segunda-feira, março 24, 2008

Páscoa Aleluia

Aleluia

Dizem-me os sinos que repicam ao longe… que mal ouvi por preguiça,
Aleluia pelo sentido familiar destas horas, que mal senti por desleixo, aleluia por tudo, pelos amáveis sorrisos, pelas contrariedades, minúsculas se comparadas com outras que vou esquecendo… aleluia por ti, que não existes, mas que comandas a minha vida, e de uma maneira tal que me deixo ir, sem esforço, como num sonho! Aleluia, insisto, porque estamos na Páscoa e a Páscoa é o triunfo da vida sobre a morte, aleluia portanto.
Aleluia por mim, que ainda espero e não desespero!
Aleluia, disseram-me.

quarta-feira, março 19, 2008

“A cultura de raiz religiosa”

“Muitas foram e são as polémicas originadas pelo conceito de cultura. E mais ainda as que resultam da diferença entre civilização” e cultura”. Sem aqui querer reabrir a questão, sempre avançarei dois traços que como leitor de boa-vontade, me parecem comuns às várias teses.
Primeiro traço: enquanto a “civilização” é o avanço do homem sobre a matéria e sobre o mundo, a “cultura” é o avanço do homem no espírito e, consequentemente, sobre si mesmo.
Segundo traço: a cultura é uma “mundividência” e a consequente maneira de viver e agir. É não só, e primeiramente, a visão mas também a maneira como nele vivemos e a vivemos: usos, costumes e todas as formas simbólicas como a língua ou a arte.
Estes conceitos – “cultura” e “civilização” – estão infinitamente próximos um do outro, interpenetrando-se mesmo e tornando, por isso, difícil a destrinça em termos práticos. Resulta daí que a civilização influencia poderosamente a cultura e vice-versa: a cultura influencia poderosamente a civilização. Mas são diferentes. No plano teórico, visivelmente diferentes.
Neste sentido a religião é uma forma de cultura. A Teologia é uma explicação do mundo (segundo determinada visão) e da vida. Por isso mesmo daí derivam directamente as normas sobre como viver no mundo e como cumprir a vida. São as morais heterónimas que têm origem na revelação. Mais: os aspectos formais da religião – a Liturgia – fornecem-nos pistas preciosas para a investigação cultural na medida em que são sinais sensíveis de uma determinada maneira de ver o mundo e viver a vida.
Assim se compreende que determinadas culturas (para não dizer todas) estejam profundamente moldadas pela religião; e, consequentemente, as resultantes civilizações.
A cultura budista tem a sua origem na religião ensinada por Buda e deu origem a várias civilizações orientais com essa matriz comum. A cultura islâmica e respectiva civilização deriva do Alcorão e seus ensinamentos etc., etc., etc.
A cultura e civilização greco-romanas, de que nós ocidentais orgulhosamente descendemos teve, no seu trânsito temporal, um profundo e poderoso “enxerto religioso”: o cristianismo. Desde Constantino quase até hoje, o cristianismo foi a religião dominante no Ocidente. E daqui foi exportado para os novos mundos depois das descobertas portuguesas e espanholas.
Sem nunca ter originado Estados teocráticos (em que as leis da religião substituem as leis do Estado, ou em que as leis religiosas são as leis do Estado) a visão cristã do mundo e o consequente normativo moral moldaram a mentalidade de Reis, Imperadores, Senhores Feudais, Banqueiros, Mercadores, Letrados e Homens de Ciência, enfim toda a espécie de poderosos deste mundo. Mas não só: também a arraia-miúda assim pensava e agia em conformidade. Natural era portanto que as leis e outras regras de convivência social reflectissem essa mesma mundividência. Como a reflectiam também usos, costumes, hábitos, ates, etiquetas e todas as mundividências do trabalho ou da convivência. Mesmo os raros não crentes e os menos raros “homens de pouca fé” pautavam os seus juízos e as suas práticas por todo um corpo de doutrina cristão. Mesmo sem pensar nele e não relacionando, as mais das vezes, as suas práticas com os longínquos ensinamentos de Cristo.
Curiosamente, as primeiras vozes anti-cristãs da Europa são, sem o saberem, moldadas por ideais cristãos A famosa tríade “Liberdade, Igualdade, Fraternidade” – tão republicana, tão (aparentemente) laica, tão anti-antigo regime, tão anti-clerical – era absolutamente impossível antes de Cristo. Ninguém na Civilização greco-romana toleraria estes três conceitos. Nem considerados um por um e muito menos considerados como um conjunto.
Todas as “réplicas” da Revolução Francesa – as francesas e as outras, incluindo as nossas – mais assumida ou mais veladamente se apresentaram como anti-Papa, anti-clericais, anti-religião ou mesmo anti-Cristo. E, paradoxalmente, todas tinham por base um pensamento cristão que usavam como bandeira: a ideia de igualdade entre os homens e da sua obrigação de fraternidade. Quanto a liberdade, era isso que os fazia iguais perante Deus.
Foi assim entre nós em 1820. Foi assim, mais tarde em 1910. É a matriz cristã da cultura europeia que move estes revolucionários Mesmo quando se movem contra a Igreja ou contra os cristãos.
É ainda assim hoje no fundamentalismo laicista (mais polido, mais envernizado, mais politicamente correcto, mas mais hipócrita) do Portugal dos primórdios do sec. XXI. É em nome do conceito cristão de igualdade que negam a liberdade de cada um afirmar a sua Fé.
Ao fazê-lo, entre outros atentados de natureza cívica, longos de enumerar, estão a cometer um atentado contra a cultura.
Os costumes e as tradições do povo português são cultura. A sua cultura – a cultura portuguesa.
Atentar contra a tradição de um povo é atentar contra a sua cultura, contra o seu património cultural imaterial.
Quando os governantes enchem a boca e a propaganda de “cultura” e de “qualificação de portugueses” seria bom que tivessem a cultura e a qualificação suficientes para saberem que estão a atentar contra a cultura quando proíbem usos, tradições ou símbolos religiosos.

