sexta-feira, setembro 01, 2006

Maré-cheia

Umas curtíssimas férias, belíssimos dias, as tardes na praia, anos de vida, e poucas notícias como convêm. Apenas uma curiosidade fugaz pelo ‘caso Mateus’, que fecha ao rubro a época balnear.
Sou parte nesta história, herança belenense que não desarma, e dir-se-á que o tema não reúne elevação suficiente para um interregno, pois é questão estritamente desportiva, e como tal deve ser tratada nos locais próprios e pelos órgãos competentes. Como se vê é impossível escapar-lhe, e sem querer vou repetindo argumentos, pois de argumentos se constrói esta terra... sem argumentos que lhe valham, para além da consabida vontade de uns quantos, mais teimosos e perseverantes do que nós.
Os telejornais abrem com o ‘caso Mateus’, em que todos se ameaçam e ameaçam ter razão, mas nós já sabemos como tudo vai acabar: pela surra, de fininho, sem grandes estragos, o Gil Vicente vai para a Liga de Honra, com a necessária compreensão pela sua luta estóica contra a maldade do mundo que a própria FIFA encarna! E pronto.
Se pudéssemos passar sem ela, não me refiro à vaidade, mas á FIFA, se pudéssemos passar sem a selecção das bandeirinhas, sem os três clubes do estado, sem as grandes finais em que vamos todos, sem a glória das medalhas que a FIFA nos dá! Se pudéssemos organizar por aqui, uma FUFA ou uma FOFA, à nossa maneira, com as regras que a gente gosta, a ganhar sempre, não queríamos saber da FIFA para nada, seríamos os primeiros a trair esta prepotente organização a que só pertencemos porque nos dá jeito.
Muito bem, e que outras novidades perdi?!
Nada de importante a não ser este problema de última hora relacionado com a nossa participação na força internacional que vai para o Líbano: então não querem lá ver que serão os castelhanos a comandar o nosso minúsculo contingente!
Isso nunca, quando vamos a algum sítio, nem que seja um português sozinho, só aceitamos ser comandados pelos ingleses, até porque já estamos habituados.
Mas a praia, repito, estava óptima.

sábado, agosto 26, 2006

“Sobre o nosso entendimento dos deveres do Estado”

“O Estado existe, não para proteger os vícios pessoais, mas para promover o bem de todos, porquanto o seu dever mais elevado está ligado justamente ao preceito da caridade: ajudar os débeis, defender os oprimidos, fazer o bem àqueles que vivem em dificuldade (...). A ordem natural baseia-se sobre o extermínio recíproco ou, no melhor dos casos, sobre uma mútua limitação dos homens. A ordem moral é baseada na recíproca solidariedade e a expressão primeira e mais simples de tal ordem é a ajuda gratuita, a beneficência desinteressada.”

Vladimir Soloviev

“...O mundo inteiro indiferente com a desgraça daqueles dezanove anos. O primeiro dever da civilização é evitar que fiquem os desgraçados pelo caminho!
Os desgraçados são a vergonha da humanidade, são a desonra da civilização!
Mas a vida passava-se lá muito acima disto tudo, ocupada com a vida de todos, indiferente á vida de cada um.”

Almada Negreiros


Salas de chuto

“Parece ser um problema nascido mais da imaginação das juventudes partidárias e do BE do que da atenção à realidade;
O partido do Governo parece estar mais comprometido com compromissos tácticos do que convicto da bondade de tal medida;
Se as Salas de Chuto pretendem diminuir os riscos de contágio com o HIV+ erram o alvo. Os eventuais dependentes contagiáveis pretenderam outra coisa que não ser elencados e identificados. Entre os toxicodependentes que eventualmente se encontrem disponíveis para frequentar as Salas de Chuto contam-se sobretudo os já doentes com HIV+;
Por outro lado pensar que assim se consegue trazer para a rede de saúde os mais degradados é esquecer que faz parte da sua própria atitude aproveitar-se da rede de saúde pública para não sair. Dos bairros degradados saem os que são perseguidos pela delinquência associada à sua marginalidade e não os que o Estado ajuda a serem marginais;
Pode-se suspeitar que existam interesses corporativos associados às estruturas técnicas do Estado que pretendam ver avançar esta hipotética nova frente de trabalho;

Sugestão:

Estude-se qual seria efectivamente a eventual população que frequentaria as Salas de Chuto através de um organismo independente das estruturas estatais (por exemplo, através de Gabinetes de Estudo das Universidades);”

Com a devida vénia, pela oportunidade e interesse que o assunto merece, o Interregno volta a publicar parte de um texto da autoria da Associação Vale de Acór, comunidade terapêutica para o tratamento de toxicodependentes.

quarta-feira, agosto 23, 2006

Jardim cercado

Nos Açores é diferente, a descontinuidade territorial, as muitas ilhas com as suas rivalidades, perdem unidade e são mais fáceis de domar. A Madeira e o seu cacique é que são o problema desta terceira república que em má hora se lembrou das regiões autónomas, com tudo o que isso acarreta de independência e desenvolvimento.
Estão visivelmente arrependidos.
O homem é inconveniente, não faz vénias ao continente, exige e ameaça com o nosso dinheiro, nosso é uma força de expressão, talvez não seja nosso, mas dele não é concerteza!
E agora que o país está quase na linha, domesticado, sobrevivente em euros sem poder reclamar, sem alternativa, disponível para se sacrificar até ao fim por este caminho sem rumo que lhe foi generosamente traçado, não podemos tolerar dissidências.
Sigamos pois no cerco ao relapso madeirense, arremedo de feudalismo que nunca tivemos nem podemos ter, ele bem sabe a nossa sina, por isso vamos em frente, retiremos-lhe os meios com que se pavoneia, que lhe têm valido vitórias atrás de vitórias!
Vamos sufocá-lo, será obrigado a render-se.
Nessa tarefa patriótica, feita em nome da nossa velha república unitária, contamos com apoio generalizado da população continental, até de sectores insuspeitos, de outras áreas políticas, nas direitas, no centro, entre os chamados independentes, porque ninguém tolera a independência do líder da Madeira!
Afinal que argumentos tem o homem? Qual a razão de tanta popularidade entre os seus?
Aplicou bem o dinheiro que lhe deram? Talvez, atendendo a que a Madeira passou a ser considerada em termos europeus uma região mais desenvolvida e por consequência com o acesso ao crédito mais dificultado. Tanto pior para ele! Os relatórios internacionais também parecem confirmar um forte ritmo de crescimento que se tem verificado.
Mas isso que interessa comparado com o prejuízo que representa para a república a estridência enervante desse sujeito. Um mau exemplo para os desertificados ‘distritos’ do continente.
Resta-nos sonhar, acordar a imaginação, e que saudades, a consolação que teríamos se em lugar de um cacique, tivéssemos vários como este, espalhados por esse império perdido, a reclamar insistentemente mais e mais verbas, vergastando o continente pelos seus erros, desconfiando do poder central, mas com plena confiança da sua gente!
Sinal de que tínhamos merecido a herança...e que ainda tínhamos mão nela.

Post-scriptum: ‘Cacique’ significa chefe independente.

segunda-feira, agosto 21, 2006

Sebastianismo do Sertão

“Daqui de cima, no pavimento superior, pela janela gradeada da Cadeia onde estou preso, vejo os arredores da nossa indomável Vila sertaneja. O sol treme na vista, reluzindo nas pedras mais próximas. Da terra agreste, espinhenta e pedregosa, batida pelo Sol esbrazeado, parece desprender-se um sopro ardente, que tanto pode ser o arquejo de gerações e gerações de Cangaceiros, de rudes Beatos e Profetas, assassinados durante anos e anos entre essas pedras selvagens, como pode ser a respiração dessa Fera estranha, a Terra – esta Onça-Parda em cujo dorso habita a Raça piolhosa dos homens. Pode ser, também, a respiração fogosa dessa outra Fera, a Divindade, Onça-Malhada que é dona da Parda, e que, há milénios, acicata a nossa Raça, puxando-a para o alto, para o Reino e para o Sol.

Daqui de cima, porém, o que vejo agora é a tripla face, de Paraíso, Purgatório e Inferno, do Sertão. Para os lados do poente, longe, azulada pela distância, a Serra do Pico, com a enorme Tapeorá, cuja areia é cheia de cristais despedaçados que faíscam ao Sol, grandes Cajueiros, com seus frutos vermelhos e cor de ouro. Para o outro lado, o do nascente, o da estrada de Campina Grande e Estaca-Zero, vejo pedaços esparsos e agrestes de tabuleiro, coberto de Marmeleiros secos e Xiquexiques. Finalmente, para os lados do norte, vejo pedras, lajedos e serrotes, cercando a nova Vila e cercados deles mesmos por Favelas espinhentas e Urtigas, parecendo enormes Lagartos cinzentos, malhadas de negro e ferrugem, lagartos venenosos, adormecidos, estirados ao Sol e abrigando Cobras, Gaviões e outros bichos ligados à crueldade da Onça do Mundo.
Aí, talvez por causa da situação em que me encontro, preso na Cadeia, o Sertão, sob o sol fagulhante do meio-dia, me aparece, ele todo, como uma enorme Cadeia, dentro da qual, entre muralhas de serras pedregosas que lhe servissem de muro inexpugnável a apertar suas fronteiras, estivéssemos todos nós, aprisionados e acusados, aguardando as decisões da Justiça, sendo que, a qualquer momento, a Onça-Malhada do Divino pode se precipitar sobre nós, para nos sangrar, ungir e consagrar pela destruição”.

Do romance “A Pedra do Reino” de Ariano Suassuna.
In Revista “Portugueses” (Maio/Junho 1989)

sábado, agosto 19, 2006

Um país pequeno

Abri e fechei a televisão, demorei-me uns segundos, talvez um minuto a olhar para a entrevista memorial sobre Marcelo Caetano. Até poderia ter interesse, Ana Maria Caetano explicava, a uma atenta e serviçal Judite de Sousa, algumas das peripécias vividas por seu pai nos momentos subsequentes ao 25 de Abril de 1974.
Mas aquela pequena tentação de revelar um distanciamento político entre Marcelo Caetano e o Almirante Américo Tomás, seu companheiro de exílio e infortúnio, a palavra ‘ultras’ ao de leve pronunciada, foi o suficiente para desligar a televisão e perder de vista o rosto ainda bonito da filha do último primeiro-ministro do Estado Novo.
Que raio de país, que raio de gente, incapaz de se manter solidária na hora da derrota, sempre pronta a saltar para o carro dos vencedores!
Quando nem sequer há vencedores, mas uma longa lista de traições, deserções, de gestos que a história não vai lembrar quanto mais dignificar, tão parecidos que parecem irmãos gémeos de outros golpes que passam por revoluções na posterior propaganda.
A própria entrevista é disso prova e argumento. Então não havia ninguém convencido do que estava a fazer! Da bondade do caminho trilhado! Estavam todos contrariados?
E do outro lado, do lado de Abril, a necessidade de expiar o embuste, de alargar responsabilidades, de justificar alguns excessos imprevistos, o pecado da descolonização a comprometer tudo e todos, e a confirmar essa realidade inelutável: não há oposição em Portugal!
Ela só parece existir enquanto não nos aproximamos o suficiente do orçamento de estado, depois, segue-se oportuna reciclagem e o início de uma viagem vertiginosa até ao outro lado da barricada...Que afinal não é barricada nenhuma!
Um país a fingir, cada vez mais pequeno, que não consegue fazer justiça a ninguém.
E que sem perceber mantém o hábito das conversas em família, no canal público, aos Domingos, a cargo de um afilhado de Marcelo Caetano!

