sábado, maio 06, 2006

O desastre do ensino em Portugal

“Apesar dos esforços destes trinta anos a recuperar um tremendo atraso estrutural, Portugal encontra-se ainda na cauda da Europa no que diz respeito à educação e requalificação dos cidadãos. As medidas têm sido, em geral, desencontradas, desarticuladas e inconsequentes. O abandono escolar precoce (sem o 12º ano) atinge 45% dos portugueses jovens, enquanto a média da UE (15) é de 19% e o país mais próximo de nós é a Espanha, com 29%. Em qualquer um dos novos países da UE o panorama é muito melhor. A população global (25-64 anos) com o ensino secundário é de 20%, em Portugal, a mais baixa da OCDE, contra 51% da Grécia, 40% da Espanha e 24% da Turquia. Pior: esta situação está a regredir, avisa a OCDE, em 2004, pois os abandonos no nível secundário (10º,11º e 12º anos) não param de crescer porque o desinteresse pela formação escolar que se tem oferecido não pára de aumentar.”

“ Os alunos portugueses são os que permanecem menos tempo no sistema de ensino, no quadro dos países que formam a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). De acordo com um estudo internacional recentemente divulgado, os nossos estudantes frequentam a escola durante oito anos, menos quatro do que a média dos restantes países com assento naquele organismo”.

Nota: Estes dados estão disponíveis, estão ao alcance de qualquer interessado, são do conhecimento dos responsáveis, provêm de organismos e fontes insuspeitas e pior do que tudo isto...correspondem à realidade!
Transcrevi-os, porque achei útil registar neste espaço de interregno, aquelas realidades indesmentíveis, que explicam a nossa situação e ao mesmo tempo revelam a incapacidade deste regime para nos retirar do fosso em que caímos.

quarta-feira, maio 03, 2006

“Ensino Jesuíta em Portugal”

(...)
"Entre 1540 e 1759 os Jesuítas estabeleceram uma notável rede de instituições educativas, as mais importantes das quais foram o Colégio das Artes em Coimbra, o Colégio de Santo Antão em Lisboa, e a Universidade de Évora. No total, os Jesuítas terão sido responsáveis por 26 colégios em Portugal.
Estatísticas precisas do número de estudantes nunca chegaram a ser estabelecidas. Contudo é sabido que no final do século XVI o Colégio de Santo Antão tinha cerca de 1800 estudantes, o Colégio das Artes cerca de 2000 e a Universidade de Évora cerca de 1600. Por volta de 1759 estima-se que havia 20.000 estudantes a frequentar aulas em instituições de ensino Jesuíta.”
(...)
“Estes números podem não parecer extraordinários quando comparados com outros países europeus, mas são-no no contexto português. Só no final do século XIX é que conseguimos encontrar um número comparável de estudantes no ensino secundário.”


In Henrique Leitão, Jesuit Mathematical Practice in Portugal, Mordechai Feingold (Ed.), Archimedes, Vol.6, The New Science and Jesuit Science: Sventeenth Century Perspectives, Kluwer Academic Publishers.

terça-feira, maio 02, 2006

“Perfilados de medo”

Perfilados de medo, agradecemos
O medo que nos salva da loucura.
Decisão e coragem valem menos
E a vida sem viver é mais segura.

Aventureiros já sem aventura,
Perfilados de medo combatemos
Irónicos fantasmas à procura
Do que não fomos, do que não seremos.

Perfilados de medo, sem mais voz,
O coração nos dentes oprimido,
Os loucos, os fantasmas somos nós.

Rebanho pelo medo perseguido,
Já vivemos tão juntos e tão sós
Que da vida perdemos o sentido...



Alexandre O’Neill
(Poemas com Endereço)

segunda-feira, maio 01, 2006

Hoje não

Hoje não há pão, como dantes.
Primeiro de Maio em que fecha tudo menos a flor que se abre ao sol quente desta manhã tardia. Tardia para quem se levanta tão tarde neste dia! Segui a regra, não saio, não saí, isso é para trabalhadores, gente e termo insultuoso para quem trabalha de borla...ou quase.
Florbela, sempre queres amar perdidamente?
Ou ao menos sonhar, neste dia em que é proibido sonhar!?
Dia de espiga ou espiga de dia, sei eu bem, podíamos sair, ir por aqui e além...além, onde não vive ninguém para além de mim! Para quê tanto trocadilho num dia assim, como hoje, em que não vale a pena sonhar, nem amar, ou quase...
Queres então fazer o quê?
Já percebi, não me conheces, tens medo, preferes a segurança do luar, a vigília de uma noite de espera, em vão...
A tua casa tem pó, falta-lhe uma viola, uma música na madrugada...
Amanhã se verá...virgem desesperada.
Hoje não, hoje... nada.

quinta-feira, abril 27, 2006

Um discurso de boa vontade

“É possível identificar os problemas mais graves e substituir o eterno combate ideológico, por uma ordenação de prioridades, metas e acções”...num País “fortemente marcado pelo dualismo do seu desenvolvimento”.
Apesar do “inegável progresso registado em alguns sectores de actividade”...”essas experiências de vanguarda não conseguem impregnar todo o tecido económico e social, coexistindo nichos de modernidade com expressões de indisfarçável arcaísmo social e cultural”.
“Profundas disparidades revelam-se na leitura do território. É cada vez maior o fosso entre as regiões marcadas por uma ruralidade periférica e as regiões mais urbanizadas”. Que se traduz “num mau viver resignado, sem qualidade e sem horizontes”, e acentua “a dupla exclusão do envelhecimento e da pobreza”.
Mas, “a mais marcante das disparidades que emergem deste Portugal a duas velocidades é a que resulta das desigualdades sociais”. No quadro da União Europeia, Portugal é país “que apresenta maior desigualdade de distribuição de rendimentos. E é também aquele em que as formas de pobreza são mais persistentes”.
“Não é moralmente legítimo pedir mais sacrifícios a quem viveu uma vida inteira de privação”.
Cabe-nos transmitir “ um País mais livre, mas também uma sociedade mais justa”.
Assim falou o Chefe de Estado Republicano, nas comemorações do 25 de Abril de 2006!
Que dizer?
É o retrato de um País do terceiro mundo, clássico, que construímos com orgulho e erro nos últimos trinta e dois anos. Retrato ainda mais sombrio quando se sabe que foi custeado exclusivamente pela União Europeia, na condição de nos desenvolvermos de acordo com os parâmetros civilizacionais há muito estabelecidos para a Europa Ocidental, para o primeiro mundo.
Com a agravante de nos termos desenvencilhado, sem honra, de compromissos históricos, lançando na miséria e na guerra populações inteiras, nos vários territórios que estavam sob nossa administração...há séculos!
Cavaco Silva disse a verdade sobre a situação, pena é que não possa fazer nada quanto a isso. Nem ele, nem nenhum outro Chefe de Estado republicano.
Seria necessário, antes do mais, acabar com as comemorações de guerras civis. São estúpidas, deseducativas e transmitem uma mensagem errada à população!
São estúpidas porque dão a ideia que os portugueses que existiam no dia 24 de Abril de 1974, eram diferentes ou eram outros, no dia 25!!! O mesmo se diga relativamente ao dia 27 e 28 de Maio de 1926! Ou a 4 e 5 de Outubro de 1910, etc.etc.
São deseducativas, e por isso também são estúpidas, porque dão a ideia que existem portugueses maus e portugueses bons, e que uns são sempre maus e os outros são sempre bons!!! É que pode haver quem acredite!
Por último, transmitem uma mensagem errada, convencendo os incautos, que os que perderam a guerra, golpe ou revolução, estão muito contentes nesse dia de ‘festa’!
Nestas condições de rotativismo recriminatório, sem referências, inapelávelmente divisionista, ninguém se salva, muito menos o Presidente.
Ainda que tenha razão.

terça-feira, abril 25, 2006

Canas e foguetes

“Em minarete, mate, bate, leve, verde neve, minuete de luar”...
“Rompem fogo, pandeiretas morenitas, bailam tetas e bonitas... “Voa o xaile, andorinha pelo baile...
“O colete, desta virgem endoidece, como o ‘S’ do foguete,
Em vertigem, em vertigem de luar...”

Que fique Almada em sossego, corramos ao redondel,
É dos lados de São Bento, que nos chega o aranzel!
Onde os suspeitos reúnem, consegui encurralá-los!
Mesmo sem chocas, cabrestos, não foi difícil juntá-los.
São adesivos fatais, entram todos ‘à formiga’,
Já assim eram os pais.
Pois agora que lhes faço?
Do hemiciclo redondo, para onde os hei-de enviar?
Enquanto penso e repenso, vamos então festejar!
Allô Brasil, Portugal, e Colónias de Além-Mar,
Abandonem vossas casas, venham prá rua dançar...
Os figurões estão trancados, não nos vão incomodar.
E havemos tempo para tudo!
Palrar e condecorar, é suprema vocação.
Por isso toca a bailar, enquanto dura a função.


Nota: “Rondel do Alentejo”, de Almada Negreiros, interrompido pelo 25 de Abril de 2006.

domingo, abril 23, 2006

Retribuição

Hoje fiz um poema que não era meu.
O verso no rascunho amedrontado, já existia, perdido entre letras e sinais.
Limpei, raspei, juntei tudo...tudo refeito outra vez.
E o poema revelou-se inteiro como era no princípio!
Já livre, esvoaçou primeiro, mas faltava o golpe de asa derradeiro.
O título, cravado, a tremular ao vento...foi o último alento.
Partiu feliz sentimento na direcção do além.
Criatura bem nascida, não precisa de ninguém.

Post-scriptum: Dedico este ‘postal’ ao Luís Leandro, que o inspirou, e não desistiu de ser poeta!

sábado, abril 22, 2006

"Pau de sebo"

Ser excelente!
O cimo da pirâmide
Impossível de alcançar.
Eu estendo os braços e estico-me...
Breve encontro penitente.

Fosse eu indiferente...
Mas ao menos excelente
Excelência
Alteza
Eminência
Acenando a todos, separado da minha sombra.
Meu ego feito estátua!
Ícone de gelo, só por instantes.
Desaparecer e crescer, suspenso de um outro fogo...
Ou então de novo junto dos vivos!

Nesse caminho,
Gostava de ser excelente
E até sou!
Numa única vontade, rompe-se o luto
Que nasceu desse abismo,
E em segredo foi dizendo tudo.
E em segredo celebro o instante que nos une,
Ao Omnipotente...Divino.
Sem estar obstinado,
Celebro mais um dia vivo!