Texto de M. Moura-Pacheco publicado no semanário católico “A Ordem”, de 21/02/2008.

terça-feira, março 18, 2008

“A Tradição e a Cultura”

“A tradição faz parte da cultura de um povo. É o chamado património cultural imaterial.
Paradoxalmente, os agentes culturais dividem-se em dois campos antagónicos no que à tradição diz respeito.
Há aqueles que em nome da cultura sacralizam a tradição querendo-a intocável, inatacável e absoluta. Do outro lado há os que vêem a tradição como anti-cultura, a força do imobilismo, o grande obstáculo à criatividade e à inovação; e alguns destes vão mesmo mais longe julgando que qualquer atentado à tradição pode ser considerado como acto cultural.
Felizmente, entre estas duas poderosas hostes há uma pequena força que se opôe a qualquer delas e, como tal, tem nelas dois formidáveis inimigos que a esmagam em poderosa tenaz. Referimo-nos àqueles para quem a tradição é um valor cultural estimável e respeitabilíssimo mas não sagrado nem intocável; para quem a inovação não é herética nem anti-tradição; para quem a tradição se auto-inova dia a dia.
É nesta capacidade de inovar a tradição que se situa o valor cultural da tradição; e é aqui que reside a sua respeitabilidade que devemos defender a todo o custo de visões simplistas e unilaterais.
Quem da tradição tem uma visão crítica sabe esta verdade: que há tradições boas e más, as que são respeitáveis e as que o não são. Nesta perspectiva, é sempre tempo de deixar esmorecer ou mesmo abandonar uma tradição que o tempo e o lugar já não justificam (isto é, já não têm valor cultural) e é sempre tempo de dar origem a novas tradições ou renovar ainda outras.
Aliás, a tradição é de sua natureza auto-regeneradora. “Traditio” é o que transita no tempo, de geração para geração, adaptando-se ao tempo, a novas solicitações e motivações, mudando por isso, a sua forma. Assim, a tradição não é rigida nem fixista: é evolutiva. E se não evolue, morre, deixa de ser tradição para ser recordação.
Para ser valor cultural a tradição deve ser aquilo que é: evolução livre ao longo do tempo. Se forçada – passa a ser um artifício e uma mentira sem qualquer valor culural. E o seu destino, invariávelmente, é a morte.
Ora o peso da religião na tradição é, por isso mesmo, um valor não negligenciável na cultura. Do mesmo modo que a cultura condiciona o modo de ver e viver a religião. Como veremos em próxima crónica.”

In semanário católico “A Ordem”, da autoria de M. Moura-Pacheco.

quinta-feira, março 13, 2008

“O Fundamentalismo laicista (3) ”

"O Laicismo

Chama-se laicidade à separação entre a Igreja e o Estado. Cada uma destas instituições tem as suas normas e leis próprias independentes uma da outra, sem que isso signifique qualquer antagonismo. Pode mesmo haver entendimento e cooperação, regulados através de tratados vulgarmente chamados de “Concordatas”.
Assim sendo, um Estado laico estabelece as suas próprias leis não as subordinando às leis de qualquer Igreja. Inversamente um Estado teocrático faz suas as leis da religião dominante do país.
Em si mesma a laicidade não significa qualquer animosidade perante a religião mas apenas uma separação de águas que, sem prejudicar qualquer religião, permite, contudo, estabelecer o carácter temporal do Estado, independente das Igrejas ou de qualquer outro tipo de poder religioso (cf. Con. Vat. II Const. Gaudium et Spes, nº74, 76). Há mesmo autores católicos que afirmam que face a esta característica de laicidade, o Estado não deve ter “religião estatal” própria, deve mesmo ser a-religioso (mas não anti-religioso) pois a religião cai fora da sua esfera de acção que é meramente temporal. Isto não impede que governantes e legisladores façam reflectir na sua acção política as suas ideias moldadas por um credo a que pertençam.
Se é verdade que a laicidade impede a intervenção da Igreja na vida do Estado também é verdade que impede a intervenção do Estado na vida da Igreja. Inversamente não impede um bom relacionamento, ou mesmo cooperação entre ambos.
Se esta ideia de laicidade se torna uma obsessão, se é promovida a valor supremo que a todos os outros se sobrepõe, se sobretudo se arvora em valor único, então temos a perversão do conceito, o seu efeito contraproducente, a aberração ideológica – é o laicismo.
Este não é a-religioso, mas anti-religioso. Não é neutral, é partidário. Não é a favor de uma boa relação, mas contra qualquer forma de relação ou mesmo a favor de uma relação hostil. É anti-clerical, raivoso, odiento, fanático, em resumo: é anti.
A Europa e Portugal atravessam um período de claro laicismo. Não de laicidade mas de laicismo. Nuns casos mais exacerbado, noutros mais mitigado, mas sempre de laicismo. Que como todos os “ismos” (como todas as absolutizações) é perverso.
Se a retirada dos crucifixos das escolas e hospitais estatais pode ser justificada pela laicidade (sem deixar de ser um atentado à cultura) já a proibição de escolas com nomes de santos ou de uso nas escolas de símbolos pessoais como lenços, estrelas de David ou cruzes é puro e fanático laicismo. Pois eu já vi num programa de rádio, duas “intelectuais” da nossa praça sustentar que devia ser proibido, nos edifícios do Estado, usar um lenço na cabeça, ou uma estrela de David na pulseira, ou uma cruz no fio do pescoço!
Laicismo puro e duro. Primário. Fanático. Estúpido (com a agravante de se mascarar de inteligente)). Numa só palavra laicismo fundamentalista. Com todos os atentados à liberdade."

In Semanário Católico “ A Ordem” de 31/01/08, e da autoria de M. Moura-Pacheco.

terça-feira, março 11, 2008

Interregno na TV

Escrevi há cerca de dois anos um postal a que chamei – Dia da Independência – e nele imaginava o dia em que, por causa de Portugal, da sua sobrevivência como Reino, Pátria ou Mátria, republicanos e monárquicos se haviam de entender num mínimo denominador comum, essa plataforma impossível de extinguir, e que faz a diferença entre ser e não ser português. A responsabilidade maior desse gesto caberia, segundo aquilo que senti na altura, aos republicanos uma vez que são eles que detêm o poder e foram eles que iniciaram um processo, que admitindo que se quis diferente, não trouxe a esperança nem a coesão nacional pretendidas.
O facto da realização de um programa específico para tratar de tema tão proibido e o facto não menos importante de ter contado com a participação, quer de um lado quer do outro, de personalidades com peso indiscutível, é talvez a prova de que foi esboçado um primeiro gesto na busca de um caminho novo, de uma saída para Portugal. Em vésperas de um centenário que será oportunidade histórica para o regresso à Lusitana Antiga Liberdade, não quero cultivar ilusões, nem sequer tecer críticas sobre o que gostei ou não gostei de ouvir no debate, prefiro conter-me e realçar os aspectos positivos, que os houve, não apenas para a Causa Real, mas sobretudo para o futuro dos portugueses.

domingo, março 09, 2008

Duzentos anos depois…

Enquanto os dois Silvas cavaqueavam no imponente cenário da Real Biblioteca do Rio de Janeiro, a nossa ‘cavaquita’ folheava distraidamente a sua ignorância, num livro que provavelmente dava conta do sucedido…

“… O porto encheu-se de barcos de pesca e os que queriam saudar a família real alinhavam-se no cais. Entre a multidão encontrava-se a figura franzina de Luís Gonçalves dos Santos, um padre brasileiro… que acabaria por escrever um detalhado relato da estada da família real na sua cidade natal.

