quinta-feira, março 30, 2006

“Entrou o Bispo”

Dizia-se quando a sopa se pegava ao fundo da panela e ficava a saber a queimado! A origem da expressão nunca a soube ao certo e por isso sempre associei a distracção e euforia que se apoderava das pessoas quando o Bispo as visitava em suas casas, cumprindo uma arreigada prática pastoral. Já se sabe, panela da sopa ao lume, toda a gente de volta do Bispo...e a dita esturricava-se!
Mas o Bispo não entrou! Passou diante do muro da quinta, terá olhado de soslaio para a imponência do portão, e seguiu em direcção ao Asilo mais próximo!
Afinal, tantos velhinhos para visitar, tantos doentes para se inteirar, que não houve tempo para a prevista passagem lá por casa.
As fatias douradas que a minha mãe fez, a ‘irmandade’ convocada, o desconsolo e a incompreensão, tudo isto... porque o Bispo não entrou!
A mensagem poderia ter ficado por aqui, a vaidade também poderia ter ficado por aqui, mas existe um outro ditado, este de origem conhecida, que reza assim: ‘Quem não se sente, não é filho de boa gente’.
E pela minha mãe, que as fatias douradas como eu, arrisco a excomunhão dizendo o seguinte:
Prior e Bispo, umas santas pessoas, mas que comungam por certo daquela deformação que invadiu a Igreja ao mesmo tempo que invadiu o mundo! A regra das maiorias! Com todos os complexos de esquerda daí derivados.
Termino com uma pergunta-resposta: Então os paroquianos não são todos iguais?
Eu acho que não. Prior e Bispo também acham que não, mas por outra razão!
Temos o caldo entornado, mas não esturricado.

terça-feira, março 28, 2006

Segunda-feira à noite

Mais uma noite de guarda àqueles que me protegem, mais uma noite de silêncio, para ouvir falar de teatro! Na televisão!
Programa com um início surpreendente! Desde o primeiro minuto rendido à expressão de Fátima, cada vez mais bela, de encarnado e bem segura! Ontem, enquanto olhava com enlevo e carinho para Manuel de Oliveira, pareceu-me a Lollobrigida!
Eu sei que o isolamento e o próprio ambiente um tanto soturno, que me rodeava, prestam-se por vezes a devaneios que a realidade no dia seguinte desmente, mas foi assim, neste estado de alma, que acompanhei a evolução dos ‘prós e contras’!
Manuel de Oliveira, confirmei-o ontem de novo, é de facto muito mais interessante que os seus filmes. Que são naturalmente obras-primas, não para ver, mas para existirem como tais. Talvez as próximas gerações as entendam...
Não me lembro de ter assistido do princípio ao fim a nenhum desses monumentos, mas fiquei com pena de não ter visto aquele que conta, ou não conta, a história do nosso desventurado Afonso VI, um Rei, que se fosse Inglês, teria direito a verso e prosa pela pena de um Shakespeare. Mas nós estamos assim, incapazes de nos distanciarmos do objecto dos nossos ódios e estimações. Incapazes de dar vida a um personagem histórico que tenha sido Rei! Ou há-de ser um herói indiscutível, ou há-de ser um vilão indiscutível!
Manuel de Oliveira teve e tem no entanto o mérito de ter tentado levar esse drama para uma tela, e será lembrado por isso.
Mas por exemplo, quem se atreveria a ir ver um filme sobre D. Sebastião?
Ou antes, que cineasta, ou que autor, estaria hoje em condições de fabricar uma obra de referência sobre tão controverso personagem? Que lhe fizesse justiça? A ele e a nós? Uma obra que imaginássemos ao mesmo tempo da carne e do osso da nossa história presente... e futura?!
Foi com este pensamento que me esqueci de Fátima, que estava agora de pé e de costas, menos favorecida, a conversar com uma Ministra da Cultura, de pescoço atlético na estreiteza dos ombros, penteado ‘à la diable’, a boca recortada no além-mar, o princípio de outro devaneio!
Tempo para o pano descer sobre mim. Estávamos no segundo acto...

domingo, março 26, 2006

A Madeira do Vosso Descontentamento

Já por mais de uma vez aqui o escrevi a letras garrafais, e repito convictamente:
Quando a história se referir a esta III Republica, iniciada em 25 de Abril de 1974, apenas registará de positivo, na coluna dos ganhos, a criação das Regiões Autónomas da Madeira e dos Açores!
Em termos de perdas, em lugar de grande destaque, a miserável descolonização, a que alguns traidores chamaram exemplar!
Vem isto a propósito do contínuo desgaste a que é submetido o Governo Regional da Madeira, e o seu Presidente, sistematicamente acusados de tudo e mais alguma coisa, nomeadamente de deficit democrático.
Nos Açores a situação só não é semelhante, porque tem havido alternância no Bloco Central, ou seja, entre as duas ‘famílias republicanas’ que desde sempre nos governam.
Criadas em contexto revolucionário, as Regiões Autónomas escaparam ao controle dos seus criadores, que hoje se pudessem recuariam, e daí o arrependimento e raiva, neste caso, de ambas as ‘famílias’!
Não há oposição em Portugal, e a oposição que há, é esta farsa que se repete de tantos em tantos anos, que não é alternância, muito menos alternativa, e corresponde apenas a ciclos de dominação, de uma ou outra das citadas facções.
Eu sei que há quem veja grandes diferenças entre o Estado Novo e a República de Abril! Para mim, para além de frequentarem as mesmas tascas, a democracia orgânica de Salazar, não é assim tão diferente desta democracia super corporativa em que vegetamos.
Era nisto que pensava enquanto lia um artigo de fundo no DN, da autoria do Professor António Costa Pinto, a perorar sob o título: ‘semidemocracias’!
O termo de comparação seria a República Portuguesa! A Madeira, o mau aluno e o mau exemplo! A plena democracia, aqui, na república restante! Mitigada, na ‘mexicana’ pérola do Atlântico! E os sintomas do costume – ‘no partido dominante, nem o dirigente do partido muda’!
Um duplo erro do articulista. A nossa República, globalmente considerada, também é semidemocrática, e estou a ser benevolente: os mesmos dois partidos no poder há trinta anos! A mesma Constituição antidemocrática, vagamente em vigor, com os mesmos dois partidos incapazes de a pôr de acordo com a realidade portuguesa! E aí, continuam de acordo!!!
A Madeira de Alberto João limita-se a responder em termos dialécticos à animosidade que vem do continente, carregada de sonhos de sujeição. Nada mais lógico.
Por isso, enquanto a ‘semidemocracia’ da III República vigorar, Alberto João Jardim vai continuar a ganhar eleições.
E ainda bem.

sexta-feira, março 24, 2006

Se o Iraque não existisse...

Foi uma fatalidade o Iraque...Mas que podia eu fazer? Apertado pelo castelhano, tive que ir até aos Açores!
Mas vou dar a volta por cima, e já não é a primeira vez!
Lembram-se do MRPP?
Para enfrentar os cães do Cunhal, ultrapassei-os pela esquerda. Depois foi só virar à direita e seguir o meu caminho. Fui um herói na Faculdade! A partir daí pude escolher um Partido decente. Sá Carneiro, aliás, esperava por mim, porque sabia que eu era um jovem patriota!
Não me digam que acreditaram na história do maoísmo? Só os otários!
Nasci burguês, morrerei burguês, tudo normal. Aquilo foi mais por causa da miúda... Sempre soube de que lado soprava o vento. É do outro lado do Atlântico. Os américas ajudaram-me bastante, e afinal foram eles que ganharam a guerra.
Arranjei bons amigos na direita, a minha folha de serviços permite todas as liberdades! As nódoas ainda lá estão – “nem mais um soldado, nem mais um tostão para as colónias...” – vão demorar tempo a desaparecer, mas isso já não é para a minha vida.
Quando me lembro disso, até me arrepio! Mas como é que chegava ao Ministério dos Negócios Estrangeiros? Às Colónias? Como é que dialogava com os tiranetes que lá pusemos?
Tudo junto, deu-me a União Europeia!
Aqui um parênteses de elementar justiça: toda a gente vê que eu não tenho nada a ver com aquela malta. Sou um político com outro nível, aquilo é uma cambada de jacobinos! Lembram-se do pobre Buttiglioni!
Mas o Iraque é de facto um problema... A invasão foi um crime, não tenho dúvidas, uma mentira pegada, e prejudicial para as nossas cores. Sempre falei disso com os meus botões, mas ainda bem que eles não falam.
Aquilo é um desastre, qual democracia qual carapuça, guerra civil não tarda...
Aqueles americanos, com os ingleses à arreata, não podem andar para aí a fazer asneiras a torto e a direito! No tempo da guerra-fria eram mais comedidos. É caso para dizer que são piores sozinhos, que mal acompanhados!!!
A União Europeia não conta, quando toca a unir, vigoram como sempre vigoraram os interesses nacionais...dos grandes.
O que me preocupa é como é que eu vou sair desta história?!
A China?
Não há nada como o primeiro amor...

terça-feira, março 21, 2006

Nuno Álvares no Feijó

Sexta-feira passada, dia 17 de Março, a notícia de uma palestra sobre o Santo Condestável. Oportunidade para ouvir de viva voz o Duque de Bragança falar daquele seu ilustre antepassado! A sul do Tejo, no salão paroquial da Igreja do Feijó e por iniciativa do Corpo de Escuteiros local.
Bela iniciativa e belo pretexto.
Grande simplicidade como convém a um Santo, muita juventude, um livrinho a propósito e vamos lá reavivar os meus escassos conhecimentos:
Rompeu com a linha dinástica, soube purificar a memória, não destruiu nada, acrescentou-lhe um novo conceito – Pátria!
Deus, Pátria, Rei. Simples e eficaz!
Herói da minha juventude, outro Galaaz ou Parcifal, foi perdendo fulgor, usurpado pelo regime usurpador. Esteve para ser saneado no 25 de Abril!!! Com outros egrégios Avós!!! Tal foi o uso que dele fizeram, a confundirem o povo, tantas estátuas e ruas...quando ele exigiria apenas o exemplo.
Modelo para a juventude, a juventude não o conhece. Modelo de militar, os militares não o seguem. Modelo de dedicação ao próximo. O próximo que feche a porta!
A conversa seguia informal, o Senhor Dom Duarte falou da canonização em curso e do que isso representaria para Portugal. “Uma lança em África”, digo eu! Lembrando-me da sua insistência em participar, já velhote, na expedição a Ceuta!
Mas um militar que mata castelhanos pode ser Santo?
Na crueldade sem rosto do mundo de hoje, no tempo das ‘guerras preventivas’, a pergunta soa a falso. Nuno Álvares defendeu a Sua Pátria, não atacou ninguém. Poupou até ao limite a vida dos seus homens, e a dos seus inimigos! Que o respeitavam, que o admiravam.
O povo dizia que ele era Santo! Então não há-de ser Santo quem, com o mundo a seus pés, abdica de tudo e entra para um Convento! E mesmo aí, nesse Convento do Carmo, escolhe um lugar subalterno, para se dedicar totalmente aos pobres, aos que tiveram menos sorte na vida.
Por esta altura o espírito do Beato Nuno de Santa Maria já invadia o salão paroquial, os escuteiros atentos, ainda ouviram o empenho com que sempre protegeu as minorias, mouros e judeus, em testemunhos que o tempo não apagou! Uma vez mais a deixar a sua marca intemporal!
Uma última questão. E se o Condestável aparecesse de novo, se visse tantos castelhanos, tanta Europa a dar as suas ordens por aqui, como reagiria?
A pergunta está no ar e respondo eu: por muita compreensão e boa vontade que conseguisse angariar, estou convencido que Nuno Álvares Pereira, repetiria o gesto ameaçador que exibiu perante o embaixador castelhano: a cota de malha ainda ali estava debaixo do burel do monge, para o que desse e viesse. O embaixador castelhano percebeu imediatamente a mensagem.
E entre nós, alguém percebe alguma coisa?

