terça-feira, fevereiro 17, 2009

A minha vizinha quer casar

Por ter visto muitos filmes de cow boys a minha vizinha quer casar com o cavalo. Não é bem cavalo é uma mula mas a senhora já tem uma certa idade e não liga a esses pormenores.
Tentei dissuadi-la, já lhe expliquei que nos filmes é uma coisa e que a realidade é outra, mas não adianta, insiste, alega que estou a discriminá-la e sem mais explicações levou o assunto à dona fátima e ao seu programa de prós e contras. Que é afinal para isso que ele serve – para debater causas fracturantes, temas que o governo teime em regular e que possam distrair os portugueses dos seus problemas reais.
E assim foi, seguindo o formato habitual, convocaram-se o mesmo número de prós (os defensores do casamento da minha vizinha) e o mesmo número de contras (os que achavam que o estado não devia regular tal materia, mais os que achavam que a televisão pública deveria ter critérios mais rigorosos para gastar o dinheiro dos contribuintes, mais os que pensavam que o estado e a televisão pública deveriam reflectir os valores fundacionais, mais aqueles que acham que o casamento é uma instituição séria, fonte de vida e base da família, e ainda uns quantos que defendiam o internamento da minha vizinha, e acusavam a dona fátima, e a televisão pública, de servirem os interesses eleitoralistas do governo socialista).
Postos os contendores em igualdade de circunstâncias, foi obtido o primeiro desiderato dos defensores da minha vizinha, a saber: o seu caso não era um assunto da esfera privada mas sim um assunto de estado, e que cabia ao mesmo estado regular!
E o que a senhora reivindicava tinha afinal a grandeza dos grandes combates pela liberdade e contra a discriminação! E não faltou quem ousado e solene afirmasse que o direito da minha vizinha poderia pôr em causa, se necessário fosse, os próprios alicerces da comunidade!
Sob a imparcialíssima arbitragem da dona fátima, o debate prosseguiu, equilibrou-se, desiquilibrou-se, até à completa negação da natureza humana – para os erros da natureza cá estamos nós os homens para os corrigir!
E a minha vizinha casou com o cavalo!
Hoje em dia oiço-a relinchar infeliz, e quanto à mula, foi-se embora, disse que não foi feita para aquilo.

domingo, fevereiro 15, 2009

República de São Valentim

A jovem de seios opulentos que vive na assembleia da república anda perdida de amores por Salazar! É um clássico republicano. Para quem não saiba (e são muitos) a primeira republica (dita democrática!) não descansou enquanto não ergueu (no chão sagrado da Rotunda) uma estátua a um ditador! Ao marquez, pois claro.
Entretanto (e para retribuir o galanteio) a segunda republica sentou o António José de Almeida numa praceta das avenidas.
Mas o que nos interessa agora é este romance a prometer casório por alturas do centenário. Uma festa de família!
Entretanto o noivo aparece em tudo o que é sítio: concursos de televisão que ganha fácilmente; biografias inéditas; na pele de sedutor irresistível! Um dia talvez venhamos a descobrir que era um democrata compulsivo.
Antes assim, não se estragam duas casas.

Saudações monárquicas

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Sócrates resolve a crise

Regionalismo e casamento de homossexuais são a grande receita de Sócrates e do PS para resolverem a crise em Portugal. Uma combinação inovadora, espécie de dois em um, permite responder aos anseios amorosos de muitos portugueses e ao mesmo tempo solucionar a desertificação do interior do país. Bastando para tal encaminhar e fixar os novos casais nessas paragens ignotas. Depois é só esperar pelos frutos.
Mas não há bela sem senão! Provávelmente dessincronizado com o alcance deste projecto, o anterior ministro (socialista) da saúde ter-se-á precipitado ao fechar uma série de maternidades fronteiriças!
E agora?!...