“Faltavam dois minutos para as três, de uma tarde muito fresca, bela e agradável, daquele que seria para sempre um dia memorável, 7 de Março (1808), e que desde a madrugada, o próprio sol nos tinha anunciado como um dos mais afortunados para o Brasil… como se regozijaria por testemunhar a entrada triunfante do primeiro soberano da Europa na mais afortunada cidade do Novo Mundo”…
“ao som destas salvas de saudação, que podiam ser ouvidas num raio de quilómetros, e do alegre repicar dos sinos das igrejas, todos exultavam, e homens, mulheres, velhos e crianças corriam ansiosos por verem a extraordinária entrada da esquadra real.”

“No dia seguinte, a família real desembarcou. Fez-se um silêncio reverente quando o bergantim se moveu lentamente da frota para o embarcadouro. Atracou em frente da praça principal – uma clareira pavimentada a granito – que dava para a baía onde, no topo de uma rampa, tinha sido montado um altar. Chegada ao altar, a família real prostrou-se e foi aspergida por uma leve chuva de água benta. Daí, sob o palio, a comitiva caminhou numa lenta procissão, através da praça, para a catedral carmelita onde se rezava e dava graças pela conclusão bem sucedida de tão longa e perigosa viagem…”.

Louve-se, apesar de tudo, a memória dos dois países irmãos que tudo fizeram para abrilhantar a celebração deste acontecimento, e à qual faltou apenas a presença de um pai.

Fonte: Excerto da obra de Patrick Wilcken – “Império à deriva”.

sábado, março 08, 2008

Hoje é dia…

Hoje é dia de São João de Deus

O seu nome era Cidade, Montemor onde nasceu, e serviu na mocidade, por Castela se perdeu… e foi pastor e soldado, entre os grandes combateu, não tinha Deus nem cidade, mil ofícios padeceu!
Até que um dia um sermão, a cidade emudeceu – quem o ouviu foi João, que aos gritos se converteu:
- Meu senhor, Misericórdia, sou teu servo e teu irmão!
- Meu Senhor, Misericórdia, sou teu servo e teu irmão!
O seu nome era Cidade, para a cidade irrompeu... na rua, na insanidade, a miséria recolheu!
Foi assim João Cidade que o mundo então conheceu: levou Deus para a cidade, nunca mais se arrependeu!
Levou Deus para a cidade… esta cidade sem Deus.

São João de Deus é também o patrono do Vale de Acór, instituição de bem fazer que completa hoje catorze anos!
Parabéns.

sexta-feira, março 07, 2008

“O Fundamentalismo laicista (2) ”

2. Fundamentalismo

“Este vocábulo é relativamente novo na língua portuguesa.
(…) A palavra “fundamentalismo” aparece ligada a ideias religiosas. Um dos primeiros dicionários portugueses a darem-lhe honras de entrada foi o da Academia das Ciências de Lisboa que define “fundamentalismo” desta maneira: ‘Corrente religiosa, de tendências conservadoras que defende fidelidade total à interpretação literal das Escrituras’ (sublinhados nossos).
A definição está certa, mas a nosso ver, incompleta. Originariamente aplicava-se ao movimento que se desenvolveu nos círculos protestantes dos Estados Unidos da América, a seguir à Primeira Grande Guerra, em defesa dos “fundamentos” da doutrina tradicional da Reforma, particularmente o axioma da veracidade da Bíblia, interpretada literalmente. E o movimento com este nome na língua inglesa – fundamentalism – apareceu e desenvolveu-se como reacção a tendências chamadas “modernistas” de interpretação da criação do mundo e do homem, (como, por exemplo as de Darwin). Nessa época nos E.U. primeiro e no resto do mundo depois, tornou-se clássica a polémica religiosa entre “modernismo” e “fundamentalismo”, entendido este, de forma genérica, como fidelidade intransigente à interpretação tradicional protestante (ou seja) interpretação literal das Escrituras.
O vocábulo surgiu assim para designar um conceito novo, de índole caracteristicamente luterana.
Mas como todas as palavras de uma língua viva, também esta estava sujeita ao conhecido fenómeno linguístico da evolução semântica. E, a breve trecho, deixou de ser um conceito luterano para, mais genericamente, passar a ser um conceito religioso: a defesa intransigente e cega da interpretação literal e acrítica de textos sagrados de qualquer religião.
E foi assim que alguns Papas, algumas instituições ou alguns momentos históricos da Igreja Católica foram apelidados de “fundamentalistas”. Restaria saber – mas agora não nos vamos ocupar disso – se a atribuição do epíteto não resultara, ela própria, de uma visão “fundamentalista”.
O conceito foi alastrando de religião para religião e rapidamente chegou ao tão triste e assustadoramente célebre “fundamentalismo islâmico”. Mas aqui com uma força avassaladora nova: é que se trata de um “fundamentalismo” tão fundamentalista (passe a redundância) que extravasa do plano religioso para o político, na medida em que não há diferença entre lei religiosa e lei civil dado que esta é substituída por aquela, levando a que a própria sociedade civil adopte atitudes e comportamentos fundamentalistas.
Mas a evolução semântica não parou aqui nas fronteiras do religioso. E o conceito de “fundamentalismo” passou a aplicar-se a outros textos e doutrinas que nada têm de religiosos. Ou bem pelo contrário.
É assim que podemos hoje dizer que o leninismo é uma interpretação fundamentalista do marxismo. Ou que o maoísmo é, por sua vez, uma interpretação fundamentalista do marxismo-leninismo. Como é também assim que hoje se pode falar de “fundamentalismo económico” (vulgo economicismo) ou “fundamentalismo capitalista” ou “fundamentalismo liberal”. Ou no “fundamentalismo” que pode atingir qualquer doutrina: religiosa, política, filosófica, literária, artística ou moral.
Resta de tudo isto – e qualquer que seja o ângulo de abordagem – a permanência da intransigência, da interpretação literal e da ausência crítica.
Assim são adoptadas atitudes e desenvolvidos comportamentos baseados no seguimento cego e fidelíssimo de doutrinas sem atender às circunstâncias da época, às subtilezas da linguagem, à sua razão de ser, ao seu enquadramento cultural, isto é, sem a tentativa de qualquer interpretação e assimilação.
“Fundamentalismo” é, assim, a leitura primária de anteriores leituras primárias de um texto, qualquer que ele seja; e o procedimento primário que dessa leitura resulta. Nem a leitura nem o procedimento consequente beneficiam de uma centelha de inteligência, de lucidez, de subtileza, de conhecimento ou de capacidade crítica. Ou mesmo de uma gota de bondade.
Em resumo: “fundamentalismo” é o reino da estupidez. Malévola, as mais das vezes.”

