sexta-feira, fevereiro 08, 2008

A Evocação do Terreiro do Paço

Senhores Duques de Bragança
Minhas Senhoras e Meus Senhores

Começo por saudar o Senhor Dom Duarte investido pela Divina Providência na responsabilidade e na honra de representar a Casa Real portuguesa e que, com igual honra, patriotismo e, sobretudo, filial espírito de fé católica, assim tem vivido.

(I)

Fui convidado pelo Exmº Sr Presidente da Comissão ‘Dom Carlos 100 anos’, D. Nuno Bragança Van Uden, a tomar palavra no momento em que aqui nos juntamos para prestar homenagem ao Sr Dom Carlos, rei de Portugal, que, juntamente com seu filho, o príncipe herdeiro, o Sr Dom Luís Filipe, foram neste lugar atingidos por balas de ódio, por balas de cegueira, de injustiça e de ressentimento, como sempre capazes de levar avante uma qualquer das versões do engenho da violência.

Não o faço, obviamente, como delegado político, que não sou. Tão pouco como historiador, que de igual modo também não sou. Não trago, aliás, delegação de poderes de ninguém.

Apenas quero dar voz a um sentido da justiça e gratidão perante a memória de um rei que tem tanto de notável quanto de injustamente maltratado. Primeiro pelos seus contemporâneos, grande parte dos quais (e penso em não poucos daqueles que tinham maiores responsabilidades publicas) sem o mesmo esclarecimento e lealdade de atitudes, e posteriormente por uma historiografia que só agora parece pronta para dar do rei D. Carlos a sua real dimensão e dar dela razoável noticia perante a opinião pública. “Não há cousa que ocupe menor lugar do que um caído” dizia o grande pregador António Vieira.

Mas não posso deixar de chamar a atenção para o facto de ser um padre a pronunciar-se nesta circunstância. Significa isso que se pretendeu o testemunho de alguém chamado por Deus, Senhor da história, a dizer uma palavra que tenha tanto de verdade quanto de apelo construtivo; que sem esquecer o sangue das vítimas promova a reconciliação; que reconhecendo o passado não se fixe impotente no que é antigo; que não esqueça o honrado desafio que é ser fiel a Deus protagonizando a história hoje; que lembre que a nobreza é, antes de mais, coisa de sangue da caridade, quer dizer, coisa que tem que ver com o fluxo de fé, esperança, e amor dado hoje em empenho no combate por Cristo Rei e não a celebração atrasada e estéril de vaidades infrutíferas; e que quem assim não pensa não pensa segundo o Evangelho de Cristo.

(II)

Por isso a minha, e a nossa, sentida homenagem, a um rei patriota, de um modo tal que há cem anos escolheu passar por este lugar a descoberto por entre o povo, por entre o seu povo, porque se sabia escolhido como o primeiro com a responsabilidade de estar com o seu povo, e assim o fez em toda a sua intensa e amputada vida.
Ora falar de povo não é dar voz ás massas impessoais. Não é, tão pouco, seduzir demagogicamente, em nome dos mais desprotegidos socialmente.
Povo é a trama originária dos homens que, por condição, país e desenrolar histórico, estão unidos na vida e no destino. Povo são os homens que se encontram vinculados inquebravelmente nas suas raízes últimas e nas leis essenciais da natureza e da vida. A humanidade vista na sua condição originária: isso é o povo. Um homem tem a condição de povo quando leva em si essa totalidade. Neste sentido como não reconhecer em D. Carlos um homem do povo.
Com efeito, povo é uma realidade com uma identidade viva. O povo não imita, como o publico: conserva a própria personalidade, apropria-se do que pede emprestado e faz seu o que vem do exterior. Muitas vezes, quando o público vai ao centro comercial o povo defende a sua língua e cânticos; quando o público se distrai com o circo o povo mostra-se devoto...O público tem 150 anos; os anos do povo não se contam. O público passa, o povo é eterno. O público tem a globalização, o povo a terra. O público e o povo têm os seus epítetos. Entre nós, o público quer ser famoso e ter bem-estar; o povo é cristão e acolhe a missão que lhe é designada pela Divina Providência.
Por conseguinte, era este povo que D. Carlos sabia representar. Representar quer dizer estar presente. Significa avançar em nome de …. Pelos outros, por todos. O paradoxo da representação é lembrar os outros de um modo tal que se esquece a si mesmo. Assim Jesus Cristo, o Santo dos santos. Assim todos os santos (e nesta hora é dever lembrar, certamente, o mais nobre dos antepassados de D. Carlos, o Santo Condestável), assim os heróis que vencem a máxima lembrança de si mesmos, o orgulho e as menoridades da vaidade.

(III)

Por isso a minha, e a nossa, sentida homenagem a um rei perspicaz e com elevado sentido de Estado, face à árdua procura de servir a Pátria dentro da lei, perante partidos que pareciam o mais das vezes empenhados, sobretudo, em ampliar o seu quinhão de lucro; rei inteligente e eficaz na busca de uma outra presença internacional do seu país que protegesse os interesses da soberania territorial e que guardasse e promovesse a dignidade de Portugal;

Por isso, ainda, a minha e a nossa sentida homenagem a um rei corajoso, face à agitação das demagogias febris ágeis a publicitar contra a sua pessoa, rei corajoso face aos truques políticos organizados contra a governabilidade do Estado, rei corajoso face à face oculta de sociedades secretas votadas a boicotar e subverter o regime e que, na verdade, soube preferir o desígnio nacional às hesitações filhas de taticismos. De facto, D. Carlos expressa um entendimento da função régia que não tem origem na plutocracia, na febre do poder, em arbitrariedades ideológicas. Creio poder dizer de modo sereno que D. Carlos representa outro tipo de motivação para o exercício do poder: a vontade de servir, ou melhor ainda, a vontade de bem servir.
E foi por isso que D. Carlos não virou a cara na hora de usar autoridade. A palavra autoridade provem do latim e significa etimologicamente promover. A destruição da verdadeira autoridade não conduz a uma liberdade melhor, mas antes ao seu contrário: à coação e à violência. Com efeito, como os anos que se seguiram ao regicídio assim o provaram!

Por isso, finalmente, a minha, e a nossa, sentida homenagem a um rei nobre e distinto pelas suas qualidades pessoais, valente, ilustrado e tenaz, que amava a sua terra, que a conhecia e valorizava, pintando-a nos seus quadros com excelência, ilustrando a sua realidade com as suas aguarelas e com os seus relatórios para diversas entidades cientificas, promovendo com elevação a marca portuguesa. Homem honrado, portanto. Ora a honra é, pelo menos, não perder a identidade. Melhor, é fazer crescer a identidade, abrindo-a às melhores e mais virtuosas possibilidades que traz em si mesma.

