sábado, maio 03, 2008

O máximo divisor comum


Nestas questões partidárias que vão acontecendo e são notícia o que parece não é: Manuela Ferreira Leite pode de facto reunir algum consenso entre os barões do partido, dito social-democrata, mas se olharmos para além do nevoeiro, quem suscita maior unanimidade de pontos de vista, quem é geralmente apontado como não tendo qualquer viabilidade ou apoio, esse é Pedro Santana Lopes! Assim, com alguma sorte, e pela negativa, estou convencido que seria o único a poder unir o partido em torno dessa aversão! E se não estou a ironizar, a comunicação social até podia dar uma ajuda, prosseguindo na sua campanha contra o 'menino guerreiro' das 'trapalhadas', colocando a fasquia naquele ponto alto – nada a favor de Santana, tudo contra Santana.
Porém, curiosamente, Santana é o único dos candidatos que afirma querer mudar o rumo da política, dentro do partido e dentro do país, enquanto os outros candidatos, por certo mais credíveis, vão apresentando curriculum vitae, incluindo medalhas por serviços prestados a todos os títulos!
Mas como a classe política não está interessada em mudar de política (era só o que faltava!) também aqui Santana Lopes está completamente isolado, mantendo-se portanto como o máximo divisor comum!
A única esperança que resta aos portugueses é que tanta unidade contra o Santana acabe por dividir o partido e finalmente clarificar o espectro político partidário.

quarta-feira, abril 30, 2008

Onde é que nós íamos?!


Ah, já sei, nas maravilhas do mercado global, nas empresas repletas de engenharia financeira, sem a chatice dos trabalhadores, e nós no aconchego do condomínio fechado, esperando que a enorme 'sanzala' que (democráticamente) fabricámos nos forneça a força de trabalho, a recibo verde, e vá extraindo da terra ardente o cereal que necessitamos para comer os nossos 'croissants'!
Mas o mundo não se deixa domesticar tão facilmente, nem a mão invisível nos conduz aonde esperamos, pode dar para o torto, e quem imaginaria que em Londres uma dona de casa viesse a sofrer com o racionamento do arroz! Será só uma crise passageira, uma consequência da subida do preço do petróleo (há quanto tempo não encho o depósito do meu carro com arroz!...) ou é o princípio do fim de outra utopia! E como sonhar é fácil, talvez seja preferível sonhar com outra história já que esta nos ameaça com o pesadelo da fome!

sábado, abril 26, 2008

Uma boa oportunidade


Se houvesse um bocadinho de bom senso, disfarçavam, nem era preciso bom senso, bastava um mínimo de bom gosto e esqueciam a data, tal como a juventude a ignora e foge da política porque desconfia dos políticos!
O 25 de Abril, o 28 de Maio, o 5 de Outubro, para não ir mais atrás, com cravos ou sem cravos, são datas de guerras civis, lutas fraticidas entre portugueses, e por isso, ninguém com dois dedos de testa se lembraria de comemorar tal coisa. O que seria expectável é que no fim de cada uma destas 'revoluções', os vencedores a festejassem e os vencidos a chorassem, e depois todos a esquecessem porque a vida continua. Mas não, nesta terra a política virou propaganda, portanto, os que ganham e conquistam o poder, continuam a comemorar o facto atirando anualmente à cara do adversário os louros da sua vitória. E curiosamente, esperam que os vencidos do dia estejam contentes e abrilhantem o festejo!!!
Claro que isto não podia dar certo, e daí o ar sorumbático e comprometido dos 'convivas'. Daí a morte anunciada destas datas que a memória não retém! Ou se retém é pelos piores motivos.
Salazar, que era de facto mais esperto que os do seu tempo, neste capítulo das comemorações fez os possíveis para desvalorizar e fazer esquecer, quer o 28 de Maio, quer o cinco de Outubro. E fê-lo, não por amor à verdade, mas por razões estratégicas, para não criar cisões profundas entre os portugueses, cisões que o obrigariam mais tarde ou mais cedo a definir-se, e isso ele não queria. A sua longevidade política dependia muito (e dependeu) dessa indefinição.
Ora aqui estava, portanto, uma boa oportunidade para esta terceira república afirmar alguma superioridade sobre as anteriores, assumindo os erros cometidos, a tragédia da descolonização, podia também assinalar a virtude pelas regiões autónomas, mas de seguida encerrava definitivamente as comemorações! Que hoje só interessam a alguns, aos que herdaram o estado novo, e como justificação para se eternizarem no poder, garantindo assim os interesses anexos. Para o país estes festejos não interessam, para além de absurdos, perpetuam desconfianças, dividem em lugar de unir, e impedem que a nação se mobilize para as tarefas do futuro. E são dispendiosos.
Em suma, só inconvenientes.

