terça-feira, junho 13, 2006

Decoro e bom senso

Começo por lembrar aos caríssimos visitantes deste interregno que sou aquilo a que se pode chamar um antiquíssimo adepto do futebol.
Menino e moço vi futebol nas Salésias, fui praticante, dizem que com algum jeito, e pela vida fora sempre fiz do Domingo à tarde, um dia de ‘bola’. Isto para esclarecer que nada me move contra o desporto-rei, antes pelo contrário. Tenho até, como alguns sabem, um blog dedicado a esse assunto.
Mas se tudo isto é verdade, não esperem encontrar por aqui qualquer apoio à onda de histerismo colectivo, impensável, mesmo para quem se habituou a ouvir que o futebol era, durante o ‘antigo regime’, o ópio do povo. Pois se era, ultrapassou as barreiras de classe, atacou a burguesia, instalou-se nas ‘elites’ bem pensantes, e passou a ser consumido por toda a gente, a toda a hora!
Desculpem-me, mas não estou preparado para no fim de um jogo de futebol, ver e ouvir o primeiro-ministro de Portugal a fazer comentários às incidências e ao resultado da partida! Parece-me um pouco de mais, mesmo considerando que se trata de um jogo a contar para o campeonato do mundo da modalidade...disputado na Alemanha!
A seguir apareceu o Durão Barroso...e ainda fui a tempo de ser esclarecido por um ex-presidente da república, o omnipresente Sampaio! Estavam lá todos!
Afinal, ‘o espírito de Sevilha’ não se perdeu, frutificou, criou raízes.
Mas o que é isto!?
Será que a seguir ao jogo da Inglaterra, o primeiro-ministro inglês estava ali, disponível, para dizer umas baboseiras sobre o que se tinha passado!? Será que a imprensa japonesa andou a correr atrás de algum ministro nipónico para lhe pedir um comentário sobre a derrota da equipa do Japão!?
Enfim, se souberem alguma coisa, digam-me, posso estar enganado.

Entretanto e já que estamos aqui, aproveitemos o tempo para estudar o fenómeno das migrações através deste jogo entre Portugal e Angola!
Se olharmos com atenção para a equipa das quinas, para lá do equipamento terceiro mundista, conseguimos chegar a uma primeira conclusão: trata-se de uma selecção de emigrantes, orientada por um imigrante, muito apoiada por emigrantes e que representa hoje em dia um país de emigrantes e imigrantes.
O símbolo desta selecção é Deco: um imigrante, que se tornou português, para ser emigrante!
E em Angola o que temos: uma selecção de jogadores também emigrantes, que jogam em clubes portugueses modestos, alguns jogadores com a profissão de contínuos, caso de Mateus, outros desempregados, como o guarda-redes, equipa muito apoiada por imigrantes, e orientada por um angolano!
É caso para dizer, as voltas que o mundo dá e as voltas que o discurso político também dá! Não foi assim há tanto tempo que ouvi Mário Soares a gritar: Portugal vai deixar de ser um país de emigrantes! Os que cá nascerem terão paz, pão, trabalho, habitação...como cantava a canção!
Parece que sobrou qualquer coisa, ou então, é para acrescentar...imigração em massa das ex-colónias, incluindo o Brasil!
Quem diria! Em apenas trinta anos!
Uma dúvida: serão imigrantes ou refugiados da miséria, da fome, da guerra, do socialismo, dos tiranetes que por lá mandam?
Deixemos isso, Portugal ganhou, é tudo o que interessa!
Para chatices, já basta o dia a dia.
Saudações monárquicas.

domingo, junho 11, 2006

Enforquem-se com a verdade desportiva

Isso mesmo, apertem bem os cachecóis da alienação, até à asfixia, e depois gritem bem alto “viva a verdade desportiva”! Se ainda há fôlego, quero ouvir o guincho: viva o futebol português! E descansem em paz.
Não cumpram a lei, não punam os infractores, que não é preciso. Sejam felizes, agitem as bandeirinhas, distribuam já as medalhas, comecem pela Liga, sigam para a Federação, não se esqueçam do secretário de estado, seja ele qual for.
Azia? Mau perder?
Erro. Isto não tem nada a ver com o Belenenses, não é um ‘particular’ entre Belenenses e o Gil Vicente, como andam para aí a enganar as pessoas, isto tem a ver com o cumprimento ou incumprimento duma norma simples e objectiva: quem recorrer para fora do ordenamento desportivo para aí obter uma vantagem sobre todos os outros competidores, é punido com a descida de divisão.
Mateus não podia jogar no mesmo ano na condição de amador e profissional, esta a questão. Conseguiu ultrapassar essa impossibilidade recorrendo aos tribunais comuns e jogou, até marcou golos, mas isso é indiferente. A Académica protestou, o Vitória de Setúbal também protestou, invocaram os motivos que entenderam invocar, o que também é indiferente, porque quem deve zelar pelo cumprimento das normas que regem o futebol profissional é a Liga e a Federação, porque são estas entidades que as produzem e que dispõem dos competentes organismos jurisdicionais.
Repito, não cabe aos clubes, individualmente, assegurar o cumprimento do normativo desportivo que todos se comprometeram voluntariamente a respeitar.
Não cabe portanto ao Belenenses a iniciativa de suscitar uma questão que era há muito do conhecimento da Federação e da Liga! Não se enganem, o eventual ‘beneficiado’ com o cumprimento da lei, não é o Belenenses, são todos os clubes da Liga, incluindo o Gil Vicente. Se assim não acontecer, o futebol não tem qualquer credibilidade pois cada um faz o que lhe apetece, desde que conte com o ‘colaboracionismo’ infame dos ‘donos da bola’!
Foi aliás o que se passou vergonhosamente esta semana na Comissão Disciplinar da Liga, onde aconteceu de tudo: Um filho do vice-presidente do Gil Vicente que deixou de o ser quando chegou ao Porto, uma votação assumida em Lisboa que se alterou no Porto, um ‘voto de qualidade duvidosa’, não previsto para um órgão com numero ímpar de membros.
E sem que tenham ocorrido outros factos, a não ser uma diferença de latitude, e uma viagem de um dirigente da Liga com um envelope, pelos vistos violado, o envelope, claro.
Vir, depois disto, falar de verdade desportiva, obtida dentro das quatro linhas só pode ser brincadeira de mau gosto! Mas realmente explica, e de que maneira, qual é a verdade desportiva que esteve presente no desenrolar do campeonato.
Esta cena edificante que já levou à demissão de dois juízes e à extinção, por falta de quórum, da dita ‘comissão disciplinar da liga’, promete realmente desenvolvimentos interessantes e pela minha parte espero que cale de vez essas virgens ofendidas que gostam de proclamar a verdade desportiva quando não estão em causa os interesses dos clubes do estado, com letra pequena.
Termino com este desafio entre o Belenenses e o resto do mundo: se entendem que é ilegítimo que o meu Clube, o provável beneficiado pela aplicação da lei, aceda à primeira Liga por um motivo qualquer que não vislumbro, realizem o próximo campeonato com quinze clubes, porque o Gil Vicente, esse, a ser cumprida a lei, tem que descer.
Saudações desportivas.

sábado, junho 10, 2006

Uma estrofe ao acaso

“Fazei, Senhor, que nunca os admirados
Alemães, Galos, Ítalos e Ingleses,
Possam dizer que são para mandados,
Mais que para mandar, os Portugueses.
Tomai conselho só de experimentados,
Que viram largos anos, largos meses,
Que, posto que em cientes muito cabe,
Mais em particular o experto sabe.”

“Os Lusíadas” de Luís Vaz de Camões

quarta-feira, junho 07, 2006

Dependências

Evito, e nem sei se faço bem ou mal, opinar sobre matérias que fazem parte da minha actividade do dia a dia, que exprimem vivências onde existe grande sofrimento, e em que se fica sempre com a sensação de que as teorias, por mais explicativas, nunca atingem o cerne da questão: o homem e esse mal-estar interior que o leva a percorrer caminhos de dependência e solidão.
Depois, para falar de dependências, nada melhor do que começar pelas nossas, tantas vezes ignoradas ou escondidas atrás de comportamentos aparentemente saudáveis, só aparentemente livres!
Por isso evito e acabo por mudar de tema.
Acontece que sou muitas vezes confrontado com a ignorância triunfante, afinal tão comum, que faz parte inclusivamente do discurso oficial, aquele que aposta em políticas de ‘redução de danos’ ou de ‘substituição de drogas por outras drogas’, em lugar de combater frontalmente o flagelo, autêntica epidemia que vai assumindo sempre novas formas, e que não recuará perante medidas meramente apaziguadoras.
É assim que vejo as dependências e o seu combate:
O princípio básico nesta matéria reside na coragem do diagnóstico, que deve ser capaz de pôr em causa o nosso estilo de vida, chamar o mal pelo mal e o bem pelo bem, sem tergiversações, sem medo de ser atingido pelas suas próprias armas.
Sempre existiram e sempre vão existir dependências, vícios, mas não estamos a falar disso. Estamos a falar de um pandemónio que se abateu sobre a humanidade e cujas causas ninguém quer ouvir falar!
Porque será?
Naturalmente porque elas nos conduziriam às ideologias dominantes, àquelas que ditam os nossos comportamentos actuais, que conformam o quotidiano das nossas vidas: o materialismo, o ateísmo, o egoísmo, e outros “ismos” mais ou menos semelhantes.
Como consequência, a escalada dos baixos instintos, a destruição ou relativização de valores básicos civilizacionais, conquistados com tantos sacrifícios, e que vão submergindo neste mundo que tudo descarta e consome!
Termino como comecei: o verdadeiro problema não são as substâncias, mas os comportamentos que nos levam às dependências. As substâncias funcionam como mera ‘bengala’, sem esquecer que há inúmeras dependências que não usam sequer substâncias, como é bom exemplo, o vício do jogo.
Perceber as causas e assumir a realidade da própria dependência, são o único caminho para a liberdade.
Quase que apetece repetir: “Um doido quando sabe que está doido, já não está doido”.

terça-feira, junho 06, 2006

A guerra dos dias

É uma espécie de contra-cruzada, lançada de longe pelas forças ocultas que não se conformam com a herança Católica, que não se conformam com o calendário gregoriano, nem se conformam com a história!
Se pudessem eliminar o dia de Natal, o seu significado religioso, não hesitavam.
Não se trata, infelizmente, de mais uma teoria da conspiração, porque já tentaram fazê-lo explicitamente a seguir à Revolução Francesa, mudando os nomes dos meses, apagando os dias santos, com o objetivo de edificarem uma religião de Estado com calendário próprio, mas dessa vez, o povo e a memória resistiram. Não vão desistir, e sempre que podem avançam, normalmente apoiados pelos idiotas de serviço.
Estes distinguem-se fácilmente pelas posições contraditórias que adoptam, a respeito de datas. Por exemplo, a propósito do Natal, repetem – “Natal deveria ser todo o ano”. Quando por outro lado se objecta contra a desnecessidade de andar a instituir dias disto e daquilo, reagem dizendo – “ é uma maneira das pessoas se lembrarem do ‘evento’, ao menos uma vez por ano”!
Assim esclarecidos passa a haver dias para tudo, ao sabor da moda, do interesse, da imaginação mais ou menos doentia. Mas a finalidade óbvia é, não temos dúvidas, desvalorizar e banalizar as datas de culto religioso, e já agora também político, apagando da memória dos povos episódios relevantes da sua história, mas porventura incómodos para a prossecução de fins inconfessáveis.
Só que as coisas nem sempre correm bem! No seu afã de mostrar serviço, os tais idiotas úteis às vezes exageram, desorientam-se e caiem no ridículo.
Foi o que aconteceu quando avançaram para “o dia do cão”, esquecendo e atropelando uma série de pessoas e animais que estavam em fila de espera!
Não se faz, foi mau para os cães e para os respectivos donos.
Na altura lembrei-me apenas da imagem de marca de uma célebre editora de discos: “His master’s voice!”!

sexta-feira, junho 02, 2006

Eu não sou eu!