(IV)

Enfim, o dia de hoje obriga-nos a pensar no mistério do mal, essa manifestação da liberdade fracassada, não reconciliada e irreconciliável, entropia negativa do espírito, que atira para baixo, e vai deixando consumido e destruído o tempo que lhe foi dado.
Mas o dia de hoje não reclama um ajuste de contas. É apenas um dia de memória, o que é diferente de estarmos aqui reunidos a visitar o museu da história. Porque a história, por vezes, reduz os acontecimentos apenas a curiosidades. E cito Peguy: “A história consiste essencialmente em passar ao lado do acontecimento. A memória consiste, essencialmente, por estar dentro do acontecimento, em não sair dele, em permanecer nele e reconstitui-lo por dentro…”
Com efeito, creio que é preciso uma insistência na memória face à actual cultura do esquecimento.
Na verdade, quis o Sr Dom Duarte que o dia de hoje fosse assinalado sob o signo da reconciliação. Certa vez, disse o Papa João Paulo II, ele mesmo vitima miraculosamente salva de um atentado, que “o limite imposto ao mal, cujo artífice e vítima é o homem, em última análise é a Misericórdia Divina.” E por estes dias, disse também o Papa felizmente reinante: “ O amor torna-se o critério para a decisão definitiva sobre o valor ou a inutilidade duma vida humana.” Assim, como não bendizer a Deus por este rei que amou e serviu até ao fim o seu povo!

Por isso termino a minha intervenção rezando e convidando a rezar comigo. E digo um salmo:

Deus se compadeça de nós e nos dê a Sua benção,
Resplandeça sobre nós a luz do Seu rosto.
Na terra se conheceram os Vossos caminhos
e entre os povos a Vossa salvação!
Os povos Vos louvem, ó Deus!
Todos os povos Vos louvem!
Alegrem-se e exultem as nações,
porque julgais os povos com justiça
e governais as nações sobre a terra.
Os povos Vos louvem, ó Deus,
Todos os povos Vos louvem!
A terra produziu os seus frutos.
O Senhor nosso Deus nos abençoa.
Deus nos dê a Sua benção;
e chegue o Seu temor aos confins da terra!

Oremos

Senhor nosso Deus,
Pai de misericórdia e fonte da salvação humana,
que constituístes o vosso servo Carlos rei de Portugal
e a seu filho Luís Filipe príncipe herdeiro,
dignai-Vos conceder por intercessão
da Virgem Maria, na sua Imaculada Conceição, Rainha de Portugal,
o perdão dos seus pecados,
a paz e a conversão do seu povo,
a misericórdia para com os seus inimigos,
e a bem-aventurança eterna na pátria celeste.
Por NSJC.

Autor: Padre Pedro Quintela
Lido pelo próprio no Terreiro do Paço, em 1 de Fevereiro de 2008.

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

O meu voto de pesar

Quando a assembleia da república recusa um voto de pesar pelo assassínio do Rei Mártir, que era o Chefe de Estado Constitucional na altura dos trágicos acontecimentos, isso só pode significar que o regime vigente se identifica com os criminosos, com a impunidade, e esclarece de uma vez por todas aquilo que disfarçava a todo o custo – sem este crime a república nunca se teria implantado em Portugal.
Mas também explica o impressionante registo criminal de cem anos de regime republicano: neste período foram assassinados dois chefes de estado, um candidato á chefia de estado e um primeiro-ministro! Monstruoso record, indigno de uma nação civilizada! Responsabilidades nunca existiram! Culpados também não! Provávelmente estarei a recordar aquilo que as almas mais sensíveis gostariam de esquecer, mas sem memória não existiremos como povo, sem verdade não existiremos como homens.
Reconciliação rima com perdão, mas com terroristas confessos, que ainda não se arrependeram, não há reconciliação possível.
É este o meu voto de pesar, voto de pesar por Portugal.

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Cem anos de decadência

Faz hoje cem anos que matámos o rei, o dia amanheceu solene e triste, as primeiras notícias confirmam o que esperávamos, o bastonário da ordem dos advogados cumpre os serviços mínimos para que foi eleito – interferir e descredibilizar ainda mais o processo da Casa Pia.
Há cem anos, o processo do Regicídio também se perdeu nos gabinetes da primeira república, a verdade nunca se apurou, e a impunidade venceu.
Faz hoje cem anos que perdemos o fio à meada, não admira portanto que tenhamos perdido o sentido comunitário da honra, da liberdade e da independência.
Acreditamos hoje que o crime do Terreiro do Paço, e as sucessivas (e inevitáveis) revoluções republicanas que lhe seguiram, serão as grandes responsáveis pelo atraso a que estamos votados.
Sabemos hoje, apesar da censura, da propaganda, das várias cumplicidades, que o rei foi um extraordinário estadista, que visava longe, desde logo a reforma do estado, o reforço da centralidade atlântica, a investigação e valorização dos nossos recursos marinhos, que tão bem conhecia, mas sobretudo, a defesa e o desenvolvimento dos territórios africanos que estavam à nossa guarda. Nesse sentido, o Príncipe Luís Filipe, herdeiro do trono, viajou até Àfrica naquela que foi a primeira deslocação de um membro da família real às colónias portuguesas.
Mas também sabemos que o espírito reformador do rei colidia com os interesses instalados, e na política externa, com os interesses das grandes potências, que cobiçavam as nossas colónias. Tudo isso, tudo junto, compôs o cenário do crime. Tudo isso, tudo junto, foi ganho pelo atentado.
Cem anos depois, a reforma do estado continua por fazer, o rotativismo que vivemos é o mesmo, ou pior, a justiça não funciona, e trocámos a centralidade atlântica, base secular da nossa independência, pela periferia de uma união europeia que pode falir a qualquer momento.
Com tudo isto, e tudo junto, cem anos depois, passámos de uma média nação europeia para a cauda da Europa!
Por tudo isto, faz todo o sentido, que todos juntos, evoquemos os cem anos da morte do Rei Dom Carlos.
Que esta homenagem seja o primeiro passo para reconciliação de Portugal com a sua história.

quarta-feira, janeiro 30, 2008

Terroristas e terrorismo

Andamos nós muito preocupados com o terrorismo, cheios de ‘guantanamos’ e autorizações de passagem a qualquer preço, enquanto a republicazinha que temos vai promovendo terroristas, remove-os para o Panteão Nacional, como se fosse a coisa mais natural deste mundo, como se a arte da escrita limpasse o sangue inocente derramado! E porque é mesmo uma republicazinha da treta, na impossibilidade de escamotear a verdade por mais tempo, sempre vai dizendo que o Rei barbaramente assassinado no Terreiro de Paço era afinal um estadista notável e que a sua morte terá atrasado (e dividido) irremediavelmente o país! Patético! Como patéticas têm sido as tentativas para justificar (vá lá, para explicar) o Regicídio. Por exemplo, o célebre professor Hermano Saraiva, que costuma ter opinião e tese sobre tudo, não consegue esclarecer porque é que a escola republicana nunca se interessou por ensinar aos alunos a história portuguesa, quer do século XIX, quer dos primórdios do século XX! Quanto mais não fosse para que a população conseguisse perceber o destino decadente que lhe tocou em sorte. A melhor pista que o professor Saraiva descobriu, relativamente ao silêncio temático, resume-se a um conhecido provérbio: - ‘não se fala de corda em casa de enforcado’! Mas podia ter aproveitado a ocasião para revelar o mistério que pende sobre o Processo Judicial na altura instaurado, e que por conveniência de serviço desapareceu sem deixar rasto!!! Seria uma forma de explicar o estado da justiça em Portugal, que continua incapaz de se opor à associação de malfeitores que há um século se apoderou do país! E podia também ter revelado o que sabe sobre o consentimento explícito, por parte da primeira república, em favor da construção de um obelisco à memória do Buíça e do Costa, os dois terroristas mortos na sequência dos fatídicos acontecimentos! O escândalo só terminaria durante a segunda república, com a justificação que o referido 'monumento' impedia a circulação dos carros funerários dentro do Cemitério! Esta desculpa diz tudo sobre o verdadeiro carácter do regime – medroso, hipócrita e protector de terroristas.
Que diferença... para o carácter do Rei cobardemente assassinado!