quarta-feira, agosto 16, 2006

Sem representação

À força de quererem separar a Igreja do Estado, e não interessa agora discutir o motivo ou os motivos que estiveram e estão na origem desta escolha política, as sociedades ocidentais deixaram sem representação um dos aspectos essenciais da natureza humana: a sua religiosidade!
Embrenhada nas profundezas culturais de determinada comunidade, essa mesma religiosidade acabava por estar politicamente representada no chefe de estado monárquico, na sua qualidade de vínculo histórico, que assim resolvia, melhor ou pior, o complexo de tensões sociais entre os diversos agentes políticos e religiosos, conseguindo por seu lado mobilizar estes últimos para a concórdia geral, na medida em que os envolvia na prossecução dos objectivos comuns dessa mesma comunidade.
Esta razoável harmonia, correspondente a uma identidade clara e indiscutível, sofreu como se sabe, um primeiro grande revés com a chamada reforma protestante que assim quebrou a unidade, que atravessou séculos, de obediência ao Sumo Pontífice.
A partir daqui é fácil perceber o declínio da Europa bem como todas as sequelas que hoje nos confundem e dividem, com o laicismo premente, de natureza fundamentalista, a empurrar-nos, mais e mais, para um buraco escuro donde será difícil sermos resgatados.
É neste contexto que temos que entender a nossa emergente incapacidade para lidar com culturas diferentes, como o Islão por exemplo, que se recusa a seguir o modelo ocidental já que não admite cortar com Deus ao nível da representação do Estado.
Curioso é neste ponto notarmos, e já não é a primeira vez que o faço notar, que os grandes apóstolos do laicismo e da separação da Igreja do Estado, e também por isso, os grandes adversários do Islão, são os países onde não existe uma separação nítida entre a religião e o Estado!!! Refiro-me naturalmente a Israel, Inglaterra e Estados Unidos, pois claro. Bastava este facto, para qualquer um desconfiar das respectivas promessas políticas, agora imaginem os muçulmanos!
É de facto caricato, por absurdo, tudo o que se passa à nossa volta: os americanos e os ingleses armados em cruzados, eles que não obedecem à única Entidade que as convocou no passado e que teria legitimidade para as convocar no presente – o Papa, que aliás tem condenado firmemente este tipo de ‘cruzadas’. E por outro lado não deixa de ser estranho que nesta ‘cruzada’ surja como aliado dos tais ‘cruzados’, um povo que a história assinala como responsável pela própria crucificação de Cristo!
Tudo isto é muito difícil de compreender!
E termino como comecei: se tudo aquilo que tem natureza política, aspira naturalmente a ser representado, também é verdade que essa representação quando é ilegítima ou quando é reprimida, suscita um movimento reactivo de quem se sente amordaçado, movimento que se torna rápidamente incontrolável, e está sempre disponível para afrontar a falsa cultura dominante em surpreendentes ‘tsunamis’!
Não vale a pena depois chamar-lhes terroristas.

domingo, agosto 13, 2006

“Mudam-se os tempos...”

A comunicação social faz parte do país, são organizações onde trabalham pessoas normais, há muita gente envolvida, veteranos e jovens que se engalfinham para ‘dar’ as mesmas notícias, aquelas novidades saídas do funil de duas ou três agências noticiosas, também elas ligadas à máquina de propaganda das multinacionais que todos conhecemos.
Os chamados repórteres de guerra, salvo raríssimas excepções, acompanham os exércitos vencedores e vão declamando, em pose de grande imparcialidade, as banalidades que lhes impingem.
Jornalismo de reportagem, fora da segurança do politicamente correcto, não existe, ou se existe, não chega ao grande público, que se mantém fiel, em permanente estado de ansiedade, e vai consumindo doses cavalares de patranhas infantis, que lê nos jornais, que passam na televisão, sempre na secreta esperança de que surja algo que possa mudar as suas vidas!
Esperamos em vão.
Alguns exemplos, tristes exemplos, diga-se:
O fogo devasta o país como habitualmente nesta época quente, mas agora ninguém se lembra de pedir responsabilidades ao governo! Pelo contrário é o próprio governo que acusa os portugueses de serem os culpados pelos incêndios que lavram por todo o território! Extraordinária conclusão, quando se sabe que prossegue a desertificação interior, e que os pinheiros, sozinhos, não se conseguem defender.
Mas regressemos por um momento aos tempos de Durão Barroso e Santana Lopes, quando o mesmo fogo consumia a floresta lusitana, para recordar que não havia dia nem hora em que se não questionasse o governo e o primeiro-ministro sobre qualquer fagulha que se reacendesse, sobre alguma falha nos meios de combate aos incêndios, medindo e comparando, a palmo, a área ardida, confrontando promessas eleitorais de acabar com os fogos de Verão em Portugal!
Onde estão os jornalistas dessa época? Onde estão as televisões que não davam descanso ao governo?
Desapareceram!?
Pode o ministro Costa repreender à vontade os portugueses que emigraram para Loures ou Massamá, e que se esqueceram ir fazer os convenientes ‘aceiros’ lá na terrinha de onde fugiram, fugindo à miséria; pode enfim o elegante Sócrates fazer as corridinhas que quiser por Copacabana, que nenhum jornalista português o irá incomodar com o fogo pátrio.
Mudam-se os tempos...mas nós não mudamos.

sexta-feira, agosto 11, 2006

Totalitarismo à vista

Uso um título emprestado para ver se consigo retratar este insólito tempo em que somos obrigados a revelar identidade de corpo e alma para com os novos benfeitores da Terra. Não podemos ocultar nada, até a bolsa de viagem tem que ser transparente.
Para nosso bem.
Os inimigos são invisíveis, existem concerteza porque lançam o pânico e a morte à sua volta, estão por todo o lado, sabemos apenas que são islamitas, e mais recentemente, foram caracterizados como ‘islamitas fascistas’, uma variante até aqui desconhecida, com aliados no Irão e na Síria, e partilham entre si um ódio visceral a Israel e aos Estados Unidos!
É tudo quanto se sabe, ou pelo menos é tudo quanto podemos saber.
A Inglaterra, grande aliada dos americanos na reconstrução de um ‘novo médio oriente’, também está na linha de fogo, como se viu pela gigantesca operação policial despoletada em todos os aeroportos do Reino Unido, pelas inúmeras detenções, pelo incómodo a quem pretendia viajar de avião, fosse para onde fosse, mas principalmente para os Estados Unidos.
Procuramos terroristas, é a palavra de ordem, a autorização, o aval, que permite prender, interrogar, isolar, transportar e esconder pessoas suspeitas de pertencerem às tenebrosas organizações que se dedicam à prática do terrorismo. O terrorismo é a doença do século, e qualquer pessoa pode ser infectada por esse vírus mortífero, e sendo assim, todos somos suspeitos.
As origens da epidemia são vagas e não interessa agora discuti-las, porque ‘em tempo de guerra não se limpam armas’, confidenciou um alto responsável que não quis ser identificado.
Entretanto Israel prossegue na sua ‘cruzada’ contra o terrorismo. No Líbano também não há inocentes.
Exagerei na descrição mas os indícios não mentem, e os métodos também não: isto lembra-me qualquer coisa e não é coisa boa.

terça-feira, agosto 08, 2006

“Senhor dá-nos um Rei...”

“Samuel, dá-nos um rei como têm as outras nações...”, foi assim que o povo hebreu se exprimiu, farto de querelas e divisões, ansiando por uma referência de unidade. “Faz o que eles pedem” disse-lhe o Senhor.
Podemos extrair deste episódio bíblico, ocorrido muitos séculos antes do nascimento de Cristo, aquilo que é óbvio e os factos todos os dias comprovam:
Sem um símbolo, sem um referencial único, os povos não se conseguem estabilizar nem progredir, minados por questiúnculas internas, habilmente aproveitadas pelos seus inimigos externos, e com isso vão adiando sistematicamente as melhores soluções para os seus problemas.
Na maior parte dos casos, incapazes de se entenderem dentro das suas fronteiras, acabam por tentar construir uma falsa unidade fora delas, invadindo e agredindo outros povos, inventando um inimigo exterior, disfarçando, ou se quiserem exportando desta maneira os seus problemas domésticos.
Isto é teoria política básica, mas infelizmente e por ser básica está sempre a verificar-se, está sempre a acontecer, e pior, está a acontecer-nos a nós!
Desmobilizados, cada um para seu lado, os portugueses sentem o mesmo que eu sinto: um país à deriva, sem representação una e fiável, alguém que sobreleve as facções e que reconheçamos como imagem da Pátria.
Não há, não temos, ou se temos, não queremos ter!
Mas hoje queria falar-vos desta guerra sem fim que opõe o Islão a Israel, ao Ocidente, aos Estados Unidos, à Rússia, à China, e a outros incertos. A verdade é que no meio desta confusão apraz-me registar que são as monarquias islâmicas, aquelas que dão maiores sinais de moderação, e que asseguram alguma estabilidade e desenvolvimento internos.
Estou a lembrar-me de Marrocos, da Jordânia e até da própria Arábia Saudita, como podia ter-me lembrado da Pérsia no tempo do Xá ou do Afeganistão no tempo do Rei Zaer Sha!
Reparem que não fiz nem tenciono fazer qualquer comentário ou referência à chamada ‘democracia para exportação’ assunto que já abordei e desmascarei largamente aqui no Interregno e que toda a gente percebe que se trata da última artimanha imperialista para ‘dividir e reinar...sobre o petróleo’!
Eu faço referência á monarquia, àquela que une e evita, ou pelo menos reduz, o apetite voraz dos tubarões do costume. Essa realmente tem-se revelado muito mais eficaz e benigna quer reduzindo os riscos de guerra, quer assegurando alguma sementeira em favor da paz.
Tenho insistido neste ponto que me parece importante: o Rei, na sua qualidade de representante da história, e quando legítimo, limita a preponderância dos sacerdotes diminuindo os factores ligados ao fundamentalismo religioso. Esta vantagem não a tem mais nenhum agente político, e numa região como o médio oriente, em lugar de andarmos a pregar a ‘democracia americana’, seria mais sensato advogar o regresso de regimes ancorados na tradição já que transmitem outra seriedade e serenidade nas relações internas e internacionais.
O que se aconselha portanto a essa legião de ‘benfeitores’, americanos, russos, chineses, ingleses, franceses, e israelitas por outros motivos, é mais paciência e menos apetite. Não tenham medo porque o petróleo é para vender, não é para consumo interno dos países do médio oriente.
E já que aqui estamos, uma pergunta directa: E tu, oh Israel, que tal um Rei?
Era capaz de ser bom para ti e para os teus vizinhos. Outra credibilidade e independência às posições e interesses do estado judaico, trazia concerteza.

quinta-feira, agosto 03, 2006

“Pedro II do Brasil”

“Havas traz-nos hoje o seguinte despacho:

Milão, 22 de Maio, manhã

O estado do imperador do Brasil voltou a ser gravíssimo. Os médicos tornaram a aplicar-lhe injecções de cafeína. O imperador recebeu os últimos sacramentos.

O imperador agonizante foi...talvez este passado seja a esta hora uma verdade cruel! – foi um dos soberanos mais notáveis deste século, e um dos homens mais dignos de serem conservados na memória dos tempos.
Nascido no próprio ano em que o Brasil ganhava a independência, a infância do imperador decorreu entre as agitações inerentes aos primórdios dos povos. Nessa escola pratica da vida se educou o seu espírito de homem e o seu tacto de soberano.
Era um filósofo sentado num trono. Aos quinze anos, em 1840, quando principiou a reinar, o Brasil agitava-se, agitou-se ainda por um ano, no campo sáfaro das revoluções anárquicas. Hoje, depois de quase meio século de um reinado cheio como poucos, o Brasil é uma nação poderosa, grande, rica, palpitando com intensidade patriótica e vivamente crente no futuro.
Felizes os que descem ao túmulo, certos de não terem vivido em vão!
Tinha vinte e cinco anos o imperador, quando aboliu o tráfico da escravatura; tinha trinta quando, servindo-se de Urquiza para abater Rosas, o Denys da Siracusa argentina, franqueava a estrada dos sertões de Mato Grosso e de Goiás, pelo Paraguai e pelo Paraná. Em 1867 patenteava o Amazonas à navegação internacional; em 1870 via destruído Lopes, o tirano de Humaitá e da Assumpção; e um ano depois outorgava a primeira lei emancipadora dos escravos, para agora ter como apoteose outra lei consumando a liberdade de meio milhão de homens.
Quando um homem acaba assim, não morre: nasce para a história, passando da cena acanhada do mundo para o céu amplíssimo da consciência da humanidade.
E o imperador do Brasil não foi o símbolo, ou a firma sob que outros governaram, porque ele era o governo, ele era administração, e o paço de S. Cristóvão, patente diariamente ao povo, era a oficina onde dia a dia se ia fabricando a grandeza da nação.
Os principais actos do governo do imperador foram todos pensamentos pessoais desse filósofo coroado, a quem o Brasil deveu a paz, enquanto as repúblicas vizinhas se agitavam em tumultos incessantes; a quem deveu a constituição definitiva da sua geografia pela conquista das águas do Prata, duas vezes disputado à força de armas, contra Rosas e contra Lopes; a quem deveu, finalmente, a emancipação dos escravos, sua gloriosa paixão dominante.
Quando um homem desce ao túmulo levantando à liberdade um milhão de semelhantes seus, a esse homem cabe o nome que ficou típico para significar a nobreza do carácter, a rectidão dos pensamentos, a claridade da inteligência, e a suave filosofia que, fundindo todos os predicados de um génio, imprime o cunho a uma personalidade. O imperador D. Pedro foi o Marco Aurélio do Brasil”.

