domingo, junho 08, 2008

Sobre a amizade

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem de gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir a falta de não ter esse amor. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.
Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objectivo deve ser o de amigo.. Deve sentir pena das pessoas tristes e compreender o enorme vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.
Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações da infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.
Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo, para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.
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Vinicius de Moraes - 'Procura-se um amigo'

quinta-feira, junho 05, 2008

“Benfica dentro Porto fora”

Este título explica tudo, escusam os juristas de se debruçar, os analistas de se justificar, os políticos de se conter (a segunda circular de se esconder) porque a verdadinha está toda ali. O resto é conversa de milhões e quanto toca a cada um.
Resulta daqui que a almejada justiça vai ter que esperar por melhor oportunidade, estamos apenas a assistir a mais um episódio da campionite norte/sul, que sobe de tom à medida que os ‘subsídios’ da UEFA se tornam decisivos para mascarar a falência técnica dos três ‘clubes do estado’. Curiosamente (e ninguém quer reparar nisso!) estes subsídios têm o mesmo efeito perverso (em Portugal) que os outros subsídios europeus, a saber: os da UEFA cavam o fosso entre clubes grandes e pequenos; os da UE cavam o fosso entre ricos e pobres!
Sendo assim, subscrevo-me parafraseando um conhecido ditado popular: por morrer um batoteiro a batota não acaba.

Registo de interesses: Azul sem riscas mas com memória.

Fonte: Título do jornal Record de hoje.

terça-feira, junho 03, 2008

Fico velho…

‘Não posso estar parado, fico velho…’ é letra de música portuguesa, talvez de um grupo chamado ‘além-mar’, que não corresponde, porque fui entretanto surpreendido pelo tempo e confesso alguma incapacidade para compreender tanto alarido. O segredo deve estar no movimento, ou na falta dele!
Por exemplo, o que leva cem mil pessoas a ouvir uma garça ‘cantareira’ que tropeça pelo palco! E é essa a noticia! A preço alto! Num país que vive (quase) exclusivamente do orçamento de estado, quem terá pago aqueles bilhetes? Pois, pois, o preço da gazolina e do arroz, já te dou o arroz…
Mudando de campo, qual será a vida daqueles milhares (milhões, se contarmos com a televisão) de portugueses que seguem o autocarro da selecção para toda a parte! Que dão vivas incessantes à selecção com medo que ela morra! E logo outra dúvida me assalta - como seria a sua existência se não houvesse selecção? E os emigrantes, coitados, que são tantos, meu Deus! O que seria deles sem o calor da selecção! Sem poderem encarar o patrão belga ou suíço com aquela convicção infantil – a minha selecção é melhor que a tua, bem feita.
Afinal qual é o teu problema?! São as cores da bandeira?! Não ligues, é feita na China e pelas cores deve ser chinesa. É por causa da alienação?! Que importa isso agora, se não fosse esta era outra. Olha, passou agora um autocarro laranja (que raio de cor!) vamos lá apoiar a selecção. Não podes estar parado, ficas velho...

sábado, maio 31, 2008

Será desta?!

A história partidária portuguesa só um milagre a pode alterar! Como diversas vezes referi, vivemos sempre em partido único, ora inclinado à esquerda, ora à direita, embora durante certos períodos existam dois partidos que se revezam no poder, mas como dizia o Eça, são tão parecidos, que apenas se distinguem porque os respectivos capatazes almoçam em sítios diferentes. Nestas condições, esperar por uma clarificação do espectro político partidário é pura utopia! Esse desiderato só poderia acontecer se uma das duas formações partidárias que se reclamam da social-democracia (PS e PSD) se fracturasse, levando a outra a desagregar-se. Dos escombros poderiam então nascer dois grandes partidos de poder, um conservador, à direita, e outro socialista/social-democrata à esquerda, aliás, à semelhança do que acontece nas democracias adultas.
Mas se calhar o problema é esse, nós não queremos ser adultos, há um pavor atávico em crescer, que nos tolhe os movimentos, as decisões… a não ser que o discurso (de derrota) de Santana Lopes queira mudar alguma coisa! Eu ouvi falar num projecto político próprio, de que ele não abdicava! E em política os projectos próprios precisam de um meio próprio para se expressarem e desenvolverem – e esse meio são os partidos.
Será um novo partido que se perspectiva? Liberto da ganga social-democrata?!
Era bom que fosse verdade, mas não acredito.
Estou mais inclinado para uma luta surda e mortal entre Sócrates e Manuela Ferreira Leite, para ver qual dos dois se parece mais com Salazar.
E a Manuela até se saiu bem no discurso de vitória! Não disse nada e disse tudo.
Saudações monárquicas.

quarta-feira, maio 28, 2008

Então e o 28 de Maio?!

Ninguém fala nele! Será que não conta para o centenário?! E a juventude, aquela que confunde o 25 de Abril com a fundação da nacionalidade, terá ela alguma ideia sobre o 28 de Maio de 1926? Ou não sabe nem quer saber porque desconfia que deve ter sido mais uma revolução traída!
A verdade é que foi o ‘28 de maio’ que deu origem à segunda republica, vulgo, estado novo, e sempre foram quarenta e oito anos, não é brincadeira nenhuma! O melhor é dar uma explicação (informação) simples, como se fosse futebol, para os adeptos da selecção perceberem: com o 28 de maio a direita venceu a esquerda, colocando as republicas empatadas a uma bola. O 25 de Abril desempatou a favor da esquerda mas como as coisas andam não deve tardar muito para a direita empatar outra vez. E já merecia.
Até nisto somos o país dos empatas!

domingo, maio 25, 2008

Profético

Quando Sócrates decidiu, em tom solene, congelar os ‘passes sociais’, estava eu sentado a ver o debate na televisão! Num gesto instintivo, levantei-me, fui ao frigorífico, e pus o salazarismo a descongelar!
Salazar também congelou as rendas de Lisboa e Porto, e quando o fez, invocou por certo as melhores razões, e tal como Sócrates, recolheu o aplauso da união nacional da época.
Salazar também sabia que há mais inquilinos que senhorios, e que é em Lisboa e Porto que as maiorias se definem, com ou sem votos expressos. Sócrates também sabe que os passes sociais dizem respeito às populações que vivem à volta destas duas grandes cidades.
Em ambos casos a medida é inatacável, a crise externa justifica quase tudo, e tem a vantagem de esconder inépcias e populismos internos.
Assim, governar é fácil.

sexta-feira, maio 23, 2008

Cançoneta a dois tons

Temos que admitir que as canções da Eurovisão já tiveram melhores dias, antigamente entravam no ouvido, era no tempo em que os melhores autores e compositores apostavam forte neste concurso. Agora, letras e músicas aparecem enlatadas, na sua maioria são cantadas em inglês, não é fácil distingui-las! Na hora de escolher, o melhor é orientarmo-nos pelos intérpretes, no meu caso, pelas intérpretes.
Mas confesso que ando um pouco alheado do festival e tanto assim é que quando ouvi a locutora nomear a nossa intérprete apanhei um susto pois pensei tratar-se da Vanessa Fernandes, a grande campeã do triatlo! Percebi mal, o apelido também é Fernandes mas chama-se Vânia. Uma jovem que defendeu muito bem a canção portuguesa, um bocadinho trágico-marítima, mas isso ela não tem culpa, a verdade é que conseguiu apurar-se para a final!
Mas o que eu não sabia, e fiquei a saber, é que a Europa das canções também funciona a duas velocidades, também tem os grandes e os pequenos, e curiosamente nós fazemos sempre parte dos pequenos! É como lhes digo, e se não percebi mal outra vez, para além do país organizador, mais quatro países (adivinhem quais!) e respectivas canções, têm apuramento garantido, obrigando-se os restantes a disputarem uma espécie de pré-eliminatória!
Com franqueza, nem nas cantigas somos iguais, nem com música a Europa se comove!
E nós ainda insistimos, ainda lá vamos, em lugar de fazermos concursos e festivais com quem, e para quem, nos entenda.

quinta-feira, maio 22, 2008

Bloqueio

Não sei se já lhes aconteceu ficarem bloqueados a seguir a um devaneio poético! A resposta é não, porque evitamos devaneios e ainda menos poéticos. Pois concordo, mas a verdade é que aquelas palavras, provavelmente por serem vãs, se interpuseram de tal modo entre a escrita e o que eu tinha para dizer, que não houve outro remédio senão esperar por algum acontecimento que me retirasse de apuros. Neste sentido a Festa do Corpo de Deus salvou-me, trouxe-me de volta, mas com a promessa, e a penitência, de poupar o interregno à tentação da rima… ‘por dá cá aquela palha’. Provérbios populares está bem, são admissíveis, versos é outra conversa.
Mas afinal que havia para dizer, de tão urgente, que não podia esperar pelo fim do mês! Que notícia, que novidade, merecem algum comentário nesta pasmaceira de país! Que não protesta, que não põe o pé na rua, que assiste, melancólico, ao aumento diário do gazóleo e do resto! Que em contrapartida inventa alienações que ultrapassam os efeitos de qualquer opiáceo, por mais duro que seja!
A psicose com a selecção é um bom exemplo: são famílias inteiras que se deslocam em peregrinação ao Fontelo, só para ver os seus ídolos, artistas da bola para onde transferimos todas as nossas frustrações! Por isso merecem tudo, inclusive uma diária, para tabaco e diversos, na ordem dos setecentos euros! O que faz aumentar ainda mais a admiração dos ‘adeptos’, reformados a trezentos euros, empregados a setecentos euros (mensais), para não falar do fundo de desemprego. Mas o terceiro mundo é assim, não há nada a fazer.
A não ser congelar qualquer coisa!
Onde é que eu já vi isto?!

"História da Solenidade do Corpo de Deus"


A Solenidade Litúrgica do Corpo e Sangue de Cristo, conhecida popularmente como "Corpo de Deus", começou a ser celebrada há mais de sete séculos e meio, em 1246, na cidade belga de Liège, tendo sido alargada à Igreja universal pelo Papa Urbano IV através da bula "Transiturus", em 1264, dotando-a de missa e ofício próprios.
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Teria chegado a Portugal provavelmente nos finais do século XIII e tomou a denominação de Festa de Corpo de Deus, embora o mistério e a festa da Eucaristia seja o Corpo de Cristo. Esta exultação popular à Eucaristia é manifestada no 60° dia após a Páscoa e forçosamente uma Quinta-feira, fazendo assim a união íntima com a Última Ceia de Quinta-feira Santa.
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Em 1311 e em 1317 foi novamente recomendada pelo Concílio de Vienne (França) e pelo Papa João XXII, respectivamente. Nos primeiros séculos, a Eucaristia era adorada publicamente, mas só durante o tempo da missa e da comunhão. A conservação da hóstia consagrada fora prevista, originalmente, para levar a comunhão aos doentes e ausentes.
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Só durante a Idade Média se regista, no Ocidente, um culto dirigido mais deliberadamente à presença eucarística, dando maior relevo à adoração. No século XII é introduzido um novo rito na celebração da Missa: a elevação da hóstia consagrada, no momento da consagração. No século XIII, a adoração da hóstia desenvolve-se fora da missa e aumenta a afluência popular à procissão do Santíssimo Sacramento. A procissão do Corpo e Sangue de Cristo é, neste contexto, a última da série, mas com o passar dos anos tornou-se a mais importante.
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Do desejo primitivo de "ver a hóstia" passou-se para uma festa da realeza de Cristo, na "Christianitas" medieval, em que a presença do Senhor bendiz a cidade e os homens.
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A "comemoração mais célebre e solene do Sacramento memorial da Missa" (Urbano IV) recebeu várias denominações ao longo dos séculos: festa do Santíssimo Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo; festa da Eucaristia; festa do Corpo de Cristo. Hoje denomina-se solenidade do Corpo e Sangue de Cristo, tendo desaparecido a festa litúrgica do "Preciosíssimo Sangue", a 1 de Julho.
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A procissão com o Santíssimo Sacramento é recomendada pelo Código de Direito Canónico, no qual se refere que "onde, a juízo do Bispo diocesano, for possível, para testemunhar publicamente a veneração para com a santíssima Eucaristia faça-se uma procissão pelas vias públicas, sobretudo na solenidade do Corpo e Sangue de Cristo" (cân 944, §1).