Transcrito, com a devida vénia, do semanário católico “A Ordem” – nº 34 de 24/01/2008 – e da autoria de M. Moura-Pacheco.

quinta-feira, março 06, 2008

“O Fundamentalismo Laicista”

1. Introdução

“A Europa atravessa uma fase de fundamentalismo laicista.
O primeiro grande sinal – pelo menos o primeiro visível – foi a discussão sobre as origens cristãs do pensamento europeu e, consequentemente, da civilização e cultura europeias. Atitudes e comportamentos anti-cristãos, assumida ou disfarçadamente, começaram então a manifestar-se na legislação da Europa comunitária. À medida que alastra, esta mancha ideológica vai-se progressivamente radicalizando e mesmo fanatizando. O que significa dizer por outras palavras: “deseuropeizando”. Porque os radicalismos e os extremismos são a antítese do moderno pensamento europeu.
À liberdade democrática (essa, sim, verdadeiramente europeia) de não ser religioso, ou de não ser cristão, sucede-se a liberdade (profundamente anti-democrática) de atentar contra a liberdade de outros o serem.
Tudo se passa a coberto da ideia de Estado laico ou separação entre a Igreja e o Estado – o que é um princípio profundamente democrático que deixa a cada indivíduo decidir, no foro da sua consciência, o credo e respectivas normas de conduta a que quer aderir. O Estado nada lhe impõe nessa matéria. Como nessa matéria nada lhe impede. Só que esta ideia – como qualquer outra mas mais facilmente do que qualquer outra – é muito susceptível de ser prontamente subvertida e pervertida. Basta exagerar para além de todos os limites para perverter o bom em mau, o legítimo em ilegítimo, o justo no injusto. É assim que a separação entre Estado e Igreja se transforma em perseguição do Estado à Igreja, em opressão, em limitação. Raramente assumida mas sempre “civilizadamente” justificada. É a transformação do Estado Laico em Estado Laicista; é a tolerância religiosa europeia transformada no fundamentalismo laicista digno de qualquer país do terceiro mundo.

Como “bom aluno” da nascente União Europeia, Portugal não escapa a esta moda ideológica. E – como é costume dos alunos que se põem de dedo no ar para chamar a atenção do mestre para a sua perspicácia e precocidade – tenta mesmo, nesta e noutras matérias, mostrar a sua aplicação e adiantamento. Só que – parece-me – muitos portugueses não reparam. Desiludidos ou alheados da Federação nascente só darão pela ditadura ideológica mascarada de democracia de ideias quando esta lhes tolher o pensamento e a acção.
Por isso gostaria de aqui ensaiar e partilhar algumas reflexões sobre o emergente fenómeno do “fundamentalismo laicista”…”
(Continua)

Com a devida vénia, transcrevi o primeiro de vários artigos sobre o tema, publicados no jornal semanário “A Ordem”, (a partir de 17/01/2008), da autoria do seu Director – M. Moura-Pacheco.

quarta-feira, março 05, 2008

Uma decisão irresponsável

É o mínimo que se me oferece dizer sobre a infeliz e curiosa decisão da Comissão Disciplinar da Liga a propósito do ‘caso Meyong’!
Depois disto, e desde a primeira jornada deste campeonato, nenhum jogo ou resultado estão garantidos, o futebol em Portugal passou a ser um espectáculo em diferido, e os diversos intervenientes, desde os jogadores ao público, meros figurantes de um filme que não se sabe quando e como acaba! Usando menos palavras, diria que o futebol português não é credível. Com efeito, a mera possibilidade de se descobrir algum erro, doloso ou não, nos documentos oficiais que garantem a inscrição e o licenciamento de qualquer jogador, pode, pelos vistos, colocar tudo em causa, porque aqueles documentos afinal nada garantem! Descoberto o erro, seja por quem for, o clube onde o jogador actuou, passa a ser o único responsável pelas consequências do erro e perderá gentilmente na secretaria os pontos que ganhou no campo. Apenas haverá que indagar se houve dolo ou negligência por parte do dito clube para, neste último caso, lhe amenizar a pena!
Nestas condições, é preciso averiguar para que servem os documentos ‘necessários’ para a inscrição e licenciamento (são obviamente coisas diferentes) dos jogadores, para que servem os carimbos da Federação e da Liga, e se a importância cobrada por estas entidades tem o carácter de taxa, imposto ou gorjeta!
Já agora, para que servem a Federação e a Liga!
Saudações azuis.

sábado, março 01, 2008

“Com uma certa razão…”

Vasco Pulido Valente tem vindo a refinar com o tempo, o que significa que os momentos lúcidos são cada vez mais frequentes! Sobre o ‘mal-estar difuso’, que também glosei, escreve ele no jornal ‘Público’:

“ (…) Desde o princípio do século XVIII que Portugal quis ser ‘como a Europa’ e até hoje infelizmente não conseguiu. A cada revolução, a cada guerra civil, a cada regime, o indígena prestável, alfabeto, e ‘modernizante’ supunha que chegara ‘o dia’. E ‘o dia’ invariavelmente não chegava. (…) O português copiava com devoção o que via ‘lá fora’. Mas não saía da sua inferioridade e do seu atraso. No meio desta persistente desgraça, Portugal julgou três vezes que se aproximava da Europa: durante os primeiros tempos da ‘Regeneração’, durante o ‘fontismo’ e durante o ’cavaquismo’. Ao todo, trinta e tal anos de uma ordem política ‘civilizada’ e de um crescimento razoável. Mesmo assim, os fundamentos destes raríssimos milagres não eram sólidos. Nos três casos (embora com um ligeiro atraso), uma crise financeira pôs fim à festa e voltou a velha angústia nacional, a que por aí se convencionou chamar ‘mal-estar difuso’. O ‘mal-estar difuso’ é simplesmente o regresso à realidade. Portugal não tem meios para o Estado-providência e a espécie de vida que os portugueses reclamam. E como não tem, toda a gente se agita e ninguém faz nada com sentido. Esta fase também é conhecida.”

