sexta-feira, novembro 17, 2006

Manias

Intimado pela ‘Torre a expor intimidades, não fujo ao desafio, com perdas e danos incluídos. O maior risco é perder noiva, outro, não menor, envergonhar amigos. Pois que seja:
Manias, tenho muitas, são mais do que as cinco permitidas, e a maior delas já conhecem – quando vou a qualquer lado, tomo rumo no Restelo! Mas não é para a Índia que sigo, a via marítima tem-se limitado ao barco da Trafaria.
Tenho dificuldade em livrar-me das coisas, e assim vou guardando e arrumando objectos, que estou certo, nunca utilizarei.
Sobre livros, custa-me ultrapassar as primeiras páginas, que vou lendo e relendo, na vã esperança de por esse caminho chegar ao fim!
Fui columbófilo assanhado e enquanto esperava nervosamente o regresso dos pombos, entretinha-me sem querer a trincar a ração dos animais. Para quem não saiba, devemos ter à mão um pouco da mistura de sementes para fazer com que os concursistas entrem rápidamente no pombal, ganhando assim minutos preciosos na classificação.
Sou supersticioso a jogar, seja qual for o jogo, e por aí enredo uma série de coincidências favoráveis ou desfavoráveis. Muitas vezes jogo contra mim e houve tempos em que só me deitava, depois de fazer determinada paciência.
Sonhar, é uma mania como outra qualquer, e eu habituei-me a sonhar.
E pronto, cumpri os mínimos. Mas estou convencido que quem me conhece não terá dificuldades em identificar manias bem piores.
Saudações monárquicas.
Há quem pense que é mania!

Post-scriptum:
- A ‘Torre’, é ‘A Torre de Ramires’, ver link na coluna dos blogs.
- Atendendo à minha solidão blogosférica, não posso nomear subsequentes.

quinta-feira, novembro 16, 2006

Breve

“Não foi para isto que o PS ganhou as eleições”!
Quem o diz é a presidente da Caixa de Previdência dos Jornalistas perante a ameaça do corte de regalias!
Para situar a questão, esclarece-se que a senhora presidente, é a mãe do Ministro Costa, que por sua vez é irmão de outro Costa, o Ricardo, subdirector de informação da SIC. Parece que havia a garantia por parte do ministro da tutela, o amigo Vieira da Silva, que o dito subsistema de Saúde passaria incólume à uniformização em curso! Afinal, não foi possível garantir esse estatuto de excepção e por isso se compreende a reacção indignada da senhora presidente.
Portanto, ficámos a saber que não foi para isto que o PS ganhou as eleições!
Está bem.

quarta-feira, novembro 15, 2006

Eco ponto

Acordei ao som de gemidos.
Veiga, que já foi do Porto e agora já não é do Benfica, o mesmo que passou pelo Estoril, está a contas com um banco do Luxemburgo. Foram-lhe à casa e tiraram-lhe tudo, até o tapete, oiço na telefonia.
Vieira, seu companheiro de armas, não aceita a demissão, gesto honrado que visa poupar o Benfica a algum dissabor. Danos colaterais dizem os entendidos em gramática.
Os jornais da especialidade foram mais uma vez apanhados de surpresa, pois quem acompanhou o assunto em directo foi a TVI, e já se murmura uma cabala contra o Benfica, a nossa Instituição de referência.
Espera-se, esperamos todos, pela onda de fundo, um movimento nacional de desagravo que possa reconduzir o injustiçado Veiga ao lugar que merece. Já se fala em recorrer ao Tribunal Constitucional, pois é para isso que ele serve.
Vamos aguardar com a serenidade possível pelo desaguar dos acontecimentos. Não é preciso puxarem pelo autoclismo, o saneamento básico e a lei da gravidade encarregam-se da ocorrência.

domingo, novembro 12, 2006

Um discurso alternativo

Não há despedimentos para ninguém.
O Estado não é uma empresa, não faz reduções de pessoal ou despedimentos colectivos. Também não pode encerrar ou deslocalizar-se, assim como não deve pensar em sueco ou finlandês porque os portugueses não percebem. Não há aqui demagogia, mas o simples cumprimento de um princípio: quando o Estado se responsabiliza pela admissão de alguém, esse alguém, desde que cumpra, não pode ser atirado pela janela para a terra de ninguém. Seria um absurdo que a entidade que tem como objectivo combater o desemprego, se proponha promovê-lo!
Ainda por cima quando não há supranumerários em Portugal!
Ficámos a saber que temos poucos funcionários públicos no conjunto da população activa – 17,6% – uma das taxas mais baixas da união europeia! Se estão bem dirigidos, se a organização e a eficiência correspondem às exigências, isso é outra coisa.
De qualquer modo, dizem-nos e acreditamos que o Estado está muito gordo, que a despesa é excessiva, que atrapalha o desenvolvimento!
Se o problema é a obesidade, faz-se dieta, e uma boa dieta é o exercício, não é preciso eliminar ninguém!
Há mil maneiras de fazer bacalhau: reduzindo a gordura de alguns salários, impondo tectos, limitando assessorias, bastando para tal acabar com os ministros político-partidários que por não perceberem nada das respectivas pastas, são obrigados a rodearem-se de especialistas para tudo. Neste capítulo parece que batemos recordes na Europa – a Côrte de cada ministro anda em média por 136 pessoas!!!
Quanto às dietas que passam pelo exercício, nada melhor que aproveitar o local e o posto de trabalho!
Mas há mais.
A solidariedade não se decreta, não se impõe pela força, e neste sentido é um erro manter o módulo republicano da guerra civil permanente! Não podemos andar a estabelecer diferenças artificiais entre as pessoas, dividindo e hostilizando aqui para obter ganhos ou popularidade acolá! E no fim esperar uma mobilização geral para o objectivo proposto! Não há milagres na despesa sem a boa vontade de todos os portugueses.
E já que estamos com a mão na massa, uma nova política de admissões na função pública também podia ajudar a reduzir a despesa: em primeiro lugar, acabando com o escândalo da via-verde partidária, fonte de corrupção, despesismo e incompetência; em segundo lugar, valorizando a experiência, sem limite de idade, em futuras admissões. O Estado aproveita quem já provou ser útil no privado, poupa na formação, e contribui para a redução do desemprego, dando uma oportunidade a tantos e tantos portugueses que o mercado deitou fora, como se de lixo se tratasse.
Um bom exemplo de solidariedade e melhor utilização dos impostos.

quinta-feira, novembro 09, 2006

Imagens do Orçamento

Já não é a primeira vez que esta discussão me transporta para o interessante mundo da tauromaquia numa associação de imagens impressionante! Faço-o sem qualquer maldade, no maior respeito pela festa brava e naturalmente pelo orçamento. Mas é irresistível, olho para o hemiciclo e lembro-me do redondel, olho para o orçamento e lembro-me do animal! Bem servido de cornos, visto de longe, tem boa aparência, mas quando a gente se aproxima é uma desilusão! O bicho está aventado, balofo, não tem músculo, aquilo é só gordura. Também é fraco de artelhos, ajoelha ao primeiro capotazo e pior, dá sinais de mansidão. Sonha com as tábuas!
Que fazer? Devolvê-lo aos chiqueiros? Mandar entrar as chocas? Não podemos, a casa está passada, não há um bilhete, o inteligente que dê início à função.
A lide conta-se em poucas linhas:
O maestro e a sua quadrilha brindaram a faena, à banca e a outras instituições de beneficência.
Mas quem levou com as bandarilhas foram os funcionários públicos.
E quem vai pegar o animal somos todos nós!

quarta-feira, novembro 08, 2006

Nuvens de Outono

Hoje tenho a certeza que nenhum holocausto existiu e hei-de sepultar essa verdade comigo. Guardo outras mil certezas impossíveis, impronunciáveis, que me podiam valer o cadafalso. Conheço bem os vencedores da guerra, sei dos heróis que nos contaram, e dos vilões que nos mentiram.
Para quê?
Queimem em todas as bandeiras, a falsa liberdade, a opressão denodada, a raiva nos dentes da hiena. Escondam de mim esses aliados sem vergonha nem fé, que abanam a cauda no silêncio cúmplice.
Vai morrer um homem, um criminoso, um amigo, um monstro, um deus.
Para quem não saiba do que falo, vem no jornal, um tribunal escolheu a vítima ao acaso, mas podias ser tu, descendente rapace que espalhas o ódio com virtude, que trocaste a cara pela tua máscara. Cumpre o teu destino.
E que o sangue dos inocentes esteja sempre contigo.

segunda-feira, novembro 06, 2006

Impróprio

Leio a sentença que pesa sobre a vida de Saddam Hussein – morte por enforcamento.
Depois disto o meu espírito desliza sem querer para a barbárie do nosso tempo, para os julgamentos políticos de Nuremberga, dos oficiais japoneses por terem perdido a guerra, para tantos e tantos actos justiceiros do homem todo-poderoso que tem a arma letal na sua mão, só por isso.
Mais bárbaros que os bárbaros.
‘Ai dos vencidos’ – esta exclamação do gaulês Breno quando recusou aos romanos a clemência que lhe pediam, tinha ainda assim mais nobreza que a frase do presidente americano que se congratula com a decisão do tribunal iraquiano!
Pena de Saddam?
Pena sobretudo dos seus carrascos e de quem compartilha a mesma crueldade.

quarta-feira, novembro 01, 2006

Os passa-culpas

O truque é infantil mas tem surtido efeito porque os incautos são imensos e mordem o isco com tal força que ficam agarrados ao anzol!
Se a vida afinal não se referenda para quê tanta celeuma? Se o estado de direito não é o céu, nem coisa que se pareça, para quê invocá-lo?
Mas se a questão se resume a sentar ou não sentar uma mulher que aborta no banco dos réus, podemos tranquilamente falar sobre isso. Mas nunca colocando no prato da balança a vida de ninguém!
No dia em que isso acontecer, independentemente do número de semanas da criatura, quando a comunidade decidir que os que podem nascer são propriedade de alguém, seja esse alguém, uma pessoa, várias pessoas ou o próprio Estado, nesse dia acabou a maternidade, a palavra mãe deixou de fazer sentido, será mais justo chamar-lhe reprodução assistida.
A partir daqui ficou instituída a lei do mais forte em todas as relações humanas! O critério que permite nascer será o mesmo que permite matar. No caso da vida intra-uterina, depende da vontade dessa nova deusa da procriação – a mulher. Que será omnipotente dentro dos prazos legais!
Se soubesse que a minha vida depende apenas de um acto de generosidade de uma pessoa a quem chamo mãe, o mundo ruiria sobre a minha cabeça. Se soubesse que afinal não faço parte desse transcendente que a maternidade aceitou mediar sem reservas, preenchendo o mistério que me liga ao Criador, então a minha vida e a dos meus semelhantes passaria a ter um valor meramente utilitário.
E agiria em conformidade: o que me agrada ou não me incomoda pode viver; o que me desagrada e me incomoda pode morrer. A fórmula de manifestação desta vontade é indiferente, voto secreto ou braço no ar, sorteio ou roleta russa, fica à escolha de quem detém a força. A fragilidade jamais terá perdão!
Um longo intróito para dizer que não foi a transcendência da vida que se debateu nos ‘prós e contras’ da televisão pública. Ninguém ousou faze-lo!
Nestas condições o debate resvalou inevitavelmente para uma discussão, mais ou menos partidária, de equívocos e mentiras.
A mentira da despenalização não resistiu a uma simples pergunta: e depois das dez semanas, a mulher que aborta vai ou não sentar-se no banco dos réus? E mesmo que a lei institua um crime sem pena, é ou não crime abortar fora do prazo legal?
Mas teria sido importante colocar outras questões aos defensores da liberalização do aborto, por exemplo: Que sinal é que este referendo acaba por transmitir à população? Será um sinal de defesa da vida? De protecção dos mais frágeis? Ou será o império da vontade a ditar a sorte dos indefesos?
O equívoco também atingiu os partidários do ‘não’ quando se recusaram a responder se a defesa da vida intra-uterina inclui ou não os que podem nascer de um acto de violação? A vida de um inocente pode remir o crime da concepção?
Esta pergunta não pode ficar sem resposta.
Termino ditando para a acta uma certeza incómoda e que pode frustrar alguma contabilidade duvidosa: quando há sentimento de culpa, o aborto é sempre clandestino. Não depende da lei, do dinheiro ou da eficiência da clínica.
.
Post Scriptum: Publicado também no blog colectivo - "Pela Vida".

segunda-feira, outubro 30, 2006

Assim vai o mundo

Lula ganhou a segunda volta das eleições e mantém-se como Presidente da República do Brasil. A vitória, incontestável, dividiu mais uma vez o país em duas partes, tantas quantos os candidatos, ou seja, em cada dez brasileiros que votaram, seis apostam no Lula, e quatro gostam mais do candidato com nome difícil.
A divisão estende-se ao próprio território, pois sabemos que o Nordeste votou maioritáriamente no tucano, enquanto que Lula obteve a maioria dos votos na região onde nasceu.
No seu discurso, o vencedor dividiu a população entre mais carenciados e menos carenciados, prometendo mais atenção aos primeiros.
Finalmente e para que tudo acabe em beleza, as previsões indicam que os brasileiros vão continuar a emigrar para a Europa e Estados Unidos em busca de melhores condições de vida!