sexta-feira, abril 25, 2008

Fado


Serenamente
sem aflição
ainda espero
no cabo raso
da ilusão
.
Mas diz quem sabe
que a velha nau
sem ousadia
ficou parada
na calmaria
.
Não há palavras
nem que dizer
do que sobrou
Madeira Açores
haja o que houver
.
Assim fizéramos
noutras paragens
e igual certeza
dessa maneira
bem portuguesa
.
Serenamente
por teimosia
ainda espero
no cabo raso
da utopia!

quinta-feira, abril 24, 2008

Amanhã há guerra?


Pergunta-me uma angustiada criatura! E insiste, sim, no Terreiro do Paço, por causa da extrema direita! Mas como, replico, se nem direita temos como pode haver extrema?! A guerra é contra a extrema esquerda, esclarece-me, contra a liberdade! Tento então explicar-lhe que a extrema esquerda também não existe, o que existem são arruaceiros sem qualquer cultura política, recrutados para isso mesmo, para provocarem arruaças, casos de polícia, que não se alarme em vão. E acrescento, neste país nunca há guerra, inventámos a quezília permanente para que não haja uma guerra declarada. Crimes e traições, sim, mas pela surra. A grande especialidade são revoluções de cravos e rotundas, telegrafadas posteriormente ao resto do país! Que as acata sem pestanejar e sem esperança!
Convenhamos no entanto que a situação não é famosa, o regime não tem saída, dependemos totalmente de terceiros e o custo de vida agrava-se diáriamente. Nestas condições a coisa pode tornar-se perigosa, um pequeno aumento pode riscar o fósforo! Recordem-se para o efeito as 'portagens' de Cavaco!
Só o estômago levanta este povo silencioso e pachorrento do sofá da bola!
E a conversa termina com uma pergunta maliciosa: mas estes feriados não era suposto serem dias de unidade e alegria entre os portugueses?! A que propósito vem a guerra?!
Não houve resposta.

quarta-feira, abril 23, 2008

Papéis trocados!

“O Tratado de Lisboa, tão glorificado pelo PS e pelo seu Governo, tão apoiado pelo PSD e CDS-PP, propôe a perda da soberania nacional na gestão dos recursos biológicos marinhos. Esta é também uma perda da autonomia regional. Os Açores perdem a possibilidade de decidir sobre as suas águas territoriais”, afirmou Jerónimo de Sousa nos Açores!
Fonte: Jornal Público de 21/04/08.

Resumindo, enquanto os partidos do chamado arco governamental vão entregando a Bruxelas anéis e dedos, o velho partido comunista assume posições que não envergonhariam um partido conservador português, se ele existisse!

domingo, abril 20, 2008

Oposição - uma receita caseira

É uma receita tradicional portuguesa, as mil e uma maneiras de não haver oposição, e cada época tem a sua especialidade. A receita de Abril é conhecida: - juntem-se num tacho (sem asas) dois partidos práticamente iguais, desloque-se o centro do tacho para a esquerda com os ingredientes do costume, seja em bloco, seja em povo unido, evitando assim que a direita levante cabeça, perdão, fervura. Para vigiar o tacho e o cozinhado recrute-se um chefe de cozinha num dos partidos do tacho.
Ponha-se tudo a marinar durante trinta anos!
Este prato é para ser servido à população com molho rosa ou laranja dando a impressão que são dois cozinhados diferentes, mas não são.
E a gente vai nisto!

quarta-feira, abril 16, 2008

Porquê agora?!

Se um litro de leite em Portugal custa o mesmo que um litro de leite nos países da União que têm salários mínimos que são o dobro ou o triplo do nosso (e já não falo nas reformas de miséria), então não é caso para estarmos preocupados!
Se a educação em Portugal produz os resultados que conhecemos, e não será por falta de professores ou de meios, e se a justiça prescreve, enquanto juizes e procuradores se entretêm a visionar vídeos de futebol!... Então não devemos ficar preocupados!
Se a saúde é cara, como as mais caras, e igual às piores, não será urgente ficar preocupado!
E que dizer dos políticos que transitam do estado para as empresas agradecidas! E a permanente guerrilha entre governos regionais e centrais! Onde falta um árbitro isento que assegure a confiança e a harmonia.
E a apregoada coesão nacional todos os dias posta em causa com centenas de trabalhadores portugueses a passarem a fronteira para irem trabalhar em Espanha! Incapazes que somos de solucionar a desertificação do interior do país!
Tudo concorre para a preocupação geral, e por isso, porque não se vislumbra futuro, algumas 'irmandades' começam a movimentar-se, especialmente aquelas que habitam no aparelho de estado há mais de um século, e têm, assim, as maiores responsabilidades no descalabro.
A mim interessam-me as causas, mas o preço do leite é uma consequência.