Este é um tema inesgotável e por mais voltas que a gente dê… desagua sempre no Atlântico, e eu acrescentaria, na Lusitana Antiga Liberdade, única fórmula a meu ver viável (e foi) de garantirmos a existência ou sobrevivência de um país, à partida inviável.
.
Fonte: Jornal 'Público' de 29/02/08.

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

Aulas de substituição!

Não pagamos.
Substituam o ensino, retirem-no das garras da propaganda, deste regime ou de outro, não intoxiquem as criancinhas! Deixem os livros ao critério das escolas, e as escolas ao critério dos pais, não tenham medo da diversidade, respirem fundo... Vivam! Um país à defesa é um país derrotado. Sobre os professores, que não têm culpa de ter nascido neste cativeiro, só posso repetir-me na seguinte reflexão: - "E daí se conclui, ao contrário do teorema socialista, que o ensino entregue ao Estado é sempre uma desgraça. E maior desgraça é ser utilizado para garantir um emprego no mesmo estado. No tempo da outra senhora, as academias militares (e os seminários) também foram utilizados para os mesmos efeitos, ou seja, para fins que nada tinham a ver com a vocação requerida. Os resultados eram previsíveis - perdemos Fé e Soberania."
Cabe hoje aos professores evitar que percamos sabedoria.
Mas não está fácil.

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Crisis! What crisis?!

Parece-me que era assim que se chamava um dos álbuns dos ‘Supertramp’, lembrança que me permite revisitar os meus vinte anos, vá lá, vinte e tal! Na capa, recostado numa cadeira de praia, em traje de praia, um homem tomava turisticamente uma bebida qualquer, por uma palhinha. Nada de anormal, a não ser a paisagem que o rodeava, uma espécie de lixeira! Isto lembra-me a contradição entre os discursos de Sócrates e a nossa realidade. Por exemplo, o jornal ‘Público’ publicava hoje o seguinte título: “Portugal à beira de crise social de contornos difíceis de prever, considera a Sedes” – e prossegue – “Associação alerta para falta de confiança nos políticos e presença asfixiante do Estado na sociedade”. Em letra mais miúda, resume: “O (Estado) demite-se do seu dever de isenta regulação, para desenvolver duvidosas articulações com interesses privados, que deixam um perigoso rasto de desconfiança”. Ora bem, independentemente da credibilidade que queiramos atribuir àquela Associação, o que ela diz todos nós sabemos, todos nós sentimos esse “difuso mal-estar”, a “degradação da confiança no sistema político”; os “sinais de crise nos valores”, e da minha lavra, uma comunicação social domesticada, afunilada; a criminalidade que aumenta ao ritmo da impunidade, sinónimo de injustiça, que é a pior das doenças do Estado.
No extremo oposto, aparece o primeiro-ministro, optimista, com ou sem fato de treino, a reclamar progressos, melhorias, incentivando os portugueses a deixarem-se ‘modernizar’ por ele, o grande timoneiro que nos há-de arrancar das trevas!
Mas como é que podemos ter confiança no sistema político, e neste governo, quando numa questão tão delicada quanto óbvia, refiro-me aos aviões que terão aterrado em Portugal a caminho de Guantanamo, a primeira palavra que se ouve de Sócrates é um não, a que se acrescenta uma caricata justificação - “não temos razões para acreditar nessa possibilidade”!
Enfim, continuamos com os ‘supertramp’, de óculos escuros e palhinha, refastelados na lixeira!

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Serviço Público

Nem sempre temos a noção da importância dos nossos gestos, muitas coisas fazemos, distraidamente, sem medir o alcance, que acabam por ser úteis, por servir a alguém, e só por isso são úteis, não é evidentemente o caso de alguns textos que de propósito publico no interregno, palavras dos outros, estruturadas e estruturantes, a que voltamos sempre porque têm valor, são tinta permanente que todos podem ler, de que todos podemos beneficiar, ficam para além das escolhas acessórias que salutarmente nos dividem.
A Evocação do Terreiro do Paço é um desses trechos que poderia permanecer, sem temer confronto, junto de outros, e cito de memória, a conversão de António Sardinha, pelo próprio, as quatro repúblicas e a monarquia, de Barrilaro Ruas, a eterna poesia de Torga e esse monumento épico a Maggiollo de Gouveia, da autoria de Ruy Cinatti!
E será por este último que a página se vira, voltando atrás, revisitando a história, para tentar compreender o que se passa hoje em Timor. Continuando a respeitar os desígnios do poeta.

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

A Evocação do Terreiro do Paço

Senhores Duques de Bragança
Minhas Senhoras e Meus Senhores

Começo por saudar o Senhor Dom Duarte investido pela Divina Providência na responsabilidade e na honra de representar a Casa Real portuguesa e que, com igual honra, patriotismo e, sobretudo, filial espírito de fé católica, assim tem vivido.

(I)

Fui convidado pelo Exmº Sr Presidente da Comissão ‘Dom Carlos 100 anos’, D. Nuno Bragança Van Uden, a tomar palavra no momento em que aqui nos juntamos para prestar homenagem ao Sr Dom Carlos, rei de Portugal, que, juntamente com seu filho, o príncipe herdeiro, o Sr Dom Luís Filipe, foram neste lugar atingidos por balas de ódio, por balas de cegueira, de injustiça e de ressentimento, como sempre capazes de levar avante uma qualquer das versões do engenho da violência.

Não o faço, obviamente, como delegado político, que não sou. Tão pouco como historiador, que de igual modo também não sou. Não trago, aliás, delegação de poderes de ninguém.

Apenas quero dar voz a um sentido da justiça e gratidão perante a memória de um rei que tem tanto de notável quanto de injustamente maltratado. Primeiro pelos seus contemporâneos, grande parte dos quais (e penso em não poucos daqueles que tinham maiores responsabilidades publicas) sem o mesmo esclarecimento e lealdade de atitudes, e posteriormente por uma historiografia que só agora parece pronta para dar do rei D. Carlos a sua real dimensão e dar dela razoável noticia perante a opinião pública. “Não há cousa que ocupe menor lugar do que um caído” dizia o grande pregador António Vieira.

Mas não posso deixar de chamar a atenção para o facto de ser um padre a pronunciar-se nesta circunstância. Significa isso que se pretendeu o testemunho de alguém chamado por Deus, Senhor da história, a dizer uma palavra que tenha tanto de verdade quanto de apelo construtivo; que sem esquecer o sangue das vítimas promova a reconciliação; que reconhecendo o passado não se fixe impotente no que é antigo; que não esqueça o honrado desafio que é ser fiel a Deus protagonizando a história hoje; que lembre que a nobreza é, antes de mais, coisa de sangue da caridade, quer dizer, coisa que tem que ver com o fluxo de fé, esperança, e amor dado hoje em empenho no combate por Cristo Rei e não a celebração atrasada e estéril de vaidades infrutíferas; e que quem assim não pensa não pensa segundo o Evangelho de Cristo.