segunda-feira, janeiro 28, 2008

Alucinações

Não sei se me apetece continuar a ser monitorizado a partir de Bruxelas, sede estatística que regula a minha vida, que me rouba a centralidade duramente conquistada, a que chamámos um dia, independência! Não estou orgulhosamente só nem mal acompanhado, e não recuso tratados ou uniões, desde que negociados com alternativas, precisamente o contrário do que acontece!
Por isso, não sei se me apetece ser comandado por um triunvirato, que inevitavelmente se há-de zangar, e desfazer, quando já não for possível esconder ou conciliar as contradições entre os vários interesses em presença. A história há-de repetir-se enquanto o homem que conhecemos sobre a Terra, não corresponder às várias utopias dominantes. Portanto, convinha aprender alguma coisa com o passado, com os erros e virtudes desse mesmo passado.
E assim, não sei me apetece estar sistematicamente a pedir desculpas pelos eventuais erros cometidos, sem valorizar ao mesmo tempo as reais virtudes conhecidas. E porque nestas virtudes se encontra a virtude do regime monárquico, não sei se me apetece, ou se faz algum sentido, comemorar o centenário do regime republicano, que notoriamente nos dividiu e divide, sem acrescentar nada, mas diminuindo tudo, território, população, riquezas e ambição!
Ou será alucinação?!

quinta-feira, janeiro 24, 2008

“Ratzinger, eu e o discurso do Papa”

Todos podem emitir uma opinião sobre o que aconteceu recentemente na universidade «La Sapienza», mas nem todos têm, como eu, uma história pessoal para contar, relacionada com o assunto.


Um dia, um articulista do «Diário de Notícias», que publicava regularmente longos textos sobre a clarividência intelectual da doutrina marxista, resolveu comentar uma conferência do Cardeal Ratzinger. Essa conferência, sobre o caso Galileu, merecia-lhe a condenação mais veemente, pois o cardeal defendia o desprezo pela verdade e louvava a mentira propositada. O longo texto do «Diário de Notícias» (2 de Junho de 1990, página 7) não deixava pedra sobre pedra. E, ainda mais arrasadoras que as críticas severas que se faziam ao conferencista, eram as citações da própria conferência. Por exemplo, segundo relatava o artigo do «Diário de Notícias», o cardeal teria defendido que «é legítima a recusa de resultados científicos válidos (da verdade científica) quando eles contradisserem a centralidade histórico-social de normas, crenças ou valores legados pela tradição».

A julgar pelo artigo do «Diário de Notícias», o Cardeal Ratzinger pensava como um fanático sem escrúpulos. Eu tinha lido textos dele, extraordinários, de uma abertura intelectual notável, de uma rectidão tão grande, tão respeitosos para com todos e tão empenhados na verdade... Como é que aquela erupção de desfaçatez primária se podia explicar? Fiquei com vontade de ler a conferência.

Infelizmente, os extractos da conferência eram citados de uma revista italiana, «Il Sabato» (de 31 de Março de 1990), que eu não conhecia de parte nenhuma. Na época não existia ainda o «Google», nem algumas facilidades de comunicação a que já nos habituámos, pelo que foi muito difícil localizar a revista. Finalmente, encontrei uma referência indirecta num jornal espanhol e, através do jornalista espanhol, consegui chegar à fonte e obter o texto da conferência.

O choque não podia ter sido maior, quando a revista me chegou às mãos. Nenhuma das citações, colocadas entre aspas no artigo do «Diário de Notícias», pertencia ao texto. Nalgum caso, a frase estava quase lá, mas antecedida da palavra «não», que fora omitida na transcrição. Em geral, não se conseguia encontrar relação entre a posição atribuída a Ratzinger e o texto da conferência: a invenção chegava a 100%.

Além disso, nem sequer o tema da conferência era o caso Galileu, mas a relação entre a Razão e a Fé. A primeira parte da conferência era sobre a queda do marxismo soviético e a segunda parte (que foi a publicada pela «Il Sabato», com o título geral de «o sincretismo religioso») era uma defesa da razão e da religião fundada na verdade. Ratzinger alertava para o perigo de aproximações à religião que fossem fruto do desencanto relativamente a outras doutrinas, ou do sentimentalismo. A propósito, comentava a ambivalência de autores distanciados da Igreja, como Feyerabend e outros, que, em vez de aproveitarem o processo Galileu para atacar a Igreja, se mostravam compreensivos com o que aconteceu e, nalguns casos, chegavam a considerar positiva a condenação. O fim da crispação de certos intelectuais contra a Igreja era positivo, mas aquilo não era uma base saudável para fundar a relação com Deus, a qual só podia estar ancorada na verdade. E é sobre a importância da verdade que Ratzinger falou, ao longo de toda a segunda parte da conferência.

Entrei em contacto com o Director do «Diário de Notícias», para lhe dar conta destes factos, mas o secretariado da Direcção frustrava as sucessivas tentativas (talvez o Director tivesse dado indicações nesse sentido...). Por fim, contactei um jornalista por quem tenho admiração, Pacheco de Andrade, e pedi-lhe que promovesse o encontro. Graças à sua intervenção, pude apresentar ao Director (a 7 de Setembro de 1990) a revista onde fora publicada a conferência e a respectiva tradução para português. A meu ver, o jornal tinha a obrigação moral de esclarecer os leitores e, já agora, devia publicar o texto verdadeiro da conferência, que era bem interessante.

O Director explicou-me que os jornais vivem da espuma do momento, que factos passados já não lhes interessam. Portanto, não iam desmentir a notícia e, muito menos, publicar a conferência, que era ainda mais antiga que a notícia (três meses e meio mais antiga). Não me ocorreu perguntar-lhe até onde ia o interesse de um jornal pelo passado: dias? Semanas? Ao fim de quantos meses, um assunto destes se considera história remota?

O Director do «Diário de Notícias» não aceitou publicar o desmentido, nem a conferência, mas propôs que eu escrevesse um artigo sobre o assunto. Enviei-lho prontamente. Insisti para que o publicassem. Finalmente, explicaram-me que o artigo era demasiado extenso e não poderia exceder um pequeno número de linhas. Reformulei-o e enviei um novo texto. Enviei segunda via. Fui ao jornal entregar pessoalmente o artigo resumido, para ter a certeza de que não se perdia nos correios. Nunca mais consegui acesso àquele Director, nem o artigo foi publicado.

Lembrei-me desta história quando li que a mesma conferência do Cardeal Ratzinger, e a mesma frase de Feyerabend, retocada e tirada do contexto, era invocada em Itália, quase 20 anos depois.

Talvez tenha havido uma fonte comum, uma notícia falsa nunca desmentida, na origem do artigo do «Diário de Notícias» e na declaração do pequeno grupo da «La Sapienza». As pessoas que citam em segunda mão, sem comprovar na fonte, arriscam-se a fazer figuras tristes. Talvez tenha sido esse o caso.


José Maria C. S. André

Lisboa, 21 de Janeiro de 2008


(Ver abaixo – Conferência do Cardeal Ratzinger de 15 de Março de 1990).