Luís Leandro

quinta-feira, abril 20, 2006

Alheamento

Ando esquisito, confesso-me distante das coisas, do que se passa à minha volta, não leio jornais vai para quinze dias, não deixei crescer a barba porque a uso crescida, numa palavra, sinto-me alheio.
Lembram-me aqueles tempos mornos em que eu meditava na impossibilidade de mudar o regime. Que afinal fingiu que mudou! Só para me enganar!!!
Uma voz amiga sussurrou-me ao ouvido: será por causa do Belenenses?!
Seja como for, tenho que reagir, ir ao encontro do acontecimento, fazer prova de vida.
Segui então pelo “Último Reduto” até à notícia, já requentada, diga-se, que refere a lista dos deputados da República que fizeram gazeta à última sessão plenária, decerto por ponderosos motivos das suas atarefadas vidas particulares e privadas.
Lá estão eles, uma grande representação do bloco central, lindos meninos e meninas, que tomam conta de nós há cerca de trinta anos, com dedicação e carinho. Não sejamos injustos. Podíamos estar muito pior, olhem o que se passa pelo mundo...na Palestina, por exemplo. Eles bem merecem as ‘pontes’, umas fériazinhas nas excelsas ondas.
A Semana Santa é na praia, nas discotecas, porque a liturgia desta rapaziada tem outras datas. A 25 de Abril ninguém falta! Lá os veremos, à volta do hemiciclo, todos enfarpelados, cravo na lapela e ar solene, agradecidos pela vidinha que têm, discursos e ordens da liberdade, etc.etc....
Idiota sou eu que também lá devia estar! A botar discurso, corda ao pescoço como um Egas Moniz, a pedir desculpa pela má representação, pelas más companhias, a prometer acabar com aquilo o mais depressa possível!
Precipitei-me, mas um dia acontece...

segunda-feira, abril 17, 2006

Princípios

Páscoa poesia, Páscoa reflexão, Páscoa oração.
Recomeço com as últimas impressões, que são as que ficam: uma reflexão sobre a blogosfera, já não é a primeira que leio no Sexo dos Anjos’, que dá que pensar. Recuei de novo ao texto de abertura, com as perguntas inevitáveis a pedir resposta: diário puro e simples, claro que não, como também não pode ser publicação para agradar ao maior número de leitores; nem sequer posso atender ou desviar-me em relação a qualquer gosto específico.
Tenho a minha agenda, o meu fito, aquilo que pretendo transmitir, isso é o mais importante, que deve decidir em caso de dúvida. E se a mensagem não interessa ou interessa pouco (tem sido o caso), ou se por desdita, o problema é do mensageiro?! Aí, paciência, não posso fazer grande coisa, a não ser esperar por melhores dias.
Adiante.
E fica dito: aproveitando a Semana Santa, tenho vindo a publicar, em parcelas, a imponente “Lição” de D. Manuel Gonçalves Cerejeira sobre “A Condição do Cristão na Construção Histórica do Mundo”! Ainda faltam alguns excertos e nesse sentido procurarei editá-los ao longo das próximas semanas, talvez em dia certo, por uma questão de comodidade minha e dos interessados.
Páscoa Poesia revista na planície alentejana, no mar salgado, nas quatro padroeiras! A voz de José Campos e Sousa, os poemas de Pessoa, Sardinha e Pacheco de Amorim, algures na Internet!
Páscoa Doutrina com um excelente texto de Paulo Cunha Porto, no seu ex-futuro espaço, “Calma Penada”: versa sobre o natural acolhimento pela Igreja Católica, de ritos e práticas anteriores (pagãs), reveladoras “dessa curva ascensional do homem primitivo para a Perfeição, que é Deus”.
Páscoa Oração, rezada de forma apaixonada no “Dragoscópio”, na própria Sexta-feira Santa!
E chega ao fim este princípio de semana.

Post-scriptum: E as minhas desculpas pela inaptidão para links, a solucionar brevemente.

domingo, abril 16, 2006

Páscoa

Esperança

Da solidão do ventre,
Passei à solidão da vida,
Quase a solidão de um túmulo!

Quase uma vida!

Solidão que tentei mitigar...
Mas proximidade nunca foi fusão.

No mais populoso aglomerado,
Troquei palavras de prisão em prisão,
Sem esperar resultado.

Sem ser capaz, deixei-me ir...
Talvez fosse a eterna razão?!

De tantos asfaltos montanhosos e escarpados,
Perigosos, talvez...

Existe agora a poesia?

Ascetas e sensuais os poetas,
Homens de uma razão, vivos na solidão,
Queridos, amados pelos homens.
Seus paraísos sem ter fim, vedados ao consciente,
... Já nesse Vale D’Ourado existe poesia.

Luís Leandro

“O cristão e o mundo novo”

Em tudo que foi dito, o cristão trabalha eficazmente pelo homem. Tem por si a experiência da Igreja, que realiza pelo Espírito a obra essencial, fundamento de todas as mais: a de restituir o homem a ele mesmo, para o restituir a Deus.
Antes de mais, endireita como o Baptista os caminhos por onde o Senhor há-de passar, quero dizer: ele faz passar primeiro a verdade e o amor. Sem a verdade e o amor, a justiça ficará cega e converter-se-á em tirania ou em revolta.
Base da civilização antiga era a escravatura. A revolução que havia de a destruir, começou no dia em que os homens souberam, senhores e escravos, a dignidade da pessoa humana. O mundo novo nasceu no interior de cada um, na consciência, antes de se traduzir nas estruturas sociais.
Será sempre assim. O homem novo construirá o mundo novo. Nunca o mundo novo estará concluído, em nenhum momento da história. Estará sempre em trabalhos e dores de nascimento.
O ponto é que o cristão saiba de que espírito é e se deixe levar por ele. Como um vinho novo, fará estalar as vasilhas velhas. Transforma a sociedade, começando por transformar os homens.
Não que despreze o condicionamento humano do mundo, isto é, a adaptação deste ao homem, ou, como também se diz, a transformação, a humanização das estruturas político-sociais. É sempre ao serviço da pessoa humana que trabalha o cristão na história, quando trabalha para Deus.
E assim como S. Paulo disse aos cristãos de Éfeso que despissem o homem velho e se renovassem no espírito vestindo-se do homem novo, o cristão procura recuperar tudo para o homem, tudo o que pode ser salvo: a economia, a política, a cultura.
Trabalha pacientemente com Deus. Cada momento é uma oportunidade, que toma com espírito humilde das mãos da Providência. Ao contrário do marxismo, que sacrifica o presente ao futuro, ele edifica o presente. Não destrói para construir. Não apaga a mecha que fumega, nem quebra a cana rachada. Não abandona o bem real pelo bem imaginado. Não pratica a injustiça para realizar a justiça.

D. Manuel Gonçalves Cerejeira
Cardeal Patriarca de Lisboa

(Última Lição como Professor Catedrático da Faculdade de Letras de Coimbra – 1958) (excerto-continuação)

sábado, abril 15, 2006

“A independência do cristão”

Mas a sua situação não é cómoda. A nenhum dos idólatras apaixonados deixará de ser suspeito. Todos os que estão, inconscientemente embora, contra a pessoa humana o denunciarão.
O escritor francês Bernanos, num livro célebre, deixou cair esta frase: “o oportunismo sagrado da Igreja”. Muitos interpretarão oportunismo no sentido de maquiavelismo. Deveriam antes pensar em transcendência, que não consente a Igreja possa ser prisioneira senão da verdade e do amor.
A todos os sectarismos, o cristão parecerá herético; a todos os messianismos, parecerá conformista; a todas as insurreições, parecerá traidor. O cristão estará sempre em contradição com tudo que é inquinado de idolatria: isto é, que pretenda ser como Deus. O seu oportunismo chama-se antes realismo cristão, sentido do ser, ou (o que é o mesmo) da verdade, da razão, da natureza. O cristão, como tão vivamente sentia o Apóstolo, foi libertado por Cristo das cadeias que faziam gemer pelo Redentor a Criação.
A sua independência, num mundo de tantos altares, menos o do Deus verdadeiro, como outrora na luminosa Atenas, revela-se apenas isto: fidelidade, autenticidade.

D. Manuel Gonçalves Cerejeira
Cardeal Patriarca de Lisboa

(Última Lição como Professor Catedrático da Faculdade de Letras de Coimbra – 1958) (excerto-continuação)

sexta-feira, abril 14, 2006

“Os mitos homicidas”

Porque ignora ou esquece a lei de Deus, a lei natural e a lei cristã (a lei cristã consagra e eleva a primeira), é que o mundo actual recai no pecado de idolatria, adorando ídolos. E estes ídolos são como os cruéis ídolos da antiguidade, que devoram os adoradores. No culto deles, o homem espera a libertação, e torna-se mais escravo; celebra “os amanhãs que cantam” e chora sempre no desespero do presente; anuncia as searas que amadurecem, e nunca chega a colher-lhes o fruto.
À roda do cristão, os homens aí seduzidos por mitos salvadores: sistemas arvorados em dogmas, ideologias tornadas religião, místicas profanas erguidas a evangelho do mundo novo. Esquecida a verdadeira escala humana, desenvolvem-se os monstros; projectos de uma humanidade sem autêntica medida humana, esboços do homem que pretende ser por-si-mesmo, sem saber o que é e sem saber como pode ser; verdades humanas, relativas, que enlouqueceram, revestindo-se de atributos divinos, convertidas em princípios absolutos a que tudo o mais há-de ser sacrificado.
É aí o mito da liberdade, uma liberdade abstracta e absoluta, que destrói as liberdades; o da classe, que ressuscita, laicizado, o conceito messiânico de raça ou classe eleita, e trás consigo a guerra; o do estado divinizado, autoritário ou democrático, não importa, os quais são ambos totalitários, se não reconhecem as limitações e obrigações da lei natural e divina; o do socialismo marxista de um mundo e homem novos, que é construído sobre a imolação dos obreiros que não chegam – não chegarão nunca – a vê-lo; o da eficácia, que subordina a moral ao êxito, o bem concreto ao bem ideal, o presente ao futuro; o da novidade, que renuncia ao poder de julgar, descolora de valores a obra humana, faz do tempo o critério (que é a maneira de não ter critério), destrói a todo o momento o que cultivara; o do regime político, o qual confunde técnicas da organização política com valores morais ou mesmo com o Evangelho, identificando-se com a realização histórica do reino de Deus.
É missão do cristão no mundo de hoje desmitificar as realidades, as esperanças humanas. Ou, como disse certo escritor insuspeito, “desengordurar definitivamente a política da mistura impura do absoluto”. Mais precisamente, trazer os problemas do homem às suas dimensões naturais, colocá-los na verdadeira escala humana, situá-los, concretamente, na sua ordem, na sua medida, na sua natureza, na sua realidade, como já foi notado. O cristão fiel ao seu espírito nem poderá deixar-se embarcar em místicas irracionais, ou irrealistas, que violam a ordem da natureza; nem poderá deixar-se tentar por nenhuma forma de terrenismo. Tudo julga e mede por aquele único metro que mede o homem e a natureza, o Metro que é a medida da criação inteira, o Verbo de Deus feito homem.
E assim o cristão, iluminado pela Fé e guiado pala caridade, trabalha eficazmente no interior das humanas realidades, cooperando com Deus na construção do mundo. Liberta-as, restaura-as, ele salva verdadeiramente o mundo.

D. Manuel Gonçalves Cerejeira
Cardeal Patriarca de Lisboa

(Última Lição como Professor Catedrático da Faculdade de Letras de Coimbra – 1958) (excerto-continuação)

quinta-feira, abril 13, 2006

“O homem e a ordem natural e divina”

Para todo o cristão o Cristianismo significa a plenitude da história. É por ele e nele que o homem atinge a consciência do que é, e encontra os meios de se realizar. Citarei palavras do já nomeado sociólogo inglês Dawson: “ o Cristianismo ensinava que entrara, com Jesus, no género humano e no mundo natural, um novo princípio de vida divina pelo qual a humanidade se via elevada a grau superior. Cristo é a cabeça desta humanidade restaurada, o primogénito da nova criação; e a vida da Igreja consiste no aumento progressivo da Incarnação pela gradual incorporação do género humano nesta ordem superior”.
Torna-se evidente que não se poderá salvar o homem, se se despreza a sua natureza e destino, ou, por outras palavras, a ordem natural e divina. No fundo de todo o problema de civilização e cultura está o problema do conceito do homem. Toda a obra que não respeita aquela ordem, sacrifica a pessoa humana. E como ela é o termo da criação, que de certo modo deve assumir e elevar consigo, degrada esta.
O filósofo Sartre insurge-se contra tal noção de ordem, de lei, de natureza. Elas importariam a ruína da liberdade. No drama filosófico Mouches manifesta claramente o seu pensamento: a recusa, a revolta oposta por Orestes à ordem estabelecida por Júpiter seria a condição da liberdade. Simplesmente, nem Júpiter é o Deus do Evangelho (e não há outro), nem a ordem cristã é essa ordem imutável governada pela lei fatal da necessidade, da filosofia grega.
Ordem natural, lei natural, ordem divina do mundo, não quer dizer alguma coisa de externo, de arbitrário, mas sim fidelidade à natureza íntima, à finalidade intrínseca da criação. É expressão do ser, autenticidade ontológica, esplendor de verdade.
E o Deus do Evangelho é Deus-Amor, como o definiu o Apóstolo teólogo. A lei cristã, a lei da graça, significa comunhão de amor, entre Deus e o homem. É deificação da criatura humana. Restaura, purifica, exalta, sobrenaturaliza. Insere na história a Luz e o Amor de Deus, a própria natureza divina. Numa palavra, é associação e colaboração da Trindade Santíssima e do homem.
E onde a relação é de amor, já não há lugar para servidão, só cabe liberdade.
Desprezar a ordem divina do mundo, desconhecer a natureza e destino do homem, será jazer infalivelmente na desordem, na tirania, no anti-natural e anti-cristão, no infra ou anti-humano.
Deus criador e redentor está no princípio de todo o programa e empresa de salvação do homem. Tudo readquire o seu lugar e valor no universo; refaz-se a harmonia da criação, que o pecado desfez; tudo se recupera e valoriza e hierarquiza, do que foi criado; tudo é salvo.

