segunda-feira, julho 16, 2007

O sufrágio, ai, ai!

Não é vira, nem malhão e antes que me venham papaguear a frase do Churchill, repito o que venho dizendo no interregno, long time ago: Winston tinha em mente a Inglaterra, onde existia, e existe, pelo menos um órgão político que não é eleito pelos contemporâneos – a Chefia de Estado. Agora já posso prosseguir com o ai, ai, do sufrágio e para concluir que assim não vamos a lado nenhum. Já não bastavam os partidos metidos a martelo nas autarquias, já não bastava o Governo a concorrer à Câmara de Lisboa, para ainda termos que aguentar com o ridículo das manifestações de alegria pela vitória do comissário Costa, vitória essa que não é mais que uma pesadíssima derrota da partidocracia vigente! Verdade que até para aquelas explosões de contentamento houve que recorrer às célebres ‘camionetas à província’ para dar algum colorido à festarola! E para que não lhes faltasse nada, Sócrates encarregou-se de fazer um inflamado discurso aos ‘lisboetas’ de encomenda, que ao que parece tinham vindo do Alandroal!
É caso para perguntar como os brasileiros: mas eles não se enxergam?!
Não perceberam que o sufrágio, acoplado ao sistema republicano de partidos, já produziu todo o mal que havia para produzir na comunidade onde vigora! Não perceberam que a desconfiança na política e nos políticos é total e que as tentativas esfarrapadas para dar alguma legitimidade aos eleitos já não convencem ninguém!
Vejamos os números numa perspectiva futebolística para que se tornem mais convincentes: Costa com os seus 58.000 votos não conseguiu encher o estádio da Luz! Carmona e Negrão somaram 63.000 votos, e não fosse a arma do arguido, teriam conseguido encher o estádio da Luz! Roseta, que recolheu 20.000 votos, conseguiu uma boa assistência na primeira Liga!
Daqui para a frente iremos por certo assistir às tentativas por parte do Governo para consumar a união nacional na Câmara, antecâmara da prevista união nacional!
E já sem sufrágio!

sábado, julho 14, 2007

Dia de reflexão

Enquanto as ‘tropas dos 27’ desfilam nos Campos Elíseos, celebrando ao que tudo indica a festa e os valores desta Europa, em Lisboa, os lisboetas entraram em período de reflexão!
Reflictamos pois!
Desfile tão participado só pode querer significar que a ‘constituição europeia’, mascarada de ‘tratado’ por razões referendárias, será rapidamente aprovada pelos respectivos parlamentos, longe portanto da incomodidade popular. O que faz todo o sentido, na medida em o dito ‘tratado’ consigna e traduz a Europa dos comissários que estamos a construir.
Semelhante paralelismo merece reflexão em Lisboa! Do voto de uns poucos milhares de portugueses, o que resta de uma cidade que já foi populosa, dependem uma série de projectos e decisões que irão afectar o país inteiro, ou seja, milhões de habitantes! Desde o aeroporto internacional, às vias-férreas estruturantes, à perspectiva da nossa vocação atlântica, que foi sempre a base de uma difícil independência, tudo isso acaba por estar em jogo nas eleições de Domingo. Que responsabilidade desmedida!
Será talvez por isso que o Governo não resistiu e resolveu lançar uma candidatura à Câmara de Lisboa?!
Sem ironia, precisamos todos de reflectir, clareza precisa-se, exemplo que tem que vir de cima, para que possamos ser claros uns com os outros. Já chega de mentiras.

quinta-feira, julho 12, 2007

Fado

Vamos lá, cantem comigo, todos, tudo isto existe, tudo isto é triste, tudo isto é fado! Muito bem!
Comecemos então pela pescadinha de rabo na boca, que vai a concurso com receita ribeirinha de José Miguel Júdice! Não sendo possível perguntar aos eternos comensais o que pensam deste conhecido prato, oiçamos alguns dos concorrentes a chefes de cozinha, por exemplo, Manuel Monteiro, que conforme se pode ler no DN de ontem, achou a pescadinha um bocadinho indigesta:

“António Costa deveria imediatamente pedir a José Miguel Júdice que se demita de seu mandatário. Estamos a assistir a uma autêntica indignidade política” e prosseguiu, “António Costa ocultou aos cidadãos de Lisboa que o primeiro-ministro já tinha convidado José Miguel Júdice para ser o responsável pela recuperação da zona ribeirinha. É batota, é indigno que um candidato a presidente da Câmara diga que vai fazer obras na zona ribeirinha da cidade, quando o primeiro-ministro desse partido já tinha nomeado o seu mandatário para comandar essa recuperação”.
A finalizar, o ex-líder do CDS ainda lançou a António Costa uma pergunta que ameaça deixar a pescadinha intragável: “No caso de vencer as eleições, tenciona dar ao escritório de José Miguel Júdice o trabalho jurídico da Câmara de Lisboa? E rematou – “Apesar de vivermos numa democracia, temos hoje políticos que enriqueceram mais ao fim de quinze anos do que muitos outros durante o chamado fascismo”.

