mangas e meias. O alternativo, é preto com riscas prateadas no mesmo sítio. Em ambos haverá, estou certo, alguma menção mais ou menos estilizada aos escudos e quinas.
Diga-se desde já que são bonitos e cumprem os principais objectivos da via-sacra republicana que consiste em disfarçar o erro ‘ verde e encarnado’ que em cinco de Outubro de 1910 traiu os símbolos de um País com oito séculos de História. As cores de Portugal, o Azul e Branco Fundador, atirados às urtigas pela raiva e facciosismo de meia dúzia de antiportugueses.
Alguns republicanos mais lúcidos ainda alertaram para o terrível erro histórico que ali se cometia, mas em vão. O ‘país de costas’ não recuou nos seus intentos de impor a versão colorida da união ibérica, afinal tão do seu agrado, pese a permanente necessidade de se justificar, ‘dourando a pílula’ e iludindo os incautos.
O Estado Novo percebeu imediatamente que a bandeira que tinha sido hasteada na Praça do Município, era o produto de uma guerra civil e não podia por isso ser um elemento de unidade, mas sim de divisão e ressentimento. Nesse sentido foi disfarçando como pôde. Os equipamentos da selecção nacional de futebol foram aproveitados para escurecer o encarnado da bandeira e enveredar pela camisola grenat, com calções azuis e meias azuis. E foi mais longe, adoptando como equipamento alternativo, a camisola branca com as quinas ao peito, mantendo os mesmos calções e meias azuis. Alinhámos assim em alguns jogos do campeonato do Mundo de 1966.
Meio problema estava solucionado, mas faltava justificar a aparição do verde na bandeira! Dar-lhe algum nexo.
Foi então a vez da Mocidade Portuguesa e da propaganda do regime explicarem que em Aljubarrota a Ala dos Namorados empunhava flâmulas e pendões verde rubros. Foi o suficiente para que os jovens chefes de castelo e chefes de quina passassem a ser a verdadeira encarnação do Condestável! A ironia descritiva serve apenas para relembrar um velho ditado – ‘o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita’! E não vai lá com operações de cosmética.
Só a verdade faz caminho, e a verdade é que a facção que em 1910 impôs o verde e encarnado aos portugueses, fê-lo contra o azul e branco, para reescrever a história, e não, como agora nos querem fazer acreditar, para construir ou reconstruir o que quer que fosse. Retirando da bandeira ‘as cores da Fundação e a coroa do Fundador’ o que pretendiam aqueles idiotas? Unir os portugueses? Ofender os antepassados?
Agora, o que se está a tornar caricato em toda esta novela das cores da selecção é que, sem darmos por isso, lá vamos cumprindo o programa de destruição identitária idealizado pela maçonaria e pelo partido republicano: a diferença entre o novo equipamento da selecção portuguesa e o da selecção espanhola, resume-se hoje, ao nível das cores, a um pequeno ‘fumo’ verde!
Claro que tudo isto joga com a ignorância das populações, com tentativas de recomposição da memória, com a aposta no esquecimento. Mas não se iludam. Não é uma questão de somenos ou ultrapassada. Nem é como muitos pensam uma questão geracional que eu, à semelhança daqueles traidores, possa relevar ou escolher à minha vontade. Na democracia da história os mortos têm a maioria. É por isso que a memória colectiva costuma reacender-se de repente, de surpresa, numa qualquer esquina da história. Os exemplos multiplicam-se à nossa volta. Mais tarde ou mais cedo vamos ter que emendar o erro e restaurar as verdadeiras cores e símbolos de Portugal.
As dúvidas esclarecem-se com o Fundador.

