sábado, fevereiro 18, 2006

Portugal no arco-íris

Restabelecido o sistema que rege actualmente a minha ligação com o mundo, posso enfim escrever algumas notas sobre um dos temas centrais da nossa vida colectiva – as cores dos novos equipamentos da selecção de futebol!
É triste mas é verdade, por mais que rebusque, estamos reduzidos à selecção de futebol, vago ponto de encontro entre os portugueses, e mesmo assim envenenado pela simbologia republicana.
Mas olhemos para as novidades:
O equipamento principal é todo em ‘bordeaux’, dos pés à cabeça, com uma pequena risca verde nas mangas e meias. O alternativo, é preto com riscas prateadas no mesmo sítio. Em ambos haverá, estou certo, alguma menção mais ou menos estilizada aos escudos e quinas.
Diga-se desde já que são bonitos e cumprem os principais objectivos da via-sacra republicana que consiste em disfarçar o erro ‘ verde e encarnado’ que em cinco de Outubro de 1910 traiu os símbolos de um País com oito séculos de História. As cores de Portugal, o Azul e Branco Fundador, atirados às urtigas pela raiva e facciosismo de meia dúzia de antiportugueses.
Alguns republicanos mais lúcidos ainda alertaram para o terrível erro histórico que ali se cometia, mas em vão. O ‘país de costas’ não recuou nos seus intentos de impor a versão colorida da união ibérica, afinal tão do seu agrado, pese a permanente necessidade de se justificar, ‘dourando a pílula’ e iludindo os incautos.
O Estado Novo percebeu imediatamente que a bandeira que tinha sido hasteada na Praça do Município, era o produto de uma guerra civil e não podia por isso ser um elemento de unidade, mas sim de divisão e ressentimento. Nesse sentido foi disfarçando como pôde. Os equipamentos da selecção nacional de futebol foram aproveitados para escurecer o encarnado da bandeira e enveredar pela camisola grenat, com calções azuis e meias azuis. E foi mais longe, adoptando como equipamento alternativo, a camisola branca com as quinas ao peito, mantendo os mesmos calções e meias azuis. Alinhámos assim em alguns jogos do campeonato do Mundo de 1966.
Meio problema estava solucionado, mas faltava justificar a aparição do verde na bandeira! Dar-lhe algum nexo.
Foi então a vez da Mocidade Portuguesa e da propaganda do regime explicarem que em Aljubarrota a Ala dos Namorados empunhava flâmulas e pendões verde rubros. Foi o suficiente para que os jovens chefes de castelo e chefes de quina passassem a ser a verdadeira encarnação do Condestável! A ironia descritiva serve apenas para relembrar um velho ditado – ‘o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita’! E não vai lá com operações de cosmética.
Só a verdade faz caminho, e a verdade é que a facção que em 1910 impôs o verde e encarnado aos portugueses, fê-lo contra o azul e branco, para reescrever a história, e não, como agora nos querem fazer acreditar, para construir ou reconstruir o que quer que fosse. Retirando da bandeira ‘as cores da Fundação e a coroa do Fundador’ o que pretendiam aqueles idiotas? Unir os portugueses? Ofender os antepassados?
Agora, o que se está a tornar caricato em toda esta novela das cores da selecção é que, sem darmos por isso, lá vamos cumprindo o programa de destruição identitária idealizado pela maçonaria e pelo partido republicano: a diferença entre o novo equipamento da selecção portuguesa e o da selecção espanhola, resume-se hoje, ao nível das cores, a um pequeno ‘fumo’ verde!
Claro que tudo isto joga com a ignorância das populações, com tentativas de recomposição da memória, com a aposta no esquecimento. Mas não se iludam. Não é uma questão de somenos ou ultrapassada. Nem é como muitos pensam uma questão geracional que eu, à semelhança daqueles traidores, possa relevar ou escolher à minha vontade. Na democracia da história os mortos têm a maioria. É por isso que a memória colectiva costuma reacender-se de repente, de surpresa, numa qualquer esquina da história. Os exemplos multiplicam-se à nossa volta. Mais tarde ou mais cedo vamos ter que emendar o erro e restaurar as verdadeiras cores e símbolos de Portugal.
As dúvidas esclarecem-se com o Fundador.

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

Sem meios e com deveres

Por causa de uma avaria no ‘sistema’, aqui estou eu prisioneiro de uma chamada da menina do ‘sapo’ ou da ‘telecom’, pessoas e entidades que nem conheço!
Antigamente, quando escrevinhava para a disquete e esperava pela respectiva publicação, a cargo de ‘Servidores’ de confiança, nunca tive que ficar em casa a aboborar. Agora, a independência é...isto!
Bem, mas o tema da conversa de hoje é: - ‘a minha liberdade de expressão’ ou em alternativa ‘os meus direitos e deveres’.
Talvez começar por referir que esta questão dos deveres é um assunto muito pouco debatido entre nós, e quando o é, acaba normalmente asfixiado por uma série de direitos da espécie dos cogumelos. Quero dizer que nascem por toda a parte e ao menor descuido!
Fui ensinado a equilibrar direitos com deveres numa perspectiva de contas saldadas. Também consigo perceber que nascemos com mais direitos que deveres em função da fragilidade da vida humana. E compreendo que se assista a uma inversão à medida do crescimento e das responsabilidades assumidas.
Mas a verdade é que a história do homem é sempre contada como uma aventura em busca de direitos, nunca de deveres! As Religiões vão temperando este desfazamento como podem, lembram obrigações e contratos por honrar, vínculos que não se devem destruir, mas nada conseguem contra este verdadeiro massacre de direitos.
Direitos que essa entidade abstracta e mítica a que chamamos Estado deve satisfazer de imediato, sob pena de tumulto ou mudança de governo.
Curioso é que estes direitos se afirmam sempre no mesmo sentido, contra a Fé dos homens!
É talvez por isso que a cada anúncio de um novo direito que me querem atribuir ou dar, eu reajo tão negativamente – como se me estivessem a espoliar de alguma coisa com valor.
Posso então admitir que sou um privilegiado, um reacionário a defender o que é ilegítimo, um entrave ao progresso e desenvolvimento da humanidade na sua caminhada triunfal em direcção ao paraíso!
Vencido mas não convencido, uma dúvida condicional atravessa ainda o meu espírito – se as propostas de novos direitos surgem normalmente do lado dos que não acreditam em paraísos, não andará por aqui um tremendo oportunismo?!
É por esta altura que me costumo lembrar daquela historieta que uma vez certamente aconteceu: - um pequeno grupo de pessoas resolveu fundar um clube para praticar o seu desporto favorito, o pingue-pongue. Mas foi preciso contemplar nos estatutos uns quantos direitos de associação e por essa via foram entrando no clube muitas pessoas que não gostavam de pingue-pongue. Um belo dia fez-se uma assembleia convocada à luz de outros direitos obrigatórios e ficou decidido por maioria que doravante nunca mais se jogaria ali pingue-pongue.
E o clube cresceu feliz e contente.
Não me perguntem para onde é que foram os jogadores de pingue-pongue, porque isso não interessa minimamente.
Eles só tinham o dever de deixar passar o ‘comboio da história’!

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Zangam-se as comadres...

Descobrem-se as verdades! Assim fala o povo, enquanto Valentim se queixa amargamente do silêncio presidencial quanto à devassa do segredo de justiça no caso do ‘apito dourado’!
O Major terá declarado que Sampaio só se preocupa com as escutas e o segredo de justiça, quando o seu número de telefone vem à baila no processo da Casa Pia! No resto anda de bico calado!
Ora não sei se repararam, que escrevi ‘apito dourado’ com letra pequena!? Não foi por acaso, não senhor. A circunstância especialíssima de finalmente termos descoberto em Portugal uma nova forma de criminalidade, altamente desconcertante, que se preocupa apenas em subornar árbitros de segunda e terceira categoria, para obter resultados em campeonatos de divisões inferiores, ou até em competições de solteiros e casados, diz bem da perigosidade dos indiciados e dos seus sofisticados fins!
Bem, o que interessa é que fomos nós que descobrimos ‘isto’, ou não fossemos o grande país dos descobrimentos!
E descobrimos mais: que toda esta gente indiciada, e todos os outros que poderiam ter sido mas não foram, seriam incapazes de mexer uma palha que fosse, para interferir com os resultados dos jogos da 1ª Liga ou Liga de Honra, por razões que à partida não são fáceis de compreender, mas que têm afinal uma explicação bem simples!
Porque está em segredo de justiça vou limitar-me a publicar excertos do que consegui apreender, cruzando alguns dados e informações diversas: parece que esta raça de pilha galinhas segue religiosamente a filosofia das vítimas – ‘grão a grão enche a galinha o papo’!
Para grandes operações financeiras, altos empreendimentos, transferências vultuosas, em cheque ou numerário, não contem com eles! Isto é gente com amor à camisola!
É por isso que podem acumular cargos importantes e ser presidentes disto e daquilo sem qualquer risco para o património público e privado!
Mas não era aqui que eu queria chegar. Eu contei-vos toda esta história porque estou preocupado com o desabafo do Major. Se o homem resolve insistir no tema da pedofilia, estou convencido que aquela profecia inicial pode cumprir-se – muita gente vai engolir o apito e os miúdos da Casa Pia ainda vão presos!
Eu se calhar não vou tão longe. Mas admito perfeitamente uma vasta junção de processos, uma vez que há políticos envolvidos em todos eles!
Ora aqui está uma coisa que os portugueses também já descobriram.

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Se Maomé não vai à montanha...

Se eu fosse um desses ‘cartoonistas de Abril’, democratas dos quatro costados, e me apetecesse usar do ‘sagrado’ direito de liberdade de expressão como muito bem entendesse!
Se eu fosse, por minha própria fé, um desses cadáveres adiados, e sem o saber, sacralizasse o poder e a Missão da Igreja Católica na Terra, ao ponto de lhe exigir um comportamento exemplar, na óptica dos valores do Cristianismo e ao mesmo tempo na óptica da minha perspectiva do que deve ser o Cristianismo!
Se eu subordinasse o tratamento das outras pessoas e das outras culturas e credos, aos ‘sagrados’ princípios em que acredito e considerasse como ‘adquiridos’ pelo resto da humanidade um conjunto variado de ‘dogmas civilizacionais’, tais como: o aborto, o uso universal dos preservativos, o casamento dos homossexuais, a eutanásia...as mulheres com a cara e as pernas ao léu, as salas de chuto, o holocausto dos Judeus, a democracia de Abril, e outros enigmas quejandos!
Se por um acaso achasse que Israel pode ter armas nucleares para se defender, e os Estados Árabes não as podem ter, para o mesmo fim!
Se também por acaso, achasse que existe um terrorismo bom e um terrorismo mau!
Se insistisse no erro de considerar Israel um Estado laico, e clamasse contra os Estados Islâmicos, porque não são laicos!
Se entretanto não perceber, sem qualquer êxtase democrático, que as minhas diatribes só são possíveis e ainda não tiveram consequências funestas para a minha pessoa, porque o Imã e o Bispo estão sentados lado a lado, e do mesmo lado!
Se por fim não perceber que a continuar assim temos o caldo entornado e nessa altura, com consequências desagradáveis para todos!
Então, se não percebi nada disto, é porque sou estúpido e malcriado e ainda por cima estou convencido que os outros é que são!!!
Nestas condições não me posso admirar que os humilhados e ofendidos, um dia, percam a paciência!

terça-feira, fevereiro 07, 2006

‘Com este sinal vencerás’

‘Em nenhuma outra coisa confiado, senão no sumo Deus que o Céu regia... a matutina luz, serena e fria, as estrelas do pólo já apartava, quando na Cruz o Filho de Maria, amostrando-se a Afonso, o animava...
Com tal milagre os ânimos da Gente Portuguesa inflamados, levantavam por seu Rei natural...Real, Real, por Afonso, alto Rei de Portugal!
Já fica vencedor o Lusitano
Recolhendo os troféus e presa rica;
Desbaratado e roto o Mauro Hispano,
Três dias o Grão Rei no campo fica.
Aqui pinta no branco escudo ufano
Que agora esta vitória certifica,
Cinco escudos azuis esclarecidos
Em sinal destes cinco Reis vencidos’.