Oliveira Martins – Perfis

Post-scriptum: D. Pedro II faleceu em Paris a 5 de Dezembro de 1891.

segunda-feira, julho 31, 2006

Certificado de origem

Com a licença na mão, que me custou os olhos da cara e uma longa espera até ser atendido, posso enfim debitar, em prosa ou verso, tudo o que me vai na alma sobre esta escalada de violência a que todos assistimos no médio oriente.
Antes porém e à semelhança de muitos, tive que cumprir os vários rituais de passagem que purificaram a minha compreensão e esclareceram dúvidas sobre os verdadeiros desígnios de Israel nesta guerra, que tantos consideram necessária e benfazeja!
Eu conto:
Mal me aproximei do guichet passaram-me um formulário breve mas conciso:
- És negacionista, ou pelo contrário, aceitas e assumes o holocausto com todas a suas consequências!
- Conheces a diferença entre terrorismo e o direito de Israel a viver em segurança dentro das suas fronteiras, nas terras que foram dos seus antepassados, ou és daqueles que andam para aí a desinformar a população alegando que o nosso antepassado foi um ricaço que comprou umas quintas na Palestina nos finais do século dezanove, e que nós ‘herdámos’ em 1948?!
- Por último, sabes o risco que corres se escreveres qualquer coisa que revele proximidade com o Islão, alguma condescendência com os terroristas, esses arautos da violência, que pregam o fim de Israel e do mundo ocidental?!
Havia ainda uma pergunta facultativa, que não contava para a média final:
- Acreditas piamente na nossa democracia e que só a nossa democracia conseguirá construir um novo médio oriente?
Foi este o teste!
E agora? Querem saber como saquei a licença?
Eu conto:
Não discuti o holocausto, limitei-me a acrescentar que os holocaustos existem, tal como os recordes também existem... para serem batidos. É sempre do próximo que tenho medo, justificado pelo anterior.
Na segunda pergunta hesitei, acabando por responder que um bom vinho do Porto tem de certeza mais de sessenta anos! Esta resposta foi considerada uma provocação e estive para chumbar, mas por sorte o examinador era aquilo a que se pode chamar ‘um apreciador’, e como bom judeu, tinha uma excelente reserva do famoso néctar! Encerrou desportivamente a questão com a promessa de uma visita à adega.
Na terceira pergunta, considerada a mais difícil, fiz um brilharete: disse a verdade sobre as relações de proximidade e convivência mais ou menos pacífica que temos mantido com os povos islâmicos que habitam o flanco sul da Europa, especialmente com Marrocos a quem hoje não tentamos impor nem a nossa cultura nem a nossa democracia. Beneficiámos é certo da circunstância de ninguém se ter lembrado de introduzir nesta região um corpo estranho, ao contrário do que aconteceu na Palestina, com as consequências que se conhecem e com os processos de rejeição que se adivinham por parte de quem já ali habitava.
O judeu coçou a cabeça, ter-me-á achado inofensivo e predispôs-se a entregar-me a licença!
Foi já certificado que decidi responder à pergunta facultativa, em jeito de gratificação: esta violência, esta democracia, não são caminho para coisa nenhuma a não ser para transformar o mundo num barril de pólvora. Não vão construir nada de novo, nada que já não seja conhecido há muito tempo – o inferno do ódio!
O papel dos Estados Unidos neste conflito, como tem acontecido noutros, é trágico e cómico ao mesmo tempo, perdendo completamente a face perante o mundo muçulmano.
E há quem se iluda com a força das armas e pense que é possível eliminar ou aniquilar todos os árabes, persas, turcos, indianos, polinésios, em suma todos os que professam o islamismo! Perigoso pensamento, próprio de orgulhosos mentecaptos, oriundos de um império recente e sem qualquer estofo colonizador, porque lhe falta o tempo que traz sabedoria às nações e lhe sobra a barbárie que gera desconfiança e animosidade.
É o que acontece com os senhores de Washington que agora deram em aliar-se com a nomenclatura do Kremlin e da China Popular!
É caso para dizer como os tempos mudam, e as companhias (as más) também!
Mas se o Islão não pode ser derrotado recorrendo à violência, Israel arrisca-se a desaparecer do mapa, apesar das suas inúmeras bombas, se não escolher outros caminhos e se calhar, outros aliados!!!
Não se espantem pois os sábios se o segredo da sobrevivência de Israel residir na sua plena integração como estado do médio oriente e não nesta política segregacionista e suicida, armado em povo eleito, e no papel de afilhado (ou mentor) do imperialismo americano.
Visado pela comissão de censura.

quinta-feira, julho 27, 2006

“A César o que é de César...”

Dois mil anos depois o Filho do Homem continua sem ser entendido entre os judeus, e por quem os segue! Na minha juventude a cançoneta da propaganda repetia a mesma incompreensão: “This land is mine, God gave this land to me...”!
Mentira. Foi o dinheiro que comprou algumas das terras do actual Israel, a que se juntou a vontade das potências vencedoras da última grande guerra, no sentido de compensarem os judeus pelos sacrifícios por que haviam passado durante o conflito.
O presente envenenado aí está com todas as suas consequências e rejeições.
Pois é, essas terras eram habitadas, viviam lá pessoas que foram desalojadas, obrigadas a partir...e que reagiram e que têm vindo a reagir, por todos os meios.
“...a Deus o que é de Deus”.
Deus não dá terras a ninguém, nem dinheiro, nem armas! Aqui reside a confusão.
No horizonte dos séculos o tempo de vida do actual Israel não é nada, é uma fagulha na era do Universo. Como também nada representa este arremedo de imperialismo protagonizado pelos americanos, odiados por todos os povos islâmicos, proibidos de frequentar a rua árabe, persa ou turca!
Quando nos lembramos que o Império Inglês, com toda a sua força e sabedoria durou apenas duzentos anos, a declaração produzida pela americana Rice de que ‘vamos construir um novo médio oriente’, só pode dar vontade de rir!
Mas começa a perceber-se qual foi a necessidade de invadir e destruir o Iraque, para aí criar as tais zonas tampão que possam proteger Israel, assim como se entende melhor este avanço sobre o Líbano, e o que virá a seguir!
Inútil tarefa e mau presságio.
Em primeiro lugar e por muita confusão que isso faça a muita gente, Israel não é um estado ocidental nem pode vir a ser. Os interesses da Europa também não passam pelo estado hebraico assim como tenho dúvidas que os Estados Unidos possam continuar a desempenhar o papel de aliado preferencial por muito mais tempo.
É que esta aliança joga contra a única possibilidade de existência de Israel no futuro.
Ou alguém pensa que Israel vai poder continuar a viver rodeado de muros e zonas de protecção, comportando-se agressivamente como se fosse um intruso?
E aqui não vale a pena agitar o fantasma do terrorismo porque Israel está condenado a viver no médio oriente, como um estado do médio oriente, e com uma população semita em tudo semelhante aos semitas seus vizinhos. E a ter como aliados pelo menos alguns dos seus actuais inimigos.
Ou então preparemo-nos aqui na Europa para o regresso dos judeus depois de mais uma aventura na Terra Prometida.

terça-feira, julho 25, 2006

“Por estes dias...”

Por estes dias, há quatrocentos e vinte e dois anos, Dom Sebastião viajava com o seu exército de quinze mil homens para a conquista de Marrocos. Fazia-o para combater a expansão dos turcos no Norte de África.

Fazia-o para evitar os ataques dos corsários a partir da costa africana. Fazia-o também cheio de um espírito sacrificial que, quando protagonizado por reis, envolve também o sacrifício das pátrias.
E assim o conseguiu. Os turcos não conseguiram avançar para Marrocos depois deste país ter reafirmado a sua identidade depois da batalha. Os corsários também não se refugiaram nas costas africanas mais controladas pelas autoridades locais. E o país sacrificou-se, como o seu rei e alguns dos seus conselheiros o desejavam, certamente com outras expectativas. Falo-vos disto porque acabei de ler um livro muito interessante intitulado “Dom Sebastião, Rei de Portugal”, escrito pelo espanhol António VillaCorta Baños-Garcia.
A perspectiva é de um historiador Castelhano, com muita informação sobre a óptica espanhola dos acontecimentos, de alguma forma benevolente face à atitude dúbia de Filipe II, e manifestamente crítico da atitude voluntariosa de Dom Sebastião. No entanto traz-nos informações que a maioria dos portugueses desconhece. Sobretudo informa-nos e angustia-nos, como se estivéssemos a viver aqueles momentos sabendo da morte anunciada do rei e do país. No fim da leitura vêm-nos à mente uma série ordenada de perguntas na condicional que poderiam ter mudado a sorte de Portugal e do mundo naquele século: Se a regência fosse dada a Joana de Áustria, mãe de Dom Sebastião, e não a Dona Catarina, avó do rei e esposa de Dom João III, muito provavelmente a educação do rei teria sido diferente, pois a sua mãe não o deixaria com poucas semanas de vida por ter emigrado para Espanha.
Se Filipe II, tio direito de Dom Sebastião, tivesse apoiado a invasão e sequente partilha de Marrocos, em vez de negociar a paz com Sultão Ali, aliado dos turcos, certamente que o resultado do confronto teria sido diferente, mesmo com o rei voluntarioso em demasia.
Se Dom Sebastião não tivesse demorado tempo demais em Cádiz e em Arzila, muito provavelmente teria conquistado Larache, mesmo caminhando por terra através da planície de Alcácer-Quibir. De facto, se assim fosse, o Sultão Ali não teria tempo de chegar ao local com o seu exército sediado em Fez. Isto tudo sem o apoio de Filipe II e com o mesmo rei jovem e voluntarioso.
Se Dom Sebastião tivesse aceite as condições de paz do Sultão Ali, que lhe prometia devolver as praças portuguesas, para além da Ceuta, Tânger, Argila e Mazagão em nosso poder; e ainda a cidade e o termo de Tetuão. Se assim fosse, tal bastaria para criar um território consistente em Marrocos e não haveria a perda do rei, do exército e do país. Mesmo sem apoio de Filipe II, sem atraso de Cádiz e com o rei considerado irresponsável por muitos.
Se o Sultão Ali, gravemente doente, tivesse morrido antes da batalha e não durante a mesma por agravamento da doença, muito provavelmente as tropas marroquinas virar-se-iam para apoiar Muhamad, berbere, cujo trono tinha sido usurpado por Ali, e que por isso alinhou nas fileiras portuguesas. Isto mesmo sem o apoio de Filipe II, o atraso de Cádiz, o acordo com Ali ou e a juventude do rei. Se, finalmente, a batalha fosse ganha pelos portugueses, como começou a sê-lo no início. Então, apesar de tudo o mais, o resultado seria bem diferente, para Portugal e para o Mundo. Ficou o sacrifício, Marrocos e, também, Portugal.