(II)

Por isso a minha, e a nossa, sentida homenagem, a um rei patriota, de um modo tal que há cem anos escolheu passar por este lugar a descoberto por entre o povo, por entre o seu povo, porque se sabia escolhido como o primeiro com a responsabilidade de estar com o seu povo, e assim o fez em toda a sua intensa e amputada vida.
Ora falar de povo não é dar voz ás massas impessoais. Não é, tão pouco, seduzir demagogicamente, em nome dos mais desprotegidos socialmente.
Povo é a trama originária dos homens que, por condição, país e desenrolar histórico, estão unidos na vida e no destino. Povo são os homens que se encontram vinculados inquebravelmente nas suas raízes últimas e nas leis essenciais da natureza e da vida. A humanidade vista na sua condição originária: isso é o povo. Um homem tem a condição de povo quando leva em si essa totalidade. Neste sentido como não reconhecer em D. Carlos um homem do povo.
Com efeito, povo é uma realidade com uma identidade viva. O povo não imita, como o publico: conserva a própria personalidade, apropria-se do que pede emprestado e faz seu o que vem do exterior. Muitas vezes, quando o público vai ao centro comercial o povo defende a sua língua e cânticos; quando o público se distrai com o circo o povo mostra-se devoto...O público tem 150 anos; os anos do povo não se contam. O público passa, o povo é eterno. O público tem a globalização, o povo a terra. O público e o povo têm os seus epítetos. Entre nós, o público quer ser famoso e ter bem-estar; o povo é cristão e acolhe a missão que lhe é designada pela Divina Providência.
Por conseguinte, era este povo que D. Carlos sabia representar. Representar quer dizer estar presente. Significa avançar em nome de …. Pelos outros, por todos. O paradoxo da representação é lembrar os outros de um modo tal que se esquece a si mesmo. Assim Jesus Cristo, o Santo dos santos. Assim todos os santos (e nesta hora é dever lembrar, certamente, o mais nobre dos antepassados de D. Carlos, o Santo Condestável), assim os heróis que vencem a máxima lembrança de si mesmos, o orgulho e as menoridades da vaidade.

(III)

Por isso a minha, e a nossa, sentida homenagem a um rei perspicaz e com elevado sentido de Estado, face à árdua procura de servir a Pátria dentro da lei, perante partidos que pareciam o mais das vezes empenhados, sobretudo, em ampliar o seu quinhão de lucro; rei inteligente e eficaz na busca de uma outra presença internacional do seu país que protegesse os interesses da soberania territorial e que guardasse e promovesse a dignidade de Portugal;

Por isso, ainda, a minha e a nossa sentida homenagem a um rei corajoso, face à agitação das demagogias febris ágeis a publicitar contra a sua pessoa, rei corajoso face aos truques políticos organizados contra a governabilidade do Estado, rei corajoso face à face oculta de sociedades secretas votadas a boicotar e subverter o regime e que, na verdade, soube preferir o desígnio nacional às hesitações filhas de taticismos. De facto, D. Carlos expressa um entendimento da função régia que não tem origem na plutocracia, na febre do poder, em arbitrariedades ideológicas. Creio poder dizer de modo sereno que D. Carlos representa outro tipo de motivação para o exercício do poder: a vontade de servir, ou melhor ainda, a vontade de bem servir.
E foi por isso que D. Carlos não virou a cara na hora de usar autoridade. A palavra autoridade provem do latim e significa etimologicamente promover. A destruição da verdadeira autoridade não conduz a uma liberdade melhor, mas antes ao seu contrário: à coação e à violência. Com efeito, como os anos que se seguiram ao regicídio assim o provaram!

Por isso, finalmente, a minha, e a nossa, sentida homenagem a um rei nobre e distinto pelas suas qualidades pessoais, valente, ilustrado e tenaz, que amava a sua terra, que a conhecia e valorizava, pintando-a nos seus quadros com excelência, ilustrando a sua realidade com as suas aguarelas e com os seus relatórios para diversas entidades cientificas, promovendo com elevação a marca portuguesa. Homem honrado, portanto. Ora a honra é, pelo menos, não perder a identidade. Melhor, é fazer crescer a identidade, abrindo-a às melhores e mais virtuosas possibilidades que traz em si mesma.

(IV)

Enfim, o dia de hoje obriga-nos a pensar no mistério do mal, essa manifestação da liberdade fracassada, não reconciliada e irreconciliável, entropia negativa do espírito, que atira para baixo, e vai deixando consumido e destruído o tempo que lhe foi dado.
Mas o dia de hoje não reclama um ajuste de contas. É apenas um dia de memória, o que é diferente de estarmos aqui reunidos a visitar o museu da história. Porque a história, por vezes, reduz os acontecimentos apenas a curiosidades. E cito Peguy: “A história consiste essencialmente em passar ao lado do acontecimento. A memória consiste, essencialmente, por estar dentro do acontecimento, em não sair dele, em permanecer nele e reconstitui-lo por dentro…”
Com efeito, creio que é preciso uma insistência na memória face à actual cultura do esquecimento.
Na verdade, quis o Sr Dom Duarte que o dia de hoje fosse assinalado sob o signo da reconciliação. Certa vez, disse o Papa João Paulo II, ele mesmo vitima miraculosamente salva de um atentado, que “o limite imposto ao mal, cujo artífice e vítima é o homem, em última análise é a Misericórdia Divina.” E por estes dias, disse também o Papa felizmente reinante: “ O amor torna-se o critério para a decisão definitiva sobre o valor ou a inutilidade duma vida humana.” Assim, como não bendizer a Deus por este rei que amou e serviu até ao fim o seu povo!

Por isso termino a minha intervenção rezando e convidando a rezar comigo. E digo um salmo:

Deus se compadeça de nós e nos dê a Sua benção,
Resplandeça sobre nós a luz do Seu rosto.
Na terra se conheceram os Vossos caminhos
e entre os povos a Vossa salvação!
Os povos Vos louvem, ó Deus!
Todos os povos Vos louvem!
Alegrem-se e exultem as nações,
porque julgais os povos com justiça
e governais as nações sobre a terra.
Os povos Vos louvem, ó Deus,
Todos os povos Vos louvem!
A terra produziu os seus frutos.
O Senhor nosso Deus nos abençoa.
Deus nos dê a Sua benção;
e chegue o Seu temor aos confins da terra!