É verdade, fui ultrapassado pelo escriba deste ‘espaço’, que texto atrás de texto se vai paulatinamente afastando do seu autor e mestre! Situação insólita que noutras circunstâncias já teria merecido um forte puxão de orelhas ou ao menos uma conversa de homem para homem. Mas vai ter de ser.
É caso para dizer que este ‘jsm’, me saiu melhor que a encomenda!
Senão vejamos:
Eu sou de facto monárquico, mas muito mais acomodado, muito mais pachorrento, sem as crises voluntaristas de que parece padecer o meu indisciplinado discípulo!
Também sou Católico, claro, mas o cruzado que habita dentro de mim, há muito que despiu a cota de malha, há muito que deixou enferrujar a velha armadura. Ao contrário, e sem que o possa refrear, ‘jsm’ esvoaça inquisidor pelos claustros, frequenta o culto com mais assiduidade do que eu, transformou-se num peregrino que não consigo acompanhar! E quando tento, acabo derreado, exausto.
E depois temos o problema dos tiques: um certo anti americanismo até compreendo, embora tivéssemos combinado disfarçar, mas com franqueza, o Professor Salazar não merecia as invectivas deste ‘antifascista’ fora de prazo!
Inexplicavelmente, e pelo que tenho lido, simpatiza ou condescende com personagens do Índex, como o Dr. Jardim da Madeira, ou o ‘defunto’ Santana Lopes, e outros figurões que nem me atrevo a mencionar.
Um outro tique que está a assumir uma feição patológica, é aquela mania das autonomias por tudo e por nada! Aqui temo o pior, a situação parece-me que já está fora de controle, até do próprio ‘jsm’!
E abstenho-me de comentar a recente veia poética...com a qual tenho sido bastante tolerante!
Noutra vertente, toda a gente sabe que sou do Belenenses! Pois bem, nem de propósito, aqui as coisas invertem-se! Eu sou muito mais faccioso do que ele! Anti-benfiquista de longa data, tenho a justa fama de mau perder e de provocar discussões em toda a parte.
Entretanto o que faz o sonso do ‘jsm’?! Aparece-me moderado, cordial, armado em desportista!
Não há paciência! Vou ter que pôr este indivíduo na ordem.
Enquanto isso não sucede, os textos aqui publicados terão de ser olhados com alguma reserva, incluindo este.

segunda-feira, maio 29, 2006

O Reino Unido resolve

“Não estou a pensar em independências tipo Cabo Verde ou Timor...Saber se a Madeira é auto-sustentável é uma das matérias que teremos de analisar profundamente...Nós queremos continuar na Pátria comum, mas temos o direito de não querer aturar certas coisas...Encontrar um sistema jurídico que mantenha a coesão e unidade nacional mas... que não nos obrigue a ter de suportar um pensamento único dominante...”.
Assim se pronunciou Alberto João Jardim no encerramento do congresso do PSD/Madeira e já imagino o coro dos seus inimigos a entoar o refrão: pobre e mal agradecido!
Já a solo, a questão parece-me legítima e deve ser discutida sem complexos, até porque pode contribuir, no caso das Regiões Autónomas para afastar a permanente tensão e restabelecer a confiança, no caso das independências fictícias de Cabo Verde, Timor, São Tomé, etc., para viabilizar uma solução estável em ligação com a antiga metrópole.
Ora, nestas condições, só existe uma fórmula eficaz de associação política, que a história já testou largamente: é o Reino Unido.
A história também confirmou que estas associações políticas de base voluntarista e com grande autonomia, longe de fomentarem o egoísmo, acentuam a solidariedade entre os seus membros.
Jardim deu o pontapé de saída, nem terá pensado no Rei, mas este Interregno não vê outra solução.

sexta-feira, maio 26, 2006

Uma vergonha

Mortos espalhados pelas ruas, irmãos timorenses, num descalabro mais do que previsível...enquanto Sócrates espera pelo aval da ONU!!!
Só ajudamos Timor se a ONU nos autorizar!!! E subsidiar!!!
Miserável política, prisioneira das “descolonizações exemplares”, comprometida com o egoísmo, que prefere suicidar-se a emendar o tremendo erro.
Enfiados nesta espécie de recreio infantil, jogamos à bola, e esperamos que os outros, os adultos, cumpram os nossos deveres. Como as criancinhas, quando fazem asneiras, também temos desculpas para tudo!
Os outros, os povos adultos, esses não esperam por autorizações de ninguém quando estão em causa catástrofes anunciadas. Avançam e ajudam.
Dizem que já fomos assim...

quinta-feira, maio 25, 2006

Então, Portugal!?

Estamos à espera de luz verde da ONU!
Luz verde, quererá dizer dinheiro?
Enquanto os outros se antecipam! Outros, que não os colonizadores!
Colonizadores, também responsáveis pela aventura da independência Lorosae!
Mas afinal onde está a solidariedade de quinhentos anos de vida em comum?
Ou será que o Iraque, Afeganistão, ou a Jugoslávia, nos interessam mais?
Mais dinheiro e menos risco, será?
Mercenários da solidariedade, seremos?
Timor fica do outro lado do mundo, eu sei. Soubemos sempre. Mas que diabo, nós é que inventámos aquele ‘problema’! Que não era problema.
Temos que lá ir e depressa, antes que descambe. Ou Timor só serve para ganhar votos e despedidas presidenciais!?

Nem de propósito, quando regresso a casa costumo atravessar a recém inaugurada Avenida Timor Lorosae, ali para os lados do Monte da Caparica. Hoje não se podia passar, estava em obras, vedada ao trânsito! Estranha coincidência!
Fui de volta, e no resto do caminho dei comigo a pensar se não seria mais apropriado mudar-lhe o nome para Avenida Camberra!

quarta-feira, maio 24, 2006

Cidadãos

Salazar separou a Igreja do Estado!
Impôs-lhe uma Concordata duríssima!
Para a proteger da coligação jacobina que chefiava?
Em obediência ao cânone de uma religião de Estado soprada pelos ventos da história?
Nunca o saberemos.
Hoje, os republicanos seguintes, querem completar o trabalho. Em cerimónias de Estado, os Dignitários da Igreja Católica deixam de ter lugares marcados.
É assim que funciona a Pátria dos cidadãos. A Instituição de referência não é constituinte!
A mentalidade vigente é essa: olham para o deserto e só vêm areia!
Curiosamente, muitos dos que se afirmam Católicos, acolhem a ideia!
Vencidos e convencidos.
Como é que acaba uma crónica destas?
“Allons enfants de la Patrie...”!?
Podem ir...que eu não vou.

sábado, maio 20, 2006

“Desaprender”

“Há uma altura em que, depois de se saber tudo, tem de se desaprender. Sucede assim com o escrever. Com o escrever do escritor, entenda-se. Eu, provavelmente poeta, estou a aprender a... desaprender. E para quê e como se desaprende? Para deixar de ronronar, para que o leitor, quando o nosso produto lhe chega às mãos, não exclame, satisfeito ou enfastiado: ‘ – Cá está ele! ‘
Na verdura dos seus anos, a preocupação do escritor parece ser a da originalidade. Ser-se original é mostrar-se que se é diferente. E as pessoas gostam das primeiras piruetas que um sujeito dá. E o sujeito gosta de que as pessoas vejam nele um talento.
Atenção, vêm aí as receitas, as ideias feitas, os passes de mão, os clichés, os lugares selectos ou, mais comezinhamente, os lugares comuns. O escritor está instalado. Revê-se na sua obra. Começa a abalançar-se a voos mais altos, a mergulhos mais fundos. É a intelectualidade que o chama ao seu seio, o público que o põe, vertical, nas suas prateleiras. Arrumado.
Quase sem dar por isso, o escritor acomodou-se e tornou-se cómodo, quando propendia, nos seus verdes anos, a incomodar-se e a tornar-se incómodo. Organiza dossiers com os recortes das críticas que lhe fizeram ao longo da sua carreira (nome, já de si, chamuscante), vai a colóquios, celebrações, congressos. Ganha prémios. É traduzido e publicado no estrangeiro. Por desfastio (e porque não, algum dinheiro) aceita colaborar em conspícuas revistas ou em jornais efémeros como o dia-a-dia em que vão sendo publicados. Está de tal modo visível que já ninguém dá por ele. É o escritor.
Se as coisas continuarem indefinidamente assim, o escritor pode ser alcandorado a gloríola nacional, com todos os direitos inerentes a uma situação dessas: academia, nome de rua, estatueta ou estátua, tudo isso em devido tempo, quer dizer, já velho ou já morto o escritor.
Pedra campal sobre o assunto.

Este é o exemplo do escritor autófago. Comeu-se a si próprio, melhor dizendo, comeu a sua própria imagem. Não por aquela devoração que o acto de criar traz consigo, mas por excesso de confiança na pessoa literata que projectou, como um halo, para todos os lados da sua figura.
E de que outro modo poderia ser?
Para não falar de modéstia – e afastando, desde já, qualquer vislumbre de proselitismo – eu arriscaria dizer que estará condenado a si mesmo todo o escritor que não prestar mais atenção aos outros e às coisas deste mundo do que à sua – sem dúvida importante, sem dúvida decisiva – preciosa personalidade. O segredo da abelha é esse. Quem não tiver uma curiosidade encarniçada por tudo o que o rodeia, quem alguma vez supuser que dá mais do que recebe, está perdido para o tal desaprender que repõe em causa ideias e formas. É que, depois de se saber tudo, estará sempre tudo por se saber.
O criador deve ter a consciência de que, por melhor que crie, não consegue mais do que aproximações a uma perfeição que lhe é inatingível. Ele é um derrotado à partida. Sabê-lo e, apesar de tudo, prosseguir, é o seu único e legítimo motivo de orgulho.
O resto é bilros.”

Alexandre O’Neill

quarta-feira, maio 17, 2006

A paternidade perdida

O ministro começou pelo telhado, sem perceber os fundamentos! O municipalismo, muito em voga em certos espíritos, é curto, não tem ligação por cima, não une, desune, e não pára a desertificação.
O traço de união só pode surgir, ou ressurgir, com as autonomias regionais, como nos Açores e Madeira, que se desenvolveram, mantendo e aprofundando o sentido de pertença.
No continente, temos que restaurar esse elo perdido. Um alentejano é um alentejano; um minhoto sabe que é minhoto e esse apelo ainda tem ressonância!
A República unitária, na linha do liberalismo centralizador, imaginando reforçar a ‘coesão nacional’, ou pretendendo apenas impor-se, destruiu de facto o poder local, transformando o País na tal ‘campina rasa’ do desânimo, que é hoje o nosso habitat. Neste meio só floresce a desconfiança e o egoísmo. A coesão nacional está por um fio.
O ministro pertence a um Partido que aparentemente defendeu a regionalização, e por isso deveria saber que qualquer reforma que favoreça um município em detrimento de outro, não é compreendida. Porque vai exacerbar rivalidades doentias, porque corre o risco da prepotência, porque todos desconfiam que não serve para nada!
Amanhã, invocando os mesmos argumentos técnico-economicistas, estaremos a recuar maternidades para Lisboa, para o Porto, e de certeza para Badajoz! É um jogo perdido.
Mas eu sou suspeito, porque acredito que a monarquia virá com o regionalismo.
O tal traço de união, por cima.

segunda-feira, maio 15, 2006

“PARA A MEMÓRIA DE ANTÓNIO NOBRE”

Quando a Hora do ultimatum abriu em Portugal, para não mais se fecharem, as portas do templo de Jano, o deus bifronte revelou-se na literatura nas duas maneiras correspondentes à dupla direcção do seu olhar. Junqueiro – o de Pátria e Finis Patriae – foi a face que olha para o Futuro, e se exalta. António Nobre foi a face que olha para o Passado, e se entristece.
De António Nobre partem todas as palavras com sentido lusitano que de então para cá têm sido pronunciadas. Têm subido a um sentido mais alto e divino do que ele balbuciou. Mas ele foi o primeiro a pôr em europeu este sentimento português das almas e das coisas, que tem pena de que umas não sejam corpos, para lhes poder fazer festas, e de que outras não sejam gente, para poder falar com elas. O ingénuo panteísmo da Raça, que tem carinhos de espontânea frase para com as árvores e as pedras, desabrochou nele melancolicamente. Ele vem no Outono e pelo crepúsculo. Pobre de quem o compreende e ama!
O sublime nele é humilde, o orgulho ingénuo, e há um sabor de infância triste no mais adulto horror do seu tédio e das suas desesperanças. Não o encontramos senão entre o desfolhar das rosas e nos jardins desertos. Os seus braços esqueceram a alegria do gesto, e o seu sorriso é o rumor de uma festa longínqua, em que nada de nós toma parte, salvo a imaginação.
Dos seus versos não se tira, felizmente, ensinamento nenhum.
Roça rente a muros nocturnos a desgraça das suas emoções. Esconde-se de alheios olhos o próprio esplendor do seu desespero. Às vezes, entre o princípio e o fim de um seu verso, intercala-se um cansaço, um encolher de ombros, uma angústia ao mundo. O exército dos seus sentimentos perdeu as bandeiras numa batalha que nunca ousou travar.
As suas ternuras amuadas por si próprio; as suas pequenas corridas de criança, mal ousada, até aos portões da quinta, para retroceder, esperando que ninguém houvesse visto; as suas meditações no limiar;... e as águas correntes no nosso ouvido; a longa convalescença febril ainda por todos os sentidos; e as tardes, os tanques da quinta, os caminhos onde o vento já não ergue a poeira, o regresso de romarias, as férias que se desmancham, tábua a tábua, e o guardar nas gavetas secretas das cartas que nunca se mandaram... A que sonhos de que Musa exilada pertenceu aquela vida de poeta?...
Quando ele nasceu, nascemos todos nós. A tristeza que cada um de nós traz consigo, mesmo no sentido da sua alegria, é ele ainda, e a vida dele, nunca perfeitamente real nem concerteza vivida é, afinal, a súmula da vida que vivemos – órfãos de pai e de mãe, perdidos de Deus, no meio da floresta, e chorando, chorando inutilmente, sem outra consolação do que essa, infantil, de sabermos que é inutilmente que choramos.