D. Manuel Gonçalves Cerejeira
Cardeal patriarca de Lisboa

(Última Lição como Professor Catedrático da Faculdade de Letras de Coimbra – 1958) (excerto-continuação)

quarta-feira, abril 12, 2006

“Pessoa humana e civilização cristã”

Avançarei desde já que é missão do cristão na história salvar a pessoa humana. Comecei nesta Universidade o meu ensino estudando o nascimento da Europa, da civilização ocidental, nessa fecunda Idade Média, madre do mundo novo, que tentei reabilitar. Europa, civilização ocidental, se estas palavras têm ainda sentido comum, quero dizer, conteúdo positivo (e não simplesmente situação geográfica), deve-se ao resíduo de valores cristãos. Nasceram, “não sobre uma unidade política, mas sobre uma unidade eclesiástica”, sob as asas maternas da Igreja.
Desta origem provém o humanismo, que é nota essencial da civilização cristã. Com o nome de respeito do homem pelo facto de ser homem, como dizia o velho Guizot, ou o de respeito da pessoa humana, como se diz hoje, ele sobrevive (até quando?) na consciência moderna. Foi Dawson, o sociólogo inglês, hoje professor na Universidade americana de Harvard, quem notou que o mesmo humanismo ateu era fruto restante da árvore cristã. E, na luta de gigantes que se trava aí ante nossos olhos assustados, é ainda ele, “por mais enfraquecido que esteja, que, apesar de tudo, constitui, em face do comunismo, a única unidade de fé que subsiste no Ocidente”.


A situação do cristão na história

Numa visão cristã da história, pode afirmar-se que tudo na criação é para o homem e o homem é para Deus. O Apóstolo S. Paulo, com a sua força habitual, proclamou-o aos neo-cristãos de Corinto: “tudo é vosso e vós sois de Cristo”.
E nestas imensas palavras se condensa o duplo destino, temporal e eterno, do cristão. Como Jesus Cristo mesmo disse, ele está no mundo mas não é do mundo.
Não sendo do mundo, a sua transcendência aos limites do espaço e do tempo impede-o de se deixar reduzir ao mundo. É superior ao mundo, tem um destino próprio, ele é de Deus, tudo deve ser subordinado à sua própria salvação.
E desde já é evidente que não pode jamais deixar-se absorver, sem se negar, “no movimento da existência temporal, no oceano todo-poderoso da história”, ou seja, na classe, na raça, na nação, na humanidade.
Mas estando no mundo, o cristão realiza nele a sua salvação. Não é evadindo-se do mundo, num sobrenaturalismo desincarnado, que logrará ser de Deus. Cristianismo significa incarnação de Deus e deificação do homem. Não é destruindo em si o homem que o cristão se tornará cristão. Pelo contrário, o cristão tornará em si o homem mais homem, na medida em que mais ele for de Deus; explicando, na medida em que melhor se conformar com o Homem-Deus, realizar o Pensamento e o Amor que o criou.
O cristão, pois, deverá empenhar-se, com toda a sinceridade e resolução, nas tarefas temporais tendentes a adaptar o mundo ao homem, de o humanizar, para o restituir a Deus. Fazendo-o, coopera na obra da Incarnação e da Redenção, que assume, restaura e eleva o homem e a criação inteira.
(...)

D. Manuel Gonçalves Cerejeira
Cardeal Patriarca de Lisboa

(Última Lição como Professor Catedrático da Faculdade de Coimbra – 1958) (excerto – continuação)

terça-feira, abril 11, 2006

“A Condição do Cristão na Construção Histórica do Mundo”

“Volto à velha Universidade de Coimbra, ao fim de trinta anos de ausência – para morrer nela como seu professor.
Nem me faltam, conforme é costume e a amizade inspira, os rituais elogios fúnebres, digo, académicos. A Universidade consagra um filho; perdoe-se-lhe, à nossa boa Alma Mater, a cegueira do louvor. Nem se lhe leve em conta que, louvando-o a ele, em grande parte se louva a si, que o formou.
A minha volta aqui é romagem de saudade, certamente. Mas quer ser sobretudo de homenagem à prestigiosa Universidade, que deu brilho ao meu obscuro nome, inscrevendo-me no áureo catálogo dos seus “lentes”.
Recordo agora que lhe chamei, ao começar, velha. Noto, porém, ao revê-la, que está mais nova. Quem está velho sou eu...


O problema do homem no mundo actual

Não iniciarei esta última lição como o salmaticense Fr. Luís de Leon, ao retomar a cátedra, após os tantos anos de reclusão inquisitorial: “como íamos dizendo”. Eu direi antes: - concluindo.
Dissertarei sobre a condição do cristão na construção histórica do mundo. Todos reconhecem que o mundo cresceu, quebrando os antigos limites; a ciência e a técnica estão aí a tentar alargá-lo aos espaços interplanetários; louco de orgulho, já desafiou o Criador, proclamando que também o homem pode povoar o espaço; até promete fabricar um mundo novo e um homem novo.
O problema, todavia, o grande problema, o problema trágico, é se há lugar para o homem no mundo novo, se o homem novo ainda é homem.
Em 1946, consagrado escritor francês abria na Sorbona uma solene conferência da Unesco nos seguintes termos: “No fim do século último, a voz de Nietzsche retomou a frase antiga ouvida no arquipélago: Deus morreu. Sabia-se muito bem o que queria isso dizer; isso queria dizer que se esperava a realeza do homem. O problema que se põe para nós hoje é saber se, nesta velha Europa, sim ou não, o homem morreu”.
Não tem faltado quem creia cegamente no movimento da história. Cada momento seria um avanço. A evolução constante, necessária, do mundo desenvolver-se-ia em progresso indefinido. – Mas não equivalerá isto, sem insistir agora no que historicamente há de errado, a dizer que a história não tem sentido? Neste conceito da história, o que sucede é o que devia suceder. Bem e mal identificam-se na raiz; o êxito consagra tudo. O único critério de valor é o facto da existência histórica. Porque falar então de progresso onde só há movimento? Porque dizer melhor, onde só vale sucessivo? Para julgar a história torna-se necessária uma escala de valores superior a ela.
O historicismo absoluto – e ele é uma consequência lógica do intelectualismo ateu – nega a realidade do mundo moral. Aquilo que distingue o homem na criação, e o forma como tal, isto é, a verdade, o bem, a justiça, o amor, tudo isso seriam grandes palavras sem conteúdo objectivo. O historicismo destrói o homem.
Nem nos detenhamos no pessimismo existencialista que pretende é este um mundo “sem caminho”, e o homem “uma paixão inútil”. Como alguém disse, “a origem de todo o desespero é a crença de que vivemos num mundo absurdo que não tem nem direcção nem fim. Não está o horror no drama, mesmo se comporta peripécias sangrentas e riscos de condenação; o horror está antes na ausência de drama, no caos material de que a criatura pensante não é mais que um elemento inútil. O escândalo não está no sofrimento, mas no sofrimento sem razão, sem causa, no sofrimento inútil e perdido”.
(...)

D. Manuel Gonçalves Cerejeira
Cardeal Patriarca de Lisboa

(Última Lição como Professor Catedrático da Faculdade de Letras de Coimbra – 1958) (excerto)

sábado, abril 08, 2006

Um Padrão com paredes de vidro

Estava plantado em cima da Rosa-dos-ventos, sem tirar os olhos do monumento, não andava nem para a frente, nem para trás!
- Oh homem entre, insistiu o guia! Lá dentro temos um elevador e um filme para você ver! E especiarias!
Nunca entrei no ‘Padrão dos Descobrimentos’, por isto ou por aquilo, falta de interesse. Estou farto de comemorações, desconfio dos comemorativos, aliás, uma raça de impotentes bem conhecida. Mas a malta já tinha entrado toda, eu entrei também.
Antes, tínhamos dado uma volta ao Padrão, acompanhando o esforço dos navegantes e do cicerone para os identificar. São trinta e duas personagens que, de um lado e doutro, parecem empurrar qualquer coisa para o rio!
O Infante D. Henrique, ‘The Navigator’, bem proeminente, de caravela na mão, não se confunde, é o homenageado. Grão-mestre da Ordem de Cristo. O personagem trinta e três!
O motivo: quinhentos anos passados sobre o seu passamento – (1460-1960).
E a oportunidade para reconstruir em pedra, uma estrutura precária utilizada para o mesmo efeito em 1940 para abrilhantar a “Exposição do Mundo Português”.
Então nesse ano a Europa não andava toda em guerra? E nós fazíamos exposições?!
Duas interrogações disparadas sobre a minha pessoa, e tive que me defender:
Primeiro, é para que vejam que ‘Portugal não é só um país europeu...’! Segundo, é para que vejam como nos transformámos num País de eventos!
Terceiro, talvez para lembrar à Europa e ao Mundo, entretanto em guerra, que afinal existíamos! Para que no fim não se esquecessem de nós...nas partilhas, em lugar de nos partilhar!
E seguimos viagem rumo ao pequeno filme de produção francesa, inspirado em biombos chineses, e que mostra os portugueses de nariz comprido e hábitos estranhos...para os japoneses. Uma autêntica descoberta. Tive que fazer um esforço para assimilar o alcance e manter a auto-estima em alta.
Já entre as especiarias, destaco:
- Os autores da Obra: arquitecto Cottineli Telmo e o escultor Leopoldo de Almeida;
- Os retratos da inauguração, onde se lembram: Américo Tomás, Salazar e o seu Ministro das Obras Públicas, também o Presidente do Brasil, Kubitschek de Oliveira, do que me ficou na retina;
- E umas pequenas tabuletas, penduradas na parede, com o registo da guerra civil permanente que vai consumindo a nossa existência!
Sobre o ano de 1960, diz-se o seguinte: “Ano em que Àlvaro Cunhal e outros presos políticos se evadiram da prisão de Peniche...Ano da inauguração do ”Padrão dos Descobrimentos” para comemorar os quinhentos anos...”!
Foi a vez de subir no elevador, e lá do cimo, de costas para o rio, tentar descobrir o Palácio da Ajuda, a Igreja da Memória, o Estádio do Restelo! E outros monumentos.
Mais em baixo, a Avenida da Índia, mais longe, a infância na Junqueira...

quinta-feira, abril 06, 2006

“Sobre o actual momento de política e definição estratégica”

(População toxicodependente)

“Deu-se nos últimos anos uma alteração da população toxicodependente: de um problema maioritáriamente juvenil, passou-se para uma questão sobretudo social, que afecta adultos auto-marginalizados;

Seria da maior pertinência política e social considerar os adolescentes envolvidos em percursos de toxicodependência, não criminosos. O haxixe e o álcool, bem como a cocaína consumida esporadicamente, podem ser substâncias consumidas sem ruptura social por jovens que assim mesmo se manifestam descrentes dos compromissos e expectativas que a sociedade lhes propõe. Não esquecer, por conseguinte, que quem semeia ventos colhe tempestades;

A semelhança na química das substâncias aditivas não dispensa uma diferenciação ética entre as mesmas;


(Descriminalização)

A descriminalização foi uma falácia. Não alterou substancialmente os percursos na justiça. Estes dependem sobretudo da dificuldade em adquirir droga. Só haverá menos toxicodependentes presos se houver liberalização do comércio das drogas. É isso que se pretende?
Pensamos que a descriminalização deu à sociedade um sinal contra educativo. O bem jurídico que consiste na existência de cidadãos responsáveis foi desvalorizado;
Pensamos que é educativo manter o sinal pedagógico da criminalização. O mesmo não é dizer que os toxicodependentes devam ser presos. Pertence ao legítimo poder político criar alternativas consistentes do ponto de vista educativo e solidário;


(Salas de Chuto)

Parece ser um problema nascido mais da imaginação das juventudes partidárias e do BE do que da atenção à realidade;
O partido do Governo parece estar mais comprometido com compromissos tácticos do que convicto da bondade de tal medida;
Se as Salas de Chuto pretendem diminuir os riscos de contágio com o HIV+ erram o alvo. Os eventuais dependentes contagiáveis pretenderam outra coisa que não ser elencados e identificados. Entre os toxicodependentes que eventualmente se encontrem disponíveis para frequentar as Salas de Chuto contam-se sobretudo os já doentes de HIV+;
Por outro lado pensar que assim se consegue trazer para a rede de saúde os mais degradados é esquecer que faz parte da sua própria atitude aproveitar-se da rede de saúde pública para não sair. Dos bairros mais degradados saem os que são perseguidos pela delinquência associada à sua marginalidade e não os que o Estado ajuda a serem marginais;
Pode-se suspeitar que existam interesses corporativos associados às estruturas técnicas do Estado que pretendam ver avançar esta hipotética nova frente de trabalho;


(Algumas sugestões)

Estude-se qual seria efectivamente a eventual população que frequentaria as Salas de Chuto através de um organismo independente das estruturas estatais (por exemplo, através de Gabinetes de Estudo das Universidades);

O que consideramos verdadeiramente preocupante é:

- A situação das prisões;
- A marginalidade adulta entre adolescentes;
- O consumo crescente de haxixe (15% dos jovens estudantes europeus fumam haxixe mais de quarenta vezes por ano);
- A desistência de um discurso e prática educativa de valores e virtudes para promover a integração e normalização sucessiva de sintomas de mal-estar social (Não há drogados felizes – C. Olivenstein);
- Melhorar a segurança de vizinhança de acordo com a Teoria dos Vidros Partidos: o abandono da vigilância acelera o ritmo da degradação...”

(excerto de uma comunicação do “Vale de Acór”, comunidade terapêutica de recuperação de toxicodependentes, que com a devida vénia transcrevo)

quarta-feira, abril 05, 2006

“Sobre o nosso entendimento dos deveres do Estado”

“ O Estado existe, não para proteger os vícios pessoais, mas para promover o bem de todos, porquanto o seu dever mais elevado está ligado justamente ao preceito da caridade: ajudar os débeis, defender os oprimidos, fazer o bem àqueles que vivem em dificuldade (...). A ordem natural baseia-se sobre o extermínio recíproco ou, no melhor dos casos, sobre uma mútua limitação dos homens. A ordem moral é baseada na recíproca solidariedade e a expressão primeira e mais simples de tal ordem é a ajuda gratuita, a beneficência desinteressada.”

Vladimir Soloviev


“...O mundo inteiro indiferente com a desgraça daqueles dezanove anos. O primeiro dever da civilização é evitar que fiquem os desgraçados pelo caminho!
Os desgraçados são a vergonha da humanidade, são a desonra da civilização!
Mas a vida passava-se lá muito acima disto tudo, ocupada com a vida de todos, indiferente com a vida de cada um.”

Almada Negreiros

(excerto de uma comunicação do "Vale de Acór", comunidade terapêutica de recuperação de toxicodependentes, que com a devida vénia transcrevo)

terça-feira, abril 04, 2006

“Sobre a nossa Missão”

“ O amor torna-se o critério para a decisão definitiva sobre o valor ou inutilidade duma vida humana. No mais pequenino encontramos o próprio Jesus e, em Jesus, encontramos Deus”.

“Sobretudo para o pensamento marxista ‘os pobres não teriam necessidade de obras de caridade, mas de justiça”.

“A justiça é o objectivo e, consequentemente, também a medida intrínseca de toda a política. A política é mais do que uma simples técnica para a definição dos ordenamentos públicos: a sua origem e o seu objectivo estão precisamente na justiça e esta é de natureza ética. (...) O que é a justiça? Isto é um problema que diz respeito à razão prática; mas, para poder operar rectamente, a razão deve ser continuamente purificada porque a sua cegueira ética, derivada do interesse e do poder que a deslumbram, é um perigo nunca totalmente eliminado”.

(...) O amor – caritas – será sempre necessário mesmo na sociedade mais justa.
Não há qualquer ordenamento estatal justo que possa tornar supérfluo o serviço do amor. Quem quer desfazer-se do amor, prepara-se para se desfazer do homem enquanto homem. Sempre haverá sofrimento que precisa de consolação e ajuda.
Haverá sempre solidão. Existirão sempre também situações de necessidade material, para as quais é indispensável uma ajuda numa linha de um amor concreto ao próximo. Um Estado, que queira prover a tudo e tudo açambarque, torna-se no fim de contas uma instância burocrática, que não pode assegurar o essencial de que todo o homem sofredor – todo o homem – tem necessidade: a amorosa dedicação pessoal.”

Papa Bento XVI

(excerto de uma comunicação do “Vale de Acór”, comunidade terapêutica de recuperação de toxicodependentes, que com a devida vénia transcrevo).

quinta-feira, março 30, 2006

“Entrou o Bispo”

Dizia-se quando a sopa se pegava ao fundo da panela e ficava a saber a queimado! A origem da expressão nunca a soube ao certo e por isso sempre associei a distracção e euforia que se apoderava das pessoas quando o Bispo as visitava em suas casas, cumprindo uma arreigada prática pastoral. Já se sabe, panela da sopa ao lume, toda a gente de volta do Bispo...e a dita esturricava-se!
Mas o Bispo não entrou! Passou diante do muro da quinta, terá olhado de soslaio para a imponência do portão, e seguiu em direcção ao Asilo mais próximo!
Afinal, tantos velhinhos para visitar, tantos doentes para se inteirar, que não houve tempo para a prevista passagem lá por casa.
As fatias douradas que a minha mãe fez, a ‘irmandade’ convocada, o desconsolo e a incompreensão, tudo isto... porque o Bispo não entrou!
A mensagem poderia ter ficado por aqui, a vaidade também poderia ter ficado por aqui, mas existe um outro ditado, este de origem conhecida, que reza assim: ‘Quem não se sente, não é filho de boa gente’.
E pela minha mãe, que as fatias douradas como eu, arrisco a excomunhão dizendo o seguinte:
Prior e Bispo, umas santas pessoas, mas que comungam por certo daquela deformação que invadiu a Igreja ao mesmo tempo que invadiu o mundo! A regra das maiorias! Com todos os complexos de esquerda daí derivados.
Termino com uma pergunta-resposta: Então os paroquianos não são todos iguais?
Eu acho que não. Prior e Bispo também acham que não, mas por outra razão!
Temos o caldo entornado, mas não esturricado.

terça-feira, março 28, 2006

Segunda-feira à noite

Mais uma noite de guarda àqueles que me protegem, mais uma noite de silêncio, para ouvir falar de teatro! Na televisão!
Programa com um início surpreendente! Desde o primeiro minuto rendido à expressão de Fátima, cada vez mais bela, de encarnado e bem segura! Ontem, enquanto olhava com enlevo e carinho para Manuel de Oliveira, pareceu-me a Lollobrigida!
Eu sei que o isolamento e o próprio ambiente um tanto soturno, que me rodeava, prestam-se por vezes a devaneios que a realidade no dia seguinte desmente, mas foi assim, neste estado de alma, que acompanhei a evolução dos ‘prós e contras’!
Manuel de Oliveira, confirmei-o ontem de novo, é de facto muito mais interessante que os seus filmes. Que são naturalmente obras-primas, não para ver, mas para existirem como tais. Talvez as próximas gerações as entendam...
Não me lembro de ter assistido do princípio ao fim a nenhum desses monumentos, mas fiquei com pena de não ter visto aquele que conta, ou não conta, a história do nosso desventurado Afonso VI, um Rei, que se fosse Inglês, teria direito a verso e prosa pela pena de um Shakespeare. Mas nós estamos assim, incapazes de nos distanciarmos do objecto dos nossos ódios e estimações. Incapazes de dar vida a um personagem histórico que tenha sido Rei! Ou há-de ser um herói indiscutível, ou há-de ser um vilão indiscutível!
Manuel de Oliveira teve e tem no entanto o mérito de ter tentado levar esse drama para uma tela, e será lembrado por isso.
Mas por exemplo, quem se atreveria a ir ver um filme sobre D. Sebastião?
Ou antes, que cineasta, ou que autor, estaria hoje em condições de fabricar uma obra de referência sobre tão controverso personagem? Que lhe fizesse justiça? A ele e a nós? Uma obra que imaginássemos ao mesmo tempo da carne e do osso da nossa história presente... e futura?!
Foi com este pensamento que me esqueci de Fátima, que estava agora de pé e de costas, menos favorecida, a conversar com uma Ministra da Cultura, de pescoço atlético na estreiteza dos ombros, penteado ‘à la diable’, a boca recortada no além-mar, o princípio de outro devaneio!
Tempo para o pano descer sobre mim. Estávamos no segundo acto...

domingo, março 26, 2006

A Madeira do Vosso Descontentamento

Já por mais de uma vez aqui o escrevi a letras garrafais, e repito convictamente:
Quando a história se referir a esta III Republica, iniciada em 25 de Abril de 1974, apenas registará de positivo, na coluna dos ganhos, a criação das Regiões Autónomas da Madeira e dos Açores!
Em termos de perdas, em lugar de grande destaque, a miserável descolonização, a que alguns traidores chamaram exemplar!
Vem isto a propósito do contínuo desgaste a que é submetido o Governo Regional da Madeira, e o seu Presidente, sistematicamente acusados de tudo e mais alguma coisa, nomeadamente de deficit democrático.
Nos Açores a situação só não é semelhante, porque tem havido alternância no Bloco Central, ou seja, entre as duas ‘famílias republicanas’ que desde sempre nos governam.
Criadas em contexto revolucionário, as Regiões Autónomas escaparam ao controle dos seus criadores, que hoje se pudessem recuariam, e daí o arrependimento e raiva, neste caso, de ambas as ‘famílias’!
Não há oposição em Portugal, e a oposição que há, é esta farsa que se repete de tantos em tantos anos, que não é alternância, muito menos alternativa, e corresponde apenas a ciclos de dominação, de uma ou outra das citadas facções.
Eu sei que há quem veja grandes diferenças entre o Estado Novo e a República de Abril! Para mim, para além de frequentarem as mesmas tascas, a democracia orgânica de Salazar, não é assim tão diferente desta democracia super corporativa em que vegetamos.
Era nisto que pensava enquanto lia um artigo de fundo no DN, da autoria do Professor António Costa Pinto, a perorar sob o título: ‘semidemocracias’!
O termo de comparação seria a República Portuguesa! A Madeira, o mau aluno e o mau exemplo! A plena democracia, aqui, na república restante! Mitigada, na ‘mexicana’ pérola do Atlântico! E os sintomas do costume – ‘no partido dominante, nem o dirigente do partido muda’!
Um duplo erro do articulista. A nossa República, globalmente considerada, também é semidemocrática, e estou a ser benevolente: os mesmos dois partidos no poder há trinta anos! A mesma Constituição antidemocrática, vagamente em vigor, com os mesmos dois partidos incapazes de a pôr de acordo com a realidade portuguesa! E aí, continuam de acordo!!!
A Madeira de Alberto João limita-se a responder em termos dialécticos à animosidade que vem do continente, carregada de sonhos de sujeição. Nada mais lógico.
Por isso, enquanto a ‘semidemocracia’ da III República vigorar, Alberto João Jardim vai continuar a ganhar eleições.
E ainda bem.

sexta-feira, março 24, 2006

Se o Iraque não existisse...