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

O programa da cidade

Desceu hesitante pelo túnel em caracol, foi o cabo dos trabalhos para alcançar o ticket do parque de estacionamento, esticou-se, quase que saiu pela janela, estacionou finalmente e respirou fundo! Durante todo este percurso ela azucrinou-lhe os ouvidos – mais depressa… para onde é que tu vais?! Em frente. Chega-te ao parquímetro. Não há pachorra para um homem assim… Há quanto tempo não vens a Lisboa?!
Meio estonteado saiu do carro e seguiu-a até ao elevador apinhado. Subiu ao colo de desconhecidos, recompôs-se, saltou barreiras de gente, conquistou o bilhete e viu-se num filme indiano!
Antigamente era impensável ver um filme indiano! Passavam no Odeon, anunciados em grandes cartazes e contavam histórias de amor impossível. Agora já não existem filmes indianos mas filmes sobre a Índia. Onde o amor se tornou impossível!
Quem quer ser milionário?!
Este concurso universal serve de pretexto para visitarmos a realidade indiana, os tremendos contrastes de uma sociedade milenarmente estratificada, a miséria e o luxo lado a lado, onde o progresso acentuou disparidades e clivagens.
Em Munbai ou Bombaim, que foi dote oferecido aos ingleses, a vida continua incompreensível aos olhos de um ocidental! E o realizador não poupa os espectadores ao realismo da condição de milhões de seres humanos que habitam em intermináveis lixeiras como se fossem casas. E que apesar de tudo sorriem e amam. E trocariam um prémio milionário pelo sim da sua amada!
Um bom filme que escusava de acabar em arremedo de West Side Story. Mas está bem, afinal sempre é um filme indiano.
A parelha improvável ficou mesmo ao meu lado. E ela, bem mais tolerante, aconchegou-se.

sábado, fevereiro 07, 2009

A verdade

A verdade histórica não precisa que a guardem, não precisa que a imponham, que a repitam até à exaustão, e sobretudo que a defendam como se fora uma crença, um dogma, um credo. Tudo isto faz mal à verdade.
Aliás a dialéctica ensina-nos que quanto mais encarniçada for a defesa de determinada verdade, quanto mais altos os muros que a protegem, esse é o próprio sinal da sua fraqueza.
Vem a propósito o clamor levantado contra um bispo católico que ousou discordar dos termos em que é relatado o 'holocausto' dos judeus durante a segunda guerra mundial.
Segundo o prelado a dimensão da tragédia tem sido empolada distorcendo assim a verdade histórica. Tanto bastou para ser obrigado a pedir desculpas e há quem peça a sua resignação!
Por este caminho nunca encontraremos a verdade.

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Detergentes da república

Quando a nódoa ameaça deixar marcas indeléveis no regime, conhecidos agentes branqueadores entram em acção e é vê-los todos os dias a ocuparem o espaço mediático, quais glutões do ‘omo lava mais branco’!
Um dos programas de lavagem a seco mais utilizado é o ‘prós e contras’ da dona Fátima! Sempre disponível para limpar e escovar os desastres da república, eternamente grata aos seus egrégios fundadores, abre a lavandaria com gosto e convida os melhores detergentes.
Há falta do ex-Vital comunista (que faz limpezas no Público) convocou o ex-bastonário ribeirinho. Igual a si próprio (lembram-se dele a propósito da Casa Pia?!) de esfregona em punho, denuncia a conspiração, para de seguida desvalorizar a denúncia, e por fim, em desespero de causa, agita o fantasma do próximo Mussolini!
Só faltou declamar Luís XV – depois de Sócrates... o dilúvio!
Que lindo!
Mas o nosso detergente está enganado, porque há nódoas que não saem nem se conseguem disfarçar. Neste sentido, a estratégia da ‘paz podre’ apenas adia um desfecho, não o evita. E já todos percebemos que com Sócrates as coisas pioraram onde não podiam piorar – a independência do poder judicial está posta em causa. E a partir daqui tudo se desmorona – ninguém confia, ninguém acredita, ninguém investe no futuro. Uma sociedade destas está condenada, não tem futuro.

Saudações monárquicas.

domingo, fevereiro 01, 2009

D. Afonso Henriques

Pai, foste cavaleiro.
Hoje a vigília é nossa.
Dá-nos o exemplo inteiro
E a tua inteira força!