In AGÊNCIA ECCLESIA - (História da Igreja)

sábado, maio 17, 2008

As palavras vãs

São palavras soltas
espalhadas no chão
sem nada que as una
a não ser o sentido
de tudo o que existe
e não tem expressão

É apenas o ritmo
Em triste cadência
Sem génio ou ciência
A escrita esgotada
No espaço de um verso
Que não sabe de nada.

quinta-feira, maio 15, 2008

Um país a fingir

Eu bem tento animar-me, pensar o contrário, engano-me com o quinto império, mas não resulta, o Almada é que tinha razão – ‘o país é bonito, fica feio pôr lá portugueses’! Almada é apenas um exemplo, muitos outros se expressaram com igual desilusão e acerto. Para piorar as coisas, garantiram-me ontem que a ‘malta das naus’ nunca existiu, ou se existiu, não regressou. Há quem desespere por nova invasão fenícia, por alguém que aqui aporte, e nos submeta, a ver se ganhamos juízo e rumo! Neste desfazer pátrio, a fé já perdida mas não o humor, um parente próximo não perdoa a onda de canonizações a benefício de ‘nuestros hermanos’! Qual condestável, num último alento nacionalista, recusa a vida eterna alegando que o céu está cheio de espanhóis!
Felizmente que nem tudo são más notícias, o país recebeu com natural satisfação a boa nova de que o primeiro-ministro ía deixar de fumar! Subsiste apenas a dúvida, se Sócrates vai deixar de fumar na qualidade de chefe do governo ou de cidadão! Um assunto a desenvolver.
Noutro quadrante, a guerra do futebol promete, já se contam espingardas mas sem perder o sentido romanesco do drama! Carolina, heroína da segunda circular, garantiu em tribunal que o pérfido amante frequentou local proibido, enquanto o homem do norte, ferido na sua honra, tem almoço marcado na Assembleia da República, e imagine-se, com deputados!
Não dei a volta ao mundo, mas tenho o carro na reserva, pago o meu imposto na bomba de gazolina, regresso a casa, e durante a curta viagem discorro sobre o legalismo puritano que nos possui, religião em forma de lei e processo interminável, tão rigorosa e afinal tão propícia ao ‘pecado’ da transgressão!

segunda-feira, maio 12, 2008

“Parati”

“Estou em Parati, a uns quilómetros a sul do Rio de Janeiro, junto à costa. ‘Para ti’, ‘Para-te’ ou um nome qualquer índio, a verdade é que este é um dos locais mais maravilhosos do mundo que conheço. Talvez parecido com Korshua na Croácia mas para melhor e mais português, o que é uma enorme vantagem.
(…) Até me deu para sonhar o quinto império. A ver se vos explico o meu sonho que, não só é realizável, mas também parte de dois dados bem reais. O primeiro dado é que o Brasil é um país fantástico que importa exportar para muitos cantos do mundo. O segundo dado é que o Brasil foi possível porque Alcácer Quibir nos fez espanhóis por algum tempo na Europa, mas nós transformámos o que era espanhol em brasileiro na América. De facto não conseguimos unir a Península a nosso favor, de Sagres a Guadarrama, mas conseguimos fazer isso mesmo à escala do continente sul-americano de Natal à Rondónia. De alguma forma sofremos pelos brasileiros já que era essa a nossa obrigação de pais, mas que de outras vezes nos esquecemos de desempenhar.
Será que podemos tirar ilações para o terceiro milénio a partir destes dados seminais? Vejamos, fazemos parte da Europa e corremos riscos sérios de, por essa via, ser integrados em Espanha. Porque não aproveitamos as lições da ocupação filipina para que, com desígnio, abrasileirarmos os espaços hispânicos, anglo-saxónicos e franceses por esse mundo fora como outrora fizemos no sertão brasileiro que era espanhol por direito? Pode ser pensável, mas temos que assumir que os portugueses de agora são fundamentalmente Velhos do Restelo e que precisamos de lusófonos mais arrojados para a importante missão que temos pela frente. Para isso há que, primeiro, trazer muito mais brasileiros e outros lusófonos para Portugal para que se introduzam numa atitude de serviço por essa Europa fora. Depois, quando esses povos começarem a ter medo, os lusófonos europeus serão certamente empurrados para a América, para África, para a Oceânia e até para a Índia e para a China, quando estes países orientais e civilizados reencontrarem a enorme vantagem de misturar o arroz com o feijão, acompanhado de vinho, de boa música e bons poemas, o que só a língua portuguesa permite sem serem precisos os efeitos especiais das caras bonitas de Hollyood, o drama do dizer espanhol ou o francês em tom sussurrado e feminino. Até o mundo árabe pode ser redimido com um punhado de guineenses e árabes brasileiros.
Podem dizer que isto é de loucos mas não é por acaso que os espanhóis estão a criar dificuldades aos brasileiros no aeroporto de Madrid, no trânsito que fazem para Lisboa para aproveitarem os voos mais baratos da Ibéria. Para além do mais até a chuva que cai lá fora, por detrás das janelas e portas que conhecemos, é bonita no som, na água e no aconchego sem frio que se cria deste lado. Porque não dá-lo a todo o mundo a começar nas favelas do Rio.”

Retirado com a devida vénia do Jornal “A União” de Angra do Heroísmo, da autoria de Tomaz Dentinho.

sexta-feira, maio 09, 2008

Apito Fatal

Não é ainda o apito final, é um começo, um aviso, uma declaração de falência, o futebol luso é uma mentira, sempre foi. Esta verdade incómoda, desatada em zanga de casa de alterne, não é especialidade do norte, percorre o país de lés a lés, e seria bom que o sul sorridente entendesse o que está acontecer. Seria bom que todos percebessem que precisamos de fazer uma escolha decisiva, no futebol e no resto: ou continuamos a sustentar três fidalgotes na europa, à custa da miséria geral, ou aceitamos a nossa realidade, e em lugar de emagrecer o campeonato pedimos aos fidalgotes que façam eles dieta.
E o regime podia aproveitar para fazer também regime... de propaganda barata.

quinta-feira, maio 08, 2008

Faltam princípios, sobram leis

O governo e o parlamento, em grande azáfama, vão fabricando a teia em que se enreda a nossa insegurança! Talvez pensem que esse sentimento diminui por decreto ou proposta de lei! Tarefa inglória.
É o mesmo governo que fez aprovar a lei do aborto, no mesmo parlamento que recusou um voto de pesar pelas vítimas do Terreiro do Paço, enquanto elevava criminosos ao Panteão nacional!
É a mesma classe política que festeja em Abril a impunidade nos processos da Casa Pia e outros, com igual mensagem – vale a pena prevaricar!
Num país assim, as leis não substituem a falta de princípios, verdadeira fonte do mal, nem as estatísticas iludem a realidade, ainda que o ministro esteja convencido do contrário.
Já sabemos que a enfermidade é geral mas não podemos importar só o mal dos outros!…
E o bem?!

quarta-feira, maio 07, 2008

"Retrato de Amália"


És filha de Camões, filha de Inêz
Assassinada voz de portuguesa
Cantando a nossa imensa pequenez
Com laranjas e gomos de tristeza!
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É no claro Mondego dos teus olhos
Que se debruça o mal da nossa mágoa
Ao Tejo dos teus gestos que se acolhe
O nosso coração a pulsar água!
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Falando desatada de saudade
Choras um povo, cantas a balada
Mais bonita que soa na cidade
de Lisboa, por ti apaixonada.
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José Carlos Ary dos Santos

sábado, maio 03, 2008

O máximo divisor comum


Nestas questões partidárias que vão acontecendo e são notícia o que parece não é: Manuela Ferreira Leite pode de facto reunir algum consenso entre os barões do partido, dito social-democrata, mas se olharmos para além do nevoeiro, quem suscita maior unanimidade de pontos de vista, quem é geralmente apontado como não tendo qualquer viabilidade ou apoio, esse é Pedro Santana Lopes! Assim, com alguma sorte, e pela negativa, estou convencido que seria o único a poder unir o partido em torno dessa aversão! E se não estou a ironizar, a comunicação social até podia dar uma ajuda, prosseguindo na sua campanha contra o 'menino guerreiro' das 'trapalhadas', colocando a fasquia naquele ponto alto – nada a favor de Santana, tudo contra Santana.
Porém, curiosamente, Santana é o único dos candidatos que afirma querer mudar o rumo da política, dentro do partido e dentro do país, enquanto os outros candidatos, por certo mais credíveis, vão apresentando curriculum vitae, incluindo medalhas por serviços prestados a todos os títulos!
Mas como a classe política não está interessada em mudar de política (era só o que faltava!) também aqui Santana Lopes está completamente isolado, mantendo-se portanto como o máximo divisor comum!
A única esperança que resta aos portugueses é que tanta unidade contra o Santana acabe por dividir o partido e finalmente clarificar o espectro político partidário.

quarta-feira, abril 30, 2008

Onde é que nós íamos?!


Ah, já sei, nas maravilhas do mercado global, nas empresas repletas de engenharia financeira, sem a chatice dos trabalhadores, e nós no aconchego do condomínio fechado, esperando que a enorme 'sanzala' que (democráticamente) fabricámos nos forneça a força de trabalho, a recibo verde, e vá extraindo da terra ardente o cereal que necessitamos para comer os nossos 'croissants'!
Mas o mundo não se deixa domesticar tão facilmente, nem a mão invisível nos conduz aonde esperamos, pode dar para o torto, e quem imaginaria que em Londres uma dona de casa viesse a sofrer com o racionamento do arroz! Será só uma crise passageira, uma consequência da subida do preço do petróleo (há quanto tempo não encho o depósito do meu carro com arroz!...) ou é o princípio do fim de outra utopia! E como sonhar é fácil, talvez seja preferível sonhar com outra história já que esta nos ameaça com o pesadelo da fome!

sábado, abril 26, 2008

Uma boa oportunidade


Se houvesse um bocadinho de bom senso, disfarçavam, nem era preciso bom senso, bastava um mínimo de bom gosto e esqueciam a data, tal como a juventude a ignora e foge da política porque desconfia dos políticos!
O 25 de Abril, o 28 de Maio, o 5 de Outubro, para não ir mais atrás, com cravos ou sem cravos, são datas de guerras civis, lutas fraticidas entre portugueses, e por isso, ninguém com dois dedos de testa se lembraria de comemorar tal coisa. O que seria expectável é que no fim de cada uma destas 'revoluções', os vencedores a festejassem e os vencidos a chorassem, e depois todos a esquecessem porque a vida continua. Mas não, nesta terra a política virou propaganda, portanto, os que ganham e conquistam o poder, continuam a comemorar o facto atirando anualmente à cara do adversário os louros da sua vitória. E curiosamente, esperam que os vencidos do dia estejam contentes e abrilhantem o festejo!!!
Claro que isto não podia dar certo, e daí o ar sorumbático e comprometido dos 'convivas'. Daí a morte anunciada destas datas que a memória não retém! Ou se retém é pelos piores motivos.
Salazar, que era de facto mais esperto que os do seu tempo, neste capítulo das comemorações fez os possíveis para desvalorizar e fazer esquecer, quer o 28 de Maio, quer o cinco de Outubro. E fê-lo, não por amor à verdade, mas por razões estratégicas, para não criar cisões profundas entre os portugueses, cisões que o obrigariam mais tarde ou mais cedo a definir-se, e isso ele não queria. A sua longevidade política dependia muito (e dependeu) dessa indefinição.
Ora aqui estava, portanto, uma boa oportunidade para esta terceira república afirmar alguma superioridade sobre as anteriores, assumindo os erros cometidos, a tragédia da descolonização, podia também assinalar a virtude pelas regiões autónomas, mas de seguida encerrava definitivamente as comemorações! Que hoje só interessam a alguns, aos que herdaram o estado novo, e como justificação para se eternizarem no poder, garantindo assim os interesses anexos. Para o país estes festejos não interessam, para além de absurdos, perpetuam desconfianças, dividem em lugar de unir, e impedem que a nação se mobilize para as tarefas do futuro. E são dispendiosos.
Em suma, só inconvenientes.

sexta-feira, abril 25, 2008

Fado


Serenamente
sem aflição
ainda espero
no cabo raso
da ilusão
.
Mas diz quem sabe
que a velha nau
sem ousadia
ficou parada
na calmaria
.
Não há palavras
nem que dizer
do que sobrou
Madeira Açores
haja o que houver
.
Assim fizéramos
noutras paragens
e igual certeza
dessa maneira
bem portuguesa
.
Serenamente
por teimosia
ainda espero
no cabo raso
da utopia!

quinta-feira, abril 24, 2008

Amanhã há guerra?