No dia em que a Liturgia recorda as ‘Cinco Chagas de Cristo’ respondo ao apelo e convoco a nossa memória para ‘Ourique’ em sinal de liberdade e Independência!
No tempo ‘em que novos infiéis vencem’, não tenhamos medo nem vergonha de celebrar este ‘encontro com o sobrenatural’, único na História das nações e que marcou para sempre o nosso destino!
‘Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades’, mas o símbolo permanece e identifica – cinco escudos azuis ‘esclarecidos’, formando a Cruz que transportámos nas Descobertas, cinco besantes brancos a lembrarem as Cinco Chagas que o primeiro Afonso reconheceu no campo de Ourique.
‘Com este sinal vencerás’ – foi e é o pacto constituinte que atravessou a nossa História!

sábado, fevereiro 04, 2006

O Jorge das medalhas

Eu vinha do lado do rio e só queria chegar ao estádio do Restelo.
A dificuldade era a travessia do jardim de Belém sem ser visto por Jorge.
Cozi-me com o muro do Palácio e avancei resoluto, mas em vão.
Jorge estava vigilante e intimou-me a receber a medalha! Tentei resistir, encolhi o peito, escondi o pescoço, nada a fazer, no fim de uma curta refrega, acabei a posar reluzente para a posteridade!
Porquê, se não sou rico nem famoso?
Porquê, se não tenciono dar uns parafusos, a quem me comprar as porcas?
Isso está bem para aqueles estrangeiros que juram que gostam de Portugal e dos portugueses desde pequeninos! Mas eu, que sou obrigado a mourejar sem destino neste jardim à beira mar, não vale a pena incomodarem-se comigo.
Amigos como dantes.
Eu até percebo a política mendicante em vigor. Se poucos trabalham, e muitos vivem encostados ao orçamento, alguém tem que pagar a conta.
A troco de quê, é o único problema!?
Será só da medalha?
Duvido.

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

‘Liberdade’

‘Quando entrei na cidade fiquei sozinho no meio da multidão.
Em redor as portas estavam abertas. A multidão entrava naturalmente pelas portas abertas. Por cima das portas havia tabuletas onde estava colada aquela palavra que sobe – Liberdade!
Entrei por uma porta. Entrei como uma farpa!
Era uma ratoeira, Mãe! Era uma ratoeira! Se eu tivesse entrado como uma agulha podia ter saído como uma agulha, mas entrei como uma farpa, fiz sangue verdadeiro, já não me esquece. Aconteceu exactamente. Dei um mau jeito nos rins por causa da ratoeira! Ainda me lembro da palavra – Liberdade!

Mãe! Vou contar-te como foi.
Havia dois vasos iguais. Um tinha um licor bonito. O outro parecia ter água simples. Um tinha a felicidade, o outro não tinha a felicidade. Era à sorte. A casa estava cheia de gente. Ninguém queria ser o primeiro a começar.

Depois, começaram a beber o licor. Diziam coisas felizes! Coisas quentes que enchem a cabeça toda e deixam os olhos escancarados! Eu vi-os, Mãe! Estavam a aumentar a olhos vistos, juro-te! Os que beberam do outro vaso não divertiam ninguém. Iam-se logo embora. E ninguém já se lembrava deles.
Só ficaram os que gostavam do licor. Eu fiquei com estes. Eu também bebi do licor. Não imaginas, Mãe! Nunca subi tão alto! Ainda mais alto do que o verbo ganhar!

Havia uma rã que tinha entrado comigo ao mesmo tempo. A rã também estava a aumentar.
Depois, quando já estava quase do tamanho de um boi, a rã estoirou. Coitada! Como antigamente, em latim.
Então, pus-me logo a escorregar desde lá de cima, até onde eu já tinha amarinhado; desde mais alto do que o verbo ganhar.
A escorregar, a ser necessário escorregar, a querer por força escorregar, a custar imenso escorregar, a fazer doer escorregar, a escorregar. – O verbo desinchar!
O verbo desinchar dura muito tempo. No fim do verbo desinchar é outra vez a terra, cá em baixo’.

Almada Negreiros “ A Invenção do Dia Claro”

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

‘A lembrança das datas’

Quem hoje se cruza comigo na cidade vive este dia com a tranquilidade dos inocentes! E faz bem, mas ninguém está inocente.
O transeunte que me olha, que me pergunta as horas apressado, não sabe que já não tem nada a ver comigo. Respondo-lhe apenas porque falamos a mesma língua, o que resta em comum, mas se me pedir para ir defender a sua terra não irei, nem ele irá defender a minha!
No dia de 1 de Fevereiro de 1908 quebrou-se o ultimo elo que nos irmanava, que nos unia como comunidade pátria, tantas vezes ferida, muitas vezes maltratada, mas nunca antes decapitada. Os tiros que no Terreiro do Paço mataram o Rei, liquidaram-nos como nação livre e independente. E fizeram de todos nós criminosos.
E porque o pecado original também existe em política, ele só será redimido pelo arrependimento colectivo, por um acto público de contrição que ainda não fizemos.
Que ninguém pense que este é um dia de luto para os monárquicos. Bem gostariam que assim fosse os que lucraram e lucram com a situação. Desenganem-se.
Os monárquicos apenas têm consciência da ferida aberta, mas quem tem que a fechar somos todos nós. Com os representantes da nação à cabeça.
Assim fez Boris Ieltsin, em plena Duma, pedindo que a História lhe perdoasse a ele e ao povo russo pelo crime também hediondo perpetrado sobre os Romanoff.
Volto ao princípio, aquele transeunte nem sabe do que estou a falar, e se soubesse, diria que estou doido varrido.
Mas quem sabe do que estou a falar, quem ousou construir o que quer que fosse sobre o crime do Terreiro do Paço, sabe que não há volta a dar, a não ser desfazer o nó que vai sufocando Portugal.
E já é tarde...

segunda-feira, janeiro 30, 2006

Faltam os ossos...

O paradigma mental que subsiste neste Portugal dos pequeninos, tem sido abundantemente dissecado por uma série de génios, mas o diagnóstico enferma quase sempre daquele problema que o direito apelida de ‘parte interessada’.
Com o possível distanciamento, permitido por uma longa oposição ao regime, tento adivinhar o percurso mental que se esconde por detrás da brilhantina:
- Casam-se ‘fontismos’ com ‘progresso’, a propriedade é um mal que convém ter sempre presente, nós fomos grandes apesar dos Reis, e uma bela de uma ditadura nunca fez mal a ninguém! Ainda por cima se assentar nas ‘Lendas e Narrativas’!
Até agora não disse nada, talvez com um exemplo a gente lá chegue:
- O Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais que temos, anda preocupado com a ‘avaliação de 11 milhões de parcelas de propriedades rústicas’, que ‘a despeito de serem propriedades de rendimento tributário baixo’, por uma questão de ‘equidade’ precisam de ver ‘actualizados’ os respectivos valores tributários! Tudo isto por causa dos municípios menos populosos do interior do País, que não beneficiam das taxas de construção...
Já perceberam?
Aquilo empobreceu, os proprietários das courelas tiveram que emigrar para o litoral para sobreviver, logo, há que aumentar os impostos a esses absentistas, porque como diz o ditado – ‘quem não tem dinheiro não tem vícios’!
Neste caso, o que é que descobrimos por baixo da careca?
O ódio à propriedade dos outros, a ditadura do Estado centralizador à boa maneira napoleónica, e finalmente, o pior – a incompreensão entre progresso e desenvolvimento!
Em lugar de semear qualquer coisa para que o deserto deixe de ser deserto, em vez de dar alguma coisa aos que heroicamente mantêm o que lhes foi legado, quer apressar o fim da transmissão.
Roeram-lhes a carne, preparam-se para lhes roer os ossos...

sexta-feira, janeiro 27, 2006

País condicional

O que ouves por essas praças perdidas na cidade? Fala sem rodeios, fiel cavaleiro da desventura.
Majestade, os portugueses continuam divididos, queixosos, recriminam-se uns aos outros, estão descrentes, usam muito aquela palavra ’se’...
Como assim, explica-te!
Por exemplo, dizem que ‘se’ Vossa Alteza não tivesse enxotado o Calatrava, a Galiza podia fazer parte do Condado ou quem sabe do Reino!
Que se não fora aquela rivalidade entre Braga e Santiago... Se aquele Afonso antepassado, não fosse tão feroz com Inês e se pelo contrário, o Formoso fosse mais feroz com Leonor...
E dizem mais:
Se o Condestável não fosse tão forte, se o Príncipe Perfeito não fosse tão perfeito, se tivéssemos conseguido ‘enlaçar a soberba cintura de Castela’, se não tivéssemos perdido o rumo da Índia, se Alcácer não fosse Kibir, se o Desejado tivesse morrido, se D. João VI não tem fugido para o Brasil, se houvesse um D.João VI para ter fugido para Angola...
Se ao menos Castela não nos estivesse a enlaçar pela cintura...
Majestade, é por tudo isto que falam, e ainda dizem que a culpa é Vossa!
E de quem mais poderia ser, cavaleiro!?

quinta-feira, janeiro 26, 2006

‘Os Dramas de Cavaco’

Com a devida vénia, transcrevo um artigo assinado por Tomás Dentinho, Director do Jornal ‘A União’ de Angra do Heroísmo:

“Cavaco Silva ganhou as eleições presidenciais. Muitos parabéns para ele e para os outros candidatos que durante vários meses tiveram de responder ao desenho de campanha eleitoral moldado em grande parte pelos órgãos de comunicação social.
Houve esclarecimento e não é legítimo afirmar que os eleitores desconheciam o pensamento e a forma de estar e de agir de cada um dos candidatos. Sendo assim, fruto da vontade popular, temos um novo Presidente da República.
Vamos a ver se será por cinco anos, por dez anos ou se apenas por um ano e meio. Talvez saia antes do tempo como já fez em 1980, com a morte de Sá Carneiro, e em 1995 antes da vitória de Guterres. Cavaco Silva enfrenta dois grandes dramas. Em primeiro lugar os dramas relacionados com a escolha das pessoas que mais directamente o apoiaram.
Quem vai escolher para o seu Gabinete? Quem vai afastar? Que sinais vai dar aos vários grupos de pressão?
Será que vai escolher uma equipa técnica e da sua confiança, ou vai dar um espaço de intervenção especial à Igreja, aos militares, aos sindicatos, aos empresários, às ordens profissionais, aos jornalistas, aos jovens, às várias curibecas, às várias regiões e aos diversos países. Na verdade, tratando-se de certa forma de uma vitória previsível é natural que os vários interesses se tenham acomodado junto do provável vencedor. Será que Cavaco Silva sabe o que representam ou tem-nos apenas pela sua competência técnica?
Quem irá escolher não é inócuo e é bom que a comunicação social esteja atenta à formação do Gabinete porque certamente será uma espécie de governo sombra ou luz do actual governo. Em segundo lugar Cavaco Silva tem de enfrentar os problemas do país e de todos nós. Aliás não terá sido eleito por qualquer outra razão. A crise da competitividade externa e os problemas das finanças públicas, as complexidades da segurança social e os traumas do sistema jurídico, as hesitações face à Europa e os desafios da globalização.O que é preciso fazer é mais ou menos óbvio. É necessário emagrecer e dar produtividade ao Estado. É urgente atrair o investimento estrangeiro e dar garantias ao investimento nacional. É crucial melhorar a educação e a investigação científica. O Governo sabe disso mas os passos que tem dado são manifestamente insuficientes. Será que a eleição de Cavaco Silva vai garantir e estimular reformas mais efectivas. É provável. No entanto, se Cavaco Silva se colar muito às reformas urgentes é natural que uma grande parte do país reaja negativamente contra ele e contra o Governo. Neste caso o papel de árbitro de Presidente da República passará para segundo plano e agravar-se-ão as divisões dentro do país. Se assim for o mandato termina dentro de um ou dois anos. Resta contudo o exterior. É face ao exterior que se ganha competitividade. É com o estrangeiro que se ganha investimento.
É com os outros países que se clarifica a Europa e se define o nosso papel na globalização. E se assim for o principal parceiro do Governo de Cavaco Silva não é José Sócrates mas sim o centrista Diogo Freitas do Amaral.
Estranhezas do regime.”