Fernando Pessoa

sábado, maio 13, 2006

Um ano depois...

Num dia treze de Fé,
Num mês de Maio florido,
Vindo do nada,
Apareceu!
Tinha a Cruz do peregrino.

Interregno de seu nome,
Intervalo sem sentido,
Talvez a Virgem lhe valha,
E lhe dê outro destino.

sexta-feira, maio 12, 2006

O Portugal dos Pequeninos

Sou monárquico por mil e uma razões, mas sobretudo porque acredito que o regime monárquico poderia significar uma vida melhor, não apenas para mim, mas para o meu vizinho, e para aquele outro, que não é meu vizinho, mas que se sente parte da mesma comunidade. Noutra perspectiva, porque respeito o legado dos antepassados, herança que gostaria de transmitir acrescentada aos vindouros.
Portugal é esse sonho palpável, um caminho percorrido por muitas gerações, com alegrias e tristezas, vitórias e derrotas, sem perder o rumo!
Dito isto, olho à minha volta e verifico que a palavra monarquia continua envolta em estranhos pensamentos, estranhas ligações, a que se associa atraso, coisa antiquada, que não existe nos países civilizados e desenvolvidos... Note-se, estou a descrever uma mentalidade que persiste no século XXI em Portugal!
Ora bem, esta ideia da monarquia não nasceu no dia 25 de Abril de 1974, antes pelo contrário. Posso até acrescentar, sem receio de falhar, que nos primeiros anos da revolução dos cravos, se falou mais em monarquia do que nos quarenta anos anteriores!
Posto isto, resta concluir que a ideia que vinha sendo vendida, conjugando a monarquia com um antiquário de plumas, inútil, com os Reis e a Corte a explorarem o povo, se fazia parte da propaganda republicana pura e dura, foi profundamente difundida durante o Estado Novo!
Mas Salazar era monárquico, gritam-me agora aos ouvidos!?
Então, se era, porque não contrariou a propaganda republicana durante o seu consulado?
Porque é que um belo dia, não se terá lembrado de dizer, alto e bom som, que era monárquico, ou ao menos, que a monarquia era o regime adequado para Portugal!?
Convém acrescentar o seguinte: a população, a esmagadora maioria dos portugueses é ‘republicana’, não porque tenha lido Platão, mas muito simplesmente porque as eminentes figuras do Estado, que religiosamente segue e imita, se afirmam republicanas. É assim que funciona a política de massas.
Por exemplo, se hoje o conhecido doutrinador televisivo, Marcelo Rebelo de Sousa, resolvesse afirmar-se monárquico e pusesse nesse ideal o ênfase com que lutou pela eleição de Cavaco Silva, estou convencido que a breve trecho, outros notáveis o seguiriam. Nessa altura o povoléu juraria a pés juntos uma fé inabalável na Coroa e mudar-se-ia de armas e bagagens para o ideário monárquico.
Dir-me-ão que isso é uma impossibilidade matemática, porque o distinto Professor acredita piamente nas virtualidades da república, faceta do seu carácter a quem deve o renome e prestígio que desfruta!
Não será bem assim, mas o exemplo permanece e pode explicar porque é que nunca há oposição em Portugal!
Estabelecendo agora um paralelismo com Salazar, e dando de barato que o ditador prezava a opinião alheia, uma de duas: ou esse pequeno Politburo chamado União Nacional, era um autêntico campo de batalha, surda e sangrenta, ou então, na outra hipótese, Salazar dominava completamente a situação e tinha a força suficiente para inflectir as decisões no sentido que lhe convinha.
A primeira hipótese é académica, não tem, nem teve, nada a ver com a realidade. Na segunda hipótese, Salazar não quis restaurar a monarquia e ponto final.
Porquê?
E que interessa isso agora?
Ao menos, que não se repitam os mesmos erros daqui para a frente. Um alerta, para quem acredita que Portugal independente ou existe em monarquia ou não existe.
Dispenso-me de demonstrar, só não vê quem não quer.

terça-feira, maio 09, 2006

Terras sem Rei

Ora aqui está o assunto do momento: duas brasileiras de ‘Maringá’ falavam ontem, nos prós e contras da televisão pública, sobre a viagem e estadia que tinham acabado de ganhar num concurso organizado pela autarquia de Vila de Rei!
Expliquemo-nos: Maringá é uma populosa cidade situada no estado do Paraná, no Brasil; Vila de Rei é uma pequena Vila desertificada no centro interior de Portugal; o concurso, da iniciativa da Câmara de Vila de Rei e aberto apenas a cidadãos brasileiros de Maringá, oferecia e oferece os seguintes prémios:
Viagem e estadia por tempo indeterminado no concelho de Vila de Rei, em casa cedida pela autarquia, emprego assegurado por não sei quanto tempo, a que corresponde uma remuneração aproximada do salário mínimo nacional, e os bons ares de uma pacata vila do interior do país!
Perante tão apetitoso prémio, Maringá em peso concorreu! Mas só existiam, ao que parece, sessenta prémios para distribuir, e sendo assim, o rateio fez-se pela ordem de entrada dos ‘pedidos’, com a eliminação natural dos menos qualificados para as tarefas de futuro que Vila de Rei exige.
Foram portanto seleccionadas para os primeiros trabalhos, uma jornalista e uma professora. Encarregar-se-ão do serviço de limpeza, a dias, onde a autarquia achar mais necessário.
Um êxito!
O entusiasmo, como pude constatar na televisão, era geral! Em primeiro lugar as felizes premiadas. Ainda sem esfregona e detergente, as duas brasileiras estavam prontas para atacar o primeiro lanço de escada que lhes aparecesse pela frente.
A edil da ideia, sorria de satisfação. Vila de Rei estava finalmente no mapa.
Rui Marques, ‘O Integrador’, como lhe chamei num dia mais lúcido, tinha descoberto a sua Índia.
Vitorino, por sua vez, terá visto a oportunidade de comprar um novo lote de terreno, a preços da chuva.
Havia um tipo de barba, que me pareceu sóbrio, mas Fátima não estava nos seus dias...refiro-me ao seu encanto, já conhecem o meu fraquinho.
Por isso desliguei a televisão ao fim de poucos minutos, e assim sendo, não lhes posso adiantar mais nada.
Peço desculpa.

segunda-feira, maio 08, 2006

Menos Azul

O campeonato sem querer ficou então mais vazio.
Nesse Domingo já frio e tão pouco verdadeiro...
Que o meu olhar percorreu, subindo pelo Mosteiro.

Por uma nesga de luz, do outro lado do rio,
A silhueta redonda desse destino sombrio.
Na expressão e na descrença...
Que a noite não descobriu!

sábado, maio 06, 2006

O desastre do ensino em Portugal

“Apesar dos esforços destes trinta anos a recuperar um tremendo atraso estrutural, Portugal encontra-se ainda na cauda da Europa no que diz respeito à educação e requalificação dos cidadãos. As medidas têm sido, em geral, desencontradas, desarticuladas e inconsequentes. O abandono escolar precoce (sem o 12º ano) atinge 45% dos portugueses jovens, enquanto a média da UE (15) é de 19% e o país mais próximo de nós é a Espanha, com 29%. Em qualquer um dos novos países da UE o panorama é muito melhor. A população global (25-64 anos) com o ensino secundário é de 20%, em Portugal, a mais baixa da OCDE, contra 51% da Grécia, 40% da Espanha e 24% da Turquia. Pior: esta situação está a regredir, avisa a OCDE, em 2004, pois os abandonos no nível secundário (10º,11º e 12º anos) não param de crescer porque o desinteresse pela formação escolar que se tem oferecido não pára de aumentar.”

“ Os alunos portugueses são os que permanecem menos tempo no sistema de ensino, no quadro dos países que formam a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). De acordo com um estudo internacional recentemente divulgado, os nossos estudantes frequentam a escola durante oito anos, menos quatro do que a média dos restantes países com assento naquele organismo”.

Nota: Estes dados estão disponíveis, estão ao alcance de qualquer interessado, são do conhecimento dos responsáveis, provêm de organismos e fontes insuspeitas e pior do que tudo isto...correspondem à realidade!
Transcrevi-os, porque achei útil registar neste espaço de interregno, aquelas realidades indesmentíveis, que explicam a nossa situação e ao mesmo tempo revelam a incapacidade deste regime para nos retirar do fosso em que caímos.

quarta-feira, maio 03, 2006

“Ensino Jesuíta em Portugal”

(...)
"Entre 1540 e 1759 os Jesuítas estabeleceram uma notável rede de instituições educativas, as mais importantes das quais foram o Colégio das Artes em Coimbra, o Colégio de Santo Antão em Lisboa, e a Universidade de Évora. No total, os Jesuítas terão sido responsáveis por 26 colégios em Portugal.
Estatísticas precisas do número de estudantes nunca chegaram a ser estabelecidas. Contudo é sabido que no final do século XVI o Colégio de Santo Antão tinha cerca de 1800 estudantes, o Colégio das Artes cerca de 2000 e a Universidade de Évora cerca de 1600. Por volta de 1759 estima-se que havia 20.000 estudantes a frequentar aulas em instituições de ensino Jesuíta.”
(...)
“Estes números podem não parecer extraordinários quando comparados com outros países europeus, mas são-no no contexto português. Só no final do século XIX é que conseguimos encontrar um número comparável de estudantes no ensino secundário.”


In Henrique Leitão, Jesuit Mathematical Practice in Portugal, Mordechai Feingold (Ed.), Archimedes, Vol.6, The New Science and Jesuit Science: Sventeenth Century Perspectives, Kluwer Academic Publishers.

terça-feira, maio 02, 2006

“Perfilados de medo”

Perfilados de medo, agradecemos
O medo que nos salva da loucura.
Decisão e coragem valem menos
E a vida sem viver é mais segura.

Aventureiros já sem aventura,
Perfilados de medo combatemos
Irónicos fantasmas à procura
Do que não fomos, do que não seremos.

Perfilados de medo, sem mais voz,
O coração nos dentes oprimido,
Os loucos, os fantasmas somos nós.

Rebanho pelo medo perseguido,
Já vivemos tão juntos e tão sós
Que da vida perdemos o sentido...