Foi uma fatalidade o Iraque...Mas que podia eu fazer? Apertado pelo castelhano, tive que ir até aos Açores!
Mas vou dar a volta por cima, e já não é a primeira vez!
Lembram-se do MRPP?
Para enfrentar os cães do Cunhal, ultrapassei-os pela esquerda. Depois foi só virar à direita e seguir o meu caminho. Fui um herói na Faculdade! A partir daí pude escolher um Partido decente. Sá Carneiro, aliás, esperava por mim, porque sabia que eu era um jovem patriota!
Não me digam que acreditaram na história do maoísmo? Só os otários!
Nasci burguês, morrerei burguês, tudo normal. Aquilo foi mais por causa da miúda... Sempre soube de que lado soprava o vento. É do outro lado do Atlântico. Os américas ajudaram-me bastante, e afinal foram eles que ganharam a guerra.
Arranjei bons amigos na direita, a minha folha de serviços permite todas as liberdades! As nódoas ainda lá estão – “nem mais um soldado, nem mais um tostão para as colónias...” – vão demorar tempo a desaparecer, mas isso já não é para a minha vida.
Quando me lembro disso, até me arrepio! Mas como é que chegava ao Ministério dos Negócios Estrangeiros? Às Colónias? Como é que dialogava com os tiranetes que lá pusemos?
Tudo junto, deu-me a União Europeia!
Aqui um parênteses de elementar justiça: toda a gente vê que eu não tenho nada a ver com aquela malta. Sou um político com outro nível, aquilo é uma cambada de jacobinos! Lembram-se do pobre Buttiglioni!
Mas o Iraque é de facto um problema... A invasão foi um crime, não tenho dúvidas, uma mentira pegada, e prejudicial para as nossas cores. Sempre falei disso com os meus botões, mas ainda bem que eles não falam.
Aquilo é um desastre, qual democracia qual carapuça, guerra civil não tarda...
Aqueles americanos, com os ingleses à arreata, não podem andar para aí a fazer asneiras a torto e a direito! No tempo da guerra-fria eram mais comedidos. É caso para dizer que são piores sozinhos, que mal acompanhados!!!
A União Europeia não conta, quando toca a unir, vigoram como sempre vigoraram os interesses nacionais...dos grandes.
O que me preocupa é como é que eu vou sair desta história?!
A China?
Não há nada como o primeiro amor...

terça-feira, março 21, 2006

Nuno Álvares no Feijó

Sexta-feira passada, dia 17 de Março, a notícia de uma palestra sobre o Santo Condestável. Oportunidade para ouvir de viva voz o Duque de Bragança falar daquele seu ilustre antepassado! A sul do Tejo, no salão paroquial da Igreja do Feijó e por iniciativa do Corpo de Escuteiros local.
Bela iniciativa e belo pretexto.
Grande simplicidade como convém a um Santo, muita juventude, um livrinho a propósito e vamos lá reavivar os meus escassos conhecimentos:
Rompeu com a linha dinástica, soube purificar a memória, não destruiu nada, acrescentou-lhe um novo conceito – Pátria!
Deus, Pátria, Rei. Simples e eficaz!
Herói da minha juventude, outro Galaaz ou Parcifal, foi perdendo fulgor, usurpado pelo regime usurpador. Esteve para ser saneado no 25 de Abril!!! Com outros egrégios Avós!!! Tal foi o uso que dele fizeram, a confundirem o povo, tantas estátuas e ruas...quando ele exigiria apenas o exemplo.
Modelo para a juventude, a juventude não o conhece. Modelo de militar, os militares não o seguem. Modelo de dedicação ao próximo. O próximo que feche a porta!
A conversa seguia informal, o Senhor Dom Duarte falou da canonização em curso e do que isso representaria para Portugal. “Uma lança em África”, digo eu! Lembrando-me da sua insistência em participar, já velhote, na expedição a Ceuta!
Mas um militar que mata castelhanos pode ser Santo?
Na crueldade sem rosto do mundo de hoje, no tempo das ‘guerras preventivas’, a pergunta soa a falso. Nuno Álvares defendeu a Sua Pátria, não atacou ninguém. Poupou até ao limite a vida dos seus homens, e a dos seus inimigos! Que o respeitavam, que o admiravam.
O povo dizia que ele era Santo! Então não há-de ser Santo quem, com o mundo a seus pés, abdica de tudo e entra para um Convento! E mesmo aí, nesse Convento do Carmo, escolhe um lugar subalterno, para se dedicar totalmente aos pobres, aos que tiveram menos sorte na vida.
Por esta altura o espírito do Beato Nuno de Santa Maria já invadia o salão paroquial, os escuteiros atentos, ainda ouviram o empenho com que sempre protegeu as minorias, mouros e judeus, em testemunhos que o tempo não apagou! Uma vez mais a deixar a sua marca intemporal!
Uma última questão. E se o Condestável aparecesse de novo, se visse tantos castelhanos, tanta Europa a dar as suas ordens por aqui, como reagiria?
A pergunta está no ar e respondo eu: por muita compreensão e boa vontade que conseguisse angariar, estou convencido que Nuno Álvares Pereira, repetiria o gesto ameaçador que exibiu perante o embaixador castelhano: a cota de malha ainda ali estava debaixo do burel do monge, para o que desse e viesse. O embaixador castelhano percebeu imediatamente a mensagem.
E entre nós, alguém percebe alguma coisa?

sábado, março 18, 2006

As Cores de Portugal

Interpelado por um ilustre visitante, que não conheço, mas que demonstra preocupação e sapiência sobre a simbologia que presidiu à escolha das ‘cores nacionais’, regresso ao assunto, que por manifesta falta de espaço, não cabe, nem coube, na caixa de comentários do postal anterior.
Já me referi a este tema no ‘Portugal no arco-íris’, mas agora pretendo ser mais explícito.
Quais são, afinal, as cores de Portugal?
A própria dúvida, assim colocada, já indicia uma triste realidade: um dos objectivos do partido republicano foi atingido – ninguém tem certezas, estamos divididos, fomos enganados, já não sabemos quem somos. Os republicanos falsificaram a história, adulteraram os nossos símbolos. Não adianta ver o que não está visível, o que não se entende. O que não está lá, porque foi retirado, de propósito.
Retiraram a Coroa do Fundador, símbolo da Realeza e portanto da Independência, introduziram o ‘verde e encarnado’, seja da União Ibérica, seja da carbonária italiana, símbolo da dependência!
O Branco, onde tudo se pode inscrever, onde inscrevemos o sinal da nossa Missão, a CRUZ, esse caíu! O Serviço que justificou a Independência, ‘o aumento da pequena Cristandade’, aparece apenas, de forma velada, na formação dos escudos e quinas!
O Azul das Terras de Santa Maria, o Azul de Nª Senhora da Conceição, Rainha coroada na Restauração, também desapareceu!
O que resta?
A esfera, coroa fechada de um quinto império, onde não existe a Cruz?
A armilar que abraça o mundo, sem o símbolo Superior do Padrão dos Descobrimentos?
Onde está a Missão? O Estado separado da Nação? Cada um para seu lado?
Paremos para pensar. Existem três momentos culminantes da Independência Pátria, a saber:
Ourique, Aljubarrota e Restauração: Em todos eles se fez juz ao símbolo Fundador – o Branco e a Cruz Azul, mais tarde, o Branco e o Azul em Cruz! A Coroa, quando conquistámos a Independência.
Cabe aqui recordar, para que não existam dúvidas, que o Condestável, ao pôr em causa o direito dinástico, foi percursor, mas no sentido da tradição: ‘Se Deus nos deu uma Pátria, devemos defendê-la’.
Porém, ‘entre os portugueses, traidores houve algumas vezes’.
Assim, no lado errado da história, as datas do anti-Portugal são três também:
O jacobinismo de 1820, acentuado em 1910, e a cobardia de 1974.
Em todos eles fugimos de nós próprios, adoptámos símbolos dos outros, em todos eles trocámos independência por dependência!
Em 1820 renegámos a tradição e aprisionámos o Rei atrás das grades de uma constituição anti-portuguesa. A seguir veio o que se esperava, a guerra civil e a República. Esta, sabe-se hoje, sempre se soube, patrocinada pela Inglaterra que ambicionava as nossas Colónias, tal como as outras potências.
Em 1974, a República consumou o acto e foi altura de nos reformarmos, abdicando de ser uma Pátria Livre e Independente. Não conseguimos assinar a Constituição Europeia, mas estamos muito contentes na Europa. A Europa que nos ature!
Os símbolos seguiram naturalmente todo este percurso de dependências, várias e para todos os gostos.
A matrona de grandes seios mostra à evidência a sociedade infantil em que nos transformámos! O Regicídio, como em França, revela nova faceta infantil e doentia: um acirrado complexo de Édipo. Pelo avesso revela orfandade. Matámos o Pai e procuramos um sucedâneo em qualquer padrasto! De preferência solteiro e beato. Também escolhemos ateus. A seguir vamos a Fátima!
Haverá esperança?
Responde-me o ilustre visitante que o Interregno, não este, o verdadeiro, é ele próprio o sinal iniciático da ‘nova era’! É possível desde que a bandeira volte a ser símbolo do caminho que percorremos juntos há oito séculos. Os desvios e os erros servem apenas para nos indicar que nos afastámos.
O verde e encarnado, são desvios.
A Coroa que falta, é um erro.

segunda-feira, março 13, 2006

As nacionalizações continuam

Somos uma florescente economia de direcção central. Nacionalizamos tudo! Agora é o ‘Gato Fedorento’!
Disseram umas graças, algumas tinham graça, uns anúncios, e aí está a consagração nacional! Com mais juizinho, sem palavrões, porque a audiência é selecta!
Como se houvesse uma audiência mais ‘selecta’ no canal do Estado.
O processo já não sofre dos furores do PREC, e visto de longe parece bastante linear:
- A ‘coisa’ primeiro amadurece, estabelece-se de seguida um largo consenso, os media por sua vez fazem eco, e entre os media, a Televisão Pública chega-se à frente e nacionaliza a ‘coisa’. Fecha-se assim o circuito.
O País entretanto rejubila, mais tarde queixa-se dos impostos, dos funcionários públicos, e finalmente, queixa-se de si próprio!
Vejamos alguns exemplos de nacionalizações de sucesso:
O Benfica em primeiro lugar, esteja em que lugar estiver; o Sporting está sempre em vias de nacionalização; a Catarina Furtado fartou-se rápidamente das agruras do mercado e logo que foi possível quis ser nacionalizada; a PT é um ‘case study’, ninguém percebe se está nacionalizada ou não!
Uma característica une todas estas entidades: adoram ser nacionalizadas! E ao mesmo tempo adoram dizer o contrário!
A única privatização conhecida foi o Herman, que terá caído em desgraça.
Nesta altura quase que apetece gritar: força camaradas, a luta continua.

sábado, março 11, 2006

Uma família feliz

De mão dada, sobem a rampa do Palácio de Belém, felizes da vida, como se tivessem chegado ao topo do mundo. Cume de uma carreira política bem sucedida, um justo troféu para tanta ambição e canseira!
Rei por um dia, ou por cinco anos, talvez por dez, quem não gostaria de ser?
Escrevo estas linhas no divã da psicanálise, expurgado da inveja, do sofrimento da rejeição, dos traumas de infância, de tudo o que possa ofuscar ou diminuir este momento de glória, aquela imagem de felicidade.
Antes porém, debati-me com o meu outro eu, mais selvagem, primário, que me gritava ao ouvido uma série de disparates: que Mário Soares foi coerente ao não cumprimentar o inimigo da véspera, e que essa é uma atitude que está na lógica republicana. Para quê fingir que estou contente com a vitória do outro, se não estou, e se assim a minha neta não pode fingir de princesinha por mais uns anitos?!
O meu outro ouvido também não foi poupado! Dizia-me então a besta que habita dentro de mim: para a República, os Palácios devem ser Museus e não locais de habitação. Os Palácios não são do povo, porque eu nunca vi o povo habitar em Palácios. E continuava o maldizente: o Presidente deve tomar posse no notário e com testemunhas, não há necessidade de festividades e convites. Imagino que quem não votou nele, e ainda foram uns quantos, não deve estar virado para grandes festas, nem quer pagar a conta.
Mas como disse, isto foi antes do correctivo que o psiquiatra me aplicou. Nada de confusões, que eu até simpatizo com o homem.

sexta-feira, março 10, 2006

Um Cabo de Esperança

Quarta-feira, 8 de Março, dia de S. João de Deus.
Um passeio ao Cabo Espichel para festejar os doze anos do Vale de Acór!
Apetece repetir o verso de Camões: ‘Porém já cinco sóis eram passados, que dali nos partíramos, por mares nunca dantes navegados...
Foram mais do que doze sóis... de solidariedade e esperança para muitos, se calhar para todos, sem aritmética, recomeçando sempre, porque é preciso recomeçar sempre.
O dia era de festa mas o promontório, na sua rude majestade, impunha serenidade e limites. Pelo contrário, a memória do Santo rasgava horizontes!
Houve jogos e ensinamentos, almoço e divertimentos, um pouco de tudo.
O casario arruinado, ainda imponente, que inclui um teatro de ópera, recorda aos presentes que aquele local já foi um importante Santuário. Durante o século dezoito chegou a mobilizar vinte e sete freguesias da região saloia, que aqui vinham, em peregrinação, para oferecerem um ‘círio’ à Senhora do Cabo.
No fim, a Missa, para falar com Deus e de João de Deus.
João Cidade, assim se chamava o Santo que nasceu em Montemor-o-Novo, em meados do século XV, que desde criança serviu em Espanha, que trabalhou como pedreiro nas muralhas de Ceuta, que levou uma vida pouco recomendável, que se converteu aos gritos de “Jesus, Misericórdia!”
E que fundou a Ordem dos Irmãos Hospitalários para tratar dos pobres e doentes, e que deixou de pensar em si para pensar nos outros, e que é o padroeiro do Vale de Acór.
O passeio fez-me bem.