Sem comentários. Apenas acrescento que é natural que muito em breve assistamos na RTP a uma entrevista justificativa por parte deste futuro comissário ribeirinho! Aliás, o canal público de televisão tem vindo a especializar-se em maquillage e retoques de imagem em tudo o que mexe com o regime em vigor. Dentro desse âmbito vai hoje para o ar uma conversa em família sobre o ‘biombo chinês’. Vejam, deve ser divertido.

quarta-feira, julho 11, 2007

Vale tudo...

"Sombras Chinesas" - "O mistério dos chineses que queriam comprar o Benfica está resolvido: a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), que é a polícia da Bolsa, investigou e chegou à conclusão de que o “alegado investidor chinês”, conforme classifica em comunicado, já não avança com a operação. Como soube a CMVM?


A sua investigação conduziu-a a um advogado que comunicou que o seu cliente “perdeu o interesse na aquisição de participações sociais” da SAD do Benfica. Caso resolvido! E o que ficou para trás? Pelo menos um grupo chinês desconhecido, que veiculou o seu alegado interesse por um jornal, motivou uma movimentação anormal com as acções do Benfica e quem comprou a 3,50 euros e vendeu a 6,11 lá fez a sua boa jorna... Quem não percebe nada de Bolsa pergunta-se: quem são, afinal, os ‘investidores chineses’? Isto não cheira a manipulação do mercado? O caso fica por aqui? Não há ninguém a quem pedir um pouco mais de responsabilidades? Terá sido um movimento normal do mercado que vinte minutos depois da reabertura tenham sido transaccionadas 81 mil acções de um único lote, com um lucro de 196 mil euros? Agora que já percebemos todos que o “alegado investidor chinês” não é mais do que uma verdadeira sombra chinesa, seria bom que a CMVM esclarecesse, a bem da sua própria credibilidade, quem é que, afinal, ganhou com toda esta ópera bufa."
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Reproduzo, com a devida vénia, o editorial do CM de hoje , da autoria de Eduardo Dâmaso.

segunda-feira, julho 09, 2007

A oitava maravilha

Só a memória sobreviverá, só quem a conserva ou possui será mestre do seu futuro! Só ela tem capacidade para iluminar a história, não para a relativizar ou menorizar, mas para a integrar nesse esforço contínuo de compreensão e elevação espiritual que justifica o destino do homem!
A sociedade contemporânea não tem memória, limita-se a seleccionar produtos, para vender ou comprar dentro do respectivo prazo de validade, e por isso, aquilo a que assistimos no dia sete do sete de dois mil e sete foi mais um desses exercícios de vaidade devoradora que a história se encarregará de esquecer.
Visto de longe, o concurso parecia um jogo de matraquilhos com os actuais residentes do planeta empenhados em levar a taça para casa! Nesse aspecto o sufrágio, desta vez á distância de um clique, mostrou novamente a sua fragilidade, ordenando as ‘maravilhas’ de acordo com as vantagens populacionais das várias regiões ou nacionalismos! Assim, ganharam naturalmente os chineses, indianos, sul-americanos, das duas matrizes conhecidas, islâmicos e…o Coliseu de Roma!
As reticências sobre o Coliseu de Roma confirmam o carácter do evento, também ele realizado num coliseu da era moderna, mas realçam a singular coincidência de ter sido uma antiga colónia portuguesa que garantiu o único sopro de Cristianismo que se viveu naquela noite!
Obrigado Brasil!

Post-Scriptum: “A oitava maravilha do mundo” foi uma expressão divulgada pelos jornais ingleses em 1955, depois da respectiva selecção de futebol ter sido batida pela equipa das quinas, o que acontecia pela primeira vez. A oitava maravilha, herói do jogo, foi Matateu, o inesquecível avançado do Belenenses!