No Iraque, a violência prossegue, abrindo caminho para a democracia! Uma bomba rebentou ontem em Sadr City vitimando cerca de sessenta pessoas e ferindo mais de uma centena. A origem do atentado não se conhece mas os iraquianos não têm dúvidas – a culpa é dos invasores americanos.

Em França, os ‘jovens’, insatisfeitos com ‘não se sabe bem o quê’, continuam a incendiar viaturas e a assassinar pessoas inocentes. O primeiro-ministro francês, que gosta de comemorar a tomada da Bastilha, ameaça agora prender todos os que prosseguirem com estes actos criminosos.

A Europa sitiada de Durão Barroso, quer uniformizar o mercado da energia, única maneira, disse, de fazer frente aos sitiantes.

Em Portugal, o Belenenses ganhou na Vila das Aves aproximando-se assim dos clubes da segunda circular, que por sua vez não foram felizes nas respectivas deslocações. Assinale-se que no jogo das Antas, o brasileiro Andersson fracturou o perónio, vítima de uma entrada muito dura do benfiquista Katsouranis, lance que não foi sancionado pelo árbitro e que a comunicação social se encarregou de escamotear!

quinta-feira, outubro 26, 2006

Sócrates, esse desconhecido!

Não existem razões para duvidarmos de Sócrates.
Sócrates é um cidadão honrado, não faz mais porque não pode, não devemos ser injustos para com este homem.
Confesso que desconfiei da sua eleição, imaginei um enorme biombo articulado, capaz de esconder vários processos judiciais incómodos para o regime. A composição do governo não me sossegou, vi os amigos do injustiçado Ferro, vi os rostos das escutas!
Mas Sócrates é por certo um homem honrado e animou-me com a promessa dos alka seltzers fora das farmácias, frustrando assim esta azia duradoura!
Tem sido infeliz na propaganda, e porque a realidade é feroz, as más notícias chegam todos os dias a casa dos portugueses: nas reformas sobe a idade e não o valor; as taxas moderadoras renascem; a electricidade é práticamente um imposto; as ‘scuts’, afinal, pagam portagem; o programa eleitoral não é bem assim; etc. etc.
Mas Sócrates é por certo um homem honrado.
É ele o engenheiro-chefe ou arquitecto deste promissor país de emigrantes e imigrantes!
Portugal está na moda – não há africano, ucraniano ou sul-americano que não nos procure, e com eles, vem o necessário investimento em segurança, saúde, habitação, mais subsídios, mais etc. e etc.
É o que podemos chamar uma imigração de incentivos – que nos obriga a gastar, sem destino ou fim à vista! E como os portugueses não conseguem viver com os salários que pagam a estes imigrantes de luxo, lá teremos que continuar a emigrar para países mais desenvolvidos que o nosso!
É uma verdadeira transfusão populacional, último grito em modernidade e bem-estar, o milagre do pleno emprego, os imigrantes para cá e os portugueses para lá!
Mas Sócrates é um homem honrado e nesse sentido já fez aprovar legislação que nos coloca entre os países mais evoluídos do mundo – refiro-me às salas de chuto, onde o estado português se propõe ajudar os dependentes a permanecerem dependentes!
E para quem o acusa de proteger a imagem, ei-lo que dá sinais de vida para anunciar o empenhamento pessoal na próxima campanha pelo ‘sim’ ao aborto!
Fica claro que ninguém pode, em consciência, duvidar dos propósitos de Sócrates!
Por isso, portugueses, a pergunta é simples – o que fazemos com este homem que apenas se engana e nos engana?
Vamos continuar a sustentar as suas manhas, a astúcia com que se esconde da verdade, a propaganda com que assola os justos?
A decisão é vossa.

terça-feira, outubro 24, 2006

A factura

A factura de electricidade que aterrorizou o país veio à televisão falar com Fátima. Usa barba, é uma sumidade, e afinal é amigo do consumidor!
Explicou que só representa 25% do total da factura e que o grosso da coluna diz respeito à produção (65%), valor inelutável porque assente em contrato com o Estado.
Também ficámos a saber que os restantes 10% nada têm a ver com os custos da electricidade! São verbas para benefício de várias entidades, como câmaras municipais, energias renováveis, algumas rubricas difíceis de descodificar, até a taxa de televisão lá foi parar!
Para que tudo ficasse mais claro, o Deco de serviço ainda confirmou que estes ‘subsídios’, que saem directamente do bolso do consumidor doméstico, têm vindo a agravar-se nos últimos tempos!
Estou esclarecido, mas Fátima não. A cada intervenção só se lembrava da calote antárctica a derreter e da imperiosa necessidade de pouparmos electricidade! Mas para quê, se mais de 75% da factura é independente do consumo final!
Ou seja, por mais que eu poupe, a factura aumenta sempre!
Foi neste estado de espírito que resolvi poupar-me poupando energia. Desliguei a televisão.

domingo, outubro 22, 2006

O véu socialista

Nada tenho contra o véu islâmico, respeito, gosto de ver, ou seja, de não ver, o mistério que ele encerra sempre me fascinou! Também não quero integrar ninguém pelos meus hábitos, esperando apenas a reciprocidade de não me obrigarem a usar turbante. Aliás, integrar, para mim, significa aceitar o outro, não própriamente obrigar o outro.
Feito o intróito analisemos a mistificação socialista, serapilheira a fingir de véu, serradura para os meus olhos, que recomeçou com esta lei agora aprovada sobre a “interrupção voluntária da gravidez” até às dez semanas. Reparem que escrevi ‘ivg’ e não aborto, porque a sociedade infantil e mal-educada que estamos a construir, é muito sensível!
Eu é que continuo pouco disponível para enfiar barretes! Vou enfiando alguns mas nada de exageros.
Passando ao largo de outras questões, sem dúvida importantes, vejamos o que se esconde sob ‘o manto diáfano da fantasia’:
Não foi por acaso que o ministro Correia de Campos veio a público dizer que o Serviço Nacional de Saúde estava preparado para responder às consequências da lei! Isto deve significar que já não existem doentes em listas de espera para intervenções cirúrgicas, e sendo assim as tais ‘gravidezes indesejadas’ podem então ocupar os hospitais públicos ou subsidiados para corresponderem aos pedidos de ‘ivg’! A gravidez ainda não é uma doença, para lá caminhamos, mas enquanto não for, santa paciência, não quero acreditar que um verdadeiro doente possa continuar em fila de espera enquanto se fazem abortos pagos por todos os contribuintes!
Mas, o véu de serapilheira esconde ainda outra manobra real:
Não é também por acaso que já se fala em alterar o código deontológico dos médicos, por certo para eliminar um último obstáculo à consumação do aborto legal – refiro-me naturalmente à ‘objecção de consciência’ que hoje protege os médicos de praticarem homicídios contra a sua vontade. Está por certo na forja um novo conceito de “acto médico” que assim inviabilize qualquer recusa em realizar intervenções cirúrgicas, que por serem legais, passam a condicionar o citado código deontológico.
Palpita-me que o próximo referendo é só mais um passo. Uma coisa é certa, estes camaradas laicos, republicanos e socialistas que gostamos de eleger vão continuar a violentar a nossa consciência.

sexta-feira, outubro 20, 2006

Doce canto furibundo

Doce canto furibundo, desta noite sem luar, és capaz de ser poeta, leva o canto até ao mar...
Do mar venho eu, quem pode ser arrais de tal embarcação!
Ponho o pé em terra e logo sou assaltado – sinto a mão pesada no meu bolso leve, grito, não é ninguém, se protesto ainda oiço – é para teu bem!
Triste sina, negro fado, deste canto furibundo, és capaz de ser poeta, leva o canto até ao fundo...
No fundo estou eu, quem me acode!
Puseram ontem um cavalo na cidade, um cavalo de pau, nada de novo.
De lá saíram como antigamente um grego e um cartaginês. Aníbal estava hirto e tisnado pelo sol. O grego era Sócrates mas não era filósofo.
Cavaqueavam.
O que combinaram não sei, ficou no segredo dos deuses. O grego parecia determinado e tomou rapidamente conta da situação. O truque, o mesmo de sempre: trazia um ramo de oliveira numa das mãos e uma boina na outra. Prometeu um chouriço a quem lhe desse um porco e a população, conformada, aceitou!
Aníbal ainda ajudou, deu uma volta com a boina e satisfeito acenou.
Doce canto furibundo, minha rosa sem jardim, és capaz de ser poeta, leva a cruz até ao fim...
Mas que mal fiz eu ao mundo para merecer sorte assim!

quinta-feira, outubro 19, 2006

“O Aborto”

“Aproximando-se uma nova consulta popular sobre a liberalização do aborto, importa a este jornal tomar uma posição sobre a matéria. Que só pode ser uma – opor-se a toda a forma de violação do Quinto Mandamento: não matarás.
Mas impõe-se também que como seu Director eu aqui especifique e fundamente a orientação que nesta matéria, imprimo no jornal.

O Senhor Cardeal Patriarca de Lisboa disse, há dias, que este referendum “não é um problema religioso”.
E não é. Os problemas religiosos dirimem-se entre a consciência do crente e o seu Deus. Não em diplomas legais ou consultas populares.
Assim, a legalização do aborto é um problema de cidadania a resolver num Estado Laico. Mas sendo esse estado laico formado por milhões de cidadãos cristãos, natural é que estes projectem nas suas opções de voto uma idiossincrasia que tem como intocável o valor da vida humana. São opções pessoais que não se podem confundir com intromissões do plano religioso com o plano pessoal.

Filho e produto da chamada cultura ocidental de raiz greco-latina (caldeada, é certo por uma transmissão judaico-cristã), assumo orgulhosamente todas as conquistas da civilização resultante dessa cultura, nomeadamente o direito à vida, a defesa dos mais fracos e dos sem voz e uma concepção de Estado defensor destes valores e seu porta-voz.
Por isso sou contra a morte de seres humanos. Estejam eles onde estiverem: dentro ou fora do ventre materno ou (por maioria de razão) comprovadamente inocentes, como são todos os nascituros. Por razões culturais e não confessionais.

Quero eu dizer com isto e para que tudo fique claro:
Se, por absurdo, a Igreja permitisse o aborto, eu continuaria, em nome da cultura e da civilização ocidental, a considerá-lo um homicídio de inocentes indefesos. E a pugnar para que o Estado de que sou cidadão (e não hóspede) assegure a sua defesa e impeça os atentados. Não é a punição dos culpados que me move. É a defesa dos inocentes e dos indefesos.

Por isso vou abrir as páginas deste jornal às pessoas que – com estas ou outras razões – entendem que o aborto é homicídio. Mas vamos parar de dizer que esta questão é religiosa”.

Com a devida vénia – Jornal “A Ordem” de 19/10/06
M. Moura Pacheco – Director

quarta-feira, outubro 18, 2006

Lições de unidade

“A formação do Estado Imperial Brasileiro remete à colonização portuguesa que diferentemente da colonização do seu vizinho ibérico, une numa só nação todas as capitanias gerais. Em 1825, o Brasil, não mais uma colónia, conta com 18 províncias, as quais, após o desfecho da Confederação do Equador, compõem um único país. Em oposição, a colónia espanhola possui à época quatro vice-reinados e quatro capitanias gerais, que se transformam, ainda no século XIX, em 17 países independentes entre si”.