quinta-feira, abril 10, 2008

Os fins e os princípios

Está a findar uma era, um ciclo histórico, todos os sinais o confirmam, e esse estertor sente-se aqui, na ‘ocidental praia lusitana’, como se sente no mundo inteiro. Talvez que na orla atlântica, por estar mais exposta às correntes oceânicas, esse desmoronar das ideias invencíveis surja com mais intensidade que noutras latitudes. O facto é que era impensável assistir na televisão pública ao anúncio de uma ‘abertura’ (foi a expressão utilizada) entre a Igreja Católica e a Maçonaria, incluindo nessa ‘abertura’ o Grande Oriente Lusitano!
Tal como aconteceu, aquando do recente debate sobre monarquia e república, também estou à vontade para me pronunciar sobre este novo cenário, não preciso de me reciclar ou justificar apressadamente, vantagem de ter adivinhado e proposto esta ‘ultrapassagem’, mas vantagem sobretudo por me rever na tradição da Lusitana Antiga Liberdade, e como tal, nunca ter poupado críticas à Maçonaria e à sua acção traiçoeira e nefasta para Portugal e para os portugueses. Pode dizer-se que é ela a grande responsável pela situação de decadência permanente em que vivemos, nunca abrindo mão da chamada ‘educação pública’ (que manteve no tempo de Salazar!) fórmula ideal para embrutecer gerações e gerações de estudantes com propaganda anti-católica e anti-monárquica. Compreendemos agora melhor o ‘estudante telemóvel’, ateu, ignorante e malcriado, como também compreendemos os ‘professores’ que desfilam e insultam a hierarquia, um esplêndido exemplo para a pequenada! Esta questão do ensino será por certo um dos pontos de clivagem (e a discutir), tal como sugeriu Dom Carlos Azevedo, porta-voz da Conferência Episcopal, que não evitou criticar também a Igreja Católica pelo seu silêncio (e cumplicidade) durante a segunda república.
Portanto, é bom que as coisas fiquem claras, se agora, face à derrocada eminente do regime, chegou o momento da Maçonaria pensar primeiro na Pátria do que nos seus interesses ocultos, pois então que haja abertura.
Assim a hierarquia Católica saiba estar à altura deste compromisso histórico.

terça-feira, abril 08, 2008

Lavandaria nacional

Começo com uma adivinha – qual é coisa qual é ela que usa detergente verde rubro, cheira a papel de jornal e limpa a seco qualquer nódoa que possa sujar o bom nome dos clubes da segunda circular?! Não faz mal se não adivinharam. Vem isto a propósito da notícia do jornal Record, notícia de primeira página, em toda a sua largura, e com letras garrafais: “Rui Costa inocente”! E eu perguntei aos meus botões – mas inocente de quê?! Sabemos que alguns dirigentes do Benfica digeriram mal o empate no Bessa; sabemos também que houve desaguizados no túnel que dá acesso aos balneários; e a própria televisão deu conta que um dos mais inconformados era precisamente Rui Costa; portanto, nada mais natural que o capitão benfiquista estivesse envolvido nos acontecimentos cuja gravidade não sabemos qual é, a não ser que o sucedido venha a constar de algum relatório oficial. Até aqui tudo normal.
O que não é normal é esta preocupação doentia de retirar logo do centro das responsabilidades o nome de Rui Costa, como se pertencesse a uma casta (ou a um conjunto de interesses) acima de qualquer suspeita! Mal ‘acomparado’ faz-me lembrar a impossibilidade que parece existir no nosso país que os deputados, pelo facto de serem deputados, ou ministros, não possam ser acusados de pedofilia ou suspeitos de algum crime! Triste terra, inferior e subserviente, incapaz de fazer justiça com igual peso e medida, quer se trate de gente vulgar ou de alguém com poder.
Rui Costa é provávelmente o menos culpado nesta história, história onde nem sequer existem ainda culpados ou inocentes.

segunda-feira, abril 07, 2008

Aconteceu há dez anos!

