sábado, agosto 26, 2006

“Sobre o nosso entendimento dos deveres do Estado”

“O Estado existe, não para proteger os vícios pessoais, mas para promover o bem de todos, porquanto o seu dever mais elevado está ligado justamente ao preceito da caridade: ajudar os débeis, defender os oprimidos, fazer o bem àqueles que vivem em dificuldade (...). A ordem natural baseia-se sobre o extermínio recíproco ou, no melhor dos casos, sobre uma mútua limitação dos homens. A ordem moral é baseada na recíproca solidariedade e a expressão primeira e mais simples de tal ordem é a ajuda gratuita, a beneficência desinteressada.”

Vladimir Soloviev

“...O mundo inteiro indiferente com a desgraça daqueles dezanove anos. O primeiro dever da civilização é evitar que fiquem os desgraçados pelo caminho!
Os desgraçados são a vergonha da humanidade, são a desonra da civilização!
Mas a vida passava-se lá muito acima disto tudo, ocupada com a vida de todos, indiferente á vida de cada um.”

Almada Negreiros


Salas de chuto

“Parece ser um problema nascido mais da imaginação das juventudes partidárias e do BE do que da atenção à realidade;
O partido do Governo parece estar mais comprometido com compromissos tácticos do que convicto da bondade de tal medida;
Se as Salas de Chuto pretendem diminuir os riscos de contágio com o HIV+ erram o alvo. Os eventuais dependentes contagiáveis pretenderam outra coisa que não ser elencados e identificados. Entre os toxicodependentes que eventualmente se encontrem disponíveis para frequentar as Salas de Chuto contam-se sobretudo os já doentes com HIV+;
Por outro lado pensar que assim se consegue trazer para a rede de saúde os mais degradados é esquecer que faz parte da sua própria atitude aproveitar-se da rede de saúde pública para não sair. Dos bairros degradados saem os que são perseguidos pela delinquência associada à sua marginalidade e não os que o Estado ajuda a serem marginais;
Pode-se suspeitar que existam interesses corporativos associados às estruturas técnicas do Estado que pretendam ver avançar esta hipotética nova frente de trabalho;

Sugestão:

Estude-se qual seria efectivamente a eventual população que frequentaria as Salas de Chuto através de um organismo independente das estruturas estatais (por exemplo, através de Gabinetes de Estudo das Universidades);”

Com a devida vénia, pela oportunidade e interesse que o assunto merece, o Interregno volta a publicar parte de um texto da autoria da Associação Vale de Acór, comunidade terapêutica para o tratamento de toxicodependentes.

quarta-feira, agosto 23, 2006

Jardim cercado

Nos Açores é diferente, a descontinuidade territorial, as muitas ilhas com as suas rivalidades, perdem unidade e são mais fáceis de domar. A Madeira e o seu cacique é que são o problema desta terceira república que em má hora se lembrou das regiões autónomas, com tudo o que isso acarreta de independência e desenvolvimento.
Estão visivelmente arrependidos.
O homem é inconveniente, não faz vénias ao continente, exige e ameaça com o nosso dinheiro, nosso é uma força de expressão, talvez não seja nosso, mas dele não é concerteza!
E agora que o país está quase na linha, domesticado, sobrevivente em euros sem poder reclamar, sem alternativa, disponível para se sacrificar até ao fim por este caminho sem rumo que lhe foi generosamente traçado, não podemos tolerar dissidências.
Sigamos pois no cerco ao relapso madeirense, arremedo de feudalismo que nunca tivemos nem podemos ter, ele bem sabe a nossa sina, por isso vamos em frente, retiremos-lhe os meios com que se pavoneia, que lhe têm valido vitórias atrás de vitórias!
Vamos sufocá-lo, será obrigado a render-se.
Nessa tarefa patriótica, feita em nome da nossa velha república unitária, contamos com apoio generalizado da população continental, até de sectores insuspeitos, de outras áreas políticas, nas direitas, no centro, entre os chamados independentes, porque ninguém tolera a independência do líder da Madeira!
Afinal que argumentos tem o homem? Qual a razão de tanta popularidade entre os seus?
Aplicou bem o dinheiro que lhe deram? Talvez, atendendo a que a Madeira passou a ser considerada em termos europeus uma região mais desenvolvida e por consequência com o acesso ao crédito mais dificultado. Tanto pior para ele! Os relatórios internacionais também parecem confirmar um forte ritmo de crescimento que se tem verificado.
Mas isso que interessa comparado com o prejuízo que representa para a república a estridência enervante desse sujeito. Um mau exemplo para os desertificados ‘distritos’ do continente.
Resta-nos sonhar, acordar a imaginação, e que saudades, a consolação que teríamos se em lugar de um cacique, tivéssemos vários como este, espalhados por esse império perdido, a reclamar insistentemente mais e mais verbas, vergastando o continente pelos seus erros, desconfiando do poder central, mas com plena confiança da sua gente!
Sinal de que tínhamos merecido a herança...e que ainda tínhamos mão nela.

Post-scriptum: ‘Cacique’ significa chefe independente.

segunda-feira, agosto 21, 2006

Sebastianismo do Sertão

“Daqui de cima, no pavimento superior, pela janela gradeada da Cadeia onde estou preso, vejo os arredores da nossa indomável Vila sertaneja. O sol treme na vista, reluzindo nas pedras mais próximas. Da terra agreste, espinhenta e pedregosa, batida pelo Sol esbrazeado, parece desprender-se um sopro ardente, que tanto pode ser o arquejo de gerações e gerações de Cangaceiros, de rudes Beatos e Profetas, assassinados durante anos e anos entre essas pedras selvagens, como pode ser a respiração dessa Fera estranha, a Terra – esta Onça-Parda em cujo dorso habita a Raça piolhosa dos homens. Pode ser, também, a respiração fogosa dessa outra Fera, a Divindade, Onça-Malhada que é dona da Parda, e que, há milénios, acicata a nossa Raça, puxando-a para o alto, para o Reino e para o Sol.