Alexandre O’Neill
(Poemas com Endereço)

segunda-feira, maio 01, 2006

Hoje não

Hoje não há pão, como dantes.
Primeiro de Maio em que fecha tudo menos a flor que se abre ao sol quente desta manhã tardia. Tardia para quem se levanta tão tarde neste dia! Segui a regra, não saio, não saí, isso é para trabalhadores, gente e termo insultuoso para quem trabalha de borla...ou quase.
Florbela, sempre queres amar perdidamente?
Ou ao menos sonhar, neste dia em que é proibido sonhar!?
Dia de espiga ou espiga de dia, sei eu bem, podíamos sair, ir por aqui e além...além, onde não vive ninguém para além de mim! Para quê tanto trocadilho num dia assim, como hoje, em que não vale a pena sonhar, nem amar, ou quase...
Queres então fazer o quê?
Já percebi, não me conheces, tens medo, preferes a segurança do luar, a vigília de uma noite de espera, em vão...
A tua casa tem pó, falta-lhe uma viola, uma música na madrugada...
Amanhã se verá...virgem desesperada.
Hoje não, hoje... nada.

quinta-feira, abril 27, 2006

Um discurso de boa vontade

“É possível identificar os problemas mais graves e substituir o eterno combate ideológico, por uma ordenação de prioridades, metas e acções”...num País “fortemente marcado pelo dualismo do seu desenvolvimento”.
Apesar do “inegável progresso registado em alguns sectores de actividade”...”essas experiências de vanguarda não conseguem impregnar todo o tecido económico e social, coexistindo nichos de modernidade com expressões de indisfarçável arcaísmo social e cultural”.
“Profundas disparidades revelam-se na leitura do território. É cada vez maior o fosso entre as regiões marcadas por uma ruralidade periférica e as regiões mais urbanizadas”. Que se traduz “num mau viver resignado, sem qualidade e sem horizontes”, e acentua “a dupla exclusão do envelhecimento e da pobreza”.
Mas, “a mais marcante das disparidades que emergem deste Portugal a duas velocidades é a que resulta das desigualdades sociais”. No quadro da União Europeia, Portugal é país “que apresenta maior desigualdade de distribuição de rendimentos. E é também aquele em que as formas de pobreza são mais persistentes”.
“Não é moralmente legítimo pedir mais sacrifícios a quem viveu uma vida inteira de privação”.
Cabe-nos transmitir “ um País mais livre, mas também uma sociedade mais justa”.
Assim falou o Chefe de Estado Republicano, nas comemorações do 25 de Abril de 2006!
Que dizer?
É o retrato de um País do terceiro mundo, clássico, que construímos com orgulho e erro nos últimos trinta e dois anos. Retrato ainda mais sombrio quando se sabe que foi custeado exclusivamente pela União Europeia, na condição de nos desenvolvermos de acordo com os parâmetros civilizacionais há muito estabelecidos para a Europa Ocidental, para o primeiro mundo.
Com a agravante de nos termos desenvencilhado, sem honra, de compromissos históricos, lançando na miséria e na guerra populações inteiras, nos vários territórios que estavam sob nossa administração...há séculos!
Cavaco Silva disse a verdade sobre a situação, pena é que não possa fazer nada quanto a isso. Nem ele, nem nenhum outro Chefe de Estado republicano.
Seria necessário, antes do mais, acabar com as comemorações de guerras civis. São estúpidas, deseducativas e transmitem uma mensagem errada à população!
São estúpidas porque dão a ideia que os portugueses que existiam no dia 24 de Abril de 1974, eram diferentes ou eram outros, no dia 25!!! O mesmo se diga relativamente ao dia 27 e 28 de Maio de 1926! Ou a 4 e 5 de Outubro de 1910, etc.etc.
São deseducativas, e por isso também são estúpidas, porque dão a ideia que existem portugueses maus e portugueses bons, e que uns são sempre maus e os outros são sempre bons!!! É que pode haver quem acredite!
Por último, transmitem uma mensagem errada, convencendo os incautos, que os que perderam a guerra, golpe ou revolução, estão muito contentes nesse dia de ‘festa’!
Nestas condições de rotativismo recriminatório, sem referências, inapelávelmente divisionista, ninguém se salva, muito menos o Presidente.
Ainda que tenha razão.

terça-feira, abril 25, 2006

Canas e foguetes

“Em minarete, mate, bate, leve, verde neve, minuete de luar”...
“Rompem fogo, pandeiretas morenitas, bailam tetas e bonitas... “Voa o xaile, andorinha pelo baile...
“O colete, desta virgem endoidece, como o ‘S’ do foguete,
Em vertigem, em vertigem de luar...”

Que fique Almada em sossego, corramos ao redondel,
É dos lados de São Bento, que nos chega o aranzel!
Onde os suspeitos reúnem, consegui encurralá-los!
Mesmo sem chocas, cabrestos, não foi difícil juntá-los.
São adesivos fatais, entram todos ‘à formiga’,
Já assim eram os pais.
Pois agora que lhes faço?
Do hemiciclo redondo, para onde os hei-de enviar?
Enquanto penso e repenso, vamos então festejar!
Allô Brasil, Portugal, e Colónias de Além-Mar,
Abandonem vossas casas, venham prá rua dançar...
Os figurões estão trancados, não nos vão incomodar.
E havemos tempo para tudo!
Palrar e condecorar, é suprema vocação.
Por isso toca a bailar, enquanto dura a função.


Nota: “Rondel do Alentejo”, de Almada Negreiros, interrompido pelo 25 de Abril de 2006.

domingo, abril 23, 2006

Retribuição

Hoje fiz um poema que não era meu.
O verso no rascunho amedrontado, já existia, perdido entre letras e sinais.
Limpei, raspei, juntei tudo...tudo refeito outra vez.
E o poema revelou-se inteiro como era no princípio!
Já livre, esvoaçou primeiro, mas faltava o golpe de asa derradeiro.
O título, cravado, a tremular ao vento...foi o último alento.
Partiu feliz sentimento na direcção do além.
Criatura bem nascida, não precisa de ninguém.

Post-scriptum: Dedico este ‘postal’ ao Luís Leandro, que o inspirou, e não desistiu de ser poeta!

sábado, abril 22, 2006

"Pau de sebo"

Ser excelente!
O cimo da pirâmide
Impossível de alcançar.
Eu estendo os braços e estico-me...
Breve encontro penitente.

Fosse eu indiferente...
Mas ao menos excelente
Excelência
Alteza
Eminência
Acenando a todos, separado da minha sombra.
Meu ego feito estátua!
Ícone de gelo, só por instantes.
Desaparecer e crescer, suspenso de um outro fogo...
Ou então de novo junto dos vivos!

Nesse caminho,
Gostava de ser excelente
E até sou!
Numa única vontade, rompe-se o luto
Que nasceu desse abismo,
E em segredo foi dizendo tudo.
E em segredo celebro o instante que nos une,
Ao Omnipotente...Divino.
Sem estar obstinado,
Celebro mais um dia vivo!

Luís Leandro

quinta-feira, abril 20, 2006

Alheamento

Ando esquisito, confesso-me distante das coisas, do que se passa à minha volta, não leio jornais vai para quinze dias, não deixei crescer a barba porque a uso crescida, numa palavra, sinto-me alheio.
Lembram-me aqueles tempos mornos em que eu meditava na impossibilidade de mudar o regime. Que afinal fingiu que mudou! Só para me enganar!!!
Uma voz amiga sussurrou-me ao ouvido: será por causa do Belenenses?!
Seja como for, tenho que reagir, ir ao encontro do acontecimento, fazer prova de vida.
Segui então pelo “Último Reduto” até à notícia, já requentada, diga-se, que refere a lista dos deputados da República que fizeram gazeta à última sessão plenária, decerto por ponderosos motivos das suas atarefadas vidas particulares e privadas.
Lá estão eles, uma grande representação do bloco central, lindos meninos e meninas, que tomam conta de nós há cerca de trinta anos, com dedicação e carinho. Não sejamos injustos. Podíamos estar muito pior, olhem o que se passa pelo mundo...na Palestina, por exemplo. Eles bem merecem as ‘pontes’, umas fériazinhas nas excelsas ondas.
A Semana Santa é na praia, nas discotecas, porque a liturgia desta rapaziada tem outras datas. A 25 de Abril ninguém falta! Lá os veremos, à volta do hemiciclo, todos enfarpelados, cravo na lapela e ar solene, agradecidos pela vidinha que têm, discursos e ordens da liberdade, etc.etc....
Idiota sou eu que também lá devia estar! A botar discurso, corda ao pescoço como um Egas Moniz, a pedir desculpa pela má representação, pelas más companhias, a prometer acabar com aquilo o mais depressa possível!
Precipitei-me, mas um dia acontece...

segunda-feira, abril 17, 2006

Princípios

Páscoa poesia, Páscoa reflexão, Páscoa oração.
Recomeço com as últimas impressões, que são as que ficam: uma reflexão sobre a blogosfera, já não é a primeira que leio no Sexo dos Anjos’, que dá que pensar. Recuei de novo ao texto de abertura, com as perguntas inevitáveis a pedir resposta: diário puro e simples, claro que não, como também não pode ser publicação para agradar ao maior número de leitores; nem sequer posso atender ou desviar-me em relação a qualquer gosto específico.
Tenho a minha agenda, o meu fito, aquilo que pretendo transmitir, isso é o mais importante, que deve decidir em caso de dúvida. E se a mensagem não interessa ou interessa pouco (tem sido o caso), ou se por desdita, o problema é do mensageiro?! Aí, paciência, não posso fazer grande coisa, a não ser esperar por melhores dias.
Adiante.
E fica dito: aproveitando a Semana Santa, tenho vindo a publicar, em parcelas, a imponente “Lição” de D. Manuel Gonçalves Cerejeira sobre “A Condição do Cristão na Construção Histórica do Mundo”! Ainda faltam alguns excertos e nesse sentido procurarei editá-los ao longo das próximas semanas, talvez em dia certo, por uma questão de comodidade minha e dos interessados.
Páscoa Poesia revista na planície alentejana, no mar salgado, nas quatro padroeiras! A voz de José Campos e Sousa, os poemas de Pessoa, Sardinha e Pacheco de Amorim, algures na Internet!
Páscoa Doutrina com um excelente texto de Paulo Cunha Porto, no seu ex-futuro espaço, “Calma Penada”: versa sobre o natural acolhimento pela Igreja Católica, de ritos e práticas anteriores (pagãs), reveladoras “dessa curva ascensional do homem primitivo para a Perfeição, que é Deus”.
Páscoa Oração, rezada de forma apaixonada no “Dragoscópio”, na própria Sexta-feira Santa!
E chega ao fim este princípio de semana.

Post-scriptum: E as minhas desculpas pela inaptidão para links, a solucionar brevemente.

domingo, abril 16, 2006

Páscoa

Esperança

Da solidão do ventre,
Passei à solidão da vida,
Quase a solidão de um túmulo!

Quase uma vida!

Solidão que tentei mitigar...
Mas proximidade nunca foi fusão.

No mais populoso aglomerado,
Troquei palavras de prisão em prisão,
Sem esperar resultado.

Sem ser capaz, deixei-me ir...
Talvez fosse a eterna razão?!

De tantos asfaltos montanhosos e escarpados,
Perigosos, talvez...

Existe agora a poesia?

Ascetas e sensuais os poetas,
Homens de uma razão, vivos na solidão,
Queridos, amados pelos homens.
Seus paraísos sem ter fim, vedados ao consciente,
... Já nesse Vale D’Ourado existe poesia.

Luís Leandro

“O cristão e o mundo novo”

Em tudo que foi dito, o cristão trabalha eficazmente pelo homem. Tem por si a experiência da Igreja, que realiza pelo Espírito a obra essencial, fundamento de todas as mais: a de restituir o homem a ele mesmo, para o restituir a Deus.
Antes de mais, endireita como o Baptista os caminhos por onde o Senhor há-de passar, quero dizer: ele faz passar primeiro a verdade e o amor. Sem a verdade e o amor, a justiça ficará cega e converter-se-á em tirania ou em revolta.
Base da civilização antiga era a escravatura. A revolução que havia de a destruir, começou no dia em que os homens souberam, senhores e escravos, a dignidade da pessoa humana. O mundo novo nasceu no interior de cada um, na consciência, antes de se traduzir nas estruturas sociais.
Será sempre assim. O homem novo construirá o mundo novo. Nunca o mundo novo estará concluído, em nenhum momento da história. Estará sempre em trabalhos e dores de nascimento.
O ponto é que o cristão saiba de que espírito é e se deixe levar por ele. Como um vinho novo, fará estalar as vasilhas velhas. Transforma a sociedade, começando por transformar os homens.
Não que despreze o condicionamento humano do mundo, isto é, a adaptação deste ao homem, ou, como também se diz, a transformação, a humanização das estruturas político-sociais. É sempre ao serviço da pessoa humana que trabalha o cristão na história, quando trabalha para Deus.
E assim como S. Paulo disse aos cristãos de Éfeso que despissem o homem velho e se renovassem no espírito vestindo-se do homem novo, o cristão procura recuperar tudo para o homem, tudo o que pode ser salvo: a economia, a política, a cultura.
Trabalha pacientemente com Deus. Cada momento é uma oportunidade, que toma com espírito humilde das mãos da Providência. Ao contrário do marxismo, que sacrifica o presente ao futuro, ele edifica o presente. Não destrói para construir. Não apaga a mecha que fumega, nem quebra a cana rachada. Não abandona o bem real pelo bem imaginado. Não pratica a injustiça para realizar a justiça.