Prepara-te para a Marselhesa

Já começaram os preparativos para celebrar condignamente o 14 de Julho, dia da Tomada da Bastilha e dia nacional de França. Na tribuna de honra, assistirão ao desfile militar que percorre os Campos Elíseos, todos os presidentes de todos órgãos que compõem a parafernália europeia. Sócrates e Durão Barroso, lado a lado, em uníssono, talvez trauteiem o “Allons enfants de la Patrie…”!
Lá como cá, franceses e portugueses, têm o estranho hábito de comemorar guerras civis, e no caso da França foram mais longe, impondo a data como dia nacional, o que para mentes retorcidas como a minha, causa sempre algum espanto e desagrado.
Porquê, se a música é tão ‘linda’!
Trata-se de um exercício de memória! Quem se lembra da guilhotina, dos milhares de condenados, dos milhares de inocentes, do terror institucionalizado, não consegue desligar nem desligar-se. Quem se lembra do consulado napoleónico que pôs a Europa a ferro e fogo, que invadiu e saqueou Portugal por três vezes, que tentou destruir as convicções religiosas europeias em nome do primado de um império laico e republicano, também não. E se relacionar, sem querer, as novas tentativas para descristianizar a Europa com as outras, mais antigas…mais preocupado fica.
Coisas do passado, dirão, que não dizem nada às gerações vindouras, estamos a construir um projecto único, comum, que exclui a força das armas, é tudo negociado entre nós, sem referendos, podem estar sossegados!
Pois então continuem a cantar a Marselhesa. Eu não.

sexta-feira, julho 06, 2007

Afinal era golpe...

“Hoje percebe-se que havia uma vontade de nos querer tirar da Câmara” observou Carmona Rodrigues quando se ficou a saber que o tribunal decidiu arquivar as acusações ao antigo vice-presidente Fontão de Carvalho no chamado caso EPUL! E acrescentou – “Não podemos ficar calados perante aqueles que usaram o que estava a passar-se no sistema judicial para tirar ilacções políticas”.
Tudo isto aconteceu num dia em que as sondagens não conseguem empurrar o ‘Costa do governo’ para a maioria esperada, nem conseguem interromper a ascenção de Carmona, que sobe paulatinamente nas intenções de voto dos lisboetas, preparando-se para ultrapassar Negrão!
Já por aqui tinhamos denunciado a instrumentalização da figura do arguido como pretexto para golpes políticos palacianos; já tinhamos também denunciado o apetite voraz de que é vítima a Câmara Municipal de Lisboa! Que não obstante o pregão de falência técnica, leva tanta gente a interessar-se por ela, ao ponto de perder a cabeça ou de trocar de afeições políticas e partidárias. Tudo em nome de Lisboa...coitada.
Faltam poucos dias para as eleições, e enquanto a polémica sobre o aeroporto jaz em conveniente silêncio, eu só espero que Lisboa resista a tanto enlevo, tanta jura de amor, tanto plano e promessa de obra!
Não vai ser fácil.

quarta-feira, julho 04, 2007

“Oh pulgas lusitanas...”

Pimpões pela Europa, o mundo é pequeno para tanta divagação, parece assombração, pois como dizia vossa mercê o desenvolvimento sustentável, entre outras lindezas tamanhas, é o grande objectivo da nossa presidência! Se bem captei a mensagem, oh zé aperta o laço, aperta o cinto, não te esqueças de me apertar o pescoço, pudera, a vida corre-te bem, já viram que somos iguais aos outros, na fotografia, ao jantar, ouvindo Beethowen... Mas não é o que parece, também dá trabalho, amanhá ou depois vou ter que discursar aos africanos, em África!
Mas senhor ministro, aqui na terra como no mar, a gente não pesca nada, não temos vantagem! Oh rapaz, você está a propor que abandonemos a união europeia! Uma opinião que nem eu nem o governo subscrevemos. Tenha juizo, a dizer barbaridades na frente do senhor comissário, o que é que ele vai pensar de nós!
Seremos o farol que orienta os navegantes, a feira dos mil eventos, por mês, por dia, congressos ao pequeno-almoço, finais e finalíssimas de todas as espécies, concursos, ainda querem mais?! Estamos no mapa como nunca estivemos, olham para nós, olham para mim, por favor, não comparem...
Euro excluído, infra falido, sufocado em impostos, para onde irá o dinheiro, boa pergunta, essas maravilhas não passam pela minha algibeira, nem percebo metade do que diz, não distingo os órgãos para além dos meus, e ando bastante adoentado por sinal. Oiça, estamos fartos de pessimismo, de lamúrias, isso pertence ao passado, não há razão nenhuma para não estarmos na primeira linha do desenvolvimento sustentado...eu já disse esta frase… não vou portanto repetir-me, quero apenas reafirmar uma coisa muito simples – estou absolutamente convicto que será nesta presidência que a europa vai entrar nos eixos!
Não duvido, mas eu estou mais preocupado com o salário mínimo lá de casa, com a minha reforma, com o fosso… Oh homem acabe lá com essa conversa miserabilista, e além do mais egoísta, nós aqui a mudarmos o mundo e vem você com pieguices! Com franqueza.