quinta-feira, março 09, 2006

O milagre republicano

Com pompa e circunstância cumpriu-se o ritual, Cavaco Silva foi empossado. É o décimo nono Presidente em noventa e cinco anos! O verde e encarnado em pano de fundo e muitos convidados. O Palácio parecia pequeno!
Lá estavam os adversários de ontem aos abraços, esquecidos os insultos da véspera, porque afinal somos todos amigos.
“Não se esqueçam que eu sou o Presidente de todos os portugueses, dos que votaram em mim, mas principalmente dos que não votaram em mim”!
A frase, uma vez proferida, opera o milagre: somos irmãos, estamos de acordo e vamos remar todos para o mesmo lado!
O resto são detalhes do discurso:
Em matéria de política interna, é preciso olhar pelos mais desfavorecidos, até porque eles não param de aumentar!
A construção da Europa precisa do nosso contributo, e nós precisamos do "contributo" da Europa, porque continuamos pobres!
O mar é o nosso destino, e por isso sentei os PALOP à minha mesa. Mas não estamos todos!
A NATO é a nossa defesa, e provávelmente voltaremos a ceder na questão dos Açores, se precisarem de bombardear o Irão!
Mais atentos, os mais interessados: O Príncipe das Astúrias, o Rei de Marrocos, o representante Inglês, e o pai Bush. A União Europeia com Durão e Delors.
Por fim, os ‘finalmente’: o brinde e a medalha. O brinde foi para todos, mas a medalha foi para Jorge. É caso para dizer – a Jorge o que é de Jorge!
E se isto tudo é verdade, e independente da dignidade do empossado, falta no entanto ‘a verdade de tudo isto’!
Falta a verdade da representação, falta o Rei.

terça-feira, março 07, 2006

Promoções de Inverno

Hoje é um bom dia para restaurar a monarquia.
Com Sócrates na Finlândia, entretido com os telemóveis, e Cavaco Silva próximo da investidura, estão reunidas as condições para uma revolução em Portugal!
Não se assustem, não haverá derramamento de sangue, nem transtornos de maior na circulação rodoviária. Será uma revolução tranquila.
Sócrates vai continuar a tratar do choque tecnológico, acumulando o cargo de director-geral da Nokia para o hemisfério sul, e Cavaco pode manter-se como presidente da economia e turismo do Reino do Algarve, para já, sem o além-mar.
Entretanto, uma Regência assegurará o Governo de Portugal.
Que terá como tarefas prioritárias:
Reconhecer que não basta vegetar entre a Europa e o Atlântico. É preciso ter vida própria, ter um rumo, capacidade de manobra e de escolha, o que em gíria política se chama independência.
Reconhecer que apesar dos dislates, incompetências e traições, de que ninguém está isento, as circunstâncias históricas colocaram de novo ao nosso alcance a possibilidade de reconstruir o Reino Unido de Portugal e Brasil, incluindo todas as outras antigas Colónias.
Foragidos da globalização, atirados para a miséria pela ditadura do mercado, cruzam as nossas fronteiras muitos brasileiros, africanos e asiáticos, à procura de alento e pão, para si e para os seus.
Trazem na bagagem a memória de uma longa convivência de séculos que pelos vistos deixou saudades.
Nestas condições, a Regência entende que Portugal não se esgotou, nem se esgotou tão pouco, o contributo que a comunidade internacional deve esperar dos portugueses.
Com efeito, nos territórios onde se fez sentir a nossa colonização, não existem questões raciais ou religiosas por resolver! Caso único no mundo!
Assim, e sem quaisquer complexos, podemos reafirmar que esta é a grande verdade política que mobilizará todo o mundo lusíada, e o único desígnio nacional compatível com a nossa vocação histórica.
O actual regime não tem solução e há muito que vive fora da realidade: já quis ser a Cuba da Europa! Ou o México! A Albânia não foi possível, paciência! Agora anda entusiasmado com a Finlândia e com as semelhanças entre os dois povos!
Em pano de fundo, já sabemos que a solução Filipina é sempre aquela certeza!
Ser Portugal é que está difícil!!!
É por isso que eu penso, que hoje era um bom dia para restaurar a monarquia.

quinta-feira, março 02, 2006

A minha resposta

Mulher do deserto, que desafiaste o Ocidente civilizado, que reclamaste desculpas pelo ultraje, aqui te respondo correndo o sério risco de não ser entendido entre os meus! Esta Europa dos direitos, outrora Cristã, é agora conduzida por homens sem Fé, não sabe pedir desculpas a ninguém!
Tu e a tua burka são a própria negação daquilo que conquistámos, e é por isso que não podemos garantir esse direito mais simples: o respeito pelo outro!
Sabes, quando fizeram aquela caricatura vergonhosa contra o Papa João Paulo II, os católicos, na sua grande maioria, nem reagiram, escudando-se em argumentos que denunciam fragilidade e descrença.
Em Portugal, esse cartoonista deu-se ao ‘luxo’ de publicar na edição seguinte do mesmo jornal, uma nova caricatura a ofender a Igreja Católica, e nada lhe sucedeu. Em nome da liberdade de expressão!
O Governo nada fez, não demandou o insolente, o Ministério Público ficou quedo.
A Assembleia da República limitou-se a analisar um longo abaixo-assinado que solicitava um desagravo. Nada se concluiu.
Existiria sempre a possibilidade de um pedido de desculpas à comunidade católica, por parte do dito representante de todos os portugueses, o Presidente da República. Desculpas que assim chegariam ao mais anónimo dos crentes.
Mas não, o Chefe do Estado ficou impávido.
Como vê, em Portugal, as coisas mudaram muito desde os tempos da reconquista aos mouros, que são, presumo, os seus antepassados. Posso até prever, pela Fé com que continua a defender a sua crença, que não lhe será difícil a si e ao seu povo reinstalar-se de novo aqui na península. Não encontrará grande resistência, porque os católicos estão fraquinhos e a grande maioria dos habitantes são ateus, com mentalidade de escravos.
Agora quanto ao seu assunto, eu tentava um último recurso: escreva à Rainha da Dinamarca.
Estou convencido que ela saberia pedir desculpa em nome dos dinamarqueses.

terça-feira, fevereiro 28, 2006

Partida de Carnaval

Só pode ser!
Recebi esta estranha mensagem, directamente do deserto, em caracteres difíceis de decifrar, mas que ainda assim deixo à Vossa consideração:
“Sou uma pobre mulher, vivo para lá do sol-posto, na Arábia ardente, e soube que fui insultada e vexada na Europa, porque um jornal dinamarquês, resolveu publicar umas caricaturas ofensivas do Profeta Maomé!
Muitos outros dos meus vizinhos também estão revoltados e queixosos contra semelhante atitude e não sabem o que hão-de fazer!?
Dizem-me que o Governo da Dinamarca não é responsável pelo sucedido, pois só lhe cabe assegurar a liberdade de expressão em toda a sua plenitude! Se quiser queixar-me, devo reclamar junto dos tribunais, na Dinamarca!
Como o meu camelo, decerto que não aguenta semelhante viagem, sinto-me de mãos atadas, tal como os meus compatriotas, e imagino que muitos milhões de maometanos?!
Dirijo-me a si porque sei que é católico e também se sentiu vexado quando fizeram uma caricatura indigna do anterior Papa. Que em nome da liberdade de expressão, ficou impune!
Se puder, ajude-me. Se não puder, não respondo por mim quando me aparecer um dinamarquês pela frente.”
Mensagem, de facto, estranha!

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

TIMOR 2006

Ainda se servem de ti, da tua doce ingenuidade, para saírem em beleza!
Fazem discursos ao futuro, ocupam o teu palanque! Trinta anos passados, perdidos e envenenados!
Quem responde pelo tempo?
Rapariguinha sem gramática, de gramática na mão! Sabes por acaso, quem te roubou a gramática, por uma geração?
Tu não sabes e ainda bem.
Agradeces o livrinho do fundo do coração!
A cerimónia prossegue e o Bispo fala do pão. O laico não o entende, insiste na religião!
O fanatismo, diz ele!
É caso para perguntar: quem encomendou o sermão?


Rapariga de Timor,
Pátria na Oceania!
Devolveram-te a gramática,
(a história conheces tu)
Pede-lhes a geografia.

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

Liberdade de expressão

Falaram-me de ir ao cinema! Fazer o quê, se nem gosto de pipocas?! Aliás, não conheço programa mais antiquado!
Mesmo assim pus-me a imaginar como seria uma deslocação, com ou sem companhia, a um desses tugúrios onde mandam as sapatilhas, algumas cuidadosamente colocadas em cima das cabeças da frente.
Estou a exagerar de propósito. Para afastar essa tentação de reviver ‘um antigamente’ onde a matinée de sábado representava o sonho de uma semana de espera.
Mas afinal qual é o cartaz? O que é que a Meca do cinema nos reserva para esta sessão?
Uma informação confidencial: eles agora trabalham em pacotes de propaganda e infestam as muitas saletas de cinema com poucos filmes, mas de mensagem forte, direccionada ao espírito fraco da massa cinéfila. Gasta-se o que for preciso, o dinheiro não é problema!
A arrogância é minha mas a realidade é de publicidade e consumo. De tudo e mais alguma coisa!
Em exibição temos, disse a menina do guichet:
‘Munique’ do Steven Spielberg, para maiores de doze anos; ‘Match Point’ de Woody Allen, também para maiores de doze; ‘O Segredo de Brokeback Mountain’ de Ang Lee, para... – já sei, interrompi eu.
E ainda temos o ‘Bambi II’ e o ‘Orgulho e Preconceito’, acrescentou.
- Sabe, estava-me a apetecer ver um filme com ayatollas e turbantes a fazerem miséria no arraial Cristão?! Uma biografia do Saladino!? Os árabes a serem maltratados pelos judeus?!
- Não temos e digo-lhe já que nunca ouvi falar nesses filmes!
Bem, então ficamos com o ‘Orgulho e Preconceito’.
Dois bilhetes, sem pipocas.

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

“FRACASSO”

Quando supus ser vitória é fumo apenas.

Fracasso, linguagem do fundo, pista de outro espaço mais exigente, difícil de entreler é tua letra.

Quando punhas tua marca em minha fronte, nunca pensei na mensagem que trazias, mais preciosa que todos os triunfos.
Teu rosto chamejante perseguiu-me
e eu não soube que era para salvar-me.
Para meu bem desterraste-me para lugares recônditos,
negaste-me êxitos fáceis, cortaste-me saídas.
Era a mim que querias defender ao não me conceder brilho.
De puro amor por mim manejaste o vazio que tantas noites me fez falar febril a uma ausente.
Para proteger-me deixaste passar outros, fizeste que uma mulher prefira alguém mais ousado, afastaste-me de ofícios suicidas.

Vieste sempre dar a cara.

Sim, teu corpo chagado, cuspido, odioso, recebeu-me na minha mais pura forma para me entregar à nitidez do deserto.
Por loucura amaldiçoei-te, maltratei-te, blasfemei contra ti.

Tu não existes.
Foste inventado pela soberba delirante.

Quanto te devo!
Levantaste-me a um nível limpando-me com uma áspera esponja, lançando-me para o meu verdadeiro campo de batalha,
cedendo-me as armas que o triunfo abandona.

Levaste-me pela mão à única água que me reflecte.
Por ti não conheço a angústia de representar um papel, manter-me à força num alto, trepar com esforços próprios, discutir por causa de hierarquias, inchar até rebentar.
Fizeste-me humilde, silencioso e rebelde.
Não te canto pelo que és, mas pelo que não me deixaste ser. Por não me dares outra vida. Por me teres diminuído.

