domingo, julho 02, 2006

Variações sobre um penalty

O inglês Carragher colocou a bola na marca e afastou-se, de costas voltadas para a baliza. Inesperadamente, deu meia-volta, correu e disparou para o lado esquerdo de Ricardo. A bola entrou mas não valeu, porque o árbitro ainda não dera o sinal. Durante todo este tempo Ricardo não se mexeu, impassível, sabendo da irregularidade do lance.
A pergunta é, o que terá levado Carragher a fazer aquilo? Correndo o risco de ‘queimar’, de reduzir desde logo as hipóteses de uma nova tentativa para um dos lados da baliza! Neste caso, o lado esquerdo de Ricardo, para onde já tinham rematado sem êxito, Lampard e Gerrard!? Um erro, que acordou de vez o mítico penalty defendido por Ricardo no último Europeu, sem luvas e para o mesmo lado!
Neste tremendo jogo psicológico, Carragher não quis medir-se com Ricardo, olhos nos olhos, teve medo de denunciar as suas intenções, e isso talvez explique aquela atitude, naturalmente condenada ao insucesso porque o árbitro só apita para a marcação da grande penalidade a partir do momento em que os dois jogadores se enfrentam, assegurando que estão ambos a postos. Carragher temeu demais esse instante.
Foi no meio deste vendaval de emoções que o jogador inglês arrancou para a bola, sabendo que teria de rematar para o outro lado, para o lado direito de Ricardo, aliás, segundo a lenda, o pior lado dos guarda-redes dextros, mas Ricardo estava avisado, simulou atirar-se para a sua esquerda, voou para a sua direita e defendeu com classe.
A bola desviada da rota mortífera pela mão direita de Ricardo, e de todos os portugueses, ainda seguiu na direcção do ferro da baliza, que a devolveu definitivamente.
E a variação fica assim concluída: o tiro seco, rasteiro, era práticamente indefensável se não se visse envolvido em tantos pequenos nadas, em tanta fantasia, a que ninguém escapa, nem Carragher, nem Ricardo, nem eu.
Para não falar da Senhora de Caravaggio, maila Senhora de Fátima.

sexta-feira, junho 30, 2006

Associação Vale De Acor na primeira linha da recuperação e integração social


Uma entrevista com o Padre Pedro Quintella, responsável pela comunidade que traz esperança de vida a muitos que a demandam.

A Associação Vale De Acor é uma instituição ligada à Igreja de S. Tiago (Almada) e a um grupo de cristãos voluntários, que se dedica à recuperação de pessoas toxicodependentes , com uma comunidade que está instalada na Quinta de S. Lourenço.
Possui a maior estrutura protocolada do país (77 camas) e é dirigida por um sacerdote nascido na freguesia da Trafaria - o padre Pedro Quintella, - que conhece como ninguém a realidade da luta contra este grande flagelo da sociedade: a toxicodependência.

Almada - Visitou as instalações da comunidade e ouviu o Padre Quintella que explicou as fases de intervenção, o modo de funcionamento da instituição, fez considerações à política oficial de combate e falou dos apoios que recebem.

Padre Quintela (P.Q.) - As formas de intervenção estão divididas em três categorias: Primária, Secundária e Terceária. A intervenção primária é evitar que as pessoas consumam drogas. Nós não nos dedicamos a isso, mas sim às pessoas que já caíram nas suas malhas, que não são capazes de superar a situação por si próprias e que vêm aqui pedir ajuda. Portanto situamo-nos na área de intervenção secundária.
Fazemos também alguns trabalhos de intervenção terceária, que é o de procurar devolver á cidadania pessoas que estavam mal, ajudando-as e acompanhando-as no regresso à sociedade e à comunidade.

Almada - Como se processa a intervenção?
P.Q. - Fazemos uma recuperação que não tem compensação química. Primeiro: não se substitui uma droga por outras, ou seja, os anti-opiáceos, os inibidores de consumo, substâncias com efeitos psicotrópicas. Segundo: temos uma preparação em internamento, que é a fase mais complexa, uma preparação para uma outra fase mais importante; Terceiro: damos grande importância à família, na qual nos inscrevemos, como os inventores das famílias na fase de integração. Um grande valor é dado à família no processo de reinserção; Quarto: damos grande relevância ao acompanhamento das pessoas na reinserção. Não basta fazer a recuperação. As pessoas regressam ao seu emprego, amigos, família e durante um ano, ano e meio, vamos acompanhando, ajudando-os a afastarem-se de nós. Quinto: as nossas intervenções não são só terapêuticas. Da equipa fazem parte um psiquiatra, psicólogos, sociólogos. O click da nossa intervenção tem a ver com uma preocupação educativa. Não basta que as pessoas não se droguem, não basta que as pessoas tenham um maior conhecimento sobre si próprias, é preciso que as pessoas tenham outros valores, outros objectivos, e possam dar outro sentido e significado à vida . Ao mesmo tempo que se desenvolve um processo terapêutico, passa um processo educativo.

Almada - Tivemos oportunidade de verificar que o horário diário é muito preenchido.
P.Q. - Há aqui um regime puxadíssimo, com um horário muito intenso. Temos aqui técnicas psicológicas que provocam grande tensão. As pessoas são chamadas a dizerem o que pensam e o que sentem, porque o não dito é para nós o princípio da evasão.

Almada - Existe alguma limitação para o ingresso das pessoas ?
P.Q. - Não. À parte de situações dramáticas que vão surgindo e que temos interesse em trabalhar com a Câmara, porque no país não está coberta a situação de adolescentes que já têm consumos pesados de drogas, não é nada saudável que um rapazinho com 15 ou 16 anos seja aqui internado com gente que tem mais de quarenta e por diante. No país não está coberta a faixa da adolescência. Não é que apareça muita gente, mas de facto há uma população de adolescentes e às vezes crianças a injectar-se ou a fumar drogas, com 11, 12 anos... Com heroínas, inclusive. É muito comum, com essas idades, começarem a fumar charros. Mas o grande grosso que nos aparece é da faixa entre os 25 e 30 anos.

Almada - As pessoas que aqui trabalham são voluntárias?
P.Q. - Temos muitos voluntários. Cerca de 50 passam por cá regularmente, médicos voluntários, enfermeiros voluntários... O pessoal que está cá a tempo inteiro não é retribuído pelo valor de mercado. Houve gente que aqui trabalhou, uma série de anos, com formação universitária e nem vou dizer quanto auferiram. Há aqui situações que não têm preço Somos amigos da igreja, ligados uns aos outros.
Consumo e panaceias

Almada - Qual o papel que o Estado assume neste âmbito?
P.Q. - O Estado tem 1300 camas para recuperação, das quais, há uns tempos estavam 500 por ocupar. Um número alucinante. Ouve um tempo em que tudo foi convergindo no sentido de se querer construir estruturas para a recuperação das pessoas, pois agora, depois de uma grande hesitação, enveredou-se por outra direcção e o objectivo da prática do Estado não tem sido recuperar mas sim o sustentar com outra higiene a vida de consumo.

Almada - Refere-se ao uso da metadona?
P.Q. - A metadona pode ser usada em circunstâncias muito específicas , muito controladas. A metadona não pode ser a panaceia dos doentes e muito menos da classe política. Eles perdem muita perigosidade alimentados com a metadona, mas isso não é uma recuperação.

Almada - Não acaba com a dependência?
P.Q. - Não. Não acaba. Eles depois passam a multi-usos. São cidadãos de segunda. Ninguém admite um trabalhador que esteja na metadona... Para nós é importante que o Estado não alimente cidadãos de segunda. A metadona cria uma sociedade «a duas velocidades».

Almada - Quer dizer com isso que a metadona é desaconselhada de todo...
P.Q. - Não é de todo. Há, situações em que é tolerada, por exemplo, nas mulheres grávidas, doentes terminais, situações transitórias. Em 1996, em Setúbal as pessoas começaram com o consumo e ainda hoje «estão» na metadona. Ouvi um técnico do Estado dizer que eram precisos 7 a 8 anos para obter resultados. Isto é uma enormidade. Para nós é importante que a metadona fosse em ordem a um tratamento, neste momento, a prática parece-nos mais que ela seja um estacionamento.

Almada - Voltando à questão do consumo: Acha que tem aumentado?
P.Q. - Sim. Em Portugal tem-se vindo a aumentar insistentemente. Há uma tendência no país de baixar a média de idades de pessoas que consomem heroína. Acabo de ler ontem o relatório da Organização Internacional do Controlo de Estupefacientes (OICS) que funciona no seio das Nações Unidas e nesse relatório dizia-se que: no ano 2000, na Europa, houve um aumento nítido de consumo de cocaína, anfetaminas, extasy, mas também muita heroína. Agora com a crise do Afeganistão é muito provável que venha por aí muita heroína barata. E ela vindo mais barata, as pessoas consomem o que lhes surge. O dependente é propenso à moda que o tráfico inventa.

Almada - As inúmeras campanhas feitas não deveriam ter contribuído para uma eventual diminuição do consumo?
P.Q. - Felizmente, 95% dos jovens não são dependentes de droga, nem tiveram contactos com ela. Não há o perigo da sociedade se tornar toda consumidora, mas há que saber o que é que fazemos com os que consomem, e o que há a fazer para que outros não entrem . Hoje as pessoas estão mais informadas, mas esta informação tem efeitos de tal maneira cínicos, que a pessoa diz: Não vou para a heroína, mas vou para os "shots" alcoólicos. Isto acontece com a gente nova. Já sabem que a heroína rebenta com a pessoa em três anos, então preferem rebentar-se aos bocados. Há aqui efeitos perversos. Deixa de se usar as drogas perigosas e avança-se para outras.

Acompanhamento e apoio da Câmara

Almada - Que apoios têm recebido ?
PQ - Somos uma instituição da Igreja. Católica, que ajudou com verbas. Temos um acordo com o Ministério da Saúde para as despesas fixas; temos o apoio do Banco Alimentar, com uma boa vontade muito grande; e depois temos colaborado, com muita correcção de parte a parte com o Município. Um entendimento muito sério e honesto entre as partes. A senhora Presidente tem-nos visitado com muita regularidade. Nós pensamos que prestamos aqui um serviço que serve o país e o concelho, que o qualifica em termos de solidariedade e com a excelência do trabalho que aqui vai sendo feito.

Almada - As instalações da comunidade são vossas?
P.Q. - Foi também a Câmara que nos pôs em contacto com o IGAHPE e conseguimos um comodato por 50 anos.