Daqui de cima, porém, o que vejo agora é a tripla face, de Paraíso, Purgatório e Inferno, do Sertão. Para os lados do poente, longe, azulada pela distância, a Serra do Pico, com a enorme Tapeorá, cuja areia é cheia de cristais despedaçados que faíscam ao Sol, grandes Cajueiros, com seus frutos vermelhos e cor de ouro. Para o outro lado, o do nascente, o da estrada de Campina Grande e Estaca-Zero, vejo pedaços esparsos e agrestes de tabuleiro, coberto de Marmeleiros secos e Xiquexiques. Finalmente, para os lados do norte, vejo pedras, lajedos e serrotes, cercando a nova Vila e cercados deles mesmos por Favelas espinhentas e Urtigas, parecendo enormes Lagartos cinzentos, malhadas de negro e ferrugem, lagartos venenosos, adormecidos, estirados ao Sol e abrigando Cobras, Gaviões e outros bichos ligados à crueldade da Onça do Mundo.
Aí, talvez por causa da situação em que me encontro, preso na Cadeia, o Sertão, sob o sol fagulhante do meio-dia, me aparece, ele todo, como uma enorme Cadeia, dentro da qual, entre muralhas de serras pedregosas que lhe servissem de muro inexpugnável a apertar suas fronteiras, estivéssemos todos nós, aprisionados e acusados, aguardando as decisões da Justiça, sendo que, a qualquer momento, a Onça-Malhada do Divino pode se precipitar sobre nós, para nos sangrar, ungir e consagrar pela destruição”.

Do romance “A Pedra do Reino” de Ariano Suassuna.
In Revista “Portugueses” (Maio/Junho 1989)

sábado, agosto 19, 2006

Um país pequeno

Abri e fechei a televisão, demorei-me uns segundos, talvez um minuto a olhar para a entrevista memorial sobre Marcelo Caetano. Até poderia ter interesse, Ana Maria Caetano explicava, a uma atenta e serviçal Judite de Sousa, algumas das peripécias vividas por seu pai nos momentos subsequentes ao 25 de Abril de 1974.
Mas aquela pequena tentação de revelar um distanciamento político entre Marcelo Caetano e o Almirante Américo Tomás, seu companheiro de exílio e infortúnio, a palavra ‘ultras’ ao de leve pronunciada, foi o suficiente para desligar a televisão e perder de vista o rosto ainda bonito da filha do último primeiro-ministro do Estado Novo.
Que raio de país, que raio de gente, incapaz de se manter solidária na hora da derrota, sempre pronta a saltar para o carro dos vencedores!
Quando nem sequer há vencedores, mas uma longa lista de traições, deserções, de gestos que a história não vai lembrar quanto mais dignificar, tão parecidos que parecem irmãos gémeos de outros golpes que passam por revoluções na posterior propaganda.
A própria entrevista é disso prova e argumento. Então não havia ninguém convencido do que estava a fazer! Da bondade do caminho trilhado! Estavam todos contrariados?
E do outro lado, do lado de Abril, a necessidade de expiar o embuste, de alargar responsabilidades, de justificar alguns excessos imprevistos, o pecado da descolonização a comprometer tudo e todos, e a confirmar essa realidade inelutável: não há oposição em Portugal!
Ela só parece existir enquanto não nos aproximamos o suficiente do orçamento de estado, depois, segue-se oportuna reciclagem e o início de uma viagem vertiginosa até ao outro lado da barricada...Que afinal não é barricada nenhuma!
Um país a fingir, cada vez mais pequeno, que não consegue fazer justiça a ninguém.
E que sem perceber mantém o hábito das conversas em família, no canal público, aos Domingos, a cargo de um afilhado de Marcelo Caetano!

quarta-feira, agosto 16, 2006

Sem representação

À força de quererem separar a Igreja do Estado, e não interessa agora discutir o motivo ou os motivos que estiveram e estão na origem desta escolha política, as sociedades ocidentais deixaram sem representação um dos aspectos essenciais da natureza humana: a sua religiosidade!
Embrenhada nas profundezas culturais de determinada comunidade, essa mesma religiosidade acabava por estar politicamente representada no chefe de estado monárquico, na sua qualidade de vínculo histórico, que assim resolvia, melhor ou pior, o complexo de tensões sociais entre os diversos agentes políticos e religiosos, conseguindo por seu lado mobilizar estes últimos para a concórdia geral, na medida em que os envolvia na prossecução dos objectivos comuns dessa mesma comunidade.
Esta razoável harmonia, correspondente a uma identidade clara e indiscutível, sofreu como se sabe, um primeiro grande revés com a chamada reforma protestante que assim quebrou a unidade, que atravessou séculos, de obediência ao Sumo Pontífice.
A partir daqui é fácil perceber o declínio da Europa bem como todas as sequelas que hoje nos confundem e dividem, com o laicismo premente, de natureza fundamentalista, a empurrar-nos, mais e mais, para um buraco escuro donde será difícil sermos resgatados.
É neste contexto que temos que entender a nossa emergente incapacidade para lidar com culturas diferentes, como o Islão por exemplo, que se recusa a seguir o modelo ocidental já que não admite cortar com Deus ao nível da representação do Estado.
Curioso é neste ponto notarmos, e já não é a primeira vez que o faço notar, que os grandes apóstolos do laicismo e da separação da Igreja do Estado, e também por isso, os grandes adversários do Islão, são os países onde não existe uma separação nítida entre a religião e o Estado!!! Refiro-me naturalmente a Israel, Inglaterra e Estados Unidos, pois claro. Bastava este facto, para qualquer um desconfiar das respectivas promessas políticas, agora imaginem os muçulmanos!
É de facto caricato, por absurdo, tudo o que se passa à nossa volta: os americanos e os ingleses armados em cruzados, eles que não obedecem à única Entidade que as convocou no passado e que teria legitimidade para as convocar no presente – o Papa, que aliás tem condenado firmemente este tipo de ‘cruzadas’. E por outro lado não deixa de ser estranho que nesta ‘cruzada’ surja como aliado dos tais ‘cruzados’, um povo que a história assinala como responsável pela própria crucificação de Cristo!
Tudo isto é muito difícil de compreender!
E termino como comecei: se tudo aquilo que tem natureza política, aspira naturalmente a ser representado, também é verdade que essa representação quando é ilegítima ou quando é reprimida, suscita um movimento reactivo de quem se sente amordaçado, movimento que se torna rápidamente incontrolável, e está sempre disponível para afrontar a falsa cultura dominante em surpreendentes ‘tsunamis’!
Não vale a pena depois chamar-lhes terroristas.

domingo, agosto 13, 2006

“Mudam-se os tempos...”

A comunicação social faz parte do país, são organizações onde trabalham pessoas normais, há muita gente envolvida, veteranos e jovens que se engalfinham para ‘dar’ as mesmas notícias, aquelas novidades saídas do funil de duas ou três agências noticiosas, também elas ligadas à máquina de propaganda das multinacionais que todos conhecemos.
Os chamados repórteres de guerra, salvo raríssimas excepções, acompanham os exércitos vencedores e vão declamando, em pose de grande imparcialidade, as banalidades que lhes impingem.
Jornalismo de reportagem, fora da segurança do politicamente correcto, não existe, ou se existe, não chega ao grande público, que se mantém fiel, em permanente estado de ansiedade, e vai consumindo doses cavalares de patranhas infantis, que lê nos jornais, que passam na televisão, sempre na secreta esperança de que surja algo que possa mudar as suas vidas!
Esperamos em vão.
Alguns exemplos, tristes exemplos, diga-se:
O fogo devasta o país como habitualmente nesta época quente, mas agora ninguém se lembra de pedir responsabilidades ao governo! Pelo contrário é o próprio governo que acusa os portugueses de serem os culpados pelos incêndios que lavram por todo o território! Extraordinária conclusão, quando se sabe que prossegue a desertificação interior, e que os pinheiros, sozinhos, não se conseguem defender.
Mas regressemos por um momento aos tempos de Durão Barroso e Santana Lopes, quando o mesmo fogo consumia a floresta lusitana, para recordar que não havia dia nem hora em que se não questionasse o governo e o primeiro-ministro sobre qualquer fagulha que se reacendesse, sobre alguma falha nos meios de combate aos incêndios, medindo e comparando, a palmo, a área ardida, confrontando promessas eleitorais de acabar com os fogos de Verão em Portugal!
Onde estão os jornalistas dessa época? Onde estão as televisões que não davam descanso ao governo?
Desapareceram!?
Pode o ministro Costa repreender à vontade os portugueses que emigraram para Loures ou Massamá, e que se esqueceram ir fazer os convenientes ‘aceiros’ lá na terrinha de onde fugiram, fugindo à miséria; pode enfim o elegante Sócrates fazer as corridinhas que quiser por Copacabana, que nenhum jornalista português o irá incomodar com o fogo pátrio.
Mudam-se os tempos...mas nós não mudamos.

sexta-feira, agosto 11, 2006

Totalitarismo à vista

Uso um título emprestado para ver se consigo retratar este insólito tempo em que somos obrigados a revelar identidade de corpo e alma para com os novos benfeitores da Terra. Não podemos ocultar nada, até a bolsa de viagem tem que ser transparente.
Para nosso bem.
Os inimigos são invisíveis, existem concerteza porque lançam o pânico e a morte à sua volta, estão por todo o lado, sabemos apenas que são islamitas, e mais recentemente, foram caracterizados como ‘islamitas fascistas’, uma variante até aqui desconhecida, com aliados no Irão e na Síria, e partilham entre si um ódio visceral a Israel e aos Estados Unidos!
É tudo quanto se sabe, ou pelo menos é tudo quanto podemos saber.
A Inglaterra, grande aliada dos americanos na reconstrução de um ‘novo médio oriente’, também está na linha de fogo, como se viu pela gigantesca operação policial despoletada em todos os aeroportos do Reino Unido, pelas inúmeras detenções, pelo incómodo a quem pretendia viajar de avião, fosse para onde fosse, mas principalmente para os Estados Unidos.
Procuramos terroristas, é a palavra de ordem, a autorização, o aval, que permite prender, interrogar, isolar, transportar e esconder pessoas suspeitas de pertencerem às tenebrosas organizações que se dedicam à prática do terrorismo. O terrorismo é a doença do século, e qualquer pessoa pode ser infectada por esse vírus mortífero, e sendo assim, todos somos suspeitos.
As origens da epidemia são vagas e não interessa agora discuti-las, porque ‘em tempo de guerra não se limpam armas’, confidenciou um alto responsável que não quis ser identificado.
Entretanto Israel prossegue na sua ‘cruzada’ contra o terrorismo. No Líbano também não há inocentes.
Exagerei na descrição mas os indícios não mentem, e os métodos também não: isto lembra-me qualquer coisa e não é coisa boa.

terça-feira, agosto 08, 2006

“Senhor dá-nos um Rei...”