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

Sem meios e com deveres

Por causa de uma avaria no ‘sistema’, aqui estou eu prisioneiro de uma chamada da menina do ‘sapo’ ou da ‘telecom’, pessoas e entidades que nem conheço!
Antigamente, quando escrevinhava para a disquete e esperava pela respectiva publicação, a cargo de ‘Servidores’ de confiança, nunca tive que ficar em casa a aboborar. Agora, a independência é...isto!
Bem, mas o tema da conversa de hoje é: - ‘a minha liberdade de expressão’ ou em alternativa ‘os meus direitos e deveres’.
Talvez começar por referir que esta questão dos deveres é um assunto muito pouco debatido entre nós, e quando o é, acaba normalmente asfixiado por uma série de direitos da espécie dos cogumelos. Quero dizer que nascem por toda a parte e ao menor descuido!
Fui ensinado a equilibrar direitos com deveres numa perspectiva de contas saldadas. Também consigo perceber que nascemos com mais direitos que deveres em função da fragilidade da vida humana. E compreendo que se assista a uma inversão à medida do crescimento e das responsabilidades assumidas.
Mas a verdade é que a história do homem é sempre contada como uma aventura em busca de direitos, nunca de deveres! As Religiões vão temperando este desfazamento como podem, lembram obrigações e contratos por honrar, vínculos que não se devem destruir, mas nada conseguem contra este verdadeiro massacre de direitos.
Direitos que essa entidade abstracta e mítica a que chamamos Estado deve satisfazer de imediato, sob pena de tumulto ou mudança de governo.
Curioso é que estes direitos se afirmam sempre no mesmo sentido, contra a Fé dos homens!
É talvez por isso que a cada anúncio de um novo direito que me querem atribuir ou dar, eu reajo tão negativamente – como se me estivessem a espoliar de alguma coisa com valor.
Posso então admitir que sou um privilegiado, um reacionário a defender o que é ilegítimo, um entrave ao progresso e desenvolvimento da humanidade na sua caminhada triunfal em direcção ao paraíso!
Vencido mas não convencido, uma dúvida condicional atravessa ainda o meu espírito – se as propostas de novos direitos surgem normalmente do lado dos que não acreditam em paraísos, não andará por aqui um tremendo oportunismo?!
É por esta altura que me costumo lembrar daquela historieta que uma vez certamente aconteceu: - um pequeno grupo de pessoas resolveu fundar um clube para praticar o seu desporto favorito, o pingue-pongue. Mas foi preciso contemplar nos estatutos uns quantos direitos de associação e por essa via foram entrando no clube muitas pessoas que não gostavam de pingue-pongue. Um belo dia fez-se uma assembleia convocada à luz de outros direitos obrigatórios e ficou decidido por maioria que doravante nunca mais se jogaria ali pingue-pongue.
E o clube cresceu feliz e contente.
Não me perguntem para onde é que foram os jogadores de pingue-pongue, porque isso não interessa minimamente.
Eles só tinham o dever de deixar passar o ‘comboio da história’!

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Zangam-se as comadres...

Descobrem-se as verdades! Assim fala o povo, enquanto Valentim se queixa amargamente do silêncio presidencial quanto à devassa do segredo de justiça no caso do ‘apito dourado’!
O Major terá declarado que Sampaio só se preocupa com as escutas e o segredo de justiça, quando o seu número de telefone vem à baila no processo da Casa Pia! No resto anda de bico calado!
Ora não sei se repararam, que escrevi ‘apito dourado’ com letra pequena!? Não foi por acaso, não senhor. A circunstância especialíssima de finalmente termos descoberto em Portugal uma nova forma de criminalidade, altamente desconcertante, que se preocupa apenas em subornar árbitros de segunda e terceira categoria, para obter resultados em campeonatos de divisões inferiores, ou até em competições de solteiros e casados, diz bem da perigosidade dos indiciados e dos seus sofisticados fins!
Bem, o que interessa é que fomos nós que descobrimos ‘isto’, ou não fossemos o grande país dos descobrimentos!
E descobrimos mais: que toda esta gente indiciada, e todos os outros que poderiam ter sido mas não foram, seriam incapazes de mexer uma palha que fosse, para interferir com os resultados dos jogos da 1ª Liga ou Liga de Honra, por razões que à partida não são fáceis de compreender, mas que têm afinal uma explicação bem simples!
Porque está em segredo de justiça vou limitar-me a publicar excertos do que consegui apreender, cruzando alguns dados e informações diversas: parece que esta raça de pilha galinhas segue religiosamente a filosofia das vítimas – ‘grão a grão enche a galinha o papo’!
Para grandes operações financeiras, altos empreendimentos, transferências vultuosas, em cheque ou numerário, não contem com eles! Isto é gente com amor à camisola!
É por isso que podem acumular cargos importantes e ser presidentes disto e daquilo sem qualquer risco para o património público e privado!
Mas não era aqui que eu queria chegar. Eu contei-vos toda esta história porque estou preocupado com o desabafo do Major. Se o homem resolve insistir no tema da pedofilia, estou convencido que aquela profecia inicial pode cumprir-se – muita gente vai engolir o apito e os miúdos da Casa Pia ainda vão presos!
Eu se calhar não vou tão longe. Mas admito perfeitamente uma vasta junção de processos, uma vez que há políticos envolvidos em todos eles!
Ora aqui está uma coisa que os portugueses também já descobriram.