Tomás Dentinho

Jornal “A União” de Angra do Heroísmo, de 20 de Julho de 2006.

domingo, julho 23, 2006

“Também há Universo na Rua dos Douradores”

“Quem tenha lido as páginas deste livro, que estão antes desta, terá sem dúvida formado a ideia de que sou um sonhador. Ter-se-ia enganado se a formou. Para ser sonhador falta-me dinheiro.
As grandes melancolias, as tristezas cheias de tédio, não podem existir senão com um ambiente de conforto e sóbrio luxo. Por isso o ‘Egeus’ de Poe, concentrado horas e horas numa absorção doentia, o faz num castelo antigo, ancestral, onde, para além das portas da grande sala onde jaz a vida, mordomos invisíveis administram a casa e a comida.
O grande sonho requer certas circunstâncias sociais. Um dia que, embevecido por certo movimento rítmico e dolente do que escrevera, me recordei de Chateaubriand, não tardou que me lembrasse de que eu não era visconde, nem sequer bretão. Outra vez que julguei sentir, no sentido do que dissera, uma semelhança com Rousseau, não tardou, também, que me ocorresse que, não (tendo) tido o privilégio de ser fidalgo e castelão, também o não tivera de ser suíço e vagabundo.
Mas, enfim, também há universo na Rua dos Douradores. Também aqui Deus concede que não falte o enigma de viver. E por isso, se são pobres, como a paisagem de carroças e caixotes, os sonhos que consigo extrair de entre as rodas e as tábuas, ainda assim são para mim o que tenho, e o que posso ter.
Alhures, sem dúvida, é que os poentes são. Mas até deste quarto andar sobre a cidade se pode pensar o infinito. Um infinito com armazéns em baixo, é certo, mas com estrelas ao fim... É o que me ocorre, neste acabar de tarde, à janela alta, na insatisfação do burguês que não sou e na tristeza do poeta que nunca poderei ser.”

Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego (excerto) – composto pelo heterónimo Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa.

sexta-feira, julho 21, 2006

Nacional Nacionalizado Nosso

A ordem é arbitrária.
Acordem desse delírio, é verdade, eu já sabia, tanta privatização é mania, e dá outro resultado, um extremo toca outro extremo: Portugal verde encarnado, estás todo nacionalizado!
Você tinha reparado?
Sejam sinceros, confessem, destes aqui que me lêem, quantos serão do privado?
Podem erguer o bracinho, não vejo nada que horror! A malta ficou maneta? Não acredito... que dor!
Essa pergunta comento: contam empresas e siglas, basta que vivam por junto, bem junto do orçamento!
Ouve lá, oh rapazinho, quem te paga o ordenado?
É o patrão, que é privado, mas só trabalha para o Estado!
É tão curioso este mundo!
No futebol é diferente, nunca foi privatizado, sempre foi um bom negócio, sempre deu votos sem votos, hoje dá votos com trocos!
Um viveiro de vedetas, um berço de governantes, de autarcas, nem falar!
E entretém a populaça, como em Roma, quem diria!
Leste a notícia do dia?
Valentim finge que sai; foi um árbitro a enterrar; vi mais dois a pelejar; o Vieira mata e esfola; diz que é o dono da bola; o juiz não quer julgar; o Belém tem que amochar!
Pobre país de vilões, vais ter muito que amargar.

quinta-feira, julho 20, 2006

Estamos fritos

Quando os papás se revelam incapazes de educar os fifis; quando aceitam o tratamento por ‘tu’ para se porem ao mesmo nível, para não parecerem distantes ou autoritários; quando a preocupação dominante é aceitar tudo para não traumatizar as pobres criancinhas...estamos fritos!
Quando os professores sentem dificuldade em avaliar os alunos; quando lhes insuflam a ideia de que nasceram com imensos direitos e poucos deveres; quando, por um acaso, se atrevem a repreender com mais vivacidade um aluno, básicamente mal-educado, e se arriscam no acto, a sofrer injúrias ou agressões; e quando, em seguida, os papás secundam a má criação do menino...estamos fritos e cozidos!
Quando a autoridade pública se mostra incapaz de a exercer ou quando a exerce poupa sempre os mais fortes; quando o estado e os seus agentes dão de si próprios terríveis exemplos a uma sociedade atreita a reproduzir tudo o que vê; quando finalmente o poder judicial, inamovível, e que é suposto ser independente do poder político, se mostra incapaz de decidir em tempo útil qualquer diferendo, por mais simples que seja, aparecendo entretanto envolvido em fenómenos sociais pouco recomendáveis...estamos fritos, cozidos e assados!!!
Vem este arrazoado a propósito de quê?
O almoço é peixe frito, e o cheiro invade esta casa portuguesa, entra alegremente por onde pode, entranha-me como um perfume irresistível, grito por socorro, mas ninguém me ouve, estou a ser asfixiado...
Por mim, estou almoçado.

segunda-feira, julho 17, 2006

BB com arroz

A história é uma adivinha:
Parecem duas, são três,
Não é Brigitte Bardot,
O arroz já se queimou,
Não te rias desta vez.

Diga lá, adivinhou?

A conferência é de imprensa,
Os dois juntinhos que dois
Bush e Blair para variar,
Esse quadro decadente,
Mesmo à hora do jantar!
Falam de lobos e lobos
Uns famintos, outros não!
O que fazer, pois então?
Apoiemos o rabino
Na guerra contra o Irão!
Não poupem céu nem cidade
Arrasem tudo à vontade
Avante democracia,
Bem servida noite e dia.

E acabam os desenganos!
O aliado é Putin,
O seu delito é comum:
Assassinar muçulmanos.
Você esqueceu mais algum!
E o chinoca não conta!
O dos direitos humanos
Sofre do mesmo temor:
Muçulmanos, muçulmanos!

domingo, julho 16, 2006

"Vós Que Passais Entre as Palavras Passageiras"

Vós que passais entre as palavras passageiras
Levai os vossos nomes e parti
Retirai do nosso tempo as vossas horas, parti
Extorqui o que quiserdes
Do azul do céu e da areia da memória
Tirai as fotografias que quiserdes, para saber
Que não sabereis
Que as pedras da nossa terra
Sustentam o tecto do céu

Vós que passais entre as palavras passageiras
Vós forneceis a espada, nós fornecemos o sangue
Vós forneceis o aço e o fogo, nós fornecemos a carne
Vós forneceis outro carro, nós fornecemos as pedras
Vós forneceis a bomba lacrimogénea, nós
Fornecemos a chuva
Mas o céu e o ar
São os mesmos para vós e para nós
Tomai pois o vosso quinhão do nosso sangue, e parti
Ide jantar, festejar e dançar, depois parti
A nós cabe-nos defender as rosas dos mártires
A nós cabe-nos viver como queremos

Vós que passais entre as palavras passageiras
Como a poeira amarga, passai por onde quiserdes
Mas não passeis no meio de nós como os insectos
Volantes
Nós temos que trabalhar na nossa terra
Temos que cultivar o trigo
Que o regar com o orvalho dos nossos corpos
Nós temos o que não vos agrada aqui
Pedras e perdizes
Levai, pois, o passado, se quiserdes
Ao mercado de antiguidades
E devolvei o esqueleto à poupa
Num prato de porcelana
Nós temos o que não vos agrada
Nós temos o futuro
E temos que trabalhar no nosso país


Vós que passais entre as palavras passageiras
Empilhai as vossas ilusões numa cova abandonada,
E parti
Restituí as agulhas do tempo à legitimidade do
Bezerro de ouro
Ou à cadência musical do revólver
Nós temos o que não vos agrada aqui, parti
Nós temos o que vós não tendes:
Uma pátria que sangra, um povo que sangra
Uma pátria útil para o esquecimento e para a
Lembrança

Vós que passais entre as palavras passageiras
É tempo de partirdes
De vos fixardes onde vos aprouver
Mas não vos fixeis no meio de nós
É tempo de partirdes
De morrerdes onde vos aprouver
Mas não morrais no meio de nós
Nós temos que trabalhar na nossa terra
Aqui, nós temos o passado
A voz inaugural da vida
E temos o presente, o presente e o futuro
Temos o cá em baixo e o lá em cima
Saí, pois da nossa terra firme, do nosso mar
Do nosso trigo, do nosso sal, da nossa ferida
De todos os lugares, saí
Das lembranças da memória
Ó vós que passais entre as palavras passageiras.

Mahmud Darwich

(trad. de Albano Martins)

sexta-feira, julho 14, 2006

Postal light

Parabéns, quantos são? Trinta e três. Serás crucificado decerto se, por um acaso, não tens ido ao blog!?
Por acaso, não. Tio, (eu sou tio), os blogs não estão com nada, muito chatos, pesados, incapazes de sair dos bastidores, têm imensos...
Aguenta aí. Bastidores! Imensos quê!
Imensas coisas que a gente não sabe e depois não percebe. Há que ser mais directo, comentar sim, mas devagar, coisas que se vejam.
Por exemplo! Pede aí uma imperial e fala.
Disseste trinta e três? Então quer dizer que eu sou capaz de ter...mais, bastantes mais!...
Estás a ficar careca, já viste, um rapaz novo, bem, agora no Verão até é bom; onde é que nós íamos, íamos no blog, realmente tens razão, aquilo devia ser um caixote de lixo, de todo o lixo que nos atrofia a cabeça; uma expressão de sentimentos, desde os mais rascas aos mais nobres, sem distinguir; um divã de psiquiatra, um ombro para chorar, um muro de lamentações.
Queres mais uma imperial? Tens que me dar umas dicas. Qual é a posição de um jovem perante o mundo que nos rodeia? Esta se calhar foi demais!
Bem, tio, tenho que me ir embora. Foi giro falar consigo, veja lá se escreve qualquer coisa de jeito, engraçada, o tio antigamente até dizia umas piadas bem curtidas.
Dá saudades á tua mãe.

quinta-feira, julho 13, 2006

Sócrates no ‘CDS’

Uma bicada na direita, outra vez as maldades do governo anterior, uma bicada na esquerda, retrógrada, incapaz de se modernizar, (com Odete a bufar), e aqui estou eu no centro democrático e social do país, honrando a súbita demissão do seu fundador, para reafirmar que o estado da nação é melhor, muito melhor do que se poderia imaginar!
É portanto com base nesta curiosa informação que transcrevo, em tradução livre, algo do que ouvi e vi:
A primeira dificuldade para ouvir qualquer coisa teve a ver precisamente com a interferência de uma jovem locutora que tentava desesperadamente traduzir, português para português, em directo, o que diziam deputados e chefe do governo! Alguém deve ter percebido o absurdo da situação e lá se calou a nossa ‘tradutora-intérprete’, afinal, vendo bem, mais uma jovem descrente nas capacidades dos nossos políticos em se fazerem entender!
Mas a linha central do discurso Socrático obedeceu como sempre ao meticuloso projecto que o mesmo tem do poder e da sua longevidade, que podemos reduzir à regra das ‘quatro bicadas’, ou biqueiradas.
Depois das duas bicadas iniciais, à esquerda e à direita, faltava a terceira bicada, aquela que agrada sempre à inveja, e que leva as massas populares ao rubro: tirar qualquer coisa aos ‘ricos’.
Da cartola saiu então um coelho, ameaçando meter na ordem as reformas dos aposentados do Banco de Portugal. Mas parece que é meio coelho porque o Governador estará fora da lei!
A quarta bicada, mais própriamente biqueirada, não é para levar ao Parlamento, essa levamos nós todos os dias, com os meses cada vez maiores e os euros cada vez mais curtos!
Nada de novo portanto excepto o anúncio solene de Sócrates de um facto novo! A economia segundo o primeiro-ministro está pela primeira vez indecisa, não sabe se há-de crescer ou não, e isto é uma boa notícia, concluiu. Aliás, indicadores de última hora garantem que a economia já se decidiu!
Não se preocupem pois os portugueses, vão até à praia, sigam o exemplo da selecção, dêem uns mergulhos, tomem alka seltzers, se não chegar, tomem serenais no supermercado mais próximo, mas não se atrapalhem, que eu tomo conta disto.