CONFERÊNCIA DO CARDEAL RATZINGER, de 15.MARÇO.1990

Os caminhos da Fé no actual momento de
viragem

Segunda parte da conferência pronunciada pelo Cardeal Joseph Ratzinger, então Perfeito da Congregação para da Doutrina da Fé, a 15 de Março de 1990, na cidade de Parma. O título original da conferência é Le vie della fede nell'attuale momento di svolta (os caminhos da fé no actual momento de viragem).
Esta versão em português foi traduzida do texto italiano publicado na revista Il Sabato, de 31 de Março de 1990, páginas 80-85. A revista reproduziu integralmente, com o título de L'omologazione religiosa (o sincretismo religioso), apenas esta segunda parte da conferência, porque interessava particularmente aos países ocidentais.
A primeira parte, não publicada pela Il Sabato, tratava da crise do marxismo, examinando três factores que conduziram ao colapso do comunismo soviético: a crise económica, o papel da religião e a actuação dos Meios de Comunicação Social.


IIª parte: O sincretismo religioso

As reflexões que fomos desenvolvendo até agora, tomaram como ponto de partida os recentes acontecimentos da Europa oriental, ainda que tenhamos procurado não perder de vista os nossos próprios problemas, os problemas do mundo ocidental e das suas ideologias.

Esta vertente da questão terá de ser aprofundada ainda um pouco mais numa segunda parte, antes de podermos extrair as conclusões que dizem respeito aos itinerários da Fé, hoje. A este propósito, quero abordar três aspectos: a crise da Fé na ciência, a nova ânsia de espiritualidade e de moral e a nova procura de religião.

A crise da fé na ciência

A resistência que a natureza oferece à sua manipulação pelo homem tornou-se nos últimos decénios um novo factor da situação cultural. A questão sobre os limites da ciência e sobre os critérios que ela deve respeitar levanta-se inevitavelmente. O modo como vem sendo avaliado o «caso Galileu» parece-me particularmente significativo do emergir deste posicionamento novo. Este acontecimento, que no século XVII ainda merecia pouca atenção, chegou a ser, no século seguinte, um verdadeiro mito do Iluminismo: Galileu aparece como a vítima do obscurantismo medieval, ainda vigente na Igreja. O bem e o mal enfrentam-se numa clara contraposição: dum lado, a Inquisição como agente da superstição, como adversária da liberdade e do saber. Do outro, a ciência da natureza, representada por Galileu, como protagonista do progresso e da libertação do homem das cadeias da ignorância que o mantinham atado perante a natureza. Surge a estrela da época moderna na noite tenebrosa da Idade Média.

Estranhamente um dos primeiros a opor-se abertamente a este mito e a oferecer uma nova interpretação dos factos foi Ernst Bloch, com o seu marxismo romântico. Para ele, tanto o sistema cosmológico heliocêntrico, como o geocêntrico fundam-se em pressupostos indemonstráveis. Nomeadamente, por conceberem um espaço fixo, noção que, entretanto, teria sido ultrapassada pela teoria da relatividade. Diz ele, textualmente: «portanto, com o abandono da ideia de um espaço vazio e parado, deixa de se definir o movimento em relação a ele, passa a haver apenas movimento relativo dos corpos uns em relação aos outros, e a eventual fixidez de um objecto dependerá dos corpos que se escolherem como pontos de referência: deste modo, para além da complexidade dos cálculos que possa advir daí, não é, de facto, inverosímil aceitar, tal como se fazia no passado, que a Terra esteja parada e que seja o Sol a mover-se».

A vantagem do sistema heliocêntrico sobre o sistema geocêntrico consistiria assim não numa maior correspondência com a realidade objectiva, mas apenas em nos proporcionar uns cálculos mais fáceis. Até aqui, Bloch exprime só uma concepção moderna das ciências naturais. É todavia surpreendente a conclusão que ele tira: «A partir do momento em que relatividade do movimento está fora de dúvida, um sistema de referência humano e cristão antigo não tem nenhum direito de se imiscuir nos cálculos astronómicos e na sua simplificação heliocêntrica, mas tem o seu pleno direito metodológico, em face das implicações de importância humana, de manter esta Terra fixa no centro e de ordenar o mundo à volta daquilo que acontece e aconteceu nela».

Se aqui ainda estão claramente distinguidos dois âmbitos metodológicos, reconhecendo tanto os seus respectivos direitos como os seus limites, soa já muito mais provocadora a síntese do filósofo céptico-agnóstico P. Feyerabend: «No tempo de Galileu a Igreja manteve-se muito mais fiel à razão que o próprio Galileu, e tomou em consideração também as consequências éticas e sociais da doutrina de Galileu. O seu processo contra Galileu era razoável e justo, ao passo que a sua actual revisão só se pode justificar com motivos de oportunidade política».

Do ponto de vista prático, os dois naturalistas e filósofos, C. F. von Weizaecker e G. Altner, dão mais outro passo adiante quando vêem uma «via directíssima» que conduz de Galileu à bomba atómica. Para grande surpresa minha, numa recente entrevista sobre o caso de Galileu, não foi posta uma questão do tipo: «Como é que a Igreja se atreveu a levantar obstáculos ao conhecimento das ciências naturais?», mas exactamente o contrário: «Porque é que não tomou uma posição mais dura contra as desgraças que ficaram à solta quando Galileu abriu a caixa de Pandora?».

Seria ingénuo construir uma apologética improvisada, com base nestas afirmações; a fé não cresce a partir do ressentimento e de se pôr em questão a racionalidade, mas só cresce com um profundo apreço pela razão e com uma mais ampla compreensão intelectual; mas a este ponto voltaremos mais adiante.

Mencionei tudo isto só como um exemplo sintomático, que manifesta como é profunda hoje a problematização que a modernidade, a ciência e a técnica fazem de si mesmas.

A busca de espiritualidade e de moral

Consideremos agora um outro aspecto: a nova ânsia de moral e de «espiritualidade». Tal como não é possível fazer um juízo conclusivamente positivo ou negativo desta forma de pôr em questão a ciência e a modernidade que hoje está a ficar em voga; também não se pode apresentar a nova abertura à dimensão espiritual do mundo e da vida humana como fenómeno unívoco. Há aqui fenómenos seguramente positivos: no auge da modernidade, a dimensão moral era relegada para a subjectividade e o progresso técnico era visto como um valor em si mesmo, não discutível; ora nestes mesmos domínios a questão ética volta a colocar-se, como critério de acção. Apontar normas morais como limite para a pesquisa e para a produção já não é rotulado de obscurantismo, como acontecia antes, uma vez que, primeiro a bomba atómica e depois as formas biologicamente destrutivas de produção técnica, mostraram, de modo bem palpável, a outra face do progresso.

Indubitavelmente, os reflexos práticos desta tomada de consciência ainda se fazem sentir pouco, como se vê pela controvérsia relativa à manipulação genética e sobre a fecundação humana in vitro. Ora, tal como no passado, as pessoas continuam a não se questionar sobre a possibilidade de abusar da vida humana – vida de pessoas, ainda que não tenham nascido – para as «finalidades mais elevadas» da investigação ou para qualquer outro objectivo que se tenha por bom. O abuso contra o homem, tratado como um objecto, e o brincar com o mistério divino da sua natureza ainda hoje se verificam, tal como no passado. Apesar disso, constata-se agora uma resistência nova a tudo isto, precisamente no âmbito das ciências naturais.