sábado, março 18, 2006

As Cores de Portugal

Interpelado por um ilustre visitante, que não conheço, mas que demonstra preocupação e sapiência sobre a simbologia que presidiu à escolha das ‘cores nacionais’, regresso ao assunto, que por manifesta falta de espaço, não cabe, nem coube, na caixa de comentários do postal anterior.
Já me referi a este tema no ‘Portugal no arco-íris’, mas agora pretendo ser mais explícito.
Quais são, afinal, as cores de Portugal?
A própria dúvida, assim colocada, já indicia uma triste realidade: um dos objectivos do partido republicano foi atingido – ninguém tem certezas, estamos divididos, fomos enganados, já não sabemos quem somos. Os republicanos falsificaram a história, adulteraram os nossos símbolos. Não adianta ver o que não está visível, o que não se entende. O que não está lá, porque foi retirado, de propósito.
Retiraram a Coroa do Fundador, símbolo da Realeza e portanto da Independência, introduziram o ‘verde e encarnado’, seja da União Ibérica, seja da carbonária italiana, símbolo da dependência!
O Branco, onde tudo se pode inscrever, onde inscrevemos o sinal da nossa Missão, a CRUZ, esse caíu! O Serviço que justificou a Independência, ‘o aumento da pequena Cristandade’, aparece apenas, de forma velada, na formação dos escudos e quinas!
O Azul das Terras de Santa Maria, o Azul de Nª Senhora da Conceição, Rainha coroada na Restauração, também desapareceu!
O que resta?
A esfera, coroa fechada de um quinto império, onde não existe a Cruz?
A armilar que abraça o mundo, sem o símbolo Superior do Padrão dos Descobrimentos?
Onde está a Missão? O Estado separado da Nação? Cada um para seu lado?
Paremos para pensar. Existem três momentos culminantes da Independência Pátria, a saber:
Ourique, Aljubarrota e Restauração: Em todos eles se fez juz ao símbolo Fundador – o Branco e a Cruz Azul, mais tarde, o Branco e o Azul em Cruz! A Coroa, quando conquistámos a Independência.
Cabe aqui recordar, para que não existam dúvidas, que o Condestável, ao pôr em causa o direito dinástico, foi percursor, mas no sentido da tradição: ‘Se Deus nos deu uma Pátria, devemos defendê-la’.
Porém, ‘entre os portugueses, traidores houve algumas vezes’.
Assim, no lado errado da história, as datas do anti-Portugal são três também:
O jacobinismo de 1820, acentuado em 1910, e a cobardia de 1974.
Em todos eles fugimos de nós próprios, adoptámos símbolos dos outros, em todos eles trocámos independência por dependência!
Em 1820 renegámos a tradição e aprisionámos o Rei atrás das grades de uma constituição anti-portuguesa. A seguir veio o que se esperava, a guerra civil e a República. Esta, sabe-se hoje, sempre se soube, patrocinada pela Inglaterra que ambicionava as nossas Colónias, tal como as outras potências.
Em 1974, a República consumou o acto e foi altura de nos reformarmos, abdicando de ser uma Pátria Livre e Independente. Não conseguimos assinar a Constituição Europeia, mas estamos muito contentes na Europa. A Europa que nos ature!
Os símbolos seguiram naturalmente todo este percurso de dependências, várias e para todos os gostos.
A matrona de grandes seios mostra à evidência a sociedade infantil em que nos transformámos! O Regicídio, como em França, revela nova faceta infantil e doentia: um acirrado complexo de Édipo. Pelo avesso revela orfandade. Matámos o Pai e procuramos um sucedâneo em qualquer padrasto! De preferência solteiro e beato. Também escolhemos ateus. A seguir vamos a Fátima!
Haverá esperança?
Responde-me o ilustre visitante que o Interregno, não este, o verdadeiro, é ele próprio o sinal iniciático da ‘nova era’! É possível desde que a bandeira volte a ser símbolo do caminho que percorremos juntos há oito séculos. Os desvios e os erros servem apenas para nos indicar que nos afastámos.
O verde e encarnado, são desvios.
A Coroa que falta, é um erro.

segunda-feira, março 13, 2006

As nacionalizações continuam

Somos uma florescente economia de direcção central. Nacionalizamos tudo! Agora é o ‘Gato Fedorento’!
Disseram umas graças, algumas tinham graça, uns anúncios, e aí está a consagração nacional! Com mais juizinho, sem palavrões, porque a audiência é selecta!
Como se houvesse uma audiência mais ‘selecta’ no canal do Estado.
O processo já não sofre dos furores do PREC, e visto de longe parece bastante linear:
- A ‘coisa’ primeiro amadurece, estabelece-se de seguida um largo consenso, os media por sua vez fazem eco, e entre os media, a Televisão Pública chega-se à frente e nacionaliza a ‘coisa’. Fecha-se assim o circuito.
O País entretanto rejubila, mais tarde queixa-se dos impostos, dos funcionários públicos, e finalmente, queixa-se de si próprio!
Vejamos alguns exemplos de nacionalizações de sucesso:
O Benfica em primeiro lugar, esteja em que lugar estiver; o Sporting está sempre em vias de nacionalização; a Catarina Furtado fartou-se rápidamente das agruras do mercado e logo que foi possível quis ser nacionalizada; a PT é um ‘case study’, ninguém percebe se está nacionalizada ou não!
Uma característica une todas estas entidades: adoram ser nacionalizadas! E ao mesmo tempo adoram dizer o contrário!
A única privatização conhecida foi o Herman, que terá caído em desgraça.
Nesta altura quase que apetece gritar: força camaradas, a luta continua.

sábado, março 11, 2006

Uma família feliz

De mão dada, sobem a rampa do Palácio de Belém, felizes da vida, como se tivessem chegado ao topo do mundo. Cume de uma carreira política bem sucedida, um justo troféu para tanta ambição e canseira!
Rei por um dia, ou por cinco anos, talvez por dez, quem não gostaria de ser?
Escrevo estas linhas no divã da psicanálise, expurgado da inveja, do sofrimento da rejeição, dos traumas de infância, de tudo o que possa ofuscar ou diminuir este momento de glória, aquela imagem de felicidade.
Antes porém, debati-me com o meu outro eu, mais selvagem, primário, que me gritava ao ouvido uma série de disparates: que Mário Soares foi coerente ao não cumprimentar o inimigo da véspera, e que essa é uma atitude que está na lógica republicana. Para quê fingir que estou contente com a vitória do outro, se não estou, e se assim a minha neta não pode fingir de princesinha por mais uns anitos?!
O meu outro ouvido também não foi poupado! Dizia-me então a besta que habita dentro de mim: para a República, os Palácios devem ser Museus e não locais de habitação. Os Palácios não são do povo, porque eu nunca vi o povo habitar em Palácios. E continuava o maldizente: o Presidente deve tomar posse no notário e com testemunhas, não há necessidade de festividades e convites. Imagino que quem não votou nele, e ainda foram uns quantos, não deve estar virado para grandes festas, nem quer pagar a conta.
Mas como disse, isto foi antes do correctivo que o psiquiatra me aplicou. Nada de confusões, que eu até simpatizo com o homem.

sexta-feira, março 10, 2006

Um Cabo de Esperança

Quarta-feira, 8 de Março, dia de S. João de Deus.
Um passeio ao Cabo Espichel para festejar os doze anos do Vale de Acór!
Apetece repetir o verso de Camões: ‘Porém já cinco sóis eram passados, que dali nos partíramos, por mares nunca dantes navegados...
Foram mais do que doze sóis... de solidariedade e esperança para muitos, se calhar para todos, sem aritmética, recomeçando sempre, porque é preciso recomeçar sempre.
O dia era de festa mas o promontório, na sua rude majestade, impunha serenidade e limites. Pelo contrário, a memória do Santo rasgava horizontes!
Houve jogos e ensinamentos, almoço e divertimentos, um pouco de tudo.
O casario arruinado, ainda imponente, que inclui um teatro de ópera, recorda aos presentes que aquele local já foi um importante Santuário. Durante o século dezoito chegou a mobilizar vinte e sete freguesias da região saloia, que aqui vinham, em peregrinação, para oferecerem um ‘círio’ à Senhora do Cabo.
No fim, a Missa, para falar com Deus e de João de Deus.
João Cidade, assim se chamava o Santo que nasceu em Montemor-o-Novo, em meados do século XV, que desde criança serviu em Espanha, que trabalhou como pedreiro nas muralhas de Ceuta, que levou uma vida pouco recomendável, que se converteu aos gritos de “Jesus, Misericórdia!”
E que fundou a Ordem dos Irmãos Hospitalários para tratar dos pobres e doentes, e que deixou de pensar em si para pensar nos outros, e que é o padroeiro do Vale de Acór.
O passeio fez-me bem.

quinta-feira, março 09, 2006

O milagre republicano

Com pompa e circunstância cumpriu-se o ritual, Cavaco Silva foi empossado. É o décimo nono Presidente em noventa e cinco anos! O verde e encarnado em pano de fundo e muitos convidados. O Palácio parecia pequeno!
Lá estavam os adversários de ontem aos abraços, esquecidos os insultos da véspera, porque afinal somos todos amigos.
“Não se esqueçam que eu sou o Presidente de todos os portugueses, dos que votaram em mim, mas principalmente dos que não votaram em mim”!
A frase, uma vez proferida, opera o milagre: somos irmãos, estamos de acordo e vamos remar todos para o mesmo lado!
O resto são detalhes do discurso:
Em matéria de política interna, é preciso olhar pelos mais desfavorecidos, até porque eles não param de aumentar!
A construção da Europa precisa do nosso contributo, e nós precisamos do "contributo" da Europa, porque continuamos pobres!
O mar é o nosso destino, e por isso sentei os PALOP à minha mesa. Mas não estamos todos!
A NATO é a nossa defesa, e provávelmente voltaremos a ceder na questão dos Açores, se precisarem de bombardear o Irão!
Mais atentos, os mais interessados: O Príncipe das Astúrias, o Rei de Marrocos, o representante Inglês, e o pai Bush. A União Europeia com Durão e Delors.
Por fim, os ‘finalmente’: o brinde e a medalha. O brinde foi para todos, mas a medalha foi para Jorge. É caso para dizer – a Jorge o que é de Jorge!
E se isto tudo é verdade, e independente da dignidade do empossado, falta no entanto ‘a verdade de tudo isto’!
Falta a verdade da representação, falta o Rei.

terça-feira, março 07, 2006

Promoções de Inverno

Hoje é um bom dia para restaurar a monarquia.
Com Sócrates na Finlândia, entretido com os telemóveis, e Cavaco Silva próximo da investidura, estão reunidas as condições para uma revolução em Portugal!
Não se assustem, não haverá derramamento de sangue, nem transtornos de maior na circulação rodoviária. Será uma revolução tranquila.
Sócrates vai continuar a tratar do choque tecnológico, acumulando o cargo de director-geral da Nokia para o hemisfério sul, e Cavaco pode manter-se como presidente da economia e turismo do Reino do Algarve, para já, sem o além-mar.
Entretanto, uma Regência assegurará o Governo de Portugal.
Que terá como tarefas prioritárias:
Reconhecer que não basta vegetar entre a Europa e o Atlântico. É preciso ter vida própria, ter um rumo, capacidade de manobra e de escolha, o que em gíria política se chama independência.
Reconhecer que apesar dos dislates, incompetências e traições, de que ninguém está isento, as circunstâncias históricas colocaram de novo ao nosso alcance a possibilidade de reconstruir o Reino Unido de Portugal e Brasil, incluindo todas as outras antigas Colónias.
Foragidos da globalização, atirados para a miséria pela ditadura do mercado, cruzam as nossas fronteiras muitos brasileiros, africanos e asiáticos, à procura de alento e pão, para si e para os seus.
Trazem na bagagem a memória de uma longa convivência de séculos que pelos vistos deixou saudades.
Nestas condições, a Regência entende que Portugal não se esgotou, nem se esgotou tão pouco, o contributo que a comunidade internacional deve esperar dos portugueses.
Com efeito, nos territórios onde se fez sentir a nossa colonização, não existem questões raciais ou religiosas por resolver! Caso único no mundo!
Assim, e sem quaisquer complexos, podemos reafirmar que esta é a grande verdade política que mobilizará todo o mundo lusíada, e o único desígnio nacional compatível com a nossa vocação histórica.
O actual regime não tem solução e há muito que vive fora da realidade: já quis ser a Cuba da Europa! Ou o México! A Albânia não foi possível, paciência! Agora anda entusiasmado com a Finlândia e com as semelhanças entre os dois povos!
Em pano de fundo, já sabemos que a solução Filipina é sempre aquela certeza!
Ser Portugal é que está difícil!!!
É por isso que eu penso, que hoje era um bom dia para restaurar a monarquia.