quarta-feira, julho 12, 2006

Memória presente

“- D. Miguel embarcou...”.
“ (...) Em Évora-Monte acabaram também, em holocausto à Liberdade, as ordens religiosas, apressadamente extintas em decreto de 28 – dois dias depois! – logo promulgado por D. Pedro em 30 de Maio, e cujo relatório abre assim:
‘Senhor: - Está hoje extinto o prejuízo, que durou séculos, de que a existência das Ordens Regulares é indispensável à Religião Católica, e útil ao Estado, e a opinião dominante é que a Religião nada lucra com elas, e que a sua conservação não é compatível com a civilização e luzes do século, e com a organização política que convém aos Povos’.
Por tal diploma se renegava entusiásticamente toda a acção das ordens religiosas e militares na constituição e defesa da Pátria, e a maior glória do passado civilizador de Portugal nas quatro partes do mundo!
Percebe-se bem a ligação estreita destes dois instantes da nossa história, tão íntima ligação os prende que eles se fundem no mesmo ruinoso e diabólico desígnio: chega a parecer que a guerra civil durara aqueles anos todos, só para que não houvesse frades e freiras em Portugal. Dispersaram-se os melhores núcleos de ensino, as portas da mais ampla caridade cerraram-se de todo. Fecharam-se Alcobaça, Santa Cruz, Tibães, perseguiram-se velhos, desbarataram-se livrarias seculares, calaram-se os órgãos conventuais, esmoreceu e quase se extinguiu em Portugal, durante um século, o amor sereno e desinteressado do estudo das letras.
Demoliram-se, incendiaram-se ou saquearam-se conventos e mosteiros, para roubar e vender pratas e alfaias; transmudou-se a nossa fisionomia espiritual, barbarizou-se o conceito moral da vida portuguesa.
Haverá ainda quem encontre deleite a contemplar o campo de ruínas que durante o século hoje findo, alastrou de lés a lés de Portugal: toda a comparsaria dos que rastejam, como osgas, pelas alfurjas da Maçonaria e pelas mesas das redacções. Mas o tempo futuro, vingador das violências do passado e das hesitações covardes da hora presente, dará serenidade à crítica histórica para reconhecer e louvar a justiça daqueles Portugueses vencidos.
Por supremo sacrifício, com dor da inteligência e do coração, eles capitularam em Évora-Monte, sem poderem evitar com tantos trabalhos e com o preço do seu sangue, que os destinos da Nação ficassem entregues ao domínio material e espiritual do estrangeiro”.

“A Paixão de Évora-Monte” (excerto) de Hipólito Raposo, In ‘A Voz’, de 26 de Maio de 1934.
Extraído dos arquivos da “Unica Sempre Avis”.

domingo, julho 09, 2006

Enfim...

A aeronave aterrou!
Na pista, dois esguichos de espuma, um verde, outro encarnado, lembravam, sem querer, a fugaz evidência de uma selecção de futebol que tinha à sua espera, para além do calor, a fome e a vontade de comer!
Depois de quarenta anos de seca, festejamos com euforia um quarto lugar, que vai ser valorizado e espremido até onde der, neste país reduzido à sua expressão mais simples, onde a equipa das quinas representa um falso elo de unidade, a única esperança contra uma inferioridade patente.
Duas derrotas seguidas não esmorecem os portugueses, a máquina de propaganda comanda o país, os jornais e principalmente a televisão vendem sem descanso novos produtos, extraordinários acontecimentos para consumo imediato, coisas ínfimas transformadas em assuntos de interesse nacional.
O ‘roda pé’ do canal público é a imagem da república!
Primeiro passa, ‘estádio do Jamor’, em Oeiras, depois evolui para ‘estádio nacional’, em Oeiras, incapaz de assumir simplesmente: Estádio Nacional!
Enfim...
Contra a Alemanha, Costinha saiu ao intervalo para não ser expulso, e sendo assim, o médio alemão, com nome alemão, pôde exercitar o seu remate à vontade. Até podíamos ter marcado numa primeira parte equilibrada, mas Pauleta estava exausto, sem força.
Enfim...
A terceira república não conseguiu igualar a segunda!

sexta-feira, julho 07, 2006

Ressureição

Existem muitos caminhos para chegarmos ao fim deste interregno em que vivemos.
Caminhemos portanto.

quinta-feira, julho 06, 2006

“E agora, José?”

O jogo perdido, o sonho desfeito, a vida suspensa, amanhã o trabalho, o patrão que é francês, o olhar de soslaio, a inferioridade a ‘bater’, porque o Figo falhou, o Deco também... e agora, José?
Podia continuar assim, inspirado em Drummond de Andrade, mas não, a crónica segue os trâmites normais:
O carrossel de Zidane chegou e sobrou para as tímidas arremetidas lusitanas!
Vi uma selecção da França atacar menos vezes, mas com mais perigo. Vi a ‘finesse’ de Henry desequilibrar, uma vez, duas vezes, a defesa portuguesa. À terceira, Ricardo Carvalho não aguentou e fez o penalty que ditou o resultado. Na hora de marcar a diferença, Zidane marcou, apesar da magnífica estirada do guarda-redes Ricardo!
No resto do tempo, os franceses esperaram por nós no seu meio campo confiantes na qualidade do quadrado mágico de centrais e trincos, uma barreira práticamente intransponível, onde o ataque luso esbarrou vezes sem conta.
Faltou-nos potência na ala direita e no ponta de lança; para além disso, houve jogadores portugueses que acusaram o peso da responsabilidade: Figo nunca conseguiu libertar-se de um desconhecido Abidal; Deco mostrou-se sem velocidade e sem ritmo; Costinha escondeu-se do jogo; Pauleta, mal servido, não soube dar a volta ao texto; de Ricardo Carvalho esperava-se uma exibição sem mácula, que não aconteceu! Miguel arrancou uma vez e caíu; os que entraram depois, nada acrescentaram!
Cinco jogadores mereciam estar na final, porque foram iguais a si próprios, ao que esperávamos deles: o guarda-redes Ricardo, sem uma falha; Meira, imperial; Nuno Valente, superando-se sempre, esteve enorme; Cristiano Ronaldo levando de vencida vários adversários; e finalmente, Maniche, vibrante, tentando empurrar a equipa para a vitória!
Não chegou.
É certo que todos deram o máximo, é certo que conseguimos equilibrar a partida, é certo que mantivemos acesa a esperança até ao fim...mas marcar um golo tornou-se tarefa quase inacessível. E era preciso marcar um golo para ir à final.
Uma última palavra de elogio para Scolari, assente numa prova insofismável: dos cinco jogadores que no jogo da verdade, não cederam, quatro deles só jogaram neste mundial porque Luís Filipe Scolari quis!
E ainda bem para Portugal.

terça-feira, julho 04, 2006

Isabel de Aragão

Não vos vou falar de rosas nem de outros milagres. Não conheço a história dos historiadores, sei apenas que nasceu em Saragoça no longínquo século XIII, que era filha de Reis, irmã de príncipes que foram Reis e que casou com D. Dinis. Sei também, que foi mãe de outro Rei português, Afonso IV, que ganhou fama de bravo no Salado, e por razões de Estado mandou matar Inês!
E sei mais, que morreu a 4 de Julho de 1336 e é por isso reverenciada neste dia, ela que foi Santa, canonizada pelo Papa Urbano VIII trezentos anos depois.
Está dito, porque a partir de agora vou falar do que não sei, mas desconfio!
Em primeiro lugar, estou convencido que Aragão era, naquela época, o reino mais europeu da Península, com mais ligações ao mundo, ao mundo que conta na política internacional!
Isabel era filha do rei de Aragão e da rainha da Sicília, e por este ramo descende do Sacro Império Romano-Germânico. Era por sua vez sobrinha da Rainha Isabel da Hungria, curiosamente, também Santa como ela. As suas ligações familiares estendem-se, se não me engano, aos Imperadores Paleólogos de Bizâncio!
Podemos pois concluir deste casamento de D. Dinis com a Rainha Santa pelo menos duas coisas: a importância crescente do reino, que assim conseguia um casamento de grande relevo internacional; e como consequência, uma também crescente influência que os monarcas portugueses passaram a ter no contexto de uma Europa alargada a leste, como agora se diz!
Foi portanto uma verdadeira rainha, aquela que entrou em 1282 pela fronteira da Beira, e com as qualidades inerentes: a suavidade para interceder pelos mais desfavorecidos, a capacidade para desarmar guerras civis, a modéstia para se recolher a um Convento a seguir à morte do rei.
Nem todas as rainhas são santas, mas esta deixou na memória dos povos a convicção de santidade.
E nestas condições...Vox populi, Vox Dei.

domingo, julho 02, 2006

Variações sobre um penalty

O inglês Carragher colocou a bola na marca e afastou-se, de costas voltadas para a baliza. Inesperadamente, deu meia-volta, correu e disparou para o lado esquerdo de Ricardo. A bola entrou mas não valeu, porque o árbitro ainda não dera o sinal. Durante todo este tempo Ricardo não se mexeu, impassível, sabendo da irregularidade do lance.
A pergunta é, o que terá levado Carragher a fazer aquilo? Correndo o risco de ‘queimar’, de reduzir desde logo as hipóteses de uma nova tentativa para um dos lados da baliza! Neste caso, o lado esquerdo de Ricardo, para onde já tinham rematado sem êxito, Lampard e Gerrard!? Um erro, que acordou de vez o mítico penalty defendido por Ricardo no último Europeu, sem luvas e para o mesmo lado!
Neste tremendo jogo psicológico, Carragher não quis medir-se com Ricardo, olhos nos olhos, teve medo de denunciar as suas intenções, e isso talvez explique aquela atitude, naturalmente condenada ao insucesso porque o árbitro só apita para a marcação da grande penalidade a partir do momento em que os dois jogadores se enfrentam, assegurando que estão ambos a postos. Carragher temeu demais esse instante.
Foi no meio deste vendaval de emoções que o jogador inglês arrancou para a bola, sabendo que teria de rematar para o outro lado, para o lado direito de Ricardo, aliás, segundo a lenda, o pior lado dos guarda-redes dextros, mas Ricardo estava avisado, simulou atirar-se para a sua esquerda, voou para a sua direita e defendeu com classe.
A bola desviada da rota mortífera pela mão direita de Ricardo, e de todos os portugueses, ainda seguiu na direcção do ferro da baliza, que a devolveu definitivamente.
E a variação fica assim concluída: o tiro seco, rasteiro, era práticamente indefensável se não se visse envolvido em tantos pequenos nadas, em tanta fantasia, a que ninguém escapa, nem Carragher, nem Ricardo, nem eu.
Para não falar da Senhora de Caravaggio, maila Senhora de Fátima.

sexta-feira, junho 30, 2006

Associação Vale De Acor na primeira linha da recuperação e integração social


Uma entrevista com o Padre Pedro Quintella, responsável pela comunidade que traz esperança de vida a muitos que a demandam.

A Associação Vale De Acor é uma instituição ligada à Igreja de S. Tiago (Almada) e a um grupo de cristãos voluntários, que se dedica à recuperação de pessoas toxicodependentes , com uma comunidade que está instalada na Quinta de S. Lourenço.
Possui a maior estrutura protocolada do país (77 camas) e é dirigida por um sacerdote nascido na freguesia da Trafaria - o padre Pedro Quintella, - que conhece como ninguém a realidade da luta contra este grande flagelo da sociedade: a toxicodependência.

Almada - Visitou as instalações da comunidade e ouviu o Padre Quintella que explicou as fases de intervenção, o modo de funcionamento da instituição, fez considerações à política oficial de combate e falou dos apoios que recebem.

Padre Quintela (P.Q.) - As formas de intervenção estão divididas em três categorias: Primária, Secundária e Terceária. A intervenção primária é evitar que as pessoas consumam drogas. Nós não nos dedicamos a isso, mas sim às pessoas que já caíram nas suas malhas, que não são capazes de superar a situação por si próprias e que vêm aqui pedir ajuda. Portanto situamo-nos na área de intervenção secundária.
Fazemos também alguns trabalhos de intervenção terceária, que é o de procurar devolver á cidadania pessoas que estavam mal, ajudando-as e acompanhando-as no regresso à sociedade e à comunidade.