Um excerto lido ao acaso sobre a formação da grande nação brasileira, que me fez lembrar um dia da independência:
Celebrávamos o 1º de Dezembro num jantar de ‘conjurados’ e já no fim, na hora dos discursos, o deputado brasileiro Cunha Bueno, que tinha sido convidado para o evento, quis falar e virando-se para o Duque de Bragança ali presente, agradeceu ao Rei D. João VI, seu trisavô, a unidade e grandeza do Brasil! Uma lição de história que não esqueço.
Nesta hora em que mais uma vez se joga o destino daquele grande país, só me ocorre repetir o que peço para Portugal:
Deus guarde o Brasil.

segunda-feira, outubro 16, 2006

Lusofonia da crise

Decorrem em Macau os Jogos da Lusofonia.
Passaram trinta anos sobre a revolução de Abril e subsequente descolonização!
Que sentimentos estamos a viver? São bons ou são maus?
Lusofonia é bom mas é curto.
O que se vive em Macau é mais do que lusofonia, ali a maioria dos habitantes não fala português, mas talvez subsista o laço da convivência secular. Essa convivência é que permitiu a realização dos jogos.
Os jogos não fabricam lusofonia, a convivência sim.
A convivência tem por base um destino comum, uma qualquer convergência de interesses, interesses diversos assentes numa garantia de perenidade.
Sabemos quem garantiu essa convergência no passado, foi a Instituição Real.
Quem pode hoje dar essa garantia?
Saudações monárquicas.

quarta-feira, outubro 11, 2006

Dúvida fatal

Estou de facto indeciso sobre o tema!
Temos os discursos da corrupção na tomada de posse do Procurador. Temos o ataque à Madeira. Temos uma série de coisas sem importância!
Também podia estar quieto, não escrever nada, poupava-se tempo e paciência, mas fui apanhado em falso.
Ouvi aquilo outra vez, a pergunta fatal: então meninos quem foi o maior português de todos os tempos?! Traduzi para o melhor, porque à primeira vista, não me pareceu uma questão de centímetros.
Era o som familiar da sociedade recreativa dos comemorativos, era a primordial impotência que se apresta para mais um concurso da televisão! São os nossos óscares e não fazemos a coisa por menos – vale tudo, desde o Afonso Henriques até ao Sócrates português. Também valem os naturalizados, como por exemplo o Obikvelu. Se não estiver bem escrito não faz mal.
O tema tem de ser este.
O que me faz espécie, é a ideia em si, de onde terá partido, o que pretende obter! Será uma ingenuidade, uma parvoíce, ou querem embalsamar algum contemporâneo! Ou será simplesmente mais uma manifestação de nacionalismo bacoco!
Preciso de investigar e começo por uma hipótese: os autores de tão estupenda ideia devem ter em mente um arquétipo de qual seria o português ideal, e esse perfil não se pode afastar muito dos seus heróis do quotidiano.
Podemos imaginar: - o género não interessa, masculino ou feminino desde que não seja convicto; há-de votar pelo aborto; será laico e republicano; mora no bloco central; é democrata desde pequenino; europeu até à medula; divorciado ou mãe solteira; benfica ou sporting; etc. e etc.
Se não me enganei, podemos eliminar oito séculos de história, para fixarmos a nossa atenção nos vultos da república!
Mário Soares ou Maria Elisa?
Amália Rodrigues era católica e do Belenenses, não serve.
Afonso Costa é grande candidato e responde práticamente a todos itens! Só não sei se era divorciado!
Mas pode acontecer uma surpresa contra curricular, e então talvez ganhe Salazar.
Convenhamos que face à concorrência não é difícil.
Saudações monárquicas.

sexta-feira, outubro 06, 2006

A república de Cavaco

Bem, antes de começarmos, diz-me lá uma coisa, votaste no homem? Sim, tu que te dizes monárquico ou pelo menos, dás a entender que não és completamente jacobino, responde, votaste no homem?
O melhor é não dizeres nada, já chega de desgraças! Olha, a única consolação que tiro deste cinco de Outubro, sabes qual é?! Ainda não envelheci o suficiente para não me irritar, para não me apetecer atirar com o apara-lápis contra a televisão, afinal sou novo, estou vivo, agradeço a esta república de imbecis (e mentirosos), este súbito e periódico rejuvenescimento!
E a ignorância! Meu Deus, incomensurável, maior que a palavra! E o Cavaco sentadinho cá fora, no Largo da Câmara, mais republicano que os republicanos, no trono, à espera de adesão popular que felizmente não aconteceu. Valha-nos isso, a população está intoxicada mas já não ressaca.
Pode alguém fazer-me o encarecido favor de levar uns recados para o professor de Boliqueime? É por bem.
Então é assim, na expressão feliz da nossa ignorância:
A um maçon assumido como Soares, ou encapotado como tantos outros, admitimos que goste de celebrar a republica como forma de justificar erros passados, afinal, tem as suas referências na carbonária, no regicídio, nas perseguições à Igreja Católica, o ídolo é Afonso Costa, a média são três governos por ano, equivalentes a outros tantos golpes ou revoluções, etc.etc!
Mas com franqueza, quanto mais não seja por respeito à sua base eleitoral de apoio, convinha que o professor Cavaco fosse mais discreto e sobretudo mais inteligente. O senhor quer ser o presidente de todos os portugueses e ontem passou o dia a criar divisões, a insultar a memória de muitos de cuja herança se vangloria! É um contra senso, e o senhor ainda não percebeu.
Não percebeu que quando comemora a vitória da república sobre a monarquia, para além do acto absurdo de estar a celebrar uma guerra civil, não percebeu que está a transmitir a mensagem que o regime monárquico foi mau para os portugueses! Não acha que isso corresponde a uma tremenda estupidez, o que era o menos, se não tivesse consequências deseducativas sobre a população, muito em especial sobre os mais jovens, hoje, cada vez mais arredados da política!
Então Portugal não se fez em monarquia? O senhor que é professor, não pode dar de si próprio uma imagem tão infeliz! Os portugueses esperam de si esclarecimento, nunca confusão, ainda menos propaganda enganosa.
O que poderia então ter feito?
O regime republicano tem defensores e argumentos, o senhor pode naturalmente ser republicano e uma vez empossado na chefia de Estado também pode, com toda a frontalidade, exprimir a convicção de que neste momento, a república, é o regime que melhor serve os interesses de Portugal. O que não pode é participar em festins comemorativos de uma das repúblicas, a primeira; ignorar a segunda por conveniência de serviço; e tudo isto, com o ar triunfal de quem tem as quotas em dia, da terceira. Isso não pode, nem deve.
Porquê?
Porque se esqueceu da minha representação e porque Portugal não começou em 1910. Mas pode acabar, se continuar assim.
Saudações monárquicas.

Notícias do Condado

Aqui, na região autónoma portucalense, está tudo bem.
O projecto, iniciado no dia 5 de Outubro de 1910, tem vindo a cumprir todas as etapas previstas e quando faltam apenas quatro anos para o centenário, podemos afirmar com segurança, e porque não, com alguma satisfação, que o objectivo final será alcançado em pleno!
Não vos vou maçar com detalhes mas recordar apenas as linhas mestras que nortearam tão brilhante tarefa:
Eliminado o Rei, como calculam o grande obstáculo ao desenvolvimento do projecto, foi então relativamente fácil descaracterizar a população, retirando-lhe referências, até entrar num processo irreversível de perda de identidade.
Houve resistências compreensíveis que tiveram o apoio de forças retrógradas como a Igreja Católica, houve também a necessidade de refrear algumas reformas durante a ditadura, mas nunca tivemos dúvidas sobre a certeza do caminho traçado.
Hoje, e é para isso que quero chamar a vossa atenção, resolvida a questão colonial, e sujeitos aos beneficios de Bruxelas, conseguimos finalmente o efeito redutor que sempre desejámos, ou seja, estamos reduzidos à nossa expressão mais simples! É com isso que nos devemos regozijar, juntando a nossa voz à voz daqueles portugueses, e já são muitos, que querem ser espanhóis!
E pasmem, ironia das ironias, não se importam de ser monárquicos desde que o próximo Rei se chame Filipe!
Viva a república.

quarta-feira, outubro 04, 2006

A Mónica arrependida

Aquilo era um ritual para além do ordinário da Missa! No adro da Igreja de São Mamede esperávamos a saída das ‘Mónicas’, e lá vinham aquelas miúdas giríssimas, sempre acompanhadas pelos pais, ele, um senhor distinto, a mãe, uma senhora linda! Era um momento para ver passar a beleza.
Passaram mil anos e estou a ver uma delas na televisão. Está a confessar-se! Ou estará a justificar-se?
Penso que entrou decididamente nessa fase da vida em que a lucidez vai tomando conta dos nossos erros, vai desarrumando umas coisas que pareciam arrumadas e vice-versa. É natural.
Mas ainda hesita, não consegue assumir as suas origens, ainda tem vergonha de alguma coisa e por isso expulsa demónios com endereço errado!
Sem saber, este produto do Salazarismo, critica Salazar onde o ditador acerta! Sabemos hoje que quis contrariar o sistema mas que teve medo de perder o poder nessa guerra. Filomena Mónica não percebeu. Aliás, na crítica generalizada que faz a Portugal e aos portugueses denuncia as más companhias! Assemelha-se aos intelectuais queirosianos que diziam mal de tudo e de todos! Que também tinham vergonha das suas origens. E como praticavam a inacção, ai de quem se atrevesse a fazer alguma coisa.
Esta filha de Rousseau, escreveu ‘Os filhos de Rousseau’, uma crítica à educação de Abril, como já tinha criticado a educação do Estado Novo! Não percebeu que somos todos jacobinos, e por causa disso, a direita e a esquerda não se distinguem. Também por isso somos todos republicanos. A Filomena Mónica também é.
Fica provado que a beleza não chega para superar complexos.
Mas haja esperança, é uma pessoa inteligente, e vai por certo vencer os desafios que ainda a atormentam, o maior dos quais nunca conseguiu disfarçar naquela espécie de monólogo – a reconciliação com a Igreja Católica, de que faz parte, como eu próprio testemunhei na minha juventude.

segunda-feira, outubro 02, 2006

Meu Brasil, brasileiro...

“Uma vez mais o povo brasileiro é chamado a tomar decisões que irão afectar de forma crucial a vida do país...”, releio num ‘guia’ do plebiscito que em 21 de Abril de 1993 decidiu pela permanência da república contra as expectativas da monarquia.
Escolheu, está escolhido, não há lugar para lamentações, apenas uma crítica ás perguntas então feitas, que confundiram, mais que esclareceram os eleitores!
Lembrei-me deste acontecimento porque sou monárquico, porque estou convencido que os brasileiros perderam aí uma oportunidade de ouro para acertarem contas com a história, para se tornarem de novo um país de topo no concerto das nações, como aconteceu no tempo de D. Pedro de Alcântara, o seu último imperador.
Hoje há eleições no Brasil, eleições que provávelmente não irão decidir absolutamente nada: ganhe um ou outro dos candidatos, o Brasil vai continuar a ser um país com ouro, petróleo e outras matérias-primas essenciais; com espaço imenso e um enorme potencial de desenvolvimento, mas os brasileiros vão continuar a ter que emigrar; as gritantes desigualdades sociais vão acentuar-se também; a insegurança e a violência, não vão diminuir!
Estas são certezas que se abrigam no íntimo de cada eleitor!
Por isso daqui de Portugal te lanço o desafio:
Acorda Brasil, puxa pela memória, afasta a propaganda enganosa, regressa à tua tradição monárquica. Precisas de um símbolo de unidade, um árbitro acima das facções, que bem poderia ser o Rei de Portugal se ele existisse, (se Portugal existisse!), mas não existindo, escolhe um Príncipe do Grão-Pará na Casa de Vassouras ou na de Petrópolis, e prepara então esse jovem para as futuras tarefas da Chefia de Estado.
Se o fizeres Brasil, verás que o futuro será brasileiro.

quinta-feira, setembro 28, 2006

28 de Setembro contra o inevitável!