quinta-feira, março 02, 2006

A minha resposta

Mulher do deserto, que desafiaste o Ocidente civilizado, que reclamaste desculpas pelo ultraje, aqui te respondo correndo o sério risco de não ser entendido entre os meus! Esta Europa dos direitos, outrora Cristã, é agora conduzida por homens sem Fé, não sabe pedir desculpas a ninguém!
Tu e a tua burka são a própria negação daquilo que conquistámos, e é por isso que não podemos garantir esse direito mais simples: o respeito pelo outro!
Sabes, quando fizeram aquela caricatura vergonhosa contra o Papa João Paulo II, os católicos, na sua grande maioria, nem reagiram, escudando-se em argumentos que denunciam fragilidade e descrença.
Em Portugal, esse cartoonista deu-se ao ‘luxo’ de publicar na edição seguinte do mesmo jornal, uma nova caricatura a ofender a Igreja Católica, e nada lhe sucedeu. Em nome da liberdade de expressão!
O Governo nada fez, não demandou o insolente, o Ministério Público ficou quedo.
A Assembleia da República limitou-se a analisar um longo abaixo-assinado que solicitava um desagravo. Nada se concluiu.
Existiria sempre a possibilidade de um pedido de desculpas à comunidade católica, por parte do dito representante de todos os portugueses, o Presidente da República. Desculpas que assim chegariam ao mais anónimo dos crentes.
Mas não, o Chefe do Estado ficou impávido.
Como vê, em Portugal, as coisas mudaram muito desde os tempos da reconquista aos mouros, que são, presumo, os seus antepassados. Posso até prever, pela Fé com que continua a defender a sua crença, que não lhe será difícil a si e ao seu povo reinstalar-se de novo aqui na península. Não encontrará grande resistência, porque os católicos estão fraquinhos e a grande maioria dos habitantes são ateus, com mentalidade de escravos.
Agora quanto ao seu assunto, eu tentava um último recurso: escreva à Rainha da Dinamarca.
Estou convencido que ela saberia pedir desculpa em nome dos dinamarqueses.

terça-feira, fevereiro 28, 2006

Partida de Carnaval

Só pode ser!
Recebi esta estranha mensagem, directamente do deserto, em caracteres difíceis de decifrar, mas que ainda assim deixo à Vossa consideração:
“Sou uma pobre mulher, vivo para lá do sol-posto, na Arábia ardente, e soube que fui insultada e vexada na Europa, porque um jornal dinamarquês, resolveu publicar umas caricaturas ofensivas do Profeta Maomé!
Muitos outros dos meus vizinhos também estão revoltados e queixosos contra semelhante atitude e não sabem o que hão-de fazer!?
Dizem-me que o Governo da Dinamarca não é responsável pelo sucedido, pois só lhe cabe assegurar a liberdade de expressão em toda a sua plenitude! Se quiser queixar-me, devo reclamar junto dos tribunais, na Dinamarca!
Como o meu camelo, decerto que não aguenta semelhante viagem, sinto-me de mãos atadas, tal como os meus compatriotas, e imagino que muitos milhões de maometanos?!
Dirijo-me a si porque sei que é católico e também se sentiu vexado quando fizeram uma caricatura indigna do anterior Papa. Que em nome da liberdade de expressão, ficou impune!
Se puder, ajude-me. Se não puder, não respondo por mim quando me aparecer um dinamarquês pela frente.”
Mensagem, de facto, estranha!

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

TIMOR 2006

Ainda se servem de ti, da tua doce ingenuidade, para saírem em beleza!
Fazem discursos ao futuro, ocupam o teu palanque! Trinta anos passados, perdidos e envenenados!
Quem responde pelo tempo?
Rapariguinha sem gramática, de gramática na mão! Sabes por acaso, quem te roubou a gramática, por uma geração?
Tu não sabes e ainda bem.
Agradeces o livrinho do fundo do coração!
A cerimónia prossegue e o Bispo fala do pão. O laico não o entende, insiste na religião!
O fanatismo, diz ele!
É caso para perguntar: quem encomendou o sermão?


Rapariga de Timor,
Pátria na Oceania!
Devolveram-te a gramática,
(a história conheces tu)
Pede-lhes a geografia.

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

Liberdade de expressão

Falaram-me de ir ao cinema! Fazer o quê, se nem gosto de pipocas?! Aliás, não conheço programa mais antiquado!
Mesmo assim pus-me a imaginar como seria uma deslocação, com ou sem companhia, a um desses tugúrios onde mandam as sapatilhas, algumas cuidadosamente colocadas em cima das cabeças da frente.
Estou a exagerar de propósito. Para afastar essa tentação de reviver ‘um antigamente’ onde a matinée de sábado representava o sonho de uma semana de espera.
Mas afinal qual é o cartaz? O que é que a Meca do cinema nos reserva para esta sessão?
Uma informação confidencial: eles agora trabalham em pacotes de propaganda e infestam as muitas saletas de cinema com poucos filmes, mas de mensagem forte, direccionada ao espírito fraco da massa cinéfila. Gasta-se o que for preciso, o dinheiro não é problema!
A arrogância é minha mas a realidade é de publicidade e consumo. De tudo e mais alguma coisa!
Em exibição temos, disse a menina do guichet:
‘Munique’ do Steven Spielberg, para maiores de doze anos; ‘Match Point’ de Woody Allen, também para maiores de doze; ‘O Segredo de Brokeback Mountain’ de Ang Lee, para... – já sei, interrompi eu.
E ainda temos o ‘Bambi II’ e o ‘Orgulho e Preconceito’, acrescentou.
- Sabe, estava-me a apetecer ver um filme com ayatollas e turbantes a fazerem miséria no arraial Cristão?! Uma biografia do Saladino!? Os árabes a serem maltratados pelos judeus?!
- Não temos e digo-lhe já que nunca ouvi falar nesses filmes!
Bem, então ficamos com o ‘Orgulho e Preconceito’.
Dois bilhetes, sem pipocas.

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

“FRACASSO”

Quando supus ser vitória é fumo apenas.

Fracasso, linguagem do fundo, pista de outro espaço mais exigente, difícil de entreler é tua letra.

Quando punhas tua marca em minha fronte, nunca pensei na mensagem que trazias, mais preciosa que todos os triunfos.
Teu rosto chamejante perseguiu-me
e eu não soube que era para salvar-me.
Para meu bem desterraste-me para lugares recônditos,
negaste-me êxitos fáceis, cortaste-me saídas.
Era a mim que querias defender ao não me conceder brilho.
De puro amor por mim manejaste o vazio que tantas noites me fez falar febril a uma ausente.
Para proteger-me deixaste passar outros, fizeste que uma mulher prefira alguém mais ousado, afastaste-me de ofícios suicidas.

Vieste sempre dar a cara.

Sim, teu corpo chagado, cuspido, odioso, recebeu-me na minha mais pura forma para me entregar à nitidez do deserto.
Por loucura amaldiçoei-te, maltratei-te, blasfemei contra ti.

Tu não existes.
Foste inventado pela soberba delirante.

Quanto te devo!
Levantaste-me a um nível limpando-me com uma áspera esponja, lançando-me para o meu verdadeiro campo de batalha,
cedendo-me as armas que o triunfo abandona.

Levaste-me pela mão à única água que me reflecte.
Por ti não conheço a angústia de representar um papel, manter-me à força num alto, trepar com esforços próprios, discutir por causa de hierarquias, inchar até rebentar.
Fizeste-me humilde, silencioso e rebelde.
Não te canto pelo que és, mas pelo que não me deixaste ser. Por não me dares outra vida. Por me teres diminuído.

Ofereceste-me somente nudez.
É verdade que me ensinaste com dureza e tu mesmo trazias o cautério!, mas também me deste a alegria de não te recear.
Obrigado por me tirares espessura em troca de uma letra grande.

Obrigado a ti, que me privaste de vaidades.
Obrigado pela riqueza a que me obrigaste.
Obrigado por me construir com meu barro a minha morada.
Obrigado por me afastares.
Obrigado.

Rafael Cadenas (trad: José Bento)

terça-feira, fevereiro 21, 2006

“O Caso Americano”

Igreja livre e Estado limitado

O carácter religioso da cultura americana e o papel da Igreja no debate público. Eis por que, do outro lado do oceano, uma concordata entre o Estado e a Igreja é supérflua.

Por Paolo Carozza

È difícil, para um europeu que não tenha passado um período de tempo significativo nos Estados Unidos, aperceber-se até que ponto nós, americanos, somos difusa e sinceramente, um povo muito religioso. Sem esta consciência, o frequente hábito americano de invocar Deus em público pode parecer somente um gesto cínico e instrumental e as intervenções por parte dos líderes religiosos em questões de interesse público pareceriam representar uma corrupção da política democrática. Todavia, constata-se sobretudo uma realidade simples: o que afirmamos em público é um reflexo da centralidade da religião na vida da grande maioria dos americanos. Como consequência, os que quereriam tentar eliminar as expressões religiosas da vida política e censurar os contributos públicos dos líderes religiosos, estão a tentar ignorar e negar aquela que é, com efeito, a realidade e a origem do significado da vida de muitas pessoas. Também nos Estados Unidos existem muitos apoiantes de semelhante laicismo anti-humanista mas, nos últimos tempos, tenho notado que em Itália este fenómeno está algo mais difundido e é certamente mais agressivamente ideológico. Mesmo o forte anti-catolicismo presente em grande parte da história americana nunca foi, senão em tempos muito recentes, uma oposição à religião em geral.

Uma questão de história
Todavia, embora seja um ponto de partida necessário, o carácter religioso da cultura americana só por si não é suficiente para compreender o papel da Igreja no debate público nos Estados Unidos. É também uma questão de história, de direito, do conceito tipicamente americano de Estado e, finalmente, do significado atribuído à razão.
Desde o início, a nossa história foi repetidamente marcada pela forte presença da experiência religiosa em cada acontecimento público importante. Da fundação das colónias por parte de exilados religiosos ao papel central desenvolvido pelos cristãos na luta pela abolição da escravatura e no subsequente movimento pelos direitos civis, até aos debates actuais sobre o papel da América no mundo, a concepção religiosa da vida deu significado e forneceu razões à maneira como os americanos entendem a liberdade, a igualdade, a responsabilidade e o bem comum. Ajudou a responder às perguntas sobre que tipo de pessoas somos e sobre o que aspiramos a ser, perguntas que qualquer controvérsia pública importante apresenta, ao menos ao nível implícito.

Liberdade religiosa
A nossa lei defende e respeita o papel central que a religião representou na vida pública. Temos uma concepção de grande amplitude da liberdade religiosa, que reconhece que um elemento importante da liberdade das comunidades religiosas consiste na possibilidade de falar e agir publicamente. Ao mesmo tempo, na América o conceito de “liberdade de expressão” é substancialmente mais amplo que na Europa. A nossa tolerância para com a presença de opiniões baseadas em convicções religiosas em relação a questões sociais controversas, nasce, em grande parte, da ideia que deve ser dado espaço de presença pública a qualquer opinião, por muito impopular ou desagradável que possa ser para alguns. Isto é particularmente importante, dada a grande diversidade de identidades e de práticas religiosas presentes entre os americanos. Não cabe ao Estado determinar o que é aceitável como discurso público, por isto a lei defende a liberdade de todos de exprimir as próprias opiniões.
Aqui existe uma estreita ligação entre a opinião dos americanos sobre o papel da religião nos assuntos públicos e as suas opiniões no que respeita ao Estado. Enquanto que a herança das teorias constitucionais do século dezanove na Europa continental põe em evidência o monopólio do Estado como encarnação do interesse público, os Estados Unidos pertencem a uma tradição constitucional muito mais propensa a ver o Estado como um actor limitado no tecido social. Deste lado do Atlântico uma Concordata parece ser uma resposta à necessidade de instituir uma série de defesas a favor da Igreja contra a pretensão do Estado em deter poder e autoridade exclusivos e definitivos. Todavia, num contexto como o nosso, onde a liberdade da Igreja é amplamente garantida pelos limites estruturais do Estado, uma Concordata parece supérflua. Um exemplo: não há nenhuma necessidade de um acordo especial que garanta à Igreja o direito de instituir o seu sistema educativo, visto que o Estado não detém o monopólio da educação e não pode proibir a criação e a actividade de escolas religiosas.

