quinta-feira, maio 22, 2008

Bloqueio

Não sei se já lhes aconteceu ficarem bloqueados a seguir a um devaneio poético! A resposta é não, porque evitamos devaneios e ainda menos poéticos. Pois concordo, mas a verdade é que aquelas palavras, provavelmente por serem vãs, se interpuseram de tal modo entre a escrita e o que eu tinha para dizer, que não houve outro remédio senão esperar por algum acontecimento que me retirasse de apuros. Neste sentido a Festa do Corpo de Deus salvou-me, trouxe-me de volta, mas com a promessa, e a penitência, de poupar o interregno à tentação da rima… ‘por dá cá aquela palha’. Provérbios populares está bem, são admissíveis, versos é outra conversa.
Mas afinal que havia para dizer, de tão urgente, que não podia esperar pelo fim do mês! Que notícia, que novidade, merecem algum comentário nesta pasmaceira de país! Que não protesta, que não põe o pé na rua, que assiste, melancólico, ao aumento diário do gazóleo e do resto! Que em contrapartida inventa alienações que ultrapassam os efeitos de qualquer opiáceo, por mais duro que seja!
A psicose com a selecção é um bom exemplo: são famílias inteiras que se deslocam em peregrinação ao Fontelo, só para ver os seus ídolos, artistas da bola para onde transferimos todas as nossas frustrações! Por isso merecem tudo, inclusive uma diária, para tabaco e diversos, na ordem dos setecentos euros! O que faz aumentar ainda mais a admiração dos ‘adeptos’, reformados a trezentos euros, empregados a setecentos euros (mensais), para não falar do fundo de desemprego. Mas o terceiro mundo é assim, não há nada a fazer.
A não ser congelar qualquer coisa!
Onde é que eu já vi isto?!

"História da Solenidade do Corpo de Deus"


A Solenidade Litúrgica do Corpo e Sangue de Cristo, conhecida popularmente como "Corpo de Deus", começou a ser celebrada há mais de sete séculos e meio, em 1246, na cidade belga de Liège, tendo sido alargada à Igreja universal pelo Papa Urbano IV através da bula "Transiturus", em 1264, dotando-a de missa e ofício próprios.
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Teria chegado a Portugal provavelmente nos finais do século XIII e tomou a denominação de Festa de Corpo de Deus, embora o mistério e a festa da Eucaristia seja o Corpo de Cristo. Esta exultação popular à Eucaristia é manifestada no 60° dia após a Páscoa e forçosamente uma Quinta-feira, fazendo assim a união íntima com a Última Ceia de Quinta-feira Santa.
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Em 1311 e em 1317 foi novamente recomendada pelo Concílio de Vienne (França) e pelo Papa João XXII, respectivamente. Nos primeiros séculos, a Eucaristia era adorada publicamente, mas só durante o tempo da missa e da comunhão. A conservação da hóstia consagrada fora prevista, originalmente, para levar a comunhão aos doentes e ausentes.
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Só durante a Idade Média se regista, no Ocidente, um culto dirigido mais deliberadamente à presença eucarística, dando maior relevo à adoração. No século XII é introduzido um novo rito na celebração da Missa: a elevação da hóstia consagrada, no momento da consagração. No século XIII, a adoração da hóstia desenvolve-se fora da missa e aumenta a afluência popular à procissão do Santíssimo Sacramento. A procissão do Corpo e Sangue de Cristo é, neste contexto, a última da série, mas com o passar dos anos tornou-se a mais importante.
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Do desejo primitivo de "ver a hóstia" passou-se para uma festa da realeza de Cristo, na "Christianitas" medieval, em que a presença do Senhor bendiz a cidade e os homens.
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A "comemoração mais célebre e solene do Sacramento memorial da Missa" (Urbano IV) recebeu várias denominações ao longo dos séculos: festa do Santíssimo Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo; festa da Eucaristia; festa do Corpo de Cristo. Hoje denomina-se solenidade do Corpo e Sangue de Cristo, tendo desaparecido a festa litúrgica do "Preciosíssimo Sangue", a 1 de Julho.
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A procissão com o Santíssimo Sacramento é recomendada pelo Código de Direito Canónico, no qual se refere que "onde, a juízo do Bispo diocesano, for possível, para testemunhar publicamente a veneração para com a santíssima Eucaristia faça-se uma procissão pelas vias públicas, sobretudo na solenidade do Corpo e Sangue de Cristo" (cân 944, §1).

In AGÊNCIA ECCLESIA - (História da Igreja)

sábado, maio 17, 2008

As palavras vãs

São palavras soltas
espalhadas no chão
sem nada que as una
a não ser o sentido
de tudo o que existe
e não tem expressão

É apenas o ritmo
Em triste cadência
Sem génio ou ciência
A escrita esgotada
No espaço de um verso
Que não sabe de nada.

quinta-feira, maio 15, 2008

Um país a fingir

Eu bem tento animar-me, pensar o contrário, engano-me com o quinto império, mas não resulta, o Almada é que tinha razão – ‘o país é bonito, fica feio pôr lá portugueses’! Almada é apenas um exemplo, muitos outros se expressaram com igual desilusão e acerto. Para piorar as coisas, garantiram-me ontem que a ‘malta das naus’ nunca existiu, ou se existiu, não regressou. Há quem desespere por nova invasão fenícia, por alguém que aqui aporte, e nos submeta, a ver se ganhamos juízo e rumo! Neste desfazer pátrio, a fé já perdida mas não o humor, um parente próximo não perdoa a onda de canonizações a benefício de ‘nuestros hermanos’! Qual condestável, num último alento nacionalista, recusa a vida eterna alegando que o céu está cheio de espanhóis!
Felizmente que nem tudo são más notícias, o país recebeu com natural satisfação a boa nova de que o primeiro-ministro ía deixar de fumar! Subsiste apenas a dúvida, se Sócrates vai deixar de fumar na qualidade de chefe do governo ou de cidadão! Um assunto a desenvolver.
Noutro quadrante, a guerra do futebol promete, já se contam espingardas mas sem perder o sentido romanesco do drama! Carolina, heroína da segunda circular, garantiu em tribunal que o pérfido amante frequentou local proibido, enquanto o homem do norte, ferido na sua honra, tem almoço marcado na Assembleia da República, e imagine-se, com deputados!
Não dei a volta ao mundo, mas tenho o carro na reserva, pago o meu imposto na bomba de gazolina, regresso a casa, e durante a curta viagem discorro sobre o legalismo puritano que nos possui, religião em forma de lei e processo interminável, tão rigorosa e afinal tão propícia ao ‘pecado’ da transgressão!

segunda-feira, maio 12, 2008

“Parati”

“Estou em Parati, a uns quilómetros a sul do Rio de Janeiro, junto à costa. ‘Para ti’, ‘Para-te’ ou um nome qualquer índio, a verdade é que este é um dos locais mais maravilhosos do mundo que conheço. Talvez parecido com Korshua na Croácia mas para melhor e mais português, o que é uma enorme vantagem.
(…) Até me deu para sonhar o quinto império. A ver se vos explico o meu sonho que, não só é realizável, mas também parte de dois dados bem reais. O primeiro dado é que o Brasil é um país fantástico que importa exportar para muitos cantos do mundo. O segundo dado é que o Brasil foi possível porque Alcácer Quibir nos fez espanhóis por algum tempo na Europa, mas nós transformámos o que era espanhol em brasileiro na América. De facto não conseguimos unir a Península a nosso favor, de Sagres a Guadarrama, mas conseguimos fazer isso mesmo à escala do continente sul-americano de Natal à Rondónia. De alguma forma sofremos pelos brasileiros já que era essa a nossa obrigação de pais, mas que de outras vezes nos esquecemos de desempenhar.
Será que podemos tirar ilações para o terceiro milénio a partir destes dados seminais? Vejamos, fazemos parte da Europa e corremos riscos sérios de, por essa via, ser integrados em Espanha. Porque não aproveitamos as lições da ocupação filipina para que, com desígnio, abrasileirarmos os espaços hispânicos, anglo-saxónicos e franceses por esse mundo fora como outrora fizemos no sertão brasileiro que era espanhol por direito? Pode ser pensável, mas temos que assumir que os portugueses de agora são fundamentalmente Velhos do Restelo e que precisamos de lusófonos mais arrojados para a importante missão que temos pela frente. Para isso há que, primeiro, trazer muito mais brasileiros e outros lusófonos para Portugal para que se introduzam numa atitude de serviço por essa Europa fora. Depois, quando esses povos começarem a ter medo, os lusófonos europeus serão certamente empurrados para a América, para África, para a Oceânia e até para a Índia e para a China, quando estes países orientais e civilizados reencontrarem a enorme vantagem de misturar o arroz com o feijão, acompanhado de vinho, de boa música e bons poemas, o que só a língua portuguesa permite sem serem precisos os efeitos especiais das caras bonitas de Hollyood, o drama do dizer espanhol ou o francês em tom sussurrado e feminino. Até o mundo árabe pode ser redimido com um punhado de guineenses e árabes brasileiros.
Podem dizer que isto é de loucos mas não é por acaso que os espanhóis estão a criar dificuldades aos brasileiros no aeroporto de Madrid, no trânsito que fazem para Lisboa para aproveitarem os voos mais baratos da Ibéria. Para além do mais até a chuva que cai lá fora, por detrás das janelas e portas que conhecemos, é bonita no som, na água e no aconchego sem frio que se cria deste lado. Porque não dá-lo a todo o mundo a começar nas favelas do Rio.”

Retirado com a devida vénia do Jornal “A União” de Angra do Heroísmo, da autoria de Tomaz Dentinho.

sexta-feira, maio 09, 2008

Apito Fatal

Não é ainda o apito final, é um começo, um aviso, uma declaração de falência, o futebol luso é uma mentira, sempre foi. Esta verdade incómoda, desatada em zanga de casa de alterne, não é especialidade do norte, percorre o país de lés a lés, e seria bom que o sul sorridente entendesse o que está acontecer. Seria bom que todos percebessem que precisamos de fazer uma escolha decisiva, no futebol e no resto: ou continuamos a sustentar três fidalgotes na europa, à custa da miséria geral, ou aceitamos a nossa realidade, e em lugar de emagrecer o campeonato pedimos aos fidalgotes que façam eles dieta.
E o regime podia aproveitar para fazer também regime... de propaganda barata.

quinta-feira, maio 08, 2008

Faltam princípios, sobram leis

O governo e o parlamento, em grande azáfama, vão fabricando a teia em que se enreda a nossa insegurança! Talvez pensem que esse sentimento diminui por decreto ou proposta de lei! Tarefa inglória.
É o mesmo governo que fez aprovar a lei do aborto, no mesmo parlamento que recusou um voto de pesar pelas vítimas do Terreiro do Paço, enquanto elevava criminosos ao Panteão nacional!
É a mesma classe política que festeja em Abril a impunidade nos processos da Casa Pia e outros, com igual mensagem – vale a pena prevaricar!
Num país assim, as leis não substituem a falta de princípios, verdadeira fonte do mal, nem as estatísticas iludem a realidade, ainda que o ministro esteja convencido do contrário.
Já sabemos que a enfermidade é geral mas não podemos importar só o mal dos outros!…
E o bem?!

quarta-feira, maio 07, 2008

"Retrato de Amália"


És filha de Camões, filha de Inêz
Assassinada voz de portuguesa
Cantando a nossa imensa pequenez
Com laranjas e gomos de tristeza!
.
É no claro Mondego dos teus olhos
Que se debruça o mal da nossa mágoa
Ao Tejo dos teus gestos que se acolhe
O nosso coração a pulsar água!
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Falando desatada de saudade
Choras um povo, cantas a balada
Mais bonita que soa na cidade
de Lisboa, por ti apaixonada.
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José Carlos Ary dos Santos

sábado, maio 03, 2008

O máximo divisor comum


Nestas questões partidárias que vão acontecendo e são notícia o que parece não é: Manuela Ferreira Leite pode de facto reunir algum consenso entre os barões do partido, dito social-democrata, mas se olharmos para além do nevoeiro, quem suscita maior unanimidade de pontos de vista, quem é geralmente apontado como não tendo qualquer viabilidade ou apoio, esse é Pedro Santana Lopes! Assim, com alguma sorte, e pela negativa, estou convencido que seria o único a poder unir o partido em torno dessa aversão! E se não estou a ironizar, a comunicação social até podia dar uma ajuda, prosseguindo na sua campanha contra o 'menino guerreiro' das 'trapalhadas', colocando a fasquia naquele ponto alto – nada a favor de Santana, tudo contra Santana.
Porém, curiosamente, Santana é o único dos candidatos que afirma querer mudar o rumo da política, dentro do partido e dentro do país, enquanto os outros candidatos, por certo mais credíveis, vão apresentando curriculum vitae, incluindo medalhas por serviços prestados a todos os títulos!
Mas como a classe política não está interessada em mudar de política (era só o que faltava!) também aqui Santana Lopes está completamente isolado, mantendo-se portanto como o máximo divisor comum!
A única esperança que resta aos portugueses é que tanta unidade contra o Santana acabe por dividir o partido e finalmente clarificar o espectro político partidário.

quarta-feira, abril 30, 2008

Onde é que nós íamos?!


Ah, já sei, nas maravilhas do mercado global, nas empresas repletas de engenharia financeira, sem a chatice dos trabalhadores, e nós no aconchego do condomínio fechado, esperando que a enorme 'sanzala' que (democráticamente) fabricámos nos forneça a força de trabalho, a recibo verde, e vá extraindo da terra ardente o cereal que necessitamos para comer os nossos 'croissants'!
Mas o mundo não se deixa domesticar tão facilmente, nem a mão invisível nos conduz aonde esperamos, pode dar para o torto, e quem imaginaria que em Londres uma dona de casa viesse a sofrer com o racionamento do arroz! Será só uma crise passageira, uma consequência da subida do preço do petróleo (há quanto tempo não encho o depósito do meu carro com arroz!...) ou é o princípio do fim de outra utopia! E como sonhar é fácil, talvez seja preferível sonhar com outra história já que esta nos ameaça com o pesadelo da fome!

sábado, abril 26, 2008

Uma boa oportunidade


Se houvesse um bocadinho de bom senso, disfarçavam, nem era preciso bom senso, bastava um mínimo de bom gosto e esqueciam a data, tal como a juventude a ignora e foge da política porque desconfia dos políticos!
O 25 de Abril, o 28 de Maio, o 5 de Outubro, para não ir mais atrás, com cravos ou sem cravos, são datas de guerras civis, lutas fraticidas entre portugueses, e por isso, ninguém com dois dedos de testa se lembraria de comemorar tal coisa. O que seria expectável é que no fim de cada uma destas 'revoluções', os vencedores a festejassem e os vencidos a chorassem, e depois todos a esquecessem porque a vida continua. Mas não, nesta terra a política virou propaganda, portanto, os que ganham e conquistam o poder, continuam a comemorar o facto atirando anualmente à cara do adversário os louros da sua vitória. E curiosamente, esperam que os vencidos do dia estejam contentes e abrilhantem o festejo!!!
Claro que isto não podia dar certo, e daí o ar sorumbático e comprometido dos 'convivas'. Daí a morte anunciada destas datas que a memória não retém! Ou se retém é pelos piores motivos.
Salazar, que era de facto mais esperto que os do seu tempo, neste capítulo das comemorações fez os possíveis para desvalorizar e fazer esquecer, quer o 28 de Maio, quer o cinco de Outubro. E fê-lo, não por amor à verdade, mas por razões estratégicas, para não criar cisões profundas entre os portugueses, cisões que o obrigariam mais tarde ou mais cedo a definir-se, e isso ele não queria. A sua longevidade política dependia muito (e dependeu) dessa indefinição.
Ora aqui estava, portanto, uma boa oportunidade para esta terceira república afirmar alguma superioridade sobre as anteriores, assumindo os erros cometidos, a tragédia da descolonização, podia também assinalar a virtude pelas regiões autónomas, mas de seguida encerrava definitivamente as comemorações! Que hoje só interessam a alguns, aos que herdaram o estado novo, e como justificação para se eternizarem no poder, garantindo assim os interesses anexos. Para o país estes festejos não interessam, para além de absurdos, perpetuam desconfianças, dividem em lugar de unir, e impedem que a nação se mobilize para as tarefas do futuro. E são dispendiosos.
Em suma, só inconvenientes.

sexta-feira, abril 25, 2008

Fado


Serenamente
sem aflição
ainda espero
no cabo raso
da ilusão
.
Mas diz quem sabe
que a velha nau
sem ousadia
ficou parada
na calmaria
.
Não há palavras
nem que dizer
do que sobrou
Madeira Açores
haja o que houver
.
Assim fizéramos
noutras paragens
e igual certeza
dessa maneira
bem portuguesa
.
Serenamente
por teimosia
ainda espero
no cabo raso
da utopia!

quinta-feira, abril 24, 2008

Amanhã há guerra?


Pergunta-me uma angustiada criatura! E insiste, sim, no Terreiro do Paço, por causa da extrema direita! Mas como, replico, se nem direita temos como pode haver extrema?! A guerra é contra a extrema esquerda, esclarece-me, contra a liberdade! Tento então explicar-lhe que a extrema esquerda também não existe, o que existem são arruaceiros sem qualquer cultura política, recrutados para isso mesmo, para provocarem arruaças, casos de polícia, que não se alarme em vão. E acrescento, neste país nunca há guerra, inventámos a quezília permanente para que não haja uma guerra declarada. Crimes e traições, sim, mas pela surra. A grande especialidade são revoluções de cravos e rotundas, telegrafadas posteriormente ao resto do país! Que as acata sem pestanejar e sem esperança!
Convenhamos no entanto que a situação não é famosa, o regime não tem saída, dependemos totalmente de terceiros e o custo de vida agrava-se diáriamente. Nestas condições a coisa pode tornar-se perigosa, um pequeno aumento pode riscar o fósforo! Recordem-se para o efeito as 'portagens' de Cavaco!
Só o estômago levanta este povo silencioso e pachorrento do sofá da bola!
E a conversa termina com uma pergunta maliciosa: mas estes feriados não era suposto serem dias de unidade e alegria entre os portugueses?! A que propósito vem a guerra?!
Não houve resposta.

quarta-feira, abril 23, 2008

Papéis trocados!

“O Tratado de Lisboa, tão glorificado pelo PS e pelo seu Governo, tão apoiado pelo PSD e CDS-PP, propôe a perda da soberania nacional na gestão dos recursos biológicos marinhos. Esta é também uma perda da autonomia regional. Os Açores perdem a possibilidade de decidir sobre as suas águas territoriais”, afirmou Jerónimo de Sousa nos Açores!
Fonte: Jornal Público de 21/04/08.

Resumindo, enquanto os partidos do chamado arco governamental vão entregando a Bruxelas anéis e dedos, o velho partido comunista assume posições que não envergonhariam um partido conservador português, se ele existisse!

domingo, abril 20, 2008

Oposição - uma receita caseira

É uma receita tradicional portuguesa, as mil e uma maneiras de não haver oposição, e cada época tem a sua especialidade. A receita de Abril é conhecida: - juntem-se num tacho (sem asas) dois partidos práticamente iguais, desloque-se o centro do tacho para a esquerda com os ingredientes do costume, seja em bloco, seja em povo unido, evitando assim que a direita levante cabeça, perdão, fervura. Para vigiar o tacho e o cozinhado recrute-se um chefe de cozinha num dos partidos do tacho.
Ponha-se tudo a marinar durante trinta anos!
Este prato é para ser servido à população com molho rosa ou laranja dando a impressão que são dois cozinhados diferentes, mas não são.
E a gente vai nisto!

quarta-feira, abril 16, 2008

Porquê agora?!

Se um litro de leite em Portugal custa o mesmo que um litro de leite nos países da União que têm salários mínimos que são o dobro ou o triplo do nosso (e já não falo nas reformas de miséria), então não é caso para estarmos preocupados!
Se a educação em Portugal produz os resultados que conhecemos, e não será por falta de professores ou de meios, e se a justiça prescreve, enquanto juizes e procuradores se entretêm a visionar vídeos de futebol!... Então não devemos ficar preocupados!
Se a saúde é cara, como as mais caras, e igual às piores, não será urgente ficar preocupado!
E que dizer dos políticos que transitam do estado para as empresas agradecidas! E a permanente guerrilha entre governos regionais e centrais! Onde falta um árbitro isento que assegure a confiança e a harmonia.
E a apregoada coesão nacional todos os dias posta em causa com centenas de trabalhadores portugueses a passarem a fronteira para irem trabalhar em Espanha! Incapazes que somos de solucionar a desertificação do interior do país!
Tudo concorre para a preocupação geral, e por isso, porque não se vislumbra futuro, algumas 'irmandades' começam a movimentar-se, especialmente aquelas que habitam no aparelho de estado há mais de um século, e têm, assim, as maiores responsabilidades no descalabro.
A mim interessam-me as causas, mas o preço do leite é uma consequência.

quinta-feira, abril 10, 2008

Os fins e os princípios

Está a findar uma era, um ciclo histórico, todos os sinais o confirmam, e esse estertor sente-se aqui, na ‘ocidental praia lusitana’, como se sente no mundo inteiro. Talvez que na orla atlântica, por estar mais exposta às correntes oceânicas, esse desmoronar das ideias invencíveis surja com mais intensidade que noutras latitudes. O facto é que era impensável assistir na televisão pública ao anúncio de uma ‘abertura’ (foi a expressão utilizada) entre a Igreja Católica e a Maçonaria, incluindo nessa ‘abertura’ o Grande Oriente Lusitano!
Tal como aconteceu, aquando do recente debate sobre monarquia e república, também estou à vontade para me pronunciar sobre este novo cenário, não preciso de me reciclar ou justificar apressadamente, vantagem de ter adivinhado e proposto esta ‘ultrapassagem’, mas vantagem sobretudo por me rever na tradição da Lusitana Antiga Liberdade, e como tal, nunca ter poupado críticas à Maçonaria e à sua acção traiçoeira e nefasta para Portugal e para os portugueses. Pode dizer-se que é ela a grande responsável pela situação de decadência permanente em que vivemos, nunca abrindo mão da chamada ‘educação pública’ (que manteve no tempo de Salazar!) fórmula ideal para embrutecer gerações e gerações de estudantes com propaganda anti-católica e anti-monárquica. Compreendemos agora melhor o ‘estudante telemóvel’, ateu, ignorante e malcriado, como também compreendemos os ‘professores’ que desfilam e insultam a hierarquia, um esplêndido exemplo para a pequenada! Esta questão do ensino será por certo um dos pontos de clivagem (e a discutir), tal como sugeriu Dom Carlos Azevedo, porta-voz da Conferência Episcopal, que não evitou criticar também a Igreja Católica pelo seu silêncio (e cumplicidade) durante a segunda república.
Portanto, é bom que as coisas fiquem claras, se agora, face à derrocada eminente do regime, chegou o momento da Maçonaria pensar primeiro na Pátria do que nos seus interesses ocultos, pois então que haja abertura.
Assim a hierarquia Católica saiba estar à altura deste compromisso histórico.

terça-feira, abril 08, 2008

Lavandaria nacional

Começo com uma adivinha – qual é coisa qual é ela que usa detergente verde rubro, cheira a papel de jornal e limpa a seco qualquer nódoa que possa sujar o bom nome dos clubes da segunda circular?! Não faz mal se não adivinharam. Vem isto a propósito da notícia do jornal Record, notícia de primeira página, em toda a sua largura, e com letras garrafais: “Rui Costa inocente”! E eu perguntei aos meus botões – mas inocente de quê?! Sabemos que alguns dirigentes do Benfica digeriram mal o empate no Bessa; sabemos também que houve desaguizados no túnel que dá acesso aos balneários; e a própria televisão deu conta que um dos mais inconformados era precisamente Rui Costa; portanto, nada mais natural que o capitão benfiquista estivesse envolvido nos acontecimentos cuja gravidade não sabemos qual é, a não ser que o sucedido venha a constar de algum relatório oficial. Até aqui tudo normal.
O que não é normal é esta preocupação doentia de retirar logo do centro das responsabilidades o nome de Rui Costa, como se pertencesse a uma casta (ou a um conjunto de interesses) acima de qualquer suspeita! Mal ‘acomparado’ faz-me lembrar a impossibilidade que parece existir no nosso país que os deputados, pelo facto de serem deputados, ou ministros, não possam ser acusados de pedofilia ou suspeitos de algum crime! Triste terra, inferior e subserviente, incapaz de fazer justiça com igual peso e medida, quer se trate de gente vulgar ou de alguém com poder.
Rui Costa é provávelmente o menos culpado nesta história, história onde nem sequer existem ainda culpados ou inocentes.

segunda-feira, abril 07, 2008

Aconteceu há dez anos!

Quando a carrinha branca parou na berma da estrada, como nos velhos filmes de aventuras, eu já sabia que o meu destino podia mudar naquele momento. Drogados, era tudo o que me esperava no fim da curta viagem, um mundo desconhecido, gente de outro planeta, em recuperação neste planeta, prisioneiros voluntários que não conseguiam tomar conta de si! Sou de outro tempo, do tempo das tabernas, dos pecados individuais e intransmissíveis, sem necessidade de bengalas e adjectivos, aquela lepra fazia-me confusão! Mas na altura, desempregado e desocupado, decidi aceitar o que me ofereciam, a estranha tarefa de acompanhar e vigiar, em horário nocturno, o andamento de uma comunidade terapêutica, tal era o nome destes armazéns de jovens dependentes, por certo inimagináveis pelos nossos bisavós!
Não era portanto um missionário que ali entrava, mas alguém que também precisava de virar uma página pouco propícia da sua vida, um espírito neutro, na expectativa, mas que mantinha um indiscutível ar de superioridade!
Porém, como na fábula, os vencidos acabam por assimilar os vencedores quando estes não têm tanta razão como julgam, e assim, comecei a descobrir com alguma surpresa que aquele local envenenado era afinal um bálsamo para a minha alma subitamente renascida! E maior surpresa ainda quando dei comigo a admirar a coragem daqueles resíduos humanos, erguendo-se para saírem do poço escuro em que tinham caído! Perguntava-me então, se comparado com eles, os meus parcos esforços para aperfeiçoar a minha vida valeriam de alguma coisa! E a resposta nunca era lisonjeira.
É apenas uma data, mas gostava de a assinalar no interregno porque é de interregno que se trata – cumpriram-se dez anos que levo nesta cruzada! E já não me arrependo de ter entrado naquele final de dia, naquela carrinha branca.

sexta-feira, abril 04, 2008

No banco dos réus

Parece que sim, é verdade, parece que conseguimos finalmente sentar um homem do regime, um tubarão (neste caso dragão) no banco dos réus! Estou talvez a subestimar a personagem, mais do que um homem do regime, trata-se de um homem do norte, um regionalista confesso, alguém que emergiu com a revolução dos cravos, alterando, não esqueçamos, a relação de forças entre o norte e o sul, naquilo que o país tem de mais relevante e vital – o futebol!
Até há pouco tempo isto era impensável, nem o governo permitiria tal desaforo, a própria assembleia votaria uma moção qualquer, evitando a diligência. O presidente, interpretando o sentir da nação, vetava. Como prova bastante do que afirmo, junto ao processo uma boa fotografia da final de Sevilha onde a nata do regime, a fina-flor dos políticos e da política, ladeando o agora réu, assistiu contente e feliz, a uma magnífica jogatana que acrescentou mais um castelo aos castelos da pátria! Portanto, estou de rastos, perplexo, e ao mesmo tempo contente, porque a justiça funciona e é de facto cega na verdadeira acepção da palavra. A seguir imagino o pior e o pior só pode acontecer na Madeira, quem sabe uma escuta telefónica surpreendendo uma tentativa de favorecimento de um clube local, que arrastasse consigo o governo regional e o seu bem amado líder! Afasto esta ideia e acalmo-me, isto ainda não aconteceu, voltemos pois à vaca fria porque a redenção aproxima-se.
Porém, nem tudo são rosas, relativamente dessincronizada com a justiça está a nossa federação de futebol, sempre distraída com a selecção, único e último elo comunitário, e nestas condições a tutela, ou seja o governo, também pode continuar mal na fotografia.
Termino com um assunto menor: os jornais noticiam que de acordo com dados fidedignos, nos últimos dez anos em Portugal, o fosso entre ricos e pobres duplicou. Um record na zona euro.
Hoje, sobre justiça, é tudo.