Título inspirado num verso de Jorge de Sena. Texto inspirado nos discursos da presidência portuguesa da união europeia.

segunda-feira, julho 02, 2007

Dom Manuel II

No dia 2 de Julho de 1932, morreu em Londres, onde estava exilado, o último Rei de Portugal, Dom Manuel II. Um ataque súbito, inesperado, ceifou a vida do ainda jovem monarca, quando tinha apenas quarenta e dois anos.
Passaram entretanto setenta e cinco anos, uma eternidade na memória dos portugueses, pouco afoitos ou interessados em recordar a sua gesta ou raízes! Por isso a figura de Dom Manuel, à semelhança de outros reis da nossa história, pouco diz à grande maioria dos portugueses que, ou desconhecem, ou têm deles uma imagem distorcida pela propaganda republicana! É pena, e não é bom para ninguém. No caso deste infeliz monarca, é uma dupla injustiça, uma triste ingratidão.
Com as limitações do exílio, Dom Manuel foi um exemplo de português, afirmou sempre bem alto o seu patriotismo, onde quer que estivesse, em todas as suas iniciativas, sem nunca renegar os deveres de um monarca, ainda que deposto. E isso foi reconhecido mais tarde pelos próprios republicanos.
Em sua memória celebra-se hoje pelas 19 horas uma missa de sufrágio no Mosteiro de São Vicente de Fora.
Assistirão ao acto os Duques de Bragança, Senhor Dom Duarte e a Senhora D. Isabel.

domingo, julho 01, 2007

Travessa da Pátria

É uma rua apertada, já teve vida, foi alegre, mas hoje pouca gente lá mora!
Muitos dos que a abandonaram seguiram outros caminhos, preferiram outras avenidas, sem os sacrifícios da casa antiga ou a incomodidade de velhos compromissos. O condomínio fechado é outra coisa, não trouxe a independência esperada, antes pelo contrário, mas trouxe um momentâneo bem-estar, a sensação de riqueza e importância que alguns precisavam, e não lhes levo a mal por isso. Eu por cá continuo, não consigo mudar, e vou gastando as palavras na inutilidade do tempo ou com os raros habitantes que ainda frequentam tão remoto lugar.
Travessa da Pátria, é assim que se chama a minha rua e talvez porque sempre aqui vivi, não lhe encontro defeitos, acho-a do tamanho certo, com jeito e umas pequenas reformas, penso que cabíamos lá todos. Mas isto sou eu a imaginar, eu que estou agarrado ao passado, como dizem alguns dos meus antigos vizinhos.
Quem sabe se não têm razão!...

sexta-feira, junho 29, 2007

Bucha e Estica outra vez!

Às vezes sinto-me recompensado!
Escrevi tanto contra o emagrecimento da primeira Liga e nem passou um ano e já toda a gente concluiu que foi um disparate! Toda a gente, ponto e vírgula, porque os promotores da ideia ainda se refugiam em argumentos patéticos, que escondem as suas reais intenções! Se bem me lembro, o entusiasmo pela redução (para dezasseis clubes) partiu da santa aliança entre os três clubes do estado, o Madaíl das selecções, e o Governo, através do secretário de Fafe, o nosso conhecido Laurentino!
Sem me esquecer naturalmente do séquito de ‘jornalistas’ afectos aos interesses imediatos de Benfica, Sporting e Porto.
Lembramo-nos também que a decisão foi tomada, como é habitual, à revelia dos homens do futebol, foi assunto de colarinho branco.
Agora, o argumento patético da ‘aliança do ponto e vírgula’ não podia ser mais esclarecedor: - “os problemas do futebol português são profundos”! Grande novidade, mas ninguém se atreve a pôr o dedo na ferida, ninguém se atreve a apontar o verdadeiro caminho, porque esse caminho passa pela inevitável dieta das três vacas sagradas que sustentamos a pão-de-ló, enquanto o resto do pessoal se contenta com as migalhas.
Não há volta a dar, uma indústria que vive da competitividade, não pode manter e alargar sistematicamente o fosso que existe entre os três clubes ditos grandes e os restantes. E estamos todos de acordo que nada se resolve com reduções ou acrescentando voltas ao campeonato, resolve-se sim, com a valorização do campeonato interno em detrimento das provas europeias e das selecções. Ou seja, resolve-se no dia em que percebermos que as casas não se constroem a partir do telhado, mas a partir dos alicerces. E como esta confusão é um problema nacional, terá de ser o Governo a dar o pontapé de saída para ver se conseguimos construir um futebol competitivo e rentável. Para o efeito convém não esquecer três verdades essenciais: a selecção vem a seguir aos clubes, os campeonatos europeus vêm a seguir aos campeonatos internos, e quando falamos em clubes, são todos os clubes.
Saudações desportivas.

quinta-feira, junho 28, 2007

Rolam cabeças no interregno...