Oremos

Senhor nosso Deus,
Pai de misericórdia e fonte da salvação humana,
que constituístes o vosso servo Carlos rei de Portugal
e a seu filho Luís Filipe príncipe herdeiro,
dignai-Vos conceder por intercessão
da Virgem Maria, na sua Imaculada Conceição, Rainha de Portugal,
o perdão dos seus pecados,
a paz e a conversão do seu povo,
a misericórdia para com os seus inimigos,
e a bem-aventurança eterna na pátria celeste.
Por NSJC.

Autor: Padre Pedro Quintela
Lido pelo próprio no Terreiro do Paço, em 1 de Fevereiro de 2008.

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

O meu voto de pesar

Quando a assembleia da república recusa um voto de pesar pelo assassínio do Rei Mártir, que era o Chefe de Estado Constitucional na altura dos trágicos acontecimentos, isso só pode significar que o regime vigente se identifica com os criminosos, com a impunidade, e esclarece de uma vez por todas aquilo que disfarçava a todo o custo – sem este crime a república nunca se teria implantado em Portugal.
Mas também explica o impressionante registo criminal de cem anos de regime republicano: neste período foram assassinados dois chefes de estado, um candidato á chefia de estado e um primeiro-ministro! Monstruoso record, indigno de uma nação civilizada! Responsabilidades nunca existiram! Culpados também não! Provávelmente estarei a recordar aquilo que as almas mais sensíveis gostariam de esquecer, mas sem memória não existiremos como povo, sem verdade não existiremos como homens.
Reconciliação rima com perdão, mas com terroristas confessos, que ainda não se arrependeram, não há reconciliação possível.
É este o meu voto de pesar, voto de pesar por Portugal.

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Cem anos de decadência

Faz hoje cem anos que matámos o rei, o dia amanheceu solene e triste, as primeiras notícias confirmam o que esperávamos, o bastonário da ordem dos advogados cumpre os serviços mínimos para que foi eleito – interferir e descredibilizar ainda mais o processo da Casa Pia.
Há cem anos, o processo do Regicídio também se perdeu nos gabinetes da primeira república, a verdade nunca se apurou, e a impunidade venceu.
Faz hoje cem anos que perdemos o fio à meada, não admira portanto que tenhamos perdido o sentido comunitário da honra, da liberdade e da independência.
Acreditamos hoje que o crime do Terreiro do Paço, e as sucessivas (e inevitáveis) revoluções republicanas que lhe seguiram, serão as grandes responsáveis pelo atraso a que estamos votados.
Sabemos hoje, apesar da censura, da propaganda, das várias cumplicidades, que o rei foi um extraordinário estadista, que visava longe, desde logo a reforma do estado, o reforço da centralidade atlântica, a investigação e valorização dos nossos recursos marinhos, que tão bem conhecia, mas sobretudo, a defesa e o desenvolvimento dos territórios africanos que estavam à nossa guarda. Nesse sentido, o Príncipe Luís Filipe, herdeiro do trono, viajou até Àfrica naquela que foi a primeira deslocação de um membro da família real às colónias portuguesas.
Mas também sabemos que o espírito reformador do rei colidia com os interesses instalados, e na política externa, com os interesses das grandes potências, que cobiçavam as nossas colónias. Tudo isso, tudo junto, compôs o cenário do crime. Tudo isso, tudo junto, foi ganho pelo atentado.
Cem anos depois, a reforma do estado continua por fazer, o rotativismo que vivemos é o mesmo, ou pior, a justiça não funciona, e trocámos a centralidade atlântica, base secular da nossa independência, pela periferia de uma união europeia que pode falir a qualquer momento.
Com tudo isto, e tudo junto, cem anos depois, passámos de uma média nação europeia para a cauda da Europa!
Por tudo isto, faz todo o sentido, que todos juntos, evoquemos os cem anos da morte do Rei Dom Carlos.
Que esta homenagem seja o primeiro passo para reconciliação de Portugal com a sua história.

quarta-feira, janeiro 30, 2008

Terroristas e terrorismo

Andamos nós muito preocupados com o terrorismo, cheios de ‘guantanamos’ e autorizações de passagem a qualquer preço, enquanto a republicazinha que temos vai promovendo terroristas, remove-os para o Panteão Nacional, como se fosse a coisa mais natural deste mundo, como se a arte da escrita limpasse o sangue inocente derramado! E porque é mesmo uma republicazinha da treta, na impossibilidade de escamotear a verdade por mais tempo, sempre vai dizendo que o Rei barbaramente assassinado no Terreiro de Paço era afinal um estadista notável e que a sua morte terá atrasado (e dividido) irremediavelmente o país! Patético! Como patéticas têm sido as tentativas para justificar (vá lá, para explicar) o Regicídio. Por exemplo, o célebre professor Hermano Saraiva, que costuma ter opinião e tese sobre tudo, não consegue esclarecer porque é que a escola republicana nunca se interessou por ensinar aos alunos a história portuguesa, quer do século XIX, quer dos primórdios do século XX! Quanto mais não fosse para que a população conseguisse perceber o destino decadente que lhe tocou em sorte. A melhor pista que o professor Saraiva descobriu, relativamente ao silêncio temático, resume-se a um conhecido provérbio: - ‘não se fala de corda em casa de enforcado’! Mas podia ter aproveitado a ocasião para revelar o mistério que pende sobre o Processo Judicial na altura instaurado, e que por conveniência de serviço desapareceu sem deixar rasto!!! Seria uma forma de explicar o estado da justiça em Portugal, que continua incapaz de se opor à associação de malfeitores que há um século se apoderou do país! E podia também ter revelado o que sabe sobre o consentimento explícito, por parte da primeira república, em favor da construção de um obelisco à memória do Buíça e do Costa, os dois terroristas mortos na sequência dos fatídicos acontecimentos! O escândalo só terminaria durante a segunda república, com a justificação que o referido 'monumento' impedia a circulação dos carros funerários dentro do Cemitério! Esta desculpa diz tudo sobre o verdadeiro carácter do regime – medroso, hipócrita e protector de terroristas.
Que diferença... para o carácter do Rei cobardemente assassinado!

segunda-feira, janeiro 28, 2008

Alucinações

Não sei se me apetece continuar a ser monitorizado a partir de Bruxelas, sede estatística que regula a minha vida, que me rouba a centralidade duramente conquistada, a que chamámos um dia, independência! Não estou orgulhosamente só nem mal acompanhado, e não recuso tratados ou uniões, desde que negociados com alternativas, precisamente o contrário do que acontece!
Por isso, não sei se me apetece ser comandado por um triunvirato, que inevitavelmente se há-de zangar, e desfazer, quando já não for possível esconder ou conciliar as contradições entre os vários interesses em presença. A história há-de repetir-se enquanto o homem que conhecemos sobre a Terra, não corresponder às várias utopias dominantes. Portanto, convinha aprender alguma coisa com o passado, com os erros e virtudes desse mesmo passado.
E assim, não sei me apetece estar sistematicamente a pedir desculpas pelos eventuais erros cometidos, sem valorizar ao mesmo tempo as reais virtudes conhecidas. E porque nestas virtudes se encontra a virtude do regime monárquico, não sei se me apetece, ou se faz algum sentido, comemorar o centenário do regime republicano, que notoriamente nos dividiu e divide, sem acrescentar nada, mas diminuindo tudo, território, população, riquezas e ambição!
Ou será alucinação?!

quinta-feira, janeiro 24, 2008

“Ratzinger, eu e o discurso do Papa”

Todos podem emitir uma opinião sobre o que aconteceu recentemente na universidade «La Sapienza», mas nem todos têm, como eu, uma história pessoal para contar, relacionada com o assunto.


Um dia, um articulista do «Diário de Notícias», que publicava regularmente longos textos sobre a clarividência intelectual da doutrina marxista, resolveu comentar uma conferência do Cardeal Ratzinger. Essa conferência, sobre o caso Galileu, merecia-lhe a condenação mais veemente, pois o cardeal defendia o desprezo pela verdade e louvava a mentira propositada. O longo texto do «Diário de Notícias» (2 de Junho de 1990, página 7) não deixava pedra sobre pedra. E, ainda mais arrasadoras que as críticas severas que se faziam ao conferencista, eram as citações da própria conferência. Por exemplo, segundo relatava o artigo do «Diário de Notícias», o cardeal teria defendido que «é legítima a recusa de resultados científicos válidos (da verdade científica) quando eles contradisserem a centralidade histórico-social de normas, crenças ou valores legados pela tradição».

A julgar pelo artigo do «Diário de Notícias», o Cardeal Ratzinger pensava como um fanático sem escrúpulos. Eu tinha lido textos dele, extraordinários, de uma abertura intelectual notável, de uma rectidão tão grande, tão respeitosos para com todos e tão empenhados na verdade... Como é que aquela erupção de desfaçatez primária se podia explicar? Fiquei com vontade de ler a conferência.

Infelizmente, os extractos da conferência eram citados de uma revista italiana, «Il Sabato» (de 31 de Março de 1990), que eu não conhecia de parte nenhuma. Na época não existia ainda o «Google», nem algumas facilidades de comunicação a que já nos habituámos, pelo que foi muito difícil localizar a revista. Finalmente, encontrei uma referência indirecta num jornal espanhol e, através do jornalista espanhol, consegui chegar à fonte e obter o texto da conferência.

O choque não podia ter sido maior, quando a revista me chegou às mãos. Nenhuma das citações, colocadas entre aspas no artigo do «Diário de Notícias», pertencia ao texto. Nalgum caso, a frase estava quase lá, mas antecedida da palavra «não», que fora omitida na transcrição. Em geral, não se conseguia encontrar relação entre a posição atribuída a Ratzinger e o texto da conferência: a invenção chegava a 100%.

Além disso, nem sequer o tema da conferência era o caso Galileu, mas a relação entre a Razão e a Fé. A primeira parte da conferência era sobre a queda do marxismo soviético e a segunda parte (que foi a publicada pela «Il Sabato», com o título geral de «o sincretismo religioso») era uma defesa da razão e da religião fundada na verdade. Ratzinger alertava para o perigo de aproximações à religião que fossem fruto do desencanto relativamente a outras doutrinas, ou do sentimentalismo. A propósito, comentava a ambivalência de autores distanciados da Igreja, como Feyerabend e outros, que, em vez de aproveitarem o processo Galileu para atacar a Igreja, se mostravam compreensivos com o que aconteceu e, nalguns casos, chegavam a considerar positiva a condenação. O fim da crispação de certos intelectuais contra a Igreja era positivo, mas aquilo não era uma base saudável para fundar a relação com Deus, a qual só podia estar ancorada na verdade. E é sobre a importância da verdade que Ratzinger falou, ao longo de toda a segunda parte da conferência.

Entrei em contacto com o Director do «Diário de Notícias», para lhe dar conta destes factos, mas o secretariado da Direcção frustrava as sucessivas tentativas (talvez o Director tivesse dado indicações nesse sentido...). Por fim, contactei um jornalista por quem tenho admiração, Pacheco de Andrade, e pedi-lhe que promovesse o encontro. Graças à sua intervenção, pude apresentar ao Director (a 7 de Setembro de 1990) a revista onde fora publicada a conferência e a respectiva tradução para português. A meu ver, o jornal tinha a obrigação moral de esclarecer os leitores e, já agora, devia publicar o texto verdadeiro da conferência, que era bem interessante.

O Director explicou-me que os jornais vivem da espuma do momento, que factos passados já não lhes interessam. Portanto, não iam desmentir a notícia e, muito menos, publicar a conferência, que era ainda mais antiga que a notícia (três meses e meio mais antiga). Não me ocorreu perguntar-lhe até onde ia o interesse de um jornal pelo passado: dias? Semanas? Ao fim de quantos meses, um assunto destes se considera história remota?

O Director do «Diário de Notícias» não aceitou publicar o desmentido, nem a conferência, mas propôs que eu escrevesse um artigo sobre o assunto. Enviei-lho prontamente. Insisti para que o publicassem. Finalmente, explicaram-me que o artigo era demasiado extenso e não poderia exceder um pequeno número de linhas. Reformulei-o e enviei um novo texto. Enviei segunda via. Fui ao jornal entregar pessoalmente o artigo resumido, para ter a certeza de que não se perdia nos correios. Nunca mais consegui acesso àquele Director, nem o artigo foi publicado.

Lembrei-me desta história quando li que a mesma conferência do Cardeal Ratzinger, e a mesma frase de Feyerabend, retocada e tirada do contexto, era invocada em Itália, quase 20 anos depois.

Talvez tenha havido uma fonte comum, uma notícia falsa nunca desmentida, na origem do artigo do «Diário de Notícias» e na declaração do pequeno grupo da «La Sapienza». As pessoas que citam em segunda mão, sem comprovar na fonte, arriscam-se a fazer figuras tristes. Talvez tenha sido esse o caso.


José Maria C. S. André

Lisboa, 21 de Janeiro de 2008


(Ver abaixo – Conferência do Cardeal Ratzinger de 15 de Março de 1990).