Pergunta-me uma angustiada criatura! E insiste, sim, no Terreiro do Paço, por causa da extrema direita! Mas como, replico, se nem direita temos como pode haver extrema?! A guerra é contra a extrema esquerda, esclarece-me, contra a liberdade! Tento então explicar-lhe que a extrema esquerda também não existe, o que existem são arruaceiros sem qualquer cultura política, recrutados para isso mesmo, para provocarem arruaças, casos de polícia, que não se alarme em vão. E acrescento, neste país nunca há guerra, inventámos a quezília permanente para que não haja uma guerra declarada. Crimes e traições, sim, mas pela surra. A grande especialidade são revoluções de cravos e rotundas, telegrafadas posteriormente ao resto do país! Que as acata sem pestanejar e sem esperança!
Convenhamos no entanto que a situação não é famosa, o regime não tem saída, dependemos totalmente de terceiros e o custo de vida agrava-se diáriamente. Nestas condições a coisa pode tornar-se perigosa, um pequeno aumento pode riscar o fósforo! Recordem-se para o efeito as 'portagens' de Cavaco!
Só o estômago levanta este povo silencioso e pachorrento do sofá da bola!
E a conversa termina com uma pergunta maliciosa: mas estes feriados não era suposto serem dias de unidade e alegria entre os portugueses?! A que propósito vem a guerra?!
Não houve resposta.

quarta-feira, abril 23, 2008

Papéis trocados!

“O Tratado de Lisboa, tão glorificado pelo PS e pelo seu Governo, tão apoiado pelo PSD e CDS-PP, propôe a perda da soberania nacional na gestão dos recursos biológicos marinhos. Esta é também uma perda da autonomia regional. Os Açores perdem a possibilidade de decidir sobre as suas águas territoriais”, afirmou Jerónimo de Sousa nos Açores!
Fonte: Jornal Público de 21/04/08.

Resumindo, enquanto os partidos do chamado arco governamental vão entregando a Bruxelas anéis e dedos, o velho partido comunista assume posições que não envergonhariam um partido conservador português, se ele existisse!

domingo, abril 20, 2008

Oposição - uma receita caseira

É uma receita tradicional portuguesa, as mil e uma maneiras de não haver oposição, e cada época tem a sua especialidade. A receita de Abril é conhecida: - juntem-se num tacho (sem asas) dois partidos práticamente iguais, desloque-se o centro do tacho para a esquerda com os ingredientes do costume, seja em bloco, seja em povo unido, evitando assim que a direita levante cabeça, perdão, fervura. Para vigiar o tacho e o cozinhado recrute-se um chefe de cozinha num dos partidos do tacho.
Ponha-se tudo a marinar durante trinta anos!
Este prato é para ser servido à população com molho rosa ou laranja dando a impressão que são dois cozinhados diferentes, mas não são.
E a gente vai nisto!

quarta-feira, abril 16, 2008

Porquê agora?!

Se um litro de leite em Portugal custa o mesmo que um litro de leite nos países da União que têm salários mínimos que são o dobro ou o triplo do nosso (e já não falo nas reformas de miséria), então não é caso para estarmos preocupados!
Se a educação em Portugal produz os resultados que conhecemos, e não será por falta de professores ou de meios, e se a justiça prescreve, enquanto juizes e procuradores se entretêm a visionar vídeos de futebol!... Então não devemos ficar preocupados!
Se a saúde é cara, como as mais caras, e igual às piores, não será urgente ficar preocupado!
E que dizer dos políticos que transitam do estado para as empresas agradecidas! E a permanente guerrilha entre governos regionais e centrais! Onde falta um árbitro isento que assegure a confiança e a harmonia.
E a apregoada coesão nacional todos os dias posta em causa com centenas de trabalhadores portugueses a passarem a fronteira para irem trabalhar em Espanha! Incapazes que somos de solucionar a desertificação do interior do país!
Tudo concorre para a preocupação geral, e por isso, porque não se vislumbra futuro, algumas 'irmandades' começam a movimentar-se, especialmente aquelas que habitam no aparelho de estado há mais de um século, e têm, assim, as maiores responsabilidades no descalabro.
A mim interessam-me as causas, mas o preço do leite é uma consequência.

quinta-feira, abril 10, 2008

Os fins e os princípios

Está a findar uma era, um ciclo histórico, todos os sinais o confirmam, e esse estertor sente-se aqui, na ‘ocidental praia lusitana’, como se sente no mundo inteiro. Talvez que na orla atlântica, por estar mais exposta às correntes oceânicas, esse desmoronar das ideias invencíveis surja com mais intensidade que noutras latitudes. O facto é que era impensável assistir na televisão pública ao anúncio de uma ‘abertura’ (foi a expressão utilizada) entre a Igreja Católica e a Maçonaria, incluindo nessa ‘abertura’ o Grande Oriente Lusitano!
Tal como aconteceu, aquando do recente debate sobre monarquia e república, também estou à vontade para me pronunciar sobre este novo cenário, não preciso de me reciclar ou justificar apressadamente, vantagem de ter adivinhado e proposto esta ‘ultrapassagem’, mas vantagem sobretudo por me rever na tradição da Lusitana Antiga Liberdade, e como tal, nunca ter poupado críticas à Maçonaria e à sua acção traiçoeira e nefasta para Portugal e para os portugueses. Pode dizer-se que é ela a grande responsável pela situação de decadência permanente em que vivemos, nunca abrindo mão da chamada ‘educação pública’ (que manteve no tempo de Salazar!) fórmula ideal para embrutecer gerações e gerações de estudantes com propaganda anti-católica e anti-monárquica. Compreendemos agora melhor o ‘estudante telemóvel’, ateu, ignorante e malcriado, como também compreendemos os ‘professores’ que desfilam e insultam a hierarquia, um esplêndido exemplo para a pequenada! Esta questão do ensino será por certo um dos pontos de clivagem (e a discutir), tal como sugeriu Dom Carlos Azevedo, porta-voz da Conferência Episcopal, que não evitou criticar também a Igreja Católica pelo seu silêncio (e cumplicidade) durante a segunda república.
Portanto, é bom que as coisas fiquem claras, se agora, face à derrocada eminente do regime, chegou o momento da Maçonaria pensar primeiro na Pátria do que nos seus interesses ocultos, pois então que haja abertura.
Assim a hierarquia Católica saiba estar à altura deste compromisso histórico.

terça-feira, abril 08, 2008

Lavandaria nacional

Começo com uma adivinha – qual é coisa qual é ela que usa detergente verde rubro, cheira a papel de jornal e limpa a seco qualquer nódoa que possa sujar o bom nome dos clubes da segunda circular?! Não faz mal se não adivinharam. Vem isto a propósito da notícia do jornal Record, notícia de primeira página, em toda a sua largura, e com letras garrafais: “Rui Costa inocente”! E eu perguntei aos meus botões – mas inocente de quê?! Sabemos que alguns dirigentes do Benfica digeriram mal o empate no Bessa; sabemos também que houve desaguizados no túnel que dá acesso aos balneários; e a própria televisão deu conta que um dos mais inconformados era precisamente Rui Costa; portanto, nada mais natural que o capitão benfiquista estivesse envolvido nos acontecimentos cuja gravidade não sabemos qual é, a não ser que o sucedido venha a constar de algum relatório oficial. Até aqui tudo normal.
O que não é normal é esta preocupação doentia de retirar logo do centro das responsabilidades o nome de Rui Costa, como se pertencesse a uma casta (ou a um conjunto de interesses) acima de qualquer suspeita! Mal ‘acomparado’ faz-me lembrar a impossibilidade que parece existir no nosso país que os deputados, pelo facto de serem deputados, ou ministros, não possam ser acusados de pedofilia ou suspeitos de algum crime! Triste terra, inferior e subserviente, incapaz de fazer justiça com igual peso e medida, quer se trate de gente vulgar ou de alguém com poder.
Rui Costa é provávelmente o menos culpado nesta história, história onde nem sequer existem ainda culpados ou inocentes.

segunda-feira, abril 07, 2008

Aconteceu há dez anos!

Quando a carrinha branca parou na berma da estrada, como nos velhos filmes de aventuras, eu já sabia que o meu destino podia mudar naquele momento. Drogados, era tudo o que me esperava no fim da curta viagem, um mundo desconhecido, gente de outro planeta, em recuperação neste planeta, prisioneiros voluntários que não conseguiam tomar conta de si! Sou de outro tempo, do tempo das tabernas, dos pecados individuais e intransmissíveis, sem necessidade de bengalas e adjectivos, aquela lepra fazia-me confusão! Mas na altura, desempregado e desocupado, decidi aceitar o que me ofereciam, a estranha tarefa de acompanhar e vigiar, em horário nocturno, o andamento de uma comunidade terapêutica, tal era o nome destes armazéns de jovens dependentes, por certo inimagináveis pelos nossos bisavós!
Não era portanto um missionário que ali entrava, mas alguém que também precisava de virar uma página pouco propícia da sua vida, um espírito neutro, na expectativa, mas que mantinha um indiscutível ar de superioridade!
Porém, como na fábula, os vencidos acabam por assimilar os vencedores quando estes não têm tanta razão como julgam, e assim, comecei a descobrir com alguma surpresa que aquele local envenenado era afinal um bálsamo para a minha alma subitamente renascida! E maior surpresa ainda quando dei comigo a admirar a coragem daqueles resíduos humanos, erguendo-se para saírem do poço escuro em que tinham caído! Perguntava-me então, se comparado com eles, os meus parcos esforços para aperfeiçoar a minha vida valeriam de alguma coisa! E a resposta nunca era lisonjeira.
É apenas uma data, mas gostava de a assinalar no interregno porque é de interregno que se trata – cumpriram-se dez anos que levo nesta cruzada! E já não me arrependo de ter entrado naquele final de dia, naquela carrinha branca.