Jornal ‘A União’ de Angra do Heroísmo, em 23 Jan.2006

segunda-feira, janeiro 23, 2006

A noite eleitoral

A previsão mais certeira sobre os resultados eleitorais foi dita no fim da Missa de Domingo a que assisti.
O Padre celebrante já se despedia dos fiéis quando olhou o relógio e comentou: - “já passa das oito, Almada está em silêncio, não se ouvem carros nem buzinas, parece que o ‘Benfica eleitoral’ não está a ganhar...”!
O Padre nunca o admitiu, mas eu sei que ele também é...do Belenenses!
De facto, no caminho de casa, ao atravessar uma Almada emudecida, não pude deixar de fazer a seguinte pergunta à minha memória: - será que, depois de trinta anos, a ‘maioria silenciosa’ conseguiu chegar a Belém?!
A resposta obtive-a quando cheguei junto do pequeno ecrã, não apenas pela clareza dos números mas principalmente pela expressão tristonha de todos os participantes, fossem os envolvidos, fosse a envolvente!
Quanto à envolvente, fixei-me na TVI por uma série de razões: - estava lá a Manuela Moura Guedes, com quem simpatizo, porque diz tudo o que lhe vem à cabeça, mas com uma enorme generosidade. Para além disso, Manuela torna-se indispensável quando uma das pessoas convidadas é a Ana Drago. Com uma marcação impiedosa Moura Guedes ‘secou’ aquele perigoso ‘repuxo de jardim’ que nunca nos deixa beber àgua sossegados!
Estavam também a Constança em despique com o Miguel Sousa Tavares, os discretos Ruben e Inês Pedrosa, o economista Borges, e a combativa Maria José Nogueira Pinto que, de vez em quando, era maltratada pelo pivot de serviço!
Se me perguntarem sobre o que é que discutiram durante toda a noite, respondo que não sei. Percebi apenas que ninguém estava contente!
Já no que respeita aos envolvidos, era relativamente fácil de adivinhar quem estava mais zangado. Sem dúvida, Soares e Louçã, afinal os grandes derrotados da noite. Por coincidência, era nas respectivas sedes de candidatura que os aplausos eram mais frenéticos!
Os discursos também não enganam: - Louçã, com os 300 mil votos que obteve, vai avançar para a ‘política de solidariedade’, a expressão é dele, que já conhecemos – aborto, casamento de homossexuais, eutanásia, e...mais emprego com menos trabalho!
- Soares, também muito aplaudido, não estava bem. Chamado à última hora para apagar os fogos do regime, parecia desconfortável nesse ingrato papel.
Dos outros ficámos a saber que Jerónimo ganhou bem o seu jogo particular com o Bloco de Esquerda, que Garcia Pereira precisa de trezentos portugueses para descobrir um que simpatize com o MRPP (!), e que Alegre acabou por ser derrotado ‘por umas décimas’, fim de citação.
Por último, o primeiro, o cartaginês de Boliqueime, que conseguiu derrotar o Império! Não foi tarefa fácil e sabemos que o mais difícil está para vir.
Pois é, o número de ilusionismo do costume vai continuar a não funcionar: - ‘serei o Presidente de todos os portugueses’!
Era preciso que os derrotados deixassem ou que os vencedores quisessem, o que é a mesma coisa.
Por isso é que a guerra civil recomeça amanhã, ou hoje mesmo.

domingo, janeiro 22, 2006

PORTUGAL

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
Linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
Jerico rapando o espinhaço da terra,
Surdo e miudinho,
Moinho a braços com um vento
Testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
Se fosses só o sal, o sol, o sul,
O ladino pardal,
O manso boi coloquial,
A rechinante sardinha,
A desancada varina,
O plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
A muda queixa amendoada
Duns olhos pestanítidos,
Se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
O ferrugento cão asmático das praias,
O grilo engaiolado, a grila no lábio,
O calendário na parede, o emblema na lapela,
Ó Portugal, se fosses só três sílabas
De plástico, que era mais barato!

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
Rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
Não há ‘papo-de-anjo’ que seja o meu derriço,
Galo que cante a cores na minha prateleira,
Alvura arrendada para o meu devaneio,
Bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.

Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
Golpe até ao osso, fome sem entretém,
Perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
Rocim engraxado,
Feira cabisbaixa,
Meu remorso,
Meu remorso de todos nós...

Alexandre O’Neill (1965)

sexta-feira, janeiro 20, 2006

Souto Moura entre os pigmeus

A Comissão de Direitos, Liberdades e Garantias da Assembleia da República conseguiu parte dos seus objectivos.
Obrigar Souto Moura a explicar-se, no seu território, sobre a última ‘inventona’ jornalística, que como se sabe se destinava a comprometer o processo da Casa Pia, e, se possível, baralhar as eleições presidenciais.
Mas a coisa correu muito mal para os deputados e explicou de certo modo, porque é que é tão difícil afastar Souto Moura!
Ele foi o Vitalino Canas e o seu longo intróito que ninguém percebeu, ele foi o Nuno Melo preocupado com os rabos de palha do seu partido, ele foi a Ana Drago armada em esperta, ele foi o Filipe, e o outro, e também o outro da voz grossa, a dizer enormidades! A Maria de Belém nunca falta, aquilo estava cheio!
Durante quatro horas Souto Moura explicou, demonstrou e ensinou, sempre com clareza, sempre com competência, sempre educado!
E confirmámos as nossas previsões – a coisa está preta!
Mas esta audição acabou por ser útil! A diferença de nível entre o Procurador e aqueles ‘representantes do povo’ é abissal!
Eleitos através de listas partidárias, que por sua vez são escolhidas pelos aparelhos dos vários partidos, não têm qualquer ligação com os representados, são meros burocratas da política que não servem para nada.
Se não existissem, se ficassem em casa a ver telenovelas, Portugal progredia de certeza.
E já me esquecia de vos contar – estava lá aquela jornalista, a Felícia Cabrita, a que despoletou o processo da Casa Pia, lembram-se?
Com um sorriso enigmático!

quinta-feira, janeiro 19, 2006

Sobre as Presidenciais

Quando eu era pequeno veio visitar-nos a Rainha de Inglaterra.
Isabel II foi recebida com entusiasmo pelo povo de Lisboa e com o devido respeito pelo Presidente da República de então, General Craveiro Lopes.
Pensando hoje nesse episódio posso afirmar o que na altura apenas pressentia – o efectivo desequilíbrio de forças entre as duas nações aliadas, acentuava-se naquele confronto de representantes. O povo de Lisboa sentiu decerto o mesmo – estava ali a Inglaterra ao lado do Presidente da Republica Portuguesa, nome demasiado comprido para tão curta representação!
O tempo entretanto passou e passaram também pela Presidência da República, a seguir a Craveiro Lopes, Américo Tomás, Spínola, Costa Gomes, Ramalho Eanes, Mário Soares, Jorge Sampaio e... o próximo! E mais seriam se não tivessem havido reeleições!
Mas a Rainha de Inglaterra é a mesma!
Neste trânsito político, quantas feridas abertas, quantas divisões, quantos golpes, quanta instabilidade... afinal tudo ao contrário do que prometem e anunciam os actuais candidatos!
E eu pergunto: - em nome de quê, ou por alma de quem, vamos continuar a dar tiros nos pés?

quarta-feira, janeiro 18, 2006

PÁTRIA

Foste um mundo no mundo,
E és agora
O resto que de ti
Já não posso perder:
A terra, o mar e o céu
Que todo eu
Sei conhecer.

Foste um sonho redondo,
E és agora
Um palmo de amargura
Retornada.
Amargura que em mim
Também nunca tem fim,
Por ter sido comigo baptizada.

Foste um destino aberto,
E és agora
Um destino fechado.
Destino igual ao meu, amortalhado
Nesta luz de incerteza
E de certeza
Que vem do sol presente e do passado.

Miguel Torga
Coimbra, 28 de Abril de 1977

terça-feira, janeiro 17, 2006

A alma deles

Segunda-feira, noite de ‘prós e contras’, discutia-se a alma da Pátria!
Com os ateus em larga maioria, o diálogo estava inquinado à nascença, já que a expressão ‘alma’ é para eles tudo – hino, bandeira, Figo, sardinha assada – menos alma!
Neste aspecto houve participantes que excederam as melhores expectativas! Clara Pinto Correia, por exemplo, cheia de alma e sem qualquer cerimónia, levou-nos para a intimidade da sua casa, dos seus filhos, dos seus casamentos, do seu candidato, e tudo isto com o maior respeito pelo hino. Imagine-se que até obrigou os filhos a irem a pé a Fátima, porque é importante. Nesta altura a Fátima em pessoa sentiu-se interpelada e achou por bem cortar-lhe a palavra, mas não conseguiu.
Clara Pinto Correia ainda tinha que nos fazer uma revelação – a alta cultura vai acabar com ela, no melhor sentido da expressão!
Nandim não aceitou a catástrofe e lembrou que os portugueses tinham inventado a ‘via verde’! E não se ficou por aqui – quando se reconhecia que os países mais desenvolvidos da Europa eram monarquias, Nandim reagiu lembrando-se dos Estados Unidos, como poderia ter-se lembrado da China. Só para contrariar! Mas concedeu a existência de um monárquico no Conselho de Estado! Supõe-se que para presidir!?
Estavam também dois jovens com visuais opostos: um de fato e gravata, da área do marketing, que disse que os portugueses são saloios o que não me pareceu mal, e outro, na linha do semi-prec, que me fez lembrar a Ana Drago, mas mais alto e com barba. Deve sentir-se um génio e disse umas vacuidades.
Para a segunda parte Fátima Campos Ferreira ameaçou com a ‘representação da alma Lusitana’! Foi o bom e o bonito. Os republicanos ali presentes tentaram em desespero de causa construir um impossível super-homem. O pobre presidente seria o resultado do cruzamento da força de um novo Hércules com a beleza da nova Cleópatra!
O jovem do marketing esteve bem outra vez e disse que isso não ía resultar!
Por obra e graça do Espírito Santo, a noite foi salva pelas brilhantes intervenções do professor Adelino Maltez que conseguiu conquistar, não digo a compreensão dos restantes, o que era pedir muito, mas ao menos algum silêncio! Nesse silêncio regenerador coube ainda a memória viva do Padre Colimão sobre a passagem dos portugueses pela Índia, bem como os esforços desesperados da moderadora para trazer para a discussão a palavra proibida – El-Rei!

segunda-feira, janeiro 16, 2006

‘As quatro repúblicas e a monarquia’