Quando a carrinha branca parou na berma da estrada, como nos velhos filmes de aventuras, eu já sabia que o meu destino podia mudar naquele momento. Drogados, era tudo o que me esperava no fim da curta viagem, um mundo desconhecido, gente de outro planeta, em recuperação neste planeta, prisioneiros voluntários que não conseguiam tomar conta de si! Sou de outro tempo, do tempo das tabernas, dos pecados individuais e intransmissíveis, sem necessidade de bengalas e adjectivos, aquela lepra fazia-me confusão! Mas na altura, desempregado e desocupado, decidi aceitar o que me ofereciam, a estranha tarefa de acompanhar e vigiar, em horário nocturno, o andamento de uma comunidade terapêutica, tal era o nome destes armazéns de jovens dependentes, por certo inimagináveis pelos nossos bisavós!
Não era portanto um missionário que ali entrava, mas alguém que também precisava de virar uma página pouco propícia da sua vida, um espírito neutro, na expectativa, mas que mantinha um indiscutível ar de superioridade!
Porém, como na fábula, os vencidos acabam por assimilar os vencedores quando estes não têm tanta razão como julgam, e assim, comecei a descobrir com alguma surpresa que aquele local envenenado era afinal um bálsamo para a minha alma subitamente renascida! E maior surpresa ainda quando dei comigo a admirar a coragem daqueles resíduos humanos, erguendo-se para saírem do poço escuro em que tinham caído! Perguntava-me então, se comparado com eles, os meus parcos esforços para aperfeiçoar a minha vida valeriam de alguma coisa! E a resposta nunca era lisonjeira.
É apenas uma data, mas gostava de a assinalar no interregno porque é de interregno que se trata – cumpriram-se dez anos que levo nesta cruzada! E já não me arrependo de ter entrado naquele final de dia, naquela carrinha branca.

sexta-feira, abril 04, 2008

No banco dos réus

Parece que sim, é verdade, parece que conseguimos finalmente sentar um homem do regime, um tubarão (neste caso dragão) no banco dos réus! Estou talvez a subestimar a personagem, mais do que um homem do regime, trata-se de um homem do norte, um regionalista confesso, alguém que emergiu com a revolução dos cravos, alterando, não esqueçamos, a relação de forças entre o norte e o sul, naquilo que o país tem de mais relevante e vital – o futebol!
Até há pouco tempo isto era impensável, nem o governo permitiria tal desaforo, a própria assembleia votaria uma moção qualquer, evitando a diligência. O presidente, interpretando o sentir da nação, vetava. Como prova bastante do que afirmo, junto ao processo uma boa fotografia da final de Sevilha onde a nata do regime, a fina-flor dos políticos e da política, ladeando o agora réu, assistiu contente e feliz, a uma magnífica jogatana que acrescentou mais um castelo aos castelos da pátria! Portanto, estou de rastos, perplexo, e ao mesmo tempo contente, porque a justiça funciona e é de facto cega na verdadeira acepção da palavra. A seguir imagino o pior e o pior só pode acontecer na Madeira, quem sabe uma escuta telefónica surpreendendo uma tentativa de favorecimento de um clube local, que arrastasse consigo o governo regional e o seu bem amado líder! Afasto esta ideia e acalmo-me, isto ainda não aconteceu, voltemos pois à vaca fria porque a redenção aproxima-se.
Porém, nem tudo são rosas, relativamente dessincronizada com a justiça está a nossa federação de futebol, sempre distraída com a selecção, único e último elo comunitário, e nestas condições a tutela, ou seja o governo, também pode continuar mal na fotografia.
Termino com um assunto menor: os jornais noticiam que de acordo com dados fidedignos, nos últimos dez anos em Portugal, o fosso entre ricos e pobres duplicou. Um record na zona euro.
Hoje, sobre justiça, é tudo.

quarta-feira, abril 02, 2008

Soneto

“Auto-retrato”

Poeta é certo mas de cetineta
Fulgurante de mais para alguns olhos
Bom artesão na arte da proveta
Narciso de lombardas e repolhos

Cozido à portuguesa mais as carnes
Suculentas da auto-importância
Com toicinho e talento ambas partes
Do meu caldo entornado na infância

Nos olhos uma folha de hortelã
Que é verde como a esperança que amanhã
Amanheça de vez a desventura

Poeta de combate disparate
Palavrão de machão no escaparate
Porém morrendo aos poucos de ternura.