sexta-feira, abril 04, 2008

No banco dos réus

Parece que sim, é verdade, parece que conseguimos finalmente sentar um homem do regime, um tubarão (neste caso dragão) no banco dos réus! Estou talvez a subestimar a personagem, mais do que um homem do regime, trata-se de um homem do norte, um regionalista confesso, alguém que emergiu com a revolução dos cravos, alterando, não esqueçamos, a relação de forças entre o norte e o sul, naquilo que o país tem de mais relevante e vital – o futebol!
Até há pouco tempo isto era impensável, nem o governo permitiria tal desaforo, a própria assembleia votaria uma moção qualquer, evitando a diligência. O presidente, interpretando o sentir da nação, vetava. Como prova bastante do que afirmo, junto ao processo uma boa fotografia da final de Sevilha onde a nata do regime, a fina-flor dos políticos e da política, ladeando o agora réu, assistiu contente e feliz, a uma magnífica jogatana que acrescentou mais um castelo aos castelos da pátria! Portanto, estou de rastos, perplexo, e ao mesmo tempo contente, porque a justiça funciona e é de facto cega na verdadeira acepção da palavra. A seguir imagino o pior e o pior só pode acontecer na Madeira, quem sabe uma escuta telefónica surpreendendo uma tentativa de favorecimento de um clube local, que arrastasse consigo o governo regional e o seu bem amado líder! Afasto esta ideia e acalmo-me, isto ainda não aconteceu, voltemos pois à vaca fria porque a redenção aproxima-se.
Porém, nem tudo são rosas, relativamente dessincronizada com a justiça está a nossa federação de futebol, sempre distraída com a selecção, único e último elo comunitário, e nestas condições a tutela, ou seja o governo, também pode continuar mal na fotografia.
Termino com um assunto menor: os jornais noticiam que de acordo com dados fidedignos, nos últimos dez anos em Portugal, o fosso entre ricos e pobres duplicou. Um record na zona euro.
Hoje, sobre justiça, é tudo.

quarta-feira, abril 02, 2008

Soneto

“Auto-retrato”

Poeta é certo mas de cetineta
Fulgurante de mais para alguns olhos
Bom artesão na arte da proveta
Narciso de lombardas e repolhos

Cozido à portuguesa mais as carnes
Suculentas da auto-importância
Com toicinho e talento ambas partes
Do meu caldo entornado na infância

Nos olhos uma folha de hortelã
Que é verde como a esperança que amanhã
Amanheça de vez a desventura

Poeta de combate disparate
Palavrão de machão no escaparate
Porém morrendo aos poucos de ternura.


José Carlos Ary dos Santos

terça-feira, abril 01, 2008

“O Acordo Ortográfico”

“ Não conheço ainda, em pormenor, as regras do novo acordo ortográfico.
Como o Governo Português pediu uma moratória de 6 anos, tenho tempo para o estudar. Contudo, por muito que, eventualmente, venha a concordar com as normas concretas, há dois aspectos de princípio (por isso anteriores às normas) com que não posso concordar.

O primeiro é que, sendo nós os autores da língua, não temos nada que a acertar com outros povos a quem ensinámos primeiro e depois a adoptaram como sua. Têm eles todo o direito de a adaptarem às suas necessidades, usos e costumes e, de acordo com isso, a fazerem evoluir como evoluem todas as línguas vivas. Mas sem pretenderem que nós falemos o português como eles falam. E sem pretendermos nós que eles o falem como o português europeu.
A preocupação de afinarmos todos pelo mesmo diapasão parece-me uma atitude de subserviência perante o número de falantes e um complexo de culpa do antigo colonizador. Hoje somos todos independentes. Eles de nós e nós deles.
Não consigo imaginar a Espanha a fazer um acordo ortográfico com Cuba, a Guatemala, o Chile, o Equador ou qualquer das suas antigas colónias. Nem a pretender que lá se fale ou escreva como em Castela.
E muito menos imagino o Reino Unido a fazer acordos desse género com os Estados Unidos. Nem sequer com a Austrália ou o Canadá que ainda fazem parte da Coroa Britânica.
Porque são grandes e fortes, a Espanha, a França e a Inglaterra tratam de igual para igual, e não de cócoras, os povos a quem transmitiram a sua língua.

O segundo é que se trata do problema específico da ortografia.
O argumento mil vezes repetido de que a língua é uma realidade viva e dinâmica porque são os falantes que fazem a língua, é o protótipo do argumento pseudo-culto e, por isso, pretensioso. Porque, sendo verdadeiro, nada tem a ver com o caso vertente.
É certo que são os falantes que fazem a língua: da maneira como a falam e não como a escrevem.
Essa realidade dinâmica e viva (que não nego, antes afirmo) tem a ver com a fonética e com a sintaxe. Nunca com a ortografia.
A única maneira de respeitar a liberdade cultural com vários povos lusófonos é deixá-los falar e deixá-los escrever cada um à sua maneira: europeia, africana ou brasileira. O que, de resto, só enriquece a língua lusíada.
Por isso os acordos, além de complexados, são castradores.”

Lido no jornal católico “A Ordem”, de 27 de Março de 2008, e da autoria de M. Moura-Pacheco.

sábado, março 29, 2008

E Chaimite ali tão perto…

O corrector de texto não conhecia Chaimite, assinalou o erro, e foi preciso acrescentar ao dicionário a pequena povoação onde o Gungunhana, poderoso Régulo dos Vátuas, foi submetido por Mouzinho de Albuquerque! Acabava ali a rebelião que ameaçava Lourenço Marques e a própria soberania portuguesa em Moçambique. Tempos heróicos, e de apressada colonização, numa época em que as grandes potências europeias olhavam com cobiça o continente africano, em geral, e as colónias portuguesas em particular. Por causa disso, mas sobretudo por causa delas, sustentou-se o patriotismo popular, acusaram-se inocentes, ensaiaram-se revoluções… Passaram mais de cem anos entretanto, e entretanto enfrentámos outra guerra, provavelmente pelas mesmas razões que levaram Mouzinho a Chaimite, mas os tempos mudaram tanto que as vontades nem se reconhecem!
De visita a Moçambique, onde cumpriu serviço militar, está o Presidente Cavaco Silva numa romagem que acredito de saudade mas também de tristeza face aos sinais de miséria que se espalham por toda a parte e que o protocolo dos sorrisos oficiais não consegue disfarçar. O próprio Eusébio, que integrou a comitiva, não escondia a sua decepção, enquanto procurava nos terrenos perdidos da sua infância, a Mafalala onde aprendeu a jogar à bola! Contente e esfusiante, como se fizesse parte de outro filme, só a senhora Cavaco! E eu fico confuso, pois não sei se hei-de achar graça ou se tenha pena, por aquele voluntarismo todo, há ali qualquer coisa que não bate certo, artificial, e que se repete nestas visitas presidenciais! Um indisfarçável sentimento de perca e por isso me lembrei de Chaimite.

sexta-feira, março 28, 2008

“ O anti-clericalismo português” (I)

“É discutível se houve anti-clericalismo propriamente dito em Portugal antes de 1820. As questões entre os Reis e a Igreja (que muitas foram de D. Afonso Henriques a D. João V) eram mais disputas de privilégios e jurisdições do que posições ideológicas; era mais, por assim dizer, o direito civil contra o direito canónico e vice-versa do que uma disputa entre materialismo e idealismo.
Com a Revolução de 1820 o anti-clericalismo assume-se e define-se como tal. As Cortes Constituintes de 1822, aboliram os privilégios do clero e pouco depois, Joaquim António de Aguiar dá o segundo grande passo: a abolição das ordens religiosas, com o confisco imediato dos bens das ordens masculinas (1854) e tomando o Estado posse dos bens das ordens femininas depois da morte da última religiosa de casa. Estes factos, conjuntamente com a recusa da Santa Sé de confirmar os bispos eleitos, levaram ao rompimento das relações diplomáticas só restabelecidas em 1848.
Com a instauração do regime republicano, dá-se novo rompimento quando a República confisca todos os bens diocesanos e proíbe o uso, em público, dos “hábitos talares” e Afonso Costa promete acabar em Portugal com a religião “em duas gerações”. Deu-se depois uma reaproximação entre o Estado Português e a Igreja que só viria a completar-se e a formalizar-se com a “Concordata” em 1940.
Falo de posições oficiais. Porque o anti-clericalismo como posição pessoal permaneceu em muitos espíritos intolerantes – curiosa e paradoxalmente sobretudo entre aqueles que reivindicavam o direito à livre expressão de pensamento (Para si próprios – que não para os outros).
A revolução de 25 de Abril de 1974 teve o cuidado de ter em conta as lições do anti-clericalismo da 1ª República e absteve-se de posições anti-Igreja (se exceptuarmos casos pontuais, aliás da iniciativa pessoal de alguns revolucionários). Salgado Zenha usou mesmo uma expressão curiosa dizendo que “não se ia tirar o anti-clericalismo da naftalina” (cito de memória) e Vasco Gonçalves teve sempre o cuidado não só de não atacar a Igreja como instituição como também de pretender atrair a si alguns grupos católicos, como de resto, já vinha fazendo o Partido Comunista.
Isto é: sinceramente ou com segundas intenções, de uma maneira geral, os responsáveis do 25 de Abril tinham outras prioridades.
Trinta anos depois, consolidada a Democracia, o anti-clericalismo está de regresso em pezinhos de lã. A pretexto de manter a Democracia, de garantir a igualdade, de salvaguardar a liberdade, sem se assumir como o que é, mas, pelo contrário e paradoxalmente, em nome da liberdade religiosa, vai abolindo os símbolos da fé de muitos portugueses e preparando o caminho para proibir que – cristãos ou não – usem distintivos da sua crença.
Fé, crença, religião – só em casa. Em público os cidadãos da Democracia portuguesa não podem usar sinais que os identifiquem como crentes.
Isto é: o anti-clericalismo português é uma manifestação de fundamentalismo laicista tão primário e anti-democrático como qualquer outro.”

Lido no semanário católico “ A Ordem” de 6 de Março de 2008, e da autoria de M. Moura-Pacheco.

quarta-feira, março 26, 2008

Uma raça perigosa

Eu ainda disse para fecharem as universidades, era uma maneira de estancar a degeneração, mas ninguém me ouviu, houve até quem insinuasse que se tratava de uma manobra para acabar com a raça dos doutores, espécie protegida como se sabe.
Sugeri então que se encerrasse a escola pública mais o seu monstruoso ministério! Que não, que não podia ser, onde é que se encaixava aquela mole imensa, era o desemprego, a miséria, o país não resistia! E o que é que se fazia a tanto professor?! Admiti o excesso e recuei, mas não deixei de resmungar: - para ‘ensinarem’ que o Dom João VI tinha ‘fugido’ para o Brasil, não eram precisos tantos! Bastava um casal para perpetuar a raça! Eu bem sei que muitos estão inocentes porque os conteúdos fazem parte da propaganda do ministério… e do regime! Bem, mas não podendo ser pelas razões caritativas expostas, há que encontrar uma solução rápidamente. Eu tenho uma ideia, aliás, duas ideias, a saber: partindo das actuais características da raça, resultado de um inesperado cruzamento de um dogue com um bovino, sabendo que atacam quando estão telemóveis por perto, e preferem o piercing ao açaime, eu tentava adaptar a prevista legislação sobre raças perigosas às escolas. E quanto ao piercing, em lugar de proibir, tornava obrigatório o seu uso na orelha, mas com chip.
Se esta ideia não resultasse, avançaríamos para a outra, menos rápida mas mais radical: estou a pensar numa sábia combinação entre o aborto, a eutanásia e uns incentivos para casamentos homossexuais. E acabava-se de vez com esta raça perigosa.

terça-feira, março 25, 2008

“A cultura da tolerância”

“Uma das características da cultura dita europeia ou ocidental é a sua capacidade de convívio com outras culturas. Desde os alvores da Idade Moderna – em que se confundem (por sobreposição temporal) a descoberta de novos mundos com a redescoberta do mundo antigo dando origem ao humanismo renascentista – que assim é. A curiosidade pela cultura dos outros levou não só à sua procura como à sua aceitação.
A isto se chama tolerância cultural. Ou se quisermos a cultura da tolerância no duplo sentido do termo: cultura que é tolerante e cultura que cultiva a tolerância.
Isto significa respeito (e, repito, quantas vezes curiosidade intelectual) pelas ideias alheias – uma perspectiva caracteristicamente europeia, que viria a dar origem a um conceito também especificamente seu de que a Europa se orgulha: o conceito de Democracia.
A Democracia não é compreensível sem o conceito de tolerância; a sua própria essência é a própria tolerância. Implica respeitar as ideias do Outro mesmo quando não estamos de acordo com elas. Implica estarmos prontos para sacrificar a nossa vontade à vontade da maioria. E implica mais: implica a grande debilidade da Democracia – respeitar quem não nos respeita a nós.
O respeito do ocidente por culturas (incluindo religiões) exóticas, distantes, diferentes, e essa capacidade de lidar com a diferença é um dos sinais distintores da cultura europeia.
Por isso entendo a tolerância religiosa como um traço definidor da “personalidade colectiva” europeia e ocidental.
Inversamente parece-me aberrante o laicismo (não a laicidade) e mais ainda o anti-clericalismo no seio dessa cultura.
Juntar Democracia com laicismo – sobretudo fundamentalista – parece-me a quadratura do círculo – por incompatibilidade dos termos.
É por isso que os fundamentalismos – religiosos e anti-religiosos entre outros – são atitudes profundamente anti-culturais, primitivas, bárbaras e pouco elaboradas a despeito de máscaras eruditas que possam afivelar. E acima de tudo são profundamente anti-democráticos. Como anti-democráticos são os laicistas portugueses do tempo presente por mais que se travistam de gente culta e enrouqueçam a gritar Democracia. Ou precisamente por isso.”