Almada - Todo o trajecto seguido até aqui o satisfaz? Que perspectivas para o futuro?
P.Q. - Sim. Faz-me muito bem aquilo que faço aqui: toda a primeira linha do testemunho das coisas grandes e bonitas que Deus faz com os homens. Com a colaboração de todos, com a lealdade de todos, com a generosidade de muita gente. As coisas têm corrido bem. Deus permita que continuem.
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Fonte: Boletim Municipal de Almada.

quinta-feira, junho 29, 2006

Vieira ajudou

Ouvi ontem um dos ‘Sermões’ do Padre António Vieira em que o jesuíta pedia ‘explicações’ a Deus, imagine-se a coragem, sobre as rapinagens holandesas no norte do Brasil e em outras paragens que estavam sob o domínio português.
Vieira queixava-se com razão, argumentando que se Deus nos tinha concedido evangelizar terras e gentes por esse mundo além, não era justo que agora consentisse que piratas ‘laranjas’, desobedientes à lei de Cristo, andassem por aí sem vergonha, a ocupar, roubar e a maltratar portugueses!
Um último ‘desafio’ e um ultimo queixume: que se era para nos tirar, aquilo que com tantos sacrifícios soubemos manter para honra e glória de Nosso Senhor, seria melhor que nunca nos houvera dado!
Parece que a Divina Providência aceitou a razão e acolheu a súplica do destemido pregador, porque em breve seriam os holandeses expulsos do Brasil para nunca mais lá voltarem. A assinalar o feito, fica a lembrança das batalhas travadas nos ‘montes guararapes’, a sul de Pernambuco, onde em grande inferioridade numérica, portugueses, mestiços e índios potiguares, levaram de vencida a poderosa armada holandesa.
Depois a história é conhecida, nomeadamente a seguir à Restauração da Independência, em que fomos recuperando persistentemente o que nos havia sido roubado.
Hoje, para quem assistiu à ‘batalha de Nuremberga’ que opôs de novo portugueses e holandeses, num jogo de futebol, não pode deixar de pensar que os argumentos (e os queixumes) de Vieira ainda fazem fé na Corte Celeste.

terça-feira, junho 27, 2006

As lições de Nuremberga

Não há um árbitro português no campeonato do mundo; não há um treinador português no campeonato do mundo; dirigentes portugueses, com responsabilidades no futebol mundial, é melhor nem pensar nisso; a Europa e o mundo não precisam do discurso redondo, atento e obrigado, habitual na grande maioria dos nossos capatazes mais ou menos desportivos; não obstante, temos dos melhores jogadores do mundo, jogadores que quando bem comandados conseguem impossíveis! Conseguem ser uma autêntica equipa!
Ao fim de quarenta anos chegámos de novo aos quartos de final de um campeonato do mundo de futebol, não porque nas anteriores participações não tivéssemos também grandes jogadores, até melhores do que os de hoje, mas não tivemos na altura a oportunidade ou a sorte de ter um seleccionador que assumisse uma liderança indiscutível, com coragem e independência.
Em cada lance, nas contrariedades próprias do jogo, nos momentos infelizes, todos sentimos, dentro e fora do campo, que a cadeia de comando estava bem firme, bastava um olhar, a expressão resoluta, o acompanhamento constante de todas as peripécias que iam sucedendo, essa força íntima que se transmite, e que faz com que pessoas vulgares se transcendam nos momentos decisivos.
Naturalmente que também faz diferença e muita, o facto da maior parte dos jogadores actuarem em países e campeonatos muito competitivos, onde não se toleram comportamentos inferiores ou infantis. O contrário exactamente do que se passa por cá, e não por culpa dos jogadores, mas de quem (não) manda, de quem os deveria formar e orientar.
Aquilo a que assistimos em Nuremberga, num mero jogo de futebol, pode bem ser o pretexto para reflectirmos sobre as nossas proverbiais incapacidades, e na melhor forma de as superarmos.
Dito de outra maneira, podíamos formular a seguinte questão: porque é que vamos mantendo um sistema político, com reflexos em todos os subsistemas, que impossibilita o desenvolvimento natural das capacidades de um país que afinal não é tão pobre como convém, e de um povo, que afinal tem potencialidades insuspeitadas mas que raramente consegue exprimi-las portas adentro!
Não antecipo conclusões, mas desconfio que o problema está onde sempre esteve, ou seja, nas falsas elites que por aqui desgovernam, em compadrio permanente, que se servem sem servir, que apregoam a democracia para os outros, e que a esta hora estão a comemorar, na televisão ou na Alemanha, a vitória da selecção!
Talvez fosse o tempo de pensarmos num centro de estágio, ou numa nova academia, para fabricar e treinar verdadeiras elites que assegurem o futuro de Portugal.
Saudações monárquicas.

domingo, junho 25, 2006

O interesse nacional

Qual é o interesse nacional em Timor?
A pergunta é para ti, português suave, que tens a cabeça metida dentro da televisão, e ainda não descobriste se o ‘Merche Ronaldo’ usa saltos altos ou não!
Mas a pergunta também serve ao Cavaco que não quer intrometer-se nos assuntos internos de um país independente! Independentemente de ter sido ocupado por forças armadas de outro país, o nosso bom aliado australiano, aliado para tudo menos para o petróleo!
A pergunta estende-se, não ao Sócrates que tem mais que fazer, mas para o Freitas, que não se ouve, mas não pode deixar de se ouvir, e por uma vez, sem se esconder atrás de siglas incompreensíveis! Será capaz?!
Para São Bento, àquela gente que gostamos de eleger periodicamente, é melhor não perguntar nada, é uma pergunta repetida, repetida mil vezes à nossa consciência, e que a nossa consciência se recusa a responder!
Em poucas palavras, o Torga disse tudo: “Fomos descobrir o mundo em caravelas e regressámos dele em traineiras. A fanfarronice de uns, a incapacidade de outros e a irresponsabilidade de todos deu este resultado: o fim sem grandeza de uma grande aventura. Metade de Portugal a ser o remorso da outra metade.”
Esta é que é a questão, hoje e sempre, não em Timor, mas em Portugal.
Queres responder?

quinta-feira, junho 22, 2006

Bandeiras negócio da china

Negócio de bandeiras da china, china negócio de bandeiras, bandeiras negócio da china. Nem com a bandeira ganhamos dinheiro!
O negócio é dos chineses, pois claro, eles é que têm os pagodes para vender ao pagode! Eles é que dominam os encarnados, os vermelhos são eles, o verde bandeira fica mal, mas imprime bem, já está: sai uma bandeira sem castelos, com pagodes, para o pagode. É sempre a aviar!
Então, e as empresas nacionais! Não conseguem concorrer com a bandeira ‘chinesa’?
Está mal. Era um nicho de mercado, um ‘cluster’, espero não me ter enganado!
O Governo é que anda distraído com o choque tecnológico, o Presidente também, porque senão já tinha pensado no assunto.
Eu penso sem filosofar: queria ver os chineses a fabricarem a bandeira azul e branca, com a coroa e as armas de Portugal, sem pagodes, sem aldrabices. Eles não têm os azuis que nós temos, a coroa para eles é chinó, a contrafacção seria muito difícil, dávamos logo por ela.
O negócio era nosso!
Assim não é, produzem em série o “verde encarnado terceiro mundo”, depois metem pagodes aqui, estrelas ali, foices e martelos acolá, rodas dentadas para quem quiser, o cliente é que manda.
É um negócio da china!

quarta-feira, junho 21, 2006

Oração da Mestra

“Senhor! Tu que ensinaste, perdoa que eu ensine; que tenha o nome de mestra, que Tu tiveste sobre a Terra.
Dá-me o amor único pela minha escola; que nem a queimadura da beleza seja capaz de roubar-lhe a ternura de todos os instantes.
Mestre, faz-me perdurável o fervor e passageiro o desencanto. Arranca de mim este impuro desejo de justiça, que ainda me perturba, e a mesquinha insinuação que sobe quando me ferem. Não me doa a incompreensão nem me entristeça o esquecimento das que ensinei.
Dá-me ser mais mãe do que as mães, para poder amar e defender como elas o que não é carne da minha carne. Dá-me que alcance fazer de uma das minhas crianças o meu verso perfeito e deixar-Te cravada nela a minha mais penetrante melodia, para quando os meus lábios não cantarem mais.
Mostra-me possível o Teu Evangelho no meu tempo, para que não renuncie à batalha de cada dia e de cada hora por ele.
Faz-me forte, ainda que no meu desvalimento de mulher e de mulher pobre; faz-me desapreciadora de todo o poder que não seja puro, de toda a pressão que não seja da Tua vontade ardente sobre a minha vida.
Amigo! Acompanha-me! Sustem-me! Muitas vezes não terei ninguém senão a Ti a meu lado. Quando a minha doutrina for mais casta e mais ardente a minha verdade, ficarei sem os mundanos; porém, Tu me oprimirás então contra o Teu coração, ele que eu soube farto de solidão e desamparo. E eu não procurarei senão no Teu olhar a doçura das aprovações.
Dá-me a simplicidade e dá-me profundidade; livra-me de ser complicada ou de ser banal nas minhas lições quotidianas.
Dá-me levantar os olhos do meu peito ferido, ao entrar cada manhã na escola.
Que não leve para a minha mesa de trabalho os meus pequenos afãs materiais, as minhas mesquinhas dores de cada hora.
Aligeira-me a mão no castigo e suaviza-a mais na carícia. Repreenda com dor, para saber que corrigi amando!
Faz que eu faça de espírito a minha escola de ladrilhos. Que a envolva da labareda do meu entusiasmo, o seu átrio pobre, a sua sala despida. O meu coração seja mais uma coluna e a minha boa vontade mais ouro que as colunas e o ouro das escolas ricas.
E por fim recorda-me, desde a palidez da tela de Velasquez, que ensinar e amar intensamente sobre a terra é chegar ao último dia com o lance de Longinos* no costado ardente do amor”.

Gabriela Mistral

* Nome do soldado que segundo a tradição trespassou Jesus com a lança.

sábado, junho 17, 2006

O Príncipe em Timor

Uma pequena notícia num jornal de grande circulação dá-nos conta da presença do Senhor Dom Duarte de Bragança em Timor.
A verdadeira e única solução para um Timor autónomo, fiel às suas tradições, unido, independente e equidistante dos apetites australianos e indonésios, está de visita àquele território e ninguém dá por isso! O próprio jornalista português que divulgou o acontecimento não se coibiu de desvalorizar o assunto: quando o Duque de Bragança lamentava algumas decisões governamentais, nomeadamente a que retirou poderes aos “Liurais”, os tradicionais chefes indígenas, o nosso repórter remata com ironia – “sempre a sua veia monárquica”!
Se isto é o que se pensa por cá, vejamos o que acontece por lá, nas entrelinhas do mundial de futebol: A GNR deve estar mais ou menos aquartelada, para não se sujeitar ao vexame de ficar sob o comando do protector-invasor australiano.
Estes, preparam um contra ataque diplomático para garantirem a sua tese: Timor é actualmente ingovernável, não tem condições para ser um País independente, tem divisões insuspeitadas, para já entre lorosaes e loromunos, e nós, australianos, queremos mais... petróleo!
O ministro Freitas vai cobrindo, dolorosa e inexplicavelmente, as costas do primeiro-ministro Sócrates, tentando que a ONU assuma responsabilidades e ‘comando’ em Timor.
Alkatiri conspira, Xanana desaparece atrás da sua mulher australiana, a população amedrontada esconde-se onde pode, os jovens que nasceram e cresceram sob o domínio indonésio, erram pelas ruas, espalham a violência, não respeitam ninguém.
Talvez que um dia se perceba, sem ironia, o valor da autoridade ancestral e ao mesmo tempo as consequências do seu vazio. Porque a ‘democracia’, mesmo a da Fretilin, para ser útil, tem uma condição prévia, o respeito pelos outros, principalmente pelos outros que nos precederam.
No caos instalado, a Igreja Católica simboliza o último dique ao desmoronamento, a única convergência de futuro.
Mas insisto, a solução simples, que não queremos equacionar, está neste momento em Timor, a lembrar como foi possível viver quinhentos anos em paz e sossego!

quinta-feira, junho 15, 2006

Corpus Cristhi

Liberdade

- Liberdade, que estais no céu...
Rezava o padre nosso que sabia,
A pedir-te, humildemente,
O pão de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
Nem me movia.

- Liberdade, que estais na terra...
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.

Até que um dia corajosamente,
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
- Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome.


Miguel Torga (1975)

terça-feira, junho 13, 2006

Decoro e bom senso

Começo por lembrar aos caríssimos visitantes deste interregno que sou aquilo a que se pode chamar um antiquíssimo adepto do futebol.
Menino e moço vi futebol nas Salésias, fui praticante, dizem que com algum jeito, e pela vida fora sempre fiz do Domingo à tarde, um dia de ‘bola’. Isto para esclarecer que nada me move contra o desporto-rei, antes pelo contrário. Tenho até, como alguns sabem, um blog dedicado a esse assunto.
Mas se tudo isto é verdade, não esperem encontrar por aqui qualquer apoio à onda de histerismo colectivo, impensável, mesmo para quem se habituou a ouvir que o futebol era, durante o ‘antigo regime’, o ópio do povo. Pois se era, ultrapassou as barreiras de classe, atacou a burguesia, instalou-se nas ‘elites’ bem pensantes, e passou a ser consumido por toda a gente, a toda a hora!
Desculpem-me, mas não estou preparado para no fim de um jogo de futebol, ver e ouvir o primeiro-ministro de Portugal a fazer comentários às incidências e ao resultado da partida! Parece-me um pouco de mais, mesmo considerando que se trata de um jogo a contar para o campeonato do mundo da modalidade...disputado na Alemanha!
A seguir apareceu o Durão Barroso...e ainda fui a tempo de ser esclarecido por um ex-presidente da república, o omnipresente Sampaio! Estavam lá todos!
Afinal, ‘o espírito de Sevilha’ não se perdeu, frutificou, criou raízes.
Mas o que é isto!?
Será que a seguir ao jogo da Inglaterra, o primeiro-ministro inglês estava ali, disponível, para dizer umas baboseiras sobre o que se tinha passado!? Será que a imprensa japonesa andou a correr atrás de algum ministro nipónico para lhe pedir um comentário sobre a derrota da equipa do Japão!?
Enfim, se souberem alguma coisa, digam-me, posso estar enganado.

Entretanto e já que estamos aqui, aproveitemos o tempo para estudar o fenómeno das migrações através deste jogo entre Portugal e Angola!
Se olharmos com atenção para a equipa das quinas, para lá do equipamento terceiro mundista, conseguimos chegar a uma primeira conclusão: trata-se de uma selecção de emigrantes, orientada por um imigrante, muito apoiada por emigrantes e que representa hoje em dia um país de emigrantes e imigrantes.
O símbolo desta selecção é Deco: um imigrante, que se tornou português, para ser emigrante!
E em Angola o que temos: uma selecção de jogadores também emigrantes, que jogam em clubes portugueses modestos, alguns jogadores com a profissão de contínuos, caso de Mateus, outros desempregados, como o guarda-redes, equipa muito apoiada por imigrantes, e orientada por um angolano!
É caso para dizer, as voltas que o mundo dá e as voltas que o discurso político também dá! Não foi assim há tanto tempo que ouvi Mário Soares a gritar: Portugal vai deixar de ser um país de emigrantes! Os que cá nascerem terão paz, pão, trabalho, habitação...como cantava a canção!
Parece que sobrou qualquer coisa, ou então, é para acrescentar...imigração em massa das ex-colónias, incluindo o Brasil!
Quem diria! Em apenas trinta anos!
Uma dúvida: serão imigrantes ou refugiados da miséria, da fome, da guerra, do socialismo, dos tiranetes que por lá mandam?
Deixemos isso, Portugal ganhou, é tudo o que interessa!
Para chatices, já basta o dia a dia.
Saudações monárquicas.

domingo, junho 11, 2006

Enforquem-se com a verdade desportiva

Isso mesmo, apertem bem os cachecóis da alienação, até à asfixia, e depois gritem bem alto “viva a verdade desportiva”! Se ainda há fôlego, quero ouvir o guincho: viva o futebol português! E descansem em paz.
Não cumpram a lei, não punam os infractores, que não é preciso. Sejam felizes, agitem as bandeirinhas, distribuam já as medalhas, comecem pela Liga, sigam para a Federação, não se esqueçam do secretário de estado, seja ele qual for.
Azia? Mau perder?
Erro. Isto não tem nada a ver com o Belenenses, não é um ‘particular’ entre Belenenses e o Gil Vicente, como andam para aí a enganar as pessoas, isto tem a ver com o cumprimento ou incumprimento duma norma simples e objectiva: quem recorrer para fora do ordenamento desportivo para aí obter uma vantagem sobre todos os outros competidores, é punido com a descida de divisão.
Mateus não podia jogar no mesmo ano na condição de amador e profissional, esta a questão. Conseguiu ultrapassar essa impossibilidade recorrendo aos tribunais comuns e jogou, até marcou golos, mas isso é indiferente. A Académica protestou, o Vitória de Setúbal também protestou, invocaram os motivos que entenderam invocar, o que também é indiferente, porque quem deve zelar pelo cumprimento das normas que regem o futebol profissional é a Liga e a Federação, porque são estas entidades que as produzem e que dispõem dos competentes organismos jurisdicionais.
Repito, não cabe aos clubes, individualmente, assegurar o cumprimento do normativo desportivo que todos se comprometeram voluntariamente a respeitar.
Não cabe portanto ao Belenenses a iniciativa de suscitar uma questão que era há muito do conhecimento da Federação e da Liga! Não se enganem, o eventual ‘beneficiado’ com o cumprimento da lei, não é o Belenenses, são todos os clubes da Liga, incluindo o Gil Vicente. Se assim não acontecer, o futebol não tem qualquer credibilidade pois cada um faz o que lhe apetece, desde que conte com o ‘colaboracionismo’ infame dos ‘donos da bola’!
Foi aliás o que se passou vergonhosamente esta semana na Comissão Disciplinar da Liga, onde aconteceu de tudo: Um filho do vice-presidente do Gil Vicente que deixou de o ser quando chegou ao Porto, uma votação assumida em Lisboa que se alterou no Porto, um ‘voto de qualidade duvidosa’, não previsto para um órgão com numero ímpar de membros.
E sem que tenham ocorrido outros factos, a não ser uma diferença de latitude, e uma viagem de um dirigente da Liga com um envelope, pelos vistos violado, o envelope, claro.
Vir, depois disto, falar de verdade desportiva, obtida dentro das quatro linhas só pode ser brincadeira de mau gosto! Mas realmente explica, e de que maneira, qual é a verdade desportiva que esteve presente no desenrolar do campeonato.
Esta cena edificante que já levou à demissão de dois juízes e à extinção, por falta de quórum, da dita ‘comissão disciplinar da liga’, promete realmente desenvolvimentos interessantes e pela minha parte espero que cale de vez essas virgens ofendidas que gostam de proclamar a verdade desportiva quando não estão em causa os interesses dos clubes do estado, com letra pequena.
Termino com este desafio entre o Belenenses e o resto do mundo: se entendem que é ilegítimo que o meu Clube, o provável beneficiado pela aplicação da lei, aceda à primeira Liga por um motivo qualquer que não vislumbro, realizem o próximo campeonato com quinze clubes, porque o Gil Vicente, esse, a ser cumprida a lei, tem que descer.
Saudações desportivas.

sábado, junho 10, 2006

Uma estrofe ao acaso

“Fazei, Senhor, que nunca os admirados
Alemães, Galos, Ítalos e Ingleses,
Possam dizer que são para mandados,
Mais que para mandar, os Portugueses.
Tomai conselho só de experimentados,
Que viram largos anos, largos meses,
Que, posto que em cientes muito cabe,
Mais em particular o experto sabe.”

“Os Lusíadas” de Luís Vaz de Camões

quarta-feira, junho 07, 2006

Dependências

Evito, e nem sei se faço bem ou mal, opinar sobre matérias que fazem parte da minha actividade do dia a dia, que exprimem vivências onde existe grande sofrimento, e em que se fica sempre com a sensação de que as teorias, por mais explicativas, nunca atingem o cerne da questão: o homem e esse mal-estar interior que o leva a percorrer caminhos de dependência e solidão.
Depois, para falar de dependências, nada melhor do que começar pelas nossas, tantas vezes ignoradas ou escondidas atrás de comportamentos aparentemente saudáveis, só aparentemente livres!
Por isso evito e acabo por mudar de tema.
Acontece que sou muitas vezes confrontado com a ignorância triunfante, afinal tão comum, que faz parte inclusivamente do discurso oficial, aquele que aposta em políticas de ‘redução de danos’ ou de ‘substituição de drogas por outras drogas’, em lugar de combater frontalmente o flagelo, autêntica epidemia que vai assumindo sempre novas formas, e que não recuará perante medidas meramente apaziguadoras.
É assim que vejo as dependências e o seu combate:
O princípio básico nesta matéria reside na coragem do diagnóstico, que deve ser capaz de pôr em causa o nosso estilo de vida, chamar o mal pelo mal e o bem pelo bem, sem tergiversações, sem medo de ser atingido pelas suas próprias armas.
Sempre existiram e sempre vão existir dependências, vícios, mas não estamos a falar disso. Estamos a falar de um pandemónio que se abateu sobre a humanidade e cujas causas ninguém quer ouvir falar!
Porque será?
Naturalmente porque elas nos conduziriam às ideologias dominantes, àquelas que ditam os nossos comportamentos actuais, que conformam o quotidiano das nossas vidas: o materialismo, o ateísmo, o egoísmo, e outros “ismos” mais ou menos semelhantes.
Como consequência, a escalada dos baixos instintos, a destruição ou relativização de valores básicos civilizacionais, conquistados com tantos sacrifícios, e que vão submergindo neste mundo que tudo descarta e consome!
Termino como comecei: o verdadeiro problema não são as substâncias, mas os comportamentos que nos levam às dependências. As substâncias funcionam como mera ‘bengala’, sem esquecer que há inúmeras dependências que não usam sequer substâncias, como é bom exemplo, o vício do jogo.
Perceber as causas e assumir a realidade da própria dependência, são o único caminho para a liberdade.
Quase que apetece repetir: “Um doido quando sabe que está doido, já não está doido”.

terça-feira, junho 06, 2006

A guerra dos dias

É uma espécie de contra-cruzada, lançada de longe pelas forças ocultas que não se conformam com a herança Católica, que não se conformam com o calendário gregoriano, nem se conformam com a história!
Se pudessem eliminar o dia de Natal, o seu significado religioso, não hesitavam.
Não se trata, infelizmente, de mais uma teoria da conspiração, porque já tentaram fazê-lo explicitamente a seguir à Revolução Francesa, mudando os nomes dos meses, apagando os dias santos, com o objetivo de edificarem uma religião de Estado com calendário próprio, mas dessa vez, o povo e a memória resistiram. Não vão desistir, e sempre que podem avançam, normalmente apoiados pelos idiotas de serviço.
Estes distinguem-se fácilmente pelas posições contraditórias que adoptam, a respeito de datas. Por exemplo, a propósito do Natal, repetem – “Natal deveria ser todo o ano”. Quando por outro lado se objecta contra a desnecessidade de andar a instituir dias disto e daquilo, reagem dizendo – “ é uma maneira das pessoas se lembrarem do ‘evento’, ao menos uma vez por ano”!
Assim esclarecidos passa a haver dias para tudo, ao sabor da moda, do interesse, da imaginação mais ou menos doentia. Mas a finalidade óbvia é, não temos dúvidas, desvalorizar e banalizar as datas de culto religioso, e já agora também político, apagando da memória dos povos episódios relevantes da sua história, mas porventura incómodos para a prossecução de fins inconfessáveis.
Só que as coisas nem sempre correm bem! No seu afã de mostrar serviço, os tais idiotas úteis às vezes exageram, desorientam-se e caiem no ridículo.
Foi o que aconteceu quando avançaram para “o dia do cão”, esquecendo e atropelando uma série de pessoas e animais que estavam em fila de espera!
Não se faz, foi mau para os cães e para os respectivos donos.
Na altura lembrei-me apenas da imagem de marca de uma célebre editora de discos: “His master’s voice!”!

sexta-feira, junho 02, 2006

Eu não sou eu!