José Carlos Ary dos Santos

terça-feira, abril 01, 2008

“O Acordo Ortográfico”

“ Não conheço ainda, em pormenor, as regras do novo acordo ortográfico.
Como o Governo Português pediu uma moratória de 6 anos, tenho tempo para o estudar. Contudo, por muito que, eventualmente, venha a concordar com as normas concretas, há dois aspectos de princípio (por isso anteriores às normas) com que não posso concordar.

O primeiro é que, sendo nós os autores da língua, não temos nada que a acertar com outros povos a quem ensinámos primeiro e depois a adoptaram como sua. Têm eles todo o direito de a adaptarem às suas necessidades, usos e costumes e, de acordo com isso, a fazerem evoluir como evoluem todas as línguas vivas. Mas sem pretenderem que nós falemos o português como eles falam. E sem pretendermos nós que eles o falem como o português europeu.
A preocupação de afinarmos todos pelo mesmo diapasão parece-me uma atitude de subserviência perante o número de falantes e um complexo de culpa do antigo colonizador. Hoje somos todos independentes. Eles de nós e nós deles.
Não consigo imaginar a Espanha a fazer um acordo ortográfico com Cuba, a Guatemala, o Chile, o Equador ou qualquer das suas antigas colónias. Nem a pretender que lá se fale ou escreva como em Castela.
E muito menos imagino o Reino Unido a fazer acordos desse género com os Estados Unidos. Nem sequer com a Austrália ou o Canadá que ainda fazem parte da Coroa Britânica.
Porque são grandes e fortes, a Espanha, a França e a Inglaterra tratam de igual para igual, e não de cócoras, os povos a quem transmitiram a sua língua.

O segundo é que se trata do problema específico da ortografia.
O argumento mil vezes repetido de que a língua é uma realidade viva e dinâmica porque são os falantes que fazem a língua, é o protótipo do argumento pseudo-culto e, por isso, pretensioso. Porque, sendo verdadeiro, nada tem a ver com o caso vertente.
É certo que são os falantes que fazem a língua: da maneira como a falam e não como a escrevem.
Essa realidade dinâmica e viva (que não nego, antes afirmo) tem a ver com a fonética e com a sintaxe. Nunca com a ortografia.
A única maneira de respeitar a liberdade cultural com vários povos lusófonos é deixá-los falar e deixá-los escrever cada um à sua maneira: europeia, africana ou brasileira. O que, de resto, só enriquece a língua lusíada.
Por isso os acordos, além de complexados, são castradores.”

Lido no jornal católico “A Ordem”, de 27 de Março de 2008, e da autoria de M. Moura-Pacheco.

sábado, março 29, 2008

E Chaimite ali tão perto…

O corrector de texto não conhecia Chaimite, assinalou o erro, e foi preciso acrescentar ao dicionário a pequena povoação onde o Gungunhana, poderoso Régulo dos Vátuas, foi submetido por Mouzinho de Albuquerque! Acabava ali a rebelião que ameaçava Lourenço Marques e a própria soberania portuguesa em Moçambique. Tempos heróicos, e de apressada colonização, numa época em que as grandes potências europeias olhavam com cobiça o continente africano, em geral, e as colónias portuguesas em particular. Por causa disso, mas sobretudo por causa delas, sustentou-se o patriotismo popular, acusaram-se inocentes, ensaiaram-se revoluções… Passaram mais de cem anos entretanto, e entretanto enfrentámos outra guerra, provavelmente pelas mesmas razões que levaram Mouzinho a Chaimite, mas os tempos mudaram tanto que as vontades nem se reconhecem!
De visita a Moçambique, onde cumpriu serviço militar, está o Presidente Cavaco Silva numa romagem que acredito de saudade mas também de tristeza face aos sinais de miséria que se espalham por toda a parte e que o protocolo dos sorrisos oficiais não consegue disfarçar. O próprio Eusébio, que integrou a comitiva, não escondia a sua decepção, enquanto procurava nos terrenos perdidos da sua infância, a Mafalala onde aprendeu a jogar à bola! Contente e esfusiante, como se fizesse parte de outro filme, só a senhora Cavaco! E eu fico confuso, pois não sei se hei-de achar graça ou se tenha pena, por aquele voluntarismo todo, há ali qualquer coisa que não bate certo, artificial, e que se repete nestas visitas presidenciais! Um indisfarçável sentimento de perca e por isso me lembrei de Chaimite.