Lido no semanário católico “ A Ordem”, de 28/02/08, e da autoria de M. Moura-Pacheco.

segunda-feira, março 24, 2008

Páscoa Aleluia

Aleluia

Dizem-me os sinos que repicam ao longe… que mal ouvi por preguiça,
Aleluia pelo sentido familiar destas horas, que mal senti por desleixo, aleluia por tudo, pelos amáveis sorrisos, pelas contrariedades, minúsculas se comparadas com outras que vou esquecendo… aleluia por ti, que não existes, mas que comandas a minha vida, e de uma maneira tal que me deixo ir, sem esforço, como num sonho! Aleluia, insisto, porque estamos na Páscoa e a Páscoa é o triunfo da vida sobre a morte, aleluia portanto.
Aleluia por mim, que ainda espero e não desespero!
Aleluia, disseram-me.

quarta-feira, março 19, 2008

“A cultura de raiz religiosa”

“Muitas foram e são as polémicas originadas pelo conceito de cultura. E mais ainda as que resultam da diferença entre civilização” e cultura”. Sem aqui querer reabrir a questão, sempre avançarei dois traços que como leitor de boa-vontade, me parecem comuns às várias teses.
Primeiro traço: enquanto a “civilização” é o avanço do homem sobre a matéria e sobre o mundo, a “cultura” é o avanço do homem no espírito e, consequentemente, sobre si mesmo.
Segundo traço: a cultura é uma “mundividência” e a consequente maneira de viver e agir. É não só, e primeiramente, a visão mas também a maneira como nele vivemos e a vivemos: usos, costumes e todas as formas simbólicas como a língua ou a arte.
Estes conceitos – “cultura” e “civilização” – estão infinitamente próximos um do outro, interpenetrando-se mesmo e tornando, por isso, difícil a destrinça em termos práticos. Resulta daí que a civilização influencia poderosamente a cultura e vice-versa: a cultura influencia poderosamente a civilização. Mas são diferentes. No plano teórico, visivelmente diferentes.
Neste sentido a religião é uma forma de cultura. A Teologia é uma explicação do mundo (segundo determinada visão) e da vida. Por isso mesmo daí derivam directamente as normas sobre como viver no mundo e como cumprir a vida. São as morais heterónimas que têm origem na revelação. Mais: os aspectos formais da religião – a Liturgia – fornecem-nos pistas preciosas para a investigação cultural na medida em que são sinais sensíveis de uma determinada maneira de ver o mundo e viver a vida.
Assim se compreende que determinadas culturas (para não dizer todas) estejam profundamente moldadas pela religião; e, consequentemente, as resultantes civilizações.
A cultura budista tem a sua origem na religião ensinada por Buda e deu origem a várias civilizações orientais com essa matriz comum. A cultura islâmica e respectiva civilização deriva do Alcorão e seus ensinamentos etc., etc., etc.
A cultura e civilização greco-romanas, de que nós ocidentais orgulhosamente descendemos teve, no seu trânsito temporal, um profundo e poderoso “enxerto religioso”: o cristianismo. Desde Constantino quase até hoje, o cristianismo foi a religião dominante no Ocidente. E daqui foi exportado para os novos mundos depois das descobertas portuguesas e espanholas.
Sem nunca ter originado Estados teocráticos (em que as leis da religião substituem as leis do Estado, ou em que as leis religiosas são as leis do Estado) a visão cristã do mundo e o consequente normativo moral moldaram a mentalidade de Reis, Imperadores, Senhores Feudais, Banqueiros, Mercadores, Letrados e Homens de Ciência, enfim toda a espécie de poderosos deste mundo. Mas não só: também a arraia-miúda assim pensava e agia em conformidade. Natural era portanto que as leis e outras regras de convivência social reflectissem essa mesma mundividência. Como a reflectiam também usos, costumes, hábitos, ates, etiquetas e todas as mundividências do trabalho ou da convivência. Mesmo os raros não crentes e os menos raros “homens de pouca fé” pautavam os seus juízos e as suas práticas por todo um corpo de doutrina cristão. Mesmo sem pensar nele e não relacionando, as mais das vezes, as suas práticas com os longínquos ensinamentos de Cristo.
Curiosamente, as primeiras vozes anti-cristãs da Europa são, sem o saberem, moldadas por ideais cristãos A famosa tríade “Liberdade, Igualdade, Fraternidade” – tão republicana, tão (aparentemente) laica, tão anti-antigo regime, tão anti-clerical – era absolutamente impossível antes de Cristo. Ninguém na Civilização greco-romana toleraria estes três conceitos. Nem considerados um por um e muito menos considerados como um conjunto.
Todas as “réplicas” da Revolução Francesa – as francesas e as outras, incluindo as nossas – mais assumida ou mais veladamente se apresentaram como anti-Papa, anti-clericais, anti-religião ou mesmo anti-Cristo. E, paradoxalmente, todas tinham por base um pensamento cristão que usavam como bandeira: a ideia de igualdade entre os homens e da sua obrigação de fraternidade. Quanto a liberdade, era isso que os fazia iguais perante Deus.
Foi assim entre nós em 1820. Foi assim, mais tarde em 1910. É a matriz cristã da cultura europeia que move estes revolucionários Mesmo quando se movem contra a Igreja ou contra os cristãos.
É ainda assim hoje no fundamentalismo laicista (mais polido, mais envernizado, mais politicamente correcto, mas mais hipócrita) do Portugal dos primórdios do sec. XXI. É em nome do conceito cristão de igualdade que negam a liberdade de cada um afirmar a sua Fé.
Ao fazê-lo, entre outros atentados de natureza cívica, longos de enumerar, estão a cometer um atentado contra a cultura.
Os costumes e as tradições do povo português são cultura. A sua cultura – a cultura portuguesa.
Atentar contra a tradição de um povo é atentar contra a sua cultura, contra o seu património cultural imaterial.
Quando os governantes enchem a boca e a propaganda de “cultura” e de “qualificação de portugueses” seria bom que tivessem a cultura e a qualificação suficientes para saberem que estão a atentar contra a cultura quando proíbem usos, tradições ou símbolos religiosos.

Texto de M. Moura-Pacheco publicado no semanário católico “A Ordem”, de 21/02/2008.

terça-feira, março 18, 2008

“A Tradição e a Cultura”

“A tradição faz parte da cultura de um povo. É o chamado património cultural imaterial.
Paradoxalmente, os agentes culturais dividem-se em dois campos antagónicos no que à tradição diz respeito.
Há aqueles que em nome da cultura sacralizam a tradição querendo-a intocável, inatacável e absoluta. Do outro lado há os que vêem a tradição como anti-cultura, a força do imobilismo, o grande obstáculo à criatividade e à inovação; e alguns destes vão mesmo mais longe julgando que qualquer atentado à tradição pode ser considerado como acto cultural.
Felizmente, entre estas duas poderosas hostes há uma pequena força que se opôe a qualquer delas e, como tal, tem nelas dois formidáveis inimigos que a esmagam em poderosa tenaz. Referimo-nos àqueles para quem a tradição é um valor cultural estimável e respeitabilíssimo mas não sagrado nem intocável; para quem a inovação não é herética nem anti-tradição; para quem a tradição se auto-inova dia a dia.
É nesta capacidade de inovar a tradição que se situa o valor cultural da tradição; e é aqui que reside a sua respeitabilidade que devemos defender a todo o custo de visões simplistas e unilaterais.
Quem da tradição tem uma visão crítica sabe esta verdade: que há tradições boas e más, as que são respeitáveis e as que o não são. Nesta perspectiva, é sempre tempo de deixar esmorecer ou mesmo abandonar uma tradição que o tempo e o lugar já não justificam (isto é, já não têm valor cultural) e é sempre tempo de dar origem a novas tradições ou renovar ainda outras.
Aliás, a tradição é de sua natureza auto-regeneradora. “Traditio” é o que transita no tempo, de geração para geração, adaptando-se ao tempo, a novas solicitações e motivações, mudando por isso, a sua forma. Assim, a tradição não é rigida nem fixista: é evolutiva. E se não evolue, morre, deixa de ser tradição para ser recordação.
Para ser valor cultural a tradição deve ser aquilo que é: evolução livre ao longo do tempo. Se forçada – passa a ser um artifício e uma mentira sem qualquer valor culural. E o seu destino, invariávelmente, é a morte.
Ora o peso da religião na tradição é, por isso mesmo, um valor não negligenciável na cultura. Do mesmo modo que a cultura condiciona o modo de ver e viver a religião. Como veremos em próxima crónica.”

In semanário católico “A Ordem”, da autoria de M. Moura-Pacheco.

quinta-feira, março 13, 2008

“O Fundamentalismo laicista (3) ”

"O Laicismo

Chama-se laicidade à separação entre a Igreja e o Estado. Cada uma destas instituições tem as suas normas e leis próprias independentes uma da outra, sem que isso signifique qualquer antagonismo. Pode mesmo haver entendimento e cooperação, regulados através de tratados vulgarmente chamados de “Concordatas”.
Assim sendo, um Estado laico estabelece as suas próprias leis não as subordinando às leis de qualquer Igreja. Inversamente um Estado teocrático faz suas as leis da religião dominante do país.
Em si mesma a laicidade não significa qualquer animosidade perante a religião mas apenas uma separação de águas que, sem prejudicar qualquer religião, permite, contudo, estabelecer o carácter temporal do Estado, independente das Igrejas ou de qualquer outro tipo de poder religioso (cf. Con. Vat. II Const. Gaudium et Spes, nº74, 76). Há mesmo autores católicos que afirmam que face a esta característica de laicidade, o Estado não deve ter “religião estatal” própria, deve mesmo ser a-religioso (mas não anti-religioso) pois a religião cai fora da sua esfera de acção que é meramente temporal. Isto não impede que governantes e legisladores façam reflectir na sua acção política as suas ideias moldadas por um credo a que pertençam.
Se é verdade que a laicidade impede a intervenção da Igreja na vida do Estado também é verdade que impede a intervenção do Estado na vida da Igreja. Inversamente não impede um bom relacionamento, ou mesmo cooperação entre ambos.
Se esta ideia de laicidade se torna uma obsessão, se é promovida a valor supremo que a todos os outros se sobrepõe, se sobretudo se arvora em valor único, então temos a perversão do conceito, o seu efeito contraproducente, a aberração ideológica – é o laicismo.
Este não é a-religioso, mas anti-religioso. Não é neutral, é partidário. Não é a favor de uma boa relação, mas contra qualquer forma de relação ou mesmo a favor de uma relação hostil. É anti-clerical, raivoso, odiento, fanático, em resumo: é anti.
A Europa e Portugal atravessam um período de claro laicismo. Não de laicidade mas de laicismo. Nuns casos mais exacerbado, noutros mais mitigado, mas sempre de laicismo. Que como todos os “ismos” (como todas as absolutizações) é perverso.
Se a retirada dos crucifixos das escolas e hospitais estatais pode ser justificada pela laicidade (sem deixar de ser um atentado à cultura) já a proibição de escolas com nomes de santos ou de uso nas escolas de símbolos pessoais como lenços, estrelas de David ou cruzes é puro e fanático laicismo. Pois eu já vi num programa de rádio, duas “intelectuais” da nossa praça sustentar que devia ser proibido, nos edifícios do Estado, usar um lenço na cabeça, ou uma estrela de David na pulseira, ou uma cruz no fio do pescoço!
Laicismo puro e duro. Primário. Fanático. Estúpido (com a agravante de se mascarar de inteligente)). Numa só palavra laicismo fundamentalista. Com todos os atentados à liberdade."