No horizonte dos séculos, ou dos milénios, da História de Portugal, estes quinze dias de campanha febril não são coisa nenhuma. Mas em tão pequeno tempo, burocraticamente determinado e medido, quantas paixões, quantos anseios, quantos ódios ficam bem abertos e tão mal fechados…
Na perspectiva do pensamento político, o melhor comentário desta corrida alucinante pertence ao duque de Bragança, na conferencia de imprensa dada na véspera do 1º de Dezembro, quando já se sentia por todo o País o cheiro a chamusco, e lhe perguntaram pela proximidade a que se situava de cada um dos quatro candidatos. Dom Duarte de Bragança respondeu soberanamente, que a todos permanecia equidistante. Em nenhum votaria, por ser o representante dos reis de Portugal. Mas nenhum considerava indigno de receber o voto de cada português monárquico.
Para muitos milhares de portugueses, vive-se, nestes dias, uma hora grande. Aqueles para quem a república não é apenas um artifício jurídico ou uma ideologia, nascida (e quase logo morta) nos últimos anos do século XVIII – esses que sinceramente participam no drama comunitário, e sofrem e gozam com as vicissitudes da pátria –, esta eleição presidencial aparece como momento alto de convivência, sinal e anúncio de uma existência mais digna, e até modelo de paixão colectiva.
Para mim, monárquico que nunca se conheceu republicano, nada custa reconhecer uma certa grandeza neste fervor de cidadania. Mestres meus, entre os maiores, um Pequito Rebelo, um Fernando Amado, um Rolão Preto, prestaram homenagem ao espírito republicano (ou democrático) tantas vezes expresso ao longo da História contemporânea de Portugal. E a maior lição de Paiva Couceiro foi a sapientíssima suspensão de juízo com que enfrentou os destinos, olhos atentos à vontade popular.
Cada república, das quatro que se reclamam da verdade e do todo, cada república parece erguer-se com o esplendor e a glória da Monarquia. A nenhuma falta – dir-se-ia – a capacidade para se arvorar em totalidade. A bandeira, o emblema, o simples nome agitado ao vento – nada se prende na dimensão individual de cada um dos candidatos. Quase que o mundo é pequeno (como diria o padre António Vieira) para este humaníssimo desatino…
A sabedoria das nações, que é feita de tempo e espaço, mas também de carne, sangue vivo e espírito, saboreia (como lhe cumpre) essas multiformes tentativas de reconstruir a unidade, cada qual partindo de um canto estreme do real.
Como já alguém observou, a candidatura mais próxima, não propriamente do ideal da realeza mas da realeza como abstracção, é provavelmente a de Francisco Salgado Zenha, de tal modo ele surge independente da opinião, gerado (como candidato à Presidência) no mistério e numa espécie de fatalidade intrínseca; por outro, inpenitentemente circunscrito aos trâmites constitucionais, gravemente embalado no prestígio da lei; e, ainda, definido como sucessor. Não fora a estranha (alheia ao próprio candidato?) obsessão de se apresentar como fautor, por artes ignoradas, de uma Nova Democracia e de uma Nova República, e Salgado Zenha seria, de algum modo, o mais próximo avatar do rei constitucional. Falta-lhe, porém, embora “homem de palavra”, a verdade de tudo isto.
Aparentemente da mesma origem ideológica, mas a milhas de distância no que diz respeito à invenção da candidatura, Mário Soares aparece, com certeza, como o mais natural de todos os candidatos, não apenas efectivos mas possíveis. Ninguém como ele está e esteve sempre no interior do processo, quer na sua preparação longa e trabalhosa, quer na sua expressão, generosa e oscilante, quer ainda nos seus limites, exasperantes e ao mesmo tempo esperançosos. Na sua insegurança, dir-se-ia perpassar a promessa da segurança. Na sua bonomia facilmente caricaturável anda talvez a garantia de uma certa firmeza. Da imagem tradicional do rei, fica-se ao nível de Dom Luís. Mas já não é mau. O homem das mil promessas, desta vez nada promete. Esperava-se por ele: limita-se a aparecer. Vem de várias esquinas da História. Nem sempre se poderá louvar o que fez ou deixou fazer. Mas não há dúvida de que é Mário Soares. E já é alguma coisa.
Diogo Freitas do Amaral, o candidato evidente para quem já se esqueceu de que, há cerca de um ano, declarou rudemente que não seria candidato, é tão infinitamente superior a qualquer outro em ciência jurídica e em teoria do Estado que nem valeria a pena abrir um processo eleitoral se a questão das questões fosse, efectivamente, a da preparação universitária, a da visão geral das coisas, a da rapidez e segurança das respostas académicas a qualquer problema de administração pública. Presidente de todos os portugueses (com excepção dos Vizelenses), Freitas do Amaral passeia pelo País as suas lembranças vivas de grandes mortos. (Aqueles de quem fala e aqueles em quem se pensa.) Há, na sua campanha e sobretudo na sua candidatura, uma perfeição que também evoca a monarquia, mas uma monarquia a que se houvesse extraído, num golpe de altíssima e triste cirurgia, a marca do espontâneo, a origem popular, a simbologia. Inesperadamente, o candidato de tantos monárquicos sinceros (e de todos os não sinceros) adianta um projecto global de Nova República. Falta-lhe a Nova Democracia para ser igual a Zenha. Mas é, pessoalmente, um democrata rodeado, não direi de anti-democratas, mas de abundantes ademocratas. Discípulo de Raymond Aron, tem um modelo como estadista: Fontes Pereira de Melo. A monarquia constitucional parece prestes a reviver, com ele, uma experiência cinzenta, ameaçada de tensões brutais.
Ao lado ou em frente destas três candidaturas do stablishment, o nome e a voz, o sonho e a vontade de Maria de Lurdes Pintasilgo podem trazer, sem saudade, o melhor da tradição portuguesa e cristã. Rodeada de alguns que dela apenas compreendem o (aparente) antipartidarismo, ou a política um tanto ou quanto caseira, a verdade é que Lurdes Pintasilgo parece a única personalidade capaz de tocar em todos os temas escaldantes das ideologias contemporâneas com criatividade eficaz e sem obedecer a pautas registadas em manuais. Daí o espanto e o medo que provoca nas hostes comunistas oficiais: dir-se-ia que esta mulher cristã e desempoeirada se prepara para arrebatar ao PCP a parcela melhor dos seus militantes. O que ameaça, afinal, o seu belo projecto é exactamente a ideia singular (já de vários modos anotada por amigos e adversários) de fazer a partir da Presidência da República essa revolução.
Das quatro “repúblicas” que se perfilam no horizonte português e se olham e medem de soslaio, é certamente a última aquela que mais positivamente pode contribuir para o Portugal monárquico que o futuro exige. Mas esta candidata é intelectualmente contemporânea de Platão; para ela, Aristóteles ainda não nasceu…Distinguir entre Estado e sociedade civil, entre a pólis e a família (conforme muito oportunamente lhe observou Freitas do Amaral) parece estar fora do entendimento desta mulher sem dúvida inteligente e culta. Cabem também na monarquia quer a paz social que Mário Soares promete e directamente procura, quer a ideia clara de um verdadeiro Estado forte, alimentada e pregada por Freitas do Amaral, quer ainda a única invenção de Salgado Zenha – essa um tanto utópica transparência da administração pública, talvez necessária para acabar de vez com o regime republicano.
Nas vésperas de uma eleição que directamente, como militante monárquico, me não diz respeito, mas que não posso deixar de sentir e viver como português que antes de tudo sou e para quem estão mais próximos os republicanos portugueses que os monárquicos espanhóis ou ingleses, apenas desejo que os portugueses não tenham de sofrer muito mais desastres e desilusões antes de se convencerem, por um acto sereno de inteligência, que tudo quanto é autenticamente republicano tem lugar em monarquia.

HENRIQUE BARRILARO RUAS
(As Presidenciais - DN Opinião de 24 de Janeiro de 1986)

domingo, janeiro 15, 2006

Estorvo ou álibi?

Se calhar nem uma coisa nem outra! Ninguém sabe!
Souto Moura é por certo uma pessoa séria, civilizada, vê-se à distância. Por azar, por carreira, por uma natural ambição, achou-se a servir a República na hora errada em que alguém, inadvertidamente, abriu a ‘caixa de Pandora’ onde repousavam os pequenos segredos, os grandes delitos, até os vícios privados, desta família siciliana que nos governa. Para ser mais correcto, são duas famílias, mas com um ascendente comum.
O problema são os vícios privados!
Que não são assim tão privados porque a família sente-se dona disto e usa e abusa daquilo a que chamamos Estado à sua vontade! Deu-lhes tanto trabalho a conquistá-lo, (aproximadamente oito séculos), era só o que faltava se agora não o pudessem utilizar de acordo com os seus desígnios!
Mais um problema, portanto, para Souto Moura.
A família está apesar de tudo aflita! O termo é desesperada! Trocavam bem os negócios, a Chefia de Estado, tudo o que fosse possível, pela inexistência, supressão, abafamento desse maldito processo da Casa Pia.
E não olham a meios – inventam tenebrosas listas de escutas, disparam para todos os lados, põem em risco a própria segurança do Estado, do seu Estado, na secreta esperança de que surja uma solução que eles ainda não têm!
À falta de melhor, toca de atirar culpas para cima do Procurador!
É neste filme de terror que têm que ser analisadas as declarações irresponsáveis de Mário Soares – ‘é preciso acabar com as escutas’!
Então vamos acabar com as escutas por causa da Casa Pia? O País pode ficar a saque, não vá descobrir-se que na família existem pedófilos? Já avisaram os terroristas que tencionam acabar com as escutas?
Perderam a cabeça! Manter ou demitir Souto Moura é igual!
É a reputação da família que está em causa.
‘O resto é bilros’.

quinta-feira, janeiro 12, 2006

‘El-Rei no Porto’

Quando as milícias do Vieira já controlam o aeroporto de Lisboa!
Quando o primeiro-ministro investe todas as poupanças no Benfica!
Quando os socialistas, mais ou menos poéticos, ameaçam a Chefia de Estado!
Quando, finalmente, um imprevidente trotskista frequenta os camarotes da Luz!
A ficção pode tornar-se realidade. Isto sem falar no seguidismo da Imprensa!
Fernando Venâncio nunca teria imaginado tal concurso de circunstâncias, porque se assim fosse, o seu ‘El-Rei no Porto’ não seria uma obra de ficção mas uma profecia.
Recordemos o enredo: - No rescaldo de umas eleições presidenciais, o Norte, sentindo-se ludibriado, na política e no futebol, separa-se e proclama a monarquia.
O Sul mantém-se laico, republicano e socialista.
No País dividido, existe um jornalista apaixonado, uma mulher do sul, e um triângulo amoroso. O Rei do Norte acaba por conquistar o troféu.
Referi-me ao livro, mas a realidade não anda longe!
Os factos acima descritos conjugados com o resultado das próximas eleições, podem fazer descambar a situação. Na melhor das hipóteses seremos apanhados na terra de ninguém, nalgum abrigo precário, num cenário tenebroso – o Sul estará infestado de bandos de aves de rapina e leões famélicos, ainda por cima socialistas.
É obrigatório ter um plano.
O paralelo de Rio Maior costuma oferecer alguma segurança, a coberto das célebres ‘mocas’, já utilizadas com êxito noutras ocasiões, e contra os mesmos infiéis! Lá terá de ser outra vez.
Para um monárquico belenense ou belenense monárquico, como queiram, não existe alternativa. É preciso rumar a Norte, e dali esperar um sinal, o ramo de oliveira, que anuncia o fim do dilúvio verde e encarnado.
Saga bem difícil de imaginar! Mas existem destinos piores!
Quando me lembro daqueles que sempre aspiraram viver num País civilizado, mas em virtude (ou será defeito?) dos símbolos e das cores que escolheram, vão ter que continuar a vegetar numa democracia popular, ao velho estilo soviético...até me dói o coração!
E a monarquia aqui tão perto!...

terça-feira, janeiro 10, 2006

Sinais de mudança

Há qualquer coisa a mover-se na política portuguesa.
Ignorado pelos ‘media’, o recente Congresso da Causa Real encerrou com um frente a frente entre monárquicos e republicanos, que a avaliar pelos relatos de alguns dos intervenientes, decorreu sob o signo da elevação e da seriedade! Dois aspectos, que para já, destoam da crispação e mera propaganda em que sempre recaíram anteriores confrontos.
Não houve portanto vencedores nem vencidos entre os oponentes, três de cada lado, que ali foram esgrimir argumentos a favor da sua Dama. Pelos monárquicos estiveram Gonçalo Ribeiro Telles, Mendo Castro Henriques e Adelino Maltez, enquanto que as hostes republicanas eram representadas por João Soares, Nandim de Carvalho e Manuel Monteiro.
Deixando por agora de parte os aspectos mais concretos deste curioso e interessante debate, a que repito, não assisti, gostaria no entanto de chamar a Vossa atenção para alguns dos sinais que julgo pressentir, na minha qualidade de peregrino deste longo Interregno:
Em primeiro lugar uma constatação: o regime republicano começa a sentir que não tem capacidade nem condições para defender o interesse nacional, mais própriamente, a independência de Portugal. Há muito que percebeu que a União Europeia a que temos direito se chama União Ibérica, e já não consegue iludir a questão.
O episódio da Iberdrola, o desespero da Ota e do TGV, buscando no contexto meramente Europeu, um equilíbrio impossível com a Espanha, é sintoma dessa desorientação e incapacidade.
A situação não é nova. Temos vindo aqui a alertar que a história se repete, que a Independência de Portugal foi um tremendo acto de vontade e coragem, que exigiu e continua a exigir muitos sacrifícios. Os portugueses já vacilaram nessa vontade, já se arrependeram, mas como a memória dos povos sofre das mesmas limitações que a dos indivíduos, cá estamos nós outra vez confinados à palavra (ou será ideologia?) ‘Europa’ e à natural dependência de Madrid.
A monarquia poderá superar ou resolver esta questão?
No citado frente a frente, parece que todos concordaram, alguns por exclusão de partes, que o Rei e a Dinastia, têm melhores condições para defenderem a Independência Nacional.
No ar terá ficado apenas uma objecção e uma dúvida.
A objecção democrática de que qualquer português tem o direito a ser Chefe de Estado. A dúvida sobre o caminho ou o método para restaurar a Monarquia.
Quanto à objecção, vale a pena dizer o seguinte: foi precisamente por causa desta possibilidade teórica que permite que qualquer cidadão aceda à Presidência da República que a Monarquia sucedeu à República e se impôs históricamente. A prática revelou-se melhor que a teoria.
Quanto ao método restauracionista, existem muitas teses, mas por aqui venho defendendo a teoria, mas principalmente a prática da remissão da culpa: - quem fabricou este nó górdio que enreda o Pais há noventa e cinco anos, tem agora a obrigação e o dever patriótico de o desfazer. Caberá aos republicanos restaurar a monarquia. Como?
Colocando o seu peso político, quem o tiver, ao serviço da Pátria.
É simples, basta ter vontade.