É verdade, fui ultrapassado pelo escriba deste ‘espaço’, que texto atrás de texto se vai paulatinamente afastando do seu autor e mestre! Situação insólita que noutras circunstâncias já teria merecido um forte puxão de orelhas ou ao menos uma conversa de homem para homem. Mas vai ter de ser.
É caso para dizer que este ‘jsm’, me saiu melhor que a encomenda!
Senão vejamos:
Eu sou de facto monárquico, mas muito mais acomodado, muito mais pachorrento, sem as crises voluntaristas de que parece padecer o meu indisciplinado discípulo!
Também sou Católico, claro, mas o cruzado que habita dentro de mim, há muito que despiu a cota de malha, há muito que deixou enferrujar a velha armadura. Ao contrário, e sem que o possa refrear, ‘jsm’ esvoaça inquisidor pelos claustros, frequenta o culto com mais assiduidade do que eu, transformou-se num peregrino que não consigo acompanhar! E quando tento, acabo derreado, exausto.
E depois temos o problema dos tiques: um certo anti americanismo até compreendo, embora tivéssemos combinado disfarçar, mas com franqueza, o Professor Salazar não merecia as invectivas deste ‘antifascista’ fora de prazo!
Inexplicavelmente, e pelo que tenho lido, simpatiza ou condescende com personagens do Índex, como o Dr. Jardim da Madeira, ou o ‘defunto’ Santana Lopes, e outros figurões que nem me atrevo a mencionar.
Um outro tique que está a assumir uma feição patológica, é aquela mania das autonomias por tudo e por nada! Aqui temo o pior, a situação parece-me que já está fora de controle, até do próprio ‘jsm’!
E abstenho-me de comentar a recente veia poética...com a qual tenho sido bastante tolerante!
Noutra vertente, toda a gente sabe que sou do Belenenses! Pois bem, nem de propósito, aqui as coisas invertem-se! Eu sou muito mais faccioso do que ele! Anti-benfiquista de longa data, tenho a justa fama de mau perder e de provocar discussões em toda a parte.
Entretanto o que faz o sonso do ‘jsm’?! Aparece-me moderado, cordial, armado em desportista!
Não há paciência! Vou ter que pôr este indivíduo na ordem.
Enquanto isso não sucede, os textos aqui publicados terão de ser olhados com alguma reserva, incluindo este.

segunda-feira, maio 29, 2006

O Reino Unido resolve

“Não estou a pensar em independências tipo Cabo Verde ou Timor...Saber se a Madeira é auto-sustentável é uma das matérias que teremos de analisar profundamente...Nós queremos continuar na Pátria comum, mas temos o direito de não querer aturar certas coisas...Encontrar um sistema jurídico que mantenha a coesão e unidade nacional mas... que não nos obrigue a ter de suportar um pensamento único dominante...”.
Assim se pronunciou Alberto João Jardim no encerramento do congresso do PSD/Madeira e já imagino o coro dos seus inimigos a entoar o refrão: pobre e mal agradecido!
Já a solo, a questão parece-me legítima e deve ser discutida sem complexos, até porque pode contribuir, no caso das Regiões Autónomas para afastar a permanente tensão e restabelecer a confiança, no caso das independências fictícias de Cabo Verde, Timor, São Tomé, etc., para viabilizar uma solução estável em ligação com a antiga metrópole.
Ora, nestas condições, só existe uma fórmula eficaz de associação política, que a história já testou largamente: é o Reino Unido.
A história também confirmou que estas associações políticas de base voluntarista e com grande autonomia, longe de fomentarem o egoísmo, acentuam a solidariedade entre os seus membros.
Jardim deu o pontapé de saída, nem terá pensado no Rei, mas este Interregno não vê outra solução.

sexta-feira, maio 26, 2006

Uma vergonha

Mortos espalhados pelas ruas, irmãos timorenses, num descalabro mais do que previsível...enquanto Sócrates espera pelo aval da ONU!!!
Só ajudamos Timor se a ONU nos autorizar!!! E subsidiar!!!
Miserável política, prisioneira das “descolonizações exemplares”, comprometida com o egoísmo, que prefere suicidar-se a emendar o tremendo erro.
Enfiados nesta espécie de recreio infantil, jogamos à bola, e esperamos que os outros, os adultos, cumpram os nossos deveres. Como as criancinhas, quando fazem asneiras, também temos desculpas para tudo!
Os outros, os povos adultos, esses não esperam por autorizações de ninguém quando estão em causa catástrofes anunciadas. Avançam e ajudam.
Dizem que já fomos assim...

quinta-feira, maio 25, 2006

Então, Portugal!?

Estamos à espera de luz verde da ONU!
Luz verde, quererá dizer dinheiro?
Enquanto os outros se antecipam! Outros, que não os colonizadores!
Colonizadores, também responsáveis pela aventura da independência Lorosae!
Mas afinal onde está a solidariedade de quinhentos anos de vida em comum?
Ou será que o Iraque, Afeganistão, ou a Jugoslávia, nos interessam mais?
Mais dinheiro e menos risco, será?
Mercenários da solidariedade, seremos?
Timor fica do outro lado do mundo, eu sei. Soubemos sempre. Mas que diabo, nós é que inventámos aquele ‘problema’! Que não era problema.
Temos que lá ir e depressa, antes que descambe. Ou Timor só serve para ganhar votos e despedidas presidenciais!?

Nem de propósito, quando regresso a casa costumo atravessar a recém inaugurada Avenida Timor Lorosae, ali para os lados do Monte da Caparica. Hoje não se podia passar, estava em obras, vedada ao trânsito! Estranha coincidência!
Fui de volta, e no resto do caminho dei comigo a pensar se não seria mais apropriado mudar-lhe o nome para Avenida Camberra!

quarta-feira, maio 24, 2006

Cidadãos

Salazar separou a Igreja do Estado!
Impôs-lhe uma Concordata duríssima!
Para a proteger da coligação jacobina que chefiava?
Em obediência ao cânone de uma religião de Estado soprada pelos ventos da história?
Nunca o saberemos.
Hoje, os republicanos seguintes, querem completar o trabalho. Em cerimónias de Estado, os Dignitários da Igreja Católica deixam de ter lugares marcados.
É assim que funciona a Pátria dos cidadãos. A Instituição de referência não é constituinte!
A mentalidade vigente é essa: olham para o deserto e só vêm areia!
Curiosamente, muitos dos que se afirmam Católicos, acolhem a ideia!
Vencidos e convencidos.
Como é que acaba uma crónica destas?
“Allons enfants de la Patrie...”!?
Podem ir...que eu não vou.

sábado, maio 20, 2006

“Desaprender”

“Há uma altura em que, depois de se saber tudo, tem de se desaprender. Sucede assim com o escrever. Com o escrever do escritor, entenda-se. Eu, provavelmente poeta, estou a aprender a... desaprender. E para quê e como se desaprende? Para deixar de ronronar, para que o leitor, quando o nosso produto lhe chega às mãos, não exclame, satisfeito ou enfastiado: ‘ – Cá está ele! ‘
Na verdura dos seus anos, a preocupação do escritor parece ser a da originalidade. Ser-se original é mostrar-se que se é diferente. E as pessoas gostam das primeiras piruetas que um sujeito dá. E o sujeito gosta de que as pessoas vejam nele um talento.
Atenção, vêm aí as receitas, as ideias feitas, os passes de mão, os clichés, os lugares selectos ou, mais comezinhamente, os lugares comuns. O escritor está instalado. Revê-se na sua obra. Começa a abalançar-se a voos mais altos, a mergulhos mais fundos. É a intelectualidade que o chama ao seu seio, o público que o põe, vertical, nas suas prateleiras. Arrumado.
Quase sem dar por isso, o escritor acomodou-se e tornou-se cómodo, quando propendia, nos seus verdes anos, a incomodar-se e a tornar-se incómodo. Organiza dossiers com os recortes das críticas que lhe fizeram ao longo da sua carreira (nome, já de si, chamuscante), vai a colóquios, celebrações, congressos. Ganha prémios. É traduzido e publicado no estrangeiro. Por desfastio (e porque não, algum dinheiro) aceita colaborar em conspícuas revistas ou em jornais efémeros como o dia-a-dia em que vão sendo publicados. Está de tal modo visível que já ninguém dá por ele. É o escritor.
Se as coisas continuarem indefinidamente assim, o escritor pode ser alcandorado a gloríola nacional, com todos os direitos inerentes a uma situação dessas: academia, nome de rua, estatueta ou estátua, tudo isso em devido tempo, quer dizer, já velho ou já morto o escritor.
Pedra campal sobre o assunto.

Este é o exemplo do escritor autófago. Comeu-se a si próprio, melhor dizendo, comeu a sua própria imagem. Não por aquela devoração que o acto de criar traz consigo, mas por excesso de confiança na pessoa literata que projectou, como um halo, para todos os lados da sua figura.
E de que outro modo poderia ser?
Para não falar de modéstia – e afastando, desde já, qualquer vislumbre de proselitismo – eu arriscaria dizer que estará condenado a si mesmo todo o escritor que não prestar mais atenção aos outros e às coisas deste mundo do que à sua – sem dúvida importante, sem dúvida decisiva – preciosa personalidade. O segredo da abelha é esse. Quem não tiver uma curiosidade encarniçada por tudo o que o rodeia, quem alguma vez supuser que dá mais do que recebe, está perdido para o tal desaprender que repõe em causa ideias e formas. É que, depois de se saber tudo, estará sempre tudo por se saber.
O criador deve ter a consciência de que, por melhor que crie, não consegue mais do que aproximações a uma perfeição que lhe é inatingível. Ele é um derrotado à partida. Sabê-lo e, apesar de tudo, prosseguir, é o seu único e legítimo motivo de orgulho.
O resto é bilros.”

Alexandre O’Neill

quarta-feira, maio 17, 2006

A paternidade perdida

O ministro começou pelo telhado, sem perceber os fundamentos! O municipalismo, muito em voga em certos espíritos, é curto, não tem ligação por cima, não une, desune, e não pára a desertificação.
O traço de união só pode surgir, ou ressurgir, com as autonomias regionais, como nos Açores e Madeira, que se desenvolveram, mantendo e aprofundando o sentido de pertença.
No continente, temos que restaurar esse elo perdido. Um alentejano é um alentejano; um minhoto sabe que é minhoto e esse apelo ainda tem ressonância!
A República unitária, na linha do liberalismo centralizador, imaginando reforçar a ‘coesão nacional’, ou pretendendo apenas impor-se, destruiu de facto o poder local, transformando o País na tal ‘campina rasa’ do desânimo, que é hoje o nosso habitat. Neste meio só floresce a desconfiança e o egoísmo. A coesão nacional está por um fio.
O ministro pertence a um Partido que aparentemente defendeu a regionalização, e por isso deveria saber que qualquer reforma que favoreça um município em detrimento de outro, não é compreendida. Porque vai exacerbar rivalidades doentias, porque corre o risco da prepotência, porque todos desconfiam que não serve para nada!
Amanhã, invocando os mesmos argumentos técnico-economicistas, estaremos a recuar maternidades para Lisboa, para o Porto, e de certeza para Badajoz! É um jogo perdido.
Mas eu sou suspeito, porque acredito que a monarquia virá com o regionalismo.
O tal traço de união, por cima.

segunda-feira, maio 15, 2006

“PARA A MEMÓRIA DE ANTÓNIO NOBRE”

Quando a Hora do ultimatum abriu em Portugal, para não mais se fecharem, as portas do templo de Jano, o deus bifronte revelou-se na literatura nas duas maneiras correspondentes à dupla direcção do seu olhar. Junqueiro – o de Pátria e Finis Patriae – foi a face que olha para o Futuro, e se exalta. António Nobre foi a face que olha para o Passado, e se entristece.
De António Nobre partem todas as palavras com sentido lusitano que de então para cá têm sido pronunciadas. Têm subido a um sentido mais alto e divino do que ele balbuciou. Mas ele foi o primeiro a pôr em europeu este sentimento português das almas e das coisas, que tem pena de que umas não sejam corpos, para lhes poder fazer festas, e de que outras não sejam gente, para poder falar com elas. O ingénuo panteísmo da Raça, que tem carinhos de espontânea frase para com as árvores e as pedras, desabrochou nele melancolicamente. Ele vem no Outono e pelo crepúsculo. Pobre de quem o compreende e ama!
O sublime nele é humilde, o orgulho ingénuo, e há um sabor de infância triste no mais adulto horror do seu tédio e das suas desesperanças. Não o encontramos senão entre o desfolhar das rosas e nos jardins desertos. Os seus braços esqueceram a alegria do gesto, e o seu sorriso é o rumor de uma festa longínqua, em que nada de nós toma parte, salvo a imaginação.
Dos seus versos não se tira, felizmente, ensinamento nenhum.
Roça rente a muros nocturnos a desgraça das suas emoções. Esconde-se de alheios olhos o próprio esplendor do seu desespero. Às vezes, entre o princípio e o fim de um seu verso, intercala-se um cansaço, um encolher de ombros, uma angústia ao mundo. O exército dos seus sentimentos perdeu as bandeiras numa batalha que nunca ousou travar.
As suas ternuras amuadas por si próprio; as suas pequenas corridas de criança, mal ousada, até aos portões da quinta, para retroceder, esperando que ninguém houvesse visto; as suas meditações no limiar;... e as águas correntes no nosso ouvido; a longa convalescença febril ainda por todos os sentidos; e as tardes, os tanques da quinta, os caminhos onde o vento já não ergue a poeira, o regresso de romarias, as férias que se desmancham, tábua a tábua, e o guardar nas gavetas secretas das cartas que nunca se mandaram... A que sonhos de que Musa exilada pertenceu aquela vida de poeta?...
Quando ele nasceu, nascemos todos nós. A tristeza que cada um de nós traz consigo, mesmo no sentido da sua alegria, é ele ainda, e a vida dele, nunca perfeitamente real nem concerteza vivida é, afinal, a súmula da vida que vivemos – órfãos de pai e de mãe, perdidos de Deus, no meio da floresta, e chorando, chorando inutilmente, sem outra consolação do que essa, infantil, de sabermos que é inutilmente que choramos.