In Semanário Católico “ A Ordem” de 31/01/08, e da autoria de M. Moura-Pacheco.

terça-feira, março 11, 2008

Interregno na TV

Escrevi há cerca de dois anos um postal a que chamei – Dia da Independência – e nele imaginava o dia em que, por causa de Portugal, da sua sobrevivência como Reino, Pátria ou Mátria, republicanos e monárquicos se haviam de entender num mínimo denominador comum, essa plataforma impossível de extinguir, e que faz a diferença entre ser e não ser português. A responsabilidade maior desse gesto caberia, segundo aquilo que senti na altura, aos republicanos uma vez que são eles que detêm o poder e foram eles que iniciaram um processo, que admitindo que se quis diferente, não trouxe a esperança nem a coesão nacional pretendidas.
O facto da realização de um programa específico para tratar de tema tão proibido e o facto não menos importante de ter contado com a participação, quer de um lado quer do outro, de personalidades com peso indiscutível, é talvez a prova de que foi esboçado um primeiro gesto na busca de um caminho novo, de uma saída para Portugal. Em vésperas de um centenário que será oportunidade histórica para o regresso à Lusitana Antiga Liberdade, não quero cultivar ilusões, nem sequer tecer críticas sobre o que gostei ou não gostei de ouvir no debate, prefiro conter-me e realçar os aspectos positivos, que os houve, não apenas para a Causa Real, mas sobretudo para o futuro dos portugueses.

domingo, março 09, 2008

Duzentos anos depois…

Enquanto os dois Silvas cavaqueavam no imponente cenário da Real Biblioteca do Rio de Janeiro, a nossa ‘cavaquita’ folheava distraidamente a sua ignorância, num livro que provavelmente dava conta do sucedido…

“… O porto encheu-se de barcos de pesca e os que queriam saudar a família real alinhavam-se no cais. Entre a multidão encontrava-se a figura franzina de Luís Gonçalves dos Santos, um padre brasileiro… que acabaria por escrever um detalhado relato da estada da família real na sua cidade natal.

“Faltavam dois minutos para as três, de uma tarde muito fresca, bela e agradável, daquele que seria para sempre um dia memorável, 7 de Março (1808), e que desde a madrugada, o próprio sol nos tinha anunciado como um dos mais afortunados para o Brasil… como se regozijaria por testemunhar a entrada triunfante do primeiro soberano da Europa na mais afortunada cidade do Novo Mundo”…
“ao som destas salvas de saudação, que podiam ser ouvidas num raio de quilómetros, e do alegre repicar dos sinos das igrejas, todos exultavam, e homens, mulheres, velhos e crianças corriam ansiosos por verem a extraordinária entrada da esquadra real.”

“No dia seguinte, a família real desembarcou. Fez-se um silêncio reverente quando o bergantim se moveu lentamente da frota para o embarcadouro. Atracou em frente da praça principal – uma clareira pavimentada a granito – que dava para a baía onde, no topo de uma rampa, tinha sido montado um altar. Chegada ao altar, a família real prostrou-se e foi aspergida por uma leve chuva de água benta. Daí, sob o palio, a comitiva caminhou numa lenta procissão, através da praça, para a catedral carmelita onde se rezava e dava graças pela conclusão bem sucedida de tão longa e perigosa viagem…”.

Louve-se, apesar de tudo, a memória dos dois países irmãos que tudo fizeram para abrilhantar a celebração deste acontecimento, e à qual faltou apenas a presença de um pai.

Fonte: Excerto da obra de Patrick Wilcken – “Império à deriva”.

sábado, março 08, 2008

Hoje é dia…

Hoje é dia de São João de Deus

O seu nome era Cidade, Montemor onde nasceu, e serviu na mocidade, por Castela se perdeu… e foi pastor e soldado, entre os grandes combateu, não tinha Deus nem cidade, mil ofícios padeceu!
Até que um dia um sermão, a cidade emudeceu – quem o ouviu foi João, que aos gritos se converteu:
- Meu senhor, Misericórdia, sou teu servo e teu irmão!
- Meu Senhor, Misericórdia, sou teu servo e teu irmão!
O seu nome era Cidade, para a cidade irrompeu... na rua, na insanidade, a miséria recolheu!
Foi assim João Cidade que o mundo então conheceu: levou Deus para a cidade, nunca mais se arrependeu!
Levou Deus para a cidade… esta cidade sem Deus.

São João de Deus é também o patrono do Vale de Acór, instituição de bem fazer que completa hoje catorze anos!
Parabéns.

sexta-feira, março 07, 2008

“O Fundamentalismo laicista (2) ”

2. Fundamentalismo

“Este vocábulo é relativamente novo na língua portuguesa.
(…) A palavra “fundamentalismo” aparece ligada a ideias religiosas. Um dos primeiros dicionários portugueses a darem-lhe honras de entrada foi o da Academia das Ciências de Lisboa que define “fundamentalismo” desta maneira: ‘Corrente religiosa, de tendências conservadoras que defende fidelidade total à interpretação literal das Escrituras’ (sublinhados nossos).
A definição está certa, mas a nosso ver, incompleta. Originariamente aplicava-se ao movimento que se desenvolveu nos círculos protestantes dos Estados Unidos da América, a seguir à Primeira Grande Guerra, em defesa dos “fundamentos” da doutrina tradicional da Reforma, particularmente o axioma da veracidade da Bíblia, interpretada literalmente. E o movimento com este nome na língua inglesa – fundamentalism – apareceu e desenvolveu-se como reacção a tendências chamadas “modernistas” de interpretação da criação do mundo e do homem, (como, por exemplo as de Darwin). Nessa época nos E.U. primeiro e no resto do mundo depois, tornou-se clássica a polémica religiosa entre “modernismo” e “fundamentalismo”, entendido este, de forma genérica, como fidelidade intransigente à interpretação tradicional protestante (ou seja) interpretação literal das Escrituras.
O vocábulo surgiu assim para designar um conceito novo, de índole caracteristicamente luterana.
Mas como todas as palavras de uma língua viva, também esta estava sujeita ao conhecido fenómeno linguístico da evolução semântica. E, a breve trecho, deixou de ser um conceito luterano para, mais genericamente, passar a ser um conceito religioso: a defesa intransigente e cega da interpretação literal e acrítica de textos sagrados de qualquer religião.
E foi assim que alguns Papas, algumas instituições ou alguns momentos históricos da Igreja Católica foram apelidados de “fundamentalistas”. Restaria saber – mas agora não nos vamos ocupar disso – se a atribuição do epíteto não resultara, ela própria, de uma visão “fundamentalista”.
O conceito foi alastrando de religião para religião e rapidamente chegou ao tão triste e assustadoramente célebre “fundamentalismo islâmico”. Mas aqui com uma força avassaladora nova: é que se trata de um “fundamentalismo” tão fundamentalista (passe a redundância) que extravasa do plano religioso para o político, na medida em que não há diferença entre lei religiosa e lei civil dado que esta é substituída por aquela, levando a que a própria sociedade civil adopte atitudes e comportamentos fundamentalistas.
Mas a evolução semântica não parou aqui nas fronteiras do religioso. E o conceito de “fundamentalismo” passou a aplicar-se a outros textos e doutrinas que nada têm de religiosos. Ou bem pelo contrário.
É assim que podemos hoje dizer que o leninismo é uma interpretação fundamentalista do marxismo. Ou que o maoísmo é, por sua vez, uma interpretação fundamentalista do marxismo-leninismo. Como é também assim que hoje se pode falar de “fundamentalismo económico” (vulgo economicismo) ou “fundamentalismo capitalista” ou “fundamentalismo liberal”. Ou no “fundamentalismo” que pode atingir qualquer doutrina: religiosa, política, filosófica, literária, artística ou moral.
Resta de tudo isto – e qualquer que seja o ângulo de abordagem – a permanência da intransigência, da interpretação literal e da ausência crítica.
Assim são adoptadas atitudes e desenvolvidos comportamentos baseados no seguimento cego e fidelíssimo de doutrinas sem atender às circunstâncias da época, às subtilezas da linguagem, à sua razão de ser, ao seu enquadramento cultural, isto é, sem a tentativa de qualquer interpretação e assimilação.
“Fundamentalismo” é, assim, a leitura primária de anteriores leituras primárias de um texto, qualquer que ele seja; e o procedimento primário que dessa leitura resulta. Nem a leitura nem o procedimento consequente beneficiam de uma centelha de inteligência, de lucidez, de subtileza, de conhecimento ou de capacidade crítica. Ou mesmo de uma gota de bondade.
Em resumo: “fundamentalismo” é o reino da estupidez. Malévola, as mais das vezes.”

Transcrito, com a devida vénia, do semanário católico “A Ordem” – nº 34 de 24/01/2008 – e da autoria de M. Moura-Pacheco.

quinta-feira, março 06, 2008

“O Fundamentalismo Laicista”

1. Introdução

“A Europa atravessa uma fase de fundamentalismo laicista.
O primeiro grande sinal – pelo menos o primeiro visível – foi a discussão sobre as origens cristãs do pensamento europeu e, consequentemente, da civilização e cultura europeias. Atitudes e comportamentos anti-cristãos, assumida ou disfarçadamente, começaram então a manifestar-se na legislação da Europa comunitária. À medida que alastra, esta mancha ideológica vai-se progressivamente radicalizando e mesmo fanatizando. O que significa dizer por outras palavras: “deseuropeizando”. Porque os radicalismos e os extremismos são a antítese do moderno pensamento europeu.
À liberdade democrática (essa, sim, verdadeiramente europeia) de não ser religioso, ou de não ser cristão, sucede-se a liberdade (profundamente anti-democrática) de atentar contra a liberdade de outros o serem.
Tudo se passa a coberto da ideia de Estado laico ou separação entre a Igreja e o Estado – o que é um princípio profundamente democrático que deixa a cada indivíduo decidir, no foro da sua consciência, o credo e respectivas normas de conduta a que quer aderir. O Estado nada lhe impõe nessa matéria. Como nessa matéria nada lhe impede. Só que esta ideia – como qualquer outra mas mais facilmente do que qualquer outra – é muito susceptível de ser prontamente subvertida e pervertida. Basta exagerar para além de todos os limites para perverter o bom em mau, o legítimo em ilegítimo, o justo no injusto. É assim que a separação entre Estado e Igreja se transforma em perseguição do Estado à Igreja, em opressão, em limitação. Raramente assumida mas sempre “civilizadamente” justificada. É a transformação do Estado Laico em Estado Laicista; é a tolerância religiosa europeia transformada no fundamentalismo laicista digno de qualquer país do terceiro mundo.