“Samuel, dá-nos um rei como têm as outras nações...”, foi assim que o povo hebreu se exprimiu, farto de querelas e divisões, ansiando por uma referência de unidade. “Faz o que eles pedem” disse-lhe o Senhor.
Podemos extrair deste episódio bíblico, ocorrido muitos séculos antes do nascimento de Cristo, aquilo que é óbvio e os factos todos os dias comprovam:
Sem um símbolo, sem um referencial único, os povos não se conseguem estabilizar nem progredir, minados por questiúnculas internas, habilmente aproveitadas pelos seus inimigos externos, e com isso vão adiando sistematicamente as melhores soluções para os seus problemas.
Na maior parte dos casos, incapazes de se entenderem dentro das suas fronteiras, acabam por tentar construir uma falsa unidade fora delas, invadindo e agredindo outros povos, inventando um inimigo exterior, disfarçando, ou se quiserem exportando desta maneira os seus problemas domésticos.
Isto é teoria política básica, mas infelizmente e por ser básica está sempre a verificar-se, está sempre a acontecer, e pior, está a acontecer-nos a nós!
Desmobilizados, cada um para seu lado, os portugueses sentem o mesmo que eu sinto: um país à deriva, sem representação una e fiável, alguém que sobreleve as facções e que reconheçamos como imagem da Pátria.
Não há, não temos, ou se temos, não queremos ter!
Mas hoje queria falar-vos desta guerra sem fim que opõe o Islão a Israel, ao Ocidente, aos Estados Unidos, à Rússia, à China, e a outros incertos. A verdade é que no meio desta confusão apraz-me registar que são as monarquias islâmicas, aquelas que dão maiores sinais de moderação, e que asseguram alguma estabilidade e desenvolvimento internos.
Estou a lembrar-me de Marrocos, da Jordânia e até da própria Arábia Saudita, como podia ter-me lembrado da Pérsia no tempo do Xá ou do Afeganistão no tempo do Rei Zaer Sha!
Reparem que não fiz nem tenciono fazer qualquer comentário ou referência à chamada ‘democracia para exportação’ assunto que já abordei e desmascarei largamente aqui no Interregno e que toda a gente percebe que se trata da última artimanha imperialista para ‘dividir e reinar...sobre o petróleo’!
Eu faço referência á monarquia, àquela que une e evita, ou pelo menos reduz, o apetite voraz dos tubarões do costume. Essa realmente tem-se revelado muito mais eficaz e benigna quer reduzindo os riscos de guerra, quer assegurando alguma sementeira em favor da paz.
Tenho insistido neste ponto que me parece importante: o Rei, na sua qualidade de representante da história, e quando legítimo, limita a preponderância dos sacerdotes diminuindo os factores ligados ao fundamentalismo religioso. Esta vantagem não a tem mais nenhum agente político, e numa região como o médio oriente, em lugar de andarmos a pregar a ‘democracia americana’, seria mais sensato advogar o regresso de regimes ancorados na tradição já que transmitem outra seriedade e serenidade nas relações internas e internacionais.
O que se aconselha portanto a essa legião de ‘benfeitores’, americanos, russos, chineses, ingleses, franceses, e israelitas por outros motivos, é mais paciência e menos apetite. Não tenham medo porque o petróleo é para vender, não é para consumo interno dos países do médio oriente.
E já que aqui estamos, uma pergunta directa: E tu, oh Israel, que tal um Rei?
Era capaz de ser bom para ti e para os teus vizinhos. Outra credibilidade e independência às posições e interesses do estado judaico, trazia concerteza.

quinta-feira, agosto 03, 2006

“Pedro II do Brasil”

“Havas traz-nos hoje o seguinte despacho:

Milão, 22 de Maio, manhã

O estado do imperador do Brasil voltou a ser gravíssimo. Os médicos tornaram a aplicar-lhe injecções de cafeína. O imperador recebeu os últimos sacramentos.

O imperador agonizante foi...talvez este passado seja a esta hora uma verdade cruel! – foi um dos soberanos mais notáveis deste século, e um dos homens mais dignos de serem conservados na memória dos tempos.
Nascido no próprio ano em que o Brasil ganhava a independência, a infância do imperador decorreu entre as agitações inerentes aos primórdios dos povos. Nessa escola pratica da vida se educou o seu espírito de homem e o seu tacto de soberano.
Era um filósofo sentado num trono. Aos quinze anos, em 1840, quando principiou a reinar, o Brasil agitava-se, agitou-se ainda por um ano, no campo sáfaro das revoluções anárquicas. Hoje, depois de quase meio século de um reinado cheio como poucos, o Brasil é uma nação poderosa, grande, rica, palpitando com intensidade patriótica e vivamente crente no futuro.
Felizes os que descem ao túmulo, certos de não terem vivido em vão!
Tinha vinte e cinco anos o imperador, quando aboliu o tráfico da escravatura; tinha trinta quando, servindo-se de Urquiza para abater Rosas, o Denys da Siracusa argentina, franqueava a estrada dos sertões de Mato Grosso e de Goiás, pelo Paraguai e pelo Paraná. Em 1867 patenteava o Amazonas à navegação internacional; em 1870 via destruído Lopes, o tirano de Humaitá e da Assumpção; e um ano depois outorgava a primeira lei emancipadora dos escravos, para agora ter como apoteose outra lei consumando a liberdade de meio milhão de homens.
Quando um homem acaba assim, não morre: nasce para a história, passando da cena acanhada do mundo para o céu amplíssimo da consciência da humanidade.
E o imperador do Brasil não foi o símbolo, ou a firma sob que outros governaram, porque ele era o governo, ele era administração, e o paço de S. Cristóvão, patente diariamente ao povo, era a oficina onde dia a dia se ia fabricando a grandeza da nação.
Os principais actos do governo do imperador foram todos pensamentos pessoais desse filósofo coroado, a quem o Brasil deveu a paz, enquanto as repúblicas vizinhas se agitavam em tumultos incessantes; a quem deveu a constituição definitiva da sua geografia pela conquista das águas do Prata, duas vezes disputado à força de armas, contra Rosas e contra Lopes; a quem deveu, finalmente, a emancipação dos escravos, sua gloriosa paixão dominante.
Quando um homem desce ao túmulo levantando à liberdade um milhão de semelhantes seus, a esse homem cabe o nome que ficou típico para significar a nobreza do carácter, a rectidão dos pensamentos, a claridade da inteligência, e a suave filosofia que, fundindo todos os predicados de um génio, imprime o cunho a uma personalidade. O imperador D. Pedro foi o Marco Aurélio do Brasil”.

Oliveira Martins – Perfis

Post-scriptum: D. Pedro II faleceu em Paris a 5 de Dezembro de 1891.

segunda-feira, julho 31, 2006

Certificado de origem

Com a licença na mão, que me custou os olhos da cara e uma longa espera até ser atendido, posso enfim debitar, em prosa ou verso, tudo o que me vai na alma sobre esta escalada de violência a que todos assistimos no médio oriente.
Antes porém e à semelhança de muitos, tive que cumprir os vários rituais de passagem que purificaram a minha compreensão e esclareceram dúvidas sobre os verdadeiros desígnios de Israel nesta guerra, que tantos consideram necessária e benfazeja!
Eu conto:
Mal me aproximei do guichet passaram-me um formulário breve mas conciso:
- És negacionista, ou pelo contrário, aceitas e assumes o holocausto com todas a suas consequências!
- Conheces a diferença entre terrorismo e o direito de Israel a viver em segurança dentro das suas fronteiras, nas terras que foram dos seus antepassados, ou és daqueles que andam para aí a desinformar a população alegando que o nosso antepassado foi um ricaço que comprou umas quintas na Palestina nos finais do século dezanove, e que nós ‘herdámos’ em 1948?!
- Por último, sabes o risco que corres se escreveres qualquer coisa que revele proximidade com o Islão, alguma condescendência com os terroristas, esses arautos da violência, que pregam o fim de Israel e do mundo ocidental?!
Havia ainda uma pergunta facultativa, que não contava para a média final:
- Acreditas piamente na nossa democracia e que só a nossa democracia conseguirá construir um novo médio oriente?
Foi este o teste!
E agora? Querem saber como saquei a licença?
Eu conto:
Não discuti o holocausto, limitei-me a acrescentar que os holocaustos existem, tal como os recordes também existem... para serem batidos. É sempre do próximo que tenho medo, justificado pelo anterior.
Na segunda pergunta hesitei, acabando por responder que um bom vinho do Porto tem de certeza mais de sessenta anos! Esta resposta foi considerada uma provocação e estive para chumbar, mas por sorte o examinador era aquilo a que se pode chamar ‘um apreciador’, e como bom judeu, tinha uma excelente reserva do famoso néctar! Encerrou desportivamente a questão com a promessa de uma visita à adega.
Na terceira pergunta, considerada a mais difícil, fiz um brilharete: disse a verdade sobre as relações de proximidade e convivência mais ou menos pacífica que temos mantido com os povos islâmicos que habitam o flanco sul da Europa, especialmente com Marrocos a quem hoje não tentamos impor nem a nossa cultura nem a nossa democracia. Beneficiámos é certo da circunstância de ninguém se ter lembrado de introduzir nesta região um corpo estranho, ao contrário do que aconteceu na Palestina, com as consequências que se conhecem e com os processos de rejeição que se adivinham por parte de quem já ali habitava.
O judeu coçou a cabeça, ter-me-á achado inofensivo e predispôs-se a entregar-me a licença!
Foi já certificado que decidi responder à pergunta facultativa, em jeito de gratificação: esta violência, esta democracia, não são caminho para coisa nenhuma a não ser para transformar o mundo num barril de pólvora. Não vão construir nada de novo, nada que já não seja conhecido há muito tempo – o inferno do ódio!
O papel dos Estados Unidos neste conflito, como tem acontecido noutros, é trágico e cómico ao mesmo tempo, perdendo completamente a face perante o mundo muçulmano.
E há quem se iluda com a força das armas e pense que é possível eliminar ou aniquilar todos os árabes, persas, turcos, indianos, polinésios, em suma todos os que professam o islamismo! Perigoso pensamento, próprio de orgulhosos mentecaptos, oriundos de um império recente e sem qualquer estofo colonizador, porque lhe falta o tempo que traz sabedoria às nações e lhe sobra a barbárie que gera desconfiança e animosidade.
É o que acontece com os senhores de Washington que agora deram em aliar-se com a nomenclatura do Kremlin e da China Popular!
É caso para dizer como os tempos mudam, e as companhias (as más) também!
Mas se o Islão não pode ser derrotado recorrendo à violência, Israel arrisca-se a desaparecer do mapa, apesar das suas inúmeras bombas, se não escolher outros caminhos e se calhar, outros aliados!!!
Não se espantem pois os sábios se o segredo da sobrevivência de Israel residir na sua plena integração como estado do médio oriente e não nesta política segregacionista e suicida, armado em povo eleito, e no papel de afilhado (ou mentor) do imperialismo americano.
Visado pela comissão de censura.

quinta-feira, julho 27, 2006

“A César o que é de César...”

Dois mil anos depois o Filho do Homem continua sem ser entendido entre os judeus, e por quem os segue! Na minha juventude a cançoneta da propaganda repetia a mesma incompreensão: “This land is mine, God gave this land to me...”!
Mentira. Foi o dinheiro que comprou algumas das terras do actual Israel, a que se juntou a vontade das potências vencedoras da última grande guerra, no sentido de compensarem os judeus pelos sacrifícios por que haviam passado durante o conflito.
O presente envenenado aí está com todas as suas consequências e rejeições.
Pois é, essas terras eram habitadas, viviam lá pessoas que foram desalojadas, obrigadas a partir...e que reagiram e que têm vindo a reagir, por todos os meios.
“...a Deus o que é de Deus”.
Deus não dá terras a ninguém, nem dinheiro, nem armas! Aqui reside a confusão.
No horizonte dos séculos o tempo de vida do actual Israel não é nada, é uma fagulha na era do Universo. Como também nada representa este arremedo de imperialismo protagonizado pelos americanos, odiados por todos os povos islâmicos, proibidos de frequentar a rua árabe, persa ou turca!
Quando nos lembramos que o Império Inglês, com toda a sua força e sabedoria durou apenas duzentos anos, a declaração produzida pela americana Rice de que ‘vamos construir um novo médio oriente’, só pode dar vontade de rir!
Mas começa a perceber-se qual foi a necessidade de invadir e destruir o Iraque, para aí criar as tais zonas tampão que possam proteger Israel, assim como se entende melhor este avanço sobre o Líbano, e o que virá a seguir!
Inútil tarefa e mau presságio.
Em primeiro lugar e por muita confusão que isso faça a muita gente, Israel não é um estado ocidental nem pode vir a ser. Os interesses da Europa também não passam pelo estado hebraico assim como tenho dúvidas que os Estados Unidos possam continuar a desempenhar o papel de aliado preferencial por muito mais tempo.
É que esta aliança joga contra a única possibilidade de existência de Israel no futuro.
Ou alguém pensa que Israel vai poder continuar a viver rodeado de muros e zonas de protecção, comportando-se agressivamente como se fosse um intruso?
E aqui não vale a pena agitar o fantasma do terrorismo porque Israel está condenado a viver no médio oriente, como um estado do médio oriente, e com uma população semita em tudo semelhante aos semitas seus vizinhos. E a ter como aliados pelo menos alguns dos seus actuais inimigos.
Ou então preparemo-nos aqui na Europa para o regresso dos judeus depois de mais uma aventura na Terra Prometida.

terça-feira, julho 25, 2006

“Por estes dias...”

Por estes dias, há quatrocentos e vinte e dois anos, Dom Sebastião viajava com o seu exército de quinze mil homens para a conquista de Marrocos. Fazia-o para combater a expansão dos turcos no Norte de África.