Fernando Pessoa

sábado, maio 13, 2006

Um ano depois...

Num dia treze de Fé,
Num mês de Maio florido,
Vindo do nada,
Apareceu!
Tinha a Cruz do peregrino.

Interregno de seu nome,
Intervalo sem sentido,
Talvez a Virgem lhe valha,
E lhe dê outro destino.

sexta-feira, maio 12, 2006

O Portugal dos Pequeninos

Sou monárquico por mil e uma razões, mas sobretudo porque acredito que o regime monárquico poderia significar uma vida melhor, não apenas para mim, mas para o meu vizinho, e para aquele outro, que não é meu vizinho, mas que se sente parte da mesma comunidade. Noutra perspectiva, porque respeito o legado dos antepassados, herança que gostaria de transmitir acrescentada aos vindouros.
Portugal é esse sonho palpável, um caminho percorrido por muitas gerações, com alegrias e tristezas, vitórias e derrotas, sem perder o rumo!
Dito isto, olho à minha volta e verifico que a palavra monarquia continua envolta em estranhos pensamentos, estranhas ligações, a que se associa atraso, coisa antiquada, que não existe nos países civilizados e desenvolvidos... Note-se, estou a descrever uma mentalidade que persiste no século XXI em Portugal!
Ora bem, esta ideia da monarquia não nasceu no dia 25 de Abril de 1974, antes pelo contrário. Posso até acrescentar, sem receio de falhar, que nos primeiros anos da revolução dos cravos, se falou mais em monarquia do que nos quarenta anos anteriores!
Posto isto, resta concluir que a ideia que vinha sendo vendida, conjugando a monarquia com um antiquário de plumas, inútil, com os Reis e a Corte a explorarem o povo, se fazia parte da propaganda republicana pura e dura, foi profundamente difundida durante o Estado Novo!
Mas Salazar era monárquico, gritam-me agora aos ouvidos!?
Então, se era, porque não contrariou a propaganda republicana durante o seu consulado?
Porque é que um belo dia, não se terá lembrado de dizer, alto e bom som, que era monárquico, ou ao menos, que a monarquia era o regime adequado para Portugal!?
Convém acrescentar o seguinte: a população, a esmagadora maioria dos portugueses é ‘republicana’, não porque tenha lido Platão, mas muito simplesmente porque as eminentes figuras do Estado, que religiosamente segue e imita, se afirmam republicanas. É assim que funciona a política de massas.
Por exemplo, se hoje o conhecido doutrinador televisivo, Marcelo Rebelo de Sousa, resolvesse afirmar-se monárquico e pusesse nesse ideal o ênfase com que lutou pela eleição de Cavaco Silva, estou convencido que a breve trecho, outros notáveis o seguiriam. Nessa altura o povoléu juraria a pés juntos uma fé inabalável na Coroa e mudar-se-ia de armas e bagagens para o ideário monárquico.
Dir-me-ão que isso é uma impossibilidade matemática, porque o distinto Professor acredita piamente nas virtualidades da república, faceta do seu carácter a quem deve o renome e prestígio que desfruta!
Não será bem assim, mas o exemplo permanece e pode explicar porque é que nunca há oposição em Portugal!
Estabelecendo agora um paralelismo com Salazar, e dando de barato que o ditador prezava a opinião alheia, uma de duas: ou esse pequeno Politburo chamado União Nacional, era um autêntico campo de batalha, surda e sangrenta, ou então, na outra hipótese, Salazar dominava completamente a situação e tinha a força suficiente para inflectir as decisões no sentido que lhe convinha.
A primeira hipótese é académica, não tem, nem teve, nada a ver com a realidade. Na segunda hipótese, Salazar não quis restaurar a monarquia e ponto final.
Porquê?
E que interessa isso agora?
Ao menos, que não se repitam os mesmos erros daqui para a frente. Um alerta, para quem acredita que Portugal independente ou existe em monarquia ou não existe.
Dispenso-me de demonstrar, só não vê quem não quer.

terça-feira, maio 09, 2006

Terras sem Rei

Ora aqui está o assunto do momento: duas brasileiras de ‘Maringá’ falavam ontem, nos prós e contras da televisão pública, sobre a viagem e estadia que tinham acabado de ganhar num concurso organizado pela autarquia de Vila de Rei!
Expliquemo-nos: Maringá é uma populosa cidade situada no estado do Paraná, no Brasil; Vila de Rei é uma pequena Vila desertificada no centro interior de Portugal; o concurso, da iniciativa da Câmara de Vila de Rei e aberto apenas a cidadãos brasileiros de Maringá, oferecia e oferece os seguintes prémios:
Viagem e estadia por tempo indeterminado no concelho de Vila de Rei, em casa cedida pela autarquia, emprego assegurado por não sei quanto tempo, a que corresponde uma remuneração aproximada do salário mínimo nacional, e os bons ares de uma pacata vila do interior do país!
Perante tão apetitoso prémio, Maringá em peso concorreu! Mas só existiam, ao que parece, sessenta prémios para distribuir, e sendo assim, o rateio fez-se pela ordem de entrada dos ‘pedidos’, com a eliminação natural dos menos qualificados para as tarefas de futuro que Vila de Rei exige.
Foram portanto seleccionadas para os primeiros trabalhos, uma jornalista e uma professora. Encarregar-se-ão do serviço de limpeza, a dias, onde a autarquia achar mais necessário.
Um êxito!
O entusiasmo, como pude constatar na televisão, era geral! Em primeiro lugar as felizes premiadas. Ainda sem esfregona e detergente, as duas brasileiras estavam prontas para atacar o primeiro lanço de escada que lhes aparecesse pela frente.
A edil da ideia, sorria de satisfação. Vila de Rei estava finalmente no mapa.
Rui Marques, ‘O Integrador’, como lhe chamei num dia mais lúcido, tinha descoberto a sua Índia.
Vitorino, por sua vez, terá visto a oportunidade de comprar um novo lote de terreno, a preços da chuva.
Havia um tipo de barba, que me pareceu sóbrio, mas Fátima não estava nos seus dias...refiro-me ao seu encanto, já conhecem o meu fraquinho.
Por isso desliguei a televisão ao fim de poucos minutos, e assim sendo, não lhes posso adiantar mais nada.
Peço desculpa.

segunda-feira, maio 08, 2006

Menos Azul

O campeonato sem querer ficou então mais vazio.
Nesse Domingo já frio e tão pouco verdadeiro...
Que o meu olhar percorreu, subindo pelo Mosteiro.

Por uma nesga de luz, do outro lado do rio,
A silhueta redonda desse destino sombrio.
Na expressão e na descrença...
Que a noite não descobriu!

sábado, maio 06, 2006

O desastre do ensino em Portugal

“Apesar dos esforços destes trinta anos a recuperar um tremendo atraso estrutural, Portugal encontra-se ainda na cauda da Europa no que diz respeito à educação e requalificação dos cidadãos. As medidas têm sido, em geral, desencontradas, desarticuladas e inconsequentes. O abandono escolar precoce (sem o 12º ano) atinge 45% dos portugueses jovens, enquanto a média da UE (15) é de 19% e o país mais próximo de nós é a Espanha, com 29%. Em qualquer um dos novos países da UE o panorama é muito melhor. A população global (25-64 anos) com o ensino secundário é de 20%, em Portugal, a mais baixa da OCDE, contra 51% da Grécia, 40% da Espanha e 24% da Turquia. Pior: esta situação está a regredir, avisa a OCDE, em 2004, pois os abandonos no nível secundário (10º,11º e 12º anos) não param de crescer porque o desinteresse pela formação escolar que se tem oferecido não pára de aumentar.”

“ Os alunos portugueses são os que permanecem menos tempo no sistema de ensino, no quadro dos países que formam a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). De acordo com um estudo internacional recentemente divulgado, os nossos estudantes frequentam a escola durante oito anos, menos quatro do que a média dos restantes países com assento naquele organismo”.

Nota: Estes dados estão disponíveis, estão ao alcance de qualquer interessado, são do conhecimento dos responsáveis, provêm de organismos e fontes insuspeitas e pior do que tudo isto...correspondem à realidade!
Transcrevi-os, porque achei útil registar neste espaço de interregno, aquelas realidades indesmentíveis, que explicam a nossa situação e ao mesmo tempo revelam a incapacidade deste regime para nos retirar do fosso em que caímos.

quarta-feira, maio 03, 2006

“Ensino Jesuíta em Portugal”

(...)
"Entre 1540 e 1759 os Jesuítas estabeleceram uma notável rede de instituições educativas, as mais importantes das quais foram o Colégio das Artes em Coimbra, o Colégio de Santo Antão em Lisboa, e a Universidade de Évora. No total, os Jesuítas terão sido responsáveis por 26 colégios em Portugal.
Estatísticas precisas do número de estudantes nunca chegaram a ser estabelecidas. Contudo é sabido que no final do século XVI o Colégio de Santo Antão tinha cerca de 1800 estudantes, o Colégio das Artes cerca de 2000 e a Universidade de Évora cerca de 1600. Por volta de 1759 estima-se que havia 20.000 estudantes a frequentar aulas em instituições de ensino Jesuíta.”
(...)
“Estes números podem não parecer extraordinários quando comparados com outros países europeus, mas são-no no contexto português. Só no final do século XIX é que conseguimos encontrar um número comparável de estudantes no ensino secundário.”


In Henrique Leitão, Jesuit Mathematical Practice in Portugal, Mordechai Feingold (Ed.), Archimedes, Vol.6, The New Science and Jesuit Science: Sventeenth Century Perspectives, Kluwer Academic Publishers.

terça-feira, maio 02, 2006

“Perfilados de medo”

Perfilados de medo, agradecemos
O medo que nos salva da loucura.
Decisão e coragem valem menos
E a vida sem viver é mais segura.

Aventureiros já sem aventura,
Perfilados de medo combatemos
Irónicos fantasmas à procura
Do que não fomos, do que não seremos.

Perfilados de medo, sem mais voz,
O coração nos dentes oprimido,
Os loucos, os fantasmas somos nós.

Rebanho pelo medo perseguido,
Já vivemos tão juntos e tão sós
Que da vida perdemos o sentido...