sexta-feira, março 28, 2008

“ O anti-clericalismo português” (I)

“É discutível se houve anti-clericalismo propriamente dito em Portugal antes de 1820. As questões entre os Reis e a Igreja (que muitas foram de D. Afonso Henriques a D. João V) eram mais disputas de privilégios e jurisdições do que posições ideológicas; era mais, por assim dizer, o direito civil contra o direito canónico e vice-versa do que uma disputa entre materialismo e idealismo.
Com a Revolução de 1820 o anti-clericalismo assume-se e define-se como tal. As Cortes Constituintes de 1822, aboliram os privilégios do clero e pouco depois, Joaquim António de Aguiar dá o segundo grande passo: a abolição das ordens religiosas, com o confisco imediato dos bens das ordens masculinas (1854) e tomando o Estado posse dos bens das ordens femininas depois da morte da última religiosa de casa. Estes factos, conjuntamente com a recusa da Santa Sé de confirmar os bispos eleitos, levaram ao rompimento das relações diplomáticas só restabelecidas em 1848.
Com a instauração do regime republicano, dá-se novo rompimento quando a República confisca todos os bens diocesanos e proíbe o uso, em público, dos “hábitos talares” e Afonso Costa promete acabar em Portugal com a religião “em duas gerações”. Deu-se depois uma reaproximação entre o Estado Português e a Igreja que só viria a completar-se e a formalizar-se com a “Concordata” em 1940.
Falo de posições oficiais. Porque o anti-clericalismo como posição pessoal permaneceu em muitos espíritos intolerantes – curiosa e paradoxalmente sobretudo entre aqueles que reivindicavam o direito à livre expressão de pensamento (Para si próprios – que não para os outros).
A revolução de 25 de Abril de 1974 teve o cuidado de ter em conta as lições do anti-clericalismo da 1ª República e absteve-se de posições anti-Igreja (se exceptuarmos casos pontuais, aliás da iniciativa pessoal de alguns revolucionários). Salgado Zenha usou mesmo uma expressão curiosa dizendo que “não se ia tirar o anti-clericalismo da naftalina” (cito de memória) e Vasco Gonçalves teve sempre o cuidado não só de não atacar a Igreja como instituição como também de pretender atrair a si alguns grupos católicos, como de resto, já vinha fazendo o Partido Comunista.
Isto é: sinceramente ou com segundas intenções, de uma maneira geral, os responsáveis do 25 de Abril tinham outras prioridades.
Trinta anos depois, consolidada a Democracia, o anti-clericalismo está de regresso em pezinhos de lã. A pretexto de manter a Democracia, de garantir a igualdade, de salvaguardar a liberdade, sem se assumir como o que é, mas, pelo contrário e paradoxalmente, em nome da liberdade religiosa, vai abolindo os símbolos da fé de muitos portugueses e preparando o caminho para proibir que – cristãos ou não – usem distintivos da sua crença.
Fé, crença, religião – só em casa. Em público os cidadãos da Democracia portuguesa não podem usar sinais que os identifiquem como crentes.
Isto é: o anti-clericalismo português é uma manifestação de fundamentalismo laicista tão primário e anti-democrático como qualquer outro.”

Lido no semanário católico “ A Ordem” de 6 de Março de 2008, e da autoria de M. Moura-Pacheco.

quarta-feira, março 26, 2008

Uma raça perigosa

Eu ainda disse para fecharem as universidades, era uma maneira de estancar a degeneração, mas ninguém me ouviu, houve até quem insinuasse que se tratava de uma manobra para acabar com a raça dos doutores, espécie protegida como se sabe.
Sugeri então que se encerrasse a escola pública mais o seu monstruoso ministério! Que não, que não podia ser, onde é que se encaixava aquela mole imensa, era o desemprego, a miséria, o país não resistia! E o que é que se fazia a tanto professor?! Admiti o excesso e recuei, mas não deixei de resmungar: - para ‘ensinarem’ que o Dom João VI tinha ‘fugido’ para o Brasil, não eram precisos tantos! Bastava um casal para perpetuar a raça! Eu bem sei que muitos estão inocentes porque os conteúdos fazem parte da propaganda do ministério… e do regime! Bem, mas não podendo ser pelas razões caritativas expostas, há que encontrar uma solução rápidamente. Eu tenho uma ideia, aliás, duas ideias, a saber: partindo das actuais características da raça, resultado de um inesperado cruzamento de um dogue com um bovino, sabendo que atacam quando estão telemóveis por perto, e preferem o piercing ao açaime, eu tentava adaptar a prevista legislação sobre raças perigosas às escolas. E quanto ao piercing, em lugar de proibir, tornava obrigatório o seu uso na orelha, mas com chip.
Se esta ideia não resultasse, avançaríamos para a outra, menos rápida mas mais radical: estou a pensar numa sábia combinação entre o aborto, a eutanásia e uns incentivos para casamentos homossexuais. E acabava-se de vez com esta raça perigosa.