Como “bom aluno” da nascente União Europeia, Portugal não escapa a esta moda ideológica. E – como é costume dos alunos que se põem de dedo no ar para chamar a atenção do mestre para a sua perspicácia e precocidade – tenta mesmo, nesta e noutras matérias, mostrar a sua aplicação e adiantamento. Só que – parece-me – muitos portugueses não reparam. Desiludidos ou alheados da Federação nascente só darão pela ditadura ideológica mascarada de democracia de ideias quando esta lhes tolher o pensamento e a acção.
Por isso gostaria de aqui ensaiar e partilhar algumas reflexões sobre o emergente fenómeno do “fundamentalismo laicista”…”
(Continua)

Com a devida vénia, transcrevi o primeiro de vários artigos sobre o tema, publicados no jornal semanário “A Ordem”, (a partir de 17/01/2008), da autoria do seu Director – M. Moura-Pacheco.

quarta-feira, março 05, 2008

Uma decisão irresponsável

É o mínimo que se me oferece dizer sobre a infeliz e curiosa decisão da Comissão Disciplinar da Liga a propósito do ‘caso Meyong’!
Depois disto, e desde a primeira jornada deste campeonato, nenhum jogo ou resultado estão garantidos, o futebol em Portugal passou a ser um espectáculo em diferido, e os diversos intervenientes, desde os jogadores ao público, meros figurantes de um filme que não se sabe quando e como acaba! Usando menos palavras, diria que o futebol português não é credível. Com efeito, a mera possibilidade de se descobrir algum erro, doloso ou não, nos documentos oficiais que garantem a inscrição e o licenciamento de qualquer jogador, pode, pelos vistos, colocar tudo em causa, porque aqueles documentos afinal nada garantem! Descoberto o erro, seja por quem for, o clube onde o jogador actuou, passa a ser o único responsável pelas consequências do erro e perderá gentilmente na secretaria os pontos que ganhou no campo. Apenas haverá que indagar se houve dolo ou negligência por parte do dito clube para, neste último caso, lhe amenizar a pena!
Nestas condições, é preciso averiguar para que servem os documentos ‘necessários’ para a inscrição e licenciamento (são obviamente coisas diferentes) dos jogadores, para que servem os carimbos da Federação e da Liga, e se a importância cobrada por estas entidades tem o carácter de taxa, imposto ou gorjeta!
Já agora, para que servem a Federação e a Liga!
Saudações azuis.

sábado, março 01, 2008

“Com uma certa razão…”

Vasco Pulido Valente tem vindo a refinar com o tempo, o que significa que os momentos lúcidos são cada vez mais frequentes! Sobre o ‘mal-estar difuso’, que também glosei, escreve ele no jornal ‘Público’:

“ (…) Desde o princípio do século XVIII que Portugal quis ser ‘como a Europa’ e até hoje infelizmente não conseguiu. A cada revolução, a cada guerra civil, a cada regime, o indígena prestável, alfabeto, e ‘modernizante’ supunha que chegara ‘o dia’. E ‘o dia’ invariavelmente não chegava. (…) O português copiava com devoção o que via ‘lá fora’. Mas não saía da sua inferioridade e do seu atraso. No meio desta persistente desgraça, Portugal julgou três vezes que se aproximava da Europa: durante os primeiros tempos da ‘Regeneração’, durante o ‘fontismo’ e durante o ’cavaquismo’. Ao todo, trinta e tal anos de uma ordem política ‘civilizada’ e de um crescimento razoável. Mesmo assim, os fundamentos destes raríssimos milagres não eram sólidos. Nos três casos (embora com um ligeiro atraso), uma crise financeira pôs fim à festa e voltou a velha angústia nacional, a que por aí se convencionou chamar ‘mal-estar difuso’. O ‘mal-estar difuso’ é simplesmente o regresso à realidade. Portugal não tem meios para o Estado-providência e a espécie de vida que os portugueses reclamam. E como não tem, toda a gente se agita e ninguém faz nada com sentido. Esta fase também é conhecida.”

Este é um tema inesgotável e por mais voltas que a gente dê… desagua sempre no Atlântico, e eu acrescentaria, na Lusitana Antiga Liberdade, única fórmula a meu ver viável (e foi) de garantirmos a existência ou sobrevivência de um país, à partida inviável.
.
Fonte: Jornal 'Público' de 29/02/08.

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

Aulas de substituição!

Não pagamos.
Substituam o ensino, retirem-no das garras da propaganda, deste regime ou de outro, não intoxiquem as criancinhas! Deixem os livros ao critério das escolas, e as escolas ao critério dos pais, não tenham medo da diversidade, respirem fundo... Vivam! Um país à defesa é um país derrotado. Sobre os professores, que não têm culpa de ter nascido neste cativeiro, só posso repetir-me na seguinte reflexão: - "E daí se conclui, ao contrário do teorema socialista, que o ensino entregue ao Estado é sempre uma desgraça. E maior desgraça é ser utilizado para garantir um emprego no mesmo estado. No tempo da outra senhora, as academias militares (e os seminários) também foram utilizados para os mesmos efeitos, ou seja, para fins que nada tinham a ver com a vocação requerida. Os resultados eram previsíveis - perdemos Fé e Soberania."
Cabe hoje aos professores evitar que percamos sabedoria.
Mas não está fácil.

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Crisis! What crisis?!

Parece-me que era assim que se chamava um dos álbuns dos ‘Supertramp’, lembrança que me permite revisitar os meus vinte anos, vá lá, vinte e tal! Na capa, recostado numa cadeira de praia, em traje de praia, um homem tomava turisticamente uma bebida qualquer, por uma palhinha. Nada de anormal, a não ser a paisagem que o rodeava, uma espécie de lixeira! Isto lembra-me a contradição entre os discursos de Sócrates e a nossa realidade. Por exemplo, o jornal ‘Público’ publicava hoje o seguinte título: “Portugal à beira de crise social de contornos difíceis de prever, considera a Sedes” – e prossegue – “Associação alerta para falta de confiança nos políticos e presença asfixiante do Estado na sociedade”. Em letra mais miúda, resume: “O (Estado) demite-se do seu dever de isenta regulação, para desenvolver duvidosas articulações com interesses privados, que deixam um perigoso rasto de desconfiança”. Ora bem, independentemente da credibilidade que queiramos atribuir àquela Associação, o que ela diz todos nós sabemos, todos nós sentimos esse “difuso mal-estar”, a “degradação da confiança no sistema político”; os “sinais de crise nos valores”, e da minha lavra, uma comunicação social domesticada, afunilada; a criminalidade que aumenta ao ritmo da impunidade, sinónimo de injustiça, que é a pior das doenças do Estado.
No extremo oposto, aparece o primeiro-ministro, optimista, com ou sem fato de treino, a reclamar progressos, melhorias, incentivando os portugueses a deixarem-se ‘modernizar’ por ele, o grande timoneiro que nos há-de arrancar das trevas!
Mas como é que podemos ter confiança no sistema político, e neste governo, quando numa questão tão delicada quanto óbvia, refiro-me aos aviões que terão aterrado em Portugal a caminho de Guantanamo, a primeira palavra que se ouve de Sócrates é um não, a que se acrescenta uma caricata justificação - “não temos razões para acreditar nessa possibilidade”!
Enfim, continuamos com os ‘supertramp’, de óculos escuros e palhinha, refastelados na lixeira!

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Serviço Público

Nem sempre temos a noção da importância dos nossos gestos, muitas coisas fazemos, distraidamente, sem medir o alcance, que acabam por ser úteis, por servir a alguém, e só por isso são úteis, não é evidentemente o caso de alguns textos que de propósito publico no interregno, palavras dos outros, estruturadas e estruturantes, a que voltamos sempre porque têm valor, são tinta permanente que todos podem ler, de que todos podemos beneficiar, ficam para além das escolhas acessórias que salutarmente nos dividem.
A Evocação do Terreiro do Paço é um desses trechos que poderia permanecer, sem temer confronto, junto de outros, e cito de memória, a conversão de António Sardinha, pelo próprio, as quatro repúblicas e a monarquia, de Barrilaro Ruas, a eterna poesia de Torga e esse monumento épico a Maggiollo de Gouveia, da autoria de Ruy Cinatti!
E será por este último que a página se vira, voltando atrás, revisitando a história, para tentar compreender o que se passa hoje em Timor. Continuando a respeitar os desígnios do poeta.

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

A Evocação do Terreiro do Paço

Senhores Duques de Bragança
Minhas Senhoras e Meus Senhores

Começo por saudar o Senhor Dom Duarte investido pela Divina Providência na responsabilidade e na honra de representar a Casa Real portuguesa e que, com igual honra, patriotismo e, sobretudo, filial espírito de fé católica, assim tem vivido.

(I)

Fui convidado pelo Exmº Sr Presidente da Comissão ‘Dom Carlos 100 anos’, D. Nuno Bragança Van Uden, a tomar palavra no momento em que aqui nos juntamos para prestar homenagem ao Sr Dom Carlos, rei de Portugal, que, juntamente com seu filho, o príncipe herdeiro, o Sr Dom Luís Filipe, foram neste lugar atingidos por balas de ódio, por balas de cegueira, de injustiça e de ressentimento, como sempre capazes de levar avante uma qualquer das versões do engenho da violência.

Não o faço, obviamente, como delegado político, que não sou. Tão pouco como historiador, que de igual modo também não sou. Não trago, aliás, delegação de poderes de ninguém.

Apenas quero dar voz a um sentido da justiça e gratidão perante a memória de um rei que tem tanto de notável quanto de injustamente maltratado. Primeiro pelos seus contemporâneos, grande parte dos quais (e penso em não poucos daqueles que tinham maiores responsabilidades publicas) sem o mesmo esclarecimento e lealdade de atitudes, e posteriormente por uma historiografia que só agora parece pronta para dar do rei D. Carlos a sua real dimensão e dar dela razoável noticia perante a opinião pública. “Não há cousa que ocupe menor lugar do que um caído” dizia o grande pregador António Vieira.

Mas não posso deixar de chamar a atenção para o facto de ser um padre a pronunciar-se nesta circunstância. Significa isso que se pretendeu o testemunho de alguém chamado por Deus, Senhor da história, a dizer uma palavra que tenha tanto de verdade quanto de apelo construtivo; que sem esquecer o sangue das vítimas promova a reconciliação; que reconhecendo o passado não se fixe impotente no que é antigo; que não esqueça o honrado desafio que é ser fiel a Deus protagonizando a história hoje; que lembre que a nobreza é, antes de mais, coisa de sangue da caridade, quer dizer, coisa que tem que ver com o fluxo de fé, esperança, e amor dado hoje em empenho no combate por Cristo Rei e não a celebração atrasada e estéril de vaidades infrutíferas; e que quem assim não pensa não pensa segundo o Evangelho de Cristo.