Alexandre O’Neill
(Poemas com Endereço)

segunda-feira, maio 01, 2006

Hoje não

Hoje não há pão, como dantes.
Primeiro de Maio em que fecha tudo menos a flor que se abre ao sol quente desta manhã tardia. Tardia para quem se levanta tão tarde neste dia! Segui a regra, não saio, não saí, isso é para trabalhadores, gente e termo insultuoso para quem trabalha de borla...ou quase.
Florbela, sempre queres amar perdidamente?
Ou ao menos sonhar, neste dia em que é proibido sonhar!?
Dia de espiga ou espiga de dia, sei eu bem, podíamos sair, ir por aqui e além...além, onde não vive ninguém para além de mim! Para quê tanto trocadilho num dia assim, como hoje, em que não vale a pena sonhar, nem amar, ou quase...
Queres então fazer o quê?
Já percebi, não me conheces, tens medo, preferes a segurança do luar, a vigília de uma noite de espera, em vão...
A tua casa tem pó, falta-lhe uma viola, uma música na madrugada...
Amanhã se verá...virgem desesperada.
Hoje não, hoje... nada.

quinta-feira, abril 27, 2006

Um discurso de boa vontade

“É possível identificar os problemas mais graves e substituir o eterno combate ideológico, por uma ordenação de prioridades, metas e acções”...num País “fortemente marcado pelo dualismo do seu desenvolvimento”.
Apesar do “inegável progresso registado em alguns sectores de actividade”...”essas experiências de vanguarda não conseguem impregnar todo o tecido económico e social, coexistindo nichos de modernidade com expressões de indisfarçável arcaísmo social e cultural”.
“Profundas disparidades revelam-se na leitura do território. É cada vez maior o fosso entre as regiões marcadas por uma ruralidade periférica e as regiões mais urbanizadas”. Que se traduz “num mau viver resignado, sem qualidade e sem horizontes”, e acentua “a dupla exclusão do envelhecimento e da pobreza”.
Mas, “a mais marcante das disparidades que emergem deste Portugal a duas velocidades é a que resulta das desigualdades sociais”. No quadro da União Europeia, Portugal é país “que apresenta maior desigualdade de distribuição de rendimentos. E é também aquele em que as formas de pobreza são mais persistentes”.
“Não é moralmente legítimo pedir mais sacrifícios a quem viveu uma vida inteira de privação”.
Cabe-nos transmitir “ um País mais livre, mas também uma sociedade mais justa”.
Assim falou o Chefe de Estado Republicano, nas comemorações do 25 de Abril de 2006!
Que dizer?
É o retrato de um País do terceiro mundo, clássico, que construímos com orgulho e erro nos últimos trinta e dois anos. Retrato ainda mais sombrio quando se sabe que foi custeado exclusivamente pela União Europeia, na condição de nos desenvolvermos de acordo com os parâmetros civilizacionais há muito estabelecidos para a Europa Ocidental, para o primeiro mundo.
Com a agravante de nos termos desenvencilhado, sem honra, de compromissos históricos, lançando na miséria e na guerra populações inteiras, nos vários territórios que estavam sob nossa administração...há séculos!
Cavaco Silva disse a verdade sobre a situação, pena é que não possa fazer nada quanto a isso. Nem ele, nem nenhum outro Chefe de Estado republicano.
Seria necessário, antes do mais, acabar com as comemorações de guerras civis. São estúpidas, deseducativas e transmitem uma mensagem errada à população!
São estúpidas porque dão a ideia que os portugueses que existiam no dia 24 de Abril de 1974, eram diferentes ou eram outros, no dia 25!!! O mesmo se diga relativamente ao dia 27 e 28 de Maio de 1926! Ou a 4 e 5 de Outubro de 1910, etc.etc.
São deseducativas, e por isso também são estúpidas, porque dão a ideia que existem portugueses maus e portugueses bons, e que uns são sempre maus e os outros são sempre bons!!! É que pode haver quem acredite!
Por último, transmitem uma mensagem errada, convencendo os incautos, que os que perderam a guerra, golpe ou revolução, estão muito contentes nesse dia de ‘festa’!
Nestas condições de rotativismo recriminatório, sem referências, inapelávelmente divisionista, ninguém se salva, muito menos o Presidente.
Ainda que tenha razão.

terça-feira, abril 25, 2006

Canas e foguetes

“Em minarete, mate, bate, leve, verde neve, minuete de luar”...
“Rompem fogo, pandeiretas morenitas, bailam tetas e bonitas... “Voa o xaile, andorinha pelo baile...
“O colete, desta virgem endoidece, como o ‘S’ do foguete,
Em vertigem, em vertigem de luar...”

Que fique Almada em sossego, corramos ao redondel,
É dos lados de São Bento, que nos chega o aranzel!
Onde os suspeitos reúnem, consegui encurralá-los!
Mesmo sem chocas, cabrestos, não foi difícil juntá-los.
São adesivos fatais, entram todos ‘à formiga’,
Já assim eram os pais.
Pois agora que lhes faço?
Do hemiciclo redondo, para onde os hei-de enviar?
Enquanto penso e repenso, vamos então festejar!
Allô Brasil, Portugal, e Colónias de Além-Mar,
Abandonem vossas casas, venham prá rua dançar...
Os figurões estão trancados, não nos vão incomodar.
E havemos tempo para tudo!
Palrar e condecorar, é suprema vocação.
Por isso toca a bailar, enquanto dura a função.


Nota: “Rondel do Alentejo”, de Almada Negreiros, interrompido pelo 25 de Abril de 2006.

domingo, abril 23, 2006

Retribuição

Hoje fiz um poema que não era meu.
O verso no rascunho amedrontado, já existia, perdido entre letras e sinais.
Limpei, raspei, juntei tudo...tudo refeito outra vez.
E o poema revelou-se inteiro como era no princípio!
Já livre, esvoaçou primeiro, mas faltava o golpe de asa derradeiro.
O título, cravado, a tremular ao vento...foi o último alento.
Partiu feliz sentimento na direcção do além.
Criatura bem nascida, não precisa de ninguém.

Post-scriptum: Dedico este ‘postal’ ao Luís Leandro, que o inspirou, e não desistiu de ser poeta!

sábado, abril 22, 2006

"Pau de sebo"

Ser excelente!
O cimo da pirâmide
Impossível de alcançar.
Eu estendo os braços e estico-me...
Breve encontro penitente.

Fosse eu indiferente...
Mas ao menos excelente
Excelência
Alteza
Eminência
Acenando a todos, separado da minha sombra.
Meu ego feito estátua!
Ícone de gelo, só por instantes.
Desaparecer e crescer, suspenso de um outro fogo...
Ou então de novo junto dos vivos!

Nesse caminho,
Gostava de ser excelente
E até sou!
Numa única vontade, rompe-se o luto
Que nasceu desse abismo,
E em segredo foi dizendo tudo.
E em segredo celebro o instante que nos une,
Ao Omnipotente...Divino.
Sem estar obstinado,
Celebro mais um dia vivo!

Luís Leandro

quinta-feira, abril 20, 2006

Alheamento

Ando esquisito, confesso-me distante das coisas, do que se passa à minha volta, não leio jornais vai para quinze dias, não deixei crescer a barba porque a uso crescida, numa palavra, sinto-me alheio.
Lembram-me aqueles tempos mornos em que eu meditava na impossibilidade de mudar o regime. Que afinal fingiu que mudou! Só para me enganar!!!
Uma voz amiga sussurrou-me ao ouvido: será por causa do Belenenses?!
Seja como for, tenho que reagir, ir ao encontro do acontecimento, fazer prova de vida.
Segui então pelo “Último Reduto” até à notícia, já requentada, diga-se, que refere a lista dos deputados da República que fizeram gazeta à última sessão plenária, decerto por ponderosos motivos das suas atarefadas vidas particulares e privadas.
Lá estão eles, uma grande representação do bloco central, lindos meninos e meninas, que tomam conta de nós há cerca de trinta anos, com dedicação e carinho. Não sejamos injustos. Podíamos estar muito pior, olhem o que se passa pelo mundo...na Palestina, por exemplo. Eles bem merecem as ‘pontes’, umas fériazinhas nas excelsas ondas.
A Semana Santa é na praia, nas discotecas, porque a liturgia desta rapaziada tem outras datas. A 25 de Abril ninguém falta! Lá os veremos, à volta do hemiciclo, todos enfarpelados, cravo na lapela e ar solene, agradecidos pela vidinha que têm, discursos e ordens da liberdade, etc.etc....
Idiota sou eu que também lá devia estar! A botar discurso, corda ao pescoço como um Egas Moniz, a pedir desculpa pela má representação, pelas más companhias, a prometer acabar com aquilo o mais depressa possível!
Precipitei-me, mas um dia acontece...

segunda-feira, abril 17, 2006

Princípios

Páscoa poesia, Páscoa reflexão, Páscoa oração.
Recomeço com as últimas impressões, que são as que ficam: uma reflexão sobre a blogosfera, já não é a primeira que leio no Sexo dos Anjos’, que dá que pensar. Recuei de novo ao texto de abertura, com as perguntas inevitáveis a pedir resposta: diário puro e simples, claro que não, como também não pode ser publicação para agradar ao maior número de leitores; nem sequer posso atender ou desviar-me em relação a qualquer gosto específico.
Tenho a minha agenda, o meu fito, aquilo que pretendo transmitir, isso é o mais importante, que deve decidir em caso de dúvida. E se a mensagem não interessa ou interessa pouco (tem sido o caso), ou se por desdita, o problema é do mensageiro?! Aí, paciência, não posso fazer grande coisa, a não ser esperar por melhores dias.
Adiante.
E fica dito: aproveitando a Semana Santa, tenho vindo a publicar, em parcelas, a imponente “Lição” de D. Manuel Gonçalves Cerejeira sobre “A Condição do Cristão na Construção Histórica do Mundo”! Ainda faltam alguns excertos e nesse sentido procurarei editá-los ao longo das próximas semanas, talvez em dia certo, por uma questão de comodidade minha e dos interessados.
Páscoa Poesia revista na planície alentejana, no mar salgado, nas quatro padroeiras! A voz de José Campos e Sousa, os poemas de Pessoa, Sardinha e Pacheco de Amorim, algures na Internet!
Páscoa Doutrina com um excelente texto de Paulo Cunha Porto, no seu ex-futuro espaço, “Calma Penada”: versa sobre o natural acolhimento pela Igreja Católica, de ritos e práticas anteriores (pagãs), reveladoras “dessa curva ascensional do homem primitivo para a Perfeição, que é Deus”.
Páscoa Oração, rezada de forma apaixonada no “Dragoscópio”, na própria Sexta-feira Santa!
E chega ao fim este princípio de semana.

Post-scriptum: E as minhas desculpas pela inaptidão para links, a solucionar brevemente.

domingo, abril 16, 2006

Páscoa

Esperança

Da solidão do ventre,
Passei à solidão da vida,
Quase a solidão de um túmulo!

Quase uma vida!

Solidão que tentei mitigar...
Mas proximidade nunca foi fusão.

No mais populoso aglomerado,
Troquei palavras de prisão em prisão,
Sem esperar resultado.

Sem ser capaz, deixei-me ir...
Talvez fosse a eterna razão?!

De tantos asfaltos montanhosos e escarpados,
Perigosos, talvez...

Existe agora a poesia?

Ascetas e sensuais os poetas,
Homens de uma razão, vivos na solidão,
Queridos, amados pelos homens.
Seus paraísos sem ter fim, vedados ao consciente,
... Já nesse Vale D’Ourado existe poesia.

Luís Leandro

“O cristão e o mundo novo”

Em tudo que foi dito, o cristão trabalha eficazmente pelo homem. Tem por si a experiência da Igreja, que realiza pelo Espírito a obra essencial, fundamento de todas as mais: a de restituir o homem a ele mesmo, para o restituir a Deus.
Antes de mais, endireita como o Baptista os caminhos por onde o Senhor há-de passar, quero dizer: ele faz passar primeiro a verdade e o amor. Sem a verdade e o amor, a justiça ficará cega e converter-se-á em tirania ou em revolta.
Base da civilização antiga era a escravatura. A revolução que havia de a destruir, começou no dia em que os homens souberam, senhores e escravos, a dignidade da pessoa humana. O mundo novo nasceu no interior de cada um, na consciência, antes de se traduzir nas estruturas sociais.
Será sempre assim. O homem novo construirá o mundo novo. Nunca o mundo novo estará concluído, em nenhum momento da história. Estará sempre em trabalhos e dores de nascimento.
O ponto é que o cristão saiba de que espírito é e se deixe levar por ele. Como um vinho novo, fará estalar as vasilhas velhas. Transforma a sociedade, começando por transformar os homens.
Não que despreze o condicionamento humano do mundo, isto é, a adaptação deste ao homem, ou, como também se diz, a transformação, a humanização das estruturas político-sociais. É sempre ao serviço da pessoa humana que trabalha o cristão na história, quando trabalha para Deus.
E assim como S. Paulo disse aos cristãos de Éfeso que despissem o homem velho e se renovassem no espírito vestindo-se do homem novo, o cristão procura recuperar tudo para o homem, tudo o que pode ser salvo: a economia, a política, a cultura.
Trabalha pacientemente com Deus. Cada momento é uma oportunidade, que toma com espírito humilde das mãos da Providência. Ao contrário do marxismo, que sacrifica o presente ao futuro, ele edifica o presente. Não destrói para construir. Não apaga a mecha que fumega, nem quebra a cana rachada. Não abandona o bem real pelo bem imaginado. Não pratica a injustiça para realizar a justiça.