Fazia-o para evitar os ataques dos corsários a partir da costa africana. Fazia-o também cheio de um espírito sacrificial que, quando protagonizado por reis, envolve também o sacrifício das pátrias.
E assim o conseguiu. Os turcos não conseguiram avançar para Marrocos depois deste país ter reafirmado a sua identidade depois da batalha. Os corsários também não se refugiaram nas costas africanas mais controladas pelas autoridades locais. E o país sacrificou-se, como o seu rei e alguns dos seus conselheiros o desejavam, certamente com outras expectativas. Falo-vos disto porque acabei de ler um livro muito interessante intitulado “Dom Sebastião, Rei de Portugal”, escrito pelo espanhol António VillaCorta Baños-Garcia.
A perspectiva é de um historiador Castelhano, com muita informação sobre a óptica espanhola dos acontecimentos, de alguma forma benevolente face à atitude dúbia de Filipe II, e manifestamente crítico da atitude voluntariosa de Dom Sebastião. No entanto traz-nos informações que a maioria dos portugueses desconhece. Sobretudo informa-nos e angustia-nos, como se estivéssemos a viver aqueles momentos sabendo da morte anunciada do rei e do país. No fim da leitura vêm-nos à mente uma série ordenada de perguntas na condicional que poderiam ter mudado a sorte de Portugal e do mundo naquele século: Se a regência fosse dada a Joana de Áustria, mãe de Dom Sebastião, e não a Dona Catarina, avó do rei e esposa de Dom João III, muito provavelmente a educação do rei teria sido diferente, pois a sua mãe não o deixaria com poucas semanas de vida por ter emigrado para Espanha.
Se Filipe II, tio direito de Dom Sebastião, tivesse apoiado a invasão e sequente partilha de Marrocos, em vez de negociar a paz com Sultão Ali, aliado dos turcos, certamente que o resultado do confronto teria sido diferente, mesmo com o rei voluntarioso em demasia.
Se Dom Sebastião não tivesse demorado tempo demais em Cádiz e em Arzila, muito provavelmente teria conquistado Larache, mesmo caminhando por terra através da planície de Alcácer-Quibir. De facto, se assim fosse, o Sultão Ali não teria tempo de chegar ao local com o seu exército sediado em Fez. Isto tudo sem o apoio de Filipe II e com o mesmo rei jovem e voluntarioso.
Se Dom Sebastião tivesse aceite as condições de paz do Sultão Ali, que lhe prometia devolver as praças portuguesas, para além da Ceuta, Tânger, Argila e Mazagão em nosso poder; e ainda a cidade e o termo de Tetuão. Se assim fosse, tal bastaria para criar um território consistente em Marrocos e não haveria a perda do rei, do exército e do país. Mesmo sem apoio de Filipe II, sem atraso de Cádiz e com o rei considerado irresponsável por muitos.
Se o Sultão Ali, gravemente doente, tivesse morrido antes da batalha e não durante a mesma por agravamento da doença, muito provavelmente as tropas marroquinas virar-se-iam para apoiar Muhamad, berbere, cujo trono tinha sido usurpado por Ali, e que por isso alinhou nas fileiras portuguesas. Isto mesmo sem o apoio de Filipe II, o atraso de Cádiz, o acordo com Ali ou e a juventude do rei. Se, finalmente, a batalha fosse ganha pelos portugueses, como começou a sê-lo no início. Então, apesar de tudo o mais, o resultado seria bem diferente, para Portugal e para o Mundo. Ficou o sacrifício, Marrocos e, também, Portugal.

Tomás Dentinho

Jornal “A União” de Angra do Heroísmo, de 20 de Julho de 2006.

domingo, julho 23, 2006

“Também há Universo na Rua dos Douradores”

“Quem tenha lido as páginas deste livro, que estão antes desta, terá sem dúvida formado a ideia de que sou um sonhador. Ter-se-ia enganado se a formou. Para ser sonhador falta-me dinheiro.
As grandes melancolias, as tristezas cheias de tédio, não podem existir senão com um ambiente de conforto e sóbrio luxo. Por isso o ‘Egeus’ de Poe, concentrado horas e horas numa absorção doentia, o faz num castelo antigo, ancestral, onde, para além das portas da grande sala onde jaz a vida, mordomos invisíveis administram a casa e a comida.
O grande sonho requer certas circunstâncias sociais. Um dia que, embevecido por certo movimento rítmico e dolente do que escrevera, me recordei de Chateaubriand, não tardou que me lembrasse de que eu não era visconde, nem sequer bretão. Outra vez que julguei sentir, no sentido do que dissera, uma semelhança com Rousseau, não tardou, também, que me ocorresse que, não (tendo) tido o privilégio de ser fidalgo e castelão, também o não tivera de ser suíço e vagabundo.
Mas, enfim, também há universo na Rua dos Douradores. Também aqui Deus concede que não falte o enigma de viver. E por isso, se são pobres, como a paisagem de carroças e caixotes, os sonhos que consigo extrair de entre as rodas e as tábuas, ainda assim são para mim o que tenho, e o que posso ter.
Alhures, sem dúvida, é que os poentes são. Mas até deste quarto andar sobre a cidade se pode pensar o infinito. Um infinito com armazéns em baixo, é certo, mas com estrelas ao fim... É o que me ocorre, neste acabar de tarde, à janela alta, na insatisfação do burguês que não sou e na tristeza do poeta que nunca poderei ser.”

Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego (excerto) – composto pelo heterónimo Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa.

sexta-feira, julho 21, 2006

Nacional Nacionalizado Nosso

A ordem é arbitrária.
Acordem desse delírio, é verdade, eu já sabia, tanta privatização é mania, e dá outro resultado, um extremo toca outro extremo: Portugal verde encarnado, estás todo nacionalizado!
Você tinha reparado?
Sejam sinceros, confessem, destes aqui que me lêem, quantos serão do privado?
Podem erguer o bracinho, não vejo nada que horror! A malta ficou maneta? Não acredito... que dor!
Essa pergunta comento: contam empresas e siglas, basta que vivam por junto, bem junto do orçamento!
Ouve lá, oh rapazinho, quem te paga o ordenado?
É o patrão, que é privado, mas só trabalha para o Estado!
É tão curioso este mundo!
No futebol é diferente, nunca foi privatizado, sempre foi um bom negócio, sempre deu votos sem votos, hoje dá votos com trocos!
Um viveiro de vedetas, um berço de governantes, de autarcas, nem falar!
E entretém a populaça, como em Roma, quem diria!
Leste a notícia do dia?
Valentim finge que sai; foi um árbitro a enterrar; vi mais dois a pelejar; o Vieira mata e esfola; diz que é o dono da bola; o juiz não quer julgar; o Belém tem que amochar!
Pobre país de vilões, vais ter muito que amargar.

quinta-feira, julho 20, 2006

Estamos fritos

Quando os papás se revelam incapazes de educar os fifis; quando aceitam o tratamento por ‘tu’ para se porem ao mesmo nível, para não parecerem distantes ou autoritários; quando a preocupação dominante é aceitar tudo para não traumatizar as pobres criancinhas...estamos fritos!
Quando os professores sentem dificuldade em avaliar os alunos; quando lhes insuflam a ideia de que nasceram com imensos direitos e poucos deveres; quando, por um acaso, se atrevem a repreender com mais vivacidade um aluno, básicamente mal-educado, e se arriscam no acto, a sofrer injúrias ou agressões; e quando, em seguida, os papás secundam a má criação do menino...estamos fritos e cozidos!
Quando a autoridade pública se mostra incapaz de a exercer ou quando a exerce poupa sempre os mais fortes; quando o estado e os seus agentes dão de si próprios terríveis exemplos a uma sociedade atreita a reproduzir tudo o que vê; quando finalmente o poder judicial, inamovível, e que é suposto ser independente do poder político, se mostra incapaz de decidir em tempo útil qualquer diferendo, por mais simples que seja, aparecendo entretanto envolvido em fenómenos sociais pouco recomendáveis...estamos fritos, cozidos e assados!!!
Vem este arrazoado a propósito de quê?
O almoço é peixe frito, e o cheiro invade esta casa portuguesa, entra alegremente por onde pode, entranha-me como um perfume irresistível, grito por socorro, mas ninguém me ouve, estou a ser asfixiado...
Por mim, estou almoçado.

segunda-feira, julho 17, 2006

BB com arroz

A história é uma adivinha:
Parecem duas, são três,
Não é Brigitte Bardot,
O arroz já se queimou,
Não te rias desta vez.

Diga lá, adivinhou?

A conferência é de imprensa,
Os dois juntinhos que dois
Bush e Blair para variar,
Esse quadro decadente,
Mesmo à hora do jantar!
Falam de lobos e lobos
Uns famintos, outros não!
O que fazer, pois então?
Apoiemos o rabino
Na guerra contra o Irão!
Não poupem céu nem cidade
Arrasem tudo à vontade
Avante democracia,
Bem servida noite e dia.

E acabam os desenganos!
O aliado é Putin,
O seu delito é comum:
Assassinar muçulmanos.
Você esqueceu mais algum!
E o chinoca não conta!
O dos direitos humanos
Sofre do mesmo temor:
Muçulmanos, muçulmanos!

domingo, julho 16, 2006

"Vós Que Passais Entre as Palavras Passageiras"

Vós que passais entre as palavras passageiras
Levai os vossos nomes e parti
Retirai do nosso tempo as vossas horas, parti
Extorqui o que quiserdes
Do azul do céu e da areia da memória
Tirai as fotografias que quiserdes, para saber
Que não sabereis
Que as pedras da nossa terra
Sustentam o tecto do céu

Vós que passais entre as palavras passageiras
Vós forneceis a espada, nós fornecemos o sangue
Vós forneceis o aço e o fogo, nós fornecemos a carne
Vós forneceis outro carro, nós fornecemos as pedras
Vós forneceis a bomba lacrimogénea, nós
Fornecemos a chuva
Mas o céu e o ar
São os mesmos para vós e para nós
Tomai pois o vosso quinhão do nosso sangue, e parti
Ide jantar, festejar e dançar, depois parti
A nós cabe-nos defender as rosas dos mártires
A nós cabe-nos viver como queremos

Vós que passais entre as palavras passageiras
Como a poeira amarga, passai por onde quiserdes
Mas não passeis no meio de nós como os insectos
Volantes
Nós temos que trabalhar na nossa terra
Temos que cultivar o trigo
Que o regar com o orvalho dos nossos corpos
Nós temos o que não vos agrada aqui
Pedras e perdizes
Levai, pois, o passado, se quiserdes
Ao mercado de antiguidades
E devolvei o esqueleto à poupa
Num prato de porcelana
Nós temos o que não vos agrada
Nós temos o futuro
E temos que trabalhar no nosso país


Vós que passais entre as palavras passageiras
Empilhai as vossas ilusões numa cova abandonada,
E parti
Restituí as agulhas do tempo à legitimidade do
Bezerro de ouro
Ou à cadência musical do revólver
Nós temos o que não vos agrada aqui, parti
Nós temos o que vós não tendes:
Uma pátria que sangra, um povo que sangra
Uma pátria útil para o esquecimento e para a
Lembrança

Vós que passais entre as palavras passageiras
É tempo de partirdes
De vos fixardes onde vos aprouver
Mas não vos fixeis no meio de nós
É tempo de partirdes
De morrerdes onde vos aprouver
Mas não morrais no meio de nós
Nós temos que trabalhar na nossa terra
Aqui, nós temos o passado
A voz inaugural da vida
E temos o presente, o presente e o futuro
Temos o cá em baixo e o lá em cima
Saí, pois da nossa terra firme, do nosso mar
Do nosso trigo, do nosso sal, da nossa ferida
De todos os lugares, saí
Das lembranças da memória
Ó vós que passais entre as palavras passageiras.

