sábado, dezembro 03, 2005

Mensagem do 1º de Dezembro de 2005


O Interregno com a devida vénia, transcreve de Única Sempre Avis, a Mensagem do 1º de Dezembro de 2005 de Sua Alteza o Duque de Bragança:

Mensagem do 1º de Dezembro de 2005

Neste 1º de Dezembro passam 365 anos sobre a data em que o povo português pegou em armas para reafirmar a sua independência.

São tantos anos quanto os dias do calendário, e que nos convidam a um balanço da vida nacional.

Enquanto à nossa volta, a natureza faz cair as folhas de Outono e assistimos a efémeras agitações políticas, devemos auscultar as expectativas mais profundas dos portugueses, tal como o fizeram os Restauradores de 1640.

Durante este ano, no território continental e nas regiões autónomas, visitei numerosos concelhos, quer a convite das autoridades locais, quer das Reais Associações e outras personalidades.

Vi progressos económicos que, infelizmente, nem sempre respeitam essas outras riquezas que são o nosso património natural e arquitectónico.

Mas também tive a oportunidade de ver que o Estado gasta parte dos nossos recursos em obras de luxo de país rico, enquanto continuamos a ter um nível de desenvolvimento humano próximo de alguns países, com os quais não gostaríamos de nos comparar.

Não podemos gastar como se fossemos um país do «Primeiro Mundo» e ter uma formação, uma educação e um estilo de vida próximo do «Terceiro Mundo».

Ou seja, gastamos como ricos e trabalhamos como os países pobres, de uma maneira desorganizada e com falta de planificação.

Num ano de confrontos com minorias étnicas e religiosas em França, visitei em Portugal Associações de Solidariedade Social que realizam um bom trabalho de integração de jovens já nascidos em Portugal.

Considero muito importante o apoio destas instituições na educação da chamada terceira geração e creio que todos deveriam ajudar esses jovens, seja por solidariedade, seja por prudência.

Tal como em anos anteriores, realizei viagens e visitas de representação ao exterior, por vezes com minha mulher, viagens que, é oportuno referi-lo, jamais custaram um único euro ao erário nacional.

Na Europa Central, a convite dos governantes, visitei a Bulgária e a Sérvia-Montenegro onde tive contactos com a população.

São países que aspiram a integrar-se na União Europeia: mas nas suas bandeiras e escudos restabeleceram as coroas nacionais, como já sucedera na Rússia, Polónia e Hungria. Afirmam assim a vontade de iniciar um novo ciclo histórico, sem perda de identidade.

Por convite dos respectivos Governos Regionais, visitei a região da Galiza e a cidade autónoma de Ceuta.

Em ambas fui muito bem recebido e testemunhei o apreço que essas regiões espanholas têm para com o Herdeiro dos Reis de Portugal.

Visitei Comunidades Portuguesas na Bélgica, França, Luxemburgo, Suíça e Estados Unidos, e mantive contactos com personalidades desses países.

São 4 milhões e meio de portugueses que lamentam que o português não seja uma língua ainda mais internacionalizada, devido à falta de uma grafia uniforme entre portugueses e brasileiros.

Devemos bater-nos para que a língua de Fernando Pessoa e Luís de Camões, a língua de Gilberto Freyre e de Jorge Amado, a língua de Craveirinha e Luandino seja língua de trabalho na Organização das Nações Unidas.

Entretanto, o calendário nacional é marcado pela aproximação das eleições presidenciais de 2006.

Em primeiro lugar, saúdo os candidatos presidenciais. Desde 1976, o cargo de Presidente tem sido desempenhado por personalidades dignas e com provas públicas dadas.

Teoricamente, o cargo é uma instituição democrática para a qual qualquer cidadão nacional pode ser eleito e permite ao eleitorado uma importante decisão sobre o nosso futuro.

Mas apesar do formalismo da Constituição, só é candidato viável quem atingiu o topo de uma carreira político-partidária, promovido pelos aparelhos partidários, dificilmente encontrará independência fora deles.

Em segundo lugar, congratulo-me que nas Comissões de Apoio dos candidatos mais destacados participem monárquicos convictos, tal como me congratulo que muitos outros permaneçam de fora.

Para mim, isso significa que a ideia de monarquia se tornou transversal ao sistema político.

Como tive ocasião de afirmar “Os portugueses devem perceber que a proposta dos monárquicos não é de "derrubar a República" e as suas instituições democráticas, mas sim de "dar um Rei à República."

E agora acrescento que o nosso objectivo deverá ser a “democracia real”, a democracia presente aperfeiçoada pela identidade histórica e pelas expectativas de um Portugal mais justo.

Em terceiro lugar, e pensando no art.º 288 da Constituição que impõe “a forma republicana de governo”, quero agradecer publicamente a todos quantos se têm batido nas Revisões Constitucionais – na de 1982, de 1992, de 1996, de 2004 – para que desapareça esse “ferrolho ferrugento”.

Em Abril de 2004, em sede de revisão constitucional, 108 deputados – contra 89 – votaram a favor da eliminação do “ferrolho” constitucional, aproximando-se bastante da maioria necessária de 2/3.

Em representação de todos os deputados que ao longo destes anos continuam a apoiar esta causa, destaco, por já falecidos, os nomes de José Luís Nunes, Nuno Abecassis, e Francisco Sousa Tavares.

Como herdeiro dos Reis de Portugal, continuo disponível para os grandes desafios colocados aos Portugueses, para servir a Pátria e para garantir a democracia através da instituição real.

Um Rei representa não só o Estado democrático, de que é o garante, mas a Nação de cujos interesses permanentes é o guardião.

Creio – e cada vez mais acompanhado me sinto – que a mais valia das instituições republicanas diminui à medida que se consolida a democracia e novas ameaças surgem em Portugal.
Não vou insistir que as instituições republicanas nasceram sob o signo do sangue de D. Carlos e D. Luís Filipe de Bragança. Sobre esse sangue derramado no Terreiro do Paço, erigiu-se a República e os seus primeiros 16 anos de instabilidade seguidos por 48 anos de ditadura também republicana.

Cortado brutalmente o fio condutor da evolução para formas superiores de liberdade e realização histórica, Portugal afastou-se do progresso político das nações politicamente mais felizes da Europa.

Sabemos hoje que esse atentado terrorista da Carbonária merece a esmagadora repulsa do povo português.

Conforme sondagem recente, 76.5 % da população considera-o “um crime horroroso”, 18,8% “um mal necessário” e 4,6% “uma coisa boa para o país”.

Aproximando-se mais um aniversário do regicídio, quero exprimir o meu profundo repúdio pela violência e pelo terrorismo como forma de afirmação política, em qualquer parte do mundo.

A 1ª República destronou o Rei mas a Democracia e a defesa da Res publica jamais foi o programa dos que a si próprios se designavam por "democráticos" e "republicanos".

O regime implantado em 5 de Outubro de 1910 instituiu, em rigor, o "governo de uma plutocracia contra os interesses de uma grande massa de deserdados".

No Estado Novo, governou um homem solitário; a representação política seguiu o modelo do partido único.

A oposição emocional entre república e monarquia, como o ainda faz certa propaganda republicana, tem pouco sentido no mundo actual da democracia.

Em Portugal diz-se "Estado democrático" e em França "Estado Republicano" para designar a mesma realidade: o regime baseado no livre exercício dos direitos políticos e no respeito pelos direitos humanos.

Enquanto em Portugal se falaria das "instituições democráticas", em França referem-se as "instituições republicanas".”

Do mesmo modo, causa estranheza falar de “ética republicana”, quando existe uma só ética universal, expressa pelas religiões e pela moral nos princípios da liberdade, justiça e compaixão.

Os velhos mitos da propaganda republicana são como um feitiço que se vira contra o feiticeiro.

Recentemente, uma publicação nacional demonstrou que, conforme os Orçamentos de 2005, o Rei de Espanha receberá 7,8 milhões de Euros enquanto ao Presidente português cabem 13,32 milhões de Euros.

A Casa Civil portuguesa gasta mais 41,7% do que a Casa Real espanhola.

Contas feitas ao PIB e à população, a Presidência da República portuguesa custa dezoito vezes mais por habitante que o Rei de Espanha!

Nós preferimos naturalmente Portugal, mas decerto que não é por este motivo!

Tenho apelado na comunicação social, nacional e internacional que vivemos um tempo de vésperas, um tempo de novos desafios a enfrentar com novas soluções…

Na actual globalização das actividades económicas e financeiras, da tecnologia e da informação, o modelo clássico do Estado republicano atravessa uma profunda crise porque não responde às aspirações de identidade nacional.

Os especialistas têm demonstrado esta crise em poucas palavras.

E como creio que disse Albert Einstein, “os problemas de uma sociedade não podem ser resolvidos ao nível das soluções que os criaram”.

Os mercados nacionais, isto é, os espaços económicos protegidos do exterior que se afirmaram no passado, já não passam de sobrevivências, sem significado decisivo, a não ser para as pequenas empresas.

O espaço económico europeu está aberto à maior parte das empresas que no caso das multinacionais que operam em Portugal, até preferem deslocalizar-se para Espanha.

É cada vez maior o grau de autonomia dessas grandes empresas em relação às políticas definidas pelos governos dos Estados nacionais.

Os Estados Europeus perderam o poder de cunhar moeda – como o escudo da República em Portugal – e de controlar os instrumentos das politicas monetárias, e vêem a sua liberdade orçamental gradualmente limitada.

Com a abertura das fronteiras, têm dificuldades nas políticas fiscais e no domínio da redistribuição, para já não falar das dúvidas sobre a evolução do Estado Providência, e sobre a capacidade para garantir o pleno emprego.

O declínio das prerrogativas nacionais é patente nas áreas da informação, da comunicação e da cultura.

As novas tecnologias mudaram as fronteiras.

À escala mundial afirma-se uma cultura mediática que condiciona todas as culturas nacionais.

Se a isto somarmos a internacionalização do crime organizado, o terrorismo, o tráfico de armas e de drogas, a proliferação nuclear, as questões ambientais e os fluxos migratórios, conclui-se que se reduziu de forma drástica a margem de manobra dos Estados europeus, nos planos interno e externo.

Muitos dos domínios de acção que no passado estavam reservados à soberania nacional deram lugar a uma soberania partilhada e a um processo de integração que parece incontornável.

Ao mesmo tempo, constato que as monarquias europeias se encontram entre os Estados mais desenvolvidos do mundo, conforme relatórios da OCDE e das Nações Unidas.

Não afirmo que um rei resolve tudo; afirmo, sim, que um rei é sinal do caminho das boas soluções.

No país e no mundo, surgem novos movimentos de revitalização regional, de revalorização dos poderes locais e de fascínio pelas singularidades culturais e pelas identidades territoriais.

Cada Povo sente a necessidade de contrabalançar o esvaziamento do papel do Estado pela afirmação da sua identidade, entendida como realidade sociológica gerada a partir do património histórico e cultural da Nação.

A rejeição do Tratado Constitucional Europeu, contra a opinião das elites governantes, teve muito a ver com isto.

Com todo o respeito, não se trata de problemas para um Presidente da República.

São problemas de uma outra escala; de como iniciar uma nova época histórica e de criar pontes entre civilizações.

O nosso país merece um novo protagonismo nesta nova época.

É neste contexto que a democracia real ganha cada vez mais adeptos em Portugal.

Um dos desafios que se colocam aos portugueses é o de melhor utilizarem o seu sentimento identitário, em nada contraditório com a sua integração europeia, a sua pertença lusófona e a sua presença atlântica.

Das últimas eleições presidenciais, conhecemos a elevada abstenção e a ausência de participação popular.

Destas, só conhecemos ainda a falta de recenseamento dos jovens até 21 anos (só 30% se recensearam), que não recebem qualquer educação para a cidadania.

Sendo ponto assente, em democracia, que o eleitorado tem sempre razão, então a maioria do Povo não se revê na imagem que a chefia do estado republicano tem dado de si própria.

E isto não pode deixar de constituir matéria de reflexão política para o futuro.

Os enormes desafios que se colocam ao País exigem mais do que nunca um Chefe de Estado que seja o representante simbólico da identidade nacional, o garante da coesão e um factor de união entre todos os portugueses, a instância suprema capaz de imprimir ao Estado o sentido permanente da prossecução do interesse nacional.

Tenho para mim que só a figura de um Rei pode ser referência indiscutível para a Justiça, para a Defesa Nacional, para as Relações Externas, para a Administração Pública.

Julgo que os monárquicos aprenderam a lição. Um Rei não se deixa envolver em querelas partidárias.