Troca aberta de ideias
A nossa concepção de liberdade de religião ou de expressão favorece de um modo decisivo uma troca de ideias aberta e sem limites, enquanto que o papel dos grupos religiosos no debate público é submetido a regras e limitações, como (talvez duma forma surpreendente para os europeus) é amplamente demonstrado pelo direito fiscal americano. Entidades sem fins lucrativos, incluindo as organizações religiosas, estão isentas de taxa desde que não se identifiquem politicamente com partidos.
Consequentemente, as igrejas e as outras organizações religiosas estão sempre atentas a não tomar posições que possam favorecer a escolha de um partido em relação a outro ou de um indivíduo em relação a outro, concentrando-se em vez disso sobre os princípios e sobre as questões reais em jogo nos debates de interesse social. Esta tornou-se, portanto, a linha de demarcação entre as intervenções geralmente aceites por parte dos grupos religiosos e aqueles que são considerados ilícitos.
Implícita nesta distinção entre inaceitáveis tomadas de posição politicamente marcadas e intervenções públicas aceitáveis está a convicção de que os juízos sobre questões de interesse público baseados em convicções religiosas podem ser razoáveis. Ou que sejam capazes de dar motivações aos outros, motivações que possam fazer apelo à concepção comum do que é bom para toda a sociedade e de convencer os outros acerca da verdade de tais afirmações. Na América, como na Europa, se bem que talvez a uma escala menor, os que negam que uma perspectiva baseada em convicções religiosas possa falar duma forma adequada de questões de interesse público, têm uma opinião assaz redutora da capacidade da razão humana. Isto é, em definitivo, a grande questão que está em jogo nas discussões sobre a participação da Igreja no debate público democrático. Permitir e defender tal papel é uma afirmação da mais ampla e alta concepção da capacidade da razão de compreender, propor e apoiar a verdade.

In “Passos – Revista Internacional de Comunhão e Libertação”, nº1/2006.

sábado, fevereiro 18, 2006

Portugal no arco-íris

Restabelecido o sistema que rege actualmente a minha ligação com o mundo, posso enfim escrever algumas notas sobre um dos temas centrais da nossa vida colectiva – as cores dos novos equipamentos da selecção de futebol!
É triste mas é verdade, por mais que rebusque, estamos reduzidos à selecção de futebol, vago ponto de encontro entre os portugueses, e mesmo assim envenenado pela simbologia republicana.
Mas olhemos para as novidades:
O equipamento principal é todo em ‘bordeaux’, dos pés à cabeça, com uma pequena risca verde nas mangas e meias. O alternativo, é preto com riscas prateadas no mesmo sítio. Em ambos haverá, estou certo, alguma menção mais ou menos estilizada aos escudos e quinas.
Diga-se desde já que são bonitos e cumprem os principais objectivos da via-sacra republicana que consiste em disfarçar o erro ‘ verde e encarnado’ que em cinco de Outubro de 1910 traiu os símbolos de um País com oito séculos de História. As cores de Portugal, o Azul e Branco Fundador, atirados às urtigas pela raiva e facciosismo de meia dúzia de antiportugueses.
Alguns republicanos mais lúcidos ainda alertaram para o terrível erro histórico que ali se cometia, mas em vão. O ‘país de costas’ não recuou nos seus intentos de impor a versão colorida da união ibérica, afinal tão do seu agrado, pese a permanente necessidade de se justificar, ‘dourando a pílula’ e iludindo os incautos.
O Estado Novo percebeu imediatamente que a bandeira que tinha sido hasteada na Praça do Município, era o produto de uma guerra civil e não podia por isso ser um elemento de unidade, mas sim de divisão e ressentimento. Nesse sentido foi disfarçando como pôde. Os equipamentos da selecção nacional de futebol foram aproveitados para escurecer o encarnado da bandeira e enveredar pela camisola grenat, com calções azuis e meias azuis. E foi mais longe, adoptando como equipamento alternativo, a camisola branca com as quinas ao peito, mantendo os mesmos calções e meias azuis. Alinhámos assim em alguns jogos do campeonato do Mundo de 1966.
Meio problema estava solucionado, mas faltava justificar a aparição do verde na bandeira! Dar-lhe algum nexo.
Foi então a vez da Mocidade Portuguesa e da propaganda do regime explicarem que em Aljubarrota a Ala dos Namorados empunhava flâmulas e pendões verde rubros. Foi o suficiente para que os jovens chefes de castelo e chefes de quina passassem a ser a verdadeira encarnação do Condestável! A ironia descritiva serve apenas para relembrar um velho ditado – ‘o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita’! E não vai lá com operações de cosmética.
Só a verdade faz caminho, e a verdade é que a facção que em 1910 impôs o verde e encarnado aos portugueses, fê-lo contra o azul e branco, para reescrever a história, e não, como agora nos querem fazer acreditar, para construir ou reconstruir o que quer que fosse. Retirando da bandeira ‘as cores da Fundação e a coroa do Fundador’ o que pretendiam aqueles idiotas? Unir os portugueses? Ofender os antepassados?
Agora, o que se está a tornar caricato em toda esta novela das cores da selecção é que, sem darmos por isso, lá vamos cumprindo o programa de destruição identitária idealizado pela maçonaria e pelo partido republicano: a diferença entre o novo equipamento da selecção portuguesa e o da selecção espanhola, resume-se hoje, ao nível das cores, a um pequeno ‘fumo’ verde!
Claro que tudo isto joga com a ignorância das populações, com tentativas de recomposição da memória, com a aposta no esquecimento. Mas não se iludam. Não é uma questão de somenos ou ultrapassada. Nem é como muitos pensam uma questão geracional que eu, à semelhança daqueles traidores, possa relevar ou escolher à minha vontade. Na democracia da história os mortos têm a maioria. É por isso que a memória colectiva costuma reacender-se de repente, de surpresa, numa qualquer esquina da história. Os exemplos multiplicam-se à nossa volta. Mais tarde ou mais cedo vamos ter que emendar o erro e restaurar as verdadeiras cores e símbolos de Portugal.
As dúvidas esclarecem-se com o Fundador.

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

Sem meios e com deveres

Por causa de uma avaria no ‘sistema’, aqui estou eu prisioneiro de uma chamada da menina do ‘sapo’ ou da ‘telecom’, pessoas e entidades que nem conheço!
Antigamente, quando escrevinhava para a disquete e esperava pela respectiva publicação, a cargo de ‘Servidores’ de confiança, nunca tive que ficar em casa a aboborar. Agora, a independência é...isto!
Bem, mas o tema da conversa de hoje é: - ‘a minha liberdade de expressão’ ou em alternativa ‘os meus direitos e deveres’.
Talvez começar por referir que esta questão dos deveres é um assunto muito pouco debatido entre nós, e quando o é, acaba normalmente asfixiado por uma série de direitos da espécie dos cogumelos. Quero dizer que nascem por toda a parte e ao menor descuido!
Fui ensinado a equilibrar direitos com deveres numa perspectiva de contas saldadas. Também consigo perceber que nascemos com mais direitos que deveres em função da fragilidade da vida humana. E compreendo que se assista a uma inversão à medida do crescimento e das responsabilidades assumidas.
Mas a verdade é que a história do homem é sempre contada como uma aventura em busca de direitos, nunca de deveres! As Religiões vão temperando este desfazamento como podem, lembram obrigações e contratos por honrar, vínculos que não se devem destruir, mas nada conseguem contra este verdadeiro massacre de direitos.
Direitos que essa entidade abstracta e mítica a que chamamos Estado deve satisfazer de imediato, sob pena de tumulto ou mudança de governo.
Curioso é que estes direitos se afirmam sempre no mesmo sentido, contra a Fé dos homens!
É talvez por isso que a cada anúncio de um novo direito que me querem atribuir ou dar, eu reajo tão negativamente – como se me estivessem a espoliar de alguma coisa com valor.
Posso então admitir que sou um privilegiado, um reacionário a defender o que é ilegítimo, um entrave ao progresso e desenvolvimento da humanidade na sua caminhada triunfal em direcção ao paraíso!
Vencido mas não convencido, uma dúvida condicional atravessa ainda o meu espírito – se as propostas de novos direitos surgem normalmente do lado dos que não acreditam em paraísos, não andará por aqui um tremendo oportunismo?!
É por esta altura que me costumo lembrar daquela historieta que uma vez certamente aconteceu: - um pequeno grupo de pessoas resolveu fundar um clube para praticar o seu desporto favorito, o pingue-pongue. Mas foi preciso contemplar nos estatutos uns quantos direitos de associação e por essa via foram entrando no clube muitas pessoas que não gostavam de pingue-pongue. Um belo dia fez-se uma assembleia convocada à luz de outros direitos obrigatórios e ficou decidido por maioria que doravante nunca mais se jogaria ali pingue-pongue.
E o clube cresceu feliz e contente.
Não me perguntem para onde é que foram os jogadores de pingue-pongue, porque isso não interessa minimamente.
Eles só tinham o dever de deixar passar o ‘comboio da história’!

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Zangam-se as comadres...

Descobrem-se as verdades! Assim fala o povo, enquanto Valentim se queixa amargamente do silêncio presidencial quanto à devassa do segredo de justiça no caso do ‘apito dourado’!
O Major terá declarado que Sampaio só se preocupa com as escutas e o segredo de justiça, quando o seu número de telefone vem à baila no processo da Casa Pia! No resto anda de bico calado!
Ora não sei se repararam, que escrevi ‘apito dourado’ com letra pequena!? Não foi por acaso, não senhor. A circunstância especialíssima de finalmente termos descoberto em Portugal uma nova forma de criminalidade, altamente desconcertante, que se preocupa apenas em subornar árbitros de segunda e terceira categoria, para obter resultados em campeonatos de divisões inferiores, ou até em competições de solteiros e casados, diz bem da perigosidade dos indiciados e dos seus sofisticados fins!
Bem, o que interessa é que fomos nós que descobrimos ‘isto’, ou não fossemos o grande país dos descobrimentos!
E descobrimos mais: que toda esta gente indiciada, e todos os outros que poderiam ter sido mas não foram, seriam incapazes de mexer uma palha que fosse, para interferir com os resultados dos jogos da 1ª Liga ou Liga de Honra, por razões que à partida não são fáceis de compreender, mas que têm afinal uma explicação bem simples!
Porque está em segredo de justiça vou limitar-me a publicar excertos do que consegui apreender, cruzando alguns dados e informações diversas: parece que esta raça de pilha galinhas segue religiosamente a filosofia das vítimas – ‘grão a grão enche a galinha o papo’!
Para grandes operações financeiras, altos empreendimentos, transferências vultuosas, em cheque ou numerário, não contem com eles! Isto é gente com amor à camisola!
É por isso que podem acumular cargos importantes e ser presidentes disto e daquilo sem qualquer risco para o património público e privado!
Mas não era aqui que eu queria chegar. Eu contei-vos toda esta história porque estou preocupado com o desabafo do Major. Se o homem resolve insistir no tema da pedofilia, estou convencido que aquela profecia inicial pode cumprir-se – muita gente vai engolir o apito e os miúdos da Casa Pia ainda vão presos!
Eu se calhar não vou tão longe. Mas admito perfeitamente uma vasta junção de processos, uma vez que há políticos envolvidos em todos eles!
Ora aqui está uma coisa que os portugueses também já descobriram.

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Se Maomé não vai à montanha...