sexta-feira, janeiro 06, 2006

Dia de Reis

Neste dia em que a tradição Cristã celebra a chegada dos Reis Magos junto do Presépio, não faz mal recordar um Príncipe Católico do nosso tempo, que durante a sua vida deu testemunho em defesa da vida.
A história é conhecida, mas pouco valorizada e percebe-se porquê:
- Em 1990, o Rei dos Belgas surpreendeu o Mundo ao abdicar por um dia, recusando-se assim a assinar a legalização do aborto no seu País!
Com esse gesto de natureza simbólica, aparentemente inútil, Balduíno expressava a vontade de não ceder à violência do sufrágio universal, erguido como dogma nas sociedades que se julgam livres, mas onde todos os dias se acumulam sinais de dependência.
O Rei não soube nem quis distinguir entre a sua consciência e a consciência da nação. A vida dos seus súbditos, os mais frágeis de todos, estava na sua mão, e por isso não assinou!
Outros o fizeram. Mas os belgas, que na véspera haviam votado contra si próprios, decretando a pena capital para os seus filhos, entenderam a renúncia do Rei como uma espécie de redenção política, que talvez os livrasse do juízo da história. E amaram-no também por isso.
Só que a história não costuma perdoar.
Os arautos da morte falharam a presa, mas a guerra ìa prosseguir.
De então para cá, como numa vertigem, temos vindo a assistir, impotentes, completamente amordaçados, à derrota das consciências, à contrafacção dos valores, ao triunfo do egoísmo e da violência.
A agenda da ‘besta’ aí está para o provar: a seguir ao aborto, temos o casamento dos homossexuais, a legalização da eutanásia, da pedofilia, da bestialidade...
E tudo dentro da maior legalidade, com a Constituição sempre presente! O sufrágio universal, há muito capturado às maiorias ocasionais e acéfalas, é o instrumento perverso de que se servem estes grupos minoritários para obterem os seus fins.
Esta gente não gosta de Balduínos ou de quem lhes ofereça resistência em nome de valores éticos ou religiosos. Mas é por aqui que passa a resistência possível.
Nos dias de hoje já não basta ter razão, é preciso tomar posição.
É nesta perspectiva que a renúncia do Rei dos Belgas ganha outra dimensão, adquire a sua verdadeira grandeza.
Balduíno abdicou por um dia, mas nem por um dia abdicou das suas convicções religiosas. A artimanha da separação da Igreja do Estado não o podia convencer. Ele sabia, como qualquer católico sabe pelo Evangelho, que a passagem de Cristo pela Terra se cumpriu entre a Anunciação e o Calvário.
A esta luz, o seu gesto é indestrutível.

terça-feira, janeiro 03, 2006

O outro discurso

Aquele que será dirigido aos ‘grandes eleitores’, em bom recato, longe dos holofotes e das câmaras de televisão.
Como não vou poder estar presente, deixo à minha e à Vossa imaginação a tarefa de adivinhar o teor desse discurso. Não deve andar muito longe disto:
- Portugueses que me elegeram: - nestes dez anos de exercício que agora terminam, fiz o que faria qualquer Presidente de um Conselho de Administração perante os seus accionistas – garanti os vossos dividendos. Não a todos porque não é possível, os pequenos accionistas vão ter que aguardar por melhores dias.
Já no que toca aos trabalhadores, podemos ficar descansados. O nosso Primeiro se encarregará de lhes pedir os sacrifícios que a situação exige.
Quero dizer-vos que desempenhei o cargo num contexto particularmente difícil, num País que mantém características pouco recomendáveis: os portugueses são maioritáriamente católicos o que dificultou a implementação de algumas medidas contrárias à Fé que professam, sem esquecer a pesada herança colonial originada pelos descobrimentos.
No capítulo interno ergui o futebol como desígnio nacional, propiciando um notável surto de obras públicas que muito beneficiaram os nossos maiores accionistas. E já que falamos em obras públicas, trabalhei em prol de uma boa solução para a Casa Pia, processo que vem ameaçando o nosso bem-estar e o próprio regime em que vivemos.
Mas nem tudo foram rosas. Tive de facto alguns problemas com os primeiros-ministros que não eram da cor, mas nada que eu não tenha resolvido a contento. Por fim, e já na qualidade de biombo, verdadeiro clímax dos poderes presidenciais, deixei passar, entre outros bons negócios, a OTA e o TGV. O que quer dizer que vai haver obras com as naturais derrapagens.
Na política externa não me vou alongar. Seguimos o figurino tradicional, protestamos cá dentro e cumprimos lá fora. Para os que estão menos familiarizados com os negócios estrangeiros, resumo a situação num conhecido ditado popular – enquanto há mesada, há esperança.
Não gostaria de terminar, sem fazer referência ao próximo acto eleitoral que irá designar quem me vai substituir neste cargo. Existem neste momento riscos acrescidos, nuvens que se adensam sobre o futuro do regime, e duas incertezas no horizonte – a Casa Pia e o cheque da União Europeia. Convinha por isso que o eleito já conhecesse os cantos à casa. Mas esse aspecto não é decisivo, como sabem.
Decisivo, é que os pequenos accionistas e os trabalhadores continuem convencidos que eu sou eleito por eles e não por vós. Se tiverem dúvidas, ou quando começarem a ter dúvidas será o nosso fim.
Um Bom Ano para nós.

segunda-feira, janeiro 02, 2006

Mais do mesmo

Confesso que me custa imenso aguentar aquele discurso redondo, adjectivado e palavroso do Presidente Sampaio. Ouvi, por ser o último e por uma questão de decência, para o poder criticar.
É difícil criticar a vacuidade, mas existe ali uma estratégia tão repetitiva, tão mesquinha, tão estúpida, que um monárquico tem a obrigação patriótica de a denunciar. Vamos por partes:
- O Portugal Democrático versus Estado Novo – a descolonização possível por culpa do Estado Novo; a descolonização possível por culpa de haver colónias; por causa da escravatura; dos descobrimentos; etc.
O que correu mal por causa do PREC. Esqueceu-se do jovem Sampaio do PREC?
Timor, idem, idem, aspas, aspas.
- O Portugal democrático versus União Europeia – o que está a correr mal por culpa da União Europeia; porque a Europa já não é o que era; porque não há alternativa à Europa; temos que ajudar a Europa a continuar a ser a Europa que nós queremos que seja; porque nós estamos com a democracia e a razão; e estamos com a Paz (aonde?); esta situação é a mais difícil desde que optámos pela Europa. Saliente-se o esforço patriótico deste Governo que conseguiu garantir a mesada, por não se sabe quanto tempo.
- O Portugal Democrático versus Europa e Estado Novo – nada disto nos estaria a acontecer na Europa se o Estado Novo tivesse sido uma democracia, como a 1ª República, por exemplo; se o Afonso Henriques tivesse sido um democrata; se Portugal não existisse; queria saudar especialmente os nossos emigrantes... e garantir-lhes que hoje Portugal é um País respeitado no Mundo; hoje, nas nossas maternidades, nascem finalmente bebés laicos republicanos e socialistas.
Apesar de todas estas dificuldades, o prestígio da Presidência da Republica é um facto reconhecido por todos os portugueses, por todos os indicadores!!!
Com um ou outro exagero, este é o resumo possível do discurso de Ano Novo do nosso Presidente.
Convenhamos que é curto.

domingo, janeiro 01, 2006

Votos para 2006

Das doze badaladas só me lembro de cinco passas, as outras devo ter engolido à pressa, ou então são repetidas. As cinco de que me lembro, aliás, também são repetidas. Só sei que ando a comer passas há uma data de tempo, e nada.
Recapitulemos, porque os meus desejos até são simples – haja saúde, o euro milhões, aquele manequim estrangeiro que aparece muito na televisão, a monarquia... e que o Belenenses seja campeão.
Mas só agora reparo que tudo aquilo que tenho vindo a pedir, ano após ano, cheio de esperança, não tem nada a ver com os votos! O título deste texto está errado. Senão vejamos: tirando a saúde, que prefiro entregar à Divina Providência, não vá o Governo começar a preocupar-se muito comigo, quer o euro milhões quer o manequim, ainda não fazem parte da Constituição, e não estão por isso, felizmente, sujeitos ao sufrágio universal!
Já no que respeita ao Belenenses a coisa não é tão líquida. Sabemos que o futebol é um desígnio nacional e sendo assim, os resultados não podem estar à mercê da bola que entra ou não entra, isto tem que ter regras, ter a segurança do voto. Será talvez por isso, graças ao sistema dos votos, que eu vejo sempre as mesmas caras, que os donos da bola são sempre os mesmos. Começo a perceber que o problema do Belenenses e dos outros clubes mais pequenos, não é só uma questão de ponta de lança. Vou ter que comer mais passas.
Falta a monarquia, uma aspiração que também tem pouco a ver com votos. Mais, estou convencido que quanto mais votos, pior. Por aqui mandam os donos do sufrágio, os mesmos que estão a organizar o próximo leilão que vai escolher o chefe republicano e que segue a regra de qualquer leilão – será arrematado pela melhor oferta. Não entro nesse jogo. Vou ter que passar.
Estão-me ali a fazer sinais...não sabia que estava em directo! O quê?
- O Belenenses e a monarquia não interessam a ninguém?! Querem que eu diga a frase...e toca a andar?!
Pronto, a frase é a seguinte – desejo a todos um Ano cheio de propriedades... e se o Belenenses fosse campeão não se perdia nada. Quanto à monarquia... Corta. Corta.
Um Bom Ano.

sexta-feira, dezembro 30, 2005

Candidatos a seguir ao Almoço

Fechei os olhos... e caí no labirinto. Perdi-me num caprichoso jardim, mas não era em Versalhes. Pelos recortes das cornucópias, com torcidos e tremidos, talvez fosse Queluz! Quis fazer uma baliza mas não consegui... é impossível jogar à bola no século dezoito!
Fui então até ao campo e do tronco de uma àrvore, fiz um poste. No outro poste ficou uma pedra. Finalmente pude rematar. O esférico impelido com força perdeu-se no espaço e eu devo ter acordado. Voltei à leitura – era um artigo do Fernando Rosas, um arqui-inimigo, que dissertava sobre Sócrates no Afeganistão e americanos no Iraque. Provavelmente foi por isso que eu também me perdi.
Li até ao fim e fiquei surpreendido. Então não é que concordei com o homem!
Já na página anterior se tinha passado uma coisa esquisita – numa simples legenda, Jerónimo de Sousa apareceu-me como um patriota e eu não tive coragem de o negar!
Comecei a ficar preocupado, mas o pior estava para vir.
Interessei-me por Cavaco e Soares, valorizei as tristes figuras que fazem para continuar candidatos – Aníbal com um saco de plástico na cabeça, a observar limões, enquanto Mário, noutra página, dava beijocas a uma velhinha!
A situação descontrolou-se. Achei graça à pose do Poeta e foi já a minha pessoa transtornada que descobriu um Louçã simpático, um tipo ‘às direitas’! Sem aquele ar amargo de quem passou a adolescência a levar tampas das miúdas.
Pensei em pedir ajuda, telefonar a alguém, mas contive-me, o problema podia ser passageiro.
É no que dá adormecer a meio do jornal!