Mahmud Darwich

(trad. de Albano Martins)

sexta-feira, julho 14, 2006

Postal light

Parabéns, quantos são? Trinta e três. Serás crucificado decerto se, por um acaso, não tens ido ao blog!?
Por acaso, não. Tio, (eu sou tio), os blogs não estão com nada, muito chatos, pesados, incapazes de sair dos bastidores, têm imensos...
Aguenta aí. Bastidores! Imensos quê!
Imensas coisas que a gente não sabe e depois não percebe. Há que ser mais directo, comentar sim, mas devagar, coisas que se vejam.
Por exemplo! Pede aí uma imperial e fala.
Disseste trinta e três? Então quer dizer que eu sou capaz de ter...mais, bastantes mais!...
Estás a ficar careca, já viste, um rapaz novo, bem, agora no Verão até é bom; onde é que nós íamos, íamos no blog, realmente tens razão, aquilo devia ser um caixote de lixo, de todo o lixo que nos atrofia a cabeça; uma expressão de sentimentos, desde os mais rascas aos mais nobres, sem distinguir; um divã de psiquiatra, um ombro para chorar, um muro de lamentações.
Queres mais uma imperial? Tens que me dar umas dicas. Qual é a posição de um jovem perante o mundo que nos rodeia? Esta se calhar foi demais!
Bem, tio, tenho que me ir embora. Foi giro falar consigo, veja lá se escreve qualquer coisa de jeito, engraçada, o tio antigamente até dizia umas piadas bem curtidas.
Dá saudades á tua mãe.

quinta-feira, julho 13, 2006

Sócrates no ‘CDS’

Uma bicada na direita, outra vez as maldades do governo anterior, uma bicada na esquerda, retrógrada, incapaz de se modernizar, (com Odete a bufar), e aqui estou eu no centro democrático e social do país, honrando a súbita demissão do seu fundador, para reafirmar que o estado da nação é melhor, muito melhor do que se poderia imaginar!
É portanto com base nesta curiosa informação que transcrevo, em tradução livre, algo do que ouvi e vi:
A primeira dificuldade para ouvir qualquer coisa teve a ver precisamente com a interferência de uma jovem locutora que tentava desesperadamente traduzir, português para português, em directo, o que diziam deputados e chefe do governo! Alguém deve ter percebido o absurdo da situação e lá se calou a nossa ‘tradutora-intérprete’, afinal, vendo bem, mais uma jovem descrente nas capacidades dos nossos políticos em se fazerem entender!
Mas a linha central do discurso Socrático obedeceu como sempre ao meticuloso projecto que o mesmo tem do poder e da sua longevidade, que podemos reduzir à regra das ‘quatro bicadas’, ou biqueiradas.
Depois das duas bicadas iniciais, à esquerda e à direita, faltava a terceira bicada, aquela que agrada sempre à inveja, e que leva as massas populares ao rubro: tirar qualquer coisa aos ‘ricos’.
Da cartola saiu então um coelho, ameaçando meter na ordem as reformas dos aposentados do Banco de Portugal. Mas parece que é meio coelho porque o Governador estará fora da lei!
A quarta bicada, mais própriamente biqueirada, não é para levar ao Parlamento, essa levamos nós todos os dias, com os meses cada vez maiores e os euros cada vez mais curtos!
Nada de novo portanto excepto o anúncio solene de Sócrates de um facto novo! A economia segundo o primeiro-ministro está pela primeira vez indecisa, não sabe se há-de crescer ou não, e isto é uma boa notícia, concluiu. Aliás, indicadores de última hora garantem que a economia já se decidiu!
Não se preocupem pois os portugueses, vão até à praia, sigam o exemplo da selecção, dêem uns mergulhos, tomem alka seltzers, se não chegar, tomem serenais no supermercado mais próximo, mas não se atrapalhem, que eu tomo conta disto.

quarta-feira, julho 12, 2006

Memória presente

“- D. Miguel embarcou...”.
“ (...) Em Évora-Monte acabaram também, em holocausto à Liberdade, as ordens religiosas, apressadamente extintas em decreto de 28 – dois dias depois! – logo promulgado por D. Pedro em 30 de Maio, e cujo relatório abre assim:
‘Senhor: - Está hoje extinto o prejuízo, que durou séculos, de que a existência das Ordens Regulares é indispensável à Religião Católica, e útil ao Estado, e a opinião dominante é que a Religião nada lucra com elas, e que a sua conservação não é compatível com a civilização e luzes do século, e com a organização política que convém aos Povos’.
Por tal diploma se renegava entusiásticamente toda a acção das ordens religiosas e militares na constituição e defesa da Pátria, e a maior glória do passado civilizador de Portugal nas quatro partes do mundo!
Percebe-se bem a ligação estreita destes dois instantes da nossa história, tão íntima ligação os prende que eles se fundem no mesmo ruinoso e diabólico desígnio: chega a parecer que a guerra civil durara aqueles anos todos, só para que não houvesse frades e freiras em Portugal. Dispersaram-se os melhores núcleos de ensino, as portas da mais ampla caridade cerraram-se de todo. Fecharam-se Alcobaça, Santa Cruz, Tibães, perseguiram-se velhos, desbarataram-se livrarias seculares, calaram-se os órgãos conventuais, esmoreceu e quase se extinguiu em Portugal, durante um século, o amor sereno e desinteressado do estudo das letras.
Demoliram-se, incendiaram-se ou saquearam-se conventos e mosteiros, para roubar e vender pratas e alfaias; transmudou-se a nossa fisionomia espiritual, barbarizou-se o conceito moral da vida portuguesa.
Haverá ainda quem encontre deleite a contemplar o campo de ruínas que durante o século hoje findo, alastrou de lés a lés de Portugal: toda a comparsaria dos que rastejam, como osgas, pelas alfurjas da Maçonaria e pelas mesas das redacções. Mas o tempo futuro, vingador das violências do passado e das hesitações covardes da hora presente, dará serenidade à crítica histórica para reconhecer e louvar a justiça daqueles Portugueses vencidos.
Por supremo sacrifício, com dor da inteligência e do coração, eles capitularam em Évora-Monte, sem poderem evitar com tantos trabalhos e com o preço do seu sangue, que os destinos da Nação ficassem entregues ao domínio material e espiritual do estrangeiro”.

“A Paixão de Évora-Monte” (excerto) de Hipólito Raposo, In ‘A Voz’, de 26 de Maio de 1934.
Extraído dos arquivos da “Unica Sempre Avis”.