Se eu fosse um desses ‘cartoonistas de Abril’, democratas dos quatro costados, e me apetecesse usar do ‘sagrado’ direito de liberdade de expressão como muito bem entendesse!
Se eu fosse, por minha própria fé, um desses cadáveres adiados, e sem o saber, sacralizasse o poder e a Missão da Igreja Católica na Terra, ao ponto de lhe exigir um comportamento exemplar, na óptica dos valores do Cristianismo e ao mesmo tempo na óptica da minha perspectiva do que deve ser o Cristianismo!
Se eu subordinasse o tratamento das outras pessoas e das outras culturas e credos, aos ‘sagrados’ princípios em que acredito e considerasse como ‘adquiridos’ pelo resto da humanidade um conjunto variado de ‘dogmas civilizacionais’, tais como: o aborto, o uso universal dos preservativos, o casamento dos homossexuais, a eutanásia...as mulheres com a cara e as pernas ao léu, as salas de chuto, o holocausto dos Judeus, a democracia de Abril, e outros enigmas quejandos!
Se por um acaso achasse que Israel pode ter armas nucleares para se defender, e os Estados Árabes não as podem ter, para o mesmo fim!
Se também por acaso, achasse que existe um terrorismo bom e um terrorismo mau!
Se insistisse no erro de considerar Israel um Estado laico, e clamasse contra os Estados Islâmicos, porque não são laicos!
Se entretanto não perceber, sem qualquer êxtase democrático, que as minhas diatribes só são possíveis e ainda não tiveram consequências funestas para a minha pessoa, porque o Imã e o Bispo estão sentados lado a lado, e do mesmo lado!
Se por fim não perceber que a continuar assim temos o caldo entornado e nessa altura, com consequências desagradáveis para todos!
Então, se não percebi nada disto, é porque sou estúpido e malcriado e ainda por cima estou convencido que os outros é que são!!!
Nestas condições não me posso admirar que os humilhados e ofendidos, um dia, percam a paciência!

terça-feira, fevereiro 07, 2006

‘Com este sinal vencerás’

‘Em nenhuma outra coisa confiado, senão no sumo Deus que o Céu regia... a matutina luz, serena e fria, as estrelas do pólo já apartava, quando na Cruz o Filho de Maria, amostrando-se a Afonso, o animava...
Com tal milagre os ânimos da Gente Portuguesa inflamados, levantavam por seu Rei natural...Real, Real, por Afonso, alto Rei de Portugal!
Já fica vencedor o Lusitano
Recolhendo os troféus e presa rica;
Desbaratado e roto o Mauro Hispano,
Três dias o Grão Rei no campo fica.
Aqui pinta no branco escudo ufano
Que agora esta vitória certifica,
Cinco escudos azuis esclarecidos
Em sinal destes cinco Reis vencidos’.

No dia em que a Liturgia recorda as ‘Cinco Chagas de Cristo’ respondo ao apelo e convoco a nossa memória para ‘Ourique’ em sinal de liberdade e Independência!
No tempo ‘em que novos infiéis vencem’, não tenhamos medo nem vergonha de celebrar este ‘encontro com o sobrenatural’, único na História das nações e que marcou para sempre o nosso destino!
‘Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades’, mas o símbolo permanece e identifica – cinco escudos azuis ‘esclarecidos’, formando a Cruz que transportámos nas Descobertas, cinco besantes brancos a lembrarem as Cinco Chagas que o primeiro Afonso reconheceu no campo de Ourique.
‘Com este sinal vencerás’ – foi e é o pacto constituinte que atravessou a nossa História!

sábado, fevereiro 04, 2006

O Jorge das medalhas

Eu vinha do lado do rio e só queria chegar ao estádio do Restelo.
A dificuldade era a travessia do jardim de Belém sem ser visto por Jorge.
Cozi-me com o muro do Palácio e avancei resoluto, mas em vão.
Jorge estava vigilante e intimou-me a receber a medalha! Tentei resistir, encolhi o peito, escondi o pescoço, nada a fazer, no fim de uma curta refrega, acabei a posar reluzente para a posteridade!
Porquê, se não sou rico nem famoso?
Porquê, se não tenciono dar uns parafusos, a quem me comprar as porcas?
Isso está bem para aqueles estrangeiros que juram que gostam de Portugal e dos portugueses desde pequeninos! Mas eu, que sou obrigado a mourejar sem destino neste jardim à beira mar, não vale a pena incomodarem-se comigo.
Amigos como dantes.
Eu até percebo a política mendicante em vigor. Se poucos trabalham, e muitos vivem encostados ao orçamento, alguém tem que pagar a conta.
A troco de quê, é o único problema!?
Será só da medalha?
Duvido.

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

‘Liberdade’

‘Quando entrei na cidade fiquei sozinho no meio da multidão.
Em redor as portas estavam abertas. A multidão entrava naturalmente pelas portas abertas. Por cima das portas havia tabuletas onde estava colada aquela palavra que sobe – Liberdade!
Entrei por uma porta. Entrei como uma farpa!
Era uma ratoeira, Mãe! Era uma ratoeira! Se eu tivesse entrado como uma agulha podia ter saído como uma agulha, mas entrei como uma farpa, fiz sangue verdadeiro, já não me esquece. Aconteceu exactamente. Dei um mau jeito nos rins por causa da ratoeira! Ainda me lembro da palavra – Liberdade!

Mãe! Vou contar-te como foi.
Havia dois vasos iguais. Um tinha um licor bonito. O outro parecia ter água simples. Um tinha a felicidade, o outro não tinha a felicidade. Era à sorte. A casa estava cheia de gente. Ninguém queria ser o primeiro a começar.

Depois, começaram a beber o licor. Diziam coisas felizes! Coisas quentes que enchem a cabeça toda e deixam os olhos escancarados! Eu vi-os, Mãe! Estavam a aumentar a olhos vistos, juro-te! Os que beberam do outro vaso não divertiam ninguém. Iam-se logo embora. E ninguém já se lembrava deles.
Só ficaram os que gostavam do licor. Eu fiquei com estes. Eu também bebi do licor. Não imaginas, Mãe! Nunca subi tão alto! Ainda mais alto do que o verbo ganhar!

Havia uma rã que tinha entrado comigo ao mesmo tempo. A rã também estava a aumentar.
Depois, quando já estava quase do tamanho de um boi, a rã estoirou. Coitada! Como antigamente, em latim.
Então, pus-me logo a escorregar desde lá de cima, até onde eu já tinha amarinhado; desde mais alto do que o verbo ganhar.
A escorregar, a ser necessário escorregar, a querer por força escorregar, a custar imenso escorregar, a fazer doer escorregar, a escorregar. – O verbo desinchar!
O verbo desinchar dura muito tempo. No fim do verbo desinchar é outra vez a terra, cá em baixo’.

Almada Negreiros “ A Invenção do Dia Claro”

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

‘A lembrança das datas’

Quem hoje se cruza comigo na cidade vive este dia com a tranquilidade dos inocentes! E faz bem, mas ninguém está inocente.
O transeunte que me olha, que me pergunta as horas apressado, não sabe que já não tem nada a ver comigo. Respondo-lhe apenas porque falamos a mesma língua, o que resta em comum, mas se me pedir para ir defender a sua terra não irei, nem ele irá defender a minha!
No dia de 1 de Fevereiro de 1908 quebrou-se o ultimo elo que nos irmanava, que nos unia como comunidade pátria, tantas vezes ferida, muitas vezes maltratada, mas nunca antes decapitada. Os tiros que no Terreiro do Paço mataram o Rei, liquidaram-nos como nação livre e independente. E fizeram de todos nós criminosos.
E porque o pecado original também existe em política, ele só será redimido pelo arrependimento colectivo, por um acto público de contrição que ainda não fizemos.
Que ninguém pense que este é um dia de luto para os monárquicos. Bem gostariam que assim fosse os que lucraram e lucram com a situação. Desenganem-se.
Os monárquicos apenas têm consciência da ferida aberta, mas quem tem que a fechar somos todos nós. Com os representantes da nação à cabeça.
Assim fez Boris Ieltsin, em plena Duma, pedindo que a História lhe perdoasse a ele e ao povo russo pelo crime também hediondo perpetrado sobre os Romanoff.
Volto ao princípio, aquele transeunte nem sabe do que estou a falar, e se soubesse, diria que estou doido varrido.
Mas quem sabe do que estou a falar, quem ousou construir o que quer que fosse sobre o crime do Terreiro do Paço, sabe que não há volta a dar, a não ser desfazer o nó que vai sufocando Portugal.
E já é tarde...

segunda-feira, janeiro 30, 2006

Faltam os ossos...

O paradigma mental que subsiste neste Portugal dos pequeninos, tem sido abundantemente dissecado por uma série de génios, mas o diagnóstico enferma quase sempre daquele problema que o direito apelida de ‘parte interessada’.
Com o possível distanciamento, permitido por uma longa oposição ao regime, tento adivinhar o percurso mental que se esconde por detrás da brilhantina:
- Casam-se ‘fontismos’ com ‘progresso’, a propriedade é um mal que convém ter sempre presente, nós fomos grandes apesar dos Reis, e uma bela de uma ditadura nunca fez mal a ninguém! Ainda por cima se assentar nas ‘Lendas e Narrativas’!
Até agora não disse nada, talvez com um exemplo a gente lá chegue:
- O Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais que temos, anda preocupado com a ‘avaliação de 11 milhões de parcelas de propriedades rústicas’, que ‘a despeito de serem propriedades de rendimento tributário baixo’, por uma questão de ‘equidade’ precisam de ver ‘actualizados’ os respectivos valores tributários! Tudo isto por causa dos municípios menos populosos do interior do País, que não beneficiam das taxas de construção...
Já perceberam?
Aquilo empobreceu, os proprietários das courelas tiveram que emigrar para o litoral para sobreviver, logo, há que aumentar os impostos a esses absentistas, porque como diz o ditado – ‘quem não tem dinheiro não tem vícios’!
Neste caso, o que é que descobrimos por baixo da careca?
O ódio à propriedade dos outros, a ditadura do Estado centralizador à boa maneira napoleónica, e finalmente, o pior – a incompreensão entre progresso e desenvolvimento!
Em lugar de semear qualquer coisa para que o deserto deixe de ser deserto, em vez de dar alguma coisa aos que heroicamente mantêm o que lhes foi legado, quer apressar o fim da transmissão.
Roeram-lhes a carne, preparam-se para lhes roer os ossos...

sexta-feira, janeiro 27, 2006

País condicional

O que ouves por essas praças perdidas na cidade? Fala sem rodeios, fiel cavaleiro da desventura.
Majestade, os portugueses continuam divididos, queixosos, recriminam-se uns aos outros, estão descrentes, usam muito aquela palavra ’se’...
Como assim, explica-te!
Por exemplo, dizem que ‘se’ Vossa Alteza não tivesse enxotado o Calatrava, a Galiza podia fazer parte do Condado ou quem sabe do Reino!
Que se não fora aquela rivalidade entre Braga e Santiago... Se aquele Afonso antepassado, não fosse tão feroz com Inês e se pelo contrário, o Formoso fosse mais feroz com Leonor...
E dizem mais:
Se o Condestável não fosse tão forte, se o Príncipe Perfeito não fosse tão perfeito, se tivéssemos conseguido ‘enlaçar a soberba cintura de Castela’, se não tivéssemos perdido o rumo da Índia, se Alcácer não fosse Kibir, se o Desejado tivesse morrido, se D. João VI não tem fugido para o Brasil, se houvesse um D.João VI para ter fugido para Angola...
Se ao menos Castela não nos estivesse a enlaçar pela cintura...
Majestade, é por tudo isto que falam, e ainda dizem que a culpa é Vossa!
E de quem mais poderia ser, cavaleiro!?

quinta-feira, janeiro 26, 2006

‘Os Dramas de Cavaco’

Com a devida vénia, transcrevo um artigo assinado por Tomás Dentinho, Director do Jornal ‘A União’ de Angra do Heroísmo:

“Cavaco Silva ganhou as eleições presidenciais. Muitos parabéns para ele e para os outros candidatos que durante vários meses tiveram de responder ao desenho de campanha eleitoral moldado em grande parte pelos órgãos de comunicação social.
Houve esclarecimento e não é legítimo afirmar que os eleitores desconheciam o pensamento e a forma de estar e de agir de cada um dos candidatos. Sendo assim, fruto da vontade popular, temos um novo Presidente da República.
Vamos a ver se será por cinco anos, por dez anos ou se apenas por um ano e meio. Talvez saia antes do tempo como já fez em 1980, com a morte de Sá Carneiro, e em 1995 antes da vitória de Guterres. Cavaco Silva enfrenta dois grandes dramas. Em primeiro lugar os dramas relacionados com a escolha das pessoas que mais directamente o apoiaram.
Quem vai escolher para o seu Gabinete? Quem vai afastar? Que sinais vai dar aos vários grupos de pressão?
Será que vai escolher uma equipa técnica e da sua confiança, ou vai dar um espaço de intervenção especial à Igreja, aos militares, aos sindicatos, aos empresários, às ordens profissionais, aos jornalistas, aos jovens, às várias curibecas, às várias regiões e aos diversos países. Na verdade, tratando-se de certa forma de uma vitória previsível é natural que os vários interesses se tenham acomodado junto do provável vencedor. Será que Cavaco Silva sabe o que representam ou tem-nos apenas pela sua competência técnica?
Quem irá escolher não é inócuo e é bom que a comunicação social esteja atenta à formação do Gabinete porque certamente será uma espécie de governo sombra ou luz do actual governo. Em segundo lugar Cavaco Silva tem de enfrentar os problemas do país e de todos nós. Aliás não terá sido eleito por qualquer outra razão. A crise da competitividade externa e os problemas das finanças públicas, as complexidades da segurança social e os traumas do sistema jurídico, as hesitações face à Europa e os desafios da globalização.O que é preciso fazer é mais ou menos óbvio. É necessário emagrecer e dar produtividade ao Estado. É urgente atrair o investimento estrangeiro e dar garantias ao investimento nacional. É crucial melhorar a educação e a investigação científica. O Governo sabe disso mas os passos que tem dado são manifestamente insuficientes. Será que a eleição de Cavaco Silva vai garantir e estimular reformas mais efectivas. É provável. No entanto, se Cavaco Silva se colar muito às reformas urgentes é natural que uma grande parte do país reaja negativamente contra ele e contra o Governo. Neste caso o papel de árbitro de Presidente da República passará para segundo plano e agravar-se-ão as divisões dentro do país. Se assim for o mandato termina dentro de um ou dois anos. Resta contudo o exterior. É face ao exterior que se ganha competitividade. É com o estrangeiro que se ganha investimento.
É com os outros países que se clarifica a Europa e se define o nosso papel na globalização. E se assim for o principal parceiro do Governo de Cavaco Silva não é José Sócrates mas sim o centrista Diogo Freitas do Amaral.
Estranhezas do regime.”

Jornal ‘A União’ de Angra do Heroísmo, em 23 Jan.2006

segunda-feira, janeiro 23, 2006

A noite eleitoral

A previsão mais certeira sobre os resultados eleitorais foi dita no fim da Missa de Domingo a que assisti.
O Padre celebrante já se despedia dos fiéis quando olhou o relógio e comentou: - “já passa das oito, Almada está em silêncio, não se ouvem carros nem buzinas, parece que o ‘Benfica eleitoral’ não está a ganhar...”!
O Padre nunca o admitiu, mas eu sei que ele também é...do Belenenses!
De facto, no caminho de casa, ao atravessar uma Almada emudecida, não pude deixar de fazer a seguinte pergunta à minha memória: - será que, depois de trinta anos, a ‘maioria silenciosa’ conseguiu chegar a Belém?!
A resposta obtive-a quando cheguei junto do pequeno ecrã, não apenas pela clareza dos números mas principalmente pela expressão tristonha de todos os participantes, fossem os envolvidos, fosse a envolvente!
Quanto à envolvente, fixei-me na TVI por uma série de razões: - estava lá a Manuela Moura Guedes, com quem simpatizo, porque diz tudo o que lhe vem à cabeça, mas com uma enorme generosidade. Para além disso, Manuela torna-se indispensável quando uma das pessoas convidadas é a Ana Drago. Com uma marcação impiedosa Moura Guedes ‘secou’ aquele perigoso ‘repuxo de jardim’ que nunca nos deixa beber àgua sossegados!
Estavam também a Constança em despique com o Miguel Sousa Tavares, os discretos Ruben e Inês Pedrosa, o economista Borges, e a combativa Maria José Nogueira Pinto que, de vez em quando, era maltratada pelo pivot de serviço!
Se me perguntarem sobre o que é que discutiram durante toda a noite, respondo que não sei. Percebi apenas que ninguém estava contente!
Já no que respeita aos envolvidos, era relativamente fácil de adivinhar quem estava mais zangado. Sem dúvida, Soares e Louçã, afinal os grandes derrotados da noite. Por coincidência, era nas respectivas sedes de candidatura que os aplausos eram mais frenéticos!
Os discursos também não enganam: - Louçã, com os 300 mil votos que obteve, vai avançar para a ‘política de solidariedade’, a expressão é dele, que já conhecemos – aborto, casamento de homossexuais, eutanásia, e...mais emprego com menos trabalho!
- Soares, também muito aplaudido, não estava bem. Chamado à última hora para apagar os fogos do regime, parecia desconfortável nesse ingrato papel.
Dos outros ficámos a saber que Jerónimo ganhou bem o seu jogo particular com o Bloco de Esquerda, que Garcia Pereira precisa de trezentos portugueses para descobrir um que simpatize com o MRPP (!), e que Alegre acabou por ser derrotado ‘por umas décimas’, fim de citação.
Por último, o primeiro, o cartaginês de Boliqueime, que conseguiu derrotar o Império! Não foi tarefa fácil e sabemos que o mais difícil está para vir.
Pois é, o número de ilusionismo do costume vai continuar a não funcionar: - ‘serei o Presidente de todos os portugueses’!
Era preciso que os derrotados deixassem ou que os vencedores quisessem, o que é a mesma coisa.
Por isso é que a guerra civil recomeça amanhã, ou hoje mesmo.

domingo, janeiro 22, 2006

PORTUGAL

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
Linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
Jerico rapando o espinhaço da terra,
Surdo e miudinho,
Moinho a braços com um vento
Testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
Se fosses só o sal, o sol, o sul,
O ladino pardal,
O manso boi coloquial,
A rechinante sardinha,
A desancada varina,
O plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
A muda queixa amendoada
Duns olhos pestanítidos,
Se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
O ferrugento cão asmático das praias,
O grilo engaiolado, a grila no lábio,
O calendário na parede, o emblema na lapela,
Ó Portugal, se fosses só três sílabas
De plástico, que era mais barato!

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
Rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
Não há ‘papo-de-anjo’ que seja o meu derriço,
Galo que cante a cores na minha prateleira,
Alvura arrendada para o meu devaneio,
Bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.

Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
Golpe até ao osso, fome sem entretém,
Perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
Rocim engraxado,
Feira cabisbaixa,
Meu remorso,
Meu remorso de todos nós...

Alexandre O’Neill (1965)

sexta-feira, janeiro 20, 2006

Souto Moura entre os pigmeus

A Comissão de Direitos, Liberdades e Garantias da Assembleia da República conseguiu parte dos seus objectivos.
Obrigar Souto Moura a explicar-se, no seu território, sobre a última ‘inventona’ jornalística, que como se sabe se destinava a comprometer o processo da Casa Pia, e, se possível, baralhar as eleições presidenciais.
Mas a coisa correu muito mal para os deputados e explicou de certo modo, porque é que é tão difícil afastar Souto Moura!
Ele foi o Vitalino Canas e o seu longo intróito que ninguém percebeu, ele foi o Nuno Melo preocupado com os rabos de palha do seu partido, ele foi a Ana Drago armada em esperta, ele foi o Filipe, e o outro, e também o outro da voz grossa, a dizer enormidades! A Maria de Belém nunca falta, aquilo estava cheio!
Durante quatro horas Souto Moura explicou, demonstrou e ensinou, sempre com clareza, sempre com competência, sempre educado!
E confirmámos as nossas previsões – a coisa está preta!
Mas esta audição acabou por ser útil! A diferença de nível entre o Procurador e aqueles ‘representantes do povo’ é abissal!
Eleitos através de listas partidárias, que por sua vez são escolhidas pelos aparelhos dos vários partidos, não têm qualquer ligação com os representados, são meros burocratas da política que não servem para nada.
Se não existissem, se ficassem em casa a ver telenovelas, Portugal progredia de certeza.
E já me esquecia de vos contar – estava lá aquela jornalista, a Felícia Cabrita, a que despoletou o processo da Casa Pia, lembram-se?
Com um sorriso enigmático!

quinta-feira, janeiro 19, 2006

Sobre as Presidenciais

Quando eu era pequeno veio visitar-nos a Rainha de Inglaterra.
Isabel II foi recebida com entusiasmo pelo povo de Lisboa e com o devido respeito pelo Presidente da República de então, General Craveiro Lopes.
Pensando hoje nesse episódio posso afirmar o que na altura apenas pressentia – o efectivo desequilíbrio de forças entre as duas nações aliadas, acentuava-se naquele confronto de representantes. O povo de Lisboa sentiu decerto o mesmo – estava ali a Inglaterra ao lado do Presidente da Republica Portuguesa, nome demasiado comprido para tão curta representação!
O tempo entretanto passou e passaram também pela Presidência da República, a seguir a Craveiro Lopes, Américo Tomás, Spínola, Costa Gomes, Ramalho Eanes, Mário Soares, Jorge Sampaio e... o próximo! E mais seriam se não tivessem havido reeleições!
Mas a Rainha de Inglaterra é a mesma!
Neste trânsito político, quantas feridas abertas, quantas divisões, quantos golpes, quanta instabilidade... afinal tudo ao contrário do que prometem e anunciam os actuais candidatos!
E eu pergunto: - em nome de quê, ou por alma de quem, vamos continuar a dar tiros nos pés?

quarta-feira, janeiro 18, 2006

PÁTRIA

Foste um mundo no mundo,
E és agora
O resto que de ti
Já não posso perder:
A terra, o mar e o céu
Que todo eu
Sei conhecer.

Foste um sonho redondo,
E és agora
Um palmo de amargura
Retornada.
Amargura que em mim
Também nunca tem fim,
Por ter sido comigo baptizada.

Foste um destino aberto,
E és agora
Um destino fechado.
Destino igual ao meu, amortalhado
Nesta luz de incerteza
E de certeza
Que vem do sol presente e do passado.

Miguel Torga
Coimbra, 28 de Abril de 1977

terça-feira, janeiro 17, 2006

A alma deles

Segunda-feira, noite de ‘prós e contras’, discutia-se a alma da Pátria!
Com os ateus em larga maioria, o diálogo estava inquinado à nascença, já que a expressão ‘alma’ é para eles tudo – hino, bandeira, Figo, sardinha assada – menos alma!
Neste aspecto houve participantes que excederam as melhores expectativas! Clara Pinto Correia, por exemplo, cheia de alma e sem qualquer cerimónia, levou-nos para a intimidade da sua casa, dos seus filhos, dos seus casamentos, do seu candidato, e tudo isto com o maior respeito pelo hino. Imagine-se que até obrigou os filhos a irem a pé a Fátima, porque é importante. Nesta altura a Fátima em pessoa sentiu-se interpelada e achou por bem cortar-lhe a palavra, mas não conseguiu.
Clara Pinto Correia ainda tinha que nos fazer uma revelação – a alta cultura vai acabar com ela, no melhor sentido da expressão!
Nandim não aceitou a catástrofe e lembrou que os portugueses tinham inventado a ‘via verde’! E não se ficou por aqui – quando se reconhecia que os países mais desenvolvidos da Europa eram monarquias, Nandim reagiu lembrando-se dos Estados Unidos, como poderia ter-se lembrado da China. Só para contrariar! Mas concedeu a existência de um monárquico no Conselho de Estado! Supõe-se que para presidir!?
Estavam também dois jovens com visuais opostos: um de fato e gravata, da área do marketing, que disse que os portugueses são saloios o que não me pareceu mal, e outro, na linha do semi-prec, que me fez lembrar a Ana Drago, mas mais alto e com barba. Deve sentir-se um génio e disse umas vacuidades.
Para a segunda parte Fátima Campos Ferreira ameaçou com a ‘representação da alma Lusitana’! Foi o bom e o bonito. Os republicanos ali presentes tentaram em desespero de causa construir um impossível super-homem. O pobre presidente seria o resultado do cruzamento da força de um novo Hércules com a beleza da nova Cleópatra!
O jovem do marketing esteve bem outra vez e disse que isso não ía resultar!
Por obra e graça do Espírito Santo, a noite foi salva pelas brilhantes intervenções do professor Adelino Maltez que conseguiu conquistar, não digo a compreensão dos restantes, o que era pedir muito, mas ao menos algum silêncio! Nesse silêncio regenerador coube ainda a memória viva do Padre Colimão sobre a passagem dos portugueses pela Índia, bem como os esforços desesperados da moderadora para trazer para a discussão a palavra proibida – El-Rei!

segunda-feira, janeiro 16, 2006

‘As quatro repúblicas e a monarquia’