terça-feira, dezembro 27, 2005

Desde o início

Fui ver, li os títulos destes quase oito meses de vida, comparei-me com o propósito inicial, questionei os fins, e creio estar em condições de Vos apresentar o seguinte balancete:
- O exercício, que começou a treze de Maio de 2005, e as datas valem o que valem, apresenta um resultado francamente positivo! Sou parte neste juízo, mas confesso que não esperava durar tanto tempo, iniciado escriba que sou, em mundos tão desconhecidos.
Uma ou outra vez, o anúncio da desistência esteve próximo, mas o longo Interregno que se perfila à minha (e nossa) frente, deu-me mais coragem para prosseguir. E aqui estou, neste final de ano, para me lembrar das virtudes e dos erros:
- Em primeiro lugar a questão do Regime, não como questão menor, mas como condição essencial à sobrevivência de Portugal e da sua Missão Histórica. Reafirmei sempre que a Monarquia e o governo misto que lhe anda associado, são os ‘instrumentos de serviço’ desta era atómica onde nos cabe viver. Não são coisas do passado, como os parasitas de turno nos querem fazer acreditar – fazem publicidade enganosa, que a nossa divergência e a vizinha Espanha, todos os dias se encarregam de desmentir.
- Defendi, na altura das eleições autárquicas, a criação imediata de Regiões Autónomas, começando pelas zonas históricas mais desertificadas e subdesenvolvidas, à semelhança do que se praticou com sucesso na Madeira e Açores. A contra argumentação do costume, alegando duplicação de órgãos e eleitos, é expediente para manter tudo como está, ou seja, os centros de poder nas mãos dos aparelhos partidários, sediados em Lisboa.
Curiosamente, alguns dos que as contestaram em nome da coesão nacional, parecem agora render-se à necessidade da regionalização... em nome da coesão nacional! Mais vale tarde do que nunca.
- Assisti à golpada de Sampaio, à ascensão de Sócrates, ao chumbo da constituição napoleónica.
À impunidade na Casa Pia – sem um ai, uma reticência, um grito de revolta. ‘O medo é ainda o grande Senhor do povo português’!
- Propus, no plano interno, o ‘incêndio assistido’, supervisionado pelo Governo (durante as férias do primeiro-ministro), como forma de salvar a mata que resta, e sem o risco de pessoas e bens. Ora aqui está uma coisa que o ‘regionalismo’ podia resolver, evitando ‘ironias’ sobre o assunto.
- Terrorismo em Londres. Lembrei-me de Zaer Sha, o Rei Afegão exilado em Roma, destituído pelos americanos, e a quem os americanos foram pedir ajuda para conter os ‘sacerdotes’!
- A crise da União Europeia, e uma série de problemas – a Inglaterra que não quer pagar a agricultura francesa. O cheque que nós imploramos. O risco da desunião.
O Império à nossa procura, para o bem e para o mal – Mal, pela imensa sanzala que deixámos para trás, por egoísmo e cobardia. Bem, porque serão eles, que em última análise, nos obrigarão a ser independentes!
- Sonhei com as Côrtes do Mar, que realizariam os anseios de tanta gente, d’aquém e d’além. Um sonho português.
- As catástrofes da natureza. Perplexo, ‘vivi’ de novo o terramoto, só para exaltar o Marquês e esquecer os Santos!
- As consequências dos nossos actos e decisões – violência em França, manobras com Crucifixos em Portugal.
- O leilão do Presidente – para acabar tudo em beleza! A farsa continua depois do Ano Novo.
Tanta coisa que um Partido Monárquico podia fazer, sem alianças, recusando o poder enquanto não tivesse poder. Há aqui matéria para defender na Assembleia da República, por monárquicos a sério.
Boas entradas para todos.

sexta-feira, dezembro 23, 2005

Um poema de Natal

Natal

Nasce mais uma vez,
Menino Deus!
Não faltes, que me faltas
Neste inverno gelado.
Nasce nu e sagrado
No meu poema,
Se não tens um presépio
Mais agasalhado.

Nasce e fica comigo
Secretamente,
Até que eu, infiel, te denuncie
Aos Herodes do mundo.
Até que eu, incapaz
De me calar,
Devasse os versos e destrua a paz
Que agora sinto, só de te sonhar.

Miguel Torga

quarta-feira, dezembro 21, 2005

RTP revisitada

Passou na televisão! Um, mais velho, a fazer de rainha de Inglaterra, o outro, mais hirto, a fazer de Cavaco Silva! O mais velho disse que o Presidente é para estar, não serve de nada querer fazer, não tem poderes para isso. O mais novo, não quer cortar fitas, quer ajudar o Governo a governar!
A ‘rainha de Inglaterra’ esteve sempre mais próxima da nossa realidade, conhece bem o ‘País’ que ajudou a construir.
Cavaco Silva, que nos anos oitenta, conseguiu atrelar a ‘caranguejola’ ao comboio da Europa, esqueceu-se, nessa altura, de mudar de passageiros! Levou com ele a tropa fandanga de Abril, com as suas boinas guevara, e alma de pedinte.
Lixou-se.
Vinte anos depois quer repetir a experiência! A ‘caranguejola’ segue no fim da composição, quase a desatrelar-se, mas ele é teimoso. Verdade, que os passageiros parecem diferentes, estão melhor enfarpelados, usam fato e gravata...mas a alma é a mesma. São pedintes.
Vai-se lixar.
Mas ainda há uma hipótese de continuarmos na mesma.
Soares pode ir a uma segunda volta!

segunda-feira, dezembro 19, 2005

Lembranças do Pai Natal

Nestes últimos dias do Advento convém moderar o discurso, suavizar as críticas, perdoar e esquecer algumas afrontas.
De acordo com a tradição, este é também o tempo de pôr debaixo da chaminé e dentro do sapatinho, uns quantos pedidos e aspirações, que o Pai Natal se encarregará de satisfazer. Não vou ser muito exigente, nem estou a pedir para mim, é para oferecer aos mais necessitados – aos chamados Órgãos de Soberania!
Começo pelos Tribunais ou seja, começo pela Justiça:
E começo por parafrasear uma célebre ‘tirada’, atribuída ao General Carmona, a propósito do julgamento de gente importante, na ressaca de mais um golpe ou revolução falhada: ‘ Quando vejo no banco dos réus portugueses tão ilustres, só posso concluir que a Pátria está doente’!
Provavelmente, hoje, faria mais sentido dizer isto doutra maneira: ‘Quando só vejo no banco dos réus a arraia-miúda, posso concluir que a Pátria está mais doente do que nunca! Está de rastos’!
É por isso que eu pedia ao Pai Natal, se fosse possível, e sabendo que o bom funcionamento da Justiça é a pedra angular de qualquer País civilizado, que nos desse de presente uma Justiça independente e responsável. Independência e responsabilidade são duas realidades indissociáveis. Responsabilidade perante terceiros, não o actual circuito fechado e corporativo.
Quanto à Assembleia da República, pedia ao Pai Natal que inspirasse os nossos deputados a fazerem um esforço de contenção legislativa. Por exemplo, metade da produção do ano que agora finda podia ir directamente para a co-incineração. Como é material muito poluente, serviria para testar o sistema! No lugar de legislar com tanta intensidade, os eleitos deviam dedicar-se mais e com mais coragem às tarefas de fiscalização que lhes cabem por inerência. E se não fosse muita insistência, pedia-lhes pela milionésima vez que retirassem da preclara Constituição, o ‘ferrolho do medo’, que impede os portugueses de substituírem a República pela Monarquia, se assim o entenderem!
Agora o Governo, tarefa sempre difícil para qualquer Pai Natal, ainda para mais quando se sabe que este Governo vem adoptando um comportamento peculiar!
Está sempre a querer dar presentes aos portugueses, não exactamente o que estes lhe pedem, presentes acessíveis, como seja, uma vida mais barata, com menos impostos, mas ao contrário, prefere dar presentes caríssimos, enormes, do género Ota, TGV, Jogos Olímpicos... tudo coisas que não cabem lá em casa! Por isso eu pedia ao Pai Natal que se impusesse. O nosso Governo está-lhe a fazer uma concorrência desleal.
Por último, o Chefe de Estado Republicano. E neste caso, espero bem que seja o último. No entanto, começam aqui todas as minhas dúvidas e incertezas!? Os sinais não são nada animadores.
A não ser que o Pai Natal nos fizesse a todos uma grande surpresa... Dar a Portugal o único presente que o País realmente precisa – o fim do Interregno.
Prometo, que não pedia (nem escrevia) mais nada.

sexta-feira, dezembro 16, 2005

Escola Pública ou Escola do Estado?

Há males que vêm por bem. Referimo-nos a esta pseudo-polémica sobre os crucifixos na parede, com ateus e laicos à mistura.
Pode ser o princípio da luta sem quartel que teremos que travar contra o estalinismo instalado, há longas décadas, no ensino e na escola a que é uso chamar ‘pública’. Não é pública coisa nenhuma, são escolas do Estado, à maneira soviética, norte coreana ou salazarista.
Se a escola fosse realmente pública, estava a cargo da sociedade civil e com a necessária autonomia, ao abrigo portanto, da insanável ‘paixão’ que o Estado sempre alimenta, quando se trata da educação dos seus ‘rebentos’! O Estado é um péssimo educador e para o comprovar, não precisamos ir muito longe, chega-nos a recente experiência da Casa Pia.
Agora o que ninguém esperaria da tentação ‘educativa’ do Estado, é esta nova versão dos ‘comissários políticos’, espécie de ‘guardas vermelhos’ da ‘constituição de Abril’, que vistoriam escolas e corredores à procura de símbolos da religião Católica! Aliás, a dita ‘constituição’, e pese as inúmeras revisões que sofreu, mantém-se no essencial como um verdadeiro cavalo de Tróia, por onde se infiltram todos os parasitas e todas as moléstias que de há trinta anos para cá afectam a sociedade portuguesa, descaracterizam o País e nos atiram, irremediavelmente, para a cauda da Europa.
Os traidores são os mesmos, com o punho cerrado e cartilha em punho, lá continuam a querer impor à maioria da população os seus conceitos minoritários, que esta já rejeitou, na rua e nas urnas!
É tempo de pedir responsabilidades ao regime constitucional em vigor, pela situação lamentável do ensino ‘público’ em Portugal, um dos mais caros da Europa e em contrapartida, o que piores resultados apresenta, quer à vista desarmada quer nas estatísticas! No último ranking disponível, a OCDE colocava-nos atrás da Turquia!
Já aflorámos este tema do ensino, num texto anterior, em que começámos por propor algumas medidas profilácticas, nomeadamente – desparasitar o sistema. De seguida, a imediata e óbvia entrega da escola à sociedade civil, e por fim sugeri, a renovação da secular parceria com a Igreja Católica, parceria que nos identifica como povo e está na essência da nossa realidade como Pátria. O resto é conversa.
Se a criancinha se incomoda ou lhe faz confusão o crucifixo ou outro símbolo da nossa identidade, só podemos concluir que está no sítio certo, a escola, para esclarecer as suas dúvidas e desfazer confusões, desiderato que, pelos vistos, a respectiva família não conseguiu alcançar!
Resta falar dos professores, que infelizmente fazem parte do problema e não da solução! São funcionários públicos a leccionar em escolas do Estado, como agradaria a Kim Il Sung (pai e filho). Os nossos impostos pagam a sua formação e também os livrinhos que ensinam aquelas pérolas da cultura aos nossos jovens, como por exemplo: Portugal renasceu em Abril de 1974, desmentindo outro nascimento ocorrido em 28 de Maio de 1926 (com o Dr. Salazar), que por sua vez já tinha negado um nascimento anterior, datado de 5 de Outubro de 1910. Não esquecer ainda, a mãe de todos estes nascimentos que têm vindo a ser desmentidos, uma francesa com barrete frígio, que pariu em parte incerta, nos idos de 1820!
Ora bem, este é o tipo de coisas que os nossos professores ensinam e nos levam rapidamente a duas conclusões: não há Pátria nem aluno que aguente tantos nascimentos falhados, isto por um lado. E por outro, que assim será sempre muito difícil crescer!
Eu sei que nesta altura os professores protestam e sentem-se ofendidos. Mas eu tenho muita pena de dizer o que vou escrever – com os meus impostos só aceito pagar a formação profissional dos seguintes portugueses: os militares e os trabalhadores da saúde. Uns para defenderem a saúde de Portugal, outros para defenderem a saúde dos portugueses. Sobre a Justiça, temos que conversar. Fora disto, aprendam nas instituições a cargo da sociedade civil, sejam Misericórdias, Instituições privadas de solidariedade social, empresas e outras organizações, (onde existam critérios de competência), a quem o Estado deve entregar os meios para cumprirem os seus objectivos.
Quem é que fiscaliza tudo isto? Os órgãos eleitos, com naturalidade e responsabilidade.
A democracia há-de servir para alguma coisa!
Falta aqui a cereja em cima do bolo – ‘e quem guardará os guardas’, perguntou Luís XI?
Eu pergunto – E quem fiscalizará os eleitos?
Em teoria, os eleitores. Mas na prática, só o Rei assegura tal tarefa. E com a vantagem de ser uma certidão de narrativa completa! Aí, qualquer um pode ler, sem dúvidas nem desmentidos – nascemos em Guimarães, no ano de 1143. Crescemos em monarquia, tivemos as crises próprias da idade, tornámo-nos livres e independentes... e fomos nós que pusemos os crucifixos na parede.
Sobre ensino, estamos esclarecidos.