Dá, contra a hora em que, errada,
Novos infiéis vençam,
A benção como espada,
A espada como benção!


‘Mensagem’ de Fernando Pessoa

sexta-feira, janeiro 30, 2009

“O filho do meu tio”

A expressão é intrigante
Pois em família tão próxima
Não há primo tão distante!

Mas não é forte o indício
Nem a suspeita fundada
Não se assuste magistrada!

Por feliz coincidência
Seu costume é arquivar
O caso não tem ciência

E a cada rima piora…
Se querem melhor justiça
Tragam juizes de fora.

quarta-feira, janeiro 28, 2009

A república dos papagaios

Usava suspensórios coloridos
Falava no direito dos arguidos
E deu na TV a garantia:
Não há pedófilos, mas sim pedofilia!

Conversa mais conversa dia e noite
Chegou finalmente aonde queria
Bastonário popular e demagogo
A cabala p’ra salvar a confraria!

República em maré de pouca sorte
Não dispensa servidor tão diligente
Está contra o magistrado do 'freeport'
E ataca no discurso toda a gente!

Pobre terra de papalvos e doutores
De néscios imbecis desenganados
Sempre à espera de um messias salvador
Nascido num escritório de advogados!

sexta-feira, janeiro 23, 2009

Critérios de desempate

Não me vou alongar sobre o ‘goal average’, um critério de desempate como outro qualquer, perfeitamente regulamentado pela FIFA, que já o utilizou (sem dúvidas matemáticas ou existenciais) nas várias provas que organiza. É verdade que entretanto deixou de utilizar aquele critério, mas ninguém pode assegurar que não o venha a reutilizar no futuro. A única certeza que temos nesta matéria é que se a FIFA quiser voltar ao critério de desempate por ‘goal average’ escreverá isso mesmo no regulamento, ou seja – ‘goal average’!
Porém a questão que me traz a estas linhas é outra, também sobre critérios de desempate, mas aqueles que mais se aplicam em território nacional. São regras não escritas, permitindo um variado leque de interpretações, e derivam todas de um conhecido axioma nacional – na dúvida, a favor dos grandes.
Neste sentido os árbitros portugueses dispõem de um manancial de critérios de desempate que pode ir da grande penalidade marcada ao contrário, ao golo anulado ao adversário, evitando assim o empate!
Para a história ficam aqueles jogos que só terminavam quando os ‘grandes´ conseguiam desempatar!

Saudações azuis

quarta-feira, janeiro 14, 2009

Gladiadores

Pão e Circo são expressões da decadência em qualquer época e lugar e a fazer fé na gritaria que por aí vai, estamos a viver um desses momentos.
Afinal não mudámos muito, creio até que recuámos um pouco, e imagino os tempos da ‘aurea mediocridade’, as mesmas estátuas aos vivos, com a curiosidade de um novo mandamento – ‘premiai-vos uns aos outros’!
E as similitudes não se ficam por aqui - hoje, como ontem, o ‘império’ continua a preferir ‘gladiadores’ de raiz ibérica, conhecidos pela sua destreza e coragem nas artes circenses. A fama desses escravos lutadores vem de longe e sabemos que alguns foram idolatrados como deuses!
Por isso não admira que os cinco ‘artistas’ nomeados para o prémio anual da FIFA se entendessem nos dois principais idiomas peninsulares – português e castelhano. Pois não se mudam características culturais com a facilidade que muitos imaginam.
E se isto é verdade para a destreza individual , também é, infelizmente, para a menor aptidão destes povos em se organizarem colectivamente, com as consequências que neste caso se adivinham: - a fuga dos talentos em busca de outros palcos e melhores condições.
Para os conterrâneos sobra a televisão e um sentimento de desforra que Freud poderia explicar.
Eu não.

quarta-feira, janeiro 07, 2009

O partido único

Em política o que parece é, e está-me a parecer que caminhamos rápidamente para o partido único, uma fatalidade republicