quinta-feira, janeiro 24, 2008

CONFERÊNCIA DO CARDEAL RATZINGER, de 15.MARÇO.1990

Os caminhos da Fé no actual momento de
viragem

Segunda parte da conferência pronunciada pelo Cardeal Joseph Ratzinger, então Perfeito da Congregação para da Doutrina da Fé, a 15 de Março de 1990, na cidade de Parma. O título original da conferência é Le vie della fede nell'attuale momento di svolta (os caminhos da fé no actual momento de viragem).
Esta versão em português foi traduzida do texto italiano publicado na revista Il Sabato, de 31 de Março de 1990, páginas 80-85. A revista reproduziu integralmente, com o título de L'omologazione religiosa (o sincretismo religioso), apenas esta segunda parte da conferência, porque interessava particularmente aos países ocidentais.
A primeira parte, não publicada pela Il Sabato, tratava da crise do marxismo, examinando três factores que conduziram ao colapso do comunismo soviético: a crise económica, o papel da religião e a actuação dos Meios de Comunicação Social.


IIª parte: O sincretismo religioso

As reflexões que fomos desenvolvendo até agora, tomaram como ponto de partida os recentes acontecimentos da Europa oriental, ainda que tenhamos procurado não perder de vista os nossos próprios problemas, os problemas do mundo ocidental e das suas ideologias.

Esta vertente da questão terá de ser aprofundada ainda um pouco mais numa segunda parte, antes de podermos extrair as conclusões que dizem respeito aos itinerários da Fé, hoje. A este propósito, quero abordar três aspectos: a crise da Fé na ciência, a nova ânsia de espiritualidade e de moral e a nova procura de religião.

A crise da fé na ciência

A resistência que a natureza oferece à sua manipulação pelo homem tornou-se nos últimos decénios um novo factor da situação cultural. A questão sobre os limites da ciência e sobre os critérios que ela deve respeitar levanta-se inevitavelmente. O modo como vem sendo avaliado o «caso Galileu» parece-me particularmente significativo do emergir deste posicionamento novo. Este acontecimento, que no século XVII ainda merecia pouca atenção, chegou a ser, no século seguinte, um verdadeiro mito do Iluminismo: Galileu aparece como a vítima do obscurantismo medieval, ainda vigente na Igreja. O bem e o mal enfrentam-se numa clara contraposição: dum lado, a Inquisição como agente da superstição, como adversária da liberdade e do saber. Do outro, a ciência da natureza, representada por Galileu, como protagonista do progresso e da libertação do homem das cadeias da ignorância que o mantinham atado perante a natureza. Surge a estrela da época moderna na noite tenebrosa da Idade Média.

Estranhamente um dos primeiros a opor-se abertamente a este mito e a oferecer uma nova interpretação dos factos foi Ernst Bloch, com o seu marxismo romântico. Para ele, tanto o sistema cosmológico heliocêntrico, como o geocêntrico fundam-se em pressupostos indemonstráveis. Nomeadamente, por conceberem um espaço fixo, noção que, entretanto, teria sido ultrapassada pela teoria da relatividade. Diz ele, textualmente: «portanto, com o abandono da ideia de um espaço vazio e parado, deixa de se definir o movimento em relação a ele, passa a haver apenas movimento relativo dos corpos uns em relação aos outros, e a eventual fixidez de um objecto dependerá dos corpos que se escolherem como pontos de referência: deste modo, para além da complexidade dos cálculos que possa advir daí, não é, de facto, inverosímil aceitar, tal como se fazia no passado, que a Terra esteja parada e que seja o Sol a mover-se».

A vantagem do sistema heliocêntrico sobre o sistema geocêntrico consistiria assim não numa maior correspondência com a realidade objectiva, mas apenas em nos proporcionar uns cálculos mais fáceis. Até aqui, Bloch exprime só uma concepção moderna das ciências naturais. É todavia surpreendente a conclusão que ele tira: «A partir do momento em que relatividade do movimento está fora de dúvida, um sistema de referência humano e cristão antigo não tem nenhum direito de se imiscuir nos cálculos astronómicos e na sua simplificação heliocêntrica, mas tem o seu pleno direito metodológico, em face das implicações de importância humana, de manter esta Terra fixa no centro e de ordenar o mundo à volta daquilo que acontece e aconteceu nela».

Se aqui ainda estão claramente distinguidos dois âmbitos metodológicos, reconhecendo tanto os seus respectivos direitos como os seus limites, soa já muito mais provocadora a síntese do filósofo céptico-agnóstico P. Feyerabend: «No tempo de Galileu a Igreja manteve-se muito mais fiel à razão que o próprio Galileu, e tomou em consideração também as consequências éticas e sociais da doutrina de Galileu. O seu processo contra Galileu era razoável e justo, ao passo que a sua actual revisão só se pode justificar com motivos de oportunidade política».

Do ponto de vista prático, os dois naturalistas e filósofos, C. F. von Weizaecker e G. Altner, dão mais outro passo adiante quando vêem uma «via directíssima» que conduz de Galileu à bomba atómica. Para grande surpresa minha, numa recente entrevista sobre o caso de Galileu, não foi posta uma questão do tipo: «Como é que a Igreja se atreveu a levantar obstáculos ao conhecimento das ciências naturais?», mas exactamente o contrário: «Porque é que não tomou uma posição mais dura contra as desgraças que ficaram à solta quando Galileu abriu a caixa de Pandora?».

Seria ingénuo construir uma apologética improvisada, com base nestas afirmações; a fé não cresce a partir do ressentimento e de se pôr em questão a racionalidade, mas só cresce com um profundo apreço pela razão e com uma mais ampla compreensão intelectual; mas a este ponto voltaremos mais adiante.

Mencionei tudo isto só como um exemplo sintomático, que manifesta como é profunda hoje a problematização que a modernidade, a ciência e a técnica fazem de si mesmas.

A busca de espiritualidade e de moral

Consideremos agora um outro aspecto: a nova ânsia de moral e de «espiritualidade». Tal como não é possível fazer um juízo conclusivamente positivo ou negativo desta forma de pôr em questão a ciência e a modernidade que hoje está a ficar em voga; também não se pode apresentar a nova abertura à dimensão espiritual do mundo e da vida humana como fenómeno unívoco. Há aqui fenómenos seguramente positivos: no auge da modernidade, a dimensão moral era relegada para a subjectividade e o progresso técnico era visto como um valor em si mesmo, não discutível; ora nestes mesmos domínios a questão ética volta a colocar-se, como critério de acção. Apontar normas morais como limite para a pesquisa e para a produção já não é rotulado de obscurantismo, como acontecia antes, uma vez que, primeiro a bomba atómica e depois as formas biologicamente destrutivas de produção técnica, mostraram, de modo bem palpável, a outra face do progresso.

Indubitavelmente, os reflexos práticos desta tomada de consciência ainda se fazem sentir pouco, como se vê pela controvérsia relativa à manipulação genética e sobre a fecundação humana in vitro. Ora, tal como no passado, as pessoas continuam a não se questionar sobre a possibilidade de abusar da vida humana – vida de pessoas, ainda que não tenham nascido – para as «finalidades mais elevadas» da investigação ou para qualquer outro objectivo que se tenha por bom. O abuso contra o homem, tratado como um objecto, e o brincar com o mistério divino da sua natureza ainda hoje se verificam, tal como no passado. Apesar disso, constata-se agora uma resistência nova a tudo isto, precisamente no âmbito das ciências naturais.

A nova religiosidade

A descoberta da dimensão religiosa tem igualmente muitas facetas. Assim como entre as personalidades eminentes da moderna ciência da natureza se nota agora uma clara orientação para o problema ético e uma recusa da auto-suficiência do positivismo, também existe hoje entre a gente nova uma reacção que a leva a colocar-se, com renovada paixão, a pergunta sobre Deus e a estar disposta a deixar que a sua vida toda, até às raízes, seja impregnada por Ele.

A generosidade dos jovens tem crescido; já não se satisfazem com vagos sentimentos e com meias decisões, mas procuram a obediência incondicional à verdade: a par disto verifica-se uma tendência, aliás bastante difundida e mais vaga, que se poderia definir como a ânsia de uma certa espiritualidade e de experiências religiosas.

Seria errado desprezar este fenómeno, da mesma forma que seria inadequado entrever nele o início de uma nova aproximação à fé cristã. De facto, estes desejos resultam de uma desilusão pela insuficiência da sociedade tecnológica; isso esconde em si elementos nostálgicos e sobretudo um profundo cepticismo acerca da vocação do homem para a verdade. Na História humana a verdade parece desacreditada pela intolerância daqueles que se crêem os seus seguros detentores. Além disso, a experiência dos limites da ciência e da fragilidade das ideologias inclinam mais ao cepticismo que à coragem para a procura da verdade. Assim, a verdade acaba por ser facilmente substituída por «valores», em relação aos quais se pode tentar ao menos um consenso geral.

Contudo este modo de escolher os valores é igualmente discutível, na medida em que se considera que o próprio critério de verdade é inacessível. Mas, sobretudo, a religião que nasce do cepticismo e do desencanto pelos limites do conhecimento vem necessariamente marcada pelo domínio do irracional. Não compromete e acaba facilmente por se tornar uma droga. Formam-se novas mitologias, como resulta particularmente evidente no fenómeno multifacetado e candente que se vem difundindo com o nome genérico de «New Age». As analogias com a antiga gnose são notórias.

Tal como então, aqui se aglutinam mitologias esotéricas com a auto-proclamada pretensão de ter nas mãos a chave do saber e de ter encontrado a explicação plena da realidade, na qual os mistérios do todo são revelados e o conhecimento se torna libertação.

O Deus vivo desaparece numas profundidades espirituais, em que o homem mergulha e finalmente se dissolve, para se transformar assim numa só coisa com o todo de que provém. Cobra nova actualidade o aviso de Karl Barth, segundo o qual a religião se pode tornar uma auto-satisfação que, em vez de levar a Deus, encerra o homem em si mesmo e o fecha para Deus.

Os caminhos da Fé, hoje

Tomando no seu conjunto estes flashes da situação, conclui-se que o momento actual é rico de grandes esperanças, à mistura com inegáveis perigos. A situação de hoje, com todas as suas novas aberturas, reflecte a incoerência interior da natureza humana, que se abre sempre novamente para Deus e ao mesmo tempo Lhe procura fugir. Talvez neste momento as esperanças prevaleçam sobre os perigos, porque se derrubam tantas estruturas que pareciam opor-se com uma solidez inexpugnável à Fé, a qual demonstrou novamente a sua vitalidade. Mas não é esta a oportunidade de nos dedicarmos a ponderar, uns em relação aos outros, os vários factores em causa. Na última parte das nossas considerações preferimos colocar a seguinte questão: como é que se deve comportar um crente para responder aos sinais dos tempos e mostrar deste modo aos homens de hoje o caminho da libertação? Quero deixar três linhas de reflexão sobre este tema.

Acreditar é uma atitude razoável

A Fé não é uma espécie de resignação da inteligência, perante os limites do nosso conhecimento; não é uma cedência ao irracional, para escapar aos perigos de uma razão meramente instrumental. A Fé não é expressão de cansaço e de fuga, mas coragem de ser e movimento de abertura para a grandeza e amplidão da realidade. A Fé é um acto de afirmação; funda-se na força de um novo «sim», que se torna possível ao homem no contacto com Deus. Justamente nesta situação de ressentimento generalizado contra a racionalidade técnica, parece-me importante ressaltar a razoabilidade essencial da Fé. Segundo uma crítica da modernidade, já conhecida há tempos, não se lhe pode reprovar a confiança na razão enquanto tal, mas só o reducionismo do conceito de razão, que foi o que abriu as portas às ideologias irracionais. Todavia, o mistério, tal como o concebe a Fé, não é de facto o irracional, mas a extrema profundidade da razão divina, que nós não podemos penetrar em grau mais elevado pela debilidade dos nossos olhos. É, e permanece como afirmação fundamental da Fé a expressão com que João – retomando e aprofundando o relato da Criação do Antigo Testamento – inicia o seu Evangelho: no princípio era o Logos, a razão criadora, a força do conhecimento divino, que dá significado às coisas. Só a partir deste ponto se pode compreender correctamente o Mistério de Cristo, no qual a razão se mostra ao mesmo tempo como amor. A primeira palavra da Fé diz-se assim: tudo o que existe é, na sua origem, racional, porque provém da razão criadora de Deus.

Detenhamo-nos mais uma vez sobre a oposição fundamental entre materialismo e Fé. O credo do materialismo consiste em que no início está o irracional e que só as leis da casualidade deram origem, por combinações fortuitas, ao que é racional. A razão é, por isso, um subproduto do irracional; nas suas leis ela não é mais que um conjunto de combinações, sem conteúdo moral ou estético. Do mesmo modo, o Homem se torna um combinador do mundo, que ele projecta como lhe convém, segundo os critérios os estabelecidos por si. Contudo, o irracional permanece sempre como a verdadeira força originária.

Segundo a Fé, acontece exactamente o contrário: o Espírito é a origem criadora de todas as coisas e por isso todas elas levam em si o selo da racionalidade, que não me provém delas mesmas, e que as supera infinitamente, embora constitua a sua lei íntima. A razão criadora, que cria a racionalidade objectiva das coisas, a sua matemática escondida e a sua ordem íntima, é ao mesmo tempo razão moral, e esta é amor. O homem é chamado a reconhecer as pegadas desta razão e a desenvolver as coisas conforme à natureza delas. O seu senhorio é serviço e a liberdade é um vínculo à verdade íntima das coisas, e desta forma uma abertura de amor, que o torna semelhante a Deus.

A época moderna tem-se caracterizado por um curioso vaivém entre o racionalismo e a irracionalidade. Face a este conflito, parece-me importante delinear correctamente as posições alternativas. A disjuntiva fundamental, que o desenvolvimento da época moderna põe diante de nós, consiste precisamente na pergunta: na origem de todas as coisas está a irracionalidade? a falta de racionalidade será a verdadeira origem do mundo, ou este provém, pelo contrário, da Razão Criadora? Crer significa abraçar a segunda alternativa e, de facto, só essa é, no sentido mais profundo da palavra, «razoável» e digna do homem. Diante da crise da razão em que o mundo se encontra hoje, é preciso voltar a destacar esta característica essencial da Fé, que salva a razão, justamente quando a compreende em toda a sua amplidão e profundidade e a protege contra a restrição àquilo que se pode comprovar de modo experimental. O mistério, longe de ir contra a razão, salva e defende a racionalidade do ser e do homem.

Pensamento, vontade e sentimento

Voltemos agora ao próprio âmbito do conhecimento, do querer e do sentir. Com as reflexões desenvolvidas até aqui, já foi apontada uma decisão prévia fundamental. No contexto da ameaça radical colocada pelo Iluminismo à religião, Schleiermacher tentou salvá-la definindo-a como sentimento: «A sua essência não é pensamento nem moralidade, mas opinião e sentimento». «A praxis é arte, a especulação intelectual é ciência, a religião é sensibilidade e gosto pelo infinito». O século XIX seguiu em grande parte esta tendência e congeminou nesta base uma forma de reconciliar a religião e a ciência: a inteligência poderia dispor e mandar o que quisesse; e, por sua parte, a religião, que seria exclusivamente um sentimento, não interferiria com a razão e ficaria livre de se expressar na esfera do sentimento e teria aí o seu lugar. O perigo implícito numa paz interior deste tipo volta hoje a apresentar-se, embora não seja correcto chamar-lhe propriamente paz, porque é antes divisão do homem, que acaba por prejudicar tanto a razão como o sentimento.

Efectivamente, trata-se de uma rendição da inteligência, na medida em que ela só se considera válida no âmbito do funcional e não se considera capaz de conhecer a verdade do ser, a verdade sobre nós, sobre a Criação e sobre Deus. Este cepticismo, porém, domina largamente as concepções actuais. Como regra, as pessoas já não têm pretensões de conhecer a verdade no que é mais específico destas questões. Esta forma de falsa humildade degrada o homem; torna o nosso actuar cego e o nosso sentimento vazio. Até na Igreja Católica se aceita dificilmente que a Fé nos ponha diante dos olhos a verdade sobre Deus. Vai-se difundindo a impressão de que todas as religiões andam às apalpadelas no escuro e que as suas afirmações não são mais que símbolos de uma realidade fundamentalmente incognoscível. Desta forma, a religião torna-se novamente uma esfera de sentimentos mais elevados. Feitas equivalentes umas às outras, as religiões deveriam servir, pela força de arraste dos melhores sentimentos, para promover os ideais mais nobres da humanidade e ser instrumentos da construção da paz universal.

Ora, todos nós aspiramos a esta paz universal. Que o virar-se para Deus leve os homens a reconhecer-se como irmãos e irmãs e desse modo contribua para a paz, é um imperativo justificado. Mas uma religião que seja apenas um meio para atingir determinados programas não está a ser tomada a sério como religião, na medida em que só pode actuar no campo do sentimento. Em todos os erros há algumas verdades.

É verdade que a religião apela à paz; é verdade que o sentimento também é próprio da religião e que falham todas as reformas que a pretendem privar do húmus do sentimento. Contudo, todas estas verdades só conservam a sua força na sua justa inter-relação. Ora, esta inter-relação consiste no facto de que a Fé assume o sentimento e o resgata da indeterminação, conferindo-lhe o seu autêntico fundamento: o sentimento a respeito do infinito repousa na verdade de que o Deus infinito existe e dirige a sua palavra a nós, criaturas finitas.

A Fé não pode encontrar hoje o seu vigor quando é remetida, o mais possível, para a esfera do indeterminado; a Fé precisa de ser compreendida em toda a sua grandeza. Não são as reduções que salvam a Fé, pois só servem para oferecer uma Fé de segunda, a preço módico. Unicamente na sua plenitude é que a Fé adquire significado.

Precisamente pelo facto de que não sejamos nós a ter de salvar a Fé, mas ser a Fé a salvar-nos a nós.

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Vida de algarismo

Chegou um novo pacote da união europeia, desta vez ambiental, e como vem sendo hábito fala de médias e percentagens, é portanto connosco, somos nós. O que postula então a anónima directiva para a sua região mais ocidental da península:
Muito simples, porque também estamos abaixo da média europeia em termos de emissões de CO2, podemos beneficiar de um bónus temporário para poluir o ambiente em mais 27,5% do que o fazemos actualmente. A união atendeu ao nosso baixo rendimento per capita, e às necessidades de crescimento económico, que andam normalmente associadas ao aumento daquelas emissões. Alegrem-se, pois, as fumarolas emergentes, os céus plúmbeos e cinzentos, porque a nossa atmosfera estava excessivamente pura em relação à média europeia. Afinal, estamos todos a construir o homem novo, um novo cidadão europeu, que será uma média ponderada, em percentagem, entre o défice e o CO2, mais energias renováveis.
Apenas um reparo: parece-me que esta proibição de fumar em locais públicos, veio em contra ciclo!

segunda-feira, janeiro 21, 2008

As abelhas castelhanas

O apicultor estava desolado, as suas abelhas estão a desaparecer, morrem de fome e cansaço, vítimas de um poderoso enxame espanhol, cujas obreiras invadem diáriamente a fronteira, comem o pólen lusitano e dizimam as nossas compatriotas! Verdade que a abelha nacional não estava preparada para tal concorrência e quando lhe falaram de europa não percebeu que isso soava ao toque da antiga trombeta castelhana! E assim, distraída, pensando apenas no mel dos subsídios, esquecendo que de Espanha... ‘nem bom vento nem bom casamento’, a pobre abelhinha lá vai definhando à espera de um Condestável, que tarda!
Mas se as colmeias portuguesas estão em crise, mais a sul, a situação é diferente. Em pleno Alentejo, as terras abandonadas pelas ocupações de Abril e pelas experiências colectivas soviéticas, estão agora recobertas de extensos e viçosos olivais, propriedade castelhana, que prometem produzir o melhor azeite espanhol da europa!
E nós… ‘vamos cantando e rindo, levados, levados, sim...’

sábado, janeiro 19, 2008

Evocação e Reconciliação

A quem possa interessar eis aqui o programa do Centenário do Regicídio. De resto, esta e muito mais informação pode ser consultada em http://www.regicidio.org/. Uma nação sem memória é uma nação condenada.

31 Janeiro 2008 – 21:30:
Auditório Cardeal Medeiros, Biblioteca João Paulo II – Universidade Católica Portuguesa – Lisboa,
Conferência “Dom Carlos I, Um Rei Constitucional”, Orador principal – Rui Ramos.
31 Janeiro 2008:
Após a conferência no mesmo local – Concerto pelo Grupo de Música de Câmara da Banda do Exército.
1 Fevereiro 2008 – 17:00 horas:
Concentração no Terreiro do Paço, junto à placa evocativa do Regicídio.
1 Fevereiro 2008 – 19:00 horas:
Basílica de São Vicente de Fora, em Lisboa, Requiem Soleníssimo “In Memoriam” do Centenário do Regicídio presididas por Sua Eminência O Senhor Cardeal Patriarca de Lisboa. Deposição de coroas de flores e homenagem solene aos túmulos de Sua Majestade O Rei Dom Carlos I e de Sua Alteza Real O Príncipe Herdeiro, Dom Luís Filipe.

quarta-feira, janeiro 16, 2008

Ficção ou talvez não!

As agências internacionais noticiam com espanto que Portugal está a viver um novo ‘prec’, um novíssimo ‘gonçalvismo’! Com efeito, tudo leva a crer que a banca está a ser outra vez nacionalizada, mas desta vez com uma pequena diferença em relação aos longínquos acontecimentos de Março de 1975 – hoje são os próprios banqueiros e os grandes accionistas que querem ser nacionalizados! Pelo contrário, os pequenos accionistas, as pequenas poupanças, o povo… unido à volta de um quixotesco defensor da iniciativa privada, tenta desesperadamente evitar a consumação do acto… mas em vão!
Há quem se interrogue sobre o estranho comportamento dos empreendedores lusitanos, que afinal não querem ser livres, nem empreender, mas tão só engordar ao colo do Estado!
E como os bons exemplos frutificam, não existe jovem português que não repita: quando for grande quero ser empresário... no Estado!
Toca o hino: “Heróis do mar…”!

terça-feira, janeiro 15, 2008

“Palavras proféticas do exilado de Vale de Lobos”

“Que as leis se afiram pelos princípios eternos do bem e do justo, e nao perguntarei se estão acordes, ou não, com a vontade de maiorias ignaras... Que a tirania de dez milhões se exerça sobre um indivíduo, que a de um se exerça sobre dez milhões deles, é sempre a tirania, é sempre uma coisa abominável. A democracia estende constantemente os braços para o fantasma irrealizável da igualdade social entre os homens, blasfemando da natureza, que, impassível, os vai eternamente gerando física e intelectualmente desiguais.
É por isso que ela acreditou ter feito uma religião séria desse fantasma, quando o que realmente fez foi inventar a idolatria do algarismo; e cobrindo com a capa de púrpura a mais ruim das paixões, a inveja, enfeitou-a com um vago helenismo”.

(Carta a Oliveira Martins de 10 de Dezembro de 1870, in ‘Cartas’ - de Alexandre Herculano)

Retirado, com a devida vénia, do Jornal ‘A Ordem’ de 10 de Janeiro de 2008.

sábado, janeiro 12, 2008

Frente de Libertação de Portugal...

"... face a uma Europa que nos rouba e, de novo, nos escraviza com novos fluxos de emigração.
Quem são os negreiros?"
A pergunta vem dos Açores e denuncia o 'tratado reformador' (não referendado) que transfere para a União Europeia a gestão dos recursos biológicos do mar!
Do nosso mar salgado...

sexta-feira, janeiro 11, 2008

A Cruz e a Al-Qaeda

Tem sido largamente noticiado (e explorado) o descontentamento turco pela ‘ostentação’ da Cruz de Cristo nas camisolas de uma equipa italiana que se deslocou à Turquia para participar num jogo da liga dos campeões europeus. O protesto, de reduzida expressão, acusava os italianos de não serem sensíveis ao ‘holocausto’ que as Cruzadas e os Cruzados provocaram aquando da tentativa de resgatarem o túmulo de Cristo... há aproximadamente dez séculos! Para lá do ridículo da situação, e sem entrar em questões de índole histórica para saber de quem era a Terra Santa naquele tempo, quem a ocupou depois, e quem a ocupa hoje, essa sim, matéria de grande sensibilidade, pensamos que o melhor é não escarafunchar muito no passado, ou então teremos de questionar o direito territorial de todos os povos e nações que actualmente habitam o planeta! E isso ninguém quer concerteza. Outra questão é saber dos números da mortandade numa guerra, como em todas as guerras, onde as baixas costumam ser sempre maiores do lado dos vencidos. E quem, num gesto simbólico, molhou o sabre nas águas do Mediterrãneo, foi o curdo Saladino!
Por isso, o que interessa mesmo neste assunto é verificar como um pequeno incidente contra o Símbolo da Cristandade, e vindo de quem usa o Crescente em todas as manifestações da sua vida pública e privada, é de imediato aproveitado no Ocidente pelo laicismo militante na sua campanha de ódio permanente à Igreja Católica e a tudo o que lhe diga respeito! Há muito que sabemos que os inimigos estão dentro da cidade, e que não hesitam em fingir apoio aos Maometanos, desde que isso sirva os seus interesses, visíveis e invisíveis. Invisíveis porque alguém os sustenta, senão não teriam a força nem o descaramento que exibem! Quando as máscaras finalmente caírem, não haveremos de nos surpreender! Uma coisa é certa, entre os seus aliados não estará o Islão, que os despreza por não crentes, nem a chamada Al-Qaeda, quer exista, ou não.

terça-feira, janeiro 08, 2008

Se eu fosse ele…

Se eu me chamasse Sócrates, se fosse primeiro-ministro de um país a fingir, se nesse mesmo país fosse apoiado por uma larga maioria de socretinos, que só pensam no umbigo porque é esse o exemplo que recebem de cima, se eu fosse mais esperto do que sou, e se a minha ambição pessoal fosse maior do que aquela que me esforço por transparecer, então… eu era bem capaz de surpreender tudo e todos e cumprir a minha palavra! Sim, eu que me afirmo provinciano, mas que adoro ser lisboeta, ou como é uso dizer-se, cidadão do mundo, eu que cultivo a imagem como ninguém, eu que assumo um ar moderno mas que nunca perco de vista a receita da longevidade, neste triste país que ainda não esqueceu o velho chanceler, então… amanhã, eu confirmaria o referendo para o tratado europeu! Num golpe de mestre haveria de me isolar, descolando a concorrência, e o bom povo português reconheceria enfim que sou bastante mais fiável que outros, que mudam de opinião como o vento! E que afinal é firmeza aquilo a que muitos chamam teimosia! Paciência pá, desta vez não te acompanho, mas não te preocupes, perante a ameaça de corte nos fundos comunitários eles não pensam duas vezes, votam sim concerteza. E se não votarem, vocês aí em Bruxelas também não se atrapalham, hão-de arranjar uma saída qualquer. Enquanto houver dinheiro, claro.

domingo, janeiro 06, 2008

Dia de Reis

Confesso que estava com alguma dificuldade em reiniciar a escrita no novo ano, porém, o significado deste dia, e um bom incentivo vindo de fora, resolveram o problema. Não resisto a publicar o incentivo, que rezava assim: “ Caro amigo monárquico, urge que hoje, dia de Reis, compareça no Presépio que é cada Eucaristia, a prestar as honrarias ao Rei, inclinando-se em Amor sobre Aquele que por nós Se inclinou”.
Belíssima mensagem, difícil de resistir, e que sobreleva todas aquelas questões que fazem a agenda política de 2008. Seja a ‘pro-actividade laicista’, na robótica expressão de Menezes, para significar a nova vaga anti-clerical Socretina, seja a viagem napoleónica de Sarkozy ao Egipto (ou será viagem nupcial de Marco António e Cleópatra!), sejam os partidos familiares e democráticos muito em voga (leia-se: a corte republicana e os seus inevitáveis cesarismos), seja ainda o furor com que nos comprazemos a verificar a eficácia das leis, num país onde não se cumprem, onde a justiça não funciona, e quando resolve funcionar, nunca se esquece dos vários pesos e medidas!
Como vêem, não valeu a pena desviarmo-nos da mensagem inicial, portanto, com bolo-rei ou sem ele, com os bagos de romã ou sem eles, é dia de celebrar o Rei dos reis, com os presentes disponíveis, símbolos da Realeza Maior, bálsamos do corpo e da alma.

segunda-feira, dezembro 31, 2007

Mensagem aos Romanos

Peço-vos que acreditem, que tenham fé na vida eterna, porque só assim podereis valorizar as vossas vidas, só assim haveis de evitar que numa esquina traiçoeira ou numa viela sombria, por uma ninharia, cheguem ao fim os vossos dias. Ou que numa praça qualquer, mais concorrida, vos façam explodir em nome de causas que nada têm a ver com Deus nem convosco. A democracia de César igualou as vidas mas não as valorizou, bem pelo contrário, veja-se como retirou Deus do calendário, para aí colocar um homem ou um cavalo! Isso não traz esperança nem convence, seria o mesmo que estabelecer um limite a quem sonha com o infinito. Nem o facto de se apregoar que só temos uma vida concorreu para a valorizar! Deste modo ela passou a ter um carácter exclusivamente utilitário e será essa a sua cotação.
Por isso, para vosso bem, e ainda que não acreditem, acreditem que só Deus pode amaciar o coração dos homens.
Sei que haverá entre vós quem não aceite a sugestão da crença, baseada em meras contrapartidas, como as razões securitárias que invoco! Esta mensagem não é para esses, porque essa relutância já é um sinal de eternidade.

quarta-feira, dezembro 26, 2007

Ontem, antes de emigrar…

Saboreio a castanhada longamente… de acordo com a tradição o açúcar deve estar em ponto pérola, a cor castanho escura, consistente e vítrea, reconheço-te, doce companheira do Natal! Fecho os olhos para me lembrar do gosto antigo! Ando muitos anos para trás… meu Deus como o tempo passou de repente, os olhos ainda fechados vêem a sala de jantar, a salamandra, a mesa oval… e lá estava a castanhada, castelo erguido com fiapos de chantilly!
A casa vai ficando vazia, deixou de ser o lugar do encontro de outras eras, e por isso esta noite terei que emigrar em busca da família dispersa! A memória regressa ao evangelho de Lucas, ao imponente decreto de César… que ‘mandou recensear toda a terra’! Na Missa do Galo o celebrante comentou o mal-estar que este texto infunde ao nacionalismo judaico, mas a verdade é que nestes dias, que seriam de paz e sossego, também nós andamos num virote, porque ninguém tem terra ou aldeia a que se possa acolher, presépio onde possa nascer!
Que sabedoria a do velho adro da Igreja onde se davam as boas festas a todos, em simultâneo, sem necessidade de mais intermediários! Que saudades de uma vida lógica, com referências e raízes!
Vogamos ao sabor de decretos sem utilidade ou grandeza. E sabemos tanto de César que pouco sabemos de Deus!

segunda-feira, dezembro 24, 2007

Um Bom Natal

É o meu desejo para todos os viajantes que aqui passam, seja por amizade ou simples curiosidade, por afinidade ou engano, e com a sua presença vão dando alguma vida a este interregno, que se tem prolongado sem explicação aparente! Em sentido estrito e lato!
Mas não é tempo de balanço, é tempo de boas festas, momento de paz, de trégua nas divergências, é altura de presentes e árvores enfeitadas, de férias para alguns, de frio e tristeza para outros, mas é sobretudo a celebração do nascimento de Cristo, Deus vivo para os que acreditam, facto histórico que vai passando um pouco ao lado dos acontecimentos!
Sinais dos tempos, dirão os sábios, mas o planeta é redondo e o homem que o habita não mudou assim tanto em dois mil anos. Por isso é natural que os que agora se afastam retornem mais tarde ao presépio.
Maior que as palavras é a intenção destes votos.
Um Bom Natal.

sexta-feira, dezembro 21, 2007

Dom Duarte

"Dom Duarte veio à Terceira inaugurar as novas instituições da AMI. À noite houve um jantar promovido pela Real Associação da Ilha Terceira. Estive presente no jantar e é sobre o que lá se disse que vale a pena falar.
Primeiro percebi melhor o sentido da obra de Fernando Nobre. Não há dúvida que tem capacidade para mobilizar meios financeiros, materiais e humanos para o serviço social. O segredo que terá é o de adaptar a cada sítio aquilo que é aí necessário. Providenciar dormida aos familiares de pessoas doentes que são internadas em São Miguel é dar resposta a uma necessidade que se fazia sentir de forma crescente, aliás como já comprovavam as iniciativas de alguns municípios mais remotos que tinham apartamentos disponíveis para os seus munícipes em Ponta Delgada. Em Angra essa função já estaria preenchida por outras instituições ou então a política de saúde regional tratou de subalternizar o Hospital de Angra. O facto é que a AMI preferiu orientar a sua actuação para a distribuição de medicamentos e para o apoio aos mais desfavorecidos. A Igreja pode-se ressentir desta intromissão civil naquilo que costuma ser a sua esfera de actuação social mas a verdade é que quem não é contra nós é certamente por nós. De qualquer forma foi bom ter assistido à ligação entre a AMI e a Casa Real.
O segundo aspecto que importa falar tem a ver com o discurso de Dom Duarte, em complemento das palavras de boas vindas proferidas por Valdemar Mota. Do que me lembro disse três coisas importantes. Disse que estavam em preparação as comemorações do assassinato de Dom Carlos onde se iria relembrar a vida e obra daquele marcante rei de Portugal que – conforme disse Dom Duarte – se fosse conhecido pelos assassinos, certamente não o teriam morto. E como os assassinos de Dom Carlos somos de facto todos nós, que vivemos em República e que ainda não pedimos desculpas por termos morto o Rei, o que Dom Duarte quis dizer foi que, se conhecêssemos a monarquia certamente não a teríamos morto. Disse também que fazia pouco sentido criticar as edificações de muitos construtores civis quando basta uma assinatura de um arquitecto conhecido para destruir o ambiente urbano de uma cidade histórica. Basta olhar para a nossa Caixa Geral de Depósitos ou para a famigerada frente marítima de Angra para todos entendermos a mensagem do nosso rei. Terá dito também, assim interpreto, que a Monarquia pode coexistir com a República, aliás como demonstra o seu testemunho de décadas. Bastaria que os Presidentes da República fossem mais seguros da sua posição para que pudessem solicitar e estimular o desempenho do monarca. Mas a verdade é que só conseguem isso no fim dos mandados e na assunção de que ficaram aquém do que conseguiriam fazer em complemento da Casa Real.
O terceiro aspecto que aqui vos reporto já se passou sem o Senhor Dom Duarte. Lamentavam os meus companheiros que a Terceira estava a perder peso para São Miguel, que Angra se estava a transformar numa vila, que qualquer dia nem teríamos o Representante da República, nem Bispo nem Secretarias Regionais. Naturalmente que constatei essa tendência mas demonstrei que a culpa era em grande parte dos terceirenses. Têm um Bispo mas não saem à rua em dia de procissão como fazem em São Miguel. Têm uma Universidade mas nunca se identificaram com ela, a ponto de não haver qualquer placa a indicar o caminho; existe a placa para os Montanheiros, para o Instituto disto e daquilo mas nada sobre a Universidade. Tiveram o porto mais importante dos Açores mas fizeram tudo para o fechar. Têm o melhor aeroporto das ilhas mas admitem que o seu uso seja condicionado para uso militar mesmo quando não há guerra. Têm possibilidade de ter cursos de jornalismo, de arquitectura, de governança e de paisagismo mas preferem condicionar a sua criação. Estão no centro do arquipélago mas preferem a defesa provinciana e inútil da ilha."

Tomaz DentinhoJornal “A UNIÃO” de Angra do Heroísmo – Açores, em 20/12/2007.

quinta-feira, dezembro 20, 2007

Pai Natal

Saco ás costas, barba branca, começo por distribuir presentes aos mais necessitados:

Aos franceses – órfãos de pai há tanto tempo… que se agarram ao primeiro padrasto que lhes dê ou traga alguns momentos de glória! Não precisa de ser francês! Foi assim com o corso, é agora com o húngaro Sarkozy, homem teatral, sempre à procura dos holofotes para aí encenar a virilidade da política! E não só…
Os franceses adoram ser conduzidos e também adoram estes romances! Que vão intercalando com as revistas cor-de-rosa sobre o Principado… outro sinal de orfandade, outro acto falhado de que não se dão conta!
O melhor presente que se pode dar a um francês é um manual sobre a adopção. Explicando obviamente que a família biológica existe… embora possa ter sido guilhotinada.

Aos portugueses – ofereço este postal para que descubram as diferenças, mas sobretudo para que comparem as enormes semelhanças.

Boas Festas.

sexta-feira, dezembro 14, 2007

Sobre o Tratado Reformador

Na parte que diz directamente respeito ao Tratado Reformador assinado em Lisboa, transcrevo a posição institucional de SAR o Duque de Bragança, incluída na “Mensagem do 1º de Dezembro de 2007”:

“ (…) Como herdeiro da Casa Real, e daí com especial responsabilidade na preservação do património histórico do povo português, tenho orgulho em comemorar hoje a restauração de 1640 e sinto que, no futuro, essa independência deve ser cada vez mais bem aproveitada. É no passado que ela tem as suas raízes, mas é no futuro que a devemos projectar.

No nosso país, tem faltado debate sobre as vantagens que nos outorga a independência. Em alguns sectores da sociedade, faz-se correr que a soberania é um conceito esgotado e que, com a globalização e iberização dos mercados, só teríamos vantagens na subsequente união política com a Europa.

Se queremos conduzir a bom porto o nosso país, acho que devemos reflectir com independência, antes de prestar ouvidos a tentações e oportunismos políticos.

Neste preciso contexto está o Tratado Reformador Europeu previsto para ser assinado em Lisboa em Dezembro e cujo processo de ratificação começará nos próximos meses.

Começo por saudar o esforço dos diplomatas portugueses que, honrando a tradição da Secretaria dos Negócios Estrangeiros, criada por D. João V, conseguiram que Portugal saísse prestigiado do modo como conduziu a negociação do Tratado de Lisboa.

A sua ratificação deveria preservar a diversidade e a riqueza cultural dos Povos Europeus. Em Portugal, como noutras nações europeias, as personalidades e os partidos debatem se essa ratificação deve ter lugar por referendo ou aprovação parlamentar.

Seja qual for a decisão, deve haver debate para ficarem claras as principais alterações introduzidas, que ficaram por explicar. O modelo da Europa a adoptar deve ser objecto de uma profunda discussão!

Espero que a introdução do Presidente Europeu, a eleger pelo Conselho, não vá minando a diversidade das nações. A verdade é que ao darem-se passos para uma entidade de tipo federal, os Governos nacionais perdem poder.

É minha firme convicção que a melhor resposta dos Portugueses ao Tratado Europeu é trabalharmos para termos um soberano verdadeiramente independente de todas as forças económicas, políticas e regionais. O Estado dá cada vez mais indícios de estar refém de “interesses especiais”. Engordou. Está flácido. É necessário reafirmar a sua autoridade e separar o seu papel central, que tem a ver com as funções de soberania, das outras funções que pertencem à sociedade. Ao assinarmos o Tratado queremos dizer que “Pertencemos à Europa”. Termos um rei será dizer que “Portugal continua a pertencer aos portugueses”.

Excerto da “Mensagem do 1º de Dezembro de 2007”.

quinta-feira, dezembro 13, 2007

Dia Treze

Dia histórico, dia em que a união europeia assina um tratado para falar a uma só voz, o dia em que os designados países pequenos e médios se submetem aos grandes, única forma de terem força, dizem, e porque não têm alternativa! Porque o mundo mudou, e a europa não percebeu (!), nem tem responsabilidades nisso (!), mas mudou, o muro caíu, o comunismo falhou, as torres gémeas caíram também, o terrorismo afinal é idêntico, não pode ser incensado em áfrica e condenado na américa do norte. Por isso, porque o inimigo é global, só o venceremos se estivermos unidos e a unidade impôe cedências, ou como questionam alguns: - para que serve a soberania virtual de cada país face ao poderio dos gigantes emergentes!
Mas a justificação para tal empresa teria de ter outra solidez, tinha que se erguer acima da matéria, e não pode reduzir-se às ambiguidades democráticas. Mas é precisamente o que se passa, daí a indiferença dos povos europeus, enquanto uma legião de burocratas sonha com impérios e legiões a partir de Bruxelas!
Outra utopia e outro muro para cair.

sábado, dezembro 08, 2007

Festa em Lisboa

Para quem se identifica com uma história sem interrupções, faz-lhe alguma confusão ter que emprestar a sua casa para convidar os amigos para um fim de semana em Lisboa!
Mas valeu a pena, explicámos à europa e ao mundo que quinhentos anos de experiência continuam a fazer a diferença! Num excesso patriótico vi o mapa cor de rosa desfilar à minha frente... e o convite a Mugabe vingou o ultimatum! Com os africanos nos entendemos, não precisamos de intermediários para nada.
Falta agora lancetar o abcesso provocado pelas ideologias serventuárias dos vários socialismos, estranhas a África, e que lançaram o continente na miséria e na indignidade. Aqui já não estou tão certo das actuais capacidades portuguesas, serão precisos homens de ambos os lados que assumam sem complexos a história comum, incluindo nela todas as vicissitudes, o bom e o mau de uma presença impossível de apagar e que à vista da festa de Lisboa, ninguém quer apagar. Ainda se fala muito de petróleo e dinheiro, mas sente-se que existem coisas mais importantes para falar. Há sinais de esperança e o dia de hoje é um desses sinais – celebra-se a Senhora da Conceição, Rainha e Padroeira de Portugal!

quarta-feira, dezembro 05, 2007

A Câmara

Câmara de pedintes, sem mistério, à vista do cheque não há partidos para ninguém, venha ele que é para gastar. Luís Filipe bem tentou evitar as obras que hão-de projectar o Costa para a reeleição, em vão, outros valores mais altos se levantam!
Patusca a história das dívidas, não acham?! Que as dívidas não são dele, correspondem a edilidades anteriores!!! Será que não é sempre assim, ou o Costa queria entrar logo a contrair dívidas?! Pois claro que queria e assim fez!
Mas é para uma boa causa, já se esqueceram que temos aí o centenário! Tem que lá estar um que seja da cor! Da cor de Outubro, obviamente.
Depois, aquilo não é uma câmara, é uma ante câmara. Dá saída para tudo, dali pode sair um primeiro-ministro, um presidente da república, um candidato a qualquer coisa, tem sempre prémio.
E ainda havia gente com medo que eles não se entendessem!
Lisboa é Lisboa e o resto é paisagem!

sábado, dezembro 01, 2007

Dia da Independência

Peço imensa desculpa por vir quebrar o sossego da nação, por vir lembrar uma data que os livres pensadores se esforçam por esquecer, que a grande maioria da população desconhece porque era esse o objectivo, mas tenham paciência, eu demoro pouco, meia dúzia de linhas no máximo.
Quando no primeiro de Dezembro de 1640 decidimos dar fim à união ibérica, reino unido de Portugal e Espanha, união europeia a que aderimos voluntariamente, quando os quarenta fidalgos souberam interpretar os desígnios da Pátria, reconduzindo-a ao trilho Fundador, quando tudo isso aconteceu… estávamos mais ou menos na mesma encruzilhada em que hoje nos encontramos!
Ontem como hoje e a troco da independência política, também nos foram prometidos mundos e fundos! Também embarcámos nas guerras dos outros, em armadas invencíveis, também quebrámos velhas alianças, também trocámos princípios por coisas, e parece que ao princípio a coisa corria bem… e também não havia alternativa!...
A única diferença é que a antiga adesão foi votada em Cortes, e aprovada, com a honrosa excepção do procurador por Lisboa, de seu nome Febo Moniz!
Sessenta anos depois, porém, reconhecido o erro, veio o tal dia 1 de Dezembro de 1640!
O Dia da Independência.

quinta-feira, novembro 29, 2007

REN por toda a parte!

O sítio de que vos falo esteve outrora coberto de vinhas, dava bom vinho, algum azeite, ainda hoje existem vestígios de adegas e lagares, e um velho moinho que já deu pão atesta que por ali sopra vento antigo.
O primeiro choque, a primeira agressão a que assisti sem perceber, veio do poder central: a segunda república entendeu subsidiar o trigo sem cuidar dos danos colaterais. Os rendeiros agradeceram e arrancaram as vinhas, teriam menos trabalho e não teriam que dividir os frutos com o proprietário. Mas naquelas quintas e courelas o trigo nunca seria viável, o vinho era… e seria. Não adianta agora carpir mágoas, o erro está feito e oferecem-se alvíssaras a quem descobrir uma cepa nas freguesias da Caparica e Trafaria.
O segundo choque veio com o poder local! Alheios à região, os eleitos curavam de ser eleitos e nessa tarefa se consumiam! Em nome do voto ou da disciplina partidária tudo consentiram, a floresta de betão cresceu muito e desordenadamente, os bairros clandestinos são o verdadeiro emblema de trinta anos de ditadura autárquica. Apesar de tudo, nesta ponta ocidental do concelho de Almada houve quem resistisse á especulação imobiliária, houve quem conservasse, com maiores ou menores dificuldades, património legado, e por isso a paisagem ainda mantém algum equilibrio e beleza.
Mas o terceiro choque aí está, um choque eléctrico a cargo das todo poderosas empresas públicas! A história visível conta-se em poucas linhas: - a EDP deu à luz uma filha chamada REN, cuja actividade consiste em semear um leque variado e profuso de postes e torres metálicas de alta e altíssima tensão transformando este pedaço de Portugal num gigantesco paliteiro! E não se incomoda muito com o plantio, tanto pode espetar um poste em cima de uma capela setecentista, como de um moinho milenar, pode ser rente a uma escola ou perto das casas dos moradores, é onde lhe calha! Entretanto, face aos legítimos protestos dos habitantes, que correm o sério risco de virarem lâmpadas fluorescentes, a edilidade acordou finalmente do seu longo torpor para clamar em uníssono - aqui d’el rei! Que ‘este progresso’ não justifica tudo.
Será que ainda vamos a tempo?!

segunda-feira, novembro 26, 2007

Bons sinais

Uma notícia aqui, uma opinião ali, um evento que se anuncia para amanhã, começamos a descobrir que andávamos a ser enganados, que a verdade histórica estava subtilmente amordaçada, mal contada, ou simplesmente esquecida! Também li o artigo de Pulido Valente, ele próprio um dos desenganados, afinal o Rei Dom João VI foi um estadista notável, não o imbecil que Junqueiro e as repúblicas, de um lado e do outro do Atlântico, se esforçaram por fazer crer. O Rei que Napoleão não conseguiu destituir ou prender, mantendo assim a independência do Reino, o Rei que fabricou o Brasil, unificando o maior e mais poderoso País da América do Sul, dando-lhe o estatuto de Reino, que teve o talento e a previsão de sonhar o Reino Unido de Portugal e Brasil, que ainda hoje é desígnio maior de quem ainda sabe sonhar, esse Rei só merece a nossa gratidão e homenagem. E quando digo nossa, refiro-me naturalmente a portugueses e brasileiros.
Os manuais escolares anti-portugueses e anti-brasileiros ainda insistem que fugiu para o Brasil cumprindo instruções dos ingleses! Seria caso para indagar se era do interesse de Portugal que Dom João VI fosse preso e humilhado pelos franceses como aconteceu com o Rei de Espanha, destituído sumariamente por Bonaparte! Claro que não era, e daí também a diferente designação que espanhóis e portugueses dão à mesma realidade bélica que constituiu a expulsão dos invasores: enquanto os espanhóis lhe chamam ‘guerra da independência’, porque de facto a tinham perdido quando perderam o seu rei, os portugueses chamam-lhe ‘guerra peninsular’ porque mantivemos a independência, uma vez que o nosso Rei continuou livre e a dar as suas ordens a partir do Rio de Janeiro.
Mas Pulido Valente tem razão quando reconhece a tentativa de silenciar e menorizar a guerra que travámos contra o invasor jacobino: - “… Porque sucedeu isto? Por causa da subordinação cultural de Portugal à França e ao mito da França como ‘libertadora da humanidade’ (que não se adaptava bem à razia de Bonaparte). E por causa do republicanismo, que nunca desculpou à Igreja, ao ‘Antigo Regime’ e à própria Monarquia liberal a defesa do país contra a ‘revolução’, mesmo sob a forma de império napoleónico. O homem da época passou a ser Gomes Freire de Andrade, um traidor que lutou até ao fim pelo inimigo. Quando por aí a inconsciência política resolve apelar ao patriotismo, nunca me esqueço da omissão e distorção da nossa guerra da independência contra a França. O Portugal moderno nasceu torto. Como, de resto, se viu no PREC”.

Fonte: Jornal Público de 23/11/07.

sexta-feira, novembro 23, 2007

A lógica orçamental

Do orçamento retenho um momento do ministro das Finanças… que me fez sorrir! Dizia ele que em Portugal, ao contrário de outros países, ainda se considera um feito digno de nota, fugir ou defraudar o fisco. Por isso garantiu que o combate à evasão e à fraude fiscal vai continuar e com vigor acrescido, política que sustentou no seguinte pressuposto: - se os incumpridores pagassem os impostos que não pagam, mas deveriam pagar, o IRS de cada português poderia ser desagravado em cerca de 38%! Ouviram-se palmas. Foi neste momento que sorri. Naturalmente que o Ministro sofre, como todos nós, da falta de um raciocínio lógico, a mesma deficiência que explica o insucesso escolar de muitos dos nossos jovens! Então se os portugueses confiassem no Governo, se tivessem a garantia de uma correspondência tão linear entre o seu gesto cumpridor, e o benefício que lhes adviria com uma previsível baixa de impostos, se tivessem a certeza, ou ao menos a esperança, de um futuro melhor, acha o Senhor Ministro que não seriam os primeiros a cumprir os seus deveres fiscais, ou pensa que deixariam sem censura quem não o fizesse também!
A questão é diferente e vai para além deste orçamento: - porque será que em determinados países os respectivos habitantes ‘sentem’ que fugir ao fisco é um acto quase patriótico?! Ou dito de outra maneira, porque será que esses povos não confiam nos seus governantes?!
Ora aqui está um problema que pode servir para exercitar o raciocínio lógico.

quinta-feira, novembro 22, 2007

Pobres e mal agradecidos

Desde que o homem chegou que não falhamos uma fase final, situação que nunca vivemos no passado, foi também ele que incendiou o ardor patriótico que envolve a selecção, que faz sonhar um povo descrente, em crise de identidade, que apenas se revê naqueles onze rapazes a correrem atrás de uma bola, e espera deles a absolvição de todos os pecados! Tudo isto se deve ao ‘tio’ Scolari.
Mas como na fábula, já se sabia que ‘quem semeia ventos colhe tempestades’. Não adianta explicar aos portugueses que a selecção não é tão extraordinária como eles imaginam, ou como os media diáriamente nos impingem. Temos de facto dois ou três jogadores acima da média, titulares indiscutíveis em grandes clubes europeus, mas que podem estar lesionados ou em melhor ou pior forma, porque os restantes são apenas bons jogadores, semelhantes a muitos que se encontram por esse mundo fora. Scolari bem nos avisa, mas o povo não quer saber, avança para o estádio plenamente convicto de que os ases lusitanos infligirão a desolação e a derrota a quem se atreva desafiá-los. Ronaldo e Quaresma hão-de trespassar as defesas com fintas humilhantes, a goleada é obrigatória!
Quando finalmente verificam que os adversários resistem, e que para chegar ao próximo Europeu foi preciso sofrer a bom sofrer, os ‘patriotas da selecção’ não se conformam, desatam num berreiro, e vá de zurzir no pobre seleccionador nacional! É caso para perguntar: - o que teria acontecido se não têm conseguido o apuramento?!
Scolari deveria ter falado comigo antes de aceitar tal tarefa, este pesadíssimo fardo de aturar uma nação alienada, que não tem onde se agarrar, que não vislumbra horizonte… ou então, se o homem insistisse, citaria os romanos quando por aqui passaram: - “não se governam, nem se deixam governar”!

sexta-feira, novembro 16, 2007

O organismo independente

Alvíssaras!
Algures, no meio desta floresta de enganos, plena de suspeições, onde a justiça tarda e a culpa morre solteira, aqui, nesta nesga do paraíso irreal, foi proclamado o seguinte edital: existe uma entidade, um organismo, completamente independente, acima de qualquer suspeita, imune a pressões, e que não se desvia um milímetro das suas excelentes razões! Razões técnicas, naturalmente, ou outras, se for caso disso.
O nome do organismo? – LNEC
Porque foi convocado? - Para arbitrar o jogo entre a OTA e ALCOCHETE, equipas que disputam árduamente a localização do futuro aeroporto de Lisboa. Ou será um novo aeroporto estratégico para o país?!
Seja o que for, ficámos a saber que tínhamos um organismo com esta qualidade e calibre, o que ía levando o governo a demitir-se de funções entregando-lhe a responsabilidade da escolha! O governo já desmentiu, assegura que lhe cabe a palavra final, mas foi por um triz!
Não sei o que pensar! Fico triste e contente ao mesmo tempo: contente, porque foi com alívio que vi o governo recuperar o seu estatuto; triste, porque afinal se temos uma entidade assim, que não se deixa manipular por ‘lobies’ e partidos, deveria ser ela a governar, e quem sabe, encarregar-se de outras tarefas bicudas, por exemplo, nomear os árbitros do futebol, eu sei lá!
Saudações monárquicas.

quarta-feira, novembro 14, 2007

O caminho de Tordesilhas

Advertência ao leitor – este não é um texto sério no sentido comum do termo, desvia-se do padrão, é um sonho que acordou na recente cimeira Ibero-Americana, em que foi visível… a invisibilidade luso-brasileira. Diga-se que sem proveito nem glória, porque enfraqueceu simultaneamente o mundo hispânico e o universo lusíada.
Não estou a imaginar fórmulas mais ou menos sofisticadas de neo-colonialismo, nem quero recuar no tempo, mas apenas constatar que é do interesse de todos os ibero-americanos reconstruir um entendimento sólido em torno de uma história comum, entendimento assente no respeito mútuo, e que salvaguarde a duplicidade das respectivas raízes ibéricas. Mas tem que ser um acordo útil, que consiga fazer frente à clara hegemonia anglo-americana, que vem ditando as suas leis e não está por certo interessada no ressurgimento de uma forte concorrência. Aquela que traz à memória Tordesilhas! Para o efeito conta com a pulverização das repúblicas sul-americanas, fomenta o divisionismo, e não aprecia nada a capacidade representativa da monarquia espanhola. Conta também com a fragilidade lusitana, incapaz de assumir e corporizar um projecto que inclua os interesses e as aspirações da lusofonia. Daí a pobreza participativa na cimeira, que acabou naturalmente por afectar também o Brasil. Penso aliás que Portugal deveria propor outro equilibrio para as próximas cimeiras: por um lado, considerando o peso relativo do Brasil face ao bloco hispânico, quer em termos territoriais, quer em termos populacionais, por outro lado, tendo em conta a capacidade representativa portuguesa em termos de ‘ponte’ para o continente africano.
Claro que estas propostas e este tipo de protagonismo só fazem sentido e só são exequíveis com uma monarquia. Daí a advertência inicial.
Saudações monárquicas.

terça-feira, novembro 13, 2007

Futebol a quanto obrigas…

A televisão pública deve estar atenta aos fenómenos que ocupam e preocupam os portugueses e um desses fenómenos é sem dúvida o futebol. A alienação está identificada e denomina-se “deslocação de interesses”. Persiste endemicamente no terceiro mundo, e no continente europeu, é uma herança das ditaduras. Uma das bolsas mais resistentes na Europa é o caso de Portugal, onde o futebol assume a condição de desígnio nacional, abre e fecha telejornais, suporta três jornais desportivos diários, ocupando ainda espaço e tempo mediático em proporções que raiam o insuportável.
Apesar de todo este entusiasmo e interesse, o nosso principal campeonato sobrevive em falência técnica, depende exclusivamente de receitas extraordinárias e dos vastos subsídios, encapotados ou não, provenientes do orçamento de estado. É um campeonato reduzido a três clubes, que há mais de meio século disputam, praticamente sem concorrência, os primeiros lugares, clubes esses que congregam a simpatia de mais de noventa por cento dos adeptos, outra peculiaridade portuguesa que concorre para a sua insustentabilidade competitiva e financeira.
Curiosamente não foi sobre esta realidade que os ‘prós e contras’ de Fátima Campos Ferreira se debruçaram, o que poderia ser curial e interessante! Não, a grande preocupação nacional versa sobre a arbitragem e sobre as tecnologias que a poderão auxiliar a diminuir os erros… no tal campeonato em que ganham sempre os mesmos!!!
Dizem que o ridículo mata, acredito, mas não em Portugal.

sábado, novembro 10, 2007

“Quem tem medo do raciocínio lógico?”

É este o título de uma pequena crónica assinada por SAR o Duque de Bragança, na revista “Magazine Grande Informação”. Na sua dupla qualidade de pai e raiz (composição que transforma a terra em país), o Senhor Dom Duarte vem incentivar os portugueses a corrigirem comportamentos ilógicos, por certo adquiridos nos últimos séculos, e que poderão estar na origem do nosso constante declínio. Enquanto lia não pude deixar de relacionar a oportunidade do tema com um recente relatório do governo suíço que colocava a escolaridade da comunidade portuguesa no fim da escala em termos de resultados. Seremos portanto congenitamente estúpidos?! Ou somos estúpidos porque queremos ser estúpidos?!
O Duque de Bragança responde: “Estudos demonstram que a inteligência média dos portugueses é semelhante à dos outros europeus, embora com uma grave deficiência ao nível do raciocínio lógico. Mas a inteligência lógica adquire-se com uma educação apropriada, e a falta desta na escola está na base da maioria dos nossos problemas. Sabemos o que queremos, mas frequentemente não actuamos em conformidade – os ‘verdes’ não votam nos partidos ecologistas, os cristãos não votam nos partidos de inspiração cristã, e por aí fora. Relativamente ao ensino em Portugal os governos colocam entraves à liberdade de escolha pelos pais…Seria bom que os eleitores se organizassem e obrigassem os Deputados a legislarem no sentido de dar liberdade de escolha às famílias. Mas talvez nos falte a lógica necessária para usar os instrumentos da Democracia de modo adequado…”.

Fonte: MGI de Novembro/Dezembro.

terça-feira, novembro 06, 2007

Beato Nuno de Santa Maria

Entro no café habitual, convoco o jornal da casa, e disparo na direcção certa: pode um homem que andou a matar castelhanos ser canonizado santo ou beato pela Santa Madre Igreja?! Apanhado de surpresa o dono do café reagiu afirmativamente: - matar ou expulsar castelhanos que nos invadem a terra para nos tirar a independência e o pão, não só não é pecado como é um dever. E reza a história que Nuno Álvares foi sempre magnânimo para com os vencidos. Concordei e lastimámos a falta que nos faz um Condestável à altura das circunstâncias. Por certo que um homem desses, capaz de abdicar da glória terrena para se recolher a um Convento, seria sempre um exemplo para qualquer sociedade. Ainda mais para a nossa, desmoralizada, sem confiança, nem rumo.
A bica é por conta da casa, insistiu o patrão.
Hoje o calendário religioso assinala o dia do Beato Nuno de Santa Maria.

segunda-feira, novembro 05, 2007

Sol de Outono

O Belenenses resolveu animar o campeonato e foi ao Porto arrancar um empate. Quem continua a jogar para o empate e pode perder é o edil de Gaia. Ao apostar na ratificação do Tratado de Lisboa deixa o campo livre para que Sócrates arrisque cumprir promessas eleitorais, viabilizando o referendo. É um palpite deste interregno.
Catalina Pestana continua a incomodar a paz podre que reina na república. Vai avisando que as vítimas de abusos sexuais na Casa Pia podem vir a ser silenciadas definitivamente. Porque sabem demais. O que todos sabemos é que neste país a justiça não julga a nomenclatura. E tudo começa a fazer sentido: as eleições forçadas para levar ao poder o partido acossado no processo de pedofilia; a substituição de Souto Moura; a inexistência de oposição, prisioneira de pactos de justiça, e de outras trocas e favores, e quem sabe, a própria eleição presidencial.
Os Bispos queixam-se do governo e da excessiva influência da maçonaria nas decisões políticas. Mais vale tarde do que nunca, porque é este o caminho que a Igreja deve seguir em Portugal: demarcar-se claramente desta república, dita laica e socialista, sigla que esconde o seu verdadeiro e permanente desígnio – substituir a religião católica por uma religião de estado.
Termino com a curiosa opinião de Saraiva, director do semanário “Sol”, sobre as causas do declínio do BCP: “…A grande lição a retirar do caso do BCP é que, quando o capital é muito fragmentado, tem de haver um núcleo duro estável com condições para exercer o poder de uma forma coerente… se esse núcleo duro não existir, o banco – por mais dinheiro que ganhe – é sempre vulnerável…Aliás a História de Portugal é um exemplo disso: poucos países da Europa viram passar pelo seu território tantas fortunas. As fortunas de três impérios – no Oriente, no Brasil e em África. E, no entanto, Portugal é hoje um dos países mais pobres da Europa”.
Não era esta a intenção do cronista, mas não pude deixar de pensar no núcleo duro e estável que a Instituição Real sempre representou, garantindo assim as condições de sobrevivência e independência nacionais.

quinta-feira, novembro 01, 2007

Dia de Todos os Santos

Nesta guerra das datas, conspiração surda (e suja) que pretende apagar da nossa memória a memória cristã, apagando ao mesmo tempo a nossa identidade, lembrei-me de reproduzir um excerto de um postal, escrito há mais de um ano, a que chamei – “A guerra dos dias”:

“ É uma espécie de contra-cruzada lançada de longe pelas forças ocultas que não se conformam com a herança Católica, que não se conformam com o calendário gregoriano, nem se conformam com a história!
Se pudessem eliminar o dia de Natal, o seu significado religioso, não hesitavam.
Não se trata, infelizmente, de mais uma teoria da conspiração, porque já tentaram fazê-lo explicitamente a seguir à Revolução Francesa, mudando o nome dos meses, apagando os dias santos, com o objectivo de edificarem uma religião de estado…”.

Não me parece que tenham desistido.
Hoje, ainda é Dia de Todos os Santos.

terça-feira, outubro 30, 2007

Honrosas excepções

Nem tudo está perdido, ainda existem autarcas que desafiando o legalismo estrito em que algumas empresas públicas se movimentam, não têm dúvidas de que lado é que está a razão! Fátima Campos, presidente da junta de freguesia de Monte Abraão soube distinguir entre o interesse concreto que representa a saúde dos habitantes que a elegeram e o denominado interesse geral que a REN anuncia em abstracto. Para levar a sua avante enfrentou a paralisia da Câmara de Sintra, o Supremo Tribunal Administrativo, que decidiu a seu favor, e ainda, a enorme inércia nacional.
Esta vitória jurídica pode ajudar noutros casos e noutras lutas.

Outro exemplo de reacção proveniente da sociedade civil surge em Almada, mais propriamente no Lazarim: “ O Colégio Campo de Flores começou esta semana a efectuar medições do campo electromagnético através de um medidor idêntico ao que a REN utiliza e que custou 15 mil euros. O director da escola explicou ao DN que o aparelho está ligado e que os dados serão disponibilizados na Internet. As medições estão a ser feitas junto ao local onde vai passar a linha de muito alta tensão que irá ligar a subestação da Trafaria a Fernão Ferro, Seixal. Apesar da linha passar a oitenta metros da escola, João Almeida acredita que quando for ligada, em Março, os valores serão respeitados. As medições são uma medida preventiva para descansar quem aqui trabalha e quem aqui tem filhos, mas vamos imputar os custos à REN, assegura”.

Fonte: DN de hoje.

sexta-feira, outubro 26, 2007

Memória

Ainda não é tarde para a memória, ainda vou a tempo de deixar no interregno uma lembrança do outro tempo em que privei e aprendi com João Carlos Camossa Saldanha. Foi nos anos que se seguiram à revolução de Abril, na luta política travada dia a dia, às vezes, hora a hora, nas discussões que corriam pelas madrugadas, na ilação surpreendente… Não possuo méritos nem envergadura para escrever sobre João Camossa, mas descobri um texto muito bonito nos ‘cadernos do partido popular monárquico’, da autoria de Tereza Martins de Carvalho, que poderia ter sido escrito por ele:

“Comuna foi a palavra lançada a desfavor dos ventos e marés dos socialismos abundantes depois do 25 de Abril e eis que ficou enigmática e brilhante como estrela nova em céus desvendados, portadora de múltiplas ressonâncias, tanto revolucionárias como longa e medievalmente tradicionais.
E esta palavra, assim aparentemente paradoxal que sugere subversão, parece acordar também o eco longínquo de certa liberdade julgada há muito extinta no altar das massas e do Estado: a liberdade de cada um.
Ao mesmo tempo desperta em nós o desejo e as forças de um amor comum por algo de comum, ainda indefinido mas perto de nós, alcançável, interpretado e açambarcado por sistemas e partidos mas que os ultrapassa sempre, os gasta e corrói porque nasce a cada momento da liberdade de cada momento.”

quinta-feira, outubro 25, 2007

Semelhança

Entre passadeiras encarnadas
Dois presidentes, e atrás
Duas bandeiras descoroadas,
Renegam
A praia da descoberta
E outro ultraje
Que podes sentir no Hermitage.

terça-feira, outubro 23, 2007

Pobres

Reflectir sobre a pobreza, quando ela nos passa ao largo, é uma actividade interessante, a nossa televisão debruça-se muito sobre o tema, e ontem, sem querer, lembrei-me de um dos personagens do escritor russo Nicolau Gogol. Era o homem rico da terra, que à saída da Missa e no adro da Igreja gostava de se inteirar sobre o estado de pobreza dos seus conterrâneos! Muito meticuloso nas perguntas, aprofundava o assunto até ao ponto de saber exactamente o que lhes faltava para deixarem de ser pobres. Depois, despedia-se até ao próximo Domingo.
Mas a primeira parte do programa, especialmente a intervenção de Bruto da Costa, acabou por clarificar a questão dos números: somos dois milhões de pobres, ou seja, 20% da população, e desses dois milhões, 80% são pobres porque trabalham ou estão reformados! Ficámos também a saber que para esta maioria esmagadora não existe qualquer política especial, nem para ela são canalizados quaisquer fundos para além de complementos de reforma para esconder uma indignidade maior.
Outra verdade impossível de escamotear sentencia que se trata de um problema que em trinta anos nenhum governo de Abril conseguiu sequer atenuar!
Com estas informações desligámos o televisor incapazes de assistir ao massacre da pobreza aliviada… de um pobre deste país.

sexta-feira, outubro 19, 2007

Porreiro, pá!

Seguiu-se um abraço, veio depois o champagne. Foi assim que Sócrates e Durão Barroso selaram o acordo entre os 27 estados e que ficará conhecido como o Tratado de Lisboa. Os artistas são portugueses, não vale a pena acrescentar mais nada. Do oito ao oitenta, parecem longínquas as verdades de Salazar que dizia - “Portugal não é só uma nação europeia e tende cada vez mais a sê-lo cada vez menos”. Hoje as caravelas viajam pela europa, dobram tormentas, para trazer especiarias sob a forma de fundos comunitários, provávelmente as últimas antes de caírmos na realidade.
O que é curioso no meio desta euforia, é que ao contrário da maior parte dos outros estados, Portugal não regateou nada para si, basta-lhe a assinatura do tratado para poder levantar o cheque. O argumento português é imbatível:- uma união europeia forte é garantia de que não seremos despedidos. Os donos da união estão contentíssimos, nunca viram empregados tão dedicados, e tão competentes, mais europeus que a própria europa!
Cá em baixo, alheios, os portugueses preparam-se para mais um fim de semana a contar os tostões.

quinta-feira, outubro 18, 2007

Quatrocentos

É apenas um número e corresponde ao número de postais que levo escritos neste interregno, um caminho que se aproxima a passos largos dos três anos de idade e quem sabe, do seu limite. Olhando para trás tenho a sensação que passei o tempo a escrever o mesmo postal! E com um único título – “Deus, Pátria, Rei”.
Relembro que o interregno é essa ausência, a ausência de Deus na cidade dos homens, que reduz a dimensão (e o valor) da vida humana à economia dos seus aspectos utilitários, onde não entra a noção de eternidade. A apregoada separação entre a Igreja e o Estado esconde afinal o divórcio entre o homem e Deus. Nestas circunstâncias deixam de existir valores permanentes, tudo é efémero, e os poucos que resistem, porque não têm representação adequada, relativizam-se e tornam-se descartáveis. Assim a Pátria é hoje uma vaga memória colectiva, susceptível de ser vendida ou alocada, de acordo com a melhor oferta. Não admira que o Príncipe tenha sido expulso ou assassinado, ele era a figura humana da Pátria, a sua defesa, a sua representação política, portanto, um empecilho para os apetites das grandes potências, um alvo a abater pelos traidores. É preciso esclarecer que a Pátria não é um hino, ou um monumento ao passado, é a vida da própria comunidade, a sua história, a sua cultura, é território, é independência conquistada em mil batalhas, e em outros tantos gestos de nobreza!
Nem todos os povos ou nações conseguiram construir pátrias livres e independentes, faltou-lhes por certo algum dos pilares que enunciei, faltou-lhes sobretudo a vontade que hoje nos vai faltando.

terça-feira, outubro 16, 2007

O zero absoluto existe

Andava à procura de um título que definisse o programa de prós e contras que a televisão pública emitiu ontem à noite, encontrei-o com a ajuda de alguém a quem recorro nestas emergências e que me sugeriu que conjugasse o verbo existir com o “Z” daquilo que não existe, não fui tão longe, mantive o “X” que retrata bem este país empatado, incógnito, de pais incógnitos e cuja memória se reduz à cantoria do hino!
Na plateia estavam combatentes do Ultramar, estavam alguns patriotas, muitos traidores, estavam refugiados, estava um guerrilheiro da Frelimo, um ministro da Guiné, estavam comissários de Abril para bater palmas, a irresponsabilidade era o mote, a justificação do injustificável o objectivo. Cabia à moderadora levar o programa até ao fim dentro das baias do politicamente correcto, que consiste afinal em relativizar tudo para que todos tenham razão! Um outro objectivo, exterior ao debate mas que foi patente ao longo da emissão, teve a ver com a publicidade a uma ‘série’ que a RTP vai transmitir em breve, cujo tema é a última guerra que travámos em África. Segundo o autor, a obra destina-se especialmente à juventude que não conheceu a ‘guerra colonial’. Fico a aguardar e só espero que não se transforme em mais uma campanha de alfabetização.
Tentando sair do zero absoluto confirmo aquilo que sei: cumprimos o serviço militar obrigatório na convicção de estarmos a defender a Pátria, independentemente do regime que vigorava na altura; estávamos também a defender as populações que em nós confiavam e não se sentiam minimamente representadas pelos chamados movimentos de libertação; fomos vencidos e esbulhados de territórios que estavam à nossa guarda e isto aconteceu no jogo das grandes potências, durante a guerra-fria, e não soubemos ou não conseguimos resolver a tempo os desafios políticos que esse mesmo tempo nos colocou; resta-nos a dignidade de assumir a derrota sem procurar extrair daí quaisquer vantagens ideológicas ou partidárias, e pelo respeito que nos merecem os que se bateram, não nos devemos enganar com vitórias morais.
Uma nota final com vista ao futuro: como monárquico, mas sobretudo como português, sempre senti que o regime republicano não tinha capacidade para agregar e desenvolver uma comunidade de estados ou autonomias em redor de um projecto comum. Projecto esse que tem na língua, mas principalmente na vivência secular a sua trave mestra. Hoje, face às dificuldades que o mesmo regime tem em lidar com as autonomias regionais, a anterior convicção reforçou-se. Portanto, o espectáculo de recriminação mútua que todos os dias as sucessivas repúblicas nos oferecem, é inútil e aproxima-nos cada vez mais do zero absoluto.

Fim de semana...

Continuou com o congresso do PSD onde pela voz de Manuela Ferreira Leite ficámos a saber o que já sabíamos: que as diferenças entre o PS e o PSD são apenas de natureza táctica. E como tal, para que este rotativismo mantenha a ilusão da mudança é necessário que mudem as moscas. A matriarca deu até alguns conselhos ao impulsivo pretendente mas este foi mais ousado e haveria de surpreender os congressistas (os que não estavam a dormir) com algumas propostas que podemos subscrever! É certo que não resistiu à tentação de invocar a revolução francesa, ninguém se chama Luís Filipe por acaso. É certo que parece acreditar numa quarta república, e numa nova constituição, mais curta e menos ideológica, onde caibam portanto mais portugueses, e acredita que esse facto possa trazer outra confiança e apaziguar a comunidade. Também aposta num regime mais presidencialista julgando assim resolver a guerra entre dois galos legitimados pelo voto popular! Mas independentemente das suas crenças, é evidente que o fim do tribunal constitucional (uma instância de natureza político-partidária) é um enorme contributo à causa da justiça, hoje completamente descredibilizada. Como é importante o seu pragmatismo face à regionalização que não tem que ser implementada ao mesmo tempo em todo o território, mas de forma selectiva, e em nome da coesão nacional, nas regiões mais desertificadas e menos desenvolvidas do país.
Apesar da bondade destas promessas os monárquicos não podem esperar muito de um homem que invoca a revolução francesa e espera da república aquilo que nenhuma república lhe pode dar – liberdade, igualdade e fraternidade.

segunda-feira, outubro 15, 2007

Fim-de-semana com Rousseau

Começou com o terramoto de Catalina Pestana ao “Sol” que confirma tudo o que toda a gente sabe ou desconfia: - “…Quando se fizer a história deste processo (Casa Pia), todos verão que, se houvesse legislação que permitisse investigar tudo o que foi dito a mim, à Polícia Judiciária e ao Ministério Público, o terramoto teria consequências devastadoras…”. Perante tal abalo o regime republicano tinha não apenas de abafar mais este escândalo (afinal cada republica tem o seu ballet) como tinha que tomar providências para não ser apanhado outra vez… “com as calças na mão”. Perdoe-se-me o plebeísmo. Assim, num toque a rebate, cada um fez o que tinha que ser feito: os partidos desavindos uniram-se (quem é que não tem rabos de palha...) a comunicação social domesticou-se, a maçonaria e outras forças ocultas manobraram na sombra, o governo mudou, mudaram os códigos, o tempo passou e o processo encravou. Mas um terramoto tem sempre as suas réplicas e elas aí estão a mostrar à saciedade como funciona a trilogia de Rousseau: liberdade… para ocupar o estado e colocá-lo ao serviço de interesses inconfessáveis; fraternidade… para sair impune contando com a ajuda dos irmãos e compadres; a igualdade fica para o próximo capítulo.

sexta-feira, outubro 12, 2007

Profetas do presente

Não gostam de olhar para o passado, a vida resume-se à utilidade e bem-estar que desfrutam e querem lógicamente que se eternize. Cientes da eternidade desatam a fazer as profecias mais convenientes. Usam espantalhos conhecidos como o fascismo, a inquisição, a intolerância religiosa está sempre presente, e quando lhes forçam a mão atrevem-se a recriminar o comunismo. Mas o tom de voz baixa claramente. São laicos, expressão confusa que descodificada significa a separação entre a religião e o estado, mas são hipócritas porque querem apenas varrer do espaço público, primeiro, quaisquer práticas e símbolos religiosos, depois, e quando for possível, hão-de varrer da consciência de cada um quaisquer vestígios de religiosidade. E são republicanos porque a monarquia portuguesa é indissociável dos princípios católicos em que foi fundada. São também dissimulados e oportunistas. Quando acossados recuam e recebem os Bispos; quando se trata de preservar a imagem, vão a Fátima.

quinta-feira, outubro 11, 2007

Sucessão republicana

Quando já nada existe em comum, para além do ritual dos gestos vazios, quando a língua em que nos entendemos é apenas uma facilidade de comunicação caída do céu, o regime republicano não tem outro remédio senão disfarçar-se numa sucessão de repúblicas sempre novas e sempre gastas. Faz isto por querer e sem querer, e assim todos os elos se desfazem e vão desaparecendo. Sem querer, porque não consegue perceber aquilo que é elementar, que cada comemoração do dia da república corresponde a um juizo negativo sobre o regime monárquico que nos deu o ser e construíu toda a nossa identidade. Por querer, quando promove regicidas, quando atenta contra a vida dos indefesos, quando quer afirmar uma ‘religião’ laica contra a tradição do catolicismo, quando finalmente se demite do esforço colonizador e missionário, serviço universal que nos justifica como pátria livre e independente. Porque todos estes princípios são diáriamente denegridos e postos em causa pelo poder republicano, deixámos de acreditar no passado, e também por isso não confiamos no futuro, por mais simpáticos que sejam os dois primeiros-ministros que elegemos. Numa previsão breve e com pouca margem de erro a quarta republica que se adivinha, apenas difere da terceira porque para manter as aparências precisa de mais autoridade e menos liberdade. Portanto é sem surpresa que assistimos à governamentalização da justiça, ao controle dos media, à ausência de verdadeira oposição no Parlamento, em suma, vamos ter uma quarta república que promete ter todos os defeitos do salazarismo sem as virtudes de Salazar! Este tinha uma ideia para o país coisa que os actuais proprietários do poder não têm, nem querem ter. A união europeia que nos governe. Quando ela acabar e quando acabar logo se vê! Entretanto Sócrates e Cavaco vão dourando a pílula... que temos de engolir.
Saudações monárquicas.

domingo, outubro 07, 2007

Variações sobre a degenerescência

“Maria Albertina como foste nessa de chamar Vanessa à tua menina! …Maria Albertina não é um espanto, mas é cá da terra, tem outro encanto…”.

Lembro-me de António Variações, e hoje, perante o interesse que desperta, dou comigo a pensar nas razões submersas da sua popularidade! Não tinha grande voz, nunca estudou música, o seu destino trágico, igual a outros ícones do seu tempo, contribuiu sem dúvida para compor a personagem, mas parece-me que a sua aura mergulha em águas mais profundas.
“Para a frente não havia nada…”, diria numa das canções que são afinal a história da sua vida. Segue recordando, passo a passo, a partida, a aventura da emigração, a vida difícil do deslocado, a alma que não cabia dentro do corpo, “só estou bem onde não estou…”, os erros assumidos sem a facilidade da justificação, ”cabeça que não tem juízo, o corpo é que paga…”! A ética ficou sempre de pé e nunca renegou a tradição. Tradição no único sentido conhecido: – sou um herdeiro, não renegarei a herança.
É por aqui que eu vou, é por aqui que a sua mensagem permanece – assumir a herança significa, por exemplo, não ter vergonha de usar o nome dos antepassados, significa não ter a petulância e a vaidade de escolher nomes por catálogo, sem significado, só porque estão na moda, ou simplesmente porque sim. A tradição é caminho comum, o contrário da tradição é degenerescência. Alguns chamam-lhe o homem novo, e a história ri-se.

sexta-feira, outubro 05, 2007

Cinco de Outubro

Feriado nacional!
Não vou pactuar com o disfarce geral, com a ausência da data na primeira página do jornal!
Nem me vou contentar com outras efemérides, por mais relevantes que sejam. Não.
É em nome da verdade que o faço, a minha memória recusa-se a ignorar o implante!
A prótese jacobina e anti-cristã, ferro cravado no coração da pátria…agonizante.
É preciso que a nação saiba o que vai celebrar, a saber:
O Regicídio.
O terror carbonário, que até os seus liquidou.
A guerra civil permanente que nunca mais acabou.
O símbolo presidencial da divisão em cada nova eleição.
A exemplar descolonização.
A ditadura de mais de meio século de indecisão.
E ainda: o velho condado convertido em euros e a próxima união… filipina ou não!
Resultado de cem anos de rendição!
Pois, pois, a globalização!
Exactamente – dependente, independentemente!
E agora, o que vais cantar meu menino?
O hino?

quinta-feira, outubro 04, 2007

Ainda o tratamento por tu

"Creio que o tratamento dos pais por 'tu' corresponde a um desejo de maior proximidade e comunicação na família, o que eu mesmo considero estimável. Todavia, o mesmo resultado poderia ser alcançado doutros modos... No entanto, parece-me que seria importante considerar que tratar os pais por 'tu' esconde, ou falsifica mesmo, a realidade, que os colocou (aos pais e aos filhos) em patamares de responsabilidade diferente. Assim, o 'tu', que indicia 'igualdade', é uma formalidade que depois irá ser desmentida no uso da legitima autoridade paternal, que, se o for, não é nunca um exercício de 'igualdade'. A diferenciação de tratamento, que JSM nos convida pertinentemente a reflectir no seu post, apenas pede que se acolha a realidade: há papeis diferentes, nomeados diferentemente. Parece-me que esta questão tem ainda que ver com duas outras: o medo que o tema 'autoridade' evoca na mentalidade dos educadores, estereotipadamente democráticos, e algum eco de sentimentalismo 'roussouniano/marxista' que sugere uma sociedade sem classes (coisa que sempre resvalou para uma sociedade sem classe...). Lembro, aliás, que segundo Zita Seabra, todos os camaradas tratavam Cunhal por 'tu' e ele, na volta, agradecia e mandava 'democraticamente' neles todos - sob farsa da igualdade, a ditadura do mais forte. As pessoas que conseguem fazer distinções são sempre as pessoas que se distinguem - da música à ciência, do desporto à escolha dos vinhos. O cristianismo ensina, promove e multiplica as distinções: Deus/homem; céu/terra; Liturgia/vida de trabalho; Amor/ascese. E cada uma destas 'realidades' tem nomes, farda, formalidades próprias. Não por 'formalismo' mas por desejo de unidade, que é uma coisa muito diferente desta moda ideológica da igualdade que teima em tratar similarmente o que por natureza é diferente."
.
Com a devida vénia, transcrevo sobre o mesmo tema um texto mais claro, mais profundo, e mais bem escrito que o meu. A excelente análise está assinada por ‘Pope’, no “Fora de Estrutura”.

segunda-feira, outubro 01, 2007

O tratamento por tu

Nos povos primitivos a linguagem era primitiva, foi portanto com muito esforço que conseguimos sair do ambiente das cavernas, das pinturas rupestres, dos primeiros sinais de escrita, que podiam significar muitas coisas ao mesmo tempo, até chegarmos à actual riqueza vocabular e verbal. As relações humanas, cada vez mais complexas, exigiam uma linguagem e uma gramática cada vez mais complexa. É portanto fácil distinguir o grau de civilização de um povo pela sua riqueza vocabular, índice seguro de que passaram por muitos e variados cabos de esperança e de tormenta!

Felizmente que os portugueses têm verbos e expressões para tudo e mais alguma coisa, ao contrário de outros povos que medem a sua grandeza apenas pelo tamanho dos obuses! Para dar dois exemplos, os franceses têm poucos verbos e assim “avoir” pode querer dizer duas coisas – ter e haver! Nos ingleses, “you”, significa ao mesmo tempo ‘tu’ e ‘você’! Ou seja, os ingleses praticam e entendem-se actualmente numa linguagem primitiva! A simplificação, neste caso, não corresponde a nenhum avanço civilizacional no campo das relações humanas, que se tornam menos claras, mais pobres em termos de significado, o que constitui um indubitável retrocesso.

Mas a linguagem é a expressão da realidade e por isso não admira que “com orgulho e erro” assistamos à tentativa de justificar procedimentos deseducativos e rudes, à luz de uma ideia de falso progresso, como se fosse tudo “igual ao litro”! Assim, os pais aceitaram que os filhos os tratassem por ‘tu’, porque é moderno, para encurtar distâncias geracionais, porque acham que pais e filhos são a mesma coisa, ou por outro motivo ainda mais obscuro! Outros tratamentos, que marquem a distinção, a diferença, a cerimónia, tendem a ser abolidos, em nome do igualitarismo dominante, em que vale tudo, inclusivamente a falta de respeito pelo outro. Pelo próximo.

E assim vai o mundo… e a barbárie.

sexta-feira, setembro 28, 2007

Crónica cor-de-rosa

Quarta-feira, à noite, não foi a minha primeira vez!
Muito antes da floresta arder sem rodeios, muito antes das trapalhadas que surgiam diáriamente na comunicação social, quando ainda não se desconfiava do diploma do engenheiro, já o interregno apontava algumas qualidades ao herói do momento. Mas sem exageros. Nós não sofremos da depressão da orfandade, também não procuramos na terra a divindade, a bola para nós é competição, não é salvação. Mas porque um homem é um homem, e um rato é um rato, quando um homem se porta como um homem, quando faz aquilo que deve ser feito, não o idolatramos por isso, registamos o facto sem adjectivos.
Preocupante é o sentimento geral, misto de surpresa e admiração, só porque Santana fez aquilo que ninguém teve coragem de fazer até agora – dizer basta!
Um sorriso maléfico transfigura-me o rosto, e constato - nessa noite muita gente foi obrigada a perder a virgindade!

terça-feira, setembro 25, 2007

Diário de um céptico

Em nome do código, dizem-me que na melhor das intenções, acrescentaram-se mais garantias à defesa dos arguidos, inocentes enquanto a sentença não transitar em julgado… etc.
E eu não acredito enquanto não vir um político no banco dos réus. Porque é matematicamente impossível que em trinta anos, e ainda que se reconheçam as maiores virtudes aos eleitos, que ao menos um deles não tenha prevaricado! Mesmo sem querer!

Em nome da vida, dizem-me que na melhor das intenções, liberalizaram o aborto para poupar as mulheres ao enxovalho da prisão.
E eu não acredito porque assim se diminuíram drásticamente as garantias de defesa a quem gostaria de nascer! Aqui a sentença transita rapidamente em julgado e as vítimas nem arguidos são!

Em nome da saúde, dizem-me que na melhor das intenções, para diminuir o risco de contágio pelo HIV, será implementada a troca de seringas dentro das prisões!
E eu não acredito em medidas avulsas porque enquanto não se tratar a causa, ou seja, a droga, não diminuem os seus efeitos. Os comportamentos de risco associados à droga acontecem porque alguém se droga. A troca de seringas nas prisões não é portanto um primeiro passo para nada, é um passo atrás, e mais um sinal de permissividade dado pelo poder político, de quem se esperaria outro exemplo.
Mas ainda há alguém que acredite neste poder político?!
Eu não acredito.

segunda-feira, setembro 24, 2007

O fado do bastonário

Andava eu enganado na vida
Pensava eu que o cargo era alto
Naquele tempo sonhava acordado
E quis um dia ser bastonário.

Mas afinal o lugar era baixo
Num vão de escada fiz o meu escritório
A noite veio e com ela o cansaço
Começa aqui o meu purgatório!

Em sobre humano esforço diário
No futebol busquei salvação
Já nem me lembro que sou bastonário
E só me vejo na televisão.

Até que um dia bateram á porta
Chapéu de coco e traziam na mão
A confiança na velha Aliança
Disse que sim… para não dizer não!

Repete e termina

A confiança na velha Aliança
Um bastonário nunca diz que não…

Consoante o fadista, fica bem em fado maior ou menor.

sábado, setembro 22, 2007

Os três candidatos

O melhor é assumirmos de vez a nossa realidade, poupa-se tempo e dinheiro, poupa-se a paciência das pessoas, poupam-se os esforços inúteis, quantas vezes com o sacrifício da própria dignidade, em suma, sejamos poupados! Mas de que falo eu? Explico: está à vista de todos que o presidente honorário dos sociais-democratas portugueses é o Engenheiro Sócrates, pela pose, pelo discurso ambíguo, pela eterna indefinição, por tudo aquilo que distingue um político multipartidário! Mas que fazem então Mendes e Menezes! Que temível batalha travam? Que lugar almejado disputam?
Discutem naturalmente o segundo e terceiro lugares do pódium. Qual é a dúvida!
A direita segue dentro de momentos.

sexta-feira, setembro 21, 2007

Oposição precisa-se

Terminou há pouco o debate que o Governa leva mensalmente à Assembleia da República e como vem sendo hábito, Sócrates venceu facilmente. Era o primeiro debate com novas regras parlamentares, supostamente para dar maiores possibilidades à oposição de fazer valer os seus pontos de vista, mas essa vantagem não foi utilizada porque simplesmente não existe oposição! Oposição adulta, incidindo sobre as fraquezas governativas, sobre questões concretas que interessam aos portugueses, e não esta oposição a fingir, que apenas pretende substituir-se nos cargos e nas benesses.
O Governo chamou naturalmente para a discussão o Plano Tecnológico e por muito que isso custe a alguns, que gostariam de ser eles a distribuir computadores ou telemóveis pela população, a verdade é que não são estas as medidas criticáveis do Governo. São outras, por exemplo, o Código de Processo Penal que entrou em vigor de rompante e com normas a preceito para liquidar investigações a processos de ‘colarinho branco’, ou amordaçar escutas inconvenientes. Mas pergunto eu, como é que a Assembleia poderia discutir uma matéria em que os maiores partidos da dita oposição, ou votaram favoravelmente tais reformas ou se abstiveram!!!
Sócrates estava a jogar em casa.

terça-feira, setembro 18, 2007

Coincidências

Correm hoje os novos dias da Bastilha, homicidas e violadores preparam-se para ser libertados em nome dos direitos dos arguidos, complexo apelido onde cabem os mesmos homicidas e violadores. O risco para as verdadeiras vítimas existe e não é de desprezar, mas na assembleia pontificam o medo e a cumplicidade, ela é soberana, nela não se vislumbra oposição!
Arautos bem situados asseguram que o descanso dos portugueses será igual à paz… dos cemitérios!

No mesmo tempo e lugar prepara-se a trasladação dos restos mortais de um escritor para o denominado Panteão Nacional. “Arguido” de ser promotor do crime de regicídio, ou conivente com os regicidas, não deixa de ser uma triste coincidência a sua elevação à categoria de vulto nacional!
Os mortos devem descansar em paz, mas neste caso, são os vivos que não deixam descansar ninguém.

segunda-feira, setembro 17, 2007

Cantar e cumprir

A propaganda enganosa conta sempre com a imbecilidade alheia mas conta sobretudo com a desigualdade de meios, forma expedita de calar a boca aos adversários. A primeira república, por exemplo, tentou convencer os portugueses que o regime monárquico era mau, e não fora isso, em vez de chegarmos à Índia teríamos chegado à Lua! Já a segunda república (leia-se Estado Novo) foi mais subtil, promoveu o silêncio eliminando sumáriamente a discussão sobre o assunto. No que respeita à república de Abril, não podendo evitar que nos primórdios se falasse de tudo, tem vindo a adoptar uma postura mista, por um lado ignora a questão, mas se alguém a levanta faz crer que se trata de um regime ultrapassado, próprio de países atrasados! Semelhantes atoardas, mil vezes repetidas, acabam por produzir o efeito esperado, ou seja, embrutecem a população, e por isso não é de estranhar que a grande maioria dos portugueses não consiga perceber quais são as verdadeiras causas da sua decadência, ou dito de outra maneira, porque é que em quase cem anos de regime republicano, Portugal não conseguiu, nem consegue, aproximar-se dos níveis de desenvolvimento, já não digo de países como a Holanda ou a Bélgica, mas de regiões vizinhas, como a Galiza ou a Catalunha!
Estranho, não acham?!
Sem procurar desculpas esfarrapadas, parece-me que o segredo está no hino, por ínvias razões outra vez na moda – “levantai hoje de novo o esplendor de Portugal”! Quem o canta sabe, ou desconfia, que no tempo da monarquia éramos mais independentes e estávamos melhor classificados no ranking europeu.

sexta-feira, setembro 14, 2007

Justiça em segredo

É sempre bom que as coisas fiquem claras, registadas, para saber quem é quem, para que amanhã não se desdiga o que se disse hoje. Relembremos a polémica norma do Código de Processo Penal, aprovado com os votos do PS e PSD, e promulgado por Cavaco Silva, para entrar amanhã em vigor! Reza assim o artigo 88, número 4:

“Não é permitida, sob pena de desobediência simples, a publicação, por qualquer meio, de conversações ou comunicações interceptadas no âmbito de um processo, salvo se não estiverem sujeitas a segredo de justiça e os intervenientes expressamente consentirem na publicação”.

Aqui está o resultado de um laborioso ‘pacto de justiça’ entre os partidos que nos têm governado desde a revolução dos cravos, a tal que invocava os valores da liberdade, da justiça, da separação dos poderes, em suma, da transparência que gera a confiança entre governantes e governados. Aqui está a cereja que faltava no bolo da terceira república.
A partir de agora vai ser um descanso, processos como o da Casa Pia, Portucale, Apitos, qualquer que seja a cor, e outros, nem do ovo saem, ficam no segredo dos deuses, com letra pequena. Primeiro está o bom nome das pessoas. E assim é que deve ser, porque como diz o ministro da Justiça – “as escutas são para a investigação, não para a divulgação”! Só faltou dizer – confiem em nós!

quinta-feira, setembro 13, 2007

A anatomia de um jogo

Os patriotas da selecção já descobriram o seu bode expiatório, é o tio Scolari, o mesmo que em tempos não muito recuados pôs o país em ‘verde e rubro canto’! Se fosse romano diria como o Cipião – ‘ingrata pátria, não possuirás os meus ossos’! E de citação em citação, ou excitação em excitação, Alvalade encheu-se para ver ganhar a selecção – esse mítico conjunto de emigrantes, tudo o que nos resta para vingar as frustrações diárias, o antigo hábito das derrotas, o império perdido... ou a independência a esvair-se. Para alicerçar o sonho, a comunicação social que temos (e somos) garante em cada noticiário, ou em mesas redondas organizadas para o efeito, que Cristiano Ronaldo ou Quaresma irão reduzir a escombros qualquer adversário que lhes apareça pela frente! Nestas circunstâncias o estádio está em ponto de rebuçado, 50.000 almas que pouco percebem de futebol, exigem a vitória ou a cabeça do seleccionador! Mas ninguém se lembrou (salvo Scolari) que a Sérvia pertence a uma escola de futebol (individual e colectivo) superior à nossa, dispõe também de grandes jogadores, que são titulares nos melhores campeonatos da Europa, e que nestas condições o jogo seria sempre muito complicado de vencer. No final, um gesto irreflectido de Scolari pode ter comprometido a sua continuidade à frente de uma selecção que tem na sua capacidade de liderança o seu ponto forte.

quarta-feira, setembro 12, 2007

Contra os bretões…

Era este o verso original do hino que incitava os portugueses a marchar contra os bretões, desagravando assim a humilhação sofrida com o ultimatum. Por conveniência de serviço passámos posteriormente a marchar contra os canhões não fossem os bretões ofender-se! Nada que nos espante sabendo como é volátil o patriotismo republicano. Esquecido o ultimatum, habilmente explorado contra o rei e a monarquia, obtiveram dos bretões (leia-se ingleses) o necessário consentimento (e apoio) para implantarem a república; esquecido o mapa cor-de-rosa, porção territorial entre Angola e Moçambique, onde não existia ou vivia qualquer português, empandeiraram sob a forma de ‘descolonização exemplar’, Angola, Moçambique… e o que mais houvesse. Preparam-se agora para leiloar em Bruxelas (ou em Lisboa) o que resta da nossa secular soberania. Mas gostam de cantar o hino.