D. Manuel Gonçalves Cerejeira
Cardeal Patriarca de Lisboa

(Última Lição como Professor Catedrático da Faculdade de Letras de Coimbra – 1958) (excerto-continuação)

sábado, abril 15, 2006

“A independência do cristão”

Mas a sua situação não é cómoda. A nenhum dos idólatras apaixonados deixará de ser suspeito. Todos os que estão, inconscientemente embora, contra a pessoa humana o denunciarão.
O escritor francês Bernanos, num livro célebre, deixou cair esta frase: “o oportunismo sagrado da Igreja”. Muitos interpretarão oportunismo no sentido de maquiavelismo. Deveriam antes pensar em transcendência, que não consente a Igreja possa ser prisioneira senão da verdade e do amor.
A todos os sectarismos, o cristão parecerá herético; a todos os messianismos, parecerá conformista; a todas as insurreições, parecerá traidor. O cristão estará sempre em contradição com tudo que é inquinado de idolatria: isto é, que pretenda ser como Deus. O seu oportunismo chama-se antes realismo cristão, sentido do ser, ou (o que é o mesmo) da verdade, da razão, da natureza. O cristão, como tão vivamente sentia o Apóstolo, foi libertado por Cristo das cadeias que faziam gemer pelo Redentor a Criação.
A sua independência, num mundo de tantos altares, menos o do Deus verdadeiro, como outrora na luminosa Atenas, revela-se apenas isto: fidelidade, autenticidade.

D. Manuel Gonçalves Cerejeira
Cardeal Patriarca de Lisboa

(Última Lição como Professor Catedrático da Faculdade de Letras de Coimbra – 1958) (excerto-continuação)

sexta-feira, abril 14, 2006

“Os mitos homicidas”

Porque ignora ou esquece a lei de Deus, a lei natural e a lei cristã (a lei cristã consagra e eleva a primeira), é que o mundo actual recai no pecado de idolatria, adorando ídolos. E estes ídolos são como os cruéis ídolos da antiguidade, que devoram os adoradores. No culto deles, o homem espera a libertação, e torna-se mais escravo; celebra “os amanhãs que cantam” e chora sempre no desespero do presente; anuncia as searas que amadurecem, e nunca chega a colher-lhes o fruto.
À roda do cristão, os homens aí seduzidos por mitos salvadores: sistemas arvorados em dogmas, ideologias tornadas religião, místicas profanas erguidas a evangelho do mundo novo. Esquecida a verdadeira escala humana, desenvolvem-se os monstros; projectos de uma humanidade sem autêntica medida humana, esboços do homem que pretende ser por-si-mesmo, sem saber o que é e sem saber como pode ser; verdades humanas, relativas, que enlouqueceram, revestindo-se de atributos divinos, convertidas em princípios absolutos a que tudo o mais há-de ser sacrificado.
É aí o mito da liberdade, uma liberdade abstracta e absoluta, que destrói as liberdades; o da classe, que ressuscita, laicizado, o conceito messiânico de raça ou classe eleita, e trás consigo a guerra; o do estado divinizado, autoritário ou democrático, não importa, os quais são ambos totalitários, se não reconhecem as limitações e obrigações da lei natural e divina; o do socialismo marxista de um mundo e homem novos, que é construído sobre a imolação dos obreiros que não chegam – não chegarão nunca – a vê-lo; o da eficácia, que subordina a moral ao êxito, o bem concreto ao bem ideal, o presente ao futuro; o da novidade, que renuncia ao poder de julgar, descolora de valores a obra humana, faz do tempo o critério (que é a maneira de não ter critério), destrói a todo o momento o que cultivara; o do regime político, o qual confunde técnicas da organização política com valores morais ou mesmo com o Evangelho, identificando-se com a realização histórica do reino de Deus.
É missão do cristão no mundo de hoje desmitificar as realidades, as esperanças humanas. Ou, como disse certo escritor insuspeito, “desengordurar definitivamente a política da mistura impura do absoluto”. Mais precisamente, trazer os problemas do homem às suas dimensões naturais, colocá-los na verdadeira escala humana, situá-los, concretamente, na sua ordem, na sua medida, na sua natureza, na sua realidade, como já foi notado. O cristão fiel ao seu espírito nem poderá deixar-se embarcar em místicas irracionais, ou irrealistas, que violam a ordem da natureza; nem poderá deixar-se tentar por nenhuma forma de terrenismo. Tudo julga e mede por aquele único metro que mede o homem e a natureza, o Metro que é a medida da criação inteira, o Verbo de Deus feito homem.
E assim o cristão, iluminado pela Fé e guiado pala caridade, trabalha eficazmente no interior das humanas realidades, cooperando com Deus na construção do mundo. Liberta-as, restaura-as, ele salva verdadeiramente o mundo.

D. Manuel Gonçalves Cerejeira
Cardeal Patriarca de Lisboa

(Última Lição como Professor Catedrático da Faculdade de Letras de Coimbra – 1958) (excerto-continuação)

quinta-feira, abril 13, 2006

“O homem e a ordem natural e divina”

Para todo o cristão o Cristianismo significa a plenitude da história. É por ele e nele que o homem atinge a consciência do que é, e encontra os meios de se realizar. Citarei palavras do já nomeado sociólogo inglês Dawson: “ o Cristianismo ensinava que entrara, com Jesus, no género humano e no mundo natural, um novo princípio de vida divina pelo qual a humanidade se via elevada a grau superior. Cristo é a cabeça desta humanidade restaurada, o primogénito da nova criação; e a vida da Igreja consiste no aumento progressivo da Incarnação pela gradual incorporação do género humano nesta ordem superior”.
Torna-se evidente que não se poderá salvar o homem, se se despreza a sua natureza e destino, ou, por outras palavras, a ordem natural e divina. No fundo de todo o problema de civilização e cultura está o problema do conceito do homem. Toda a obra que não respeita aquela ordem, sacrifica a pessoa humana. E como ela é o termo da criação, que de certo modo deve assumir e elevar consigo, degrada esta.
O filósofo Sartre insurge-se contra tal noção de ordem, de lei, de natureza. Elas importariam a ruína da liberdade. No drama filosófico Mouches manifesta claramente o seu pensamento: a recusa, a revolta oposta por Orestes à ordem estabelecida por Júpiter seria a condição da liberdade. Simplesmente, nem Júpiter é o Deus do Evangelho (e não há outro), nem a ordem cristã é essa ordem imutável governada pela lei fatal da necessidade, da filosofia grega.
Ordem natural, lei natural, ordem divina do mundo, não quer dizer alguma coisa de externo, de arbitrário, mas sim fidelidade à natureza íntima, à finalidade intrínseca da criação. É expressão do ser, autenticidade ontológica, esplendor de verdade.
E o Deus do Evangelho é Deus-Amor, como o definiu o Apóstolo teólogo. A lei cristã, a lei da graça, significa comunhão de amor, entre Deus e o homem. É deificação da criatura humana. Restaura, purifica, exalta, sobrenaturaliza. Insere na história a Luz e o Amor de Deus, a própria natureza divina. Numa palavra, é associação e colaboração da Trindade Santíssima e do homem.
E onde a relação é de amor, já não há lugar para servidão, só cabe liberdade.
Desprezar a ordem divina do mundo, desconhecer a natureza e destino do homem, será jazer infalivelmente na desordem, na tirania, no anti-natural e anti-cristão, no infra ou anti-humano.
Deus criador e redentor está no princípio de todo o programa e empresa de salvação do homem. Tudo readquire o seu lugar e valor no universo; refaz-se a harmonia da criação, que o pecado desfez; tudo se recupera e valoriza e hierarquiza, do que foi criado; tudo é salvo.

D. Manuel Gonçalves Cerejeira
Cardeal patriarca de Lisboa

(Última Lição como Professor Catedrático da Faculdade de Letras de Coimbra – 1958) (excerto-continuação)

quarta-feira, abril 12, 2006

“Pessoa humana e civilização cristã”

Avançarei desde já que é missão do cristão na história salvar a pessoa humana. Comecei nesta Universidade o meu ensino estudando o nascimento da Europa, da civilização ocidental, nessa fecunda Idade Média, madre do mundo novo, que tentei reabilitar. Europa, civilização ocidental, se estas palavras têm ainda sentido comum, quero dizer, conteúdo positivo (e não simplesmente situação geográfica), deve-se ao resíduo de valores cristãos. Nasceram, “não sobre uma unidade política, mas sobre uma unidade eclesiástica”, sob as asas maternas da Igreja.
Desta origem provém o humanismo, que é nota essencial da civilização cristã. Com o nome de respeito do homem pelo facto de ser homem, como dizia o velho Guizot, ou o de respeito da pessoa humana, como se diz hoje, ele sobrevive (até quando?) na consciência moderna. Foi Dawson, o sociólogo inglês, hoje professor na Universidade americana de Harvard, quem notou que o mesmo humanismo ateu era fruto restante da árvore cristã. E, na luta de gigantes que se trava aí ante nossos olhos assustados, é ainda ele, “por mais enfraquecido que esteja, que, apesar de tudo, constitui, em face do comunismo, a única unidade de fé que subsiste no Ocidente”.


A situação do cristão na história

Numa visão cristã da história, pode afirmar-se que tudo na criação é para o homem e o homem é para Deus. O Apóstolo S. Paulo, com a sua força habitual, proclamou-o aos neo-cristãos de Corinto: “tudo é vosso e vós sois de Cristo”.
E nestas imensas palavras se condensa o duplo destino, temporal e eterno, do cristão. Como Jesus Cristo mesmo disse, ele está no mundo mas não é do mundo.
Não sendo do mundo, a sua transcendência aos limites do espaço e do tempo impede-o de se deixar reduzir ao mundo. É superior ao mundo, tem um destino próprio, ele é de Deus, tudo deve ser subordinado à sua própria salvação.
E desde já é evidente que não pode jamais deixar-se absorver, sem se negar, “no movimento da existência temporal, no oceano todo-poderoso da história”, ou seja, na classe, na raça, na nação, na humanidade.
Mas estando no mundo, o cristão realiza nele a sua salvação. Não é evadindo-se do mundo, num sobrenaturalismo desincarnado, que logrará ser de Deus. Cristianismo significa incarnação de Deus e deificação do homem. Não é destruindo em si o homem que o cristão se tornará cristão. Pelo contrário, o cristão tornará em si o homem mais homem, na medida em que mais ele for de Deus; explicando, na medida em que melhor se conformar com o Homem-Deus, realizar o Pensamento e o Amor que o criou.
O cristão, pois, deverá empenhar-se, com toda a sinceridade e resolução, nas tarefas temporais tendentes a adaptar o mundo ao homem, de o humanizar, para o restituir a Deus. Fazendo-o, coopera na obra da Incarnação e da Redenção, que assume, restaura e eleva o homem e a criação inteira.
(...)

D. Manuel Gonçalves Cerejeira
Cardeal Patriarca de Lisboa

(Última Lição como Professor Catedrático da Faculdade de Coimbra – 1958) (excerto – continuação)

terça-feira, abril 11, 2006

“A Condição do Cristão na Construção Histórica do Mundo”

“Volto à velha Universidade de Coimbra, ao fim de trinta anos de ausência – para morrer nela como seu professor.
Nem me faltam, conforme é costume e a amizade inspira, os rituais elogios fúnebres, digo, académicos. A Universidade consagra um filho; perdoe-se-lhe, à nossa boa Alma Mater, a cegueira do louvor. Nem se lhe leve em conta que, louvando-o a ele, em grande parte se louva a si, que o formou.
A minha volta aqui é romagem de saudade, certamente. Mas quer ser sobretudo de homenagem à prestigiosa Universidade, que deu brilho ao meu obscuro nome, inscrevendo-me no áureo catálogo dos seus “lentes”.
Recordo agora que lhe chamei, ao começar, velha. Noto, porém, ao revê-la, que está mais nova. Quem está velho sou eu...