D. Manuel Gonçalves Cerejeira
Cardeal Patriarca de Lisboa

(Última Lição como Professor Catedrático da Faculdade de Letras de Coimbra – 1958) (excerto-continuação)

sábado, abril 15, 2006

“A independência do cristão”

Mas a sua situação não é cómoda. A nenhum dos idólatras apaixonados deixará de ser suspeito. Todos os que estão, inconscientemente embora, contra a pessoa humana o denunciarão.
O escritor francês Bernanos, num livro célebre, deixou cair esta frase: “o oportunismo sagrado da Igreja”. Muitos interpretarão oportunismo no sentido de maquiavelismo. Deveriam antes pensar em transcendência, que não consente a Igreja possa ser prisioneira senão da verdade e do amor.
A todos os sectarismos, o cristão parecerá herético; a todos os messianismos, parecerá conformista; a todas as insurreições, parecerá traidor. O cristão estará sempre em contradição com tudo que é inquinado de idolatria: isto é, que pretenda ser como Deus. O seu oportunismo chama-se antes realismo cristão, sentido do ser, ou (o que é o mesmo) da verdade, da razão, da natureza. O cristão, como tão vivamente sentia o Apóstolo, foi libertado por Cristo das cadeias que faziam gemer pelo Redentor a Criação.
A sua independência, num mundo de tantos altares, menos o do Deus verdadeiro, como outrora na luminosa Atenas, revela-se apenas isto: fidelidade, autenticidade.

D. Manuel Gonçalves Cerejeira
Cardeal Patriarca de Lisboa

(Última Lição como Professor Catedrático da Faculdade de Letras de Coimbra – 1958) (excerto-continuação)

sexta-feira, abril 14, 2006

“Os mitos homicidas”

Porque ignora ou esquece a lei de Deus, a lei natural e a lei cristã (a lei cristã consagra e eleva a primeira), é que o mundo actual recai no pecado de idolatria, adorando ídolos. E estes ídolos são como os cruéis ídolos da antiguidade, que devoram os adoradores. No culto deles, o homem espera a libertação, e torna-se mais escravo; celebra “os amanhãs que cantam” e chora sempre no desespero do presente; anuncia as searas que amadurecem, e nunca chega a colher-lhes o fruto.
À roda do cristão, os homens aí seduzidos por mitos salvadores: sistemas arvorados em dogmas, ideologias tornadas religião, místicas profanas erguidas a evangelho do mundo novo. Esquecida a verdadeira escala humana, desenvolvem-se os monstros; projectos de uma humanidade sem autêntica medida humana, esboços do homem que pretende ser por-si-mesmo, sem saber o que é e sem saber como pode ser; verdades humanas, relativas, que enlouqueceram, revestindo-se de atributos divinos, convertidas em princípios absolutos a que tudo o mais há-de ser sacrificado.
É aí o mito da liberdade, uma liberdade abstracta e absoluta, que destrói as liberdades; o da classe, que ressuscita, laicizado, o conceito messiânico de raça ou classe eleita, e trás consigo a guerra; o do estado divinizado, autoritário ou democrático, não importa, os quais são ambos totalitários, se não reconhecem as limitações e obrigações da lei natural e divina; o do socialismo marxista de um mundo e homem novos, que é construído sobre a imolação dos obreiros que não chegam – não chegarão nunca – a vê-lo; o da eficácia, que subordina a moral ao êxito, o bem concreto ao bem ideal, o presente ao futuro; o da novidade, que renuncia ao poder de julgar, descolora de valores a obra humana, faz do tempo o critério (que é a maneira de não ter critério), destrói a todo o momento o que cultivara; o do regime político, o qual confunde técnicas da organização política com valores morais ou mesmo com o Evangelho, identificando-se com a realização histórica do reino de Deus.
É missão do cristão no mundo de hoje desmitificar as realidades, as esperanças humanas. Ou, como disse certo escritor insuspeito, “desengordurar definitivamente a política da mistura impura do absoluto”. Mais precisamente, trazer os problemas do homem às suas dimensões naturais, colocá-los na verdadeira escala humana, situá-los, concretamente, na sua ordem, na sua medida, na sua natureza, na sua realidade, como já foi notado. O cristão fiel ao seu espírito nem poderá deixar-se embarcar em místicas irracionais, ou irrealistas, que violam a ordem da natureza; nem poderá deixar-se tentar por nenhuma forma de terrenismo. Tudo julga e mede por aquele único metro que mede o homem e a natureza, o Metro que é a medida da criação inteira, o Verbo de Deus feito homem.
E assim o cristão, iluminado pela Fé e guiado pala caridade, trabalha eficazmente no interior das humanas realidades, cooperando com Deus na construção do mundo. Liberta-as, restaura-as, ele salva verdadeiramente o mundo.

D. Manuel Gonçalves Cerejeira
Cardeal Patriarca de Lisboa

(Última Lição como Professor Catedrático da Faculdade de Letras de Coimbra – 1958) (excerto-continuação)

quinta-feira, abril 13, 2006

“O homem e a ordem natural e divina”

Para todo o cristão o Cristianismo significa a plenitude da história. É por ele e nele que o homem atinge a consciência do que é, e encontra os meios de se realizar. Citarei palavras do já nomeado sociólogo inglês Dawson: “ o Cristianismo ensinava que entrara, com Jesus, no género humano e no mundo natural, um novo princípio de vida divina pelo qual a humanidade se via elevada a grau superior. Cristo é a cabeça desta humanidade restaurada, o primogénito da nova criação; e a vida da Igreja consiste no aumento progressivo da Incarnação pela gradual incorporação do género humano nesta ordem superior”.
Torna-se evidente que não se poderá salvar o homem, se se despreza a sua natureza e destino, ou, por outras palavras, a ordem natural e divina. No fundo de todo o problema de civilização e cultura está o problema do conceito do homem. Toda a obra que não respeita aquela ordem, sacrifica a pessoa humana. E como ela é o termo da criação, que de certo modo deve assumir e elevar consigo, degrada esta.
O filósofo Sartre insurge-se contra tal noção de ordem, de lei, de natureza. Elas importariam a ruína da liberdade. No drama filosófico Mouches manifesta claramente o seu pensamento: a recusa, a revolta oposta por Orestes à ordem estabelecida por Júpiter seria a condição da liberdade. Simplesmente, nem Júpiter é o Deus do Evangelho (e não há outro), nem a ordem cristã é essa ordem imutável governada pela lei fatal da necessidade, da filosofia grega.
Ordem natural, lei natural, ordem divina do mundo, não quer dizer alguma coisa de externo, de arbitrário, mas sim fidelidade à natureza íntima, à finalidade intrínseca da criação. É expressão do ser, autenticidade ontológica, esplendor de verdade.
E o Deus do Evangelho é Deus-Amor, como o definiu o Apóstolo teólogo. A lei cristã, a lei da graça, significa comunhão de amor, entre Deus e o homem. É deificação da criatura humana. Restaura, purifica, exalta, sobrenaturaliza. Insere na história a Luz e o Amor de Deus, a própria natureza divina. Numa palavra, é associação e colaboração da Trindade Santíssima e do homem.
E onde a relação é de amor, já não há lugar para servidão, só cabe liberdade.
Desprezar a ordem divina do mundo, desconhecer a natureza e destino do homem, será jazer infalivelmente na desordem, na tirania, no anti-natural e anti-cristão, no infra ou anti-humano.
Deus criador e redentor está no princípio de todo o programa e empresa de salvação do homem. Tudo readquire o seu lugar e valor no universo; refaz-se a harmonia da criação, que o pecado desfez; tudo se recupera e valoriza e hierarquiza, do que foi criado; tudo é salvo.

D. Manuel Gonçalves Cerejeira
Cardeal patriarca de Lisboa

(Última Lição como Professor Catedrático da Faculdade de Letras de Coimbra – 1958) (excerto-continuação)

quarta-feira, abril 12, 2006

“Pessoa humana e civilização cristã”

Avançarei desde já que é missão do cristão na história salvar a pessoa humana. Comecei nesta Universidade o meu ensino estudando o nascimento da Europa, da civilização ocidental, nessa fecunda Idade Média, madre do mundo novo, que tentei reabilitar. Europa, civilização ocidental, se estas palavras têm ainda sentido comum, quero dizer, conteúdo positivo (e não simplesmente situação geográfica), deve-se ao resíduo de valores cristãos. Nasceram, “não sobre uma unidade política, mas sobre uma unidade eclesiástica”, sob as asas maternas da Igreja.
Desta origem provém o humanismo, que é nota essencial da civilização cristã. Com o nome de respeito do homem pelo facto de ser homem, como dizia o velho Guizot, ou o de respeito da pessoa humana, como se diz hoje, ele sobrevive (até quando?) na consciência moderna. Foi Dawson, o sociólogo inglês, hoje professor na Universidade americana de Harvard, quem notou que o mesmo humanismo ateu era fruto restante da árvore cristã. E, na luta de gigantes que se trava aí ante nossos olhos assustados, é ainda ele, “por mais enfraquecido que esteja, que, apesar de tudo, constitui, em face do comunismo, a única unidade de fé que subsiste no Ocidente”.


A situação do cristão na história

Numa visão cristã da história, pode afirmar-se que tudo na criação é para o homem e o homem é para Deus. O Apóstolo S. Paulo, com a sua força habitual, proclamou-o aos neo-cristãos de Corinto: “tudo é vosso e vós sois de Cristo”.
E nestas imensas palavras se condensa o duplo destino, temporal e eterno, do cristão. Como Jesus Cristo mesmo disse, ele está no mundo mas não é do mundo.
Não sendo do mundo, a sua transcendência aos limites do espaço e do tempo impede-o de se deixar reduzir ao mundo. É superior ao mundo, tem um destino próprio, ele é de Deus, tudo deve ser subordinado à sua própria salvação.
E desde já é evidente que não pode jamais deixar-se absorver, sem se negar, “no movimento da existência temporal, no oceano todo-poderoso da história”, ou seja, na classe, na raça, na nação, na humanidade.
Mas estando no mundo, o cristão realiza nele a sua salvação. Não é evadindo-se do mundo, num sobrenaturalismo desincarnado, que logrará ser de Deus. Cristianismo significa incarnação de Deus e deificação do homem. Não é destruindo em si o homem que o cristão se tornará cristão. Pelo contrário, o cristão tornará em si o homem mais homem, na medida em que mais ele for de Deus; explicando, na medida em que melhor se conformar com o Homem-Deus, realizar o Pensamento e o Amor que o criou.
O cristão, pois, deverá empenhar-se, com toda a sinceridade e resolução, nas tarefas temporais tendentes a adaptar o mundo ao homem, de o humanizar, para o restituir a Deus. Fazendo-o, coopera na obra da Incarnação e da Redenção, que assume, restaura e eleva o homem e a criação inteira.
(...)

D. Manuel Gonçalves Cerejeira
Cardeal Patriarca de Lisboa

(Última Lição como Professor Catedrático da Faculdade de Coimbra – 1958) (excerto – continuação)

terça-feira, abril 11, 2006

“A Condição do Cristão na Construção Histórica do Mundo”

“Volto à velha Universidade de Coimbra, ao fim de trinta anos de ausência – para morrer nela como seu professor.
Nem me faltam, conforme é costume e a amizade inspira, os rituais elogios fúnebres, digo, académicos. A Universidade consagra um filho; perdoe-se-lhe, à nossa boa Alma Mater, a cegueira do louvor. Nem se lhe leve em conta que, louvando-o a ele, em grande parte se louva a si, que o formou.
A minha volta aqui é romagem de saudade, certamente. Mas quer ser sobretudo de homenagem à prestigiosa Universidade, que deu brilho ao meu obscuro nome, inscrevendo-me no áureo catálogo dos seus “lentes”.
Recordo agora que lhe chamei, ao começar, velha. Noto, porém, ao revê-la, que está mais nova. Quem está velho sou eu...