A nova religiosidade

A descoberta da dimensão religiosa tem igualmente muitas facetas. Assim como entre as personalidades eminentes da moderna ciência da natureza se nota agora uma clara orientação para o problema ético e uma recusa da auto-suficiência do positivismo, também existe hoje entre a gente nova uma reacção que a leva a colocar-se, com renovada paixão, a pergunta sobre Deus e a estar disposta a deixar que a sua vida toda, até às raízes, seja impregnada por Ele.

A generosidade dos jovens tem crescido; já não se satisfazem com vagos sentimentos e com meias decisões, mas procuram a obediência incondicional à verdade: a par disto verifica-se uma tendência, aliás bastante difundida e mais vaga, que se poderia definir como a ânsia de uma certa espiritualidade e de experiências religiosas.

Seria errado desprezar este fenómeno, da mesma forma que seria inadequado entrever nele o início de uma nova aproximação à fé cristã. De facto, estes desejos resultam de uma desilusão pela insuficiência da sociedade tecnológica; isso esconde em si elementos nostálgicos e sobretudo um profundo cepticismo acerca da vocação do homem para a verdade. Na História humana a verdade parece desacreditada pela intolerância daqueles que se crêem os seus seguros detentores. Além disso, a experiência dos limites da ciência e da fragilidade das ideologias inclinam mais ao cepticismo que à coragem para a procura da verdade. Assim, a verdade acaba por ser facilmente substituída por «valores», em relação aos quais se pode tentar ao menos um consenso geral.

Contudo este modo de escolher os valores é igualmente discutível, na medida em que se considera que o próprio critério de verdade é inacessível. Mas, sobretudo, a religião que nasce do cepticismo e do desencanto pelos limites do conhecimento vem necessariamente marcada pelo domínio do irracional. Não compromete e acaba facilmente por se tornar uma droga. Formam-se novas mitologias, como resulta particularmente evidente no fenómeno multifacetado e candente que se vem difundindo com o nome genérico de «New Age». As analogias com a antiga gnose são notórias.

Tal como então, aqui se aglutinam mitologias esotéricas com a auto-proclamada pretensão de ter nas mãos a chave do saber e de ter encontrado a explicação plena da realidade, na qual os mistérios do todo são revelados e o conhecimento se torna libertação.

O Deus vivo desaparece numas profundidades espirituais, em que o homem mergulha e finalmente se dissolve, para se transformar assim numa só coisa com o todo de que provém. Cobra nova actualidade o aviso de Karl Barth, segundo o qual a religião se pode tornar uma auto-satisfação que, em vez de levar a Deus, encerra o homem em si mesmo e o fecha para Deus.

Os caminhos da Fé, hoje

Tomando no seu conjunto estes flashes da situação, conclui-se que o momento actual é rico de grandes esperanças, à mistura com inegáveis perigos. A situação de hoje, com todas as suas novas aberturas, reflecte a incoerência interior da natureza humana, que se abre sempre novamente para Deus e ao mesmo tempo Lhe procura fugir. Talvez neste momento as esperanças prevaleçam sobre os perigos, porque se derrubam tantas estruturas que pareciam opor-se com uma solidez inexpugnável à Fé, a qual demonstrou novamente a sua vitalidade. Mas não é esta a oportunidade de nos dedicarmos a ponderar, uns em relação aos outros, os vários factores em causa. Na última parte das nossas considerações preferimos colocar a seguinte questão: como é que se deve comportar um crente para responder aos sinais dos tempos e mostrar deste modo aos homens de hoje o caminho da libertação? Quero deixar três linhas de reflexão sobre este tema.

Acreditar é uma atitude razoável

A Fé não é uma espécie de resignação da inteligência, perante os limites do nosso conhecimento; não é uma cedência ao irracional, para escapar aos perigos de uma razão meramente instrumental. A Fé não é expressão de cansaço e de fuga, mas coragem de ser e movimento de abertura para a grandeza e amplidão da realidade. A Fé é um acto de afirmação; funda-se na força de um novo «sim», que se torna possível ao homem no contacto com Deus. Justamente nesta situação de ressentimento generalizado contra a racionalidade técnica, parece-me importante ressaltar a razoabilidade essencial da Fé. Segundo uma crítica da modernidade, já conhecida há tempos, não se lhe pode reprovar a confiança na razão enquanto tal, mas só o reducionismo do conceito de razão, que foi o que abriu as portas às ideologias irracionais. Todavia, o mistério, tal como o concebe a Fé, não é de facto o irracional, mas a extrema profundidade da razão divina, que nós não podemos penetrar em grau mais elevado pela debilidade dos nossos olhos. É, e permanece como afirmação fundamental da Fé a expressão com que João – retomando e aprofundando o relato da Criação do Antigo Testamento – inicia o seu Evangelho: no princípio era o Logos, a razão criadora, a força do conhecimento divino, que dá significado às coisas. Só a partir deste ponto se pode compreender correctamente o Mistério de Cristo, no qual a razão se mostra ao mesmo tempo como amor. A primeira palavra da Fé diz-se assim: tudo o que existe é, na sua origem, racional, porque provém da razão criadora de Deus.

Detenhamo-nos mais uma vez sobre a oposição fundamental entre materialismo e Fé. O credo do materialismo consiste em que no início está o irracional e que só as leis da casualidade deram origem, por combinações fortuitas, ao que é racional. A razão é, por isso, um subproduto do irracional; nas suas leis ela não é mais que um conjunto de combinações, sem conteúdo moral ou estético. Do mesmo modo, o Homem se torna um combinador do mundo, que ele projecta como lhe convém, segundo os critérios os estabelecidos por si. Contudo, o irracional permanece sempre como a verdadeira força originária.

Segundo a Fé, acontece exactamente o contrário: o Espírito é a origem criadora de todas as coisas e por isso todas elas levam em si o selo da racionalidade, que não me provém delas mesmas, e que as supera infinitamente, embora constitua a sua lei íntima. A razão criadora, que cria a racionalidade objectiva das coisas, a sua matemática escondida e a sua ordem íntima, é ao mesmo tempo razão moral, e esta é amor. O homem é chamado a reconhecer as pegadas desta razão e a desenvolver as coisas conforme à natureza delas. O seu senhorio é serviço e a liberdade é um vínculo à verdade íntima das coisas, e desta forma uma abertura de amor, que o torna semelhante a Deus.

A época moderna tem-se caracterizado por um curioso vaivém entre o racionalismo e a irracionalidade. Face a este conflito, parece-me importante delinear correctamente as posições alternativas. A disjuntiva fundamental, que o desenvolvimento da época moderna põe diante de nós, consiste precisamente na pergunta: na origem de todas as coisas está a irracionalidade? a falta de racionalidade será a verdadeira origem do mundo, ou este provém, pelo contrário, da Razão Criadora? Crer significa abraçar a segunda alternativa e, de facto, só essa é, no sentido mais profundo da palavra, «razoável» e digna do homem. Diante da crise da razão em que o mundo se encontra hoje, é preciso voltar a destacar esta característica essencial da Fé, que salva a razão, justamente quando a compreende em toda a sua amplidão e profundidade e a protege contra a restrição àquilo que se pode comprovar de modo experimental. O mistério, longe de ir contra a razão, salva e defende a racionalidade do ser e do homem.