Almada - Como se processa a intervenção?
P.Q. - Fazemos uma recuperação que não tem compensação química. Primeiro: não se substitui uma droga por outras, ou seja, os anti-opiáceos, os inibidores de consumo, substâncias com efeitos psicotrópicas. Segundo: temos uma preparação em internamento, que é a fase mais complexa, uma preparação para uma outra fase mais importante; Terceiro: damos grande importância à família, na qual nos inscrevemos, como os inventores das famílias na fase de integração. Um grande valor é dado à família no processo de reinserção; Quarto: damos grande relevância ao acompanhamento das pessoas na reinserção. Não basta fazer a recuperação. As pessoas regressam ao seu emprego, amigos, família e durante um ano, ano e meio, vamos acompanhando, ajudando-os a afastarem-se de nós. Quinto: as nossas intervenções não são só terapêuticas. Da equipa fazem parte um psiquiatra, psicólogos, sociólogos. O click da nossa intervenção tem a ver com uma preocupação educativa. Não basta que as pessoas não se droguem, não basta que as pessoas tenham um maior conhecimento sobre si próprias, é preciso que as pessoas tenham outros valores, outros objectivos, e possam dar outro sentido e significado à vida . Ao mesmo tempo que se desenvolve um processo terapêutico, passa um processo educativo.

Almada - Tivemos oportunidade de verificar que o horário diário é muito preenchido.
P.Q. - Há aqui um regime puxadíssimo, com um horário muito intenso. Temos aqui técnicas psicológicas que provocam grande tensão. As pessoas são chamadas a dizerem o que pensam e o que sentem, porque o não dito é para nós o princípio da evasão.

Almada - Existe alguma limitação para o ingresso das pessoas ?
P.Q. - Não. À parte de situações dramáticas que vão surgindo e que temos interesse em trabalhar com a Câmara, porque no país não está coberta a situação de adolescentes que já têm consumos pesados de drogas, não é nada saudável que um rapazinho com 15 ou 16 anos seja aqui internado com gente que tem mais de quarenta e por diante. No país não está coberta a faixa da adolescência. Não é que apareça muita gente, mas de facto há uma população de adolescentes e às vezes crianças a injectar-se ou a fumar drogas, com 11, 12 anos... Com heroínas, inclusive. É muito comum, com essas idades, começarem a fumar charros. Mas o grande grosso que nos aparece é da faixa entre os 25 e 30 anos.

Almada - As pessoas que aqui trabalham são voluntárias?
P.Q. - Temos muitos voluntários. Cerca de 50 passam por cá regularmente, médicos voluntários, enfermeiros voluntários... O pessoal que está cá a tempo inteiro não é retribuído pelo valor de mercado. Houve gente que aqui trabalhou, uma série de anos, com formação universitária e nem vou dizer quanto auferiram. Há aqui situações que não têm preço Somos amigos da igreja, ligados uns aos outros.
Consumo e panaceias

Almada - Qual o papel que o Estado assume neste âmbito?
P.Q. - O Estado tem 1300 camas para recuperação, das quais, há uns tempos estavam 500 por ocupar. Um número alucinante. Ouve um tempo em que tudo foi convergindo no sentido de se querer construir estruturas para a recuperação das pessoas, pois agora, depois de uma grande hesitação, enveredou-se por outra direcção e o objectivo da prática do Estado não tem sido recuperar mas sim o sustentar com outra higiene a vida de consumo.

Almada - Refere-se ao uso da metadona?
P.Q. - A metadona pode ser usada em circunstâncias muito específicas , muito controladas. A metadona não pode ser a panaceia dos doentes e muito menos da classe política. Eles perdem muita perigosidade alimentados com a metadona, mas isso não é uma recuperação.

Almada - Não acaba com a dependência?
P.Q. - Não. Não acaba. Eles depois passam a multi-usos. São cidadãos de segunda. Ninguém admite um trabalhador que esteja na metadona... Para nós é importante que o Estado não alimente cidadãos de segunda. A metadona cria uma sociedade «a duas velocidades».

Almada - Quer dizer com isso que a metadona é desaconselhada de todo...
P.Q. - Não é de todo. Há, situações em que é tolerada, por exemplo, nas mulheres grávidas, doentes terminais, situações transitórias. Em 1996, em Setúbal as pessoas começaram com o consumo e ainda hoje «estão» na metadona. Ouvi um técnico do Estado dizer que eram precisos 7 a 8 anos para obter resultados. Isto é uma enormidade. Para nós é importante que a metadona fosse em ordem a um tratamento, neste momento, a prática parece-nos mais que ela seja um estacionamento.

Almada - Voltando à questão do consumo: Acha que tem aumentado?
P.Q. - Sim. Em Portugal tem-se vindo a aumentar insistentemente. Há uma tendência no país de baixar a média de idades de pessoas que consomem heroína. Acabo de ler ontem o relatório da Organização Internacional do Controlo de Estupefacientes (OICS) que funciona no seio das Nações Unidas e nesse relatório dizia-se que: no ano 2000, na Europa, houve um aumento nítido de consumo de cocaína, anfetaminas, extasy, mas também muita heroína. Agora com a crise do Afeganistão é muito provável que venha por aí muita heroína barata. E ela vindo mais barata, as pessoas consomem o que lhes surge. O dependente é propenso à moda que o tráfico inventa.

Almada - As inúmeras campanhas feitas não deveriam ter contribuído para uma eventual diminuição do consumo?
P.Q. - Felizmente, 95% dos jovens não são dependentes de droga, nem tiveram contactos com ela. Não há o perigo da sociedade se tornar toda consumidora, mas há que saber o que é que fazemos com os que consomem, e o que há a fazer para que outros não entrem . Hoje as pessoas estão mais informadas, mas esta informação tem efeitos de tal maneira cínicos, que a pessoa diz: Não vou para a heroína, mas vou para os "shots" alcoólicos. Isto acontece com a gente nova. Já sabem que a heroína rebenta com a pessoa em três anos, então preferem rebentar-se aos bocados. Há aqui efeitos perversos. Deixa de se usar as drogas perigosas e avança-se para outras.

Acompanhamento e apoio da Câmara

Almada - Que apoios têm recebido ?
PQ - Somos uma instituição da Igreja. Católica, que ajudou com verbas. Temos um acordo com o Ministério da Saúde para as despesas fixas; temos o apoio do Banco Alimentar, com uma boa vontade muito grande; e depois temos colaborado, com muita correcção de parte a parte com o Município. Um entendimento muito sério e honesto entre as partes. A senhora Presidente tem-nos visitado com muita regularidade. Nós pensamos que prestamos aqui um serviço que serve o país e o concelho, que o qualifica em termos de solidariedade e com a excelência do trabalho que aqui vai sendo feito.

Almada - As instalações da comunidade são vossas?
P.Q. - Foi também a Câmara que nos pôs em contacto com o IGAHPE e conseguimos um comodato por 50 anos.

Almada - Todo o trajecto seguido até aqui o satisfaz? Que perspectivas para o futuro?
P.Q. - Sim. Faz-me muito bem aquilo que faço aqui: toda a primeira linha do testemunho das coisas grandes e bonitas que Deus faz com os homens. Com a colaboração de todos, com a lealdade de todos, com a generosidade de muita gente. As coisas têm corrido bem. Deus permita que continuem.
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Fonte: Boletim Municipal de Almada.

quinta-feira, junho 29, 2006

Vieira ajudou

Ouvi ontem um dos ‘Sermões’ do Padre António Vieira em que o jesuíta pedia ‘explicações’ a Deus, imagine-se a coragem, sobre as rapinagens holandesas no norte do Brasil e em outras paragens que estavam sob o domínio português.
Vieira queixava-se com razão, argumentando que se Deus nos tinha concedido evangelizar terras e gentes por esse mundo além, não era justo que agora consentisse que piratas ‘laranjas’, desobedientes à lei de Cristo, andassem por aí sem vergonha, a ocupar, roubar e a maltratar portugueses!
Um último ‘desafio’ e um ultimo queixume: que se era para nos tirar, aquilo que com tantos sacrifícios soubemos manter para honra e glória de Nosso Senhor, seria melhor que nunca nos houvera dado!
Parece que a Divina Providência aceitou a razão e acolheu a súplica do destemido pregador, porque em breve seriam os holandeses expulsos do Brasil para nunca mais lá voltarem. A assinalar o feito, fica a lembrança das batalhas travadas nos ‘montes guararapes’, a sul de Pernambuco, onde em grande inferioridade numérica, portugueses, mestiços e índios potiguares, levaram de vencida a poderosa armada holandesa.
Depois a história é conhecida, nomeadamente a seguir à Restauração da Independência, em que fomos recuperando persistentemente o que nos havia sido roubado.
Hoje, para quem assistiu à ‘batalha de Nuremberga’ que opôs de novo portugueses e holandeses, num jogo de futebol, não pode deixar de pensar que os argumentos (e os queixumes) de Vieira ainda fazem fé na Corte Celeste.

terça-feira, junho 27, 2006

As lições de Nuremberga

Não há um árbitro português no campeonato do mundo; não há um treinador português no campeonato do mundo; dirigentes portugueses, com responsabilidades no futebol mundial, é melhor nem pensar nisso; a Europa e o mundo não precisam do discurso redondo, atento e obrigado, habitual na grande maioria dos nossos capatazes mais ou menos desportivos; não obstante, temos dos melhores jogadores do mundo, jogadores que quando bem comandados conseguem impossíveis! Conseguem ser uma autêntica equipa!
Ao fim de quarenta anos chegámos de novo aos quartos de final de um campeonato do mundo de futebol, não porque nas anteriores participações não tivéssemos também grandes jogadores, até melhores do que os de hoje, mas não tivemos na altura a oportunidade ou a sorte de ter um seleccionador que assumisse uma liderança indiscutível, com coragem e independência.
Em cada lance, nas contrariedades próprias do jogo, nos momentos infelizes, todos sentimos, dentro e fora do campo, que a cadeia de comando estava bem firme, bastava um olhar, a expressão resoluta, o acompanhamento constante de todas as peripécias que iam sucedendo, essa força íntima que se transmite, e que faz com que pessoas vulgares se transcendam nos momentos decisivos.
Naturalmente que também faz diferença e muita, o facto da maior parte dos jogadores actuarem em países e campeonatos muito competitivos, onde não se toleram comportamentos inferiores ou infantis. O contrário exactamente do que se passa por cá, e não por culpa dos jogadores, mas de quem (não) manda, de quem os deveria formar e orientar.
Aquilo a que assistimos em Nuremberga, num mero jogo de futebol, pode bem ser o pretexto para reflectirmos sobre as nossas proverbiais incapacidades, e na melhor forma de as superarmos.
Dito de outra maneira, podíamos formular a seguinte questão: porque é que vamos mantendo um sistema político, com reflexos em todos os subsistemas, que impossibilita o desenvolvimento natural das capacidades de um país que afinal não é tão pobre como convém, e de um povo, que afinal tem potencialidades insuspeitadas mas que raramente consegue exprimi-las portas adentro!
Não antecipo conclusões, mas desconfio que o problema está onde sempre esteve, ou seja, nas falsas elites que por aqui desgovernam, em compadrio permanente, que se servem sem servir, que apregoam a democracia para os outros, e que a esta hora estão a comemorar, na televisão ou na Alemanha, a vitória da selecção!
Talvez fosse o tempo de pensarmos num centro de estágio, ou numa nova academia, para fabricar e treinar verdadeiras elites que assegurem o futuro de Portugal.
Saudações monárquicas.

domingo, junho 25, 2006

O interesse nacional

Qual é o interesse nacional em Timor?
A pergunta é para ti, português suave, que tens a cabeça metida dentro da televisão, e ainda não descobriste se o ‘Merche Ronaldo’ usa saltos altos ou não!
Mas a pergunta também serve ao Cavaco que não quer intrometer-se nos assuntos internos de um país independente! Independentemente de ter sido ocupado por forças armadas de outro país, o nosso bom aliado australiano, aliado para tudo menos para o petróleo!
A pergunta estende-se, não ao Sócrates que tem mais que fazer, mas para o Freitas, que não se ouve, mas não pode deixar de se ouvir, e por uma vez, sem se esconder atrás de siglas incompreensíveis! Será capaz?!
Para São Bento, àquela gente que gostamos de eleger periodicamente, é melhor não perguntar nada, é uma pergunta repetida, repetida mil vezes à nossa consciência, e que a nossa consciência se recusa a responder!
Em poucas palavras, o Torga disse tudo: “Fomos descobrir o mundo em caravelas e regressámos dele em traineiras. A fanfarronice de uns, a incapacidade de outros e a irresponsabilidade de todos deu este resultado: o fim sem grandeza de uma grande aventura. Metade de Portugal a ser o remorso da outra metade.”
Esta é que é a questão, hoje e sempre, não em Timor, mas em Portugal.
Queres responder?