O problema do homem no mundo actual

Não iniciarei esta última lição como o salmaticense Fr. Luís de Leon, ao retomar a cátedra, após os tantos anos de reclusão inquisitorial: “como íamos dizendo”. Eu direi antes: - concluindo.
Dissertarei sobre a condição do cristão na construção histórica do mundo. Todos reconhecem que o mundo cresceu, quebrando os antigos limites; a ciência e a técnica estão aí a tentar alargá-lo aos espaços interplanetários; louco de orgulho, já desafiou o Criador, proclamando que também o homem pode povoar o espaço; até promete fabricar um mundo novo e um homem novo.
O problema, todavia, o grande problema, o problema trágico, é se há lugar para o homem no mundo novo, se o homem novo ainda é homem.
Em 1946, consagrado escritor francês abria na Sorbona uma solene conferência da Unesco nos seguintes termos: “No fim do século último, a voz de Nietzsche retomou a frase antiga ouvida no arquipélago: Deus morreu. Sabia-se muito bem o que queria isso dizer; isso queria dizer que se esperava a realeza do homem. O problema que se põe para nós hoje é saber se, nesta velha Europa, sim ou não, o homem morreu”.
Não tem faltado quem creia cegamente no movimento da história. Cada momento seria um avanço. A evolução constante, necessária, do mundo desenvolver-se-ia em progresso indefinido. – Mas não equivalerá isto, sem insistir agora no que historicamente há de errado, a dizer que a história não tem sentido? Neste conceito da história, o que sucede é o que devia suceder. Bem e mal identificam-se na raiz; o êxito consagra tudo. O único critério de valor é o facto da existência histórica. Porque falar então de progresso onde só há movimento? Porque dizer melhor, onde só vale sucessivo? Para julgar a história torna-se necessária uma escala de valores superior a ela.
O historicismo absoluto – e ele é uma consequência lógica do intelectualismo ateu – nega a realidade do mundo moral. Aquilo que distingue o homem na criação, e o forma como tal, isto é, a verdade, o bem, a justiça, o amor, tudo isso seriam grandes palavras sem conteúdo objectivo. O historicismo destrói o homem.
Nem nos detenhamos no pessimismo existencialista que pretende é este um mundo “sem caminho”, e o homem “uma paixão inútil”. Como alguém disse, “a origem de todo o desespero é a crença de que vivemos num mundo absurdo que não tem nem direcção nem fim. Não está o horror no drama, mesmo se comporta peripécias sangrentas e riscos de condenação; o horror está antes na ausência de drama, no caos material de que a criatura pensante não é mais que um elemento inútil. O escândalo não está no sofrimento, mas no sofrimento sem razão, sem causa, no sofrimento inútil e perdido”.
(...)

D. Manuel Gonçalves Cerejeira
Cardeal Patriarca de Lisboa

(Última Lição como Professor Catedrático da Faculdade de Letras de Coimbra – 1958) (excerto)

sábado, abril 08, 2006

Um Padrão com paredes de vidro

Estava plantado em cima da Rosa-dos-ventos, sem tirar os olhos do monumento, não andava nem para a frente, nem para trás!
- Oh homem entre, insistiu o guia! Lá dentro temos um elevador e um filme para você ver! E especiarias!
Nunca entrei no ‘Padrão dos Descobrimentos’, por isto ou por aquilo, falta de interesse. Estou farto de comemorações, desconfio dos comemorativos, aliás, uma raça de impotentes bem conhecida. Mas a malta já tinha entrado toda, eu entrei também.
Antes, tínhamos dado uma volta ao Padrão, acompanhando o esforço dos navegantes e do cicerone para os identificar. São trinta e duas personagens que, de um lado e doutro, parecem empurrar qualquer coisa para o rio!
O Infante D. Henrique, ‘The Navigator’, bem proeminente, de caravela na mão, não se confunde, é o homenageado. Grão-mestre da Ordem de Cristo. O personagem trinta e três!
O motivo: quinhentos anos passados sobre o seu passamento – (1460-1960).
E a oportunidade para reconstruir em pedra, uma estrutura precária utilizada para o mesmo efeito em 1940 para abrilhantar a “Exposição do Mundo Português”.
Então nesse ano a Europa não andava toda em guerra? E nós fazíamos exposições?!
Duas interrogações disparadas sobre a minha pessoa, e tive que me defender:
Primeiro, é para que vejam que ‘Portugal não é só um país europeu...’! Segundo, é para que vejam como nos transformámos num País de eventos!
Terceiro, talvez para lembrar à Europa e ao Mundo, entretanto em guerra, que afinal existíamos! Para que no fim não se esquecessem de nós...nas partilhas, em lugar de nos partilhar!
E seguimos viagem rumo ao pequeno filme de produção francesa, inspirado em biombos chineses, e que mostra os portugueses de nariz comprido e hábitos estranhos...para os japoneses. Uma autêntica descoberta. Tive que fazer um esforço para assimilar o alcance e manter a auto-estima em alta.
Já entre as especiarias, destaco:
- Os autores da Obra: arquitecto Cottineli Telmo e o escultor Leopoldo de Almeida;
- Os retratos da inauguração, onde se lembram: Américo Tomás, Salazar e o seu Ministro das Obras Públicas, também o Presidente do Brasil, Kubitschek de Oliveira, do que me ficou na retina;
- E umas pequenas tabuletas, penduradas na parede, com o registo da guerra civil permanente que vai consumindo a nossa existência!
Sobre o ano de 1960, diz-se o seguinte: “Ano em que Àlvaro Cunhal e outros presos políticos se evadiram da prisão de Peniche...Ano da inauguração do ”Padrão dos Descobrimentos” para comemorar os quinhentos anos...”!
Foi a vez de subir no elevador, e lá do cimo, de costas para o rio, tentar descobrir o Palácio da Ajuda, a Igreja da Memória, o Estádio do Restelo! E outros monumentos.
Mais em baixo, a Avenida da Índia, mais longe, a infância na Junqueira...

quinta-feira, abril 06, 2006

“Sobre o actual momento de política e definição estratégica”

(População toxicodependente)

“Deu-se nos últimos anos uma alteração da população toxicodependente: de um problema maioritáriamente juvenil, passou-se para uma questão sobretudo social, que afecta adultos auto-marginalizados;

Seria da maior pertinência política e social considerar os adolescentes envolvidos em percursos de toxicodependência, não criminosos. O haxixe e o álcool, bem como a cocaína consumida esporadicamente, podem ser substâncias consumidas sem ruptura social por jovens que assim mesmo se manifestam descrentes dos compromissos e expectativas que a sociedade lhes propõe. Não esquecer, por conseguinte, que quem semeia ventos colhe tempestades;

A semelhança na química das substâncias aditivas não dispensa uma diferenciação ética entre as mesmas;


(Descriminalização)

A descriminalização foi uma falácia. Não alterou substancialmente os percursos na justiça. Estes dependem sobretudo da dificuldade em adquirir droga. Só haverá menos toxicodependentes presos se houver liberalização do comércio das drogas. É isso que se pretende?
Pensamos que a descriminalização deu à sociedade um sinal contra educativo. O bem jurídico que consiste na existência de cidadãos responsáveis foi desvalorizado;
Pensamos que é educativo manter o sinal pedagógico da criminalização. O mesmo não é dizer que os toxicodependentes devam ser presos. Pertence ao legítimo poder político criar alternativas consistentes do ponto de vista educativo e solidário;


(Salas de Chuto)

Parece ser um problema nascido mais da imaginação das juventudes partidárias e do BE do que da atenção à realidade;
O partido do Governo parece estar mais comprometido com compromissos tácticos do que convicto da bondade de tal medida;
Se as Salas de Chuto pretendem diminuir os riscos de contágio com o HIV+ erram o alvo. Os eventuais dependentes contagiáveis pretenderam outra coisa que não ser elencados e identificados. Entre os toxicodependentes que eventualmente se encontrem disponíveis para frequentar as Salas de Chuto contam-se sobretudo os já doentes de HIV+;
Por outro lado pensar que assim se consegue trazer para a rede de saúde os mais degradados é esquecer que faz parte da sua própria atitude aproveitar-se da rede de saúde pública para não sair. Dos bairros mais degradados saem os que são perseguidos pela delinquência associada à sua marginalidade e não os que o Estado ajuda a serem marginais;
Pode-se suspeitar que existam interesses corporativos associados às estruturas técnicas do Estado que pretendam ver avançar esta hipotética nova frente de trabalho;


(Algumas sugestões)

Estude-se qual seria efectivamente a eventual população que frequentaria as Salas de Chuto através de um organismo independente das estruturas estatais (por exemplo, através de Gabinetes de Estudo das Universidades);

O que consideramos verdadeiramente preocupante é:

- A situação das prisões;
- A marginalidade adulta entre adolescentes;
- O consumo crescente de haxixe (15% dos jovens estudantes europeus fumam haxixe mais de quarenta vezes por ano);
- A desistência de um discurso e prática educativa de valores e virtudes para promover a integração e normalização sucessiva de sintomas de mal-estar social (Não há drogados felizes – C. Olivenstein);
- Melhorar a segurança de vizinhança de acordo com a Teoria dos Vidros Partidos: o abandono da vigilância acelera o ritmo da degradação...”

(excerto de uma comunicação do “Vale de Acór”, comunidade terapêutica de recuperação de toxicodependentes, que com a devida vénia transcrevo)

quarta-feira, abril 05, 2006

“Sobre o nosso entendimento dos deveres do Estado”

“ O Estado existe, não para proteger os vícios pessoais, mas para promover o bem de todos, porquanto o seu dever mais elevado está ligado justamente ao preceito da caridade: ajudar os débeis, defender os oprimidos, fazer o bem àqueles que vivem em dificuldade (...). A ordem natural baseia-se sobre o extermínio recíproco ou, no melhor dos casos, sobre uma mútua limitação dos homens. A ordem moral é baseada na recíproca solidariedade e a expressão primeira e mais simples de tal ordem é a ajuda gratuita, a beneficência desinteressada.”

Vladimir Soloviev


“...O mundo inteiro indiferente com a desgraça daqueles dezanove anos. O primeiro dever da civilização é evitar que fiquem os desgraçados pelo caminho!
Os desgraçados são a vergonha da humanidade, são a desonra da civilização!
Mas a vida passava-se lá muito acima disto tudo, ocupada com a vida de todos, indiferente com a vida de cada um.”

Almada Negreiros

(excerto de uma comunicação do "Vale de Acór", comunidade terapêutica de recuperação de toxicodependentes, que com a devida vénia transcrevo)

terça-feira, abril 04, 2006

“Sobre a nossa Missão”

“ O amor torna-se o critério para a decisão definitiva sobre o valor ou inutilidade duma vida humana. No mais pequenino encontramos o próprio Jesus e, em Jesus, encontramos Deus”.

“Sobretudo para o pensamento marxista ‘os pobres não teriam necessidade de obras de caridade, mas de justiça”.

“A justiça é o objectivo e, consequentemente, também a medida intrínseca de toda a política. A política é mais do que uma simples técnica para a definição dos ordenamentos públicos: a sua origem e o seu objectivo estão precisamente na justiça e esta é de natureza ética. (...) O que é a justiça? Isto é um problema que diz respeito à razão prática; mas, para poder operar rectamente, a razão deve ser continuamente purificada porque a sua cegueira ética, derivada do interesse e do poder que a deslumbram, é um perigo nunca totalmente eliminado”.

(...) O amor – caritas – será sempre necessário mesmo na sociedade mais justa.
Não há qualquer ordenamento estatal justo que possa tornar supérfluo o serviço do amor. Quem quer desfazer-se do amor, prepara-se para se desfazer do homem enquanto homem. Sempre haverá sofrimento que precisa de consolação e ajuda.
Haverá sempre solidão. Existirão sempre também situações de necessidade material, para as quais é indispensável uma ajuda numa linha de um amor concreto ao próximo. Um Estado, que queira prover a tudo e tudo açambarque, torna-se no fim de contas uma instância burocrática, que não pode assegurar o essencial de que todo o homem sofredor – todo o homem – tem necessidade: a amorosa dedicação pessoal.”