Pensamento, vontade e sentimento

Voltemos agora ao próprio âmbito do conhecimento, do querer e do sentir. Com as reflexões desenvolvidas até aqui, já foi apontada uma decisão prévia fundamental. No contexto da ameaça radical colocada pelo Iluminismo à religião, Schleiermacher tentou salvá-la definindo-a como sentimento: «A sua essência não é pensamento nem moralidade, mas opinião e sentimento». «A praxis é arte, a especulação intelectual é ciência, a religião é sensibilidade e gosto pelo infinito». O século XIX seguiu em grande parte esta tendência e congeminou nesta base uma forma de reconciliar a religião e a ciência: a inteligência poderia dispor e mandar o que quisesse; e, por sua parte, a religião, que seria exclusivamente um sentimento, não interferiria com a razão e ficaria livre de se expressar na esfera do sentimento e teria aí o seu lugar. O perigo implícito numa paz interior deste tipo volta hoje a apresentar-se, embora não seja correcto chamar-lhe propriamente paz, porque é antes divisão do homem, que acaba por prejudicar tanto a razão como o sentimento.

Efectivamente, trata-se de uma rendição da inteligência, na medida em que ela só se considera válida no âmbito do funcional e não se considera capaz de conhecer a verdade do ser, a verdade sobre nós, sobre a Criação e sobre Deus. Este cepticismo, porém, domina largamente as concepções actuais. Como regra, as pessoas já não têm pretensões de conhecer a verdade no que é mais específico destas questões. Esta forma de falsa humildade degrada o homem; torna o nosso actuar cego e o nosso sentimento vazio. Até na Igreja Católica se aceita dificilmente que a Fé nos ponha diante dos olhos a verdade sobre Deus. Vai-se difundindo a impressão de que todas as religiões andam às apalpadelas no escuro e que as suas afirmações não são mais que símbolos de uma realidade fundamentalmente incognoscível. Desta forma, a religião torna-se novamente uma esfera de sentimentos mais elevados. Feitas equivalentes umas às outras, as religiões deveriam servir, pela força de arraste dos melhores sentimentos, para promover os ideais mais nobres da humanidade e ser instrumentos da construção da paz universal.

Ora, todos nós aspiramos a esta paz universal. Que o virar-se para Deus leve os homens a reconhecer-se como irmãos e irmãs e desse modo contribua para a paz, é um imperativo justificado. Mas uma religião que seja apenas um meio para atingir determinados programas não está a ser tomada a sério como religião, na medida em que só pode actuar no campo do sentimento. Em todos os erros há algumas verdades.

É verdade que a religião apela à paz; é verdade que o sentimento também é próprio da religião e que falham todas as reformas que a pretendem privar do húmus do sentimento. Contudo, todas estas verdades só conservam a sua força na sua justa inter-relação. Ora, esta inter-relação consiste no facto de que a Fé assume o sentimento e o resgata da indeterminação, conferindo-lhe o seu autêntico fundamento: o sentimento a respeito do infinito repousa na verdade de que o Deus infinito existe e dirige a sua palavra a nós, criaturas finitas.

A Fé não pode encontrar hoje o seu vigor quando é remetida, o mais possível, para a esfera do indeterminado; a Fé precisa de ser compreendida em toda a sua grandeza. Não são as reduções que salvam a Fé, pois só servem para oferecer uma Fé de segunda, a preço módico. Unicamente na sua plenitude é que a Fé adquire significado.

Precisamente pelo facto de que não sejamos nós a ter de salvar a Fé, mas ser a Fé a salvar-nos a nós.

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Vida de algarismo

Chegou um novo pacote da união europeia, desta vez ambiental, e como vem sendo hábito fala de médias e percentagens, é portanto connosco, somos nós. O que postula então a anónima directiva para a sua região mais ocidental da península:
Muito simples, porque também estamos abaixo da média europeia em termos de emissões de CO2, podemos beneficiar de um bónus temporário para poluir o ambiente em mais 27,5% do que o fazemos actualmente. A união atendeu ao nosso baixo rendimento per capita, e às necessidades de crescimento económico, que andam normalmente associadas ao aumento daquelas emissões. Alegrem-se, pois, as fumarolas emergentes, os céus plúmbeos e cinzentos, porque a nossa atmosfera estava excessivamente pura em relação à média europeia. Afinal, estamos todos a construir o homem novo, um novo cidadão europeu, que será uma média ponderada, em percentagem, entre o défice e o CO2, mais energias renováveis.
Apenas um reparo: parece-me que esta proibição de fumar em locais públicos, veio em contra ciclo!

segunda-feira, janeiro 21, 2008

As abelhas castelhanas

O apicultor estava desolado, as suas abelhas estão a desaparecer, morrem de fome e cansaço, vítimas de um poderoso enxame espanhol, cujas obreiras invadem diáriamente a fronteira, comem o pólen lusitano e dizimam as nossas compatriotas! Verdade que a abelha nacional não estava preparada para tal concorrência e quando lhe falaram de europa não percebeu que isso soava ao toque da antiga trombeta castelhana! E assim, distraída, pensando apenas no mel dos subsídios, esquecendo que de Espanha... ‘nem bom vento nem bom casamento’, a pobre abelhinha lá vai definhando à espera de um Condestável, que tarda!
Mas se as colmeias portuguesas estão em crise, mais a sul, a situação é diferente. Em pleno Alentejo, as terras abandonadas pelas ocupações de Abril e pelas experiências colectivas soviéticas, estão agora recobertas de extensos e viçosos olivais, propriedade castelhana, que prometem produzir o melhor azeite espanhol da europa!
E nós… ‘vamos cantando e rindo, levados, levados, sim...’

sábado, janeiro 19, 2008

Evocação e Reconciliação

A quem possa interessar eis aqui o programa do Centenário do Regicídio. De resto, esta e muito mais informação pode ser consultada em http://www.regicidio.org/. Uma nação sem memória é uma nação condenada.

31 Janeiro 2008 – 21:30:
Auditório Cardeal Medeiros, Biblioteca João Paulo II – Universidade Católica Portuguesa – Lisboa,
Conferência “Dom Carlos I, Um Rei Constitucional”, Orador principal – Rui Ramos.
31 Janeiro 2008:
Após a conferência no mesmo local – Concerto pelo Grupo de Música de Câmara da Banda do Exército.
1 Fevereiro 2008 – 17:00 horas:
Concentração no Terreiro do Paço, junto à placa evocativa do Regicídio.
1 Fevereiro 2008 – 19:00 horas:
Basílica de São Vicente de Fora, em Lisboa, Requiem Soleníssimo “In Memoriam” do Centenário do Regicídio presididas por Sua Eminência O Senhor Cardeal Patriarca de Lisboa. Deposição de coroas de flores e homenagem solene aos túmulos de Sua Majestade O Rei Dom Carlos I e de Sua Alteza Real O Príncipe Herdeiro, Dom Luís Filipe.

quarta-feira, janeiro 16, 2008

Ficção ou talvez não!