quinta-feira, junho 22, 2006

Bandeiras negócio da china

Negócio de bandeiras da china, china negócio de bandeiras, bandeiras negócio da china. Nem com a bandeira ganhamos dinheiro!
O negócio é dos chineses, pois claro, eles é que têm os pagodes para vender ao pagode! Eles é que dominam os encarnados, os vermelhos são eles, o verde bandeira fica mal, mas imprime bem, já está: sai uma bandeira sem castelos, com pagodes, para o pagode. É sempre a aviar!
Então, e as empresas nacionais! Não conseguem concorrer com a bandeira ‘chinesa’?
Está mal. Era um nicho de mercado, um ‘cluster’, espero não me ter enganado!
O Governo é que anda distraído com o choque tecnológico, o Presidente também, porque senão já tinha pensado no assunto.
Eu penso sem filosofar: queria ver os chineses a fabricarem a bandeira azul e branca, com a coroa e as armas de Portugal, sem pagodes, sem aldrabices. Eles não têm os azuis que nós temos, a coroa para eles é chinó, a contrafacção seria muito difícil, dávamos logo por ela.
O negócio era nosso!
Assim não é, produzem em série o “verde encarnado terceiro mundo”, depois metem pagodes aqui, estrelas ali, foices e martelos acolá, rodas dentadas para quem quiser, o cliente é que manda.
É um negócio da china!

quarta-feira, junho 21, 2006

Oração da Mestra

“Senhor! Tu que ensinaste, perdoa que eu ensine; que tenha o nome de mestra, que Tu tiveste sobre a Terra.
Dá-me o amor único pela minha escola; que nem a queimadura da beleza seja capaz de roubar-lhe a ternura de todos os instantes.
Mestre, faz-me perdurável o fervor e passageiro o desencanto. Arranca de mim este impuro desejo de justiça, que ainda me perturba, e a mesquinha insinuação que sobe quando me ferem. Não me doa a incompreensão nem me entristeça o esquecimento das que ensinei.
Dá-me ser mais mãe do que as mães, para poder amar e defender como elas o que não é carne da minha carne. Dá-me que alcance fazer de uma das minhas crianças o meu verso perfeito e deixar-Te cravada nela a minha mais penetrante melodia, para quando os meus lábios não cantarem mais.
Mostra-me possível o Teu Evangelho no meu tempo, para que não renuncie à batalha de cada dia e de cada hora por ele.
Faz-me forte, ainda que no meu desvalimento de mulher e de mulher pobre; faz-me desapreciadora de todo o poder que não seja puro, de toda a pressão que não seja da Tua vontade ardente sobre a minha vida.
Amigo! Acompanha-me! Sustem-me! Muitas vezes não terei ninguém senão a Ti a meu lado. Quando a minha doutrina for mais casta e mais ardente a minha verdade, ficarei sem os mundanos; porém, Tu me oprimirás então contra o Teu coração, ele que eu soube farto de solidão e desamparo. E eu não procurarei senão no Teu olhar a doçura das aprovações.
Dá-me a simplicidade e dá-me profundidade; livra-me de ser complicada ou de ser banal nas minhas lições quotidianas.
Dá-me levantar os olhos do meu peito ferido, ao entrar cada manhã na escola.
Que não leve para a minha mesa de trabalho os meus pequenos afãs materiais, as minhas mesquinhas dores de cada hora.
Aligeira-me a mão no castigo e suaviza-a mais na carícia. Repreenda com dor, para saber que corrigi amando!
Faz que eu faça de espírito a minha escola de ladrilhos. Que a envolva da labareda do meu entusiasmo, o seu átrio pobre, a sua sala despida. O meu coração seja mais uma coluna e a minha boa vontade mais ouro que as colunas e o ouro das escolas ricas.
E por fim recorda-me, desde a palidez da tela de Velasquez, que ensinar e amar intensamente sobre a terra é chegar ao último dia com o lance de Longinos* no costado ardente do amor”.

Gabriela Mistral

* Nome do soldado que segundo a tradição trespassou Jesus com a lança.

sábado, junho 17, 2006

O Príncipe em Timor

Uma pequena notícia num jornal de grande circulação dá-nos conta da presença do Senhor Dom Duarte de Bragança em Timor.
A verdadeira e única solução para um Timor autónomo, fiel às suas tradições, unido, independente e equidistante dos apetites australianos e indonésios, está de visita àquele território e ninguém dá por isso! O próprio jornalista português que divulgou o acontecimento não se coibiu de desvalorizar o assunto: quando o Duque de Bragança lamentava algumas decisões governamentais, nomeadamente a que retirou poderes aos “Liurais”, os tradicionais chefes indígenas, o nosso repórter remata com ironia – “sempre a sua veia monárquica”!
Se isto é o que se pensa por cá, vejamos o que acontece por lá, nas entrelinhas do mundial de futebol: A GNR deve estar mais ou menos aquartelada, para não se sujeitar ao vexame de ficar sob o comando do protector-invasor australiano.
Estes, preparam um contra ataque diplomático para garantirem a sua tese: Timor é actualmente ingovernável, não tem condições para ser um País independente, tem divisões insuspeitadas, para já entre lorosaes e loromunos, e nós, australianos, queremos mais... petróleo!
O ministro Freitas vai cobrindo, dolorosa e inexplicavelmente, as costas do primeiro-ministro Sócrates, tentando que a ONU assuma responsabilidades e ‘comando’ em Timor.
Alkatiri conspira, Xanana desaparece atrás da sua mulher australiana, a população amedrontada esconde-se onde pode, os jovens que nasceram e cresceram sob o domínio indonésio, erram pelas ruas, espalham a violência, não respeitam ninguém.
Talvez que um dia se perceba, sem ironia, o valor da autoridade ancestral e ao mesmo tempo as consequências do seu vazio. Porque a ‘democracia’, mesmo a da Fretilin, para ser útil, tem uma condição prévia, o respeito pelos outros, principalmente pelos outros que nos precederam.
No caos instalado, a Igreja Católica simboliza o último dique ao desmoronamento, a única convergência de futuro.
Mas insisto, a solução simples, que não queremos equacionar, está neste momento em Timor, a lembrar como foi possível viver quinhentos anos em paz e sossego!

quinta-feira, junho 15, 2006

Corpus Cristhi

Liberdade

- Liberdade, que estais no céu...
Rezava o padre nosso que sabia,
A pedir-te, humildemente,
O pão de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
Nem me movia.

- Liberdade, que estais na terra...
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.

Até que um dia corajosamente,
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
- Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome.


Miguel Torga (1975)

terça-feira, junho 13, 2006

Decoro e bom senso

Começo por lembrar aos caríssimos visitantes deste interregno que sou aquilo a que se pode chamar um antiquíssimo adepto do futebol.
Menino e moço vi futebol nas Salésias, fui praticante, dizem que com algum jeito, e pela vida fora sempre fiz do Domingo à tarde, um dia de ‘bola’. Isto para esclarecer que nada me move contra o desporto-rei, antes pelo contrário. Tenho até, como alguns sabem, um blog dedicado a esse assunto.
Mas se tudo isto é verdade, não esperem encontrar por aqui qualquer apoio à onda de histerismo colectivo, impensável, mesmo para quem se habituou a ouvir que o futebol era, durante o ‘antigo regime’, o ópio do povo. Pois se era, ultrapassou as barreiras de classe, atacou a burguesia, instalou-se nas ‘elites’ bem pensantes, e passou a ser consumido por toda a gente, a toda a hora!
Desculpem-me, mas não estou preparado para no fim de um jogo de futebol, ver e ouvir o primeiro-ministro de Portugal a fazer comentários às incidências e ao resultado da partida! Parece-me um pouco de mais, mesmo considerando que se trata de um jogo a contar para o campeonato do mundo da modalidade...disputado na Alemanha!
A seguir apareceu o Durão Barroso...e ainda fui a tempo de ser esclarecido por um ex-presidente da república, o omnipresente Sampaio! Estavam lá todos!
Afinal, ‘o espírito de Sevilha’ não se perdeu, frutificou, criou raízes.
Mas o que é isto!?
Será que a seguir ao jogo da Inglaterra, o primeiro-ministro inglês estava ali, disponível, para dizer umas baboseiras sobre o que se tinha passado!? Será que a imprensa japonesa andou a correr atrás de algum ministro nipónico para lhe pedir um comentário sobre a derrota da equipa do Japão!?
Enfim, se souberem alguma coisa, digam-me, posso estar enganado.

Entretanto e já que estamos aqui, aproveitemos o tempo para estudar o fenómeno das migrações através deste jogo entre Portugal e Angola!
Se olharmos com atenção para a equipa das quinas, para lá do equipamento terceiro mundista, conseguimos chegar a uma primeira conclusão: trata-se de uma selecção de emigrantes, orientada por um imigrante, muito apoiada por emigrantes e que representa hoje em dia um país de emigrantes e imigrantes.
O símbolo desta selecção é Deco: um imigrante, que se tornou português, para ser emigrante!
E em Angola o que temos: uma selecção de jogadores também emigrantes, que jogam em clubes portugueses modestos, alguns jogadores com a profissão de contínuos, caso de Mateus, outros desempregados, como o guarda-redes, equipa muito apoiada por imigrantes, e orientada por um angolano!
É caso para dizer, as voltas que o mundo dá e as voltas que o discurso político também dá! Não foi assim há tanto tempo que ouvi Mário Soares a gritar: Portugal vai deixar de ser um país de emigrantes! Os que cá nascerem terão paz, pão, trabalho, habitação...como cantava a canção!
Parece que sobrou qualquer coisa, ou então, é para acrescentar...imigração em massa das ex-colónias, incluindo o Brasil!
Quem diria! Em apenas trinta anos!
Uma dúvida: serão imigrantes ou refugiados da miséria, da fome, da guerra, do socialismo, dos tiranetes que por lá mandam?
Deixemos isso, Portugal ganhou, é tudo o que interessa!
Para chatices, já basta o dia a dia.
Saudações monárquicas.

domingo, junho 11, 2006

Enforquem-se com a verdade desportiva

Isso mesmo, apertem bem os cachecóis da alienação, até à asfixia, e depois gritem bem alto “viva a verdade desportiva”! Se ainda há fôlego, quero ouvir o guincho: viva o futebol português! E descansem em paz.
Não cumpram a lei, não punam os infractores, que não é preciso. Sejam felizes, agitem as bandeirinhas, distribuam já as medalhas, comecem pela Liga, sigam para a Federação, não se esqueçam do secretário de estado, seja ele qual for.
Azia? Mau perder?
Erro. Isto não tem nada a ver com o Belenenses, não é um ‘particular’ entre Belenenses e o Gil Vicente, como andam para aí a enganar as pessoas, isto tem a ver com o cumprimento ou incumprimento duma norma simples e objectiva: quem recorrer para fora do ordenamento desportivo para aí obter uma vantagem sobre todos os outros competidores, é punido com a descida de divisão.
Mateus não podia jogar no mesmo ano na condição de amador e profissional, esta a questão. Conseguiu ultrapassar essa impossibilidade recorrendo aos tribunais comuns e jogou, até marcou golos, mas isso é indiferente. A Académica protestou, o Vitória de Setúbal também protestou, invocaram os motivos que entenderam invocar, o que também é indiferente, porque quem deve zelar pelo cumprimento das normas que regem o futebol profissional é a Liga e a Federação, porque são estas entidades que as produzem e que dispõem dos competentes organismos jurisdicionais.
Repito, não cabe aos clubes, individualmente, assegurar o cumprimento do normativo desportivo que todos se comprometeram voluntariamente a respeitar.
Não cabe portanto ao Belenenses a iniciativa de suscitar uma questão que era há muito do conhecimento da Federação e da Liga! Não se enganem, o eventual ‘beneficiado’ com o cumprimento da lei, não é o Belenenses, são todos os clubes da Liga, incluindo o Gil Vicente. Se assim não acontecer, o futebol não tem qualquer credibilidade pois cada um faz o que lhe apetece, desde que conte com o ‘colaboracionismo’ infame dos ‘donos da bola’!
Foi aliás o que se passou vergonhosamente esta semana na Comissão Disciplinar da Liga, onde aconteceu de tudo: Um filho do vice-presidente do Gil Vicente que deixou de o ser quando chegou ao Porto, uma votação assumida em Lisboa que se alterou no Porto, um ‘voto de qualidade duvidosa’, não previsto para um órgão com numero ímpar de membros.
E sem que tenham ocorrido outros factos, a não ser uma diferença de latitude, e uma viagem de um dirigente da Liga com um envelope, pelos vistos violado, o envelope, claro.
Vir, depois disto, falar de verdade desportiva, obtida dentro das quatro linhas só pode ser brincadeira de mau gosto! Mas realmente explica, e de que maneira, qual é a verdade desportiva que esteve presente no desenrolar do campeonato.
Esta cena edificante que já levou à demissão de dois juízes e à extinção, por falta de quórum, da dita ‘comissão disciplinar da liga’, promete realmente desenvolvimentos interessantes e pela minha parte espero que cale de vez essas virgens ofendidas que gostam de proclamar a verdade desportiva quando não estão em causa os interesses dos clubes do estado, com letra pequena.
Termino com este desafio entre o Belenenses e o resto do mundo: se entendem que é ilegítimo que o meu Clube, o provável beneficiado pela aplicação da lei, aceda à primeira Liga por um motivo qualquer que não vislumbro, realizem o próximo campeonato com quinze clubes, porque o Gil Vicente, esse, a ser cumprida a lei, tem que descer.
Saudações desportivas.