Papa Bento XVI

(excerto de uma comunicação do “Vale de Acór”, comunidade terapêutica de recuperação de toxicodependentes, que com a devida vénia transcrevo).

quinta-feira, março 30, 2006

“Entrou o Bispo”

Dizia-se quando a sopa se pegava ao fundo da panela e ficava a saber a queimado! A origem da expressão nunca a soube ao certo e por isso sempre associei a distracção e euforia que se apoderava das pessoas quando o Bispo as visitava em suas casas, cumprindo uma arreigada prática pastoral. Já se sabe, panela da sopa ao lume, toda a gente de volta do Bispo...e a dita esturricava-se!
Mas o Bispo não entrou! Passou diante do muro da quinta, terá olhado de soslaio para a imponência do portão, e seguiu em direcção ao Asilo mais próximo!
Afinal, tantos velhinhos para visitar, tantos doentes para se inteirar, que não houve tempo para a prevista passagem lá por casa.
As fatias douradas que a minha mãe fez, a ‘irmandade’ convocada, o desconsolo e a incompreensão, tudo isto... porque o Bispo não entrou!
A mensagem poderia ter ficado por aqui, a vaidade também poderia ter ficado por aqui, mas existe um outro ditado, este de origem conhecida, que reza assim: ‘Quem não se sente, não é filho de boa gente’.
E pela minha mãe, que as fatias douradas como eu, arrisco a excomunhão dizendo o seguinte:
Prior e Bispo, umas santas pessoas, mas que comungam por certo daquela deformação que invadiu a Igreja ao mesmo tempo que invadiu o mundo! A regra das maiorias! Com todos os complexos de esquerda daí derivados.
Termino com uma pergunta-resposta: Então os paroquianos não são todos iguais?
Eu acho que não. Prior e Bispo também acham que não, mas por outra razão!
Temos o caldo entornado, mas não esturricado.

terça-feira, março 28, 2006

Segunda-feira à noite

Mais uma noite de guarda àqueles que me protegem, mais uma noite de silêncio, para ouvir falar de teatro! Na televisão!
Programa com um início surpreendente! Desde o primeiro minuto rendido à expressão de Fátima, cada vez mais bela, de encarnado e bem segura! Ontem, enquanto olhava com enlevo e carinho para Manuel de Oliveira, pareceu-me a Lollobrigida!
Eu sei que o isolamento e o próprio ambiente um tanto soturno, que me rodeava, prestam-se por vezes a devaneios que a realidade no dia seguinte desmente, mas foi assim, neste estado de alma, que acompanhei a evolução dos ‘prós e contras’!
Manuel de Oliveira, confirmei-o ontem de novo, é de facto muito mais interessante que os seus filmes. Que são naturalmente obras-primas, não para ver, mas para existirem como tais. Talvez as próximas gerações as entendam...
Não me lembro de ter assistido do princípio ao fim a nenhum desses monumentos, mas fiquei com pena de não ter visto aquele que conta, ou não conta, a história do nosso desventurado Afonso VI, um Rei, que se fosse Inglês, teria direito a verso e prosa pela pena de um Shakespeare. Mas nós estamos assim, incapazes de nos distanciarmos do objecto dos nossos ódios e estimações. Incapazes de dar vida a um personagem histórico que tenha sido Rei! Ou há-de ser um herói indiscutível, ou há-de ser um vilão indiscutível!
Manuel de Oliveira teve e tem no entanto o mérito de ter tentado levar esse drama para uma tela, e será lembrado por isso.
Mas por exemplo, quem se atreveria a ir ver um filme sobre D. Sebastião?
Ou antes, que cineasta, ou que autor, estaria hoje em condições de fabricar uma obra de referência sobre tão controverso personagem? Que lhe fizesse justiça? A ele e a nós? Uma obra que imaginássemos ao mesmo tempo da carne e do osso da nossa história presente... e futura?!
Foi com este pensamento que me esqueci de Fátima, que estava agora de pé e de costas, menos favorecida, a conversar com uma Ministra da Cultura, de pescoço atlético na estreiteza dos ombros, penteado ‘à la diable’, a boca recortada no além-mar, o princípio de outro devaneio!
Tempo para o pano descer sobre mim. Estávamos no segundo acto...

domingo, março 26, 2006

A Madeira do Vosso Descontentamento

Já por mais de uma vez aqui o escrevi a letras garrafais, e repito convictamente:
Quando a história se referir a esta III Republica, iniciada em 25 de Abril de 1974, apenas registará de positivo, na coluna dos ganhos, a criação das Regiões Autónomas da Madeira e dos Açores!
Em termos de perdas, em lugar de grande destaque, a miserável descolonização, a que alguns traidores chamaram exemplar!
Vem isto a propósito do contínuo desgaste a que é submetido o Governo Regional da Madeira, e o seu Presidente, sistematicamente acusados de tudo e mais alguma coisa, nomeadamente de deficit democrático.
Nos Açores a situação só não é semelhante, porque tem havido alternância no Bloco Central, ou seja, entre as duas ‘famílias republicanas’ que desde sempre nos governam.
Criadas em contexto revolucionário, as Regiões Autónomas escaparam ao controle dos seus criadores, que hoje se pudessem recuariam, e daí o arrependimento e raiva, neste caso, de ambas as ‘famílias’!
Não há oposição em Portugal, e a oposição que há, é esta farsa que se repete de tantos em tantos anos, que não é alternância, muito menos alternativa, e corresponde apenas a ciclos de dominação, de uma ou outra das citadas facções.
Eu sei que há quem veja grandes diferenças entre o Estado Novo e a República de Abril! Para mim, para além de frequentarem as mesmas tascas, a democracia orgânica de Salazar, não é assim tão diferente desta democracia super corporativa em que vegetamos.
Era nisto que pensava enquanto lia um artigo de fundo no DN, da autoria do Professor António Costa Pinto, a perorar sob o título: ‘semidemocracias’!
O termo de comparação seria a República Portuguesa! A Madeira, o mau aluno e o mau exemplo! A plena democracia, aqui, na república restante! Mitigada, na ‘mexicana’ pérola do Atlântico! E os sintomas do costume – ‘no partido dominante, nem o dirigente do partido muda’!
Um duplo erro do articulista. A nossa República, globalmente considerada, também é semidemocrática, e estou a ser benevolente: os mesmos dois partidos no poder há trinta anos! A mesma Constituição antidemocrática, vagamente em vigor, com os mesmos dois partidos incapazes de a pôr de acordo com a realidade portuguesa! E aí, continuam de acordo!!!
A Madeira de Alberto João limita-se a responder em termos dialécticos à animosidade que vem do continente, carregada de sonhos de sujeição. Nada mais lógico.
Por isso, enquanto a ‘semidemocracia’ da III República vigorar, Alberto João Jardim vai continuar a ganhar eleições.
E ainda bem.

sexta-feira, março 24, 2006

Se o Iraque não existisse...

Foi uma fatalidade o Iraque...Mas que podia eu fazer? Apertado pelo castelhano, tive que ir até aos Açores!
Mas vou dar a volta por cima, e já não é a primeira vez!
Lembram-se do MRPP?
Para enfrentar os cães do Cunhal, ultrapassei-os pela esquerda. Depois foi só virar à direita e seguir o meu caminho. Fui um herói na Faculdade! A partir daí pude escolher um Partido decente. Sá Carneiro, aliás, esperava por mim, porque sabia que eu era um jovem patriota!
Não me digam que acreditaram na história do maoísmo? Só os otários!
Nasci burguês, morrerei burguês, tudo normal. Aquilo foi mais por causa da miúda... Sempre soube de que lado soprava o vento. É do outro lado do Atlântico. Os américas ajudaram-me bastante, e afinal foram eles que ganharam a guerra.
Arranjei bons amigos na direita, a minha folha de serviços permite todas as liberdades! As nódoas ainda lá estão – “nem mais um soldado, nem mais um tostão para as colónias...” – vão demorar tempo a desaparecer, mas isso já não é para a minha vida.
Quando me lembro disso, até me arrepio! Mas como é que chegava ao Ministério dos Negócios Estrangeiros? Às Colónias? Como é que dialogava com os tiranetes que lá pusemos?
Tudo junto, deu-me a União Europeia!
Aqui um parênteses de elementar justiça: toda a gente vê que eu não tenho nada a ver com aquela malta. Sou um político com outro nível, aquilo é uma cambada de jacobinos! Lembram-se do pobre Buttiglioni!
Mas o Iraque é de facto um problema... A invasão foi um crime, não tenho dúvidas, uma mentira pegada, e prejudicial para as nossas cores. Sempre falei disso com os meus botões, mas ainda bem que eles não falam.
Aquilo é um desastre, qual democracia qual carapuça, guerra civil não tarda...
Aqueles americanos, com os ingleses à arreata, não podem andar para aí a fazer asneiras a torto e a direito! No tempo da guerra-fria eram mais comedidos. É caso para dizer que são piores sozinhos, que mal acompanhados!!!
A União Europeia não conta, quando toca a unir, vigoram como sempre vigoraram os interesses nacionais...dos grandes.
O que me preocupa é como é que eu vou sair desta história?!
A China?
Não há nada como o primeiro amor...

terça-feira, março 21, 2006

Nuno Álvares no Feijó

Sexta-feira passada, dia 17 de Março, a notícia de uma palestra sobre o Santo Condestável. Oportunidade para ouvir de viva voz o Duque de Bragança falar daquele seu ilustre antepassado! A sul do Tejo, no salão paroquial da Igreja do Feijó e por iniciativa do Corpo de Escuteiros local.
Bela iniciativa e belo pretexto.
Grande simplicidade como convém a um Santo, muita juventude, um livrinho a propósito e vamos lá reavivar os meus escassos conhecimentos:
Rompeu com a linha dinástica, soube purificar a memória, não destruiu nada, acrescentou-lhe um novo conceito – Pátria!
Deus, Pátria, Rei. Simples e eficaz!
Herói da minha juventude, outro Galaaz ou Parcifal, foi perdendo fulgor, usurpado pelo regime usurpador. Esteve para ser saneado no 25 de Abril!!! Com outros egrégios Avós!!! Tal foi o uso que dele fizeram, a confundirem o povo, tantas estátuas e ruas...quando ele exigiria apenas o exemplo.
Modelo para a juventude, a juventude não o conhece. Modelo de militar, os militares não o seguem. Modelo de dedicação ao próximo. O próximo que feche a porta!
A conversa seguia informal, o Senhor Dom Duarte falou da canonização em curso e do que isso representaria para Portugal. “Uma lança em África”, digo eu! Lembrando-me da sua insistência em participar, já velhote, na expedição a Ceuta!
Mas um militar que mata castelhanos pode ser Santo?
Na crueldade sem rosto do mundo de hoje, no tempo das ‘guerras preventivas’, a pergunta soa a falso. Nuno Álvares defendeu a Sua Pátria, não atacou ninguém. Poupou até ao limite a vida dos seus homens, e a dos seus inimigos! Que o respeitavam, que o admiravam.
O povo dizia que ele era Santo! Então não há-de ser Santo quem, com o mundo a seus pés, abdica de tudo e entra para um Convento! E mesmo aí, nesse Convento do Carmo, escolhe um lugar subalterno, para se dedicar totalmente aos pobres, aos que tiveram menos sorte na vida.
Por esta altura o espírito do Beato Nuno de Santa Maria já invadia o salão paroquial, os escuteiros atentos, ainda ouviram o empenho com que sempre protegeu as minorias, mouros e judeus, em testemunhos que o tempo não apagou! Uma vez mais a deixar a sua marca intemporal!
Uma última questão. E se o Condestável aparecesse de novo, se visse tantos castelhanos, tanta Europa a dar as suas ordens por aqui, como reagiria?
A pergunta está no ar e respondo eu: por muita compreensão e boa vontade que conseguisse angariar, estou convencido que Nuno Álvares Pereira, repetiria o gesto ameaçador que exibiu perante o embaixador castelhano: a cota de malha ainda ali estava debaixo do burel do monge, para o que desse e viesse. O embaixador castelhano percebeu imediatamente a mensagem.
E entre nós, alguém percebe alguma coisa?

sábado, março 18, 2006

As Cores de Portugal

Interpelado por um ilustre visitante, que não conheço, mas que demonstra preocupação e sapiência sobre a simbologia que presidiu à escolha das ‘cores nacionais’, regresso ao assunto, que por manifesta falta de espaço, não cabe, nem coube, na caixa de comentários do postal anterior.
Já me referi a este tema no ‘Portugal no arco-íris’, mas agora pretendo ser mais explícito.
Quais são, afinal, as cores de Portugal?
A própria dúvida, assim colocada, já indicia uma triste realidade: um dos objectivos do partido republicano foi atingido – ninguém tem certezas, estamos divididos, fomos enganados, já não sabemos quem somos. Os republicanos falsificaram a história, adulteraram os nossos símbolos. Não adianta ver o que não está visível, o que não se entende. O que não está lá, porque foi retirado, de propósito.
Retiraram a Coroa do Fundador, símbolo da Realeza e portanto da Independência, introduziram o ‘verde e encarnado’, seja da União Ibérica, seja da carbonária italiana, símbolo da dependência!
O Branco, onde tudo se pode inscrever, onde inscrevemos o sinal da nossa Missão, a CRUZ, esse caíu! O Serviço que justificou a Independência, ‘o aumento da pequena Cristandade’, aparece apenas, de forma velada, na formação dos escudos e quinas!
O Azul das Terras de Santa Maria, o Azul de Nª Senhora da Conceição, Rainha coroada na Restauração, também desapareceu!
O que resta?
A esfera, coroa fechada de um quinto império, onde não existe a Cruz?
A armilar que abraça o mundo, sem o símbolo Superior do Padrão dos Descobrimentos?
Onde está a Missão? O Estado separado da Nação? Cada um para seu lado?
Paremos para pensar. Existem três momentos culminantes da Independência Pátria, a saber:
Ourique, Aljubarrota e Restauração: Em todos eles se fez juz ao símbolo Fundador – o Branco e a Cruz Azul, mais tarde, o Branco e o Azul em Cruz! A Coroa, quando conquistámos a Independência.
Cabe aqui recordar, para que não existam dúvidas, que o Condestável, ao pôr em causa o direito dinástico, foi percursor, mas no sentido da tradição: ‘Se Deus nos deu uma Pátria, devemos defendê-la’.
Porém, ‘entre os portugueses, traidores houve algumas vezes’.
Assim, no lado errado da história, as datas do anti-Portugal são três também:
O jacobinismo de 1820, acentuado em 1910, e a cobardia de 1974.
Em todos eles fugimos de nós próprios, adoptámos símbolos dos outros, em todos eles trocámos independência por dependência!
Em 1820 renegámos a tradição e aprisionámos o Rei atrás das grades de uma constituição anti-portuguesa. A seguir veio o que se esperava, a guerra civil e a República. Esta, sabe-se hoje, sempre se soube, patrocinada pela Inglaterra que ambicionava as nossas Colónias, tal como as outras potências.
Em 1974, a República consumou o acto e foi altura de nos reformarmos, abdicando de ser uma Pátria Livre e Independente. Não conseguimos assinar a Constituição Europeia, mas estamos muito contentes na Europa. A Europa que nos ature!
Os símbolos seguiram naturalmente todo este percurso de dependências, várias e para todos os gostos.
A matrona de grandes seios mostra à evidência a sociedade infantil em que nos transformámos! O Regicídio, como em França, revela nova faceta infantil e doentia: um acirrado complexo de Édipo. Pelo avesso revela orfandade. Matámos o Pai e procuramos um sucedâneo em qualquer padrasto! De preferência solteiro e beato. Também escolhemos ateus. A seguir vamos a Fátima!
Haverá esperança?
Responde-me o ilustre visitante que o Interregno, não este, o verdadeiro, é ele próprio o sinal iniciático da ‘nova era’! É possível desde que a bandeira volte a ser símbolo do caminho que percorremos juntos há oito séculos. Os desvios e os erros servem apenas para nos indicar que nos afastámos.
O verde e encarnado, são desvios.
A Coroa que falta, é um erro.