Ofereceste-me somente nudez.
É verdade que me ensinaste com dureza e tu mesmo trazias o cautério!, mas também me deste a alegria de não te recear.
Obrigado por me tirares espessura em troca de uma letra grande.

Obrigado a ti, que me privaste de vaidades.
Obrigado pela riqueza a que me obrigaste.
Obrigado por me construir com meu barro a minha morada.
Obrigado por me afastares.
Obrigado.

Rafael Cadenas (trad: José Bento)

terça-feira, fevereiro 21, 2006

“O Caso Americano”

Igreja livre e Estado limitado

O carácter religioso da cultura americana e o papel da Igreja no debate público. Eis por que, do outro lado do oceano, uma concordata entre o Estado e a Igreja é supérflua.

Por Paolo Carozza

È difícil, para um europeu que não tenha passado um período de tempo significativo nos Estados Unidos, aperceber-se até que ponto nós, americanos, somos difusa e sinceramente, um povo muito religioso. Sem esta consciência, o frequente hábito americano de invocar Deus em público pode parecer somente um gesto cínico e instrumental e as intervenções por parte dos líderes religiosos em questões de interesse público pareceriam representar uma corrupção da política democrática. Todavia, constata-se sobretudo uma realidade simples: o que afirmamos em público é um reflexo da centralidade da religião na vida da grande maioria dos americanos. Como consequência, os que quereriam tentar eliminar as expressões religiosas da vida política e censurar os contributos públicos dos líderes religiosos, estão a tentar ignorar e negar aquela que é, com efeito, a realidade e a origem do significado da vida de muitas pessoas. Também nos Estados Unidos existem muitos apoiantes de semelhante laicismo anti-humanista mas, nos últimos tempos, tenho notado que em Itália este fenómeno está algo mais difundido e é certamente mais agressivamente ideológico. Mesmo o forte anti-catolicismo presente em grande parte da história americana nunca foi, senão em tempos muito recentes, uma oposição à religião em geral.

Uma questão de história
Todavia, embora seja um ponto de partida necessário, o carácter religioso da cultura americana só por si não é suficiente para compreender o papel da Igreja no debate público nos Estados Unidos. É também uma questão de história, de direito, do conceito tipicamente americano de Estado e, finalmente, do significado atribuído à razão.
Desde o início, a nossa história foi repetidamente marcada pela forte presença da experiência religiosa em cada acontecimento público importante. Da fundação das colónias por parte de exilados religiosos ao papel central desenvolvido pelos cristãos na luta pela abolição da escravatura e no subsequente movimento pelos direitos civis, até aos debates actuais sobre o papel da América no mundo, a concepção religiosa da vida deu significado e forneceu razões à maneira como os americanos entendem a liberdade, a igualdade, a responsabilidade e o bem comum. Ajudou a responder às perguntas sobre que tipo de pessoas somos e sobre o que aspiramos a ser, perguntas que qualquer controvérsia pública importante apresenta, ao menos ao nível implícito.

Liberdade religiosa
A nossa lei defende e respeita o papel central que a religião representou na vida pública. Temos uma concepção de grande amplitude da liberdade religiosa, que reconhece que um elemento importante da liberdade das comunidades religiosas consiste na possibilidade de falar e agir publicamente. Ao mesmo tempo, na América o conceito de “liberdade de expressão” é substancialmente mais amplo que na Europa. A nossa tolerância para com a presença de opiniões baseadas em convicções religiosas em relação a questões sociais controversas, nasce, em grande parte, da ideia que deve ser dado espaço de presença pública a qualquer opinião, por muito impopular ou desagradável que possa ser para alguns. Isto é particularmente importante, dada a grande diversidade de identidades e de práticas religiosas presentes entre os americanos. Não cabe ao Estado determinar o que é aceitável como discurso público, por isto a lei defende a liberdade de todos de exprimir as próprias opiniões.
Aqui existe uma estreita ligação entre a opinião dos americanos sobre o papel da religião nos assuntos públicos e as suas opiniões no que respeita ao Estado. Enquanto que a herança das teorias constitucionais do século dezanove na Europa continental põe em evidência o monopólio do Estado como encarnação do interesse público, os Estados Unidos pertencem a uma tradição constitucional muito mais propensa a ver o Estado como um actor limitado no tecido social. Deste lado do Atlântico uma Concordata parece ser uma resposta à necessidade de instituir uma série de defesas a favor da Igreja contra a pretensão do Estado em deter poder e autoridade exclusivos e definitivos. Todavia, num contexto como o nosso, onde a liberdade da Igreja é amplamente garantida pelos limites estruturais do Estado, uma Concordata parece supérflua. Um exemplo: não há nenhuma necessidade de um acordo especial que garanta à Igreja o direito de instituir o seu sistema educativo, visto que o Estado não detém o monopólio da educação e não pode proibir a criação e a actividade de escolas religiosas.

Troca aberta de ideias
A nossa concepção de liberdade de religião ou de expressão favorece de um modo decisivo uma troca de ideias aberta e sem limites, enquanto que o papel dos grupos religiosos no debate público é submetido a regras e limitações, como (talvez duma forma surpreendente para os europeus) é amplamente demonstrado pelo direito fiscal americano. Entidades sem fins lucrativos, incluindo as organizações religiosas, estão isentas de taxa desde que não se identifiquem politicamente com partidos.
Consequentemente, as igrejas e as outras organizações religiosas estão sempre atentas a não tomar posições que possam favorecer a escolha de um partido em relação a outro ou de um indivíduo em relação a outro, concentrando-se em vez disso sobre os princípios e sobre as questões reais em jogo nos debates de interesse social. Esta tornou-se, portanto, a linha de demarcação entre as intervenções geralmente aceites por parte dos grupos religiosos e aqueles que são considerados ilícitos.
Implícita nesta distinção entre inaceitáveis tomadas de posição politicamente marcadas e intervenções públicas aceitáveis está a convicção de que os juízos sobre questões de interesse público baseados em convicções religiosas podem ser razoáveis. Ou que sejam capazes de dar motivações aos outros, motivações que possam fazer apelo à concepção comum do que é bom para toda a sociedade e de convencer os outros acerca da verdade de tais afirmações. Na América, como na Europa, se bem que talvez a uma escala menor, os que negam que uma perspectiva baseada em convicções religiosas possa falar duma forma adequada de questões de interesse público, têm uma opinião assaz redutora da capacidade da razão humana. Isto é, em definitivo, a grande questão que está em jogo nas discussões sobre a participação da Igreja no debate público democrático. Permitir e defender tal papel é uma afirmação da mais ampla e alta concepção da capacidade da razão de compreender, propor e apoiar a verdade.

In “Passos – Revista Internacional de Comunhão e Libertação”, nº1/2006.

sábado, fevereiro 18, 2006

Portugal no arco-íris

Restabelecido o sistema que rege actualmente a minha ligação com o mundo, posso enfim escrever algumas notas sobre um dos temas centrais da nossa vida colectiva – as cores dos novos equipamentos da selecção de futebol!
É triste mas é verdade, por mais que rebusque, estamos reduzidos à selecção de futebol, vago ponto de encontro entre os portugueses, e mesmo assim envenenado pela simbologia republicana.
Mas olhemos para as novidades:
O equipamento principal é todo em ‘bordeaux’, dos pés à cabeça, com uma pequena risca verde nas mangas e meias. O alternativo, é preto com riscas prateadas no mesmo sítio. Em ambos haverá, estou certo, alguma menção mais ou menos estilizada aos escudos e quinas.
Diga-se desde já que são bonitos e cumprem os principais objectivos da via-sacra republicana que consiste em disfarçar o erro ‘ verde e encarnado’ que em cinco de Outubro de 1910 traiu os símbolos de um País com oito séculos de História. As cores de Portugal, o Azul e Branco Fundador, atirados às urtigas pela raiva e facciosismo de meia dúzia de antiportugueses.
Alguns republicanos mais lúcidos ainda alertaram para o terrível erro histórico que ali se cometia, mas em vão. O ‘país de costas’ não recuou nos seus intentos de impor a versão colorida da união ibérica, afinal tão do seu agrado, pese a permanente necessidade de se justificar, ‘dourando a pílula’ e iludindo os incautos.
O Estado Novo percebeu imediatamente que a bandeira que tinha sido hasteada na Praça do Município, era o produto de uma guerra civil e não podia por isso ser um elemento de unidade, mas sim de divisão e ressentimento. Nesse sentido foi disfarçando como pôde. Os equipamentos da selecção nacional de futebol foram aproveitados para escurecer o encarnado da bandeira e enveredar pela camisola grenat, com calções azuis e meias azuis. E foi mais longe, adoptando como equipamento alternativo, a camisola branca com as quinas ao peito, mantendo os mesmos calções e meias azuis. Alinhámos assim em alguns jogos do campeonato do Mundo de 1966.
Meio problema estava solucionado, mas faltava justificar a aparição do verde na bandeira! Dar-lhe algum nexo.
Foi então a vez da Mocidade Portuguesa e da propaganda do regime explicarem que em Aljubarrota a Ala dos Namorados empunhava flâmulas e pendões verde rubros. Foi o suficiente para que os jovens chefes de castelo e chefes de quina passassem a ser a verdadeira encarnação do Condestável! A ironia descritiva serve apenas para relembrar um velho ditado – ‘o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita’! E não vai lá com operações de cosmética.
Só a verdade faz caminho, e a verdade é que a facção que em 1910 impôs o verde e encarnado aos portugueses, fê-lo contra o azul e branco, para reescrever a história, e não, como agora nos querem fazer acreditar, para construir ou reconstruir o que quer que fosse. Retirando da bandeira ‘as cores da Fundação e a coroa do Fundador’ o que pretendiam aqueles idiotas? Unir os portugueses? Ofender os antepassados?
Agora, o que se está a tornar caricato em toda esta novela das cores da selecção é que, sem darmos por isso, lá vamos cumprindo o programa de destruição identitária idealizado pela maçonaria e pelo partido republicano: a diferença entre o novo equipamento da selecção portuguesa e o da selecção espanhola, resume-se hoje, ao nível das cores, a um pequeno ‘fumo’ verde!
Claro que tudo isto joga com a ignorância das populações, com tentativas de recomposição da memória, com a aposta no esquecimento. Mas não se iludam. Não é uma questão de somenos ou ultrapassada. Nem é como muitos pensam uma questão geracional que eu, à semelhança daqueles traidores, possa relevar ou escolher à minha vontade. Na democracia da história os mortos têm a maioria. É por isso que a memória colectiva costuma reacender-se de repente, de surpresa, numa qualquer esquina da história. Os exemplos multiplicam-se à nossa volta. Mais tarde ou mais cedo vamos ter que emendar o erro e restaurar as verdadeiras cores e símbolos de Portugal.
As dúvidas esclarecem-se com o Fundador.

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

Sem meios e com deveres

Por causa de uma avaria no ‘sistema’, aqui estou eu prisioneiro de uma chamada da menina do ‘sapo’ ou da ‘telecom’, pessoas e entidades que nem conheço!
Antigamente, quando escrevinhava para a disquete e esperava pela respectiva publicação, a cargo de ‘Servidores’ de confiança, nunca tive que ficar em casa a aboborar. Agora, a independência é...isto!
Bem, mas o tema da conversa de hoje é: - ‘a minha liberdade de expressão’ ou em alternativa ‘os meus direitos e deveres’.
Talvez começar por referir que esta questão dos deveres é um assunto muito pouco debatido entre nós, e quando o é, acaba normalmente asfixiado por uma série de direitos da espécie dos cogumelos. Quero dizer que nascem por toda a parte e ao menor descuido!
Fui ensinado a equilibrar direitos com deveres numa perspectiva de contas saldadas. Também consigo perceber que nascemos com mais direitos que deveres em função da fragilidade da vida humana. E compreendo que se assista a uma inversão à medida do crescimento e das responsabilidades assumidas.
Mas a verdade é que a história do homem é sempre contada como uma aventura em busca de direitos, nunca de deveres! As Religiões vão temperando este desfazamento como podem, lembram obrigações e contratos por honrar, vínculos que não se devem destruir, mas nada conseguem contra este verdadeiro massacre de direitos.
Direitos que essa entidade abstracta e mítica a que chamamos Estado deve satisfazer de imediato, sob pena de tumulto ou mudança de governo.
Curioso é que estes direitos se afirmam sempre no mesmo sentido, contra a Fé dos homens!
É talvez por isso que a cada anúncio de um novo direito que me querem atribuir ou dar, eu reajo tão negativamente – como se me estivessem a espoliar de alguma coisa com valor.
Posso então admitir que sou um privilegiado, um reacionário a defender o que é ilegítimo, um entrave ao progresso e desenvolvimento da humanidade na sua caminhada triunfal em direcção ao paraíso!
Vencido mas não convencido, uma dúvida condicional atravessa ainda o meu espírito – se as propostas de novos direitos surgem normalmente do lado dos que não acreditam em paraísos, não andará por aqui um tremendo oportunismo?!
É por esta altura que me costumo lembrar daquela historieta que uma vez certamente aconteceu: - um pequeno grupo de pessoas resolveu fundar um clube para praticar o seu desporto favorito, o pingue-pongue. Mas foi preciso contemplar nos estatutos uns quantos direitos de associação e por essa via foram entrando no clube muitas pessoas que não gostavam de pingue-pongue. Um belo dia fez-se uma assembleia convocada à luz de outros direitos obrigatórios e ficou decidido por maioria que doravante nunca mais se jogaria ali pingue-pongue.
E o clube cresceu feliz e contente.
Não me perguntem para onde é que foram os jogadores de pingue-pongue, porque isso não interessa minimamente.
Eles só tinham o dever de deixar passar o ‘comboio da história’!