A história é escrita pelos vencedores que uma vez chegados ao poder justificam o lance com a inevitabilidade dos acontecimentos! A ideia é perigosa e pretende fazer crer que o dia de amanhã será sempre melhor que o de ontem! Assim, e no limite, só para citar dois exemplos, a bomba de Hiroshima tornou-se inevitável e a invasão do Iraque também! E o mundo ficou melhor, conclui o mesmo raciocínio!
Contra esta lógica, contra os chamados ‘ventos da história’, se rebelaram num dia 28 de Setembro de 1974 muitos portugueses, a maior parte eram jovens, que não queriam abdicar do sonho de um Portugal ultramarino. Por serem jovens não pensavam em si, sentiam-se responsáveis pelas populações africanas, temiam uma catástrofe. Só isso.
Foram a jogo e perderam.
Ganharam os que hoje se sentam no Parlamento, os que ocupam as magistraturas, os que ao longo de trinta anos se instalaram em Belém.
O mar foi trocado por Bruxelas; as inevitáveis guerras civis aconteceram em todos os territórios que administrámos durante séculos; e até naqueles, como Timor, onde não existia a sombra de qualquer conflito, conseguiram os vencedores de Setembro de 74, ali semear a guerra e a discórdia!
África é hoje um continente assolado pela fome e pela destruição...sem fim à vista! As populações que foram enganadas, ou pura e simplesmente obrigadas a aceitar as ‘actuais independências’, abandonam o continente em massa, arriscando a morte na viagem!
Era também contra isto que aqueles jovens se manifestavam, agrupando-se para o efeito em pequenos partidos de que hoje poucos se lembram, que o tempo injustamente esqueceu.
Nada tenho contra o desenvolvimento, contra a verdadeira independência, mas pergunto, se era este o inevitável desfecho daquele dia em que lutámos contra o ‘inevitável’!

terça-feira, setembro 26, 2006

Portugal – Espanha

Começaram os jogos ibéricos!
O primeiro a entrar em campo foi Sócrates protagonizando em Madrid um confronto de estilos entre a moda italiana do corte e costura e a mesma linha, mas sem costura, de Zapatero. Um empate.
Preparado o terreno foi então a vez de Cavaco.
Uma deslocação difícil à vizinha Espanha, sem corda ao pescoço porque desnecessária, mas em comitiva comercial com o objectivo de surpreender a Dinastia dos Bourbon, com um GPS português!
E de que serve ao Rei um GPS, perguntam Vocês! Não faço a mínima ideia, mas sempre deu para mostrar que pode contar com a região autónoma portucalense na área das tecnologias de ponta.
Os jogos prosseguiram ontem à noite com a visita do antigo primeiro-ministro das Espanhas, José Maria Aznar, que revelou estar em magnífica forma! Devolveu com grande á vontade todas as bolas que a nossa Fátima lhe atirou. Relatemos alguns dos lances mais emocionantes:
- Depois de repetir o que todos sabemos, que governou a Espanha como se mais ninguém existisse na Ibéria, porque de facto não existia, Aznar deixou no ar a ideia de que essa política era para continuar, e independente do sono profundo em que jaz o vizinho do lado. O Atlântico (e arredores) é ou vai ser espanhol!
- Respondeu Portugal por intermédio de Ernãni Lopes explicando isso mesmo: se não valorizarmos de imediato as vantagens específicas que a História nos legou, estaremos condenados a servir de passadeira aos interesses estratégicos de nuestros hermanos, em terras de África e de Vera Cruz. E viva o velho!
A plateia agitou-se. Estavam lá quase todos os responsáveis pela divergência que todos os dias se acentua, estavam bem dispostos e nutridos, vê-se que a vida lhes tem corrido bem.
O resto do encontro foi irrelevante desde que se percebeu que a diferença entre o avanço espanhol e o atraso português, era uma questão de regime, mas que não se podia dizer isso!
Já no prolongamento, houve um último momento de excitação na plateia: Fátima divulgou o resultado de um inquérito que afirmava que 27% dos inquiridos admitiam que era melhor sermos todos espanhóis.
Os jogos prosseguem em Almeirim em data a definir.

quarta-feira, setembro 20, 2006

Na estrada real

“Mas o Rei está apenas oculto, na ilha de encantos que é cada um de nós, e espera que a ele nos submetamos para que surja e salve; basta que acorde na alma de um de nós, para que também desperte nas almas que se perdem de tristeza e de dó pelas aldeias da Península, pela savanas de África, pelos palmares da Índia, pelas favelas de Paris ou pelas avenidas da Alemanha. Basta que num se erga; o Povo é ele e dele. Forças nenhumas se lhe poderão opor se ele próprio não provocar a batalha e se toda a sua coragem se concentrar, não em agredir, mas em se afirmar e em ser pacientemente, mas sem concessões, persistentemente, mas sem dureza, todo na tarefa, mas sem interesse seu, o guia que se espera, heróico e lúcido, ousado e calmo, aventureiro e lento. Todos em el-rei, el-rei em todos; e sem Rei nenhum, que o não precisamos para nada, pois o Rei o somos”.

Agostinho da Silva, in ‘Ensaios sobre Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira I’.
(Lido no - “Viva a República! Viva o Rei!”, de Tereza Sabugosa)

terça-feira, setembro 19, 2006

Postal de Setembro

Falavas da primavera sem saber, no tom dos teus olhos azulados, nas certezas impossíveis, na juventude da tua boca expressiva, nos dentes brancos do teu sorriso, mas querias dizer outra coisa que só eu ouvi no silêncio das palavras inocentes!
É assim...disseste, e não era assim concerteza.

Que sabes tu da primavera, da marcha inexorável do tempo, do fim do amor!
O que sabes desta estação descendente, que desce sem apelo nem agravo!

Mas o que interessa isso agora!

Coração ao alto, vou nascer amanhã, quem viver verá, no provérbio certeiro, na frase batida, a escrita fingida... de um sentir verdadeiro.

domingo, setembro 17, 2006

O fim de um princípio

O Sumo Pontífice deve representar a concórdia e a paz universal, é esse um princípio do Cristianismo, que os homens tentam prosseguir no sobressalto dos séculos.
Uma Paz Justa.
Por isso Bento XVI veio explicar o sentido das suas palavras quando evocou um episódio antigo, ocorrido em Bizâncio, onde o Imperador Manuel II, da dinastia dos Paleólogos, criticava a ‘conversão pela espada’.
Nada mais do que isto e logo se levantaram clamores do lado do Islão exigindo desculpas e retratações! Ridículas e encomendadas, por certo.
Já hoje, e a seguir à intervenção de Sua Santidade, desfeito o equívoco, a Irmandade Muçulmana do Egipto apressou-se a encerrar o assunto aceitando as explicações do Papa.
No entanto, penso que podemos tirar duas ilacções deste acontecimento:
Em primeiro lugar, uma clara advertência da Igreja Católica ao mundo muçulmano, repetindo que não aceita a violência como método, nem a conversão por esse método.
Em segundo lugar, e sossegando esse mesmo mundo muçulmano, repete também a necessidade de combater o ateísmo ocidental, com todas as suas consequências.
Afinal, a verdadeira Cruzada apostólica que Bento XVI definiu como prioridade do seu Pontificado.
Ámen.

quinta-feira, setembro 14, 2006

Governo ou semi-reboque?

Administrar é prever, dizia o professor numa aula qualquer da minha juventude. E prosseguia, um bom governo deve antecipar-se à crise, mas se ela inadvertidamente chegar, tem que ser firme e resoluto.
São recordações pessoais, nada disto tem a ver com o Governo que temos.
O primeiro-ministro ganhou esporas por ser teimoso (alguns viram ali firmeza), quando foi ministro do ambiente, mas onde verdadeiramente se notabilizou, usando com mestria o poder da televisão, foi como comentador benfiquista. Aliás, as relações entre o futebol e a política, melhor, entre tudo aquilo que gira à volta do futebol e tudo aquilo que gira á volta da política, não podem escapar ao conhecimento do engenheiro Sócrates na medida em que esteve no centro da candidatura de Portugal ao Euro 2004.
É para além disso, um confesso adepto do Benfica e a sua pública declaração de interesses, pouco mais regista que uma série de acções do mesmo clube!
Isto não envolve qualquer suspeita mas a constatação de um facto: o nosso primeiro-ministro não pode alegar ignorância do fenómeno nem dos seus perceptíveis contornos ou desvios e por isso estranha-se que só agora, com a casa arrombada, apareça a tomar medidas num frenesim tão evidente quanto disparatado!
Descobriu o Governo alguma coisa de novo? Não eram do seu conhecimento e do seu interesse, os fortes indícios de corrupção que todos admitem existir à volta de uma actividade que movimenta milhões, que serve de biombo para traficar tudo e mais alguma coisa!
Foi então apanhado de surpresa!?
E agora, perante reveladoras escutas telefónicas, face à evidência dos factos, o que tenciona fazer?
Fazer mais leis? Acabar com as escutas, afinal para muitos, o verdadeiro busílis do problema?! Proibir os magistrados de fazerem parte de associações de mau porte?
Ou será que estamos na presença, mais uma vez, da ponta do iceberg, onde a corrupção desportiva aparece como a má da fita, quando a outra, a que está por baixo e bem escondida, é muito maior!
Não adianta fazer pactos, mudar leis ou proibir pessoas, é preciso corrigir o sistema que perpetua situações para além do que é admissível. É preciso indagar como se escolhem as pessoas para os cargos e não andar à procura de virtudes e defeitos nas mesmas pessoas.
Chega de propaganda.
Não existe gente séria, quando o regime não é sério. E se existir, afasta-se, não participa em jogos sujos.
Estou a falar da política, não estou a falar de futebol.

quarta-feira, setembro 13, 2006

Levanta-te e chora

Um país, se quiserem, um regime, quando chega à fase das anedotas por atacado, diz-me a lembrança, que está vazio por dentro e por fora, esgotou-se. Mas não é bem disso que quero falar, o que me anda a incomodar ‘long time ago’, são aqueles bonequinhos da ‘contra – informação’, um sucesso piadético da nossa praça, mas que a mim não me enganam.
Pronto, ‘eu sei que sou chato, que este meu samba é mesmo muito chato’, riam à vontade com os bonecos, desliguem o blog, divirtam-se!
Que eu não deixo de protestar.
Isto aqui chama-se ‘interregno’, para quem não perceba, é um espaço de oposição a este regime decadente e estúpido, que nos empobrece, que nos esvazia a memória, em suma, que nos infantiliza. Há quem não dê importância a isso, eu dou.
Voltando aos bonecos afirmo: estão ao serviço da situação, branqueiam, limpam aqui, sujam além, utilizam o nacional-porreirismo para inocentar este e aquele, nunca criticam o governo, nunca criticam verdadeiramente o compadrio reinante.
Exemplo:
Que dizer do prosseguimento da bonecada com os falsificadores de resultados, Valentim e companhia, senão um claro intuito de banalizar a batota e os batoteiros! Que mensagem transmitem para fora?
Normalidade de condutas! Pouca gravidade dos factos! Sim, porque estamos a falar de factos comprovados em escutas telefónicas autorizadas.
O que pretende o canal público de televisão com esta farsa?
Aceito que deve provocar gargalhadas alvares a muita gente, mas não podemos deixar de considerar como uma tentativa para esvaziar o conceito de delito que está indiscutivelmente presente nos factos que têm vindo a público!
O exemplo está dado e termino: o humor verdadeiramente crítico não funciona assim, tem outras asas e outras premissas.
Isto é o nacional-porreirismo no seu melhor...e sem qualquer graça.

terça-feira, setembro 12, 2006

Virar de página

Estamos mal, vivemos cada vez pior, a propaganda não chega para as necessidades da população. As pessoas evitam olhar a realidade de frente, fingem que não percebem que o futuro é uma parede fechada – não há passagem! Refugiamo-nos nas prateleiras do supermercado, nas viagens de sonho, nos pequenos nadas transformados em momentos de glória.

A crise de valores existe por toda a parte, é certo, a sociedade securitária confirma que a vida humana não vale um vintém!
Onde é que nos perdemos?
O senhor da terra apareceu na televisão a explicar que está a construir um novo ‘gulag’! Absolutamente necessário, disse. Os argumentos são convincentes – os terroristas existem e reproduzem-se, o que é que podemos fazer!? Não posso adiantar mais nada.
Segredo de justiça.

sábado, setembro 09, 2006

O Pacto Mateus

Mateus, jogador de futebol angolano, contínuo amador nas horas vagas, mal sabias tu que serias o responsável pelo fulminante ‘pacto de silêncio’ que PS e PSD resolveram celebrar, com o louvável intuito de distrair a opinião pública e fingir que algo vai mudar na republica dos compadres.
Estás a ver Mateus, porque é que és tão importante!? Na tua ingenuidade, diz-me lá uma coisa – que País é que aguenta, que Governo é que tem estômago para assistir impávido à permanente notícia de que Portugal é um palco de batota, com direito a desmentidos que são autênticas confissões de fraude organizada, um espectáculo transmitido em directo pela televisão, a bater recordes de audiência!
Tens que admitir que era preciso acabar com a tua novela (e a do apito ressuscitado) para dar um cheirinho de seriedade a tudo isto.
É claro que ‘isto’ não é fácil de compreender e digerir por quem tenha a memória a funcionar. Tu não te lembras, Mateus, mas este ‘pacto de justiça’ era uma velha ambição dos políticos, incomodados com as escutas e a possibilidade, felizmente evitada a tempo, de poderem ser incomodados pela justiça. Mas havia na altura procuradores desavindos, juízes desalinhados, jornalistas abelhudos, não era portanto possível fabricar qualquer pacto, até porque o povoléu andava desconfiado que tal acordo se destinava a abafar processos, como o da Casa Pia, e os figurões não se atreveram a avançar.
Agora que esses processos repousam em paz, era o momento propício para dar um sinal à população de que a república está atenta e que pretende pôr a justiça a funcionar.
Não percebi, Mateus – Estás a perguntar-me se não concordo com a necessidade de uma reforma profunda na justiça portuguesa?! Se não concordo com a redução substancial das dilações processuais?! Com a redução de admissibilidade de pedidos por dívidas comerciais?! Com a reorganização dos tribunais?! Com garantias de separação de poderes que o Tribunal Constitucional não dá?!
Claro que concordo, Mateus.
Mas tu acreditas, que sem uma mudança de regime, sem a introdução de um árbitro que não faça parte dos compadres, que será possível mudar alguma coisa nesta terra?!
Estás a ver, Mateus, tu também não acreditas.

quarta-feira, setembro 06, 2006

A nossa selecção

Esta é a nossa selecção, aquela pela qual vale a pena gritarmos, estamos com ela em todos os momentos, há imenso tempo, dá gosto vê-los actuar! Analisemos o seu desempenho, um por um, os seus pontos fortes, os pontos menos fortes, não pensem em pontos fracos, porque efectivamente não existem! Vamos lá então:
Valentim está de parabéns, é o delírio da pequenada, fez o seu número de forma irrepreensível e a culpa não é dele se votam nele. Descobriu-se e desuniu-se um pouco quando insistiu na recomposição da Comissão Disciplinar da Liga, querendo fazer passar a ideia de ilegalidade (ou seria deslealdade!) por parte de Adriano Afonso. Compreende-se que esteja de alma e coração com o juiz Gomes da Silva, seu colega no ‘apito’, assim como se compreende que não lhe faça confusão que o filho de um dirigente do Gil Vicente possa votar em causa própria! Esteve igual a si próprio.
Sobre Madaíl já não sei o que dizer! A FIFA deve ter a mesma opinião. Para a história, fica o contrato entre Scolari e a Federação, onde existe uma cláusula de rescisão por parte de Scolari, no caso de Madaíl deixar de ser presidente da Federação!!! Será que Madaíl vai enveredar pela carreira de seleccionador, ou dá-se por satisfeito, mantendo-se como adjunto de Scolari?!
O Secretário de Fafe, perdão, de Estado, é um homem bem intencionado mas com muito azar! Quis dar um puxão de orelhas em Madaíl e Valentim, mas o major rufião virou-lhe o dente e quem acabou por levar nas orelhas foi o Laurentino! De resto, este promissor secretário, fez o que lhe competia: arredondou o discurso, teve uns arrufos de soberania, mas nada de grave.
Já o empertigado Arnaut, também não deve trazer grandes preocupações à FIFA e por uma simples razão: ele é desta e da contrária. Patriota nato, está com Bruxelas de alma e coração, e não admite por isso quaisquer limitações à nossa soberania por parte da FIFA! Madaíl ainda quis protestar, explicar, mas ninguém prestou atenção.
No fundo, este Arnaut é um pândego! Está preocupado com o exagero das sanções da FIFA, provávelmente a pensar no Sporting, mas o Madaíl lá teve a caridade de lhe explicar que não são sanções, é sanção, e consiste em excluir um dos seus filiados, neste caso a Federação Portuguesa de Futebol, quando este filiado não cumpre as normas a que está obrigado!
Não sei se o Arnaut a esta hora já percebeu!
Claro que a selecção não está completa, falta gente do norte, andam mais ariscos ultimamente, talvez alguma lesão difícil de cicatrizar, quem sabe!
Em contrapartida, quem aparece sempre é o Vieira! Desta vez ao telefone, para confirmar o seu permanente apoio ao Major Valentim. Uma constante no passado recente, nada de confusões.
A mim é que me faz uma certa confusão a súbita omnipresença deste Vieira, coincidindo, só pode ser coincidência, com as notícias sobre o misterioso ‘caso Mantorras’! De facto, não há dia nem sítio onde o sujeito não apareça!
E assim termina mais um programa sobre a nossa selecção.

segunda-feira, setembro 04, 2006

Pobres e mal agradecidos

O exercício de público maquiavelismo que o professor Marcelo vem exibindo, a partir do canal público de televisão, sobre o famigerado ‘caso Mateus’, tem apenas um nome e apelido no vocabulário corrente: um mau exemplo.
Para quem o viu recentemente na Alemanha, cachecol ao pescoço, pelos vistos pouco apertado, frequentando alegremente uma prova organizada pela FIFA, não pode deixar de concluir que há indivíduos em que não podemos confiar. E a confiança, é como se sabe, a base de uma qualquer competição desportiva, desde o berlinde ao futebol.
Marcelo saberá de leis, e eu não, será um génio nesta capoeira de galinhas, onde eu nem milho posso comer, mas sempre me convenci que a verdadeira inteligência tem de aproximar-se da humildade, assim como deve afastar-se da vaidade e do oportunismo. Por isso entendo que o Direito deve estar ao serviço do bem comum, não é uma ideologia, nem tão pouco pode prestar-se a engenhosas elucubrações para subverter princípios sem os quais seria impossível dar um passo, sem termos de imediato um recurso à perna.
O desporto, ao contrário de outras actividades, não tolera a batota, não sobrevive muito tempo com ela, e o Gil Vicente fez batota, facto indiscutível. Admito, como já escrevi, que o professor Marcelo não tenha a noção do que é fazer batota, muita gente não tem, admito por isso que esteja convencido que o acto de inscrição de um jogador, impedido pelos regulamentos de o fazer, possa ser entendido como um acto meramente administrativo, sem qualquer influência no desenrolar da competição desportiva. Admito que labore nesse erro tremendo porque não tem aquilo a que chamo ‘espírito competitivo’, mas não admito que não tenha a humildade de delegar nas competentes instâncias desportivas, ao menos, a definição do conceito sobre o que é ou não é – ‘estritamente desportivo’! Não admito, por ofender a inteligência comum, que insista em colocar essa decisão nas mãos de um qualquer juiz, sempre diferente, e sem a necessária preparação para entender a especificidade do fenómeno desportivo. Isso não admito, nem entendo.
Por fim e prova real do que defendo, usar o canal público, para sistematicamente, fazer a apologia das pretensões de uma das partes contra as pretensões e interesses da outra ou das outras, é simplesmente...batota.
Como será batota querer participar, de bandeirinha e cachecol, nas provas organizadas pela FIFA, mantendo processos de intenção sobre as respectivas regras!

sexta-feira, setembro 01, 2006

Maré-cheia

Umas curtíssimas férias, belíssimos dias, as tardes na praia, anos de vida, e poucas notícias como convêm. Apenas uma curiosidade fugaz pelo ‘caso Mateus’, que fecha ao rubro a época balnear.
Sou parte nesta história, herança belenense que não desarma, e dir-se-á que o tema não reúne elevação suficiente para um interregno, pois é questão estritamente desportiva, e como tal deve ser tratada nos locais próprios e pelos órgãos competentes. Como se vê é impossível escapar-lhe, e sem querer vou repetindo argumentos, pois de argumentos se constrói esta terra... sem argumentos que lhe valham, para além da consabida vontade de uns quantos, mais teimosos e perseverantes do que nós.
Os telejornais abrem com o ‘caso Mateus’, em que todos se ameaçam e ameaçam ter razão, mas nós já sabemos como tudo vai acabar: pela surra, de fininho, sem grandes estragos, o Gil Vicente vai para a Liga de Honra, com a necessária compreensão pela sua luta estóica contra a maldade do mundo que a própria FIFA encarna! E pronto.
Se pudéssemos passar sem ela, não me refiro à vaidade, mas á FIFA, se pudéssemos passar sem a selecção das bandeirinhas, sem os três clubes do estado, sem as grandes finais em que vamos todos, sem a glória das medalhas que a FIFA nos dá! Se pudéssemos organizar por aqui, uma FUFA ou uma FOFA, à nossa maneira, com as regras que a gente gosta, a ganhar sempre, não queríamos saber da FIFA para nada, seríamos os primeiros a trair esta prepotente organização a que só pertencemos porque nos dá jeito.
Muito bem, e que outras novidades perdi?!
Nada de importante a não ser este problema de última hora relacionado com a nossa participação na força internacional que vai para o Líbano: então não querem lá ver que serão os castelhanos a comandar o nosso minúsculo contingente!
Isso nunca, quando vamos a algum sítio, nem que seja um português sozinho, só aceitamos ser comandados pelos ingleses, até porque já estamos habituados.
Mas a praia, repito, estava óptima.

sábado, agosto 26, 2006

“Sobre o nosso entendimento dos deveres do Estado”

“O Estado existe, não para proteger os vícios pessoais, mas para promover o bem de todos, porquanto o seu dever mais elevado está ligado justamente ao preceito da caridade: ajudar os débeis, defender os oprimidos, fazer o bem àqueles que vivem em dificuldade (...). A ordem natural baseia-se sobre o extermínio recíproco ou, no melhor dos casos, sobre uma mútua limitação dos homens. A ordem moral é baseada na recíproca solidariedade e a expressão primeira e mais simples de tal ordem é a ajuda gratuita, a beneficência desinteressada.”

Vladimir Soloviev

“...O mundo inteiro indiferente com a desgraça daqueles dezanove anos. O primeiro dever da civilização é evitar que fiquem os desgraçados pelo caminho!
Os desgraçados são a vergonha da humanidade, são a desonra da civilização!
Mas a vida passava-se lá muito acima disto tudo, ocupada com a vida de todos, indiferente á vida de cada um.”

Almada Negreiros


Salas de chuto

“Parece ser um problema nascido mais da imaginação das juventudes partidárias e do BE do que da atenção à realidade;
O partido do Governo parece estar mais comprometido com compromissos tácticos do que convicto da bondade de tal medida;
Se as Salas de Chuto pretendem diminuir os riscos de contágio com o HIV+ erram o alvo. Os eventuais dependentes contagiáveis pretenderam outra coisa que não ser elencados e identificados. Entre os toxicodependentes que eventualmente se encontrem disponíveis para frequentar as Salas de Chuto contam-se sobretudo os já doentes com HIV+;
Por outro lado pensar que assim se consegue trazer para a rede de saúde os mais degradados é esquecer que faz parte da sua própria atitude aproveitar-se da rede de saúde pública para não sair. Dos bairros degradados saem os que são perseguidos pela delinquência associada à sua marginalidade e não os que o Estado ajuda a serem marginais;
Pode-se suspeitar que existam interesses corporativos associados às estruturas técnicas do Estado que pretendam ver avançar esta hipotética nova frente de trabalho;

Sugestão:

Estude-se qual seria efectivamente a eventual população que frequentaria as Salas de Chuto através de um organismo independente das estruturas estatais (por exemplo, através de Gabinetes de Estudo das Universidades);”

Com a devida vénia, pela oportunidade e interesse que o assunto merece, o Interregno volta a publicar parte de um texto da autoria da Associação Vale de Acór, comunidade terapêutica para o tratamento de toxicodependentes.

quarta-feira, agosto 23, 2006

Jardim cercado

Nos Açores é diferente, a descontinuidade territorial, as muitas ilhas com as suas rivalidades, perdem unidade e são mais fáceis de domar. A Madeira e o seu cacique é que são o problema desta terceira república que em má hora se lembrou das regiões autónomas, com tudo o que isso acarreta de independência e desenvolvimento.
Estão visivelmente arrependidos.
O homem é inconveniente, não faz vénias ao continente, exige e ameaça com o nosso dinheiro, nosso é uma força de expressão, talvez não seja nosso, mas dele não é concerteza!
E agora que o país está quase na linha, domesticado, sobrevivente em euros sem poder reclamar, sem alternativa, disponível para se sacrificar até ao fim por este caminho sem rumo que lhe foi generosamente traçado, não podemos tolerar dissidências.
Sigamos pois no cerco ao relapso madeirense, arremedo de feudalismo que nunca tivemos nem podemos ter, ele bem sabe a nossa sina, por isso vamos em frente, retiremos-lhe os meios com que se pavoneia, que lhe têm valido vitórias atrás de vitórias!
Vamos sufocá-lo, será obrigado a render-se.
Nessa tarefa patriótica, feita em nome da nossa velha república unitária, contamos com apoio generalizado da população continental, até de sectores insuspeitos, de outras áreas políticas, nas direitas, no centro, entre os chamados independentes, porque ninguém tolera a independência do líder da Madeira!
Afinal que argumentos tem o homem? Qual a razão de tanta popularidade entre os seus?
Aplicou bem o dinheiro que lhe deram? Talvez, atendendo a que a Madeira passou a ser considerada em termos europeus uma região mais desenvolvida e por consequência com o acesso ao crédito mais dificultado. Tanto pior para ele! Os relatórios internacionais também parecem confirmar um forte ritmo de crescimento que se tem verificado.
Mas isso que interessa comparado com o prejuízo que representa para a república a estridência enervante desse sujeito. Um mau exemplo para os desertificados ‘distritos’ do continente.
Resta-nos sonhar, acordar a imaginação, e que saudades, a consolação que teríamos se em lugar de um cacique, tivéssemos vários como este, espalhados por esse império perdido, a reclamar insistentemente mais e mais verbas, vergastando o continente pelos seus erros, desconfiando do poder central, mas com plena confiança da sua gente!
Sinal de que tínhamos merecido a herança...e que ainda tínhamos mão nela.

Post-scriptum: ‘Cacique’ significa chefe independente.

segunda-feira, agosto 21, 2006

Sebastianismo do Sertão

“Daqui de cima, no pavimento superior, pela janela gradeada da Cadeia onde estou preso, vejo os arredores da nossa indomável Vila sertaneja. O sol treme na vista, reluzindo nas pedras mais próximas. Da terra agreste, espinhenta e pedregosa, batida pelo Sol esbrazeado, parece desprender-se um sopro ardente, que tanto pode ser o arquejo de gerações e gerações de Cangaceiros, de rudes Beatos e Profetas, assassinados durante anos e anos entre essas pedras selvagens, como pode ser a respiração dessa Fera estranha, a Terra – esta Onça-Parda em cujo dorso habita a Raça piolhosa dos homens. Pode ser, também, a respiração fogosa dessa outra Fera, a Divindade, Onça-Malhada que é dona da Parda, e que, há milénios, acicata a nossa Raça, puxando-a para o alto, para o Reino e para o Sol.

Daqui de cima, porém, o que vejo agora é a tripla face, de Paraíso, Purgatório e Inferno, do Sertão. Para os lados do poente, longe, azulada pela distância, a Serra do Pico, com a enorme Tapeorá, cuja areia é cheia de cristais despedaçados que faíscam ao Sol, grandes Cajueiros, com seus frutos vermelhos e cor de ouro. Para o outro lado, o do nascente, o da estrada de Campina Grande e Estaca-Zero, vejo pedaços esparsos e agrestes de tabuleiro, coberto de Marmeleiros secos e Xiquexiques. Finalmente, para os lados do norte, vejo pedras, lajedos e serrotes, cercando a nova Vila e cercados deles mesmos por Favelas espinhentas e Urtigas, parecendo enormes Lagartos cinzentos, malhadas de negro e ferrugem, lagartos venenosos, adormecidos, estirados ao Sol e abrigando Cobras, Gaviões e outros bichos ligados à crueldade da Onça do Mundo.
Aí, talvez por causa da situação em que me encontro, preso na Cadeia, o Sertão, sob o sol fagulhante do meio-dia, me aparece, ele todo, como uma enorme Cadeia, dentro da qual, entre muralhas de serras pedregosas que lhe servissem de muro inexpugnável a apertar suas fronteiras, estivéssemos todos nós, aprisionados e acusados, aguardando as decisões da Justiça, sendo que, a qualquer momento, a Onça-Malhada do Divino pode se precipitar sobre nós, para nos sangrar, ungir e consagrar pela destruição”.

Do romance “A Pedra do Reino” de Ariano Suassuna.
In Revista “Portugueses” (Maio/Junho 1989)

sábado, agosto 19, 2006

Um país pequeno

Abri e fechei a televisão, demorei-me uns segundos, talvez um minuto a olhar para a entrevista memorial sobre Marcelo Caetano. Até poderia ter interesse, Ana Maria Caetano explicava, a uma atenta e serviçal Judite de Sousa, algumas das peripécias vividas por seu pai nos momentos subsequentes ao 25 de Abril de 1974.
Mas aquela pequena tentação de revelar um distanciamento político entre Marcelo Caetano e o Almirante Américo Tomás, seu companheiro de exílio e infortúnio, a palavra ‘ultras’ ao de leve pronunciada, foi o suficiente para desligar a televisão e perder de vista o rosto ainda bonito da filha do último primeiro-ministro do Estado Novo.
Que raio de país, que raio de gente, incapaz de se manter solidária na hora da derrota, sempre pronta a saltar para o carro dos vencedores!
Quando nem sequer há vencedores, mas uma longa lista de traições, deserções, de gestos que a história não vai lembrar quanto mais dignificar, tão parecidos que parecem irmãos gémeos de outros golpes que passam por revoluções na posterior propaganda.
A própria entrevista é disso prova e argumento. Então não havia ninguém convencido do que estava a fazer! Da bondade do caminho trilhado! Estavam todos contrariados?
E do outro lado, do lado de Abril, a necessidade de expiar o embuste, de alargar responsabilidades, de justificar alguns excessos imprevistos, o pecado da descolonização a comprometer tudo e todos, e a confirmar essa realidade inelutável: não há oposição em Portugal!
Ela só parece existir enquanto não nos aproximamos o suficiente do orçamento de estado, depois, segue-se oportuna reciclagem e o início de uma viagem vertiginosa até ao outro lado da barricada...Que afinal não é barricada nenhuma!
Um país a fingir, cada vez mais pequeno, que não consegue fazer justiça a ninguém.
E que sem perceber mantém o hábito das conversas em família, no canal público, aos Domingos, a cargo de um afilhado de Marcelo Caetano!

quarta-feira, agosto 16, 2006

Sem representação

À força de quererem separar a Igreja do Estado, e não interessa agora discutir o motivo ou os motivos que estiveram e estão na origem desta escolha política, as sociedades ocidentais deixaram sem representação um dos aspectos essenciais da natureza humana: a sua religiosidade!
Embrenhada nas profundezas culturais de determinada comunidade, essa mesma religiosidade acabava por estar politicamente representada no chefe de estado monárquico, na sua qualidade de vínculo histórico, que assim resolvia, melhor ou pior, o complexo de tensões sociais entre os diversos agentes políticos e religiosos, conseguindo por seu lado mobilizar estes últimos para a concórdia geral, na medida em que os envolvia na prossecução dos objectivos comuns dessa mesma comunidade.
Esta razoável harmonia, correspondente a uma identidade clara e indiscutível, sofreu como se sabe, um primeiro grande revés com a chamada reforma protestante que assim quebrou a unidade, que atravessou séculos, de obediência ao Sumo Pontífice.
A partir daqui é fácil perceber o declínio da Europa bem como todas as sequelas que hoje nos confundem e dividem, com o laicismo premente, de natureza fundamentalista, a empurrar-nos, mais e mais, para um buraco escuro donde será difícil sermos resgatados.
É neste contexto que temos que entender a nossa emergente incapacidade para lidar com culturas diferentes, como o Islão por exemplo, que se recusa a seguir o modelo ocidental já que não admite cortar com Deus ao nível da representação do Estado.
Curioso é neste ponto notarmos, e já não é a primeira vez que o faço notar, que os grandes apóstolos do laicismo e da separação da Igreja do Estado, e também por isso, os grandes adversários do Islão, são os países onde não existe uma separação nítida entre a religião e o Estado!!! Refiro-me naturalmente a Israel, Inglaterra e Estados Unidos, pois claro. Bastava este facto, para qualquer um desconfiar das respectivas promessas políticas, agora imaginem os muçulmanos!
É de facto caricato, por absurdo, tudo o que se passa à nossa volta: os americanos e os ingleses armados em cruzados, eles que não obedecem à única Entidade que as convocou no passado e que teria legitimidade para as convocar no presente – o Papa, que aliás tem condenado firmemente este tipo de ‘cruzadas’. E por outro lado não deixa de ser estranho que nesta ‘cruzada’ surja como aliado dos tais ‘cruzados’, um povo que a história assinala como responsável pela própria crucificação de Cristo!
Tudo isto é muito difícil de compreender!
E termino como comecei: se tudo aquilo que tem natureza política, aspira naturalmente a ser representado, também é verdade que essa representação quando é ilegítima ou quando é reprimida, suscita um movimento reactivo de quem se sente amordaçado, movimento que se torna rápidamente incontrolável, e está sempre disponível para afrontar a falsa cultura dominante em surpreendentes ‘tsunamis’!
Não vale a pena depois chamar-lhes terroristas.

domingo, agosto 13, 2006

“Mudam-se os tempos...”

A comunicação social faz parte do país, são organizações onde trabalham pessoas normais, há muita gente envolvida, veteranos e jovens que se engalfinham para ‘dar’ as mesmas notícias, aquelas novidades saídas do funil de duas ou três agências noticiosas, também elas ligadas à máquina de propaganda das multinacionais que todos conhecemos.
Os chamados repórteres de guerra, salvo raríssimas excepções, acompanham os exércitos vencedores e vão declamando, em pose de grande imparcialidade, as banalidades que lhes impingem.
Jornalismo de reportagem, fora da segurança do politicamente correcto, não existe, ou se existe, não chega ao grande público, que se mantém fiel, em permanente estado de ansiedade, e vai consumindo doses cavalares de patranhas infantis, que lê nos jornais, que passam na televisão, sempre na secreta esperança de que surja algo que possa mudar as suas vidas!
Esperamos em vão.
Alguns exemplos, tristes exemplos, diga-se:
O fogo devasta o país como habitualmente nesta época quente, mas agora ninguém se lembra de pedir responsabilidades ao governo! Pelo contrário é o próprio governo que acusa os portugueses de serem os culpados pelos incêndios que lavram por todo o território! Extraordinária conclusão, quando se sabe que prossegue a desertificação interior, e que os pinheiros, sozinhos, não se conseguem defender.
Mas regressemos por um momento aos tempos de Durão Barroso e Santana Lopes, quando o mesmo fogo consumia a floresta lusitana, para recordar que não havia dia nem hora em que se não questionasse o governo e o primeiro-ministro sobre qualquer fagulha que se reacendesse, sobre alguma falha nos meios de combate aos incêndios, medindo e comparando, a palmo, a área ardida, confrontando promessas eleitorais de acabar com os fogos de Verão em Portugal!
Onde estão os jornalistas dessa época? Onde estão as televisões que não davam descanso ao governo?
Desapareceram!?
Pode o ministro Costa repreender à vontade os portugueses que emigraram para Loures ou Massamá, e que se esqueceram ir fazer os convenientes ‘aceiros’ lá na terrinha de onde fugiram, fugindo à miséria; pode enfim o elegante Sócrates fazer as corridinhas que quiser por Copacabana, que nenhum jornalista português o irá incomodar com o fogo pátrio.
Mudam-se os tempos...mas nós não mudamos.

sexta-feira, agosto 11, 2006

Totalitarismo à vista

Uso um título emprestado para ver se consigo retratar este insólito tempo em que somos obrigados a revelar identidade de corpo e alma para com os novos benfeitores da Terra. Não podemos ocultar nada, até a bolsa de viagem tem que ser transparente.
Para nosso bem.
Os inimigos são invisíveis, existem concerteza porque lançam o pânico e a morte à sua volta, estão por todo o lado, sabemos apenas que são islamitas, e mais recentemente, foram caracterizados como ‘islamitas fascistas’, uma variante até aqui desconhecida, com aliados no Irão e na Síria, e partilham entre si um ódio visceral a Israel e aos Estados Unidos!
É tudo quanto se sabe, ou pelo menos é tudo quanto podemos saber.
A Inglaterra, grande aliada dos americanos na reconstrução de um ‘novo médio oriente’, também está na linha de fogo, como se viu pela gigantesca operação policial despoletada em todos os aeroportos do Reino Unido, pelas inúmeras detenções, pelo incómodo a quem pretendia viajar de avião, fosse para onde fosse, mas principalmente para os Estados Unidos.
Procuramos terroristas, é a palavra de ordem, a autorização, o aval, que permite prender, interrogar, isolar, transportar e esconder pessoas suspeitas de pertencerem às tenebrosas organizações que se dedicam à prática do terrorismo. O terrorismo é a doença do século, e qualquer pessoa pode ser infectada por esse vírus mortífero, e sendo assim, todos somos suspeitos.
As origens da epidemia são vagas e não interessa agora discuti-las, porque ‘em tempo de guerra não se limpam armas’, confidenciou um alto responsável que não quis ser identificado.
Entretanto Israel prossegue na sua ‘cruzada’ contra o terrorismo. No Líbano também não há inocentes.
Exagerei na descrição mas os indícios não mentem, e os métodos também não: isto lembra-me qualquer coisa e não é coisa boa.

terça-feira, agosto 08, 2006

“Senhor dá-nos um Rei...”

“Samuel, dá-nos um rei como têm as outras nações...”, foi assim que o povo hebreu se exprimiu, farto de querelas e divisões, ansiando por uma referência de unidade. “Faz o que eles pedem” disse-lhe o Senhor.
Podemos extrair deste episódio bíblico, ocorrido muitos séculos antes do nascimento de Cristo, aquilo que é óbvio e os factos todos os dias comprovam:
Sem um símbolo, sem um referencial único, os povos não se conseguem estabilizar nem progredir, minados por questiúnculas internas, habilmente aproveitadas pelos seus inimigos externos, e com isso vão adiando sistematicamente as melhores soluções para os seus problemas.
Na maior parte dos casos, incapazes de se entenderem dentro das suas fronteiras, acabam por tentar construir uma falsa unidade fora delas, invadindo e agredindo outros povos, inventando um inimigo exterior, disfarçando, ou se quiserem exportando desta maneira os seus problemas domésticos.
Isto é teoria política básica, mas infelizmente e por ser básica está sempre a verificar-se, está sempre a acontecer, e pior, está a acontecer-nos a nós!
Desmobilizados, cada um para seu lado, os portugueses sentem o mesmo que eu sinto: um país à deriva, sem representação una e fiável, alguém que sobreleve as facções e que reconheçamos como imagem da Pátria.
Não há, não temos, ou se temos, não queremos ter!
Mas hoje queria falar-vos desta guerra sem fim que opõe o Islão a Israel, ao Ocidente, aos Estados Unidos, à Rússia, à China, e a outros incertos. A verdade é que no meio desta confusão apraz-me registar que são as monarquias islâmicas, aquelas que dão maiores sinais de moderação, e que asseguram alguma estabilidade e desenvolvimento internos.
Estou a lembrar-me de Marrocos, da Jordânia e até da própria Arábia Saudita, como podia ter-me lembrado da Pérsia no tempo do Xá ou do Afeganistão no tempo do Rei Zaer Sha!
Reparem que não fiz nem tenciono fazer qualquer comentário ou referência à chamada ‘democracia para exportação’ assunto que já abordei e desmascarei largamente aqui no Interregno e que toda a gente percebe que se trata da última artimanha imperialista para ‘dividir e reinar...sobre o petróleo’!
Eu faço referência á monarquia, àquela que une e evita, ou pelo menos reduz, o apetite voraz dos tubarões do costume. Essa realmente tem-se revelado muito mais eficaz e benigna quer reduzindo os riscos de guerra, quer assegurando alguma sementeira em favor da paz.
Tenho insistido neste ponto que me parece importante: o Rei, na sua qualidade de representante da história, e quando legítimo, limita a preponderância dos sacerdotes diminuindo os factores ligados ao fundamentalismo religioso. Esta vantagem não a tem mais nenhum agente político, e numa região como o médio oriente, em lugar de andarmos a pregar a ‘democracia americana’, seria mais sensato advogar o regresso de regimes ancorados na tradição já que transmitem outra seriedade e serenidade nas relações internas e internacionais.
O que se aconselha portanto a essa legião de ‘benfeitores’, americanos, russos, chineses, ingleses, franceses, e israelitas por outros motivos, é mais paciência e menos apetite. Não tenham medo porque o petróleo é para vender, não é para consumo interno dos países do médio oriente.
E já que aqui estamos, uma pergunta directa: E tu, oh Israel, que tal um Rei?
Era capaz de ser bom para ti e para os teus vizinhos. Outra credibilidade e independência às posições e interesses do estado judaico, trazia concerteza.

quinta-feira, agosto 03, 2006

“Pedro II do Brasil”

“Havas traz-nos hoje o seguinte despacho:

Milão, 22 de Maio, manhã

O estado do imperador do Brasil voltou a ser gravíssimo. Os médicos tornaram a aplicar-lhe injecções de cafeína. O imperador recebeu os últimos sacramentos.

O imperador agonizante foi...talvez este passado seja a esta hora uma verdade cruel! – foi um dos soberanos mais notáveis deste século, e um dos homens mais dignos de serem conservados na memória dos tempos.
Nascido no próprio ano em que o Brasil ganhava a independência, a infância do imperador decorreu entre as agitações inerentes aos primórdios dos povos. Nessa escola pratica da vida se educou o seu espírito de homem e o seu tacto de soberano.
Era um filósofo sentado num trono. Aos quinze anos, em 1840, quando principiou a reinar, o Brasil agitava-se, agitou-se ainda por um ano, no campo sáfaro das revoluções anárquicas. Hoje, depois de quase meio século de um reinado cheio como poucos, o Brasil é uma nação poderosa, grande, rica, palpitando com intensidade patriótica e vivamente crente no futuro.
Felizes os que descem ao túmulo, certos de não terem vivido em vão!
Tinha vinte e cinco anos o imperador, quando aboliu o tráfico da escravatura; tinha trinta quando, servindo-se de Urquiza para abater Rosas, o Denys da Siracusa argentina, franqueava a estrada dos sertões de Mato Grosso e de Goiás, pelo Paraguai e pelo Paraná. Em 1867 patenteava o Amazonas à navegação internacional; em 1870 via destruído Lopes, o tirano de Humaitá e da Assumpção; e um ano depois outorgava a primeira lei emancipadora dos escravos, para agora ter como apoteose outra lei consumando a liberdade de meio milhão de homens.
Quando um homem acaba assim, não morre: nasce para a história, passando da cena acanhada do mundo para o céu amplíssimo da consciência da humanidade.
E o imperador do Brasil não foi o símbolo, ou a firma sob que outros governaram, porque ele era o governo, ele era administração, e o paço de S. Cristóvão, patente diariamente ao povo, era a oficina onde dia a dia se ia fabricando a grandeza da nação.
Os principais actos do governo do imperador foram todos pensamentos pessoais desse filósofo coroado, a quem o Brasil deveu a paz, enquanto as repúblicas vizinhas se agitavam em tumultos incessantes; a quem deveu a constituição definitiva da sua geografia pela conquista das águas do Prata, duas vezes disputado à força de armas, contra Rosas e contra Lopes; a quem deveu, finalmente, a emancipação dos escravos, sua gloriosa paixão dominante.
Quando um homem desce ao túmulo levantando à liberdade um milhão de semelhantes seus, a esse homem cabe o nome que ficou típico para significar a nobreza do carácter, a rectidão dos pensamentos, a claridade da inteligência, e a suave filosofia que, fundindo todos os predicados de um génio, imprime o cunho a uma personalidade. O imperador D. Pedro foi o Marco Aurélio do Brasil”.

Oliveira Martins – Perfis

Post-scriptum: D. Pedro II faleceu em Paris a 5 de Dezembro de 1891.

segunda-feira, julho 31, 2006

Certificado de origem

Com a licença na mão, que me custou os olhos da cara e uma longa espera até ser atendido, posso enfim debitar, em prosa ou verso, tudo o que me vai na alma sobre esta escalada de violência a que todos assistimos no médio oriente.
Antes porém e à semelhança de muitos, tive que cumprir os vários rituais de passagem que purificaram a minha compreensão e esclareceram dúvidas sobre os verdadeiros desígnios de Israel nesta guerra, que tantos consideram necessária e benfazeja!
Eu conto:
Mal me aproximei do guichet passaram-me um formulário breve mas conciso:
- És negacionista, ou pelo contrário, aceitas e assumes o holocausto com todas a suas consequências!
- Conheces a diferença entre terrorismo e o direito de Israel a viver em segurança dentro das suas fronteiras, nas terras que foram dos seus antepassados, ou és daqueles que andam para aí a desinformar a população alegando que o nosso antepassado foi um ricaço que comprou umas quintas na Palestina nos finais do século dezanove, e que nós ‘herdámos’ em 1948?!
- Por último, sabes o risco que corres se escreveres qualquer coisa que revele proximidade com o Islão, alguma condescendência com os terroristas, esses arautos da violência, que pregam o fim de Israel e do mundo ocidental?!
Havia ainda uma pergunta facultativa, que não contava para a média final:
- Acreditas piamente na nossa democracia e que só a nossa democracia conseguirá construir um novo médio oriente?
Foi este o teste!
E agora? Querem saber como saquei a licença?
Eu conto:
Não discuti o holocausto, limitei-me a acrescentar que os holocaustos existem, tal como os recordes também existem... para serem batidos. É sempre do próximo que tenho medo, justificado pelo anterior.
Na segunda pergunta hesitei, acabando por responder que um bom vinho do Porto tem de certeza mais de sessenta anos! Esta resposta foi considerada uma provocação e estive para chumbar, mas por sorte o examinador era aquilo a que se pode chamar ‘um apreciador’, e como bom judeu, tinha uma excelente reserva do famoso néctar! Encerrou desportivamente a questão com a promessa de uma visita à adega.
Na terceira pergunta, considerada a mais difícil, fiz um brilharete: disse a verdade sobre as relações de proximidade e convivência mais ou menos pacífica que temos mantido com os povos islâmicos que habitam o flanco sul da Europa, especialmente com Marrocos a quem hoje não tentamos impor nem a nossa cultura nem a nossa democracia. Beneficiámos é certo da circunstância de ninguém se ter lembrado de introduzir nesta região um corpo estranho, ao contrário do que aconteceu na Palestina, com as consequências que se conhecem e com os processos de rejeição que se adivinham por parte de quem já ali habitava.
O judeu coçou a cabeça, ter-me-á achado inofensivo e predispôs-se a entregar-me a licença!
Foi já certificado que decidi responder à pergunta facultativa, em jeito de gratificação: esta violência, esta democracia, não são caminho para coisa nenhuma a não ser para transformar o mundo num barril de pólvora. Não vão construir nada de novo, nada que já não seja conhecido há muito tempo – o inferno do ódio!
O papel dos Estados Unidos neste conflito, como tem acontecido noutros, é trágico e cómico ao mesmo tempo, perdendo completamente a face perante o mundo muçulmano.
E há quem se iluda com a força das armas e pense que é possível eliminar ou aniquilar todos os árabes, persas, turcos, indianos, polinésios, em suma todos os que professam o islamismo! Perigoso pensamento, próprio de orgulhosos mentecaptos, oriundos de um império recente e sem qualquer estofo colonizador, porque lhe falta o tempo que traz sabedoria às nações e lhe sobra a barbárie que gera desconfiança e animosidade.
É o que acontece com os senhores de Washington que agora deram em aliar-se com a nomenclatura do Kremlin e da China Popular!
É caso para dizer como os tempos mudam, e as companhias (as más) também!
Mas se o Islão não pode ser derrotado recorrendo à violência, Israel arrisca-se a desaparecer do mapa, apesar das suas inúmeras bombas, se não escolher outros caminhos e se calhar, outros aliados!!!
Não se espantem pois os sábios se o segredo da sobrevivência de Israel residir na sua plena integração como estado do médio oriente e não nesta política segregacionista e suicida, armado em povo eleito, e no papel de afilhado (ou mentor) do imperialismo americano.
Visado pela comissão de censura.

quinta-feira, julho 27, 2006

“A César o que é de César...”

Dois mil anos depois o Filho do Homem continua sem ser entendido entre os judeus, e por quem os segue! Na minha juventude a cançoneta da propaganda repetia a mesma incompreensão: “This land is mine, God gave this land to me...”!
Mentira. Foi o dinheiro que comprou algumas das terras do actual Israel, a que se juntou a vontade das potências vencedoras da última grande guerra, no sentido de compensarem os judeus pelos sacrifícios por que haviam passado durante o conflito.
O presente envenenado aí está com todas as suas consequências e rejeições.
Pois é, essas terras eram habitadas, viviam lá pessoas que foram desalojadas, obrigadas a partir...e que reagiram e que têm vindo a reagir, por todos os meios.
“...a Deus o que é de Deus”.
Deus não dá terras a ninguém, nem dinheiro, nem armas! Aqui reside a confusão.
No horizonte dos séculos o tempo de vida do actual Israel não é nada, é uma fagulha na era do Universo. Como também nada representa este arremedo de imperialismo protagonizado pelos americanos, odiados por todos os povos islâmicos, proibidos de frequentar a rua árabe, persa ou turca!
Quando nos lembramos que o Império Inglês, com toda a sua força e sabedoria durou apenas duzentos anos, a declaração produzida pela americana Rice de que ‘vamos construir um novo médio oriente’, só pode dar vontade de rir!
Mas começa a perceber-se qual foi a necessidade de invadir e destruir o Iraque, para aí criar as tais zonas tampão que possam proteger Israel, assim como se entende melhor este avanço sobre o Líbano, e o que virá a seguir!
Inútil tarefa e mau presságio.
Em primeiro lugar e por muita confusão que isso faça a muita gente, Israel não é um estado ocidental nem pode vir a ser. Os interesses da Europa também não passam pelo estado hebraico assim como tenho dúvidas que os Estados Unidos possam continuar a desempenhar o papel de aliado preferencial por muito mais tempo.
É que esta aliança joga contra a única possibilidade de existência de Israel no futuro.
Ou alguém pensa que Israel vai poder continuar a viver rodeado de muros e zonas de protecção, comportando-se agressivamente como se fosse um intruso?
E aqui não vale a pena agitar o fantasma do terrorismo porque Israel está condenado a viver no médio oriente, como um estado do médio oriente, e com uma população semita em tudo semelhante aos semitas seus vizinhos. E a ter como aliados pelo menos alguns dos seus actuais inimigos.
Ou então preparemo-nos aqui na Europa para o regresso dos judeus depois de mais uma aventura na Terra Prometida.

terça-feira, julho 25, 2006

“Por estes dias...”

Por estes dias, há quatrocentos e vinte e dois anos, Dom Sebastião viajava com o seu exército de quinze mil homens para a conquista de Marrocos. Fazia-o para combater a expansão dos turcos no Norte de África.

Fazia-o para evitar os ataques dos corsários a partir da costa africana. Fazia-o também cheio de um espírito sacrificial que, quando protagonizado por reis, envolve também o sacrifício das pátrias.
E assim o conseguiu. Os turcos não conseguiram avançar para Marrocos depois deste país ter reafirmado a sua identidade depois da batalha. Os corsários também não se refugiaram nas costas africanas mais controladas pelas autoridades locais. E o país sacrificou-se, como o seu rei e alguns dos seus conselheiros o desejavam, certamente com outras expectativas. Falo-vos disto porque acabei de ler um livro muito interessante intitulado “Dom Sebastião, Rei de Portugal”, escrito pelo espanhol António VillaCorta Baños-Garcia.
A perspectiva é de um historiador Castelhano, com muita informação sobre a óptica espanhola dos acontecimentos, de alguma forma benevolente face à atitude dúbia de Filipe II, e manifestamente crítico da atitude voluntariosa de Dom Sebastião. No entanto traz-nos informações que a maioria dos portugueses desconhece. Sobretudo informa-nos e angustia-nos, como se estivéssemos a viver aqueles momentos sabendo da morte anunciada do rei e do país. No fim da leitura vêm-nos à mente uma série ordenada de perguntas na condicional que poderiam ter mudado a sorte de Portugal e do mundo naquele século: Se a regência fosse dada a Joana de Áustria, mãe de Dom Sebastião, e não a Dona Catarina, avó do rei e esposa de Dom João III, muito provavelmente a educação do rei teria sido diferente, pois a sua mãe não o deixaria com poucas semanas de vida por ter emigrado para Espanha.
Se Filipe II, tio direito de Dom Sebastião, tivesse apoiado a invasão e sequente partilha de Marrocos, em vez de negociar a paz com Sultão Ali, aliado dos turcos, certamente que o resultado do confronto teria sido diferente, mesmo com o rei voluntarioso em demasia.
Se Dom Sebastião não tivesse demorado tempo demais em Cádiz e em Arzila, muito provavelmente teria conquistado Larache, mesmo caminhando por terra através da planície de Alcácer-Quibir. De facto, se assim fosse, o Sultão Ali não teria tempo de chegar ao local com o seu exército sediado em Fez. Isto tudo sem o apoio de Filipe II e com o mesmo rei jovem e voluntarioso.
Se Dom Sebastião tivesse aceite as condições de paz do Sultão Ali, que lhe prometia devolver as praças portuguesas, para além da Ceuta, Tânger, Argila e Mazagão em nosso poder; e ainda a cidade e o termo de Tetuão. Se assim fosse, tal bastaria para criar um território consistente em Marrocos e não haveria a perda do rei, do exército e do país. Mesmo sem apoio de Filipe II, sem atraso de Cádiz e com o rei considerado irresponsável por muitos.
Se o Sultão Ali, gravemente doente, tivesse morrido antes da batalha e não durante a mesma por agravamento da doença, muito provavelmente as tropas marroquinas virar-se-iam para apoiar Muhamad, berbere, cujo trono tinha sido usurpado por Ali, e que por isso alinhou nas fileiras portuguesas. Isto mesmo sem o apoio de Filipe II, o atraso de Cádiz, o acordo com Ali ou e a juventude do rei. Se, finalmente, a batalha fosse ganha pelos portugueses, como começou a sê-lo no início. Então, apesar de tudo o mais, o resultado seria bem diferente, para Portugal e para o Mundo. Ficou o sacrifício, Marrocos e, também, Portugal.

Tomás Dentinho

Jornal “A União” de Angra do Heroísmo, de 20 de Julho de 2006.

domingo, julho 23, 2006

“Também há Universo na Rua dos Douradores”

“Quem tenha lido as páginas deste livro, que estão antes desta, terá sem dúvida formado a ideia de que sou um sonhador. Ter-se-ia enganado se a formou. Para ser sonhador falta-me dinheiro.
As grandes melancolias, as tristezas cheias de tédio, não podem existir senão com um ambiente de conforto e sóbrio luxo. Por isso o ‘Egeus’ de Poe, concentrado horas e horas numa absorção doentia, o faz num castelo antigo, ancestral, onde, para além das portas da grande sala onde jaz a vida, mordomos invisíveis administram a casa e a comida.
O grande sonho requer certas circunstâncias sociais. Um dia que, embevecido por certo movimento rítmico e dolente do que escrevera, me recordei de Chateaubriand, não tardou que me lembrasse de que eu não era visconde, nem sequer bretão. Outra vez que julguei sentir, no sentido do que dissera, uma semelhança com Rousseau, não tardou, também, que me ocorresse que, não (tendo) tido o privilégio de ser fidalgo e castelão, também o não tivera de ser suíço e vagabundo.
Mas, enfim, também há universo na Rua dos Douradores. Também aqui Deus concede que não falte o enigma de viver. E por isso, se são pobres, como a paisagem de carroças e caixotes, os sonhos que consigo extrair de entre as rodas e as tábuas, ainda assim são para mim o que tenho, e o que posso ter.
Alhures, sem dúvida, é que os poentes são. Mas até deste quarto andar sobre a cidade se pode pensar o infinito. Um infinito com armazéns em baixo, é certo, mas com estrelas ao fim... É o que me ocorre, neste acabar de tarde, à janela alta, na insatisfação do burguês que não sou e na tristeza do poeta que nunca poderei ser.”

Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego (excerto) – composto pelo heterónimo Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa.

sexta-feira, julho 21, 2006

Nacional Nacionalizado Nosso

A ordem é arbitrária.
Acordem desse delírio, é verdade, eu já sabia, tanta privatização é mania, e dá outro resultado, um extremo toca outro extremo: Portugal verde encarnado, estás todo nacionalizado!
Você tinha reparado?
Sejam sinceros, confessem, destes aqui que me lêem, quantos serão do privado?
Podem erguer o bracinho, não vejo nada que horror! A malta ficou maneta? Não acredito... que dor!
Essa pergunta comento: contam empresas e siglas, basta que vivam por junto, bem junto do orçamento!
Ouve lá, oh rapazinho, quem te paga o ordenado?
É o patrão, que é privado, mas só trabalha para o Estado!
É tão curioso este mundo!
No futebol é diferente, nunca foi privatizado, sempre foi um bom negócio, sempre deu votos sem votos, hoje dá votos com trocos!
Um viveiro de vedetas, um berço de governantes, de autarcas, nem falar!
E entretém a populaça, como em Roma, quem diria!
Leste a notícia do dia?
Valentim finge que sai; foi um árbitro a enterrar; vi mais dois a pelejar; o Vieira mata e esfola; diz que é o dono da bola; o juiz não quer julgar; o Belém tem que amochar!
Pobre país de vilões, vais ter muito que amargar.

quinta-feira, julho 20, 2006

Estamos fritos

Quando os papás se revelam incapazes de educar os fifis; quando aceitam o tratamento por ‘tu’ para se porem ao mesmo nível, para não parecerem distantes ou autoritários; quando a preocupação dominante é aceitar tudo para não traumatizar as pobres criancinhas...estamos fritos!
Quando os professores sentem dificuldade em avaliar os alunos; quando lhes insuflam a ideia de que nasceram com imensos direitos e poucos deveres; quando, por um acaso, se atrevem a repreender com mais vivacidade um aluno, básicamente mal-educado, e se arriscam no acto, a sofrer injúrias ou agressões; e quando, em seguida, os papás secundam a má criação do menino...estamos fritos e cozidos!
Quando a autoridade pública se mostra incapaz de a exercer ou quando a exerce poupa sempre os mais fortes; quando o estado e os seus agentes dão de si próprios terríveis exemplos a uma sociedade atreita a reproduzir tudo o que vê; quando finalmente o poder judicial, inamovível, e que é suposto ser independente do poder político, se mostra incapaz de decidir em tempo útil qualquer diferendo, por mais simples que seja, aparecendo entretanto envolvido em fenómenos sociais pouco recomendáveis...estamos fritos, cozidos e assados!!!
Vem este arrazoado a propósito de quê?
O almoço é peixe frito, e o cheiro invade esta casa portuguesa, entra alegremente por onde pode, entranha-me como um perfume irresistível, grito por socorro, mas ninguém me ouve, estou a ser asfixiado...
Por mim, estou almoçado.