No horizonte dos séculos, ou dos milénios, da História de Portugal, estes quinze dias de campanha febril não são coisa nenhuma. Mas em tão pequeno tempo, burocraticamente determinado e medido, quantas paixões, quantos anseios, quantos ódios ficam bem abertos e tão mal fechados…
Na perspectiva do pensamento político, o melhor comentário desta corrida alucinante pertence ao duque de Bragança, na conferencia de imprensa dada na véspera do 1º de Dezembro, quando já se sentia por todo o País o cheiro a chamusco, e lhe perguntaram pela proximidade a que se situava de cada um dos quatro candidatos. Dom Duarte de Bragança respondeu soberanamente, que a todos permanecia equidistante. Em nenhum votaria, por ser o representante dos reis de Portugal. Mas nenhum considerava indigno de receber o voto de cada português monárquico.
Para muitos milhares de portugueses, vive-se, nestes dias, uma hora grande. Aqueles para quem a república não é apenas um artifício jurídico ou uma ideologia, nascida (e quase logo morta) nos últimos anos do século XVIII – esses que sinceramente participam no drama comunitário, e sofrem e gozam com as vicissitudes da pátria –, esta eleição presidencial aparece como momento alto de convivência, sinal e anúncio de uma existência mais digna, e até modelo de paixão colectiva.
Para mim, monárquico que nunca se conheceu republicano, nada custa reconhecer uma certa grandeza neste fervor de cidadania. Mestres meus, entre os maiores, um Pequito Rebelo, um Fernando Amado, um Rolão Preto, prestaram homenagem ao espírito republicano (ou democrático) tantas vezes expresso ao longo da História contemporânea de Portugal. E a maior lição de Paiva Couceiro foi a sapientíssima suspensão de juízo com que enfrentou os destinos, olhos atentos à vontade popular.
Cada república, das quatro que se reclamam da verdade e do todo, cada república parece erguer-se com o esplendor e a glória da Monarquia. A nenhuma falta – dir-se-ia – a capacidade para se arvorar em totalidade. A bandeira, o emblema, o simples nome agitado ao vento – nada se prende na dimensão individual de cada um dos candidatos. Quase que o mundo é pequeno (como diria o padre António Vieira) para este humaníssimo desatino…
A sabedoria das nações, que é feita de tempo e espaço, mas também de carne, sangue vivo e espírito, saboreia (como lhe cumpre) essas multiformes tentativas de reconstruir a unidade, cada qual partindo de um canto estreme do real.
Como já alguém observou, a candidatura mais próxima, não propriamente do ideal da realeza mas da realeza como abstracção, é provavelmente a de Francisco Salgado Zenha, de tal modo ele surge independente da opinião, gerado (como candidato à Presidência) no mistério e numa espécie de fatalidade intrínseca; por outro, inpenitentemente circunscrito aos trâmites constitucionais, gravemente embalado no prestígio da lei; e, ainda, definido como sucessor. Não fora a estranha (alheia ao próprio candidato?) obsessão de se apresentar como fautor, por artes ignoradas, de uma Nova Democracia e de uma Nova República, e Salgado Zenha seria, de algum modo, o mais próximo avatar do rei constitucional. Falta-lhe, porém, embora “homem de palavra”, a verdade de tudo isto.
Aparentemente da mesma origem ideológica, mas a milhas de distância no que diz respeito à invenção da candidatura, Mário Soares aparece, com certeza, como o mais natural de todos os candidatos, não apenas efectivos mas possíveis. Ninguém como ele está e esteve sempre no interior do processo, quer na sua preparação longa e trabalhosa, quer na sua expressão, generosa e oscilante, quer ainda nos seus limites, exasperantes e ao mesmo tempo esperançosos. Na sua insegurança, dir-se-ia perpassar a promessa da segurança. Na sua bonomia facilmente caricaturável anda talvez a garantia de uma certa firmeza. Da imagem tradicional do rei, fica-se ao nível de Dom Luís. Mas já não é mau. O homem das mil promessas, desta vez nada promete. Esperava-se por ele: limita-se a aparecer. Vem de várias esquinas da História. Nem sempre se poderá louvar o que fez ou deixou fazer. Mas não há dúvida de que é Mário Soares. E já é alguma coisa.
Diogo Freitas do Amaral, o candidato evidente para quem já se esqueceu de que, há cerca de um ano, declarou rudemente que não seria candidato, é tão infinitamente superior a qualquer outro em ciência jurídica e em teoria do Estado que nem valeria a pena abrir um processo eleitoral se a questão das questões fosse, efectivamente, a da preparação universitária, a da visão geral das coisas, a da rapidez e segurança das respostas académicas a qualquer problema de administração pública. Presidente de todos os portugueses (com excepção dos Vizelenses), Freitas do Amaral passeia pelo País as suas lembranças vivas de grandes mortos. (Aqueles de quem fala e aqueles em quem se pensa.) Há, na sua campanha e sobretudo na sua candidatura, uma perfeição que também evoca a monarquia, mas uma monarquia a que se houvesse extraído, num golpe de altíssima e triste cirurgia, a marca do espontâneo, a origem popular, a simbologia. Inesperadamente, o candidato de tantos monárquicos sinceros (e de todos os não sinceros) adianta um projecto global de Nova República. Falta-lhe a Nova Democracia para ser igual a Zenha. Mas é, pessoalmente, um democrata rodeado, não direi de anti-democratas, mas de abundantes ademocratas. Discípulo de Raymond Aron, tem um modelo como estadista: Fontes Pereira de Melo. A monarquia constitucional parece prestes a reviver, com ele, uma experiência cinzenta, ameaçada de tensões brutais.
Ao lado ou em frente destas três candidaturas do stablishment, o nome e a voz, o sonho e a vontade de Maria de Lurdes Pintasilgo podem trazer, sem saudade, o melhor da tradição portuguesa e cristã. Rodeada de alguns que dela apenas compreendem o (aparente) antipartidarismo, ou a política um tanto ou quanto caseira, a verdade é que Lurdes Pintasilgo parece a única personalidade capaz de tocar em todos os temas escaldantes das ideologias contemporâneas com criatividade eficaz e sem obedecer a pautas registadas em manuais. Daí o espanto e o medo que provoca nas hostes comunistas oficiais: dir-se-ia que esta mulher cristã e desempoeirada se prepara para arrebatar ao PCP a parcela melhor dos seus militantes. O que ameaça, afinal, o seu belo projecto é exactamente a ideia singular (já de vários modos anotada por amigos e adversários) de fazer a partir da Presidência da República essa revolução.
Das quatro “repúblicas” que se perfilam no horizonte português e se olham e medem de soslaio, é certamente a última aquela que mais positivamente pode contribuir para o Portugal monárquico que o futuro exige. Mas esta candidata é intelectualmente contemporânea de Platão; para ela, Aristóteles ainda não nasceu…Distinguir entre Estado e sociedade civil, entre a pólis e a família (conforme muito oportunamente lhe observou Freitas do Amaral) parece estar fora do entendimento desta mulher sem dúvida inteligente e culta. Cabem também na monarquia quer a paz social que Mário Soares promete e directamente procura, quer a ideia clara de um verdadeiro Estado forte, alimentada e pregada por Freitas do Amaral, quer ainda a única invenção de Salgado Zenha – essa um tanto utópica transparência da administração pública, talvez necessária para acabar de vez com o regime republicano.
Nas vésperas de uma eleição que directamente, como militante monárquico, me não diz respeito, mas que não posso deixar de sentir e viver como português que antes de tudo sou e para quem estão mais próximos os republicanos portugueses que os monárquicos espanhóis ou ingleses, apenas desejo que os portugueses não tenham de sofrer muito mais desastres e desilusões antes de se convencerem, por um acto sereno de inteligência, que tudo quanto é autenticamente republicano tem lugar em monarquia.

HENRIQUE BARRILARO RUAS
(As Presidenciais - DN Opinião de 24 de Janeiro de 1986)

domingo, janeiro 15, 2006

Estorvo ou álibi?

Se calhar nem uma coisa nem outra! Ninguém sabe!
Souto Moura é por certo uma pessoa séria, civilizada, vê-se à distância. Por azar, por carreira, por uma natural ambição, achou-se a servir a República na hora errada em que alguém, inadvertidamente, abriu a ‘caixa de Pandora’ onde repousavam os pequenos segredos, os grandes delitos, até os vícios privados, desta família siciliana que nos governa. Para ser mais correcto, são duas famílias, mas com um ascendente comum.
O problema são os vícios privados!
Que não são assim tão privados porque a família sente-se dona disto e usa e abusa daquilo a que chamamos Estado à sua vontade! Deu-lhes tanto trabalho a conquistá-lo, (aproximadamente oito séculos), era só o que faltava se agora não o pudessem utilizar de acordo com os seus desígnios!
Mais um problema, portanto, para Souto Moura.
A família está apesar de tudo aflita! O termo é desesperada! Trocavam bem os negócios, a Chefia de Estado, tudo o que fosse possível, pela inexistência, supressão, abafamento desse maldito processo da Casa Pia.
E não olham a meios – inventam tenebrosas listas de escutas, disparam para todos os lados, põem em risco a própria segurança do Estado, do seu Estado, na secreta esperança de que surja uma solução que eles ainda não têm!
À falta de melhor, toca de atirar culpas para cima do Procurador!
É neste filme de terror que têm que ser analisadas as declarações irresponsáveis de Mário Soares – ‘é preciso acabar com as escutas’!
Então vamos acabar com as escutas por causa da Casa Pia? O País pode ficar a saque, não vá descobrir-se que na família existem pedófilos? Já avisaram os terroristas que tencionam acabar com as escutas?
Perderam a cabeça! Manter ou demitir Souto Moura é igual!
É a reputação da família que está em causa.
‘O resto é bilros’.

quinta-feira, janeiro 12, 2006

‘El-Rei no Porto’

Quando as milícias do Vieira já controlam o aeroporto de Lisboa!
Quando o primeiro-ministro investe todas as poupanças no Benfica!
Quando os socialistas, mais ou menos poéticos, ameaçam a Chefia de Estado!
Quando, finalmente, um imprevidente trotskista frequenta os camarotes da Luz!
A ficção pode tornar-se realidade. Isto sem falar no seguidismo da Imprensa!
Fernando Venâncio nunca teria imaginado tal concurso de circunstâncias, porque se assim fosse, o seu ‘El-Rei no Porto’ não seria uma obra de ficção mas uma profecia.
Recordemos o enredo: - No rescaldo de umas eleições presidenciais, o Norte, sentindo-se ludibriado, na política e no futebol, separa-se e proclama a monarquia.
O Sul mantém-se laico, republicano e socialista.
No País dividido, existe um jornalista apaixonado, uma mulher do sul, e um triângulo amoroso. O Rei do Norte acaba por conquistar o troféu.
Referi-me ao livro, mas a realidade não anda longe!
Os factos acima descritos conjugados com o resultado das próximas eleições, podem fazer descambar a situação. Na melhor das hipóteses seremos apanhados na terra de ninguém, nalgum abrigo precário, num cenário tenebroso – o Sul estará infestado de bandos de aves de rapina e leões famélicos, ainda por cima socialistas.
É obrigatório ter um plano.
O paralelo de Rio Maior costuma oferecer alguma segurança, a coberto das célebres ‘mocas’, já utilizadas com êxito noutras ocasiões, e contra os mesmos infiéis! Lá terá de ser outra vez.
Para um monárquico belenense ou belenense monárquico, como queiram, não existe alternativa. É preciso rumar a Norte, e dali esperar um sinal, o ramo de oliveira, que anuncia o fim do dilúvio verde e encarnado.
Saga bem difícil de imaginar! Mas existem destinos piores!
Quando me lembro daqueles que sempre aspiraram viver num País civilizado, mas em virtude (ou será defeito?) dos símbolos e das cores que escolheram, vão ter que continuar a vegetar numa democracia popular, ao velho estilo soviético...até me dói o coração!
E a monarquia aqui tão perto!...