terça-feira, março 25, 2008

“A cultura da tolerância”

“Uma das características da cultura dita europeia ou ocidental é a sua capacidade de convívio com outras culturas. Desde os alvores da Idade Moderna – em que se confundem (por sobreposição temporal) a descoberta de novos mundos com a redescoberta do mundo antigo dando origem ao humanismo renascentista – que assim é. A curiosidade pela cultura dos outros levou não só à sua procura como à sua aceitação.
A isto se chama tolerância cultural. Ou se quisermos a cultura da tolerância no duplo sentido do termo: cultura que é tolerante e cultura que cultiva a tolerância.
Isto significa respeito (e, repito, quantas vezes curiosidade intelectual) pelas ideias alheias – uma perspectiva caracteristicamente europeia, que viria a dar origem a um conceito também especificamente seu de que a Europa se orgulha: o conceito de Democracia.
A Democracia não é compreensível sem o conceito de tolerância; a sua própria essência é a própria tolerância. Implica respeitar as ideias do Outro mesmo quando não estamos de acordo com elas. Implica estarmos prontos para sacrificar a nossa vontade à vontade da maioria. E implica mais: implica a grande debilidade da Democracia – respeitar quem não nos respeita a nós.
O respeito do ocidente por culturas (incluindo religiões) exóticas, distantes, diferentes, e essa capacidade de lidar com a diferença é um dos sinais distintores da cultura europeia.
Por isso entendo a tolerância religiosa como um traço definidor da “personalidade colectiva” europeia e ocidental.
Inversamente parece-me aberrante o laicismo (não a laicidade) e mais ainda o anti-clericalismo no seio dessa cultura.
Juntar Democracia com laicismo – sobretudo fundamentalista – parece-me a quadratura do círculo – por incompatibilidade dos termos.
É por isso que os fundamentalismos – religiosos e anti-religiosos entre outros – são atitudes profundamente anti-culturais, primitivas, bárbaras e pouco elaboradas a despeito de máscaras eruditas que possam afivelar. E acima de tudo são profundamente anti-democráticos. Como anti-democráticos são os laicistas portugueses do tempo presente por mais que se travistam de gente culta e enrouqueçam a gritar Democracia. Ou precisamente por isso.”

Lido no semanário católico “ A Ordem”, de 28/02/08, e da autoria de M. Moura-Pacheco.

segunda-feira, março 24, 2008

Páscoa Aleluia

Aleluia

Dizem-me os sinos que repicam ao longe… que mal ouvi por preguiça,
Aleluia pelo sentido familiar destas horas, que mal senti por desleixo, aleluia por tudo, pelos amáveis sorrisos, pelas contrariedades, minúsculas se comparadas com outras que vou esquecendo… aleluia por ti, que não existes, mas que comandas a minha vida, e de uma maneira tal que me deixo ir, sem esforço, como num sonho! Aleluia, insisto, porque estamos na Páscoa e a Páscoa é o triunfo da vida sobre a morte, aleluia portanto.
Aleluia por mim, que ainda espero e não desespero!
Aleluia, disseram-me.

quarta-feira, março 19, 2008

“A cultura de raiz religiosa”

