quinta-feira, novembro 29, 2007

REN por toda a parte!

O sítio de que vos falo esteve outrora coberto de vinhas, dava bom vinho, algum azeite, ainda hoje existem vestígios de adegas e lagares, e um velho moinho que já deu pão atesta que por ali sopra vento antigo.
O primeiro choque, a primeira agressão a que assisti sem perceber, veio do poder central: a segunda república entendeu subsidiar o trigo sem cuidar dos danos colaterais. Os rendeiros agradeceram e arrancaram as vinhas, teriam menos trabalho e não teriam que dividir os frutos com o proprietário. Mas naquelas quintas e courelas o trigo nunca seria viável, o vinho era… e seria. Não adianta agora carpir mágoas, o erro está feito e oferecem-se alvíssaras a quem descobrir uma cepa nas freguesias da Caparica e Trafaria.
O segundo choque veio com o poder local! Alheios à região, os eleitos curavam de ser eleitos e nessa tarefa se consumiam! Em nome do voto ou da disciplina partidária tudo consentiram, a floresta de betão cresceu muito e desordenadamente, os bairros clandestinos são o verdadeiro emblema de trinta anos de ditadura autárquica. Apesar de tudo, nesta ponta ocidental do concelho de Almada houve quem resistisse á especulação imobiliária, houve quem conservasse, com maiores ou menores dificuldades, património legado, e por isso a paisagem ainda mantém algum equilibrio e beleza.
Mas o terceiro choque aí está, um choque eléctrico a cargo das todo poderosas empresas públicas! A história visível conta-se em poucas linhas: - a EDP deu à luz uma filha chamada REN, cuja actividade consiste em semear um leque variado e profuso de postes e torres metálicas de alta e altíssima tensão transformando este pedaço de Portugal num gigantesco paliteiro! E não se incomoda muito com o plantio, tanto pode espetar um poste em cima de uma capela setecentista, como de um moinho milenar, pode ser rente a uma escola ou perto das casas dos moradores, é onde lhe calha! Entretanto, face aos legítimos protestos dos habitantes, que correm o sério risco de virarem lâmpadas fluorescentes, a edilidade acordou finalmente do seu longo torpor para clamar em uníssono - aqui d’el rei! Que ‘este progresso’ não justifica tudo.
Será que ainda vamos a tempo?!

segunda-feira, novembro 26, 2007

Bons sinais

Uma notícia aqui, uma opinião ali, um evento que se anuncia para amanhã, começamos a descobrir que andávamos a ser enganados, que a verdade histórica estava subtilmente amordaçada, mal contada, ou simplesmente esquecida! Também li o artigo de Pulido Valente, ele próprio um dos desenganados, afinal o Rei Dom João VI foi um estadista notável, não o imbecil que Junqueiro e as repúblicas, de um lado e do outro do Atlântico, se esforçaram por fazer crer. O Rei que Napoleão não conseguiu destituir ou prender, mantendo assim a independência do Reino, o Rei que fabricou o Brasil, unificando o maior e mais poderoso País da América do Sul, dando-lhe o estatuto de Reino, que teve o talento e a previsão de sonhar o Reino Unido de Portugal e Brasil, que ainda hoje é desígnio maior de quem ainda sabe sonhar, esse Rei só merece a nossa gratidão e homenagem. E quando digo nossa, refiro-me naturalmente a portugueses e brasileiros.
Os manuais escolares anti-portugueses e anti-brasileiros ainda insistem que fugiu para o Brasil cumprindo instruções dos ingleses! Seria caso para indagar se era do interesse de Portugal que Dom João VI fosse preso e humilhado pelos franceses como aconteceu com o Rei de Espanha, destituído sumariamente por Bonaparte! Claro que não era, e daí também a diferente designação que espanhóis e portugueses dão à mesma realidade bélica que constituiu a expulsão dos invasores: enquanto os espanhóis lhe chamam ‘guerra da independência’, porque de facto a tinham perdido quando perderam o seu rei, os portugueses chamam-lhe ‘guerra peninsular’ porque mantivemos a independência, uma vez que o nosso Rei continuou livre e a dar as suas ordens a partir do Rio de Janeiro.
Mas Pulido Valente tem razão quando reconhece a tentativa de silenciar e menorizar a guerra que travámos contra o invasor jacobino: - “… Porque sucedeu isto? Por causa da subordinação cultural de Portugal à França e ao mito da França como ‘libertadora da humanidade’ (que não se adaptava bem à razia de Bonaparte). E por causa do republicanismo, que nunca desculpou à Igreja, ao ‘Antigo Regime’ e à própria Monarquia liberal a defesa do país contra a ‘revolução’, mesmo sob a forma de império napoleónico. O homem da época passou a ser Gomes Freire de Andrade, um traidor que lutou até ao fim pelo inimigo. Quando por aí a inconsciência política resolve apelar ao patriotismo, nunca me esqueço da omissão e distorção da nossa guerra da independência contra a França. O Portugal moderno nasceu torto. Como, de resto, se viu no PREC”.

Fonte: Jornal Público de 23/11/07.

sexta-feira, novembro 23, 2007

A lógica orçamental

Do orçamento retenho um momento do ministro das Finanças… que me fez sorrir! Dizia ele que em Portugal, ao contrário de outros países, ainda se considera um feito digno de nota, fugir ou defraudar o fisco. Por isso garantiu que o combate à evasão e à fraude fiscal vai continuar e com vigor acrescido, política que sustentou no seguinte pressuposto: - se os incumpridores pagassem os impostos que não pagam, mas deveriam pagar, o IRS de cada português poderia ser desagravado em cerca de 38%! Ouviram-se palmas. Foi neste momento que sorri. Naturalmente que o Ministro sofre, como todos nós, da falta de um raciocínio lógico, a mesma deficiência que explica o insucesso escolar de muitos dos nossos jovens! Então se os portugueses confiassem no Governo, se tivessem a garantia de uma correspondência tão linear entre o seu gesto cumpridor, e o benefício que lhes adviria com uma previsível baixa de impostos, se tivessem a certeza, ou ao menos a esperança, de um futuro melhor, acha o Senhor Ministro que não seriam os primeiros a cumprir os seus deveres fiscais, ou pensa que deixariam sem censura quem não o fizesse também!
A questão é diferente e vai para além deste orçamento: - porque será que em determinados países os respectivos habitantes ‘sentem’ que fugir ao fisco é um acto quase patriótico?! Ou dito de outra maneira, porque será que esses povos não confiam nos seus governantes?!
Ora aqui está um problema que pode servir para exercitar o raciocínio lógico.

quinta-feira, novembro 22, 2007

Pobres e mal agradecidos

Desde que o homem chegou que não falhamos uma fase final, situação que nunca vivemos no passado, foi também ele que incendiou o ardor patriótico que envolve a selecção, que faz sonhar um povo descrente, em crise de identidade, que apenas se revê naqueles onze rapazes a correrem atrás de uma bola, e espera deles a absolvição de todos os pecados! Tudo isto se deve ao ‘tio’ Scolari.
Mas como na fábula, já se sabia que ‘quem semeia ventos colhe tempestades’. Não adianta explicar aos portugueses que a selecção não é tão extraordinária como eles imaginam, ou como os media diáriamente nos impingem. Temos de facto dois ou três jogadores acima da média, titulares indiscutíveis em grandes clubes europeus, mas que podem estar lesionados ou em melhor ou pior forma, porque os restantes são apenas bons jogadores, semelhantes a muitos que se encontram por esse mundo fora. Scolari bem nos avisa, mas o povo não quer saber, avança para o estádio plenamente convicto de que os ases lusitanos infligirão a desolação e a derrota a quem se atreva desafiá-los. Ronaldo e Quaresma hão-de trespassar as defesas com fintas humilhantes, a goleada é obrigatória!
Quando finalmente verificam que os adversários resistem, e que para chegar ao próximo Europeu foi preciso sofrer a bom sofrer, os ‘patriotas da selecção’ não se conformam, desatam num berreiro, e vá de zurzir no pobre seleccionador nacional! É caso para perguntar: - o que teria acontecido se não têm conseguido o apuramento?!
Scolari deveria ter falado comigo antes de aceitar tal tarefa, este pesadíssimo fardo de aturar uma nação alienada, que não tem onde se agarrar, que não vislumbra horizonte… ou então, se o homem insistisse, citaria os romanos quando por aqui passaram: - “não se governam, nem se deixam governar”!

sexta-feira, novembro 16, 2007

O organismo independente

Alvíssaras!
Algures, no meio desta floresta de enganos, plena de suspeições, onde a justiça tarda e a culpa morre solteira, aqui, nesta nesga do paraíso irreal, foi proclamado o seguinte edital: existe uma entidade, um organismo, completamente independente, acima de qualquer suspeita, imune a pressões, e que não se desvia um milímetro das suas excelentes razões! Razões técnicas, naturalmente, ou outras, se for caso disso.
O nome do organismo? – LNEC
Porque foi convocado? - Para arbitrar o jogo entre a OTA e ALCOCHETE, equipas que disputam árduamente a localização do futuro aeroporto de Lisboa. Ou será um novo aeroporto estratégico para o país?!
Seja o que for, ficámos a saber que tínhamos um organismo com esta qualidade e calibre, o que ía levando o governo a demitir-se de funções entregando-lhe a responsabilidade da escolha! O governo já desmentiu, assegura que lhe cabe a palavra final, mas foi por um triz!
Não sei o que pensar! Fico triste e contente ao mesmo tempo: contente, porque foi com alívio que vi o governo recuperar o seu estatuto; triste, porque afinal se temos uma entidade assim, que não se deixa manipular por ‘lobies’ e partidos, deveria ser ela a governar, e quem sabe, encarregar-se de outras tarefas bicudas, por exemplo, nomear os árbitros do futebol, eu sei lá!
Saudações monárquicas.

quarta-feira, novembro 14, 2007

O caminho de Tordesilhas

Advertência ao leitor – este não é um texto sério no sentido comum do termo, desvia-se do padrão, é um sonho que acordou na recente cimeira Ibero-Americana, em que foi visível… a invisibilidade luso-brasileira. Diga-se que sem proveito nem glória, porque enfraqueceu simultaneamente o mundo hispânico e o universo lusíada.
Não estou a imaginar fórmulas mais ou menos sofisticadas de neo-colonialismo, nem quero recuar no tempo, mas apenas constatar que é do interesse de todos os ibero-americanos reconstruir um entendimento sólido em torno de uma história comum, entendimento assente no respeito mútuo, e que salvaguarde a duplicidade das respectivas raízes ibéricas. Mas tem que ser um acordo útil, que consiga fazer frente à clara hegemonia anglo-americana, que vem ditando as suas leis e não está por certo interessada no ressurgimento de uma forte concorrência. Aquela que traz à memória Tordesilhas! Para o efeito conta com a pulverização das repúblicas sul-americanas, fomenta o divisionismo, e não aprecia nada a capacidade representativa da monarquia espanhola. Conta também com a fragilidade lusitana, incapaz de assumir e corporizar um projecto que inclua os interesses e as aspirações da lusofonia. Daí a pobreza participativa na cimeira, que acabou naturalmente por afectar também o Brasil. Penso aliás que Portugal deveria propor outro equilibrio para as próximas cimeiras: por um lado, considerando o peso relativo do Brasil face ao bloco hispânico, quer em termos territoriais, quer em termos populacionais, por outro lado, tendo em conta a capacidade representativa portuguesa em termos de ‘ponte’ para o continente africano.
Claro que estas propostas e este tipo de protagonismo só fazem sentido e só são exequíveis com uma monarquia. Daí a advertência inicial.
Saudações monárquicas.

terça-feira, novembro 13, 2007

Futebol a quanto obrigas…

A televisão pública deve estar atenta aos fenómenos que ocupam e preocupam os portugueses e um desses fenómenos é sem dúvida o futebol. A alienação está identificada e denomina-se “deslocação de interesses”. Persiste endemicamente no terceiro mundo, e no continente europeu, é uma herança das ditaduras. Uma das bolsas mais resistentes na Europa é o caso de Portugal, onde o futebol assume a condição de desígnio nacional, abre e fecha telejornais, suporta três jornais desportivos diários, ocupando ainda espaço e tempo mediático em proporções que raiam o insuportável.
Apesar de todo este entusiasmo e interesse, o nosso principal campeonato sobrevive em falência técnica, depende exclusivamente de receitas extraordinárias e dos vastos subsídios, encapotados ou não, provenientes do orçamento de estado. É um campeonato reduzido a três clubes, que há mais de meio século disputam, praticamente sem concorrência, os primeiros lugares, clubes esses que congregam a simpatia de mais de noventa por cento dos adeptos, outra peculiaridade portuguesa que concorre para a sua insustentabilidade competitiva e financeira.
Curiosamente não foi sobre esta realidade que os ‘prós e contras’ de Fátima Campos Ferreira se debruçaram, o que poderia ser curial e interessante! Não, a grande preocupação nacional versa sobre a arbitragem e sobre as tecnologias que a poderão auxiliar a diminuir os erros… no tal campeonato em que ganham sempre os mesmos!!!
Dizem que o ridículo mata, acredito, mas não em Portugal.

sábado, novembro 10, 2007

“Quem tem medo do raciocínio lógico?”

É este o título de uma pequena crónica assinada por SAR o Duque de Bragança, na revista “Magazine Grande Informação”. Na sua dupla qualidade de pai e raiz (composição que transforma a terra em país), o Senhor Dom Duarte vem incentivar os portugueses a corrigirem comportamentos ilógicos, por certo adquiridos nos últimos séculos, e que poderão estar na origem do nosso constante declínio. Enquanto lia não pude deixar de relacionar a oportunidade do tema com um recente relatório do governo suíço que colocava a escolaridade da comunidade portuguesa no fim da escala em termos de resultados. Seremos portanto congenitamente estúpidos?! Ou somos estúpidos porque queremos ser estúpidos?!
O Duque de Bragança responde: “Estudos demonstram que a inteligência média dos portugueses é semelhante à dos outros europeus, embora com uma grave deficiência ao nível do raciocínio lógico. Mas a inteligência lógica adquire-se com uma educação apropriada, e a falta desta na escola está na base da maioria dos nossos problemas. Sabemos o que queremos, mas frequentemente não actuamos em conformidade – os ‘verdes’ não votam nos partidos ecologistas, os cristãos não votam nos partidos de inspiração cristã, e por aí fora. Relativamente ao ensino em Portugal os governos colocam entraves à liberdade de escolha pelos pais…Seria bom que os eleitores se organizassem e obrigassem os Deputados a legislarem no sentido de dar liberdade de escolha às famílias. Mas talvez nos falte a lógica necessária para usar os instrumentos da Democracia de modo adequado…”.

Fonte: MGI de Novembro/Dezembro.

terça-feira, novembro 06, 2007

Beato Nuno de Santa Maria

Entro no café habitual, convoco o jornal da casa, e disparo na direcção certa: pode um homem que andou a matar castelhanos ser canonizado santo ou beato pela Santa Madre Igreja?! Apanhado de surpresa o dono do café reagiu afirmativamente: - matar ou expulsar castelhanos que nos invadem a terra para nos tirar a independência e o pão, não só não é pecado como é um dever. E reza a história que Nuno Álvares foi sempre magnânimo para com os vencidos. Concordei e lastimámos a falta que nos faz um Condestável à altura das circunstâncias. Por certo que um homem desses, capaz de abdicar da glória terrena para se recolher a um Convento, seria sempre um exemplo para qualquer sociedade. Ainda mais para a nossa, desmoralizada, sem confiança, nem rumo.
A bica é por conta da casa, insistiu o patrão.
Hoje o calendário religioso assinala o dia do Beato Nuno de Santa Maria.

segunda-feira, novembro 05, 2007

Sol de Outono

O Belenenses resolveu animar o campeonato e foi ao Porto arrancar um empate. Quem continua a jogar para o empate e pode perder é o edil de Gaia. Ao apostar na ratificação do Tratado de Lisboa deixa o campo livre para que Sócrates arrisque cumprir promessas eleitorais, viabilizando o referendo. É um palpite deste interregno.
Catalina Pestana continua a incomodar a paz podre que reina na república. Vai avisando que as vítimas de abusos sexuais na Casa Pia podem vir a ser silenciadas definitivamente. Porque sabem demais. O que todos sabemos é que neste país a justiça não julga a nomenclatura. E tudo começa a fazer sentido: as eleições forçadas para levar ao poder o partido acossado no processo de pedofilia; a substituição de Souto Moura; a inexistência de oposição, prisioneira de pactos de justiça, e de outras trocas e favores, e quem sabe, a própria eleição presidencial.
Os Bispos queixam-se do governo e da excessiva influência da maçonaria nas decisões políticas. Mais vale tarde do que nunca, porque é este o caminho que a Igreja deve seguir em Portugal: demarcar-se claramente desta república, dita laica e socialista, sigla que esconde o seu verdadeiro e permanente desígnio – substituir a religião católica por uma religião de estado.
Termino com a curiosa opinião de Saraiva, director do semanário “Sol”, sobre as causas do declínio do BCP: “…A grande lição a retirar do caso do BCP é que, quando o capital é muito fragmentado, tem de haver um núcleo duro estável com condições para exercer o poder de uma forma coerente… se esse núcleo duro não existir, o banco – por mais dinheiro que ganhe – é sempre vulnerável…Aliás a História de Portugal é um exemplo disso: poucos países da Europa viram passar pelo seu território tantas fortunas. As fortunas de três impérios – no Oriente, no Brasil e em África. E, no entanto, Portugal é hoje um dos países mais pobres da Europa”.
Não era esta a intenção do cronista, mas não pude deixar de pensar no núcleo duro e estável que a Instituição Real sempre representou, garantindo assim as condições de sobrevivência e independência nacionais.

quinta-feira, novembro 01, 2007

Dia de Todos os Santos

Nesta guerra das datas, conspiração surda (e suja) que pretende apagar da nossa memória a memória cristã, apagando ao mesmo tempo a nossa identidade, lembrei-me de reproduzir um excerto de um postal, escrito há mais de um ano, a que chamei – “A guerra dos dias”:

“ É uma espécie de contra-cruzada lançada de longe pelas forças ocultas que não se conformam com a herança Católica, que não se conformam com o calendário gregoriano, nem se conformam com a história!
Se pudessem eliminar o dia de Natal, o seu significado religioso, não hesitavam.
Não se trata, infelizmente, de mais uma teoria da conspiração, porque já tentaram fazê-lo explicitamente a seguir à Revolução Francesa, mudando o nome dos meses, apagando os dias santos, com o objectivo de edificarem uma religião de estado…”.

Não me parece que tenham desistido.
Hoje, ainda é Dia de Todos os Santos.

terça-feira, outubro 30, 2007

Honrosas excepções

Nem tudo está perdido, ainda existem autarcas que desafiando o legalismo estrito em que algumas empresas públicas se movimentam, não têm dúvidas de que lado é que está a razão! Fátima Campos, presidente da junta de freguesia de Monte Abraão soube distinguir entre o interesse concreto que representa a saúde dos habitantes que a elegeram e o denominado interesse geral que a REN anuncia em abstracto. Para levar a sua avante enfrentou a paralisia da Câmara de Sintra, o Supremo Tribunal Administrativo, que decidiu a seu favor, e ainda, a enorme inércia nacional.
Esta vitória jurídica pode ajudar noutros casos e noutras lutas.

Outro exemplo de reacção proveniente da sociedade civil surge em Almada, mais propriamente no Lazarim: “ O Colégio Campo de Flores começou esta semana a efectuar medições do campo electromagnético através de um medidor idêntico ao que a REN utiliza e que custou 15 mil euros. O director da escola explicou ao DN que o aparelho está ligado e que os dados serão disponibilizados na Internet. As medições estão a ser feitas junto ao local onde vai passar a linha de muito alta tensão que irá ligar a subestação da Trafaria a Fernão Ferro, Seixal. Apesar da linha passar a oitenta metros da escola, João Almeida acredita que quando for ligada, em Março, os valores serão respeitados. As medições são uma medida preventiva para descansar quem aqui trabalha e quem aqui tem filhos, mas vamos imputar os custos à REN, assegura”.

Fonte: DN de hoje.

sexta-feira, outubro 26, 2007

Memória

Ainda não é tarde para a memória, ainda vou a tempo de deixar no interregno uma lembrança do outro tempo em que privei e aprendi com João Carlos Camossa Saldanha. Foi nos anos que se seguiram à revolução de Abril, na luta política travada dia a dia, às vezes, hora a hora, nas discussões que corriam pelas madrugadas, na ilação surpreendente… Não possuo méritos nem envergadura para escrever sobre João Camossa, mas descobri um texto muito bonito nos ‘cadernos do partido popular monárquico’, da autoria de Tereza Martins de Carvalho, que poderia ter sido escrito por ele:

“Comuna foi a palavra lançada a desfavor dos ventos e marés dos socialismos abundantes depois do 25 de Abril e eis que ficou enigmática e brilhante como estrela nova em céus desvendados, portadora de múltiplas ressonâncias, tanto revolucionárias como longa e medievalmente tradicionais.
E esta palavra, assim aparentemente paradoxal que sugere subversão, parece acordar também o eco longínquo de certa liberdade julgada há muito extinta no altar das massas e do Estado: a liberdade de cada um.
Ao mesmo tempo desperta em nós o desejo e as forças de um amor comum por algo de comum, ainda indefinido mas perto de nós, alcançável, interpretado e açambarcado por sistemas e partidos mas que os ultrapassa sempre, os gasta e corrói porque nasce a cada momento da liberdade de cada momento.”

quinta-feira, outubro 25, 2007

Semelhança

Entre passadeiras encarnadas
Dois presidentes, e atrás
Duas bandeiras descoroadas,
Renegam
A praia da descoberta
E outro ultraje
Que podes sentir no Hermitage.

terça-feira, outubro 23, 2007

Pobres

Reflectir sobre a pobreza, quando ela nos passa ao largo, é uma actividade interessante, a nossa televisão debruça-se muito sobre o tema, e ontem, sem querer, lembrei-me de um dos personagens do escritor russo Nicolau Gogol. Era o homem rico da terra, que à saída da Missa e no adro da Igreja gostava de se inteirar sobre o estado de pobreza dos seus conterrâneos! Muito meticuloso nas perguntas, aprofundava o assunto até ao ponto de saber exactamente o que lhes faltava para deixarem de ser pobres. Depois, despedia-se até ao próximo Domingo.
Mas a primeira parte do programa, especialmente a intervenção de Bruto da Costa, acabou por clarificar a questão dos números: somos dois milhões de pobres, ou seja, 20% da população, e desses dois milhões, 80% são pobres porque trabalham ou estão reformados! Ficámos também a saber que para esta maioria esmagadora não existe qualquer política especial, nem para ela são canalizados quaisquer fundos para além de complementos de reforma para esconder uma indignidade maior.
Outra verdade impossível de escamotear sentencia que se trata de um problema que em trinta anos nenhum governo de Abril conseguiu sequer atenuar!
Com estas informações desligámos o televisor incapazes de assistir ao massacre da pobreza aliviada… de um pobre deste país.

sexta-feira, outubro 19, 2007

Porreiro, pá!

Seguiu-se um abraço, veio depois o champagne. Foi assim que Sócrates e Durão Barroso selaram o acordo entre os 27 estados e que ficará conhecido como o Tratado de Lisboa. Os artistas são portugueses, não vale a pena acrescentar mais nada. Do oito ao oitenta, parecem longínquas as verdades de Salazar que dizia - “Portugal não é só uma nação europeia e tende cada vez mais a sê-lo cada vez menos”. Hoje as caravelas viajam pela europa, dobram tormentas, para trazer especiarias sob a forma de fundos comunitários, provávelmente as últimas antes de caírmos na realidade.
O que é curioso no meio desta euforia, é que ao contrário da maior parte dos outros estados, Portugal não regateou nada para si, basta-lhe a assinatura do tratado para poder levantar o cheque. O argumento português é imbatível:- uma união europeia forte é garantia de que não seremos despedidos. Os donos da união estão contentíssimos, nunca viram empregados tão dedicados, e tão competentes, mais europeus que a própria europa!
Cá em baixo, alheios, os portugueses preparam-se para mais um fim de semana a contar os tostões.

quinta-feira, outubro 18, 2007

Quatrocentos

É apenas um número e corresponde ao número de postais que levo escritos neste interregno, um caminho que se aproxima a passos largos dos três anos de idade e quem sabe, do seu limite. Olhando para trás tenho a sensação que passei o tempo a escrever o mesmo postal! E com um único título – “Deus, Pátria, Rei”.
Relembro que o interregno é essa ausência, a ausência de Deus na cidade dos homens, que reduz a dimensão (e o valor) da vida humana à economia dos seus aspectos utilitários, onde não entra a noção de eternidade. A apregoada separação entre a Igreja e o Estado esconde afinal o divórcio entre o homem e Deus. Nestas circunstâncias deixam de existir valores permanentes, tudo é efémero, e os poucos que resistem, porque não têm representação adequada, relativizam-se e tornam-se descartáveis. Assim a Pátria é hoje uma vaga memória colectiva, susceptível de ser vendida ou alocada, de acordo com a melhor oferta. Não admira que o Príncipe tenha sido expulso ou assassinado, ele era a figura humana da Pátria, a sua defesa, a sua representação política, portanto, um empecilho para os apetites das grandes potências, um alvo a abater pelos traidores. É preciso esclarecer que a Pátria não é um hino, ou um monumento ao passado, é a vida da própria comunidade, a sua história, a sua cultura, é território, é independência conquistada em mil batalhas, e em outros tantos gestos de nobreza!
Nem todos os povos ou nações conseguiram construir pátrias livres e independentes, faltou-lhes por certo algum dos pilares que enunciei, faltou-lhes sobretudo a vontade que hoje nos vai faltando.

terça-feira, outubro 16, 2007

O zero absoluto existe

Andava à procura de um título que definisse o programa de prós e contras que a televisão pública emitiu ontem à noite, encontrei-o com a ajuda de alguém a quem recorro nestas emergências e que me sugeriu que conjugasse o verbo existir com o “Z” daquilo que não existe, não fui tão longe, mantive o “X” que retrata bem este país empatado, incógnito, de pais incógnitos e cuja memória se reduz à cantoria do hino!
Na plateia estavam combatentes do Ultramar, estavam alguns patriotas, muitos traidores, estavam refugiados, estava um guerrilheiro da Frelimo, um ministro da Guiné, estavam comissários de Abril para bater palmas, a irresponsabilidade era o mote, a justificação do injustificável o objectivo. Cabia à moderadora levar o programa até ao fim dentro das baias do politicamente correcto, que consiste afinal em relativizar tudo para que todos tenham razão! Um outro objectivo, exterior ao debate mas que foi patente ao longo da emissão, teve a ver com a publicidade a uma ‘série’ que a RTP vai transmitir em breve, cujo tema é a última guerra que travámos em África. Segundo o autor, a obra destina-se especialmente à juventude que não conheceu a ‘guerra colonial’. Fico a aguardar e só espero que não se transforme em mais uma campanha de alfabetização.
Tentando sair do zero absoluto confirmo aquilo que sei: cumprimos o serviço militar obrigatório na convicção de estarmos a defender a Pátria, independentemente do regime que vigorava na altura; estávamos também a defender as populações que em nós confiavam e não se sentiam minimamente representadas pelos chamados movimentos de libertação; fomos vencidos e esbulhados de territórios que estavam à nossa guarda e isto aconteceu no jogo das grandes potências, durante a guerra-fria, e não soubemos ou não conseguimos resolver a tempo os desafios políticos que esse mesmo tempo nos colocou; resta-nos a dignidade de assumir a derrota sem procurar extrair daí quaisquer vantagens ideológicas ou partidárias, e pelo respeito que nos merecem os que se bateram, não nos devemos enganar com vitórias morais.
Uma nota final com vista ao futuro: como monárquico, mas sobretudo como português, sempre senti que o regime republicano não tinha capacidade para agregar e desenvolver uma comunidade de estados ou autonomias em redor de um projecto comum. Projecto esse que tem na língua, mas principalmente na vivência secular a sua trave mestra. Hoje, face às dificuldades que o mesmo regime tem em lidar com as autonomias regionais, a anterior convicção reforçou-se. Portanto, o espectáculo de recriminação mútua que todos os dias as sucessivas repúblicas nos oferecem, é inútil e aproxima-nos cada vez mais do zero absoluto.

Fim de semana...

Continuou com o congresso do PSD onde pela voz de Manuela Ferreira Leite ficámos a saber o que já sabíamos: que as diferenças entre o PS e o PSD são apenas de natureza táctica. E como tal, para que este rotativismo mantenha a ilusão da mudança é necessário que mudem as moscas. A matriarca deu até alguns conselhos ao impulsivo pretendente mas este foi mais ousado e haveria de surpreender os congressistas (os que não estavam a dormir) com algumas propostas que podemos subscrever! É certo que não resistiu à tentação de invocar a revolução francesa, ninguém se chama Luís Filipe por acaso. É certo que parece acreditar numa quarta república, e numa nova constituição, mais curta e menos ideológica, onde caibam portanto mais portugueses, e acredita que esse facto possa trazer outra confiança e apaziguar a comunidade. Também aposta num regime mais presidencialista julgando assim resolver a guerra entre dois galos legitimados pelo voto popular! Mas independentemente das suas crenças, é evidente que o fim do tribunal constitucional (uma instância de natureza político-partidária) é um enorme contributo à causa da justiça, hoje completamente descredibilizada. Como é importante o seu pragmatismo face à regionalização que não tem que ser implementada ao mesmo tempo em todo o território, mas de forma selectiva, e em nome da coesão nacional, nas regiões mais desertificadas e menos desenvolvidas do país.
Apesar da bondade destas promessas os monárquicos não podem esperar muito de um homem que invoca a revolução francesa e espera da república aquilo que nenhuma república lhe pode dar – liberdade, igualdade e fraternidade.