Se os Partidos Políticos são o "sal e pimenta" das democracias, e da liberdade de expressão, alguém tem de estar aparte deles – os Tribunais – e acima deles – o Rei, mantendo a chama da Identidade Nacional, tão importante num mundo cada vez mais globalizado e culturalmente indiferenciado.

A magistratura de influência, não se resolve com a figura passageira de um Presidente da República; o nosso modelo constitucional semipresidencialista confere-lhe poderes demasiados para intervir no governo mas não lhe dará nunca a distância nem a imparcialidade suficiente perante os portugueses.

Por isso, a instituição real que durante oito séculos corporizou a identidade nacional surge, enquanto referência moral e histórica, como uma solução política de normalidade constitucional a merecer cada vez mais a reflexão nacional.

Nesta nova fase de democracia consolidada mas de independência ameaçada, Portugal precisa de um Chefe de Estado que tenha a consciência que somos Europeus, Atlânticos e Lusófonos, nesse verdadeiro triângulo estratégico, referido há cem anos por um dos mais puros paladinos monárquicos do séc. XX, o então capitão Henrique de Paiva Couceiro.

Comecei por afirmar que os anos que passam consolidam o prestígio das nações.

Mais ainda no caso de uma Pátria como Portugal.

Neste sentido queria concluir anunciando duas novidades, em meu nome e da Duquesa da Bragança.

Em primeiro lugar, anuncio a intenção de criar em 2006 um “Prémio” que recompense os talentos e o serviço à comunidade prestados por cidadãos nacionais e no espaço da lusofonia.

Finalmente, conto que, para o ano, se Deus quiser, o nosso filho Afonso, ao fazer dez anos esteja presente no seu “primeiro” 1º de Dezembro. Tal como sempre eu e a minha família, ele está a ser preparado para servir Portugal.

Dom Duarte de Bragança

quinta-feira, dezembro 01, 2005

Vale de Acór

‘O Vale de Acór fica situado nos arredores de Jericó, sendo um dos caminhos que dá acesso à Terra Prometida...
O seu nome, no entanto, anda associado a um episódio dramático da história de Israel, uma vez que, segundo se conta no Livro de Josué, foi nesse vale que Acã e a sua família foram apedrejados até à morte como consequência da sua cobiça e idolatria...
De facto, a ofensa fora tão grande e a profanação tão injusta que o Vale onde Acã foi morto passou a designar-se por um nome que significa “confusão”, “infelicidade”, “desgraça”...
Porém, e é para isso que importa agora olhar, será nesse mesmo Vale de Acór que o Senhor abrirá uma “Porta de Esperança” (Cf.Os 2,17), segundo anuncia o profeta Oseias, por excelência o profeta da Misericórdia, atento, como nenhum, aos sentimentos de Deus, à sua benevolência e compaixão a favor dos homens...’

Hoje, o ‘Vale de Acór’ é o nome de uma obra da Igreja que se destina a acolher e ajudar, todos aqueles que querem reconstruir uma vida baseada na liberdade e na independência! Vida, que atrás ficou marcada pelo consumo na sociedade de consumo, nos limites do inenarrável, e que por isso, conhece bem a escravidão das dependências.
Neste precário 1º de Dezembro, procurei à minha volta e não vi sinais dos conjurados. No lugar da vontade, vi a inércia. No lugar da fidelidade, vi o egoísmo e o ódio.
Não existem Pátrias livres e independentes quando os seus filhos não as reconhecem, quando vendem a alma por qualquer servidão.
Mas ainda há esperança.
Fui buscá-la à fragilidade dos que lutam, dos que têm vontade de ser livres, dos que aprenderam, pelo sofrimento, qual é o verdadeiro valor da independência!
Que melhor exemplo poderia eu encontrar neste dia?

terça-feira, novembro 29, 2005

Manobras de diversão

Há oliveiras na Beira Baixa! Já sabíamos, não me esqueci da frase que ‘escapou a muitos’: ‘Não tenho capacidades nem talento para ser primeiro-ministro de Portugal’!
Mas, pela calada, lá vai levando água ao seu moinho.
Primeiro foi aquela falsa questão do referendo sobre o aborto, farto que estava de saber que o Presidente, não queria sair de cena com o cognome de, Sampaio, o do ‘Aborto’! Depois, vieram as ameaças veladas a Souto Moura, para, de longe, contar espingardas, ver como é que se pode dar a volta á ‘situação’. O apoio a Mário Soares para dividir a esquerda e fazer eleger Cavaco, comprometendo-o na crise do regime, também foi uma jogada bem vista.
Faltavam duas ‘abébias’: uma, aos homens da massa, e outra, á Igreja.
Assim se explica esta dupla manobra de diversão, só aparentemente contraditória.
A ‘Ota’ para entreter o pessoal e garantir expectativas de negociatas várias, embaladas nas grandes derrapagens orçamentais; e a ‘guerra dos crucifixos’ para, oportunamente, surgir magnânimo, e reafirmar que será impossível eliminar o ‘Cruzeiro’ do espaço público e da vida dos portugueses!
Qualquer idiota sabe isso, mas vai ficar agradecido quando o primeiro-ministro o proclamar solenemente.
Mas a vida não está fácil para ninguém, nem para este albicastrense adoptado. A sua teimosia e impaciência puxam mais para as suas origens transmontanas, o que poderá condicionar e afectar um jogo que exige sobretudo frieza e maleabilidade.
Além disso os tempos são outros. Vai ser difícil convencer o povo de que o que é bom para Sócrates é bom para Portugal.
E depois, há esta ‘chatice’ da Casa Pia.

sábado, novembro 26, 2005

Os sítios da minha rua

Sou um animal de hábitos, gosto de frequentar os mesmos sítios, as mesmas ruas, sentir que o mundo começa e acaba no meu quarteirão. Existem outros bairros, outras avenidas, cafés e cinemas mais atraentes, mas é aqui que me sinto bem. Mudei-me há pouco tempo, estou ainda a ambientar-me, mas já vou conhecendo pessoas e lugares.
E depois, para um ‘miguelista ultramontano’, (na feliz expressão que me identifica), já não existem muitas surpresas. Este bairro está muito bem, tem tudo o que preciso.
É uma rua direita, sem curvas, sem sobe e desce, mas o que mais aprecio, é a sua solidez. É raro aparecer um buraco, vê-se que foi feita no bom tempo!
A volta diária segue a rotina: - ‘paro’ no ‘Sexo dos Anjos’, inteiro-me das notícias, pergunto pelas novidades, e tenho que admitir, confio no dono do estabelecimento. Escreve com elegância e clareza, sobre assuntos que me interessam e ainda me adverte, generosamente, para outras leituras importantes! Já aconteceu devolver-me à procedência – para ler melhor o que escrevi! Daqui ao Pasquim é um pequeno salto. Para dizer a verdade, leio o Corcunda desde que me iniciei nestas lides, e não me esqueço que os seus comentários, foram incentivos que me ajudaram a continuar!
Mas os deveres chamam-me – vou estudar ao ‘Combustões’, admiro aí o talento, e se for caso disso, leio com inveja a prosa escorreita na ‘Nova Frente’. Depois do almoço, a bica é outra vez no ‘Sexo’, sem qualquer problema. Entretenho-me por ali, ponho a escrita em dia.
À tardinha vou arejar – entro no deslumbrante ‘Misantropo’ com os sentidos despertos – é o melhor estabelecimento da zona! Tenho afinidades com o ‘encarcerado’ e gostamos de tagarelar. É quase perfeito, pena aquele plebeísmo... encarnado!
No regresso passo pelo ‘Santos’, já tivemos as nossas divergências, mas sei que estou a jogar em casa. Espreito ainda o ‘Ultimo Reduto’, que também é Belém, e vou jantar com o Velho da Montanha. Somos da mesma idade, temos os mesmos gostos, já não temos paciência para algumas coisas, enfim, um encontro de velhos companheiros (de armas).
À noite, pela calada, tomo um aperitivo no Portugal Profundo, porta aberta (e corajosa) a ventos e marés, e dali, sigo para o incontornável (e imprevisível) Dragão. O dito, é um homem de génio, intratável. Vá-se lá saber porque é que simpatiza comigo... e eu com ele!
De resto, as visitas obrigatórias aos estabelecimentos monárquicos, e, um indispensável salto a Aljubarrota (de Vila Viçosa), para abraçar e incentivar o nosso jovem Condestável!
Falta só falar das visitas:
Aos que frequentam a minha ‘casa’, só posso dizer, sem ser cartomante ou borda d’àgua – que são pessoas inteligentes, cultas e bem formadas! Uma excelente ‘reserva da república’!!!
Já agora esclareço, que também trabalho (até aos sessenta e cinco anos – antes de Sócrates!). E que há alturas na vida em que um homem precisa de desabafar.

quarta-feira, novembro 23, 2005

Soares, Escutas e Casa Pia

No ‘court’ central do Diário de Notícias, disputou-se esta quarta-feira, mais um notável jogo de pares, opondo de um lado, Soares e um dos seus valetes, neste caso o recém promovido director A. Teixeira, e do outro, Souto Moura, outra vez a jogar sozinho!
Imaginamos que a oportunidade destes encontros se fica a dever, por um lado, à necessidade de defender o segredo de justiça, e por outro, contribuir para uma maior independência dos Tribunais.
O primeiro a bolar foi o Director do DN. Uma prosa sibilina, cheia de efeito, na direcção de Souto Moura, com a seguinte mensagem: afinal o poder político não manda, nem condiciona o poder judicial! É exactamente o contrário!!! Os coitados dos nossos políticos é que são umas vítimas nas mãos dos juízes! Estão sequestrados pelas ‘escutas’, e assim não se pode governar.
Se fizermos um paralelismo com o nosso futebol, a ideia até se compreende. Claro que são os árbitros que andam a subornar os dirigentes. O apito é uma arma perigosa na boca daqueles sujeitos vestidos de preto. Ainda por cima têm a colaboração dos bandeirinhas, que lhes fazem sinais que passam despercebidos ao comum dos espectadores. Não devia ser assim, é um mau exemplo para a juventude. O escutado é que devia, não apenas validar as escutas, mas ser ele a tomar a iniciativa das mesmas. Assim já ninguém era acusado de andar a fazer ‘queixinhas’... e o segredo de justiça estava garantido.
O jogo seguiu com mais umas bolas para o pinhal, na tentativa de obrigar Souto Moura a agachar-se... e muda o bolar.
Soares dá a sua primeira raquetada em falso. O velho jogador não resistiu, bateu a bola com muita força e ela foi parar à Casa Pia. Tinha conseguido evitar a jogada até agora, mas aquele processo... que parece encomendado para dar cabo do Partido Socialista, foi mais forte do que ele. Depois de uma subida á rede, para falar dos inconvenientes das escutas, fez a ligação com o processo de pedofilia. Segundo concluiu, há ali inocentes! Não estava a pensar nas vítimas, referia-se aos indiciados, vítimas das escutas.
A jogada de fundo adivinha-se. Como se adivinha o preço da sua recandidatura. As escutas estão contra o Partido Socialista. A Casa Pia também.
Aníbal tem aqui uma oportunidade de ouro para infligir uma dura derrota ao seu adversário. Basta-lhe conduzir os seus ‘elefantes’, evitando o atoleiro da Casa Pia. E não pode pisar Souto Moura.
Os dados estão lançados.

terça-feira, novembro 22, 2005

Desparasitar, Privatizar, Educar

As funções do Estado têm que ser revistas.
Mendes levantou o problema, durante a discussão do Orçamento de Estado. Em Madrid desfilaram milhares pela liberdade de ensino. O estado em que vivemos não larga o osso. Quer educar o povo, vai reproduzindo o sistema, quer manter-se à tona de àgua custe o que custar.
Um monárquico, em estado de sítio, grita – fechem a universidade! É de lá que saem as ninhadas que alimentam a voragem.
Desparasitem o sistema, reclama o interregno. Mas com eficácia.
Nada conseguiremos se não substituirmos a Presidência republicana, a chave e o fecho do regime, corredor aberto por onde passam e entram todos os parasitas que engordam o Estado, na exacta medida em que o enfraquecem. Onde estão os monárquicos? Vão continuar a gerir o silêncio? Em intervenções difusas? Entretidos com os candidatos dos partidos?
E os outros, essa imensa maioria de resignados, que desesperam por uma solução?
A solução sempre existiu, não é preciso inventar a roda, é a Instituição Real. Trata-se de introduzir um elemento cujo poder assenta numa legitimidade diferente do resto da ‘manada’. Tão simples quanto isso.
Porque é que a ‘direita’ não o fez em meio século? Porque não soube? Porque não quis? Porque afinal, é jacobina e apenas se diferencia da esquerda, pelo lugar que ocupa na bancada?
Há qualquer coisa a ressumar, a vir ao de cima. Andam a suspirar pelos cantos, falam de independência, não falam do Rei, o seu garante!
Revisões? ‘Reprises’? Vinganças? Não há colónias, já não temos nada em comum, não é possível pedir o último sacrifício, invocando apenas o passado. É preciso autenticar o presente. Para que se pressinta que o futuro é de todos. Não mobiliza quem quer, mas quem pode.
Voltemos ao princípio, ao Príncipe.
Depois de desparasitar o sistema, avancemos ao contrário de Pombal. Privatizemos o ensino e a educação, renovando a parceria com a Igreja Católica. É a única parceria identitária que conheço, e que nos justifica como Pátria independente. Precisamos das nossas ‘madrassas’, para não acabarmos a estudar nas outras.
Isto não pode ser feito por nenhum ditador, da esquerda ou da direita. Por nenhuma ‘democracia’, chame-se ela, bloco central ou aliança democrática. O Rei tem que estar supra presente. Tem que haver a noção de continuidade, que a dinastia assegura. As pessoas começam a perceber isso. E depois, só o Rei pode conter os ‘sacerdotes’. Onde há Rei não há fundamentalismos religiosos. Nunca houve, desde os Faraós!
Por isso, não queremos constituições à francesa. Tem que lá estar inscrita, na primeira linha, na primeira frase, a palavra – Deus.
Pode ser assim – ‘Portugal, pela Graça de Deus, Pátria dos povos que a História uniu, é serviço de repúblicas livremente constituídas. O seu Defensor é o Rei’. Segue-se um articulado necessariamente curto.
Não é politicamente correcto?
Pois não, felizmente.

terça-feira, novembro 15, 2005

Os pés em cima da mesa

Fixem o personagem: Rui Marques, de cognome ‘O Integrador’!
Fixem o exemplo: “devemos aceitar que pessoas de outras culturas, quando sentadas à nossa mesa, não sejam obrigadas a usar talheres”! Tudo em nome do multiculturalismo integrador!
A educação, a convicção de que estamos certos naquilo que fazemos, não existe, é tudo muito relativo. Ensinar os indígenas a adquirirem hábitos civilizacionais, pedir ao ‘cromagnon’ que se liberte da caverna, pode não ser bom! Principalmente se resolvem visitar-nos em nossa casa! Neste caso particular, e em nome da boa integração, será melhor deixá-los à vontade, a fazerem aquilo que lhes apetecer! Se saltarem para cima da mesa, e as nossas criancinhas acharem graça, a educação ‘integrada’ obriga-nos a esse supremo gesto de solidariedade – trepam os miúdos, e trepamos todos para cima da mesa!
Claro que pode acontecer, que os nossos estimados candidatos à integração, não satisfeitos com os pés em cima da mesa, comecem a exigir que nos comportemos como eles, que abdiquemos dos nossos princípios, tudo isto, sob a ameaça de nos atirarem com os talheres à cabeça! Nesta emergência, devemos ter o cuidado de não ofender o seu bom nome, e nunca pronunciar a palavra – ‘escumalha’. É o que se retira dos ensinamentos de Rui Marques. ‘Escumalha’ é uma expressão chave, que pode a qualquer momento degenerar em grande violência, como se viu agora em Paris de França!
O grande ‘Integrador’ vai mais longe, e acredita que em Portugal se pode aplicar o modelo multicultural do Canadá!
Vamos esquecer rapidamente essa experiência de colonização e integração defeituosa, quinhentos anos a brincar com as pessoas, quando afinal o Canadá é que sabe!
Rui Marques parece saído de uma teoria da relatividade, não é decerto ‘da raça dos navegadores’, e com ele ao leme, acabávamos nas ‘galés’!
Escravos, naturalmente.

domingo, novembro 13, 2005

‘Diário XII’

Ilha de Moçambique, 5 de Junho de 1973

- Louvado seja Deus Nosso Senhor! Até que enfim posso regressar sossegado, com a viagem justificada em todas as minhas exigências de homem e de português. Aqui, sim. Aqui a pátria chegou e sobrou. Aqui todos os que vieram se transcenderam, deram o melhor de si, mereceram a aventura e a glória. Que orgulho legítimo eu sinto a compartilhar este sincretismo de raças, de culturas, de fé e de sentimentos! Brancos, pretos, pardos e amarelos num convívio fraterno, os vivos a mourejar ombro a ombro, os mortos a repousar lado a lado. O docel de um púlpito que lembra uma sombrinha chinesa, altares cristãos que parecem destinados a Buda, uma capelinha manuelina a dar guarida ao corpo do primeiro bispo do Japão. Ah, génio lusíada, quando acertas! Quando não te abastardas! Quando te medes com o impossível! Fazes de um banco de coral o centro geométrico da concórdia do mundo!

Miguel Torga

sábado, novembro 12, 2005

‘Venho de longe...’

Venho de longe e trago no perfil,
Em forma nevoenta e afastada,
O perfil de outro ser que desagrada
Ao meu actual recorte humano e vil.

Outrora fui talvez, não Boabdil,
Mas o seu mero último olhar, da estrada
Dado ao deixado vulto de Granada,
Recorte frio sob o unido anil...

Hoje sou a saudade imperial
Do que já na distância de mim vi...
Eu próprio sou aquilo que perdi...

E nesta estrada para Desigual
Florem em esguia glória marginal
Os girassóis do império que morri...

Fernando Pessoa

sexta-feira, novembro 11, 2005

Não há justiça neste mundo?

Fizeram tudo para termos os mesmos problemas que os franceses!
Mataram frades, fecharam conventos e missões, exigiram ’concordatas’!
Apagaram o Cristianismo das constituições e dos livros, proibiram a evangelização!
Liquidaram, no Rei, todas as referências e raízes!
Não contentes,
Gritaram no cais do egoísmo (e da cobardia) – ‘nem mais um soldado, nem mais um tostão, para as colónias’!
Ainda assim, em campanha eleitoral, e antecipando distúrbios, acham-se em “melhores condições para dialogar com o pessoal das colónias”, segundo Soares, ou, “não vamos ter os mesmos problemas que a França, porque os nossos imigrantes não são islâmicos”, segundo Vitorino!!!
O que é que apetece fazer? Ou dizer?
É só desfaçatez? Será também ignorância?
Ergue-te Francisco Xavier, apóstolo das Índias, levantem-se Vieira e Anchieta, missionários do Brasil, e todos os que em África, Ásia e Oceania se esforçaram e sofreram, para que os povos recebessem a Luz e a Paz do cristianismo! Regressai por um instante da eternidade das Vossas vidas, e castigai estes incréus. Se for pecado, converteio-os e livrai-nos a nós da tentação do ódio e da vingança.
É que se não vindes, temo pela vida destas criaturas. Os islamitas, têm por adversários os Cristãos, mas têm por inimigos todos os ‘laicos, republicanos e socialistas’, a quem resumidamente apelidam de “cães infiéis”.
E eles estão aqui próximo... em Alcacer-Kibir...

quinta-feira, novembro 10, 2005

A vitória de Pirro

A dúvida insanável assaltou os juízes na hora de pronunciar ou não o nome de um político do regime. O corredor da justiça portuguesa tornou-se mais estreito, a república manteve-se igual a si própria, nunca julgará os seus.
Se quisermos ser justos na análise dos sistemas políticos, verificaremos que naqueles em que existe a crença numa certa verdade política, em alguns valores políticos absolutos, são também aqueles em que o exercício da justiça, mantém um prestígio assinalável. Estou-me a lembrar da Inglaterra, por exemplo.
Pelo contrário, onde as formas políticas passaram a ter mero valor relativo, a justiça é olhada com grande desconfiança e o seu prestígio é nenhum.
Nem sequer lhes tem valido o espectáculo de um certo folclore justiceiro, pontuado aqui e ali, com detenções mediáticas. Quem não gosta de ser enganado, fica com a ideia do mero ajuste de contas.
Podemos assim traçar uma fronteira nítida entre os Estados, consoante a sua justiça é ou não respeitada. É ou não independente do poder político.
Hoje, em Portugal, a classe política celebra vitória e repete – fez-se justiça!
De vitória em vitória...

terça-feira, novembro 08, 2005

O Terror

Quando ouço falar de terror, em França, lembro-me dos ‘Robespierres’. Quando me falam de argelinos, lembro-me do General Salan, de Jean Lartégui e dos seus ‘centuriões’.
Nunca fui a França, nunca me apeteceu ir. Dizem-me que Paris é lindo, o Sena, etc., o problema para mim são os franceses.
Sei que nos anos sessenta, os portugueses emigraram em massa para aquele País, fugindo à pobreza, à guerra nas colónias, mas sobretudo à incapacidade republicana de transformar Angola e Moçambique em novos Brasis.
A minha Avó ainda sonhava em francês, mas hoje, em francês, só temos pesadelos.
A decadência, fácilmente verificável no enorme declínio da língua, prossegue alegremente, e só os próprios, e alguns indefectíveis, não compreendem as suas causas.
Não se pode ver um filme francês, nem ler um livro francês (à semelhança do que se passa com os filmes e livros portugueses), pela simples razão que os franceses de hoje, não têm nada para dizer ou acrescentar à nossa esperança, à felicidade dos povos, ao futuro da humanidade. Claro que há gente que consome tudo. Gentinha que se rebola no século XIX, que confunde a ‘cidade-luz’ com os carros incendiados.
Essa terra, que já foi de heróis e santos, tudo renegou e trocou, pela curta glória de uma campanha militar que acabou mal, e por uma utopia (em que nunca acreditaram!) que acabou pior.
Matou o rei, não consegue arrepender-se, e, num misto de estupidez e má consciência, tem vindo a ensaiar a fuga para a frente. Não lhe tem valido de nada. O tempo e o espaço encurtam-se cada vez mais.
Desde que o último dos Capetos caiu guilhotinado, o que é que podemos recordar da História da França? Que sinais de perenidade? Que sinais de futuro, se a juventude não os entende?
O que está a acontecer em França não é fruto do acaso, não é nenhuma surpresa. A recente comunicação de Chirac meteu dó e explica tudo.
Tiraram os crucifixos das paredes, mas sabem que os islamitas nunca retirarão os seus símbolos de nenhuma parede. Porque os amam, porque os respeitam, porque não têm vergonha deles, porque sentem, que sem eles, perdem a sua identidade. E não são assimiláveis, porque a sua cultura é mais forte. São mais fortes porque acreditam em Deus.
Os franceses (e os nossos afrancesados) já nem percebem isso, o que é verdadeiramente dramático. O laicismo que não dá alma, nem para ganhar ao chinquilho, tolda-lhes os sentidos e a razão.
Estes franceses vão ceder sempre e quando se sentirem encurralados, irão disparar, vão matar magrebinos. As famílias destes, na Argélia, em Marrocos, por toda a parte, como irão reagir?
A Europa está farta de pagar pela irresponsabilidade da República Francesa e da ‘sua revolução’. Mais uma vez não se vislumbra nada de bom. Não tardará muito, e vamos ter problemas no flanco sul por causa destes jacobinos.
E já agora, mandem vir os turcos também.

sábado, novembro 05, 2005

As Côrtes da Guia

Passado um ano, é possível estabelecer uma leitura dos factos:
Na liberdade que vai da Senhora da Guia para a boca do Inferno, entre a luz e as trevas, a partir do mais raso dos cabos, distingo pela expressão representativa – o Padre que celebrou a Missa, o Duque de Bragança, o Régulo de Peciche, um brasileiro de Espírito Santo e a memória convergente de Henrique Ruas, entre muitos outros convivas.
Quinze de Setembro, dia de todas as dores. Plena consonância entre as palavras, os sons e os actos.
Na singularidade deste encontro, sucedeu estarmos todos de frente para uma realidade mais forte – a representação não se esgotava na soma das partes.
No fim, foi distribuído um pequeno livro que deu sentido à festa.
O cronista diria:
Desde o Rei D. Miguel que não se reuniam as Côrtes!