“Muitas foram e são as polémicas originadas pelo conceito de cultura. E mais ainda as que resultam da diferença entre civilização” e cultura”. Sem aqui querer reabrir a questão, sempre avançarei dois traços que como leitor de boa-vontade, me parecem comuns às várias teses.
Primeiro traço: enquanto a “civilização” é o avanço do homem sobre a matéria e sobre o mundo, a “cultura” é o avanço do homem no espírito e, consequentemente, sobre si mesmo.
Segundo traço: a cultura é uma “mundividência” e a consequente maneira de viver e agir. É não só, e primeiramente, a visão mas também a maneira como nele vivemos e a vivemos: usos, costumes e todas as formas simbólicas como a língua ou a arte.
Estes conceitos – “cultura” e “civilização” – estão infinitamente próximos um do outro, interpenetrando-se mesmo e tornando, por isso, difícil a destrinça em termos práticos. Resulta daí que a civilização influencia poderosamente a cultura e vice-versa: a cultura influencia poderosamente a civilização. Mas são diferentes. No plano teórico, visivelmente diferentes.
Neste sentido a religião é uma forma de cultura. A Teologia é uma explicação do mundo (segundo determinada visão) e da vida. Por isso mesmo daí derivam directamente as normas sobre como viver no mundo e como cumprir a vida. São as morais heterónimas que têm origem na revelação. Mais: os aspectos formais da religião – a Liturgia – fornecem-nos pistas preciosas para a investigação cultural na medida em que são sinais sensíveis de uma determinada maneira de ver o mundo e viver a vida.
Assim se compreende que determinadas culturas (para não dizer todas) estejam profundamente moldadas pela religião; e, consequentemente, as resultantes civilizações.
A cultura budista tem a sua origem na religião ensinada por Buda e deu origem a várias civilizações orientais com essa matriz comum. A cultura islâmica e respectiva civilização deriva do Alcorão e seus ensinamentos etc., etc., etc.
A cultura e civilização greco-romanas, de que nós ocidentais orgulhosamente descendemos teve, no seu trânsito temporal, um profundo e poderoso “enxerto religioso”: o cristianismo. Desde Constantino quase até hoje, o cristianismo foi a religião dominante no Ocidente. E daqui foi exportado para os novos mundos depois das descobertas portuguesas e espanholas.
Sem nunca ter originado Estados teocráticos (em que as leis da religião substituem as leis do Estado, ou em que as leis religiosas são as leis do Estado) a visão cristã do mundo e o consequente normativo moral moldaram a mentalidade de Reis, Imperadores, Senhores Feudais, Banqueiros, Mercadores, Letrados e Homens de Ciência, enfim toda a espécie de poderosos deste mundo. Mas não só: também a arraia-miúda assim pensava e agia em conformidade. Natural era portanto que as leis e outras regras de convivência social reflectissem essa mesma mundividência. Como a reflectiam também usos, costumes, hábitos, ates, etiquetas e todas as mundividências do trabalho ou da convivência. Mesmo os raros não crentes e os menos raros “homens de pouca fé” pautavam os seus juízos e as suas práticas por todo um corpo de doutrina cristão. Mesmo sem pensar nele e não relacionando, as mais das vezes, as suas práticas com os longínquos ensinamentos de Cristo.
Curiosamente, as primeiras vozes anti-cristãs da Europa são, sem o saberem, moldadas por ideais cristãos A famosa tríade “Liberdade, Igualdade, Fraternidade” – tão republicana, tão (aparentemente) laica, tão anti-antigo regime, tão anti-clerical – era absolutamente impossível antes de Cristo. Ninguém na Civilização greco-romana toleraria estes três conceitos. Nem considerados um por um e muito menos considerados como um conjunto.
Todas as “réplicas” da Revolução Francesa – as francesas e as outras, incluindo as nossas – mais assumida ou mais veladamente se apresentaram como anti-Papa, anti-clericais, anti-religião ou mesmo anti-Cristo. E, paradoxalmente, todas tinham por base um pensamento cristão que usavam como bandeira: a ideia de igualdade entre os homens e da sua obrigação de fraternidade. Quanto a liberdade, era isso que os fazia iguais perante Deus.
Foi assim entre nós em 1820. Foi assim, mais tarde em 1910. É a matriz cristã da cultura europeia que move estes revolucionários Mesmo quando se movem contra a Igreja ou contra os cristãos.
É ainda assim hoje no fundamentalismo laicista (mais polido, mais envernizado, mais politicamente correcto, mas mais hipócrita) do Portugal dos primórdios do sec. XXI. É em nome do conceito cristão de igualdade que negam a liberdade de cada um afirmar a sua Fé.
Ao fazê-lo, entre outros atentados de natureza cívica, longos de enumerar, estão a cometer um atentado contra a cultura.
Os costumes e as tradições do povo português são cultura. A sua cultura – a cultura portuguesa.
Atentar contra a tradição de um povo é atentar contra a sua cultura, contra o seu património cultural imaterial.
Quando os governantes enchem a boca e a propaganda de “cultura” e de “qualificação de portugueses” seria bom que tivessem a cultura e a qualificação suficientes para saberem que estão a atentar contra a cultura quando proíbem usos, tradições ou símbolos religiosos.

Texto de M. Moura-Pacheco publicado no semanário católico “A Ordem”, de 21/02/2008.