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Zangam-se as comadres...

Descobrem-se as verdades! Assim fala o povo, enquanto Valentim se queixa amargamente do silêncio presidencial quanto à devassa do segredo de justiça no caso do ‘apito dourado’!
O Major terá declarado que Sampaio só se preocupa com as escutas e o segredo de justiça, quando o seu número de telefone vem à baila no processo da Casa Pia! No resto anda de bico calado!
Ora não sei se repararam, que escrevi ‘apito dourado’ com letra pequena!? Não foi por acaso, não senhor. A circunstância especialíssima de finalmente termos descoberto em Portugal uma nova forma de criminalidade, altamente desconcertante, que se preocupa apenas em subornar árbitros de segunda e terceira categoria, para obter resultados em campeonatos de divisões inferiores, ou até em competições de solteiros e casados, diz bem da perigosidade dos indiciados e dos seus sofisticados fins!
Bem, o que interessa é que fomos nós que descobrimos ‘isto’, ou não fossemos o grande país dos descobrimentos!
E descobrimos mais: que toda esta gente indiciada, e todos os outros que poderiam ter sido mas não foram, seriam incapazes de mexer uma palha que fosse, para interferir com os resultados dos jogos da 1ª Liga ou Liga de Honra, por razões que à partida não são fáceis de compreender, mas que têm afinal uma explicação bem simples!
Porque está em segredo de justiça vou limitar-me a publicar excertos do que consegui apreender, cruzando alguns dados e informações diversas: parece que esta raça de pilha galinhas segue religiosamente a filosofia das vítimas – ‘grão a grão enche a galinha o papo’!
Para grandes operações financeiras, altos empreendimentos, transferências vultuosas, em cheque ou numerário, não contem com eles! Isto é gente com amor à camisola!
É por isso que podem acumular cargos importantes e ser presidentes disto e daquilo sem qualquer risco para o património público e privado!
Mas não era aqui que eu queria chegar. Eu contei-vos toda esta história porque estou preocupado com o desabafo do Major. Se o homem resolve insistir no tema da pedofilia, estou convencido que aquela profecia inicial pode cumprir-se – muita gente vai engolir o apito e os miúdos da Casa Pia ainda vão presos!
Eu se calhar não vou tão longe. Mas admito perfeitamente uma vasta junção de processos, uma vez que há políticos envolvidos em todos eles!
Ora aqui está uma coisa que os portugueses também já descobriram.

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Se Maomé não vai à montanha...

Se eu fosse um desses ‘cartoonistas de Abril’, democratas dos quatro costados, e me apetecesse usar do ‘sagrado’ direito de liberdade de expressão como muito bem entendesse!
Se eu fosse, por minha própria fé, um desses cadáveres adiados, e sem o saber, sacralizasse o poder e a Missão da Igreja Católica na Terra, ao ponto de lhe exigir um comportamento exemplar, na óptica dos valores do Cristianismo e ao mesmo tempo na óptica da minha perspectiva do que deve ser o Cristianismo!
Se eu subordinasse o tratamento das outras pessoas e das outras culturas e credos, aos ‘sagrados’ princípios em que acredito e considerasse como ‘adquiridos’ pelo resto da humanidade um conjunto variado de ‘dogmas civilizacionais’, tais como: o aborto, o uso universal dos preservativos, o casamento dos homossexuais, a eutanásia...as mulheres com a cara e as pernas ao léu, as salas de chuto, o holocausto dos Judeus, a democracia de Abril, e outros enigmas quejandos!
Se por um acaso achasse que Israel pode ter armas nucleares para se defender, e os Estados Árabes não as podem ter, para o mesmo fim!
Se também por acaso, achasse que existe um terrorismo bom e um terrorismo mau!
Se insistisse no erro de considerar Israel um Estado laico, e clamasse contra os Estados Islâmicos, porque não são laicos!
Se entretanto não perceber, sem qualquer êxtase democrático, que as minhas diatribes só são possíveis e ainda não tiveram consequências funestas para a minha pessoa, porque o Imã e o Bispo estão sentados lado a lado, e do mesmo lado!
Se por fim não perceber que a continuar assim temos o caldo entornado e nessa altura, com consequências desagradáveis para todos!
Então, se não percebi nada disto, é porque sou estúpido e malcriado e ainda por cima estou convencido que os outros é que são!!!
Nestas condições não me posso admirar que os humilhados e ofendidos, um dia, percam a paciência!

terça-feira, fevereiro 07, 2006

‘Com este sinal vencerás’

‘Em nenhuma outra coisa confiado, senão no sumo Deus que o Céu regia... a matutina luz, serena e fria, as estrelas do pólo já apartava, quando na Cruz o Filho de Maria, amostrando-se a Afonso, o animava...
Com tal milagre os ânimos da Gente Portuguesa inflamados, levantavam por seu Rei natural...Real, Real, por Afonso, alto Rei de Portugal!
Já fica vencedor o Lusitano
Recolhendo os troféus e presa rica;
Desbaratado e roto o Mauro Hispano,
Três dias o Grão Rei no campo fica.
Aqui pinta no branco escudo ufano
Que agora esta vitória certifica,
Cinco escudos azuis esclarecidos
Em sinal destes cinco Reis vencidos’.

No dia em que a Liturgia recorda as ‘Cinco Chagas de Cristo’ respondo ao apelo e convoco a nossa memória para ‘Ourique’ em sinal de liberdade e Independência!
No tempo ‘em que novos infiéis vencem’, não tenhamos medo nem vergonha de celebrar este ‘encontro com o sobrenatural’, único na História das nações e que marcou para sempre o nosso destino!
‘Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades’, mas o símbolo permanece e identifica – cinco escudos azuis ‘esclarecidos’, formando a Cruz que transportámos nas Descobertas, cinco besantes brancos a lembrarem as Cinco Chagas que o primeiro Afonso reconheceu no campo de Ourique.
‘Com este sinal vencerás’ – foi e é o pacto constituinte que atravessou a nossa História!

sábado, fevereiro 04, 2006

O Jorge das medalhas

Eu vinha do lado do rio e só queria chegar ao estádio do Restelo.
A dificuldade era a travessia do jardim de Belém sem ser visto por Jorge.
Cozi-me com o muro do Palácio e avancei resoluto, mas em vão.
Jorge estava vigilante e intimou-me a receber a medalha! Tentei resistir, encolhi o peito, escondi o pescoço, nada a fazer, no fim de uma curta refrega, acabei a posar reluzente para a posteridade!
Porquê, se não sou rico nem famoso?
Porquê, se não tenciono dar uns parafusos, a quem me comprar as porcas?
Isso está bem para aqueles estrangeiros que juram que gostam de Portugal e dos portugueses desde pequeninos! Mas eu, que sou obrigado a mourejar sem destino neste jardim à beira mar, não vale a pena incomodarem-se comigo.
Amigos como dantes.
Eu até percebo a política mendicante em vigor. Se poucos trabalham, e muitos vivem encostados ao orçamento, alguém tem que pagar a conta.
A troco de quê, é o único problema!?
Será só da medalha?
Duvido.

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

‘Liberdade’

‘Quando entrei na cidade fiquei sozinho no meio da multidão.
Em redor as portas estavam abertas. A multidão entrava naturalmente pelas portas abertas. Por cima das portas havia tabuletas onde estava colada aquela palavra que sobe – Liberdade!
Entrei por uma porta. Entrei como uma farpa!
Era uma ratoeira, Mãe! Era uma ratoeira! Se eu tivesse entrado como uma agulha podia ter saído como uma agulha, mas entrei como uma farpa, fiz sangue verdadeiro, já não me esquece. Aconteceu exactamente. Dei um mau jeito nos rins por causa da ratoeira! Ainda me lembro da palavra – Liberdade!

Mãe! Vou contar-te como foi.
Havia dois vasos iguais. Um tinha um licor bonito. O outro parecia ter água simples. Um tinha a felicidade, o outro não tinha a felicidade. Era à sorte. A casa estava cheia de gente. Ninguém queria ser o primeiro a começar.

Depois, começaram a beber o licor. Diziam coisas felizes! Coisas quentes que enchem a cabeça toda e deixam os olhos escancarados! Eu vi-os, Mãe! Estavam a aumentar a olhos vistos, juro-te! Os que beberam do outro vaso não divertiam ninguém. Iam-se logo embora. E ninguém já se lembrava deles.
Só ficaram os que gostavam do licor. Eu fiquei com estes. Eu também bebi do licor. Não imaginas, Mãe! Nunca subi tão alto! Ainda mais alto do que o verbo ganhar!

Havia uma rã que tinha entrado comigo ao mesmo tempo. A rã também estava a aumentar.
Depois, quando já estava quase do tamanho de um boi, a rã estoirou. Coitada! Como antigamente, em latim.
Então, pus-me logo a escorregar desde lá de cima, até onde eu já tinha amarinhado; desde mais alto do que o verbo ganhar.
A escorregar, a ser necessário escorregar, a querer por força escorregar, a custar imenso escorregar, a fazer doer escorregar, a escorregar. – O verbo desinchar!
O verbo desinchar dura muito tempo. No fim do verbo desinchar é outra vez a terra, cá em baixo’.

Almada Negreiros “ A Invenção do Dia Claro”

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

‘A lembrança das datas’

Quem hoje se cruza comigo na cidade vive este dia com a tranquilidade dos inocentes! E faz bem, mas ninguém está inocente.
O transeunte que me olha, que me pergunta as horas apressado, não sabe que já não tem nada a ver comigo. Respondo-lhe apenas porque falamos a mesma língua, o que resta em comum, mas se me pedir para ir defender a sua terra não irei, nem ele irá defender a minha!
No dia de 1 de Fevereiro de 1908 quebrou-se o ultimo elo que nos irmanava, que nos unia como comunidade pátria, tantas vezes ferida, muitas vezes maltratada, mas nunca antes decapitada. Os tiros que no Terreiro do Paço mataram o Rei, liquidaram-nos como nação livre e independente. E fizeram de todos nós criminosos.
E porque o pecado original também existe em política, ele só será redimido pelo arrependimento colectivo, por um acto público de contrição que ainda não fizemos.
Que ninguém pense que este é um dia de luto para os monárquicos. Bem gostariam que assim fosse os que lucraram e lucram com a situação. Desenganem-se.
Os monárquicos apenas têm consciência da ferida aberta, mas quem tem que a fechar somos todos nós. Com os representantes da nação à cabeça.
Assim fez Boris Ieltsin, em plena Duma, pedindo que a História lhe perdoasse a ele e ao povo russo pelo crime também hediondo perpetrado sobre os Romanoff.
Volto ao princípio, aquele transeunte nem sabe do que estou a falar, e se soubesse, diria que estou doido varrido.
Mas quem sabe do que estou a falar, quem ousou construir o que quer que fosse sobre o crime do Terreiro do Paço, sabe que não há volta a dar, a não ser desfazer o nó que vai sufocando Portugal.
E já é tarde...