Uma tempestade na redacção, um curto-circuito entre o ‘pc’ e a impressora, a que se devem acrescentar algumas críticas da alta autoridade lá de casa, obrigam o autor do interregno a inverter a sua linha editorial.
A censura baseia-se no estilo e na tendência para ‘dizer mal de tudo e de todos’ realidade que os mais recentes episódios postais evidenciam, não nos restando outra alternativa senão rever critérios e valores.
Diga-se, por ser verdade, que ainda opus alguma resistência a mim próprio, mas no fim de uma longa e penosa negociação, a madrugada touxe o compromisso possível: passaremos a emitir um texto por semana, reservado apenas e só, a dizer bem da situação, incluindo necessáriamente nesse abraço todos os ódios de estimação que o autor vem cultivando com desagradável persistência.
Assim, a rubrica irá para o ar em dia certo e sempre com o mesmo título, a saber: “O meu primeiro Abril”!
Espero sinceramente corresponder.

terça-feira, junho 26, 2007

Títulos de terça-feira

Não é uma viagem pela bolsa, nem prevejo para hoje qualquer opa, trata-se de exaltar as palavras dos outros num contraditório ‘à maneira’:

"Na inauguração do Museu Colecção Berardo" – “Antes, o roteiro da arte contemporânea parava em Madrid. Agora começa em Lisboa” – José Sócrates, primeiro-ministro.
“Se não fosse a ministra da cultura e o primeiro-ministro, esta colecção não estaria aqui e esse seria o meu maior desgosto” – Joe Berardo, empresário.
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(Títulos do DN de hoje, terça-feira, 26/06/07)

“Carrilho critica acordo entre Estado e Berardo” – “É um acontecimento muito positivo com o qual só nos podemos congratular. Trata-se de uma colecção de arte sem igual entre nós. Sempre defendi este projecto, sempre incentivei o comendador Berardo nesse sentido…” (Mas)
…“O acordo alcançado justifica algumas preocupações. Nem o Estado esteve à altura de todas as suas responsabilidades na defesa do interesse público, nem o comendador Berardo teve a grandeza filantrópica, mecenática, que a sua exuberância financeira justificaria e o país sem dúvida esperaria.”
(…)
(Haveria outra solução para instalar o Museu?)
“Penso que sim, embora exigisse mais visão e perspicácia na negociação. Ainda que a única opção fosse a da compra (O Estado adquirirá até 2016 a colecção por 316 milhões de euros ou, em alternativa Berardo disporá dela como entender) o valor estabelecido deveria ter sido o do seu efectivo custo e não a partir da avaliação de uma leiloeira que naturalmente, multiplicou o preço por cinco ou por seis. O Estado corre assim o risco imprudente de se ver envolvido numa operação especulativa privada e sobretudo sem quaisquer meios para a controlar ou impedir. Temo que no futuro isto coloque problemas graves ao Estado português. Por isso a revisão do acordo deve estar já na ordem do dia…” – Manuel Maria Carrilho, ex-ministro da Cultura.

Excertos da entrevista realizada pelo jornalista Pedro Correia e publicada no DN de hoje, terça-feira, dia 26/06/07, que com a devida vénia transcrevo.

segunda-feira, junho 25, 2007

Recebe as flores…

Ângela, receba as flores que eu lhe dou…sinal de rendição aos atributos e virtudes de tão proeminente figura! Homenagem coroada com um beijo, no mínimo caloroso. Foi assim, ao ritmo de um tango discutível que o nosso José Manuel entrou indiscutivelmente para história de mais um congresso europeu, que se não é um concurso de dança, está cheio de bailarinos!
Não me perguntem por ninharias, não me questionem sobre passes, voltas e outras acrobacias, porque isso faz parte do espectáculo, todos sabemos que o concurso foi um êxito, o par polaco, desta vez constituído por irmãos gémeos, esteve quase a ganhar, mas a tradição ainda é o que era, e por isso, o par franco–alemão vai levando a àgua ao seu moínho. Os ingleses ganham sempre!
Quanto aos portugueses já se sabe que a vida deles é isto, querem é concursos de dança, porque se eles acabam ficam desempregados. Nem sabem o que hão-de fazer!
Para ser mais concreto em relação ao que de facto se passou posso adiantar que o bouquet tinha rosas, jarros vermelhos, hortenses roxas, e gipsofila branca para enfeitar.

domingo, junho 24, 2007

O Anuário das desigualdades

Como é hábito, uma vez por ano e em colaboração com o jornal “A Bola”, a empresa Deloitte publica sem o saber um retrato do Portugal contemporâneo. A fotografia é a preto e branco e refere-se ao futebol como poderia referir-se a todas as vertentes da vida nacional! É caso para dizer: diz-me o futebol que tens, que eu digo-te quem és.
Vamos então fazer uma breve análise comparativa dos números apresentados mas seguindo uma orientação diferente da Deloitte e com conclusões também diferentes.