O problema do homem no mundo actual

Não iniciarei esta última lição como o salmaticense Fr. Luís de Leon, ao retomar a cátedra, após os tantos anos de reclusão inquisitorial: “como íamos dizendo”. Eu direi antes: - concluindo.
Dissertarei sobre a condição do cristão na construção histórica do mundo. Todos reconhecem que o mundo cresceu, quebrando os antigos limites; a ciência e a técnica estão aí a tentar alargá-lo aos espaços interplanetários; louco de orgulho, já desafiou o Criador, proclamando que também o homem pode povoar o espaço; até promete fabricar um mundo novo e um homem novo.
O problema, todavia, o grande problema, o problema trágico, é se há lugar para o homem no mundo novo, se o homem novo ainda é homem.
Em 1946, consagrado escritor francês abria na Sorbona uma solene conferência da Unesco nos seguintes termos: “No fim do século último, a voz de Nietzsche retomou a frase antiga ouvida no arquipélago: Deus morreu. Sabia-se muito bem o que queria isso dizer; isso queria dizer que se esperava a realeza do homem. O problema que se põe para nós hoje é saber se, nesta velha Europa, sim ou não, o homem morreu”.
Não tem faltado quem creia cegamente no movimento da história. Cada momento seria um avanço. A evolução constante, necessária, do mundo desenvolver-se-ia em progresso indefinido. – Mas não equivalerá isto, sem insistir agora no que historicamente há de errado, a dizer que a história não tem sentido? Neste conceito da história, o que sucede é o que devia suceder. Bem e mal identificam-se na raiz; o êxito consagra tudo. O único critério de valor é o facto da existência histórica. Porque falar então de progresso onde só há movimento? Porque dizer melhor, onde só vale sucessivo? Para julgar a história torna-se necessária uma escala de valores superior a ela.
O historicismo absoluto – e ele é uma consequência lógica do intelectualismo ateu – nega a realidade do mundo moral. Aquilo que distingue o homem na criação, e o forma como tal, isto é, a verdade, o bem, a justiça, o amor, tudo isso seriam grandes palavras sem conteúdo objectivo. O historicismo destrói o homem.
Nem nos detenhamos no pessimismo existencialista que pretende é este um mundo “sem caminho”, e o homem “uma paixão inútil”. Como alguém disse, “a origem de todo o desespero é a crença de que vivemos num mundo absurdo que não tem nem direcção nem fim. Não está o horror no drama, mesmo se comporta peripécias sangrentas e riscos de condenação; o horror está antes na ausência de drama, no caos material de que a criatura pensante não é mais que um elemento inútil. O escândalo não está no sofrimento, mas no sofrimento sem razão, sem causa, no sofrimento inútil e perdido”.
(...)

D. Manuel Gonçalves Cerejeira
Cardeal Patriarca de Lisboa

(Última Lição como Professor Catedrático da Faculdade de Letras de Coimbra – 1958) (excerto)

sábado, abril 08, 2006

Um Padrão com paredes de vidro

Estava plantado em cima da Rosa-dos-ventos, sem tirar os olhos do monumento, não andava nem para a frente, nem para trás!
- Oh homem entre, insistiu o guia! Lá dentro temos um elevador e um filme para você ver! E especiarias!
Nunca entrei no ‘Padrão dos Descobrimentos’, por isto ou por aquilo, falta de interesse. Estou farto de comemorações, desconfio dos comemorativos, aliás, uma raça de impotentes bem conhecida. Mas a malta já tinha entrado toda, eu entrei também.
Antes, tínhamos dado uma volta ao Padrão, acompanhando o esforço dos navegantes e do cicerone para os identificar. São trinta e duas personagens que, de um lado e doutro, parecem empurrar qualquer coisa para o rio!
O Infante D. Henrique, ‘The Navigator’, bem proeminente, de caravela na mão, não se confunde, é o homenageado. Grão-mestre da Ordem de Cristo. O personagem trinta e três!
O motivo: quinhentos anos passados sobre o seu passamento – (1460-1960).
E a oportunidade para reconstruir em pedra, uma estrutura precária utilizada para o mesmo efeito em 1940 para abrilhantar a “Exposição do Mundo Português”.
Então nesse ano a Europa não andava toda em guerra? E nós fazíamos exposições?!
Duas interrogações disparadas sobre a minha pessoa, e tive que me defender:
Primeiro, é para que vejam que ‘Portugal não é só um país europeu...’! Segundo, é para que vejam como nos transformámos num País de eventos!
Terceiro, talvez para lembrar à Europa e ao Mundo, entretanto em guerra, que afinal existíamos! Para que no fim não se esquecessem de nós...nas partilhas, em lugar de nos partilhar!
E seguimos viagem rumo ao pequeno filme de produção francesa, inspirado em biombos chineses, e que mostra os portugueses de nariz comprido e hábitos estranhos...para os japoneses. Uma autêntica descoberta. Tive que fazer um esforço para assimilar o alcance e manter a auto-estima em alta.
Já entre as especiarias, destaco:
- Os autores da Obra: arquitecto Cottineli Telmo e o escultor Leopoldo de Almeida;
- Os retratos da inauguração, onde se lembram: Américo Tomás, Salazar e o seu Ministro das Obras Públicas, também o Presidente do Brasil, Kubitschek de Oliveira, do que me ficou na retina;
- E umas pequenas tabuletas, penduradas na parede, com o registo da guerra civil permanente que vai consumindo a nossa existência!
Sobre o ano de 1960, diz-se o seguinte: “Ano em que Àlvaro Cunhal e outros presos políticos se evadiram da prisão de Peniche...Ano da inauguração do ”Padrão dos Descobrimentos” para comemorar os quinhentos anos...”!
Foi a vez de subir no elevador, e lá do cimo, de costas para o rio, tentar descobrir o Palácio da Ajuda, a Igreja da Memória, o Estádio do Restelo! E outros monumentos.
Mais em baixo, a Avenida da Índia, mais longe, a infância na Junqueira...

quinta-feira, abril 06, 2006

“Sobre o actual momento de política e definição estratégica”

(População toxicodependente)

“Deu-se nos últimos anos uma alteração da população toxicodependente: de um problema maioritáriamente juvenil, passou-se para uma questão sobretudo social, que afecta adultos auto-marginalizados;

Seria da maior pertinência política e social considerar os adolescentes envolvidos em percursos de toxicodependência, não criminosos. O haxixe e o álcool, bem como a cocaína consumida esporadicamente, podem ser substâncias consumidas sem ruptura social por jovens que assim mesmo se manifestam descrentes dos compromissos e expectativas que a sociedade lhes propõe. Não esquecer, por conseguinte, que quem semeia ventos colhe tempestades;

A semelhança na química das substâncias aditivas não dispensa uma diferenciação ética entre as mesmas;


(Descriminalização)

A descriminalização foi uma falácia. Não alterou substancialmente os percursos na justiça. Estes dependem sobretudo da dificuldade em adquirir droga. Só haverá menos toxicodependentes presos se houver liberalização do comércio das drogas. É isso que se pretende?
Pensamos que a descriminalização deu à sociedade um sinal contra educativo. O bem jurídico que consiste na existência de cidadãos responsáveis foi desvalorizado;
Pensamos que é educativo manter o sinal pedagógico da criminalização. O mesmo não é dizer que os toxicodependentes devam ser presos. Pertence ao legítimo poder político criar alternativas consistentes do ponto de vista educativo e solidário;


(Salas de Chuto)

Parece ser um problema nascido mais da imaginação das juventudes partidárias e do BE do que da atenção à realidade;
O partido do Governo parece estar mais comprometido com compromissos tácticos do que convicto da bondade de tal medida;
Se as Salas de Chuto pretendem diminuir os riscos de contágio com o HIV+ erram o alvo. Os eventuais dependentes contagiáveis pretenderam outra coisa que não ser elencados e identificados. Entre os toxicodependentes que eventualmente se encontrem disponíveis para frequentar as Salas de Chuto contam-se sobretudo os já doentes de HIV+;
Por outro lado pensar que assim se consegue trazer para a rede de saúde os mais degradados é esquecer que faz parte da sua própria atitude aproveitar-se da rede de saúde pública para não sair. Dos bairros mais degradados saem os que são perseguidos pela delinquência associada à sua marginalidade e não os que o Estado ajuda a serem marginais;
Pode-se suspeitar que existam interesses corporativos associados às estruturas técnicas do Estado que pretendam ver avançar esta hipotética nova frente de trabalho;


(Algumas sugestões)

Estude-se qual seria efectivamente a eventual população que frequentaria as Salas de Chuto através de um organismo independente das estruturas estatais (por exemplo, através de Gabinetes de Estudo das Universidades);

O que consideramos verdadeiramente preocupante é:

- A situação das prisões;
- A marginalidade adulta entre adolescentes;
- O consumo crescente de haxixe (15% dos jovens estudantes europeus fumam haxixe mais de quarenta vezes por ano);
- A desistência de um discurso e prática educativa de valores e virtudes para promover a integração e normalização sucessiva de sintomas de mal-estar social (Não há drogados felizes – C. Olivenstein);
- Melhorar a segurança de vizinhança de acordo com a Teoria dos Vidros Partidos: o abandono da vigilância acelera o ritmo da degradação...”

(excerto de uma comunicação do “Vale de Acór”, comunidade terapêutica de recuperação de toxicodependentes, que com a devida vénia transcrevo)

quarta-feira, abril 05, 2006

“Sobre o nosso entendimento dos deveres do Estado”

“ O Estado existe, não para proteger os vícios pessoais, mas para promover o bem de todos, porquanto o seu dever mais elevado está ligado justamente ao preceito da caridade: ajudar os débeis, defender os oprimidos, fazer o bem àqueles que vivem em dificuldade (...). A ordem natural baseia-se sobre o extermínio recíproco ou, no melhor dos casos, sobre uma mútua limitação dos homens. A ordem moral é baseada na recíproca solidariedade e a expressão primeira e mais simples de tal ordem é a ajuda gratuita, a beneficência desinteressada.”

Vladimir Soloviev


“...O mundo inteiro indiferente com a desgraça daqueles dezanove anos. O primeiro dever da civilização é evitar que fiquem os desgraçados pelo caminho!
Os desgraçados são a vergonha da humanidade, são a desonra da civilização!
Mas a vida passava-se lá muito acima disto tudo, ocupada com a vida de todos, indiferente com a vida de cada um.”

Almada Negreiros

(excerto de uma comunicação do "Vale de Acór", comunidade terapêutica de recuperação de toxicodependentes, que com a devida vénia transcrevo)

terça-feira, abril 04, 2006

“Sobre a nossa Missão”

“ O amor torna-se o critério para a decisão definitiva sobre o valor ou inutilidade duma vida humana. No mais pequenino encontramos o próprio Jesus e, em Jesus, encontramos Deus”.

“Sobretudo para o pensamento marxista ‘os pobres não teriam necessidade de obras de caridade, mas de justiça”.

“A justiça é o objectivo e, consequentemente, também a medida intrínseca de toda a política. A política é mais do que uma simples técnica para a definição dos ordenamentos públicos: a sua origem e o seu objectivo estão precisamente na justiça e esta é de natureza ética. (...) O que é a justiça? Isto é um problema que diz respeito à razão prática; mas, para poder operar rectamente, a razão deve ser continuamente purificada porque a sua cegueira ética, derivada do interesse e do poder que a deslumbram, é um perigo nunca totalmente eliminado”.

(...) O amor – caritas – será sempre necessário mesmo na sociedade mais justa.
Não há qualquer ordenamento estatal justo que possa tornar supérfluo o serviço do amor. Quem quer desfazer-se do amor, prepara-se para se desfazer do homem enquanto homem. Sempre haverá sofrimento que precisa de consolação e ajuda.
Haverá sempre solidão. Existirão sempre também situações de necessidade material, para as quais é indispensável uma ajuda numa linha de um amor concreto ao próximo. Um Estado, que queira prover a tudo e tudo açambarque, torna-se no fim de contas uma instância burocrática, que não pode assegurar o essencial de que todo o homem sofredor – todo o homem – tem necessidade: a amorosa dedicação pessoal.”

Papa Bento XVI

(excerto de uma comunicação do “Vale de Acór”, comunidade terapêutica de recuperação de toxicodependentes, que com a devida vénia transcrevo).