Imagino a possibilidade de convocar e reunir, sob a égide do Príncipe Português, as representações necessárias e suficientes da diversidade Lusíada, com o sentido de reconstruir o mosaico de serviço universal que já fomos e continuamos a ter capacidade para ser.
O mundo português desarticulado, órfão, que não se sente representado nas instituições republicanas, sem o rei, ainda assim vem ao encontro da esperança no antigo acolhimento, de um rumo certeiro para as suas vidas, hoje entaipadas em conceitos artificiais e enganadores. No fundo, nunca deixaram de acreditar. Sabem que os portugueses acabarão por dar a volta por cima e que isso será benéfico.
Essa grande comunidade de comunidades, anseia por muito mais que uma sigla inócua, sem qualquer conteúdo, porque não possui o indispensável “traço de união” que a todos irmana, que simboliza a verdade histórica, a vida em comum, a unidade do passado, presente e futuro.
As “Côrtes do Mar”, como passarei a designá-las doravante, seriam convocadas informalmente com o objectivo de preencher todo esse vazio da representação que sentimos, náufragos em terra, saudosos dos caminhos marítimos que nos uniam.
Assim instituídas, realizar-se-iam regularmente, seguindo a rota dos descobrimentos, abertas a todo o mundo lusíada que quisesse celebrar o reencontro de um destino comum. Uma única condição: – honrar os compromissos legitimamente assumidos no passado e os que se firmarem para o futuro.
Reconstruir uma utopia? Não.
Mas reconstruir as estruturas do poder misto, compromisso que sempre existiu entre o permanente e o efémero, base e referência para qualquer comunidade humana com futuro. Os alicerces, ainda visíveis, merecem esse esforço, a benefício da Independência dos povos envolvidos.
Os novos “trabalhos de Hércules” abrangeriam inicialmente todas aquelas áreas desprezadas pelos “poderes eleitos”, que não rendem votos ou proventos imediatos. Campo de acção não faltaria.
Tem a palavra o Príncipe.

terça-feira, novembro 01, 2005

Celebrar a vida

Hoje celebra-se o “Dia de todos os Santos” mas a maior parte das pessoas não sabe, até porque os ‘media’ têm vindo a alertar a população para o terramoto de 1 de Novembro de 1755.
Alguns políticos que vivem em zonas de risco, Lisboa e Algarve, já foram incomodados com a seguinte pergunta dos jornalistas – se hoje ocorresse o terramoto de 1755, estaríamos preparados para o receber?! Chegou-se, inclusivamente, à conclusão, que o Marquês estava em melhores condições do que nós!
Aos “Santos”, espécie lendária para a maioria, disseram nada.
Esta é, portanto, a animalidade que nos rodeia e que, mais uma vez sem o saber, nos anuncia o próximo fim dos tempos, para que se cumpram as Escrituras.
Os sinais, aqui em Portugal, multiplicam-se. Não se limitam a comemorar guerras civis, terramotos ou mudar os nomes às ruas e pontes – fazem estátuas a tudo o que ‘mexe’, usam as datas como arma de arremesso, são afinal, piores que os animais.
No tempo da Monarquia, daquela que não tinha medo dos sismos, porque tinha outros alicerces, as expressões da memória colectiva, fixavam-se na pedra ou no bronze, mas viradas para Deus. Os sinais da nossa passagem, assinalavam-se na simplicidade de um padrão, encimado com a Cruz.
Hoje, perdida a esperança na eternidade, o furor comemorativo ultrapassa tudo o que se tem visto – fazem (imprudentemente) estátuas aos vivos, condecoram-se uns aos outros, e virá o tempo, em que serão embalsamados à nascença! É a cultura da morte, não da vida.
A cultura da vida tem outros sinais. Que se descobrem no último e contraditório soneto de Bocage – “ oh gente ímpia, rasga meus versos, crê na eternidade”.

terça-feira, outubro 25, 2005

"O Fim do Regime"

- Quando aparece alguém a anunciar convictamente o fim do regime, o Interregno interessa-se e amplifica a mensagem, com a devida vénia:

".... O fim do regime

A candidatura de Cavaco Silva à Presidência da República constitui a última hipótese de salvação do regime do Bloco Central mas, paradoxalmente, é também o sinal de colapso desse mesmo regime.

O regime do Bloco Central criado no seguimento do Período Revolucionário em Curso (1974-1975) está em crise em grande parte por causa da máquina administrativa do Estado que criou e multiplicou. Estado esse que já nem tem verbas para se servir a ele próprio, mantendo os salários e as pensões, quanto mais para servir o país. Os últimos governos do PS e do PSD tentaram fazer pequenas adaptações, mas a reforma do Estado sovietizado montado e consolidado ao longo de trinta anos dificilmente se leva a cabo com pequenos remendos.A candidatura de Cavaco Silva pretende ser um factor de estabilidade mas a agenda que de facto defende é de garantir o controle necessário para que se implemente uma urgente instabilidade no aparelho administrativo do país. Todos sabemos que não há outra saída e a candidatura de Mário Soares tem de prosseguir exactamente os mesmos objectivos de reforma do Estado. Aliás Mário Soares já desempenhou esse papel quando, como Primeiro Ministro, permitiu que Ernani Lopes fizesse cortes de 30% no rendimento dos funcionários públicos, mas que agora não temos os instrumentos que a inflação permitia para os implementar.
Em suma, teremos um Presidente da República a fazer as funções de um primeiro ministro popular o que levará a perder grande parte da popularidade com o apoio às reformas urgentes do Estado. E quando as reformas forem implementadas nem teremos Governo nem teremos Presidente da República porque ambos se aliaram a fazer política que nenhum deles quis fazer sozinho.
Imaginem o que será quando a popularidade do Presidente da República descer abaixo dos dez por cento. Será que pede a demissão e o presidente da Assembleia da República assume o poder até novas eleições? Será que os militares intervêm derradeiramente no país instaurando o Presidencialismo, o Parlamentarismo, o Autonomismo ou a Monarquia? Qual será o papel da Espanha, dos Açores e da Madeira?
O Regime do Bloco Central acabou e será um dos seus protagonistas que o vai terminar.
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* Tomás Dentinho
Director de 'A União'
Angra do Heroísmo. ..."

A questão Turca

“Aqui venceremos ou morreremos” – foi a divisa de D. João de Áustria!
A 7 de Outubro de 1571, a armada católica esmagou o turco Ali-Pachá em Lepanto, numa batalha decisiva para a sobrevivência da Cristandade.
Mas a longa tenaz do Islão nunca deixou de apertar. A ameaça que vinha do Oriente não abrandou e manteve-se às portas de Viena.
Metternich, o chanceler austríaco que “travou” Napoleão, quando lhe perguntavam “onde era o Oriente?”, explicava – “O Oriente começa no fim da minha rua”!
O Império Otomano, que durava desde o século XIII, desfez-se enfim, batido pelas forças Aliadas, nas sequelas da primeira guerra mundial. Kemal Ataturk e os seus “jovens turcos”, tentaram então “ocidentalizar” a Turquia e construíram sobre as ruínas do velho Califado, o Estado republicano e laico que chegou aos nossos dias.
Esta breve resenha histórica para situar a questão da actualidade:
Deve a Turquia fazer parte da União Europeia?
A resposta seria simples se houvesse um entendimento comum sobre o que é a União Europeia, que como se sabe não há!
É uma simples associação de comércio livre? É uma Instituição comercial que pretende ter uma política comum? É uma associação política de Estados, que visa tornar-se um Estado federal? É uma regra moral? É uma circunstância política?
Da resposta a esta e outras perguntas poderia resultar uma aproximação ao que se pretende – satisfazer ou compensar os turcos pelos serviços prestados durante a guerra-fria à causa do Ocidente, representada pelos Estados Unidos.
Aliás as posições contraditórias e egoístas de alguns Estados comunitários (a França, por exemplo), fazem lembrar curiosamente as mesmas desconfianças que no século XVI se instalaram entre os estados Cristãos, disponíveis para fazer frente à ameaça turca! Com efeito os esforços de S. Pio V para unir a Cristandade, esbarravam muitas vezes nos protestos da Espanha, que acusava a Sereníssima República de Veneza de fazer pactos com os turcos, à revelia da causa comum!
Mas regressemos às dúvidas: as do lado turco.
Os turcos perderam a memória e já esqueceram o seu passado de grandeza?
Setenta anos de “deslocação de interesses”, sublimados nas pequenas vitórias de Ataturk, serão suficientes para apagar as grandes vitórias, como a tomada de Constantinopla?
Os optimistas europeus, terão imaginado que poderia acontecer aquilo que em séculos nunca aconteceu – a possibilidade dos turcos serem assimilados, já não digo pelos nossos valores, em claro declínio, mas pela miragem de uma sociedade de abundância?
E podemos também acrescentar os convenientes e inconvenientes afincadamente discutidos nas reuniões de Washington e Bruxelas – a decepção e a reacção turca!
Como se vê problemas não faltam.
Por exemplo – se abrirmos o espaço Shengen, bastará que os emigrantes turcos chamem as suas famílias para junto deles, para provocar de imediato um entupimento geral na União!
Ou ainda – e se eles, ressentidos connosco, resolvem estender a sua influência a oriente e regressar ao Califado?!
Não vale a pena andarmos às voltas porque as coisas são aquilo que são e só os aprendizes de feiticeiro pensam ter descoberto a pólvora, ou então repetem, que o mundo entretanto mudou. Claro que o mundo está sempre a mudar, infelizmente, nem sempre no melhor sentido! Pelo contrário, em termos de carácter e dignidade, regredimos. Como esperar então que os outros tenham mudado para melhor?!
Os turcos são os turcos e nós somos nós. Temos culturas diferentes, religiões diferentes – eles pelo menos, têm religião, e não vão abdicar dela em nome de qualquer laicismo que lhes queiramos impingir. Nesse sentido, os turcos devem continuar a ser tratados como turcos para que não haja equívocos desnecessários.
E para que a vitória de Lepanto não tenha sido em vão.

sexta-feira, outubro 21, 2005

“Há quatro orientes”

À volta da mesa estavam sentados cinco comissários presidenciais. Curiosamente, o número dos partidos representados na Assembleia da República! Se rápida e inadvertidamente fizéssemos as contas, chegaríamos à conclusão que havia um partido com dois candidatos, e inversamente, um candidato para dois partidos. Mas as coisas nunca são tão simples.
Eu estava sentado defronte.
O centro de mesa era ocupado pela incontornável Judite, que virava e revirava os olhos para um e para o outro lado. Sorriso permanente, mas não sou capaz de definir se era prazer ou dor!?
Enquanto ouvia mais ou menos desinteressado a conversa, fui apanhando algumas coisas – palavras soltas, tiques, umas sentenças aqui e ali. Mas houve revelações importantes.
Chamou-me a atenção o facto, de pelo menos três dos comissários, garantirem que os seus candidatos eram rigorosamente apartidários. Eram a reserva da República, que à vista do naufrágio iminente da Pátria, tinham saído de suas casas, recolhido umas assinaturas, para se sujeitarem ao voto dos portugueses. Achei bonito!
O comissário de Jerónimo e a pequena Drago não confirmaram a tese. Estavam ali para outra coisa e não esconderam: fazer propaganda partidária pura e simples. Também achei bonito.
Judite continuava a virar-se e a revirar-se porque o diálogo era sobre a esquerda e a direita! Os comissários, aparentemente todos da esquerda, acusavam no entanto um deles, de ser da direita. A conversa estava neste ponto quando surgiu a frase da noite, proferida em primeira-mão pelos chineses – “há quatro orientes”!
A revelação foi demasiado forte. A grande arquitecta, que estava ali por Alegre, reagiu de imediato e esclareceu que havia mais um oriente – o que tinha a mania de estar sempre por cima! Houve uns momentos de silêncio e desnorte, até que Roseta desfez as dúvidas, dizendo que se estava a referir a Cavaco! Ultrapassado o incidente, o comissário de Soares, exemplificou sobre a produtividade na Ásia, afinal o grande oriente que faltava, e confirmou que Mário era o candidato do futuro.
Depois de mais esta revelação importante, o debate baixou nitidamente de nível, com a pequena Drago a interromper sistematicamente o comissário de Cavaco, revezando-se nessa tarefa com o nosso sósia do “Duce” (semelhança física, naturalmente). Aguentei enquanto pude, mas tive que desligar a televisão.
Estava em causa a próxima Chefia de Estado, mas ninguém conseguiu subir o indispensável degrau. Falaram do que são capazes – de contabilidade.

quarta-feira, outubro 19, 2005

Passos para Deus

“Há o homem grande e o homem pequeno, há o homem maduro e há a criança, mas a trama da humanidade, a trama do coração existe tanto no homem maduro como na criança.
Nós somos crianças, mas somos chamados por este caminho, onde nada é perdido, nada é omitido, nada é, sobretudo, renegado. Mas tudo é reencontrado, tudo é, finalmente encontrado. Da aparência da beleza vem a dor que a faz resgatar e, finalmente, amar, porque a palavra amar não tem qualquer possibilidade de ambiguidade: é afirmar com espanto, com o espanto de todo o próprio ser, o Outro, o Destino, e esta presença do Destino, este sinal, este corpo do destino que são o outro homem e o céu e a terra e tudo o que acontece. O meu bem, a minha dor e o meu mal tornam-se dignos de amor, tudo é novo.
“Tudo é novo”, diz São Paulo. Eis que passou o que é velho, já não existe, somos crianças, mas esta é a estrada pela qual somos chamados, frente a todas as coisas. Não há que omitir ou renegar nada, não há qualquer mutilação.
Há só uma ressurreição.”