Conclusões diferentes porque o relatório daquela empresa não é neutro, expressa uma mágoa, e não parece nada interessado em apontar o caminho da salvação!

A mágoa sente-se desde a primeira página quando insiste em comparar as receitas e as despezas dos grandes clubes europeus, aqueles que militam em Ligas competitivas e rentáveis, com as receitas e despezas de Benfica Sporting e Porto, que como sabemos, dominam há mais de meio século e de forma hegemónica uma ‘indústria’ futebolística falida, que sobrevive à custa de subsídios do orçamento de estado e de aldrabices. Curioso que não se tenha lembrado de comparar os salários mínimos em vigor nesses mesmos países, Espanha, Inglaterra, França ou Alemanha, com o miserável salário mínimo português!!! E por aí é que o estudo deveria ter enveredado mas para tirar outras conclusões, que nos deviam envergonhar a todos, e ser motivo de preocupação de Governos e polícias!

O que era interessante comparar e frisar, não era o fosso que existe entre Portugal e os seus parceiros europeus, em todos os domínios, esse é um problema de política interna, tal como a regeneração do nosso futebol também é. O que temos que comparar e está ao nosso alcance corrigir, diz respeito ao fosso existente entre os três clubes chamados grandes e os restantes clubes da Liga. E não é preciso inventar nada, basta copiarmos as reformas que foram feitas, por exemplo em França, ou aqui mesmo ao lado, em Espanha. Nesse sentido o estudo da Deloitte poderia por um momento esquecer-se de comparações megalómanas e perguntar-se porque é que um clube da segunda Liga espanhola é um potencial comprador de quase todos os jogadores que alinham na primeira Liga portuguesa! Aqui é que bate o ponto.

Para o fim deixo à Vossa consideração os números da vergonha:

Super Liga (2005/06)

Custos totais:

Benfica, Sporting e Porto – 180 milhões de euros

Restantes quinze clubes ---- 95 milhões de euros

(Belenenses) ………………(7,4)

Receitas totais:

Benfica, Sporting e Porto…….149,6 milhões de euros

Restantes quinze clubes……… 89,0 milhões de euros

(Belenenses) ……………………. (6,3)

Segmentação de receitas (televisão):

Benfica, Sporting e Porto………22,6 milhões de euros

Restantes quinze clubes………...23 milhões de euros

Conclusão: Face a estes números queremos organizar que tipo de competição (escolha uma das hipóteses):

1. Campeonato nacional?

2. Campeonato litoral (a norte do Tejo)?

3. Campeonato entre pobres e ricos, com os pobres a jogarem descalços e os ricos com botas cardadas?

4. Ou preferimos continuar a sustentar os sonhos europeus de três clubes à custa do empobrecimento geral?

Nota básica: Os Presidentes da Federação e da Liga deveriam ser obrigados a responder a este inquérito. E o Governo também.

sexta-feira, junho 22, 2007

Pinóquio aviador

Os jovens da minha idade lembram-se concerteza das aventuras do pinóquio que a ‘Colecção Manecas’ publicava com regularidade e que eram para mim de leitura obrigatória.
Ainda sei de memória alguns títulos, o nosso herói foi ás do pedal, militou entre leões e outros animais bravios, mas não me recordo de ter sido aviador! Claro que em tudo o que fazia mantinha alguma prevenção evitando expor-se a consequências funestas para o seu apêndice nasal.
Mas os tempos são outros e até o pinóquio se transfigurou, está mais à vontade, desleixou-se com o nariz, que segundo consta cresce todos os dias!
Deixemos estas recordações vagamente senis para falarmos de coisas mais interessantes:
Ficámos então a saber pela imprensa diária que afinal existe uma espécie de conspiração ou negociação de corredor entre o Governo e a CIP para encenar estudos e mais estudos sobre a localização do novo aeroporto, embora a decisão já tenha sido tomada há muito! Parece inclusivamente que se fizeram promessas aos autarcas do Oeste que são agora difíceis de quebrar. E parece também que muitos dos proprietários dos terrenos a expropriar já terão actualizado os respectivos valores matriciais, o que em caso de recuo comportará muita frustração.
Assim quem continua a ficar mal na fotografia é o Governo, que enveredou pelo pior caminho possível, evasivo, esconde-se dos portugueses, anuncia verdades que logo a seguir vem desmentir, governa aos solavancos, e parece unicamente preocupado com as sondagens.
A própria comunicação social, até à data indefectível, começa a dar sinais de impaciência. E desconfiança. O país é o que se sabe, desconfia de si próprio.