segunda-feira, março 13, 2006

As nacionalizações continuam

Somos uma florescente economia de direcção central. Nacionalizamos tudo! Agora é o ‘Gato Fedorento’!
Disseram umas graças, algumas tinham graça, uns anúncios, e aí está a consagração nacional! Com mais juizinho, sem palavrões, porque a audiência é selecta!
Como se houvesse uma audiência mais ‘selecta’ no canal do Estado.
O processo já não sofre dos furores do PREC, e visto de longe parece bastante linear:
- A ‘coisa’ primeiro amadurece, estabelece-se de seguida um largo consenso, os media por sua vez fazem eco, e entre os media, a Televisão Pública chega-se à frente e nacionaliza a ‘coisa’. Fecha-se assim o circuito.
O País entretanto rejubila, mais tarde queixa-se dos impostos, dos funcionários públicos, e finalmente, queixa-se de si próprio!
Vejamos alguns exemplos de nacionalizações de sucesso:
O Benfica em primeiro lugar, esteja em que lugar estiver; o Sporting está sempre em vias de nacionalização; a Catarina Furtado fartou-se rápidamente das agruras do mercado e logo que foi possível quis ser nacionalizada; a PT é um ‘case study’, ninguém percebe se está nacionalizada ou não!
Uma característica une todas estas entidades: adoram ser nacionalizadas! E ao mesmo tempo adoram dizer o contrário!
A única privatização conhecida foi o Herman, que terá caído em desgraça.
Nesta altura quase que apetece gritar: força camaradas, a luta continua.

sábado, março 11, 2006

Uma família feliz

De mão dada, sobem a rampa do Palácio de Belém, felizes da vida, como se tivessem chegado ao topo do mundo. Cume de uma carreira política bem sucedida, um justo troféu para tanta ambição e canseira!
Rei por um dia, ou por cinco anos, talvez por dez, quem não gostaria de ser?
Escrevo estas linhas no divã da psicanálise, expurgado da inveja, do sofrimento da rejeição, dos traumas de infância, de tudo o que possa ofuscar ou diminuir este momento de glória, aquela imagem de felicidade.
Antes porém, debati-me com o meu outro eu, mais selvagem, primário, que me gritava ao ouvido uma série de disparates: que Mário Soares foi coerente ao não cumprimentar o inimigo da véspera, e que essa é uma atitude que está na lógica republicana. Para quê fingir que estou contente com a vitória do outro, se não estou, e se assim a minha neta não pode fingir de princesinha por mais uns anitos?!
O meu outro ouvido também não foi poupado! Dizia-me então a besta que habita dentro de mim: para a República, os Palácios devem ser Museus e não locais de habitação. Os Palácios não são do povo, porque eu nunca vi o povo habitar em Palácios. E continuava o maldizente: o Presidente deve tomar posse no notário e com testemunhas, não há necessidade de festividades e convites. Imagino que quem não votou nele, e ainda foram uns quantos, não deve estar virado para grandes festas, nem quer pagar a conta.
Mas como disse, isto foi antes do correctivo que o psiquiatra me aplicou. Nada de confusões, que eu até simpatizo com o homem.

sexta-feira, março 10, 2006

Um Cabo de Esperança

Quarta-feira, 8 de Março, dia de S. João de Deus.
Um passeio ao Cabo Espichel para festejar os doze anos do Vale de Acór!
Apetece repetir o verso de Camões: ‘Porém já cinco sóis eram passados, que dali nos partíramos, por mares nunca dantes navegados...
Foram mais do que doze sóis... de solidariedade e esperança para muitos, se calhar para todos, sem aritmética, recomeçando sempre, porque é preciso recomeçar sempre.
O dia era de festa mas o promontório, na sua rude majestade, impunha serenidade e limites. Pelo contrário, a memória do Santo rasgava horizontes!
Houve jogos e ensinamentos, almoço e divertimentos, um pouco de tudo.
O casario arruinado, ainda imponente, que inclui um teatro de ópera, recorda aos presentes que aquele local já foi um importante Santuário. Durante o século dezoito chegou a mobilizar vinte e sete freguesias da região saloia, que aqui vinham, em peregrinação, para oferecerem um ‘círio’ à Senhora do Cabo.
No fim, a Missa, para falar com Deus e de João de Deus.
João Cidade, assim se chamava o Santo que nasceu em Montemor-o-Novo, em meados do século XV, que desde criança serviu em Espanha, que trabalhou como pedreiro nas muralhas de Ceuta, que levou uma vida pouco recomendável, que se converteu aos gritos de “Jesus, Misericórdia!”
E que fundou a Ordem dos Irmãos Hospitalários para tratar dos pobres e doentes, e que deixou de pensar em si para pensar nos outros, e que é o padroeiro do Vale de Acór.
O passeio fez-me bem.

quinta-feira, março 09, 2006

O milagre republicano

Com pompa e circunstância cumpriu-se o ritual, Cavaco Silva foi empossado. É o décimo nono Presidente em noventa e cinco anos! O verde e encarnado em pano de fundo e muitos convidados. O Palácio parecia pequeno!
Lá estavam os adversários de ontem aos abraços, esquecidos os insultos da véspera, porque afinal somos todos amigos.
“Não se esqueçam que eu sou o Presidente de todos os portugueses, dos que votaram em mim, mas principalmente dos que não votaram em mim”!
A frase, uma vez proferida, opera o milagre: somos irmãos, estamos de acordo e vamos remar todos para o mesmo lado!
O resto são detalhes do discurso:
Em matéria de política interna, é preciso olhar pelos mais desfavorecidos, até porque eles não param de aumentar!
A construção da Europa precisa do nosso contributo, e nós precisamos do "contributo" da Europa, porque continuamos pobres!
O mar é o nosso destino, e por isso sentei os PALOP à minha mesa. Mas não estamos todos!
A NATO é a nossa defesa, e provávelmente voltaremos a ceder na questão dos Açores, se precisarem de bombardear o Irão!
Mais atentos, os mais interessados: O Príncipe das Astúrias, o Rei de Marrocos, o representante Inglês, e o pai Bush. A União Europeia com Durão e Delors.
Por fim, os ‘finalmente’: o brinde e a medalha. O brinde foi para todos, mas a medalha foi para Jorge. É caso para dizer – a Jorge o que é de Jorge!
E se isto tudo é verdade, e independente da dignidade do empossado, falta no entanto ‘a verdade de tudo isto’!
Falta a verdade da representação, falta o Rei.

terça-feira, março 07, 2006

Promoções de Inverno

Hoje é um bom dia para restaurar a monarquia.
Com Sócrates na Finlândia, entretido com os telemóveis, e Cavaco Silva próximo da investidura, estão reunidas as condições para uma revolução em Portugal!
Não se assustem, não haverá derramamento de sangue, nem transtornos de maior na circulação rodoviária. Será uma revolução tranquila.
Sócrates vai continuar a tratar do choque tecnológico, acumulando o cargo de director-geral da Nokia para o hemisfério sul, e Cavaco pode manter-se como presidente da economia e turismo do Reino do Algarve, para já, sem o além-mar.
Entretanto, uma Regência assegurará o Governo de Portugal.
Que terá como tarefas prioritárias:
Reconhecer que não basta vegetar entre a Europa e o Atlântico. É preciso ter vida própria, ter um rumo, capacidade de manobra e de escolha, o que em gíria política se chama independência.
Reconhecer que apesar dos dislates, incompetências e traições, de que ninguém está isento, as circunstâncias históricas colocaram de novo ao nosso alcance a possibilidade de reconstruir o Reino Unido de Portugal e Brasil, incluindo todas as outras antigas Colónias.
Foragidos da globalização, atirados para a miséria pela ditadura do mercado, cruzam as nossas fronteiras muitos brasileiros, africanos e asiáticos, à procura de alento e pão, para si e para os seus.
Trazem na bagagem a memória de uma longa convivência de séculos que pelos vistos deixou saudades.
Nestas condições, a Regência entende que Portugal não se esgotou, nem se esgotou tão pouco, o contributo que a comunidade internacional deve esperar dos portugueses.
Com efeito, nos territórios onde se fez sentir a nossa colonização, não existem questões raciais ou religiosas por resolver! Caso único no mundo!
Assim, e sem quaisquer complexos, podemos reafirmar que esta é a grande verdade política que mobilizará todo o mundo lusíada, e o único desígnio nacional compatível com a nossa vocação histórica.
O actual regime não tem solução e há muito que vive fora da realidade: já quis ser a Cuba da Europa! Ou o México! A Albânia não foi possível, paciência! Agora anda entusiasmado com a Finlândia e com as semelhanças entre os dois povos!
Em pano de fundo, já sabemos que a solução Filipina é sempre aquela certeza!
Ser Portugal é que está difícil!!!
É por isso que eu penso, que hoje era um bom dia para restaurar a monarquia.

quinta-feira, março 02, 2006

A minha resposta

Mulher do deserto, que desafiaste o Ocidente civilizado, que reclamaste desculpas pelo ultraje, aqui te respondo correndo o sério risco de não ser entendido entre os meus! Esta Europa dos direitos, outrora Cristã, é agora conduzida por homens sem Fé, não sabe pedir desculpas a ninguém!
Tu e a tua burka são a própria negação daquilo que conquistámos, e é por isso que não podemos garantir esse direito mais simples: o respeito pelo outro!
Sabes, quando fizeram aquela caricatura vergonhosa contra o Papa João Paulo II, os católicos, na sua grande maioria, nem reagiram, escudando-se em argumentos que denunciam fragilidade e descrença.
Em Portugal, esse cartoonista deu-se ao ‘luxo’ de publicar na edição seguinte do mesmo jornal, uma nova caricatura a ofender a Igreja Católica, e nada lhe sucedeu. Em nome da liberdade de expressão!
O Governo nada fez, não demandou o insolente, o Ministério Público ficou quedo.
A Assembleia da República limitou-se a analisar um longo abaixo-assinado que solicitava um desagravo. Nada se concluiu.
Existiria sempre a possibilidade de um pedido de desculpas à comunidade católica, por parte do dito representante de todos os portugueses, o Presidente da República. Desculpas que assim chegariam ao mais anónimo dos crentes.
Mas não, o Chefe do Estado ficou impávido.
Como vê, em Portugal, as coisas mudaram muito desde os tempos da reconquista aos mouros, que são, presumo, os seus antepassados. Posso até prever, pela Fé com que continua a defender a sua crença, que não lhe será difícil a si e ao seu povo reinstalar-se de novo aqui na península. Não encontrará grande resistência, porque os católicos estão fraquinhos e a grande maioria dos habitantes são ateus, com mentalidade de escravos.
Agora quanto ao seu assunto, eu tentava um último recurso: escreva à Rainha da Dinamarca.
Estou convencido que ela saberia pedir desculpa em nome dos dinamarqueses.