Luigi GIUSSANI, “A descoberta de don Juan” in As minhas leituras.

terça-feira, outubro 18, 2005

Inferioridades

Duplicados e em inferioridade face ao outro grande colonizador ibérico, Portugal marcou presença na cimeira de Salamanca. O Director do jornal ‘A União’ de Angra do Heroísmo, também tem dúvidas sobre a qualidade da nossa representação! Com a devida vénia, transcrevo:

“ Cimeira Ibero-americana


Estou por aqui ao lado, em Bragança, bem perto de Salamanca onde está a decorrer mais uma Cimeira Ibero Americana congregando grande parte dos presidentes, chefes de governo e ministros dos negócios estrangeiros das duas dezenas de países que compõem a América Latina, Espanha e Portugal.

Apetece ir lá, tomar uma cerveja com Hugo Chavez na Praça Mayor, ouvir a conversa de Lula sobre a corrupção, ouvir um bom som brasileiro, escutar os comentários dos estudantes universitários, e fazer uma saúde qualquer ao jantar no restaurante a Mesta, falando de touros e de mar. Se estivermos com atenção às notícias o que preocupa os espanhóis são as migrações. O projecto é conseguir um modelo comum de gestão de migrações entre os vários países de forma que os mais amarrados à Europa possam passear, investir e trabalhar para os vários sonhos por construir na América Latina. E também para que recebamos brasileiros e venezuelanos que é uma das soluções de irmos competindo com a China sem atrair muitos sub – saharianos e ucranianos. O que preocupa os castelhanos é assim uma gestão dinâmica da cultura que é a forma mais bruta de procurar um modelo comum de gestão de migrações. No concreto tratar-se-á talvez e somente de relativizar o Espaço Shengen, produto da Alemanha e da França, para facilitar vistos, permitir acessos aos sistemas de saúde e de educação e facilitar a cobrança de impostos e contribuições. Os portugueses, estranhamente, estão preocupados com um piloto que aguarda há um ano julgamento na Venezuela por ser suspeito de tráfego de droga. A atender às notícias parece que a ausência de Fidel de Castro também é uma questão essencial para a estratégia nacional face à América Latina e a Espanha. Á primeira vista apetece ridicularizar esta personalização da política internacional, como se tudo dependesse do José e do Fidel. Todavia, de um ponto de vista mais abrangente, talvez seja mesmo mais importante para o futuro das pessoas e dos sítios da América Latina a forma como se controla o circuito da droga no mundo e a maneira como evolui o regime de Castro. Para quê mais um papel para supostamente facilitar uma melhor circulação de pessoas se essa burocracia será difícil de melhorar em países como os nossos? Sabemos bem que ou há uma liberdade de circulação quase total e o controle é feito pelos colegas de trabalho e vizinhas de bairro, ou então o dito modelo de gestão de migrações só melhorará a vida para alguns e criará mais papéis impossíveis para os outros. Vamos então à agenda portuguesa que passa por beber um copo com Hugo Chavez e marcar um jantar em Trinidad de Cuba com Fidel, Lula, Hugo, João Carlos e... A chatice é que não sei se temos um representante nacional à altura!

sábado, outubro 15, 2005

Repúblicas de exportação

O produto completo, (comercializado sob a forma de Kit), inclui “democracia” e “separação da Igreja do Estado”, mas aceitam-se encomendas para “ditaduras especiais” ou outras fórmulas sustentadas de “colonização”!
Os leaders de mercado desta antiquíssima “novidade”, com patente registada e bons resultados (veja-se o caso de Portugal), são os Ingleses. Uma longa experiência e uma retaguarda muito sólida, dão garantias de assistência imbatíveis.
O modelo americano tem dado problemas! É um subproduto da casa-mãe britânica, com péssimo apoio de retaguarda (por causa da “república”), uma assistência incompetente, e tem conhecido vários reveses nos últimos tempos.
Por exemplo, no Iraque, e outros mercados semelhantes, onde o cliente não quer “a separação da Igreja do Estado”, o modelo americano insiste em vender o kit completo, e tem havido muitas reclamações por isso. Os clientes protestam e com razão, dizendo que quer na Inglaterra, quer nos Estados Unidos (e já agora Israel), o produto é comercializado sem “a separação da Igreja do Estado”, e querem portanto o mesmo tratamento!
Os vendedores americanos (com os Ingleses por perto) lá vão explicando, que uma coisa são produtos exclusivamente para exportação e outra coisa são produtos para consumo interno. Não há confusão possível.
É só ler as instruções: “Este produto, conhecido por ‘República democrática laica’, é exclusivamente destinado à exportação, e tem como principal objectivo, enfraquecer o cliente por dentro, para poder ser explorado por fora. Trata-se de um brinquedo que entretêm imenso e que dá uma enorme sensação de independência, enquanto o cliente não acorda! Depois vem a inevitável ressaca, que deve ser devidamente acompanhada pelos nossos técnicos, ‘eleitos’ no local, com a máxima protecção e sigilo. As reclamações deverão ser tratadas pela comunicação social, entretanto livre, e ao serviço do nosso produto!
Contra indicações: Deus, Pátria, Rei.”

terça-feira, outubro 11, 2005

O que interessa

Terminou o arraial... ao longe, ainda se ouvem os ecos da festa – são os dirigentes do bloco central a repetir o habitual refrão: estas eleições “não contam para o totobola”, porque os partidos, dizem eles, apenas participam nesta quermesse, em nome dos superiores interesses da República! Ninguém duvida.
Trata-se de orientar os autarcas na melhor maneira de distribuírem obras e benesses, entre empreiteiros e amigos. Mas deixemos isto, porque é matéria dada.
O que me interessa verdadeiramente é o que se está a passar em Ceuta e Melilla. Deixo Viena de Áustria para outra ocasião.
No flanco Sul a Europa fraqueja.
Se recuarmos ao século VIII, poderíamos imaginar que Gebal Tarique, quando atravessou o estreito, que tem o seu nome, teria sido precedido por muitas levas de emigrantes berberes, que assim prepararam a invasão e o triunfo! É a imaginação a falar?! Pois que seja.
Mas a realidade não é fácil de escamotear ou esconder.
Os resultados do apoio ao terrorismo por parte das forças bem pensantes e progressistas, na Europa e nos Estados Unidos, as descolonizações apressadas e “exemplares”, o surrealismo dessa miríade de “estados” (de sítio?) afro-asiáticos, sem qualquer sustentabilidade ou futuro, toda essa imensa estupidez e ganância, está à nossa vista, defronte das “muralhas” de Ceuta e Melilla.
Estão desesperados, com fome e com sede, e preferem morrer ali, a voltar para os paraísos terreais, imaginados e metodicamente construídos, por todos nós! Muitos dos galardoados com o Nobel da Paz, estão entre os possíveis carrascos.
E agora?
Deixar entrar toda a gente?! Deixá-los a morrer no deserto?!
Ou encontrar um meio-termo hipócrita: entram uns e morrem outros?!
Estas são as questões incómodas que gostaria de ver tratadas com seriedade e coragem pelos actuais políticos portugueses, muitos deles com especiais responsabilidades nesta matéria.
Em lugar disso, Sócrates entusiasma-se com os sucessos do futebol angolano, a face de ouro de uma moeda que esconde a miséria dos miúdos de Luanda, a comer nos caixotes de lixo, enquanto os pais tentam desesperadamente entrar na Europa, à procura de trabalho e pão.
O futebol, para enganar o estômago?
Não se iludam, enquanto não tivermos uma política que sem sofismas, resolva satisfatoriamente a herança colonial, Portugal não conseguirá sair deste atoleiro em que se vai revolvendo. Uma política que não pode continuar a pactuar com regimes absurdos, que apenas mostram aptidão para governar diamantes e petróleo.
Portugal e a Europa não podem receber os emigrantes de Ceuta e Melilla. Mas Portugal e a Europa podem e devem criar condições para que os naturais dessas antigas colónias, possam viver condignamente nas terras onde nasceram, quando se sabe, que muitas delas são ricas e férteis!
É aceitável que um angolano tenha que emigrar?
Então para que serve a “independência”?

segunda-feira, outubro 10, 2005

Domingo começa

Não acaba, como escreveu Vasco Pulido Valente em brilhante artigo que, com a devida vénia, transcrevo na parte que me interessa:

- “ (...) A bem ou a mal, temos de saber que existem eleições e conviver com criaturas que não se recomendam. Fugitivos da justiça, trapalhões de carreira, corruptos comprovados, frades sem roupeta e filósofos fictícios berram, injuriam, agarram, puxam e abanam o cidadão para o convencer da sua excelência. Recebendo do Estado mais de 50 por cento do dinheiro que gastam, não são responsáveis financeiramente. Impedidos de tocar na lei do arrendamento, não são responsáveis pela direcção urbanística de parte alguma. Sem autoridade sobre a PSP e a GNR, não são responsáveis pela segurança. Não são também responsáveis pelo ordenamento territorial, pelo trânsito, pelo sistema escolar (felizmente!), pela saúde ou até por obras públicas de certo peso. São, em suma, irresponsáveis por 308 parcelas do território (tirando as freguesias), metade das quais se devia abolir, e servem principalmente para distribuir dinheiro (com duvidosa utilidade) e prover os compadres com empregos, quando não com negócios. Não admira que este enorme ‘saco azul’ inspire uma campanha estridente. Só é pena já não haver maneira de lhe escapar, como Jane Austen docemente escapou ao terramoto da Europa. Ao menos, domingo a feira acaba.”
“Domingo acaba” – Jornal Público de 7/10/05

Para lá do desencanto pelo paraíso perdido, que deliberadamente omiti, (porque nós ainda não desistimos), o autor sintetiza de forma magistral, a inutilidade desta “feira” autárquica, ao mesmo tempo que explica o enorme interesse que os partidos e o Estado napoleónico restante, têm na continuidade do “sistema”.
Pelo avesso, Pulido Valente fornece a doutrina para a reconstrução de Regiões Autónomas, onde os respectivos eleitos tenham de facto alguns daqueles poderes que actualmente irresponsabilizam os autarcas. Sem desculpas, directamente responsáveis perante as populações, empenhando a sua palavra, estes são os únicos eleitos que podem refrear as ambições centralistas dos partidos. Ainda que concorram com o seu emblema.
Discordo, claro, da via redutora de concelhos, porque isso significaria que não se tinha invertido a desertificação do interior do País. E eu quero crer que a autonomia regional é remédio para essa maleita.No resto, estamos de acordo.

sábado, outubro 08, 2005

Reflexão autárquica

Quem assistiu ao último debate dos cinco candidatos à Câmara de Lisboa, deve ter ficado elucidado sobre o que é que está em jogo nestas eleições!
Não é decerto Lisboa. A cidade e as suas gentes, mais buraco, menos buraco, mais barulho, menos barulho, mais assalto, menos assalto, ficará mais ou menos na mesma. Qualquer que seja o candidato vencedor.
Porque estas, como outras eleições locais, enquanto estiverem completamente partidarizadas, servem para tudo menos para o objectivo a que se propõem: melhorar a condição de vida dos munícipes, em articulação com outras autarquias, já existentes ou a criar.
Mas não, no Domingo, os candidatos estarão apenas preocupados com os resultados, em função das estratégias traçadas pelos respectivos partidos, na luta sem tréguas pelo poder central.
Nos outros Países Europeus também é assim, dirão.
Pois é, só que esses Países da União Europeia, a que não há maneira de aderirmos (salário mínimo incluído), já fizeram as reformas do Estado necessárias e não “construíram” as assimetrias regionais que por aqui, laboriosamente, vamos dilatando!
Percebe-se que a questão das assimetrias não preocupe muito os partidos, e por duas boas razões – todos eles vivem em Lisboa e são eles que provocam as assimetrias!
Mas pergunto eu, o que fazem os partidos nas autarquias?!
No saneamento básico ainda se admite que a esquerda tenha alguma prática, adquirida intensivamente a seguir à revolução dos cravos, e nesse sentido, autarquias que precisem de obras desse tipo, devem arriscar uma escolha socialista, CDU (grande especialista em saneamentos) ou no Bloco de Esquerda (estes, sem prática, mas muita vontade de experimentar!).
Mas com franqueza, não me parece que a concepção democrata Cristã de uma “rotunda” seja muito diferente da visão trotskista da mesma! E também estou convencido, que a série de piscinas olímpicas prometidas, para além de arruinarem definitivamente os cofres das autarquias e do Estado, pouca diferença fazem, se for o PS ou o PSD a executar a “loucura”!
Haverá sempre gente disponível para discutir e argumentar que sim, que é muito importante, não tenho dúvidas sobre isso. Portugal é que não tem dinheiro para pagar a tanta “importância”, nem aguenta tamanho impacto eleitoral.
Por falar em dinheiro – meio milhão de candidatos envolvidos, durante onze dias, e depois de eleitos, todas as despesas visíveis e invisíveis, todas as mordomias, hoje e no futuro, de tanta gente! Mas isto é a ponta do iceberg!
Esta gente eleita, só serve para reunir e discutir, “fiscalizar” e intrigar. Depois, como cogumelos, temos os técnicos de tudo e mais alguma coisa. Não esquecer de acrescentar nesta lista, os outros funcionários autárquicos, porque há sempre, outros!
O País é pequeno?!.. A gastar o que não produz, não é nada pequeno!
Debate encerrado. Quem ganhou?
A televisão é que sabe.

quinta-feira, outubro 06, 2005

Escrito em Outubro

Escrever neste dia, para quem nunca conseguiu desligar a ideia de Pátria do regime que a edificou, é trabalho pesado, e difícil, se já era difícil quando a musa, que inspira poetas e trovadores, nem sequer nos conhece.
Por aqui, não encontramos literatura verdadeira. E se ela era precisa, nesta hora...
Em lugar disso, uma espécie de cartazes que vou afixando, gratuita e regularmente, na secreta esperança, que uma dúvida mais certeira, acorde outras dúvidas, capazes de fazer implodir o regime em que vivemos.
Grande intróito para coisa nenhuma.
Mas lembrei-me de um certo dia de Julho, catorze, por sinal, e de uma conversa de circunstância com um parzinho de jovens turistas franceses, que muito contentes e orgulhosos me anunciaram – “hoje é o dia nacional de França, comemora-se a tomada da Bastilha”. Ele a olhar para ela, ela a olhar para ele, sorridentes, à espera do meu sorriso (ou aplauso)!
Resolvi estragar a festa e perguntei: - vocês também gostam de comemorar guerras civis?
Como não percebessem, insisti – os que perderam, os descendentes dos guilhotinados, os que acham que foi um tremendo erro tudo o que se passou, também estão contentes? Também festejam?
Confusos, disseram-me que nunca tinham pensado nisso! Então, “au revoir”.
Enquanto se afastavam, continuei a perguntar a mim mesmo – será que não percebem que, de cada vez que nesse dia, gritam “Vive la France”, ofendem a memória de S.Luís e daqueles Reis cruzados que resgataram, em Jerusalém, o túmulo de Cristo?! E como se sentirão as “majestades fidelíssimas”, que talvez não fossem o sol na Terra, mas contribuíram decisivamente para a verdadeira grandeza da França?!
O sacrifício de Joana d’Arc, também terá sido em vão? Ela que reconheceu o Rei em Bruges, reconheceria a actual França? A que manda retirar crucifixos das salas de aula?
Rei e Pátria decapitados, no mesmo cadafalso, e ainda assim os franceses festejam?
Será que esse crime não lhes pesa nas consciências?
“Depois de mim, o dilúvio” – a profecia de Luís XV segue o seu curso destruidor!
A troco de quê?
Do brilho de uma campanha militar a cargo de um “condottieri” corso, cujos compatriotas, hoje, nem sequer querem ser franceses?
Do inevitável Waterloo?
Da “boa nova” de Rousseau, que anunciava a utopia e a decadência da França? E se fosse só da França...
Decadência, que os franceses, como o marido enganado, teimam em ser os últimos a saber?!
Enfim, hoje a falar da França... e a pensar em Portugal.

“ (...) na estrada de Sintra, perto da meia-noite ao luar, ao volante
Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação,
Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra,
Na estrada de Sintra, cada vez mais longe de mim...”
.
Fernando Pessoa

quarta-feira, outubro 05, 2005

“Frederico Chagas”

Do insuspeito Fialho d’Almeida, o relato de um exemplo de HONRA, na data em que o anti-Portugal venceu.

“Quando d’aqui a anos se fizer a história tranquila do ‘cinco d’outubro’, e fora das hipérboles ronflantes e das romanticidades forçadas do triunfo se houver posto em prosa simples (a prosa simples da vida, a prosa científica dos automatismos nervosos colectivos) este acontecimento que deu de si a proclama da República, ver-se-á que o melhor da ruidosa epopeia se reduziu na essência a alguns casos brilhantes de bravura pessoal, e a uma sucessão de correrias, escaramuças e vedetas que devem trazer a proporções menores o facto histórico.
(...) É o momento em que todas as bochechas sopram marchas de glória enfática aos vencedores.
- Mas, dirão outros, e a intemerata nobreza d’alguns vencidos?
Naqueles dias de fratricídio as subserviências foram tantas que quem se salvar do atoleiro precisa ser cantado em verso heróico. Ora entre os heróis legítimos uma admirável figura destaca-se: Frederico Chagas, símbolo resplandescente dessa coisa supérflua, a lealdade; Frederico Chagas que não querendo render-se em Vale de Zebro à marinhagem revoltada, mete no coração duas cargas de revolver.
Sacrifício romântico, inútil como escudo d’uma causa perdida, inútil como síndroma d’uma alma íntima e orgulhosa, inútil como protesto, inútil como exemplo...
Mas, por essa inutilidade mesma, sacrifício sublime, lance intangível, supremo, numa época em que o ideal cavalheiroso se afunda, e à medida que as sociedades avançam, parece que o carácter vai retrocedendo.
A susceptibilidade do poder militar deste marinho, como as exalações do nardo, fuma do seu sepulcro e enche o ambiente heróico de legendas. Quantos entenderão o sentido deste cavalheiroso aniquilamento?”

“Saibam quantos...” de Fialho d’Almeida

segunda-feira, outubro 03, 2005

A história das traições

“ (...) Decisivo, o ano de 1906 marca na história dos partidos uma data memorável. Caíram os liberais. De ambas as partes: dos regeneradores e dos progressistas, os chefes observam o campo de batalha e tomam disposições. Hintze julga-se árbitro da política portuguesa e, vendo os republicanos avançarem, quer opor-se-lhes. José Luciano vê o seu partido em cheque pela escamoteação imprevista da confiança da Coroa, – que assim de certo modo consagra as campanhas jornalísticas dos tabacos, – e quer salvá-lo na aliança com a virtude franquista, que lhe restituirá o condomínio de um poder, que o Rei lhe arrancou com desaire.
Nessa hora de perigo, o monarca hesita e supõe tudo salvar jogando a carta fatal que vai decidir da sorte da Realeza em poucos lances.
Sustentando os regeneradores, facilitaria talvez a reconstituição dos dois grandes partidos, recompondo em novas bases e novos programas o equilíbrio estável da política. Tudo deixava prever a infusão dos dissidentes progressistas no partido regenerador e a fusão dos progressistas desalentados no franquismo absorvente.
Abandonando Hintze Ribeiro, chamando o conselheiro João Franco ao poder, o Rei, que é antes de tudo um soldado, – ‘O Rei, simples no seu trato como um guerreiro, dum sangue frio imperturbável, levava bravamente a sua audácia até às extremas da temeridade...’ (Bernardino Machado), – não conta com o maquiavelismo do chefe progressista, que tem duas contas a ajustar e as ajustará: com o soberano, que o imolou ao inimigo, e com o chefe dos regeneradores, que lhe negociara secretamente a sucessão, ao supô-lo na agonia.
(...) A luta já não era contra o ditador subalterno. Era contra o trono responsável. Provas? Os historiadores irão colhê-las aos depoimentos públicos dos jornais arquivados nas bibliotecas: essas testemunhas ajuramentadas, que depõem perante a posteridade. E via-se na primeira fila dos atacantes o Correio da Noite, o órgão dos progressistas – os recém-aliados do franquismo! – dando o exemplo da luta sem quartel à Realeza. A erva não crescia na Rua dos Navegantes (atribui-se ao Conselheiro José Luciano de Castro, por ocasião da demissão do ministério progressista, em 1906, a frase de desafio à Coroa. ‘A erva não crescerá, enquanto eu viver, diante da minha porta!’).
O palácio do Maquiavel liberal era o centro irradiante da conspiração política contra o monarca imprudente que ousara afrontar o seu valetudinário conselheiro, cujo cérebro ainda relampejava de inteligência. Os próprios conservadores lá vão buscar o santo e a senha da batalha.
Era a reviviscência da luta dos barões feudais contra o soberano: o feudalismo político em guerra contra a Coroa.
Depois é o 28 de Janeiro, é o 1 de Fevereiro. A monarquia ficara sem Rei. Tinha agora a presidi-la uma criança, servida pelos adversários do pai...”

Carlos Malheiro Dias – “Em redor de um Grande Drama”

sexta-feira, setembro 30, 2005

Chissano ao poder

Se o próprio concordar, creio ser a alternativa mais patriótica para a próxima eleição presidencial. Não acreditam?
Vejamos, Joaquim Chissano está neste momento livre de compromissos, vive connosco há mais de quinhentos anos, já desempenhou o cargo em Moçambique, não se lhe conhecem fraquezas ou tentações de querer ser alemão, francês ou espanhol e tem hoje, uma perfeita noção do que custa ser independente! Pode portanto, pôr na ordem esta gente que nos desgoverna e conduz para abismos, já dantes navegados!
Como vêem, é o candidato necessário, nesta emergência.
Descontando o surrealismo que a proposta encerra, o que se pretende significar é que o Império, no seu interesse e de Portugal, deve manter-se atento ao rumo que as coisas estão a tomar, sendo agora a sua vez de intervir, se estiver em risco a nossa independência. Pode então gritar bem alto, que eu não me importo – “Para Portugal, e em força”!
Do Brasil a Timor, a Monarquia construiu esforçadamente, ao longo de séculos, a golpes de vontade, uma fantástica apólice de seguro para a sobrevivência da Portugalidade.
Estou certo, que todo esse esforço não terá sido em vão. E já o afirmei, em caso de necessidade, e na altura própria, serão os povos das colónias que nos “obrigarão” a ser independentes!!!
Enquanto isso, vamos continuar a aturar as brincadeiras destes republicanos, cheios de vontade de ser espanhóis ou finlandeses!!!
Haja Deus.

quarta-feira, setembro 28, 2005

Onde é que estavas no 28 de Setembro?

A pergunta é para todos, e se ainda não tinhas nascido a 28 de Setembro de 1974, podes também tentar responder, imaginando qual seria a tua posição nessa ultima luta de trincheiras, que opôs a chamada “reacção”, às hordas triunfantes comandadas pelos comunistas de Cunhal.
- "A “reacção” não passará", gritaram na altura, todos os imbecis, todos os traidores, todos os apologistas da descolonização exemplar, adesivos aos montes, repetindo cenas da nossa proverbial “coragem”, que uma conhecida expressão imortaliza – “trezentos na Rotunda, trinta mil na Avenida”!
Depois, veio o “Gonçalvismo”, com o seu cortejo de nacionalizações, saneamentos, ocupações de casas e terras, roubos vários e, para nossa vergonha, que a História se encarregará de lembrar – o abandono cobarde, os compromissos rasgados, as responsabilidades coloniais atiradas ao lixo!
Este triste episódio não se confunde, nem se justifica, com outras descolonizações europeias, porque nós estávamos lá há mais tempo e prometemos mais.
Veio então a “fonte luminosa”, onde, mais lúcidos e arrependidos, lá se juntaram os “imbecis” de ontem para travar o passo aos seus inimigos recentes. Foi a “coroação” de Soares!
O 25 de Novembro de 1975, já reduzidos ao rectângulo, pouco acrescentou – foi um ajuste de contas interno entre os MFA’s, que apenas teve o mérito de arrumar Cunhal e os seus pares, no inevitável depósito da história.
Mas voltemos atrás, à tal “reacção” que não passou, mas que se tivesse passado, ainda poderia ter evitado muitos dos subsequentes desastres, nomeadamente a “descolonização exemplar”!
Era gente jovem, idealista, uma minoria que acreditou que era possível encontrar um caminho diferente para Portugal. Gente que não queria mais ditaduras, que estava, fundamentalmente preocupada com as colónias, mas que não tinha nada nas colónias a não ser o sentimento que vem da herança, e que por tudo isso, tentou a todo o transe evitar a demissão de Spínola. Vieram para a rua e enfrentaram com coragem os lacaios de Moscovo e seus satélites.
Foram presos, alguns conspiraram em Espanha, diluíram-se no tempo. Hoje, não são ministros, não são Conselheiros de Estado, nem magnatas de sucesso.
Quem hoje continua a mandar, são os tais “imbecis” e “traidores” que no 28 de Setembro travaram o passo a Portugal!

segunda-feira, setembro 26, 2005

A lógica autárquica

Se eu fosse candidato, com o Partido a “exigir-me” a vitória ou o crepúsculo na carreira, com as populações a esperarem de mim a realização de todos os seus sonhos, e sabendo que os meus adversários fariam o mesmo, eu também prometia tudo:
- Estádio de futebol, clube a subir de divisão, piscina olímpica, palco de eventos, duplicação de rotundas e, no comício de encerramento diria triunfal – ‘vamos, finalmente, pôr esta terra no mapa’.
É assim por todo o País, promessas a rodos, empreiteiros aos molhos, e, naturalmente, golpes baixos e cofres falidos. E não vale a pena abrir a caça às bruxas. Todos têm telhados de vidro, pela simples razão, de que os telhados são mesmo feitos de vidro!
E enquanto assim for...

Em texto já publicado, com o título “O Rei e os Sovietes”, esbocei algumas ideias sobre o “regionalismo terapêutico” que penso ser o remédio ideal para deixarmos de ser o “três em um”, ou seja, três países num só, a saber:
- O país interior, pobre e desertificado, o país litoral, onde está acantonada a maior parte da população, e o país dos partidos, que suga os outros dois.
Não inventei a roda. Já aplicámos com êxito esta terapia nos Açores e na Madeira, e aqui ao lado, em Espanha, é receita de sucesso – refiro-me às Regiões Autónomas!
As propriedades medicinais deste tratamento são por isso conhecidas e só alguns parasitas tentaculares vêem nele contra-indicações, e percebe-se porquê – é que o princípio activo actua duplamente, por um lado, trava a desertificação, e por outro, contém em limites razoáveis o “polvo” partidário.
Começaríamos assim pelo “país interior”, a necessitar de cuidados intensivos, recuperando um saudável “espírito regional”, que ao contrário do que dizem os tais parasitas, não enfraquece, mas antes, fortalece a coesão nacional. O que destrói qualquer coesão nacional são as assimetrias cada vez mais gritantes entre o litoral e o interior, que levam ao abandono das terras, das actividades, com as populações que restam, a procurarem resolver os seus problemas, cada vez com maior frequência, no outro lado da fronteira!
Esta é que é a realidade preocupante.
E que faz o regime para resolver a situação? Faz a única coisa que sabe fazer – reduz ou pensa reduzir!
Pensa reduzir concelhos, fechar escolas, eliminar actividades. Precisamente o contrário do que é forçoso fazer, para que seja possível voltar a nascer e a viver, com um mínimo de qualidade e esperança, numa qualquer terra do interior de Portugal.
As Regiões Autónomas podem ser a solução, e agora já ninguém tem dúvidas, mais económica e útil que a actual “partidarite” autárquica.
Fica a ideia.

sexta-feira, setembro 23, 2005

Então, e agora? Ninguém se demite?

Santana volta, estás perdoado. As tuas “terríficas trapalhadas” que abalaram o país da comunicação social, situado algures entre o leninismo e o terceiro mundo, que suscitaram a análise dolorosa dos economistas, que levaram Sampaio ao discurso do Finis Patriae, eram afinal um grão de areia nesta tempestade que todos os dias fustiga a nossa triste existência!
Começam a aparecer os contornos da verdadeira cabala, a explicar a necessidade premente da conquista do poder, para abafar, para não julgar, para não interrogar, para que não se saiba nada do que se vem escondendo ao longo de décadas de corrupção do Estado, com as moscas revezando-se, ordeiramente, no banquete orçamental!
Os mesmos colunistas que te apontaram a porta da rua como incompetente, choram agora a triste situação a que chegámos, escrevem longas e curtas prosas sobre os dislates intermináveis, sobre as vergonhas descaradas, com a gravidade sempre a crescer, sem solução à vista!
Então foi para isto que te mandaram embora?
Mas calma, que nem tudo são rosas. Terás de vir sozinho, sem a ganga partidária, com as nódoas limpas, porque também tens nódoas, disponível, com a única coisa que parece distinguir-te de quase todos, um certo patriotismo ingénuo, mas ainda assim, patriotismo!
Deves levantar a questão do regime, directamente, sem medo, no sentido de darmos uma oportunidade ao povo, para decidir se quer continuar com esta República (a mesma de sempre) ou se quer regressar à Monarquia.
Faz isso, e já ficas na História.
A ideia é simples – trata-se de emendar o erro de Salazar que na década de cinquenta não quis, ou não soube, seguir o exemplo franquista instituindo uma Regência, que preparasse o regresso do Rei.
Faz como os afegãos, e em vez de ires a Roma, vai a São Pedro de Sintra, pedir ajuda ao Duque de Bragança, única entidade que ainda nos lembra que já fomos um povo verdadeiramente independente!
E não percas muito tempo a pensar.

Nota: Não conheço pessoalmente Pedro Santana Lopes e por isso o tratamento por “tu” apenas pretende transmitir outra força ao texto.

quarta-feira, setembro 21, 2005

Portugal Triangular

Viram o anúncio? Vale a pena ver...somos nós, é a nossa cara chapada!
Um estádio de futebol triangular, iluminado, repleto de público (!) a vibrar, com três balizas. Uma coisa única!
Esta criatividade toda já deve ser o resultado da política de admissões da empresa, que tem dado preferência, como se sabe, a jovens talentos, descendentes de outros talentos bem conhecidos! Sim senhor, parabéns!
O projecto vê-se que tem futuro e nem é difícil prever a sequência lógica da “criatura”, pois estamos certos que vai acompanhar o perfil mental de tão inspirados criadores! O triângulo, à semelhança da inteligência, irá perdendo espessura até ficar reduzido e achatado numa apoteose unidimensional!
Visto sem perspectiva, cumpre-se um velho sonho da ditadura – um Presidente, um Clube e uma Baliza!!! E a gente a rematar todos para o mesmo lado! Então sim, haverá dias de glória, grandes “cabazadas”, e dificilmente sofreremos qualquer golo nas balizas inexistentes!
Se ainda conseguirmos sonhar, vislumbramos o grande “timoneiro”, a testa florida, e nós com as bandeirinhas agitadas a marchar ao som, por exemplo, de uma partitura vitorina, alegremente cantando, “levados, levados, sim...”
Pronto, já sei que vão dizer que eu ando sempre a bater no “ceguinho”, mas averigúem primeiro, se não é essa cambada de “ceguinhos” que anda a bater em nós?!

Nota: Escrevi em tempos um texto intitulado “Os Clubes do Estado”, que talvez elucide melhor o meu pensamento sobre esta matéria.

segunda-feira, setembro 19, 2005

Febo Moniz

A história não se repete, dizem os sábios, e é bem possível que tenham razão!
Mas enquanto o homem continuar a nascer debaixo do sol e for essa criatura fácil de reconhecer quando está um espelho por perto... se a história não se repete, ele há muitas coincidências!
E tinha logo que se chamar Filipe, o futuro Rei de Espanha! E tinha logo que ser a Espanha essa potência rompante que se adivinha, enquanto o “vizinho” definha, sem resistir à rima, porque é verdade!
E tínhamos que estar sem rei nem roque, à deriva, pedindo a todos os santinhos que tomem conta de nós!
E tinha que ser neste estado de alma, sem vontade nenhuma de lutar pela nossa independência, à semelhança do que aconteceu em 1580, nas tristemente célebres Cortes de Almeirim!
Ontem como hoje, Febo Moniz votou vencido, último sopro de uma nação anestesiada e atemorizada com o futuro! A viver de mão estendida, entregando-se por um prato de lentilhas!
Filipe II foi lapidar – “Portugal?!.. Herdei-o, conquistei-o e comprei-o”.
Para nossa memória, fica o registo da patriótica alegação do procurador de Lisboa, dirigindo-se ao indeciso Cardeal-rei:

– “Se el-rei D. Filipe é cristão, não quererá mover uma guerra entre cristãos, por causa duvidosa, contra a justa sucessão; porque sendo assim, não terá bom sucesso, e Deus não será em seu favor; e quando o quisesse fazer, faremos o que sempre fizemos; bem sabemos perder a vida pela liberdade, e, posto que sejamos poucos e desarmados, e ele poderoso e apercebido, esperanças tenho em Nossa Senhora, que ajudará a efectuar uma sentença dada por um rei tão católico e tão santo e que não permitirá sermos vencidos, pois levamos a verdade e a razão por guia. Atónito estou de ver que, sendo a justiça igual, e estando ainda o parecer de Vossa Alteza tão duvidoso, se incline para Castela! Como poderá Vossa Alteza extinguir uma nação, que os reis seus antecessores trabalharam tanto para enobrecer? Não sei como Vossa Alteza poderá acabar aquelas cinco chagas, que Jesus Cristo Nosso Senhor deu por armas no Campo de Ourique a este reino?! Poder-se-ão elas, sem receio ou temor, meter entre os leões de Castela? Este negócio é maior que todos os do mundo, por árduos que sejam! Que falta é esta de amigos, que pobreza de vassalos reais? Porque não tenho por amigos do vosso serviço, nem por criados leais, quem tal coisa vos aconselha. Porque quereis que vos estale o reino nas mãos? Não vê Vossa Alteza a nódoa que põe em seu nome? Aonde se dirá que se entregou este reino a Castela, por temor de se defender do seu poder? Pelas lágrimas dos órfãos, que vivem das esmolas do reino e de seu rei natural; pelo remédio dos fidalgos, que ides entregar a um rei estranho; pelas necessidades das viúvas; pelas misérias dos pobres, peço-vos, senhor, que conserveis este reino na liberdade em que os reis vossos antepassados o puseram! Representai ante vossos olhos, que todos comigo dão vozes: a quem nos deixais, senhor? Porque nos cativais?! Aonde nos levais?! Clama o povo, clama a nossa consciência, clama a justiça e a razão, e os nossos clamores hão-de chegar ao céu! Dai-nos liberdade, e, se vos parecer que a não merecemos, tirai-nos a vida, para que com ela se acabe o nosso cativeiro: que antes queremos os verdadeiros portugueses, entregar de boa vontade a vida, do que perder a liberdade.” (*)

Seguiram-se sessenta anos de união ibérica, com graves prejuízos para os interesses de Portugal e dos portugueses.

(*) - De uma transcrição do manuscrito original feita pelo historiador Oliveira Martins.

sábado, setembro 17, 2005

Impunidade

O processo da Casa Pia continua a surpreender-nos! Denunciado em pleno Tribunal pelas próprias vítimas dos crimes que terá ou não cometido, Paulo Pedroso continua fora do julgamento!
A juíza Ana Peres, confrontada com a situação, ralha com as vítimas e diz que não pode tomar conhecimento dos crimes públicos ali relatados, porque Paulo Pedroso não consta daquele processo, não sendo por isso arguido!
Este é o terceiro mundo que nos está reservado e só podemos andar satisfeitos com os nossos estimados governantes.
Entretanto, aguarda-se a todo o momento (desde Maio de 2004!) a decisão do recurso sobre o não pronunciamento do antigo ministro da tutela da Casa Pia (o dito Pedroso), mas já se adivinha o veredicto – não existe “matéria” para o levar a julgamento!!!
O afilhado de Sampaio, delfim de Ferro Rodrigues, jovem esperança socialista, pode ficar descansado – a República Portuguesa não julga os seus políticos, pela simples razão de que são eles que fazem as leis, que se nomeiam juízes e que estão por isso acima da lei.
Podem descansar também o Costa, o Lacão, a confraria toda, porque a “ética republicana” que exibem e apregoam não engana – liberdade, igualdade e fraternidade entre eles, para eles e mais ninguém!
Podem ainda descansar os “preocupados” defensores de mais (!) garantias processuais, porque elas, em Portugal, serão sempre infinitas quando se trata de “safar” alguém da quadrilha!
Mas, há sempre um mas, vem agora o advogado Serra Lopes, habilmente, lançar a estratégia da “absolvição geral” e diga-se, tem argumentos!
Depois de considerar, no mínimo, “exótica”, a circunstância de Paulo Pedroso não constar da lista de arguidos no processo da Casa Pia, e no caso provável da Relação decidir novamente não o pronunciar, a “doutrina” absolutória surge cristalina: - se os depoimentos das vítimas não são credíveis para incriminar Paulo Pedroso, então porque é que os mesmos depoimentos das mesmas vítimas servem para incriminar e levar a julgamento todos os outros arguidos?!
Esta a questão caricata e vergonhosa que se desenrola à frente de todos os portugueses de boa fé e que se está a tornar insuportável para o regime em que mal sobrevivemos!
Sampaio pode dizer o que lhe apetecer sobre a reforma das Nações Unidas, que ninguém o ouve, Sócrates pode fazer implodir o que quiser, que ninguém o vê, porque a Casa Pia, para o Bem ou para o Mal, já marcou os seus destinos.

quinta-feira, setembro 15, 2005

Asfixia partidária

A expressão não é minha, é de um jornalista-escritor muito em voga, mas não deixa de ser uma realidade absoluta em Portugal! A prevista nomeação do socialista “independente” Guilherme Oliveira Martins para o Tribunal de Contas, órgão destinado a fiscalizar o Governo, é apenas mais um acto esclarecedor, que fecha o círculo vicioso em que vivemos! Mas há mais – com as eleições autárquicas reduzidas à magna questão de expulsar ou eliminar dissidências partidárias, a futura eleição para a Chefia de Estado Republicana, é um verdadeiro hino à partidocracia vigente!!!
A segunda República, que muitos gostam de chamar Estado Novo, escamoteava a questão com um número de ilusionismo – as eleições eram a fingir e o candidato apresentava-se fardado!
Hoje o que é que vemos?!
Como na Roma Cesarista, lutas fratricidas, traições, intrigas várias a cargo dos escribas de turno, dos afilhados, dos camaradas e confrades, vale tudo desde que o “árbitro” seja “nosso”!
Os saudosistas sabem que o filme não está completo: faltam as legiões e as consequentes revoluções! Mas convenhamos que não se pode ter tudo – desfeito o Império, desfizeram-se as legiões, e enquanto os ordenados forem pagos pela UE, não há nada para ninguém!
“Esta é a ditosa democracia minha amada” em que vamos navegando (baloiçando) sem sair do mesmo sítio – ao leme, seguem os traidores. Falta apenas aquela frasezinha do Wiston Churchill, pronunciada pelas habituais aventesmas, a “explicarem” que a “democracia é, apesar dos seus naturais defeitos, o melhor que conseguimos arranjar...” – expressão encantada, do tipo pass-word, que normalmente cala todas as controvérsias.
O “interregno” é que não enfia barretes! Descodifica e replica: W.C., disse essa frase, no contexto de uma monarquia assente numa constituição histórica, o que faz toda a diferença para todos os outros regimes que se reclamem de uma constituição feita “de encomenda”, normalmente atentatória dos valores e cultura dos povos que as sofrem. Portugal é nessa matéria um “belíssimo” exemplo.
Aqui chegados, os diagnósticos situacionistas, começam a falar de mudança de regime (!), um avanço sem dúvida, numa sociedade imóvel como a nossa!
Mas o que querem eles dizer com isso?!
Analisaremos o assunto em próximo postal.

segunda-feira, setembro 12, 2005

Os brandos costumes

Com a revolução dos cravos ao rubro, ainda assim a planície alentejana mantinha o hábito de adormecer em silêncio! Com a cumplicidade da noite era possível passear e conversar por Évora e nessas circunstâncias especiais, o tema versava sobre a nossa personalidade colectiva!
Em boa companhia, um padre jesuíta, a única pessoa que nos esperava (!), ungido com a simplicidade dos sábios, explicava a origem dos nossos brandos costumes, enquanto ía desconstruindo uma série de teorias sobre a nacionalidade!
- Lembrem-se que o cabo Finisterra ficava e fica por aqui, e as sucessivas invasões, perante a imensidão do mar que se estendia à sua frente, percebiam de imediato que o caminho da fuga estava vedado e que se quisessem ficar, teriam que adoptar uma atitude cordata com quem já cá estava! Era uma questão de bom “viver”!
Foi-se assim desenvolvendo, por necessidade e engenho, uma forma de convivência pacífica entre povos diferentes, diferentes no pensar e no sentir, que acabou por edificar uma vocação ecuménica, que é hoje o traço mais original da nossa cultura e que nos há-de servir para passarmos mais esta Taprobana!
Da planície alentejana, da revolução de Abril, das hesitações no rumo a seguir, de Évora... me vou lembrando!

quinta-feira, setembro 08, 2005

O "p d i"

A sigla, originalmente do género feminino, esconde uma expressão inofensiva, quase sempre pronunciada a meia voz, para significar a saudável aceitação dum facto natural – o envelhecimento.
“O pavor da idade” é outra coisa!
Está na ordem do dia, domina as preocupações do homem do Ocidente, o tal que se reclama do humanismo primordial, com mandamento e versículo genético incluído: “O homem criou deus à sua imagem e semelhança”!
Bonito serviço! Não admira que se tenham tornado ateus!
Eu, neste ponto, estou com o homem das cavernas, que percebeu logo que o Criador não podia ser ele, e foi nessa evidência, que encontrou, afinal, o estímulo para o seu aperfeiçoamento.
Mas voltemos ao pdi, porque a coisa não está fácil.
Se nascer e morrer, com a descoberta de novos direitos e não direitos, se tornou tarefa bastante difícil, envelhecer, é um autêntico inferno!
E nem é tanto a questão do habitual declínio físico, que sempre se vai aguentando; refiro-me à atitude das “criaturas – criadoras” ou “criadoras – criaturas” (para eles, a ordem dos factores é arbitrária), que por certo descontentes com a sua obra, resolvem implicar com os outros!
Lembrem-se as preocupações com a idade do anterior Pontífice, que essa gente achava que se deveria reformar, e ser abatido ao efectivo!
A recente apresentação da candidatura de Mário Soares, que passou mais de metade do seu discurso a tentar justificar e garantir que ainda estava dentro do prazo de validade!
A concepção Socrática sobre o “peso” da idade no plano Orçamental, descobrindo para isso uma solução de rejuvenescimento obrigatório, no caso de ser funcionário público!
Enfim, os exemplos de que o envelhecimento é uma doença socialmente perigosa, são inúmeros!
Nestas condições e atendendo a que já tenho mais passado que futuro, estou tentado a emigrar para África ou para o Oriente, lugares onde o envelhecimento é respeitado, é considerado fonte de sabedoria, e onde se pode ainda nascer e morrer descansado!

segunda-feira, setembro 05, 2005

Marcelo treinador

Já tinha escrito umas linhas sobre outra conversa em família, a que dei o título de – “Marcelo aflito”!
Rasguei. Comentava então as aflições de Marcelo perante a perspectiva de uma candidatura de Mário Soares que entretanto se anunciava.
Hoje, depois do que ouvi, não resisto a um breve comentário:
Marcelo, bronzeado, defronte da belezoca em declínio, mas que se acha em ascensão, disse práticamente tudo o que Cavaco deveria e não deveria fazer, para ganhar a próxima eleição presidencial!
Faltou apenas escolher a gravata e os sapatos! Ou então dizer – escusas de aparecer, que isto já está ganho!
Antes porém, em verdadeiro trabalho de sapa, encarregou-se de reduzir Soares ao papel de vilão sem desculpa, lendo inclusivamente versos de Alegre!
Enfim, depois do esforço, do afinco, e vamos lá, do treino intensivo a que tem sujeitado Cavaco, Marcelo está de facto em condições de dizer – Cavaco, agora é contigo.
Mas Cavaco ainda não é certo, e se estes programas continuarem, pode haver lugar a uma surpresa:
Marcelo, que sabe tudo o que é preciso fazer para ganhar o jogo, e caso o seu pupilo simule uma lesão, pode muito bem lembrar-se de despir o fato de treino... e entrar em campo!
É uma hipótese, uma mera hipótese.

domingo, setembro 04, 2005

Alerta amarelo

Quando a coisa começa a cheirar a esturro ou quando rebenta alguma bronca, o sistema defensivo do regime entra em alerta amarelo, com a comunicação social especializada a lançar barragens de fumo e outros artefactos para distrair o pagode.
É a altura de enviar para o ar aqueles programas excessivamente democráticos em que se propõe ao pacato cidadão que dê umas dicas sobre os berbicachos que o Governo se mostra incapaz de resolver!
Foi o que aconteceu a seguir às denúncias do autarca Paulo Morais sobre a corrupção generalizada que grassa nos municípios do País, como se isso fosse uma grande novidade, aquecesse ou arrefecesse o nosso eterno fadário de fazer coincidir o fim dos euros com o fim do mês, essa sim, uma aventura diária cheia de novidades e surpresas!
Ainda assim e porque a generosidade (e a paciência) dos portugueses é praticamente infinita, há sempre muita gente interessada em telefonar para dar a sua ajuda ao Governo!
Nesse dia, o programa avançava por entre testemunhos mais dramáticos e menos dramáticos, com normalidade, a solução final para todos os nossos problemas estava encontrada, até porque a emissão também estava a chegar ao fim, quando, inesperadamente, tudo aquilo começou a resvalar para fora do alinhamento previsto!
Verdade se diga que a locutora também teve algumas culpas no cartório. Entusiasmada com o desembaraço que vinha do outro lado do fio, resolve fazer uma pergunta metafísica:
- Então, diga-nos lá o que é que o senhor e todos nós devemos fazer para mudar as nossas mentalidades (corruptas), para mudar Portugal?
A resposta atrevida não se fez esperar – oh minha senhora, eu mudar até mudava, mas veja lá, o nosso primeiro-ministro Sócrates, assim que tomou posse, apressou-se logo a declarar que não tinha carro, não tinha casa e que a única coisa que tinha em seu nome eram umas acções do Benfica! Com este exemplo, a gente faz o mesmo.
Houve um pequeno sobressalto, a locutora acabou por convir que nunca tinha pensado nisso, dessa maneira, e mudou de ouvinte.
Lá para os seus botões deve ter concluído que no tempo do Santana Lopes é que era bom! Era tudo a bater no ceguinho! Aquilo sim, eram programas a sério!
Agora isto está impossível, por causa desses mal-educados, que não respeitam o nosso trabalho, etc. etc., vêm para aqui atacar o engenheiro Sócrates que, coitado, está tão caladinho, não faz mal a ninguém...

quinta-feira, setembro 01, 2005

A forma republicana de governo

E como se chamará a forma de governo em Espanha ou em Inglaterra?
Será forma monárquica de governo ou forma de governo monárquica?
E de quem terá sido a ideia de meter esta preciosidade na Constituição da República?
O objectivo é claro!
Serve para iludir e confundir o povo e as pessoas mais simples. Mas a quem é que a Monarquia mete tanto medo ao ponto de inventarem fórmulas obscuras que só os eruditos, nos cumes da sua sapiência, entendem?!
E pasme-se, ao fim de trinta anos de “democracia” e inúmeras revisões constitucionais a expressão permanece, para nossa vergonha, incluída nos limites materiais de revisão constitucional! Os monárquicos protestam, o Duque de Bragança contesta, mas os donos do regime fingem que não ouvem, desvalorizam, cumprem o seu plano usurpador e traiçoeiro.
Assumam um referendo se têm coragem! Ganhem e responsabilizem-se pelo regime que têm!
Afinal o regime é uma República unitária, por enquanto do Minho às Desertas, por este caminho, do Minho às Berlengas, mas assumam isso, com um mínimo de coragem. Plantem isso na Constituição para que todos percebam.
A política existe para simplificar a vida e não para enganar as pessoas.

Já que me meti nisto e para esclarecimento de muito boa gente que quando pronuncia a palavra regime, ou não percebe ou tem medo de perceber do que é que está a falar, resta-me ditar para a acta o seguinte:
- Que fique registado que em milénios, o homem aprendeu a fazer fogo riscando o sílex, inventou a roda, foi à Lua, descobriu inclusivamente o fecho eclair, mas neste tempo todo não conseguiu organizar-se senão em dois regimes – republica e monarquia!
Ainda hoje, todos os Estados independentes, ou que se julgam independentes, ou são monarquias ou republicas.
Os dois regimes coexistiram historicamente, tiveram e têm as suas “nuances”, mas a essência mantém-se: na república a escolha do Representante é feita exclusivamente pelos contemporâneos, enquanto que o Rei, eleito pela História, representa não apenas os contemporâneos, mas também os antepassados e os vindouros, precisamente porque não foi escolhido, só pelos contemporâneos.
Naturalmente que a preferência de regime diz bastante sobre o estado da respectiva nação. Quando os contemporâneos se arrogam o direito de decidirem, não apenas sobre o valor acrescentado à herança (no nosso caso, diminuído), mas sobre a totalidade da herança, renegando os antepassados e ignorando os vindouros, o estado dessa nação não é famoso! Se por acaso, estamos a falar de nós, então é preocupante...
Fica o esclarecimento, que pelas mesmas razões, também vai para a acta junto com as reticências.

Nota:
Espero que depois de lerem a acta, quer o Prof. Paulo Varela Gomes quer o Eng. Sevinate Pinto, deixem de fazer confusão com os regimes! Quando, em Portugal, dizemos que é preciso mudar de regime, isso deve querer significar – mudar para Monarquia.