sábado, junho 10, 2006

Uma estrofe ao acaso

“Fazei, Senhor, que nunca os admirados
Alemães, Galos, Ítalos e Ingleses,
Possam dizer que são para mandados,
Mais que para mandar, os Portugueses.
Tomai conselho só de experimentados,
Que viram largos anos, largos meses,
Que, posto que em cientes muito cabe,
Mais em particular o experto sabe.”

“Os Lusíadas” de Luís Vaz de Camões

quarta-feira, junho 07, 2006

Dependências

Evito, e nem sei se faço bem ou mal, opinar sobre matérias que fazem parte da minha actividade do dia a dia, que exprimem vivências onde existe grande sofrimento, e em que se fica sempre com a sensação de que as teorias, por mais explicativas, nunca atingem o cerne da questão: o homem e esse mal-estar interior que o leva a percorrer caminhos de dependência e solidão.
Depois, para falar de dependências, nada melhor do que começar pelas nossas, tantas vezes ignoradas ou escondidas atrás de comportamentos aparentemente saudáveis, só aparentemente livres!
Por isso evito e acabo por mudar de tema.
Acontece que sou muitas vezes confrontado com a ignorância triunfante, afinal tão comum, que faz parte inclusivamente do discurso oficial, aquele que aposta em políticas de ‘redução de danos’ ou de ‘substituição de drogas por outras drogas’, em lugar de combater frontalmente o flagelo, autêntica epidemia que vai assumindo sempre novas formas, e que não recuará perante medidas meramente apaziguadoras.
É assim que vejo as dependências e o seu combate:
O princípio básico nesta matéria reside na coragem do diagnóstico, que deve ser capaz de pôr em causa o nosso estilo de vida, chamar o mal pelo mal e o bem pelo bem, sem tergiversações, sem medo de ser atingido pelas suas próprias armas.
Sempre existiram e sempre vão existir dependências, vícios, mas não estamos a falar disso. Estamos a falar de um pandemónio que se abateu sobre a humanidade e cujas causas ninguém quer ouvir falar!
Porque será?
Naturalmente porque elas nos conduziriam às ideologias dominantes, àquelas que ditam os nossos comportamentos actuais, que conformam o quotidiano das nossas vidas: o materialismo, o ateísmo, o egoísmo, e outros “ismos” mais ou menos semelhantes.
Como consequência, a escalada dos baixos instintos, a destruição ou relativização de valores básicos civilizacionais, conquistados com tantos sacrifícios, e que vão submergindo neste mundo que tudo descarta e consome!
Termino como comecei: o verdadeiro problema não são as substâncias, mas os comportamentos que nos levam às dependências. As substâncias funcionam como mera ‘bengala’, sem esquecer que há inúmeras dependências que não usam sequer substâncias, como é bom exemplo, o vício do jogo.
Perceber as causas e assumir a realidade da própria dependência, são o único caminho para a liberdade.
Quase que apetece repetir: “Um doido quando sabe que está doido, já não está doido”.

terça-feira, junho 06, 2006

A guerra dos dias

É uma espécie de contra-cruzada, lançada de longe pelas forças ocultas que não se conformam com a herança Católica, que não se conformam com o calendário gregoriano, nem se conformam com a história!
Se pudessem eliminar o dia de Natal, o seu significado religioso, não hesitavam.
Não se trata, infelizmente, de mais uma teoria da conspiração, porque já tentaram fazê-lo explicitamente a seguir à Revolução Francesa, mudando os nomes dos meses, apagando os dias santos, com o objetivo de edificarem uma religião de Estado com calendário próprio, mas dessa vez, o povo e a memória resistiram. Não vão desistir, e sempre que podem avançam, normalmente apoiados pelos idiotas de serviço.
Estes distinguem-se fácilmente pelas posições contraditórias que adoptam, a respeito de datas. Por exemplo, a propósito do Natal, repetem – “Natal deveria ser todo o ano”. Quando por outro lado se objecta contra a desnecessidade de andar a instituir dias disto e daquilo, reagem dizendo – “ é uma maneira das pessoas se lembrarem do ‘evento’, ao menos uma vez por ano”!
Assim esclarecidos passa a haver dias para tudo, ao sabor da moda, do interesse, da imaginação mais ou menos doentia. Mas a finalidade óbvia é, não temos dúvidas, desvalorizar e banalizar as datas de culto religioso, e já agora também político, apagando da memória dos povos episódios relevantes da sua história, mas porventura incómodos para a prossecução de fins inconfessáveis.
Só que as coisas nem sempre correm bem! No seu afã de mostrar serviço, os tais idiotas úteis às vezes exageram, desorientam-se e caiem no ridículo.
Foi o que aconteceu quando avançaram para “o dia do cão”, esquecendo e atropelando uma série de pessoas e animais que estavam em fila de espera!
Não se faz, foi mau para os cães e para os respectivos donos.
Na altura lembrei-me apenas da imagem de marca de uma célebre editora de discos: “His master’s voice!”!

sexta-feira, junho 02, 2006

Eu não sou eu!

É verdade, fui ultrapassado pelo escriba deste ‘espaço’, que texto atrás de texto se vai paulatinamente afastando do seu autor e mestre! Situação insólita que noutras circunstâncias já teria merecido um forte puxão de orelhas ou ao menos uma conversa de homem para homem. Mas vai ter de ser.
É caso para dizer que este ‘jsm’, me saiu melhor que a encomenda!
Senão vejamos:
Eu sou de facto monárquico, mas muito mais acomodado, muito mais pachorrento, sem as crises voluntaristas de que parece padecer o meu indisciplinado discípulo!
Também sou Católico, claro, mas o cruzado que habita dentro de mim, há muito que despiu a cota de malha, há muito que deixou enferrujar a velha armadura. Ao contrário, e sem que o possa refrear, ‘jsm’ esvoaça inquisidor pelos claustros, frequenta o culto com mais assiduidade do que eu, transformou-se num peregrino que não consigo acompanhar! E quando tento, acabo derreado, exausto.
E depois temos o problema dos tiques: um certo anti americanismo até compreendo, embora tivéssemos combinado disfarçar, mas com franqueza, o Professor Salazar não merecia as invectivas deste ‘antifascista’ fora de prazo!
Inexplicavelmente, e pelo que tenho lido, simpatiza ou condescende com personagens do Índex, como o Dr. Jardim da Madeira, ou o ‘defunto’ Santana Lopes, e outros figurões que nem me atrevo a mencionar.
Um outro tique que está a assumir uma feição patológica, é aquela mania das autonomias por tudo e por nada! Aqui temo o pior, a situação parece-me que já está fora de controle, até do próprio ‘jsm’!
E abstenho-me de comentar a recente veia poética...com a qual tenho sido bastante tolerante!
Noutra vertente, toda a gente sabe que sou do Belenenses! Pois bem, nem de propósito, aqui as coisas invertem-se! Eu sou muito mais faccioso do que ele! Anti-benfiquista de longa data, tenho a justa fama de mau perder e de provocar discussões em toda a parte.
Entretanto o que faz o sonso do ‘jsm’?! Aparece-me moderado, cordial, armado em desportista!
Não há paciência! Vou ter que pôr este indivíduo na ordem.
Enquanto isso não sucede, os textos aqui publicados terão de ser olhados com alguma reserva, incluindo este.

segunda-feira, maio 29, 2006

O Reino Unido resolve

“Não estou a pensar em independências tipo Cabo Verde ou Timor...Saber se a Madeira é auto-sustentável é uma das matérias que teremos de analisar profundamente...Nós queremos continuar na Pátria comum, mas temos o direito de não querer aturar certas coisas...Encontrar um sistema jurídico que mantenha a coesão e unidade nacional mas... que não nos obrigue a ter de suportar um pensamento único dominante...”.
Assim se pronunciou Alberto João Jardim no encerramento do congresso do PSD/Madeira e já imagino o coro dos seus inimigos a entoar o refrão: pobre e mal agradecido!
Já a solo, a questão parece-me legítima e deve ser discutida sem complexos, até porque pode contribuir, no caso das Regiões Autónomas para afastar a permanente tensão e restabelecer a confiança, no caso das independências fictícias de Cabo Verde, Timor, São Tomé, etc., para viabilizar uma solução estável em ligação com a antiga metrópole.
Ora, nestas condições, só existe uma fórmula eficaz de associação política, que a história já testou largamente: é o Reino Unido.
A história também confirmou que estas associações políticas de base voluntarista e com grande autonomia, longe de fomentarem o egoísmo, acentuam a solidariedade entre os seus membros.
Jardim deu o pontapé de saída, nem terá pensado no Rei, mas este Interregno não vê outra solução.

sexta-feira, maio 26, 2006

Uma vergonha

Mortos espalhados pelas ruas, irmãos timorenses, num descalabro mais do que previsível...enquanto Sócrates espera pelo aval da ONU!!!
Só ajudamos Timor se a ONU nos autorizar!!! E subsidiar!!!
Miserável política, prisioneira das “descolonizações exemplares”, comprometida com o egoísmo, que prefere suicidar-se a emendar o tremendo erro.
Enfiados nesta espécie de recreio infantil, jogamos à bola, e esperamos que os outros, os adultos, cumpram os nossos deveres. Como as criancinhas, quando fazem asneiras, também temos desculpas para tudo!
Os outros, os povos adultos, esses não esperam por autorizações de ninguém quando estão em causa catástrofes anunciadas. Avançam e ajudam.
Dizem que já fomos assim...

quinta-feira, maio 25, 2006

Então, Portugal!?

Estamos à espera de luz verde da ONU!
Luz verde, quererá dizer dinheiro?
Enquanto os outros se antecipam! Outros, que não os colonizadores!
Colonizadores, também responsáveis pela aventura da independência Lorosae!
Mas afinal onde está a solidariedade de quinhentos anos de vida em comum?
Ou será que o Iraque, Afeganistão, ou a Jugoslávia, nos interessam mais?
Mais dinheiro e menos risco, será?
Mercenários da solidariedade, seremos?
Timor fica do outro lado do mundo, eu sei. Soubemos sempre. Mas que diabo, nós é que inventámos aquele ‘problema’! Que não era problema.
Temos que lá ir e depressa, antes que descambe. Ou Timor só serve para ganhar votos e despedidas presidenciais!?

Nem de propósito, quando regresso a casa costumo atravessar a recém inaugurada Avenida Timor Lorosae, ali para os lados do Monte da Caparica. Hoje não se podia passar, estava em obras, vedada ao trânsito! Estranha coincidência!
Fui de volta, e no resto do caminho dei comigo a pensar se não seria mais apropriado mudar-lhe o nome para Avenida Camberra!