As agências internacionais noticiam com espanto que Portugal está a viver um novo ‘prec’, um novíssimo ‘gonçalvismo’! Com efeito, tudo leva a crer que a banca está a ser outra vez nacionalizada, mas desta vez com uma pequena diferença em relação aos longínquos acontecimentos de Março de 1975 – hoje são os próprios banqueiros e os grandes accionistas que querem ser nacionalizados! Pelo contrário, os pequenos accionistas, as pequenas poupanças, o povo… unido à volta de um quixotesco defensor da iniciativa privada, tenta desesperadamente evitar a consumação do acto… mas em vão!
Há quem se interrogue sobre o estranho comportamento dos empreendedores lusitanos, que afinal não querem ser livres, nem empreender, mas tão só engordar ao colo do Estado!
E como os bons exemplos frutificam, não existe jovem português que não repita: quando for grande quero ser empresário... no Estado!
Toca o hino: “Heróis do mar…”!

terça-feira, janeiro 15, 2008

“Palavras proféticas do exilado de Vale de Lobos”

“Que as leis se afiram pelos princípios eternos do bem e do justo, e nao perguntarei se estão acordes, ou não, com a vontade de maiorias ignaras... Que a tirania de dez milhões se exerça sobre um indivíduo, que a de um se exerça sobre dez milhões deles, é sempre a tirania, é sempre uma coisa abominável. A democracia estende constantemente os braços para o fantasma irrealizável da igualdade social entre os homens, blasfemando da natureza, que, impassível, os vai eternamente gerando física e intelectualmente desiguais.
É por isso que ela acreditou ter feito uma religião séria desse fantasma, quando o que realmente fez foi inventar a idolatria do algarismo; e cobrindo com a capa de púrpura a mais ruim das paixões, a inveja, enfeitou-a com um vago helenismo”.

(Carta a Oliveira Martins de 10 de Dezembro de 1870, in ‘Cartas’ - de Alexandre Herculano)

Retirado, com a devida vénia, do Jornal ‘A Ordem’ de 10 de Janeiro de 2008.

sábado, janeiro 12, 2008

Frente de Libertação de Portugal...

"... face a uma Europa que nos rouba e, de novo, nos escraviza com novos fluxos de emigração.
Quem são os negreiros?"
A pergunta vem dos Açores e denuncia o 'tratado reformador' (não referendado) que transfere para a União Europeia a gestão dos recursos biológicos do mar!
Do nosso mar salgado...

sexta-feira, janeiro 11, 2008

A Cruz e a Al-Qaeda

Tem sido largamente noticiado (e explorado) o descontentamento turco pela ‘ostentação’ da Cruz de Cristo nas camisolas de uma equipa italiana que se deslocou à Turquia para participar num jogo da liga dos campeões europeus. O protesto, de reduzida expressão, acusava os italianos de não serem sensíveis ao ‘holocausto’ que as Cruzadas e os Cruzados provocaram aquando da tentativa de resgatarem o túmulo de Cristo... há aproximadamente dez séculos! Para lá do ridículo da situação, e sem entrar em questões de índole histórica para saber de quem era a Terra Santa naquele tempo, quem a ocupou depois, e quem a ocupa hoje, essa sim, matéria de grande sensibilidade, pensamos que o melhor é não escarafunchar muito no passado, ou então teremos de questionar o direito territorial de todos os povos e nações que actualmente habitam o planeta! E isso ninguém quer concerteza. Outra questão é saber dos números da mortandade numa guerra, como em todas as guerras, onde as baixas costumam ser sempre maiores do lado dos vencidos. E quem, num gesto simbólico, molhou o sabre nas águas do Mediterrãneo, foi o curdo Saladino!
Por isso, o que interessa mesmo neste assunto é verificar como um pequeno incidente contra o Símbolo da Cristandade, e vindo de quem usa o Crescente em todas as manifestações da sua vida pública e privada, é de imediato aproveitado no Ocidente pelo laicismo militante na sua campanha de ódio permanente à Igreja Católica e a tudo o que lhe diga respeito! Há muito que sabemos que os inimigos estão dentro da cidade, e que não hesitam em fingir apoio aos Maometanos, desde que isso sirva os seus interesses, visíveis e invisíveis. Invisíveis porque alguém os sustenta, senão não teriam a força nem o descaramento que exibem! Quando as máscaras finalmente caírem, não haveremos de nos surpreender! Uma coisa é certa, entre os seus aliados não estará o Islão, que os despreza por não crentes, nem a chamada Al-Qaeda, quer exista, ou não.

terça-feira, janeiro 08, 2008

Se eu fosse ele…

Se eu me chamasse Sócrates, se fosse primeiro-ministro de um país a fingir, se nesse mesmo país fosse apoiado por uma larga maioria de socretinos, que só pensam no umbigo porque é esse o exemplo que recebem de cima, se eu fosse mais esperto do que sou, e se a minha ambição pessoal fosse maior do que aquela que me esforço por transparecer, então… eu era bem capaz de surpreender tudo e todos e cumprir a minha palavra! Sim, eu que me afirmo provinciano, mas que adoro ser lisboeta, ou como é uso dizer-se, cidadão do mundo, eu que cultivo a imagem como ninguém, eu que assumo um ar moderno mas que nunca perco de vista a receita da longevidade, neste triste país que ainda não esqueceu o velho chanceler, então… amanhã, eu confirmaria o referendo para o tratado europeu! Num golpe de mestre haveria de me isolar, descolando a concorrência, e o bom povo português reconheceria enfim que sou bastante mais fiável que outros, que mudam de opinião como o vento! E que afinal é firmeza aquilo a que muitos chamam teimosia! Paciência pá, desta vez não te acompanho, mas não te preocupes, perante a ameaça de corte nos fundos comunitários eles não pensam duas vezes, votam sim concerteza. E se não votarem, vocês aí em Bruxelas também não se atrapalham, hão-de arranjar uma saída qualquer. Enquanto houver dinheiro, claro.

domingo, janeiro 06, 2008

Dia de Reis

Confesso que estava com alguma dificuldade em reiniciar a escrita no novo ano, porém, o significado deste dia, e um bom incentivo vindo de fora, resolveram o problema. Não resisto a publicar o incentivo, que rezava assim: “ Caro amigo monárquico, urge que hoje, dia de Reis, compareça no Presépio que é cada Eucaristia, a prestar as honrarias ao Rei, inclinando-se em Amor sobre Aquele que por nós Se inclinou”.
Belíssima mensagem, difícil de resistir, e que sobreleva todas aquelas questões que fazem a agenda política de 2008. Seja a ‘pro-actividade laicista’, na robótica expressão de Menezes, para significar a nova vaga anti-clerical Socretina, seja a viagem napoleónica de Sarkozy ao Egipto (ou será viagem nupcial de Marco António e Cleópatra!), sejam os partidos familiares e democráticos muito em voga (leia-se: a corte republicana e os seus inevitáveis cesarismos), seja ainda o furor com que nos comprazemos a verificar a eficácia das leis, num país onde não se cumprem, onde a justiça não funciona, e quando resolve funcionar, nunca se esquece dos vários pesos e medidas!
Como vêem, não valeu a pena desviarmo-nos da mensagem inicial, portanto, com bolo-rei ou sem ele, com os bagos de romã ou sem eles, é dia de celebrar o Rei dos reis, com os presentes disponíveis, símbolos da Realeza Maior, bálsamos do corpo e da alma.