quarta-feira, dezembro 14, 2005

Actualidades Francesas

Quem não se lembra, a preto e branco, antes de começar o ansiado filme. Eram dobradas com voz forte e característica por um daqueles locutores do regime, talvez mais do que locutores. Qual regime? Este, que está à nossa frente, o mesmo de sempre. Sem esforço, imaginemos a nossa semana noticiosa:
- O primeiro-ministro lançou hoje a primeira pedra do grande empreendimento que dá pelo nome de TGV, e que vai finalmente trazer para o litoral a população que ainda se mantém, renitente, no interior do País!
Depois de enaltecer o alcance da obra, que vai gerar não sei quantos empregos, e colocar-nos de novo a par com a Espanha, José Sócrates deslocou-se ao Seixal, a tempo de lançar a última pedra na academia benfiquista. Aí, na presença do Presidente (Vieira) e de outras altas individualidades, o primeiro-ministro relembrou que este será o maior complexo desportivo da Europa, base do desígnio nacional, já por si diversas vezes enunciado – Lisboa já merece ter um campeão europeu.
Foi com a voz embargada que exclamou – o futuro da Pátria está nesta relva...
- Sócrates aproveitou a oportunidade para falar das dificuldades e dos sacrifícios, que temos que compreender face ao défice das contas públicas, pesada herança do passado. Este é um Governo que fala a verdade aos portugueses e por isso, concluiu, ainda não será desta que o salário mínimo se aproximará da média europeia! Apontou para 2030!
Notícias do Desporto:
- Decorreu na melhor harmonia e identidade de pontos de vista o debate entre os candidatos presidenciais Cavaco e Jerónimo. Aliás ainda não se descobriram verdadeiras diferenças entre os cinco presuntivos árbitros do regime. Lucílio Baptista, conhecido árbitro internacional, especialista em dar uma no cravo e outra na ferradura, está fora da corrida.
Intervalo.
A seguir podem ver:
Bonecos animados: ‘Freitas e os aviões’.
Filme em cartaz (reposição): ‘O Pátio das cantigas’, com novo elenco.
Lotação esgotada.

sábado, dezembro 10, 2005

Condi entre nós

A Secretária Arroz veio à Europa explicar-nos que não anda a torturar ninguém. Para não sermos mariquinhas. Meter a cabeça de um egípcio ou de um afegão dentro de um balde de água, e fingir que o queremos afogar, é só uma brincadeira!
Até porque se podem poupar imensas vidas. Fez um desenho para percebermos e lembrámo-nos da teoria Truman sobre a bomba atómica! Elimina-se um milhão para ganhar dois milhões (não estamos a falar de dólares).
Este ponto ficou esclarecido, até porque esta rapariga já tinha ameaçado os europeus, que ou se metem a fundo nesta ‘guerra contra o terrorismo’, ou então, ela e os americanos fazem a guerra sozinhos!
Outro ponto esclarecido.
Pelo meio, uma confidência – Arroz, entusiástica admiradora da obra do dissidente soviético Soljenitsine, admitiu que sempre ficou fascinada com o arquipélago gulag! Espalhá-lo pelo mundo inteiro seria uma modesta homenagem à memória desse grande lutador anti-comunista!
Ficamos também esclarecidos.
As únicas dúvidas que ainda resistem, são as seguintes:
Estamos a ganhar ou estamos a perder a dita ‘guerra contra o terrorismo’?
Se estamos a ganhar, quando é que acaba a guerra?
Sobre estas questões divagou-se um pouco, mas estamos em condições de garantir que existem imensas famílias americanas a pensar mudarem-se para o Iraque e Afeganistão, num movimento colonizador inesperado! As entidades oficiais prevêem, que em poucos anos, a comunidade iraquiana no Iraque será minoritária. No Afeganistão idem.
Em cenário tão promissor é fácil adivinhar que as tropas coloniais passarão rápidamente à condição de tropas nacionais!
A vitória é já a seguir.
Só faltava este esclarecimento.

terça-feira, dezembro 06, 2005

À flor da pele

‘O País é bonito, fica feio pôr lá portugueses’! – terá afirmado Almada num momento de lucidez. E tu, leitor ocasional, que fazes aqui nestas linhas, também ocasionais? Não adivinhas a descrença?
Já que vieste, diz-me uma coisa – quem são esses candidatos, que te levam ao voto? Viverás melhor em 2006?
Tens visto a televisão? Que fazem ali tantos heróis dos meses com ‘r’? E que aparecem sempre nos dias 25? Não achas estranho? E se a Pátria precisasse deles nos meses sem ‘r’? Num dia 28, por exemplo?
E o outro, que se esconde e não fala? O ‘oliveirinha’ da Beira Baixa?
Vou revelar-te um segredo. Se quiseres ficar mal disposto para o resto do dia, lê o Diário de Notícias pela manhã, é remédio santo!
Queres um exemplo? – Começa pelo Teixeira. Verás e ouvirás a voz do dono.
Que saudades de Coutinho! E eu, que num dia aziago, o critiquei ferozmente... Como estou arrependido... Diz o povo e com razão – ‘atrás de mim virá, quem bom de mim fará’!
O pior dia do DN, ou seja o melhor, para o efeito que se pretende – ficar mal disposto – é a terça-feira. Em coluna cerrada, depois de mais uma ‘não decisão’ sobre Pedroso, ficamos todos com aquela vaga sensação de que o dito, não quer provar a sua inocência em Tribunal! Prefere outros caminhos, e ele lá sabe.
Se já sentes a azia a subir, insiste, abre as páginas de ‘opinião’, e confronta-te com os ilhéus que se acham donos do Continente! Não seria melhor descolonizar essa gente? Para ver se não chateiam o indígena, que somos nós? Quem é que os convenceu que eram necessários? Que serviam para alguma coisa, a não ser para abichar ‘tachos públicos ou semi-públicos’?
E não há uma alma caridosa que explique àquela criança deslumbrada, a diferença entre uma jóia e um pechisbeque? Que a piroseira intelectual, faz rugas?
Conseguiste chegar até aqui? És corajoso (ou corajosa, por causa da discriminação), mereces ler as notícias do futebol. Minto, dos grandes do futebol. Assim é que é.
Termina com o Sarsfield, que não escreve mal. Admira-me como ainda lá está!?
Vai arejar... Eu também vou...

sábado, dezembro 03, 2005

Mensagem do 1º de Dezembro de 2005


O Interregno com a devida vénia, transcreve de Única Sempre Avis, a Mensagem do 1º de Dezembro de 2005 de Sua Alteza o Duque de Bragança:

Mensagem do 1º de Dezembro de 2005

Neste 1º de Dezembro passam 365 anos sobre a data em que o povo português pegou em armas para reafirmar a sua independência.

São tantos anos quanto os dias do calendário, e que nos convidam a um balanço da vida nacional.

Enquanto à nossa volta, a natureza faz cair as folhas de Outono e assistimos a efémeras agitações políticas, devemos auscultar as expectativas mais profundas dos portugueses, tal como o fizeram os Restauradores de 1640.

Durante este ano, no território continental e nas regiões autónomas, visitei numerosos concelhos, quer a convite das autoridades locais, quer das Reais Associações e outras personalidades.

Vi progressos económicos que, infelizmente, nem sempre respeitam essas outras riquezas que são o nosso património natural e arquitectónico.

Mas também tive a oportunidade de ver que o Estado gasta parte dos nossos recursos em obras de luxo de país rico, enquanto continuamos a ter um nível de desenvolvimento humano próximo de alguns países, com os quais não gostaríamos de nos comparar.

Não podemos gastar como se fossemos um país do «Primeiro Mundo» e ter uma formação, uma educação e um estilo de vida próximo do «Terceiro Mundo».

Ou seja, gastamos como ricos e trabalhamos como os países pobres, de uma maneira desorganizada e com falta de planificação.

Num ano de confrontos com minorias étnicas e religiosas em França, visitei em Portugal Associações de Solidariedade Social que realizam um bom trabalho de integração de jovens já nascidos em Portugal.

Considero muito importante o apoio destas instituições na educação da chamada terceira geração e creio que todos deveriam ajudar esses jovens, seja por solidariedade, seja por prudência.

Tal como em anos anteriores, realizei viagens e visitas de representação ao exterior, por vezes com minha mulher, viagens que, é oportuno referi-lo, jamais custaram um único euro ao erário nacional.

Na Europa Central, a convite dos governantes, visitei a Bulgária e a Sérvia-Montenegro onde tive contactos com a população.

São países que aspiram a integrar-se na União Europeia: mas nas suas bandeiras e escudos restabeleceram as coroas nacionais, como já sucedera na Rússia, Polónia e Hungria. Afirmam assim a vontade de iniciar um novo ciclo histórico, sem perda de identidade.

Por convite dos respectivos Governos Regionais, visitei a região da Galiza e a cidade autónoma de Ceuta.

Em ambas fui muito bem recebido e testemunhei o apreço que essas regiões espanholas têm para com o Herdeiro dos Reis de Portugal.

Visitei Comunidades Portuguesas na Bélgica, França, Luxemburgo, Suíça e Estados Unidos, e mantive contactos com personalidades desses países.

São 4 milhões e meio de portugueses que lamentam que o português não seja uma língua ainda mais internacionalizada, devido à falta de uma grafia uniforme entre portugueses e brasileiros.

Devemos bater-nos para que a língua de Fernando Pessoa e Luís de Camões, a língua de Gilberto Freyre e de Jorge Amado, a língua de Craveirinha e Luandino seja língua de trabalho na Organização das Nações Unidas.

Entretanto, o calendário nacional é marcado pela aproximação das eleições presidenciais de 2006.

Em primeiro lugar, saúdo os candidatos presidenciais. Desde 1976, o cargo de Presidente tem sido desempenhado por personalidades dignas e com provas públicas dadas.

Teoricamente, o cargo é uma instituição democrática para a qual qualquer cidadão nacional pode ser eleito e permite ao eleitorado uma importante decisão sobre o nosso futuro.

Mas apesar do formalismo da Constituição, só é candidato viável quem atingiu o topo de uma carreira político-partidária, promovido pelos aparelhos partidários, dificilmente encontrará independência fora deles.

Em segundo lugar, congratulo-me que nas Comissões de Apoio dos candidatos mais destacados participem monárquicos convictos, tal como me congratulo que muitos outros permaneçam de fora.