terça-feira, janeiro 10, 2006

Sinais de mudança

Há qualquer coisa a mover-se na política portuguesa.
Ignorado pelos ‘media’, o recente Congresso da Causa Real encerrou com um frente a frente entre monárquicos e republicanos, que a avaliar pelos relatos de alguns dos intervenientes, decorreu sob o signo da elevação e da seriedade! Dois aspectos, que para já, destoam da crispação e mera propaganda em que sempre recaíram anteriores confrontos.
Não houve portanto vencedores nem vencidos entre os oponentes, três de cada lado, que ali foram esgrimir argumentos a favor da sua Dama. Pelos monárquicos estiveram Gonçalo Ribeiro Telles, Mendo Castro Henriques e Adelino Maltez, enquanto que as hostes republicanas eram representadas por João Soares, Nandim de Carvalho e Manuel Monteiro.
Deixando por agora de parte os aspectos mais concretos deste curioso e interessante debate, a que repito, não assisti, gostaria no entanto de chamar a Vossa atenção para alguns dos sinais que julgo pressentir, na minha qualidade de peregrino deste longo Interregno:
Em primeiro lugar uma constatação: o regime republicano começa a sentir que não tem capacidade nem condições para defender o interesse nacional, mais própriamente, a independência de Portugal. Há muito que percebeu que a União Europeia a que temos direito se chama União Ibérica, e já não consegue iludir a questão.
O episódio da Iberdrola, o desespero da Ota e do TGV, buscando no contexto meramente Europeu, um equilíbrio impossível com a Espanha, é sintoma dessa desorientação e incapacidade.
A situação não é nova. Temos vindo aqui a alertar que a história se repete, que a Independência de Portugal foi um tremendo acto de vontade e coragem, que exigiu e continua a exigir muitos sacrifícios. Os portugueses já vacilaram nessa vontade, já se arrependeram, mas como a memória dos povos sofre das mesmas limitações que a dos indivíduos, cá estamos nós outra vez confinados à palavra (ou será ideologia?) ‘Europa’ e à natural dependência de Madrid.
A monarquia poderá superar ou resolver esta questão?
No citado frente a frente, parece que todos concordaram, alguns por exclusão de partes, que o Rei e a Dinastia, têm melhores condições para defenderem a Independência Nacional.
No ar terá ficado apenas uma objecção e uma dúvida.
A objecção democrática de que qualquer português tem o direito a ser Chefe de Estado. A dúvida sobre o caminho ou o método para restaurar a Monarquia.
Quanto à objecção, vale a pena dizer o seguinte: foi precisamente por causa desta possibilidade teórica que permite que qualquer cidadão aceda à Presidência da República que a Monarquia sucedeu à República e se impôs históricamente. A prática revelou-se melhor que a teoria.
Quanto ao método restauracionista, existem muitas teses, mas por aqui venho defendendo a teoria, mas principalmente a prática da remissão da culpa: - quem fabricou este nó górdio que enreda o Pais há noventa e cinco anos, tem agora a obrigação e o dever patriótico de o desfazer. Caberá aos republicanos restaurar a monarquia. Como?
Colocando o seu peso político, quem o tiver, ao serviço da Pátria.
É simples, basta ter vontade.

sexta-feira, janeiro 06, 2006

Dia de Reis

Neste dia em que a tradição Cristã celebra a chegada dos Reis Magos junto do Presépio, não faz mal recordar um Príncipe Católico do nosso tempo, que durante a sua vida deu testemunho em defesa da vida.
A história é conhecida, mas pouco valorizada e percebe-se porquê:
- Em 1990, o Rei dos Belgas surpreendeu o Mundo ao abdicar por um dia, recusando-se assim a assinar a legalização do aborto no seu País!
Com esse gesto de natureza simbólica, aparentemente inútil, Balduíno expressava a vontade de não ceder à violência do sufrágio universal, erguido como dogma nas sociedades que se julgam livres, mas onde todos os dias se acumulam sinais de dependência.
O Rei não soube nem quis distinguir entre a sua consciência e a consciência da nação. A vida dos seus súbditos, os mais frágeis de todos, estava na sua mão, e por isso não assinou!
Outros o fizeram. Mas os belgas, que na véspera haviam votado contra si próprios, decretando a pena capital para os seus filhos, entenderam a renúncia do Rei como uma espécie de redenção política, que talvez os livrasse do juízo da história. E amaram-no também por isso.
Só que a história não costuma perdoar.
Os arautos da morte falharam a presa, mas a guerra ìa prosseguir.
De então para cá, como numa vertigem, temos vindo a assistir, impotentes, completamente amordaçados, à derrota das consciências, à contrafacção dos valores, ao triunfo do egoísmo e da violência.
A agenda da ‘besta’ aí está para o provar: a seguir ao aborto, temos o casamento dos homossexuais, a legalização da eutanásia, da pedofilia, da bestialidade...
E tudo dentro da maior legalidade, com a Constituição sempre presente! O sufrágio universal, há muito capturado às maiorias ocasionais e acéfalas, é o instrumento perverso de que se servem estes grupos minoritários para obterem os seus fins.
Esta gente não gosta de Balduínos ou de quem lhes ofereça resistência em nome de valores éticos ou religiosos. Mas é por aqui que passa a resistência possível.
Nos dias de hoje já não basta ter razão, é preciso tomar posição.
É nesta perspectiva que a renúncia do Rei dos Belgas ganha outra dimensão, adquire a sua verdadeira grandeza.
Balduíno abdicou por um dia, mas nem por um dia abdicou das suas convicções religiosas. A artimanha da separação da Igreja do Estado não o podia convencer. Ele sabia, como qualquer católico sabe pelo Evangelho, que a passagem de Cristo pela Terra se cumpriu entre a Anunciação e o Calvário.
A esta luz, o seu gesto é indestrutível.

terça-feira, janeiro 03, 2006

O outro discurso

Aquele que será dirigido aos ‘grandes eleitores’, em bom recato, longe dos holofotes e das câmaras de televisão.
Como não vou poder estar presente, deixo à minha e à Vossa imaginação a tarefa de adivinhar o teor desse discurso. Não deve andar muito longe disto:
- Portugueses que me elegeram: - nestes dez anos de exercício que agora terminam, fiz o que faria qualquer Presidente de um Conselho de Administração perante os seus accionistas – garanti os vossos dividendos. Não a todos porque não é possível, os pequenos accionistas vão ter que aguardar por melhores dias.
Já no que toca aos trabalhadores, podemos ficar descansados. O nosso Primeiro se encarregará de lhes pedir os sacrifícios que a situação exige.
Quero dizer-vos que desempenhei o cargo num contexto particularmente difícil, num País que mantém características pouco recomendáveis: os portugueses são maioritáriamente católicos o que dificultou a implementação de algumas medidas contrárias à Fé que professam, sem esquecer a pesada herança colonial originada pelos descobrimentos.
No capítulo interno ergui o futebol como desígnio nacional, propiciando um notável surto de obras públicas que muito beneficiaram os nossos maiores accionistas. E já que falamos em obras públicas, trabalhei em prol de uma boa solução para a Casa Pia, processo que vem ameaçando o nosso bem-estar e o próprio regime em que vivemos.
Mas nem tudo foram rosas. Tive de facto alguns problemas com os primeiros-ministros que não eram da cor, mas nada que eu não tenha resolvido a contento. Por fim, e já na qualidade de biombo, verdadeiro clímax dos poderes presidenciais, deixei passar, entre outros bons negócios, a OTA e o TGV. O que quer dizer que vai haver obras com as naturais derrapagens.
Na política externa não me vou alongar. Seguimos o figurino tradicional, protestamos cá dentro e cumprimos lá fora. Para os que estão menos familiarizados com os negócios estrangeiros, resumo a situação num conhecido ditado popular – enquanto há mesada, há esperança.
Não gostaria de terminar, sem fazer referência ao próximo acto eleitoral que irá designar quem me vai substituir neste cargo. Existem neste momento riscos acrescidos, nuvens que se adensam sobre o futuro do regime, e duas incertezas no horizonte – a Casa Pia e o cheque da União Europeia. Convinha por isso que o eleito já conhecesse os cantos à casa. Mas esse aspecto não é decisivo, como sabem.
Decisivo, é que os pequenos accionistas e os trabalhadores continuem convencidos que eu sou eleito por eles e não por vós. Se tiverem dúvidas, ou quando começarem a ter dúvidas será o nosso fim.
Um Bom Ano para nós.

segunda-feira, janeiro 02, 2006

Mais do mesmo

Confesso que me custa imenso aguentar aquele discurso redondo, adjectivado e palavroso do Presidente Sampaio. Ouvi, por ser o último e por uma questão de decência, para o poder criticar.
É difícil criticar a vacuidade, mas existe ali uma estratégia tão repetitiva, tão mesquinha, tão estúpida, que um monárquico tem a obrigação patriótica de a denunciar. Vamos por partes:
- O Portugal Democrático versus Estado Novo – a descolonização possível por culpa do Estado Novo; a descolonização possível por culpa de haver colónias; por causa da escravatura; dos descobrimentos; etc.
O que correu mal por causa do PREC. Esqueceu-se do jovem Sampaio do PREC?
Timor, idem, idem, aspas, aspas.
- O Portugal democrático versus União Europeia – o que está a correr mal por culpa da União Europeia; porque a Europa já não é o que era; porque não há alternativa à Europa; temos que ajudar a Europa a continuar a ser a Europa que nós queremos que seja; porque nós estamos com a democracia e a razão; e estamos com a Paz (aonde?); esta situação é a mais difícil desde que optámos pela Europa. Saliente-se o esforço patriótico deste Governo que conseguiu garantir a mesada, por não se sabe quanto tempo.
- O Portugal Democrático versus Europa e Estado Novo – nada disto nos estaria a acontecer na Europa se o Estado Novo tivesse sido uma democracia, como a 1ª República, por exemplo; se o Afonso Henriques tivesse sido um democrata; se Portugal não existisse; queria saudar especialmente os nossos emigrantes... e garantir-lhes que hoje Portugal é um País respeitado no Mundo; hoje, nas nossas maternidades, nascem finalmente bebés laicos republicanos e socialistas.
Apesar de todas estas dificuldades, o prestígio da Presidência da Republica é um facto reconhecido por todos os portugueses, por todos os indicadores!!!
Com um ou outro exagero, este é o resumo possível do discurso de Ano Novo do nosso Presidente.
Convenhamos que é curto.

domingo, janeiro 01, 2006

Votos para 2006

Das doze badaladas só me lembro de cinco passas, as outras devo ter engolido à pressa, ou então são repetidas. As cinco de que me lembro, aliás, também são repetidas. Só sei que ando a comer passas há uma data de tempo, e nada.
Recapitulemos, porque os meus desejos até são simples – haja saúde, o euro milhões, aquele manequim estrangeiro que aparece muito na televisão, a monarquia... e que o Belenenses seja campeão.
Mas só agora reparo que tudo aquilo que tenho vindo a pedir, ano após ano, cheio de esperança, não tem nada a ver com os votos! O título deste texto está errado. Senão vejamos: tirando a saúde, que prefiro entregar à Divina Providência, não vá o Governo começar a preocupar-se muito comigo, quer o euro milhões quer o manequim, ainda não fazem parte da Constituição, e não estão por isso, felizmente, sujeitos ao sufrágio universal!
Já no que respeita ao Belenenses a coisa não é tão líquida. Sabemos que o futebol é um desígnio nacional e sendo assim, os resultados não podem estar à mercê da bola que entra ou não entra, isto tem que ter regras, ter a segurança do voto. Será talvez por isso, graças ao sistema dos votos, que eu vejo sempre as mesmas caras, que os donos da bola são sempre os mesmos. Começo a perceber que o problema do Belenenses e dos outros clubes mais pequenos, não é só uma questão de ponta de lança. Vou ter que comer mais passas.
Falta a monarquia, uma aspiração que também tem pouco a ver com votos. Mais, estou convencido que quanto mais votos, pior. Por aqui mandam os donos do sufrágio, os mesmos que estão a organizar o próximo leilão que vai escolher o chefe republicano e que segue a regra de qualquer leilão – será arrematado pela melhor oferta. Não entro nesse jogo. Vou ter que passar.
Estão-me ali a fazer sinais...não sabia que estava em directo! O quê?
- O Belenenses e a monarquia não interessam a ninguém?! Querem que eu diga a frase...e toca a andar?!
Pronto, a frase é a seguinte – desejo a todos um Ano cheio de propriedades... e se o Belenenses fosse campeão não se perdia nada. Quanto à monarquia... Corta. Corta.
Um Bom Ano.