(II)

Por isso a minha, e a nossa, sentida homenagem, a um rei patriota, de um modo tal que há cem anos escolheu passar por este lugar a descoberto por entre o povo, por entre o seu povo, porque se sabia escolhido como o primeiro com a responsabilidade de estar com o seu povo, e assim o fez em toda a sua intensa e amputada vida.
Ora falar de povo não é dar voz ás massas impessoais. Não é, tão pouco, seduzir demagogicamente, em nome dos mais desprotegidos socialmente.
Povo é a trama originária dos homens que, por condição, país e desenrolar histórico, estão unidos na vida e no destino. Povo são os homens que se encontram vinculados inquebravelmente nas suas raízes últimas e nas leis essenciais da natureza e da vida. A humanidade vista na sua condição originária: isso é o povo. Um homem tem a condição de povo quando leva em si essa totalidade. Neste sentido como não reconhecer em D. Carlos um homem do povo.
Com efeito, povo é uma realidade com uma identidade viva. O povo não imita, como o publico: conserva a própria personalidade, apropria-se do que pede emprestado e faz seu o que vem do exterior. Muitas vezes, quando o público vai ao centro comercial o povo defende a sua língua e cânticos; quando o público se distrai com o circo o povo mostra-se devoto...O público tem 150 anos; os anos do povo não se contam. O público passa, o povo é eterno. O público tem a globalização, o povo a terra. O público e o povo têm os seus epítetos. Entre nós, o público quer ser famoso e ter bem-estar; o povo é cristão e acolhe a missão que lhe é designada pela Divina Providência.
Por conseguinte, era este povo que D. Carlos sabia representar. Representar quer dizer estar presente. Significa avançar em nome de …. Pelos outros, por todos. O paradoxo da representação é lembrar os outros de um modo tal que se esquece a si mesmo. Assim Jesus Cristo, o Santo dos santos. Assim todos os santos (e nesta hora é dever lembrar, certamente, o mais nobre dos antepassados de D. Carlos, o Santo Condestável), assim os heróis que vencem a máxima lembrança de si mesmos, o orgulho e as menoridades da vaidade.

(III)

Por isso a minha, e a nossa, sentida homenagem a um rei perspicaz e com elevado sentido de Estado, face à árdua procura de servir a Pátria dentro da lei, perante partidos que pareciam o mais das vezes empenhados, sobretudo, em ampliar o seu quinhão de lucro; rei inteligente e eficaz na busca de uma outra presença internacional do seu país que protegesse os interesses da soberania territorial e que guardasse e promovesse a dignidade de Portugal;

Por isso, ainda, a minha e a nossa sentida homenagem a um rei corajoso, face à agitação das demagogias febris ágeis a publicitar contra a sua pessoa, rei corajoso face aos truques políticos organizados contra a governabilidade do Estado, rei corajoso face à face oculta de sociedades secretas votadas a boicotar e subverter o regime e que, na verdade, soube preferir o desígnio nacional às hesitações filhas de taticismos. De facto, D. Carlos expressa um entendimento da função régia que não tem origem na plutocracia, na febre do poder, em arbitrariedades ideológicas. Creio poder dizer de modo sereno que D. Carlos representa outro tipo de motivação para o exercício do poder: a vontade de servir, ou melhor ainda, a vontade de bem servir.
E foi por isso que D. Carlos não virou a cara na hora de usar autoridade. A palavra autoridade provem do latim e significa etimologicamente promover. A destruição da verdadeira autoridade não conduz a uma liberdade melhor, mas antes ao seu contrário: à coação e à violência. Com efeito, como os anos que se seguiram ao regicídio assim o provaram!

Por isso, finalmente, a minha, e a nossa, sentida homenagem a um rei nobre e distinto pelas suas qualidades pessoais, valente, ilustrado e tenaz, que amava a sua terra, que a conhecia e valorizava, pintando-a nos seus quadros com excelência, ilustrando a sua realidade com as suas aguarelas e com os seus relatórios para diversas entidades cientificas, promovendo com elevação a marca portuguesa. Homem honrado, portanto. Ora a honra é, pelo menos, não perder a identidade. Melhor, é fazer crescer a identidade, abrindo-a às melhores e mais virtuosas possibilidades que traz em si mesma.

(IV)

Enfim, o dia de hoje obriga-nos a pensar no mistério do mal, essa manifestação da liberdade fracassada, não reconciliada e irreconciliável, entropia negativa do espírito, que atira para baixo, e vai deixando consumido e destruído o tempo que lhe foi dado.
Mas o dia de hoje não reclama um ajuste de contas. É apenas um dia de memória, o que é diferente de estarmos aqui reunidos a visitar o museu da história. Porque a história, por vezes, reduz os acontecimentos apenas a curiosidades. E cito Peguy: “A história consiste essencialmente em passar ao lado do acontecimento. A memória consiste, essencialmente, por estar dentro do acontecimento, em não sair dele, em permanecer nele e reconstitui-lo por dentro…”
Com efeito, creio que é preciso uma insistência na memória face à actual cultura do esquecimento.
Na verdade, quis o Sr Dom Duarte que o dia de hoje fosse assinalado sob o signo da reconciliação. Certa vez, disse o Papa João Paulo II, ele mesmo vitima miraculosamente salva de um atentado, que “o limite imposto ao mal, cujo artífice e vítima é o homem, em última análise é a Misericórdia Divina.” E por estes dias, disse também o Papa felizmente reinante: “ O amor torna-se o critério para a decisão definitiva sobre o valor ou a inutilidade duma vida humana.” Assim, como não bendizer a Deus por este rei que amou e serviu até ao fim o seu povo!

Por isso termino a minha intervenção rezando e convidando a rezar comigo. E digo um salmo:

Deus se compadeça de nós e nos dê a Sua benção,
Resplandeça sobre nós a luz do Seu rosto.
Na terra se conheceram os Vossos caminhos
e entre os povos a Vossa salvação!
Os povos Vos louvem, ó Deus!
Todos os povos Vos louvem!
Alegrem-se e exultem as nações,
porque julgais os povos com justiça
e governais as nações sobre a terra.
Os povos Vos louvem, ó Deus,
Todos os povos Vos louvem!
A terra produziu os seus frutos.
O Senhor nosso Deus nos abençoa.
Deus nos dê a Sua benção;
e chegue o Seu temor aos confins da terra!

Oremos

Senhor nosso Deus,
Pai de misericórdia e fonte da salvação humana,
que constituístes o vosso servo Carlos rei de Portugal
e a seu filho Luís Filipe príncipe herdeiro,
dignai-Vos conceder por intercessão
da Virgem Maria, na sua Imaculada Conceição, Rainha de Portugal,
o perdão dos seus pecados,
a paz e a conversão do seu povo,
a misericórdia para com os seus inimigos,
e a bem-aventurança eterna na pátria celeste.
Por NSJC.

Autor: Padre Pedro Quintela
Lido pelo próprio no Terreiro do Paço, em 1 de Fevereiro de 2008.

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

O meu voto de pesar

Quando a assembleia da república recusa um voto de pesar pelo assassínio do Rei Mártir, que era o Chefe de Estado Constitucional na altura dos trágicos acontecimentos, isso só pode significar que o regime vigente se identifica com os criminosos, com a impunidade, e esclarece de uma vez por todas aquilo que disfarçava a todo o custo – sem este crime a república nunca se teria implantado em Portugal.
Mas também explica o impressionante registo criminal de cem anos de regime republicano: neste período foram assassinados dois chefes de estado, um candidato á chefia de estado e um primeiro-ministro! Monstruoso record, indigno de uma nação civilizada! Responsabilidades nunca existiram! Culpados também não! Provávelmente estarei a recordar aquilo que as almas mais sensíveis gostariam de esquecer, mas sem memória não existiremos como povo, sem verdade não existiremos como homens.
Reconciliação rima com perdão, mas com terroristas confessos, que ainda não se arrependeram, não há reconciliação possível.
É este o meu voto de pesar, voto de pesar por Portugal.

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Cem anos de decadência

Faz hoje cem anos que matámos o rei, o dia amanheceu solene e triste, as primeiras notícias confirmam o que esperávamos, o bastonário da ordem dos advogados cumpre os serviços mínimos para que foi eleito – interferir e descredibilizar ainda mais o processo da Casa Pia.
Há cem anos, o processo do Regicídio também se perdeu nos gabinetes da primeira república, a verdade nunca se apurou, e a impunidade venceu.
Faz hoje cem anos que perdemos o fio à meada, não admira portanto que tenhamos perdido o sentido comunitário da honra, da liberdade e da independência.
Acreditamos hoje que o crime do Terreiro do Paço, e as sucessivas (e inevitáveis) revoluções republicanas que lhe seguiram, serão as grandes responsáveis pelo atraso a que estamos votados.
Sabemos hoje, apesar da censura, da propaganda, das várias cumplicidades, que o rei foi um extraordinário estadista, que visava longe, desde logo a reforma do estado, o reforço da centralidade atlântica, a investigação e valorização dos nossos recursos marinhos, que tão bem conhecia, mas sobretudo, a defesa e o desenvolvimento dos territórios africanos que estavam à nossa guarda. Nesse sentido, o Príncipe Luís Filipe, herdeiro do trono, viajou até Àfrica naquela que foi a primeira deslocação de um membro da família real às colónias portuguesas.
Mas também sabemos que o espírito reformador do rei colidia com os interesses instalados, e na política externa, com os interesses das grandes potências, que cobiçavam as nossas colónias. Tudo isso, tudo junto, compôs o cenário do crime. Tudo isso, tudo junto, foi ganho pelo atentado.
Cem anos depois, a reforma do estado continua por fazer, o rotativismo que vivemos é o mesmo, ou pior, a justiça não funciona, e trocámos a centralidade atlântica, base secular da nossa independência, pela periferia de uma união europeia que pode falir a qualquer momento.
Com tudo isto, e tudo junto, cem anos depois, passámos de uma média nação europeia para a cauda da Europa!
Por tudo isto, faz todo o sentido, que todos juntos, evoquemos os cem anos da morte do Rei Dom Carlos.
Que esta homenagem seja o primeiro passo para reconciliação de Portugal com a sua história.

quarta-feira, janeiro 30, 2008

Terroristas e terrorismo

Andamos nós muito preocupados com o terrorismo, cheios de ‘guantanamos’ e autorizações de passagem a qualquer preço, enquanto a republicazinha que temos vai promovendo terroristas, remove-os para o Panteão Nacional, como se fosse a coisa mais natural deste mundo, como se a arte da escrita limpasse o sangue inocente derramado! E porque é mesmo uma republicazinha da treta, na impossibilidade de escamotear a verdade por mais tempo, sempre vai dizendo que o Rei barbaramente assassinado no Terreiro de Paço era afinal um estadista notável e que a sua morte terá atrasado (e dividido) irremediavelmente o país! Patético! Como patéticas têm sido as tentativas para justificar (vá lá, para explicar) o Regicídio. Por exemplo, o célebre professor Hermano Saraiva, que costuma ter opinião e tese sobre tudo, não consegue esclarecer porque é que a escola republicana nunca se interessou por ensinar aos alunos a história portuguesa, quer do século XIX, quer dos primórdios do século XX! Quanto mais não fosse para que a população conseguisse perceber o destino decadente que lhe tocou em sorte. A melhor pista que o professor Saraiva descobriu, relativamente ao silêncio temático, resume-se a um conhecido provérbio: - ‘não se fala de corda em casa de enforcado’! Mas podia ter aproveitado a ocasião para revelar o mistério que pende sobre o Processo Judicial na altura instaurado, e que por conveniência de serviço desapareceu sem deixar rasto!!! Seria uma forma de explicar o estado da justiça em Portugal, que continua incapaz de se opor à associação de malfeitores que há um século se apoderou do país! E podia também ter revelado o que sabe sobre o consentimento explícito, por parte da primeira república, em favor da construção de um obelisco à memória do Buíça e do Costa, os dois terroristas mortos na sequência dos fatídicos acontecimentos! O escândalo só terminaria durante a segunda república, com a justificação que o referido 'monumento' impedia a circulação dos carros funerários dentro do Cemitério! Esta desculpa diz tudo sobre o verdadeiro carácter do regime – medroso, hipócrita e protector de terroristas.
Que diferença... para o carácter do Rei cobardemente assassinado!