Para mim, isso significa que a ideia de monarquia se tornou transversal ao sistema político.

Como tive ocasião de afirmar “Os portugueses devem perceber que a proposta dos monárquicos não é de "derrubar a República" e as suas instituições democráticas, mas sim de "dar um Rei à República."

E agora acrescento que o nosso objectivo deverá ser a “democracia real”, a democracia presente aperfeiçoada pela identidade histórica e pelas expectativas de um Portugal mais justo.

Em terceiro lugar, e pensando no art.º 288 da Constituição que impõe “a forma republicana de governo”, quero agradecer publicamente a todos quantos se têm batido nas Revisões Constitucionais – na de 1982, de 1992, de 1996, de 2004 – para que desapareça esse “ferrolho ferrugento”.

Em Abril de 2004, em sede de revisão constitucional, 108 deputados – contra 89 – votaram a favor da eliminação do “ferrolho” constitucional, aproximando-se bastante da maioria necessária de 2/3.

Em representação de todos os deputados que ao longo destes anos continuam a apoiar esta causa, destaco, por já falecidos, os nomes de José Luís Nunes, Nuno Abecassis, e Francisco Sousa Tavares.

Como herdeiro dos Reis de Portugal, continuo disponível para os grandes desafios colocados aos Portugueses, para servir a Pátria e para garantir a democracia através da instituição real.

Um Rei representa não só o Estado democrático, de que é o garante, mas a Nação de cujos interesses permanentes é o guardião.

Creio – e cada vez mais acompanhado me sinto – que a mais valia das instituições republicanas diminui à medida que se consolida a democracia e novas ameaças surgem em Portugal.
Não vou insistir que as instituições republicanas nasceram sob o signo do sangue de D. Carlos e D. Luís Filipe de Bragança. Sobre esse sangue derramado no Terreiro do Paço, erigiu-se a República e os seus primeiros 16 anos de instabilidade seguidos por 48 anos de ditadura também republicana.

Cortado brutalmente o fio condutor da evolução para formas superiores de liberdade e realização histórica, Portugal afastou-se do progresso político das nações politicamente mais felizes da Europa.

Sabemos hoje que esse atentado terrorista da Carbonária merece a esmagadora repulsa do povo português.

Conforme sondagem recente, 76.5 % da população considera-o “um crime horroroso”, 18,8% “um mal necessário” e 4,6% “uma coisa boa para o país”.

Aproximando-se mais um aniversário do regicídio, quero exprimir o meu profundo repúdio pela violência e pelo terrorismo como forma de afirmação política, em qualquer parte do mundo.

A 1ª República destronou o Rei mas a Democracia e a defesa da Res publica jamais foi o programa dos que a si próprios se designavam por "democráticos" e "republicanos".

O regime implantado em 5 de Outubro de 1910 instituiu, em rigor, o "governo de uma plutocracia contra os interesses de uma grande massa de deserdados".

No Estado Novo, governou um homem solitário; a representação política seguiu o modelo do partido único.

A oposição emocional entre república e monarquia, como o ainda faz certa propaganda republicana, tem pouco sentido no mundo actual da democracia.

Em Portugal diz-se "Estado democrático" e em França "Estado Republicano" para designar a mesma realidade: o regime baseado no livre exercício dos direitos políticos e no respeito pelos direitos humanos.

Enquanto em Portugal se falaria das "instituições democráticas", em França referem-se as "instituições republicanas".”

Do mesmo modo, causa estranheza falar de “ética republicana”, quando existe uma só ética universal, expressa pelas religiões e pela moral nos princípios da liberdade, justiça e compaixão.

Os velhos mitos da propaganda republicana são como um feitiço que se vira contra o feiticeiro.

Recentemente, uma publicação nacional demonstrou que, conforme os Orçamentos de 2005, o Rei de Espanha receberá 7,8 milhões de Euros enquanto ao Presidente português cabem 13,32 milhões de Euros.

A Casa Civil portuguesa gasta mais 41,7% do que a Casa Real espanhola.

Contas feitas ao PIB e à população, a Presidência da República portuguesa custa dezoito vezes mais por habitante que o Rei de Espanha!

Nós preferimos naturalmente Portugal, mas decerto que não é por este motivo!

Tenho apelado na comunicação social, nacional e internacional que vivemos um tempo de vésperas, um tempo de novos desafios a enfrentar com novas soluções…

Na actual globalização das actividades económicas e financeiras, da tecnologia e da informação, o modelo clássico do Estado republicano atravessa uma profunda crise porque não responde às aspirações de identidade nacional.

Os especialistas têm demonstrado esta crise em poucas palavras.

E como creio que disse Albert Einstein, “os problemas de uma sociedade não podem ser resolvidos ao nível das soluções que os criaram”.

Os mercados nacionais, isto é, os espaços económicos protegidos do exterior que se afirmaram no passado, já não passam de sobrevivências, sem significado decisivo, a não ser para as pequenas empresas.

O espaço económico europeu está aberto à maior parte das empresas que no caso das multinacionais que operam em Portugal, até preferem deslocalizar-se para Espanha.

É cada vez maior o grau de autonomia dessas grandes empresas em relação às políticas definidas pelos governos dos Estados nacionais.

Os Estados Europeus perderam o poder de cunhar moeda – como o escudo da República em Portugal – e de controlar os instrumentos das politicas monetárias, e vêem a sua liberdade orçamental gradualmente limitada.

Com a abertura das fronteiras, têm dificuldades nas políticas fiscais e no domínio da redistribuição, para já não falar das dúvidas sobre a evolução do Estado Providência, e sobre a capacidade para garantir o pleno emprego.

O declínio das prerrogativas nacionais é patente nas áreas da informação, da comunicação e da cultura.

As novas tecnologias mudaram as fronteiras.

À escala mundial afirma-se uma cultura mediática que condiciona todas as culturas nacionais.

Se a isto somarmos a internacionalização do crime organizado, o terrorismo, o tráfico de armas e de drogas, a proliferação nuclear, as questões ambientais e os fluxos migratórios, conclui-se que se reduziu de forma drástica a margem de manobra dos Estados europeus, nos planos interno e externo.

Muitos dos domínios de acção que no passado estavam reservados à soberania nacional deram lugar a uma soberania partilhada e a um processo de integração que parece incontornável.

Ao mesmo tempo, constato que as monarquias europeias se encontram entre os Estados mais desenvolvidos do mundo, conforme relatórios da OCDE e das Nações Unidas.

Não afirmo que um rei resolve tudo; afirmo, sim, que um rei é sinal do caminho das boas soluções.

No país e no mundo, surgem novos movimentos de revitalização regional, de revalorização dos poderes locais e de fascínio pelas singularidades culturais e pelas identidades territoriais.

Cada Povo sente a necessidade de contrabalançar o esvaziamento do papel do Estado pela afirmação da sua identidade, entendida como realidade sociológica gerada a partir do património histórico e cultural da Nação.

A rejeição do Tratado Constitucional Europeu, contra a opinião das elites governantes, teve muito a ver com isto.

Com todo o respeito, não se trata de problemas para um Presidente da República.

São problemas de uma outra escala; de como iniciar uma nova época histórica e de criar pontes entre civilizações.

O nosso país merece um novo protagonismo nesta nova época.

É neste contexto que a democracia real ganha cada vez mais adeptos em Portugal.

Um dos desafios que se colocam aos portugueses é o de melhor utilizarem o seu sentimento identitário, em nada contraditório com a sua integração europeia, a sua pertença lusófona e a sua presença atlântica.

Das últimas eleições presidenciais, conhecemos a elevada abstenção e a ausência de participação popular.

Destas, só conhecemos ainda a falta de recenseamento dos jovens até 21 anos (só 30% se recensearam), que não recebem qualquer educação para a cidadania.

Sendo ponto assente, em democracia, que o eleitorado tem sempre razão, então a maioria do Povo não se revê na imagem que a chefia do estado republicano tem dado de si própria.

E isto não pode deixar de constituir matéria de reflexão política para o futuro.

Os enormes desafios que se colocam ao País exigem mais do que nunca um Chefe de Estado que seja o representante simbólico da identidade nacional, o garante da coesão e um factor de união entre todos os portugueses, a instância suprema capaz de imprimir ao Estado o sentido permanente da prossecução do interesse nacional.

Tenho para mim que só a figura de um Rei pode ser referência indiscutível para a Justiça, para a Defesa Nacional, para as Relações Externas, para a Administração Pública.

Julgo que os monárquicos aprenderam a lição. Um Rei não se deixa envolver em querelas partidárias.

Se os Partidos Políticos são o "sal e pimenta" das democracias, e da liberdade de expressão, alguém tem de estar aparte deles – os Tribunais – e acima deles – o Rei, mantendo a chama da Identidade Nacional, tão importante num mundo cada vez mais globalizado e culturalmente indiferenciado.

A magistratura de influência, não se resolve com a figura passageira de um Presidente da República; o nosso modelo constitucional semipresidencialista confere-lhe poderes demasiados para intervir no governo mas não lhe dará nunca a distância nem a imparcialidade suficiente perante os portugueses.

Por isso, a instituição real que durante oito séculos corporizou a identidade nacional surge, enquanto referência moral e histórica, como uma solução política de normalidade constitucional a merecer cada vez mais a reflexão nacional.

Nesta nova fase de democracia consolidada mas de independência ameaçada, Portugal precisa de um Chefe de Estado que tenha a consciência que somos Europeus, Atlânticos e Lusófonos, nesse verdadeiro triângulo estratégico, referido há cem anos por um dos mais puros paladinos monárquicos do séc. XX, o então capitão Henrique de Paiva Couceiro.

Comecei por afirmar que os anos que passam consolidam o prestígio das nações.

Mais ainda no caso de uma Pátria como Portugal.

Neste sentido queria concluir anunciando duas novidades, em meu nome e da Duquesa da Bragança.

Em primeiro lugar, anuncio a intenção de criar em 2006 um “Prémio” que recompense os talentos e o serviço à comunidade prestados por cidadãos nacionais e no espaço da lusofonia.

Finalmente, conto que, para o ano, se Deus quiser, o nosso filho Afonso, ao fazer dez anos esteja presente no seu “primeiro” 1º de Dezembro. Tal como sempre eu e a minha família, ele está a ser preparado para servir Portugal.

Dom Duarte de Bragança

quinta-feira, dezembro 01, 2005

Vale de Acór

‘O Vale de Acór fica situado nos arredores de Jericó, sendo um dos caminhos que dá acesso à Terra Prometida...
O seu nome, no entanto, anda associado a um episódio dramático da história de Israel, uma vez que, segundo se conta no Livro de Josué, foi nesse vale que Acã e a sua família foram apedrejados até à morte como consequência da sua cobiça e idolatria...
De facto, a ofensa fora tão grande e a profanação tão injusta que o Vale onde Acã foi morto passou a designar-se por um nome que significa “confusão”, “infelicidade”, “desgraça”...
Porém, e é para isso que importa agora olhar, será nesse mesmo Vale de Acór que o Senhor abrirá uma “Porta de Esperança” (Cf.Os 2,17), segundo anuncia o profeta Oseias, por excelência o profeta da Misericórdia, atento, como nenhum, aos sentimentos de Deus, à sua benevolência e compaixão a favor dos homens...’

Hoje, o ‘Vale de Acór’ é o nome de uma obra da Igreja que se destina a acolher e ajudar, todos aqueles que querem reconstruir uma vida baseada na liberdade e na independência! Vida, que atrás ficou marcada pelo consumo na sociedade de consumo, nos limites do inenarrável, e que por isso, conhece bem a escravidão das dependências.
Neste precário 1º de Dezembro, procurei à minha volta e não vi sinais dos conjurados. No lugar da vontade, vi a inércia. No lugar da fidelidade, vi o egoísmo e o ódio.
Não existem Pátrias livres e independentes quando os seus filhos não as reconhecem, quando vendem a alma por qualquer servidão.
Mas ainda há esperança.
Fui buscá-la à fragilidade dos que lutam, dos que têm vontade de ser livres, dos que aprenderam, pelo sofrimento, qual é o verdadeiro valor da independência!
Que melhor exemplo poderia eu encontrar neste dia?