quinta-feira, junho 21, 2007

Ataque ao Portugal Profundo

Não é a primeira vez, aconteceu há tempos por causa da Casa Pia, a blogosfera está a tornar-se incómoda, o poder republicano gosta de falar em liberdade mas não sabe conviver com ela, foi assim com o partido republicano que mal chegou ao poder cerceou as liberdades que ele próprio desfrutava durante a monarquia constitucional. Sobre a segunda republica que muitos gostam de disfarçar com a expressão ‘estado novo’, o melhor é não falar, mas o que dizer desta terceira república que chegou em Abril e prometia liberdade às catadupas!
Não há que enganar, os tiques ditatoriais multiplicam-se, ai de quem se atreva a discordar, a elevar a voz contra o arbítrio, contra o compadrio, contra a corrupção. O princípio nesta matéria parece claro: a justiça para os outros, as garantias para nós! Garantias até à exaustão, até ao esquecimento, arquive-se e ponto final.
Questionado, o discurso oficial justifica-se: o sistema está a funcionar, a separação de poderes é um pilar do sistema, devemos confiar na justiça!
Os factos porém desmentem esta esperança: as delongas processuais subvertem completamente os mais elementares princípios de justiça, e criam ao sabor das conveniências uma nova classe de cidadãos, os arguidos. Estes, uma vez constituídos, e se não tiverem por si quem lhes valha, estão condenados a apodrecer numa espécie de limbo, no desespero de uma justiça inútil.
Cientes da sua obra, os detentores do poder passaram a utilizar esta arma para intimidar todos aqueles que se atrevem a expor as mazelas da república.
Por essa razão o autor do Portugal Profundo foi constituído arguido, porque levantou a questão do diploma de Sócrates, como já tinha denunciado a impunidade no processo da Casa Pia.
Sem mais delongas daqui lhe envio uma mensagem de solidariedade.

terça-feira, junho 19, 2007

Voando entre Ota e Opa

Comecemos pela jogada de Joe Berardo, que visa em última análise apropriar-se da máquina de propaganda do nacional-benfiquismo em vigor, realizando ao mesmo tempo um desígnio preconizado por Sócrates quando ainda era comentador televisivo: ‘Lisboa já merece ter um campeão europeu’! E não se referia ao salário mínimo nacional, posicionado como sabemos, e sofremos, bastante abaixo da média europeia, referia-se, isso sim, à chamada Liga milionária!
Para que o projecto se concretize em beleza, para que o clube da Luz se transforme de novo no esplendor de Portugal, símbolo da emergente quarta república, é preciso em primeiro lugar abater definitivamente o poder do norte, e para isso contamos com a crise generalizada da indústria, quase toda sedeada naquela região, e com a dependência cada vez maior da nossa economia dos subsídios governamentais, naturalmente centralizados em Lisboa. Esta estratégia é complementada com a ‘justiça’ do apito dourado, mantendo assim a pressão sobre todos os clubes (e autarcas) do norte, especialmente sobre o presidente do Futebol Clube do Porto.
É preciso no entanto secar uma fonte de alimentação laboriosamente construída pelos manos Oliveiras nos últimos trinta anos, as transmissões televisivas de futebol! À primeira vista não se percebe para que precisa o clube da águia de mais televisão, se já abre todos os dias os telejornais dos canais públicos e privados, existam ou não notícias relevantes! Mas a lógica do mercado é esta, o país é pequeno e não comporta dois galos na mesma capoeira, ainda por cima um galo do norte, umbilicalmente ligado ao Porto. Em abono desta tese veja-se como reagiu Joaquim Oliveira à Opa de Berardo.
Mas o mais interessante disto tudo é a previsão de um reacender da guerra norte/sul com o futuro aeroporto metido ao barulho! Ninguém quer falar sobre o assunto mas a localização do novo aeroporto em Ota, faz sombra e põe em cheque o movimento do aeroporto Sá Carneiro, e não é por acaso que a Associação Comercial do Porto co-financiou o estudo sobre Alcochete, como se mostra disponível para apoiar um outro estudo sobre a alternativa “Portela mais um”.
E volta a falar-se de regionalismo como única forma de evitar por um lado, a desertificação do país, e por outro, opor um dique à antropofagia da capital, transformada ela própria em instrumento perverso da globalização. Perverso porque ao contrário do que têm feito as regiões autónomas, que investem bem o dinheiro que recebem, o poder central vem desbaratando os enormes recursos que controla, ao sabor de apetites e conveniências partidárias.
Estou porventura a delirar mas não fui eu que denunciei a aliança perigosa e perniciosa entre o futebol, a política, e os negócios menos claros, foi a doutora Morgado!
O que eu sempre denunciei e onde ando muito desacompanhado, tem a ver com a vocação perigosa e perniciosa da república para utilizar o futebol como elemento de propaganda política.
Basta lembrarmo-nos da plateia de notáveis na célebre final de Sevilha!