segunda-feira, dezembro 31, 2007

Mensagem aos Romanos

Peço-vos que acreditem, que tenham fé na vida eterna, porque só assim podereis valorizar as vossas vidas, só assim haveis de evitar que numa esquina traiçoeira ou numa viela sombria, por uma ninharia, cheguem ao fim os vossos dias. Ou que numa praça qualquer, mais concorrida, vos façam explodir em nome de causas que nada têm a ver com Deus nem convosco. A democracia de César igualou as vidas mas não as valorizou, bem pelo contrário, veja-se como retirou Deus do calendário, para aí colocar um homem ou um cavalo! Isso não traz esperança nem convence, seria o mesmo que estabelecer um limite a quem sonha com o infinito. Nem o facto de se apregoar que só temos uma vida concorreu para a valorizar! Deste modo ela passou a ter um carácter exclusivamente utilitário e será essa a sua cotação.
Por isso, para vosso bem, e ainda que não acreditem, acreditem que só Deus pode amaciar o coração dos homens.
Sei que haverá entre vós quem não aceite a sugestão da crença, baseada em meras contrapartidas, como as razões securitárias que invoco! Esta mensagem não é para esses, porque essa relutância já é um sinal de eternidade.

quarta-feira, dezembro 26, 2007

Ontem, antes de emigrar…

Saboreio a castanhada longamente… de acordo com a tradição o açúcar deve estar em ponto pérola, a cor castanho escura, consistente e vítrea, reconheço-te, doce companheira do Natal! Fecho os olhos para me lembrar do gosto antigo! Ando muitos anos para trás… meu Deus como o tempo passou de repente, os olhos ainda fechados vêem a sala de jantar, a salamandra, a mesa oval… e lá estava a castanhada, castelo erguido com fiapos de chantilly!
A casa vai ficando vazia, deixou de ser o lugar do encontro de outras eras, e por isso esta noite terei que emigrar em busca da família dispersa! A memória regressa ao evangelho de Lucas, ao imponente decreto de César… que ‘mandou recensear toda a terra’! Na Missa do Galo o celebrante comentou o mal-estar que este texto infunde ao nacionalismo judaico, mas a verdade é que nestes dias, que seriam de paz e sossego, também nós andamos num virote, porque ninguém tem terra ou aldeia a que se possa acolher, presépio onde possa nascer!
Que sabedoria a do velho adro da Igreja onde se davam as boas festas a todos, em simultâneo, sem necessidade de mais intermediários! Que saudades de uma vida lógica, com referências e raízes!
Vogamos ao sabor de decretos sem utilidade ou grandeza. E sabemos tanto de César que pouco sabemos de Deus!

segunda-feira, dezembro 24, 2007

Um Bom Natal

É o meu desejo para todos os viajantes que aqui passam, seja por amizade ou simples curiosidade, por afinidade ou engano, e com a sua presença vão dando alguma vida a este interregno, que se tem prolongado sem explicação aparente! Em sentido estrito e lato!
Mas não é tempo de balanço, é tempo de boas festas, momento de paz, de trégua nas divergências, é altura de presentes e árvores enfeitadas, de férias para alguns, de frio e tristeza para outros, mas é sobretudo a celebração do nascimento de Cristo, Deus vivo para os que acreditam, facto histórico que vai passando um pouco ao lado dos acontecimentos!
Sinais dos tempos, dirão os sábios, mas o planeta é redondo e o homem que o habita não mudou assim tanto em dois mil anos. Por isso é natural que os que agora se afastam retornem mais tarde ao presépio.
Maior que as palavras é a intenção destes votos.
Um Bom Natal.

sexta-feira, dezembro 21, 2007

Dom Duarte

"Dom Duarte veio à Terceira inaugurar as novas instituições da AMI. À noite houve um jantar promovido pela Real Associação da Ilha Terceira. Estive presente no jantar e é sobre o que lá se disse que vale a pena falar.
Primeiro percebi melhor o sentido da obra de Fernando Nobre. Não há dúvida que tem capacidade para mobilizar meios financeiros, materiais e humanos para o serviço social. O segredo que terá é o de adaptar a cada sítio aquilo que é aí necessário. Providenciar dormida aos familiares de pessoas doentes que são internadas em São Miguel é dar resposta a uma necessidade que se fazia sentir de forma crescente, aliás como já comprovavam as iniciativas de alguns municípios mais remotos que tinham apartamentos disponíveis para os seus munícipes em Ponta Delgada. Em Angra essa função já estaria preenchida por outras instituições ou então a política de saúde regional tratou de subalternizar o Hospital de Angra. O facto é que a AMI preferiu orientar a sua actuação para a distribuição de medicamentos e para o apoio aos mais desfavorecidos. A Igreja pode-se ressentir desta intromissão civil naquilo que costuma ser a sua esfera de actuação social mas a verdade é que quem não é contra nós é certamente por nós. De qualquer forma foi bom ter assistido à ligação entre a AMI e a Casa Real.
O segundo aspecto que importa falar tem a ver com o discurso de Dom Duarte, em complemento das palavras de boas vindas proferidas por Valdemar Mota. Do que me lembro disse três coisas importantes. Disse que estavam em preparação as comemorações do assassinato de Dom Carlos onde se iria relembrar a vida e obra daquele marcante rei de Portugal que – conforme disse Dom Duarte – se fosse conhecido pelos assassinos, certamente não o teriam morto. E como os assassinos de Dom Carlos somos de facto todos nós, que vivemos em República e que ainda não pedimos desculpas por termos morto o Rei, o que Dom Duarte quis dizer foi que, se conhecêssemos a monarquia certamente não a teríamos morto. Disse também que fazia pouco sentido criticar as edificações de muitos construtores civis quando basta uma assinatura de um arquitecto conhecido para destruir o ambiente urbano de uma cidade histórica. Basta olhar para a nossa Caixa Geral de Depósitos ou para a famigerada frente marítima de Angra para todos entendermos a mensagem do nosso rei. Terá dito também, assim interpreto, que a Monarquia pode coexistir com a República, aliás como demonstra o seu testemunho de décadas. Bastaria que os Presidentes da República fossem mais seguros da sua posição para que pudessem solicitar e estimular o desempenho do monarca. Mas a verdade é que só conseguem isso no fim dos mandados e na assunção de que ficaram aquém do que conseguiriam fazer em complemento da Casa Real.
O terceiro aspecto que aqui vos reporto já se passou sem o Senhor Dom Duarte. Lamentavam os meus companheiros que a Terceira estava a perder peso para São Miguel, que Angra se estava a transformar numa vila, que qualquer dia nem teríamos o Representante da República, nem Bispo nem Secretarias Regionais. Naturalmente que constatei essa tendência mas demonstrei que a culpa era em grande parte dos terceirenses. Têm um Bispo mas não saem à rua em dia de procissão como fazem em São Miguel. Têm uma Universidade mas nunca se identificaram com ela, a ponto de não haver qualquer placa a indicar o caminho; existe a placa para os Montanheiros, para o Instituto disto e daquilo mas nada sobre a Universidade. Tiveram o porto mais importante dos Açores mas fizeram tudo para o fechar. Têm o melhor aeroporto das ilhas mas admitem que o seu uso seja condicionado para uso militar mesmo quando não há guerra. Têm possibilidade de ter cursos de jornalismo, de arquitectura, de governança e de paisagismo mas preferem condicionar a sua criação. Estão no centro do arquipélago mas preferem a defesa provinciana e inútil da ilha."

Tomaz DentinhoJornal “A UNIÃO” de Angra do Heroísmo – Açores, em 20/12/2007.