sábado, junho 16, 2007

Um clube do outro mundo

O sotaque madeirense esconde afinal um coração encarnado, não estava ali para ajudar o Marítimo, o Nacional ou mesmo a Camacha, veio em socorro do Benfica, que precisa de resolver os seus problemas e todos somos poucos nesse desígnio nacional.
A verdade é que o Benfica cresceu mais que o país, é um clube universal, alguns vão mais longe e sugerem que é um clube do outro mundo, também é pacífico que o que é bom para o Benfica é bom para Portugal, e vice-versa, então porque esperamos para fazer as necessárias reformas que recoloquem o clube da Luz no seu justo pedestal!
Apressemos o novo aeroporto que decerto comportará uma pista especial para as tais viagens interplanetárias! Porque hesitamos nos símbolos nacionais, uma águia poisa em qualquer quina! Por quanto tempo mais vamos tolerar que o Porto compre os jogadores que o Benfica quer comprar! E mesmo sobre as leis de jogo, está tudo em aberto.
Porque tudo é preferível ao sobressalto constante em que vivemos, a esta inquietação nacional, sem sabermos se o Benfica está bem ou se precisa de mais alguma coisa, sujeitos a que o seu presidente nos interrompa o jantar a queixar-se de perseguições várias. Nós queremos ajudar, isso que fique claro, não queremos por exemplo ver o Benfica envolvido em negócios duvidosos, não queremos ser tomados por parvos com a recente aparição da figura bolsista do investidor benfeitor, queremos no fundo um pouco de paz e sossego. E alguma decência por parte dos organismos públicos e semi-públicos.
E gostaríamos de saber uma coisa: quando o Benfica ganha, quem é que perde?

quarta-feira, junho 13, 2007

Camões por nós

Vi jeitos do homem ser saneado nos dias tumultuosos de Abril, associaram-no ao Estado Novo, às longas celebrações do dez de Junho, à guerra colonial, por tudo isso, Camões estava no banco dos réus!
Mas a memória é curta, porque por outras provações já tinha passado o poeta enquanto morto!
Pode dizer-se que tudo começou em 1880, numa iniciativa para celebrar o terceiro centenário da sua morte, data entretanto adquirida através de um documento perdido na Torre do Tombo. As comemorações foram um êxito o que aguçou o apetite do emergente partido republicano decidido a apropriar-se de Luís Vaz. Apropriou-se primeiro da Câmara de Lisboa e de imediato decretou o dia dez de Junho como feriado municipal. A estratégia era clara, tratava-se de assegurar uma solenidade laica e republicana que fizesse o contraponto com a festa religiosa e popular do Santo António. Aproveitava ainda o clima de confusão e de arraial para realizar as suas manifestações contra a monarquia.
Camões estava de novo em maus lençóis, tornara-se republicano e ateu! E carbonário!
A partir daqui, a vida do poeta transformou-se num verdadeiro inferno:
O Camões republicano é sucessivamente confrontado com o verso e o reverso da mesma medalha, exibe pedigree e é molestado por isso, vai defender as colónias e é criticado por isso, sem saber mais o que fazer, disfarça-se com múltiplos apelidos, e hoje em dia, no seu dia, faz tournées para animar os emigrantes.
Se fosse vivo, se soubesse da independência a perder-se, exclamaria como da outra vez – “Antes a morte que tal sorte”!

Post-Scriptum: Para memória futura esclarece-se que a expressão “Dia da Raça” foi introduzida em 1924, curiosamente ainda na vigência da primeira República. O Estado Novo, uma vez entronizado, recuperou aquela expressão, instituiu o feriado nacional, passando o ‘dez de Junho’ a ser também designado como Dia de Portugal. Com o 25 de Abril de 1974, a terceira República resolveu apagar a Raça e exaltar a emigração.
Portanto, e até ver, a certidão de narrativa completa do ‘dez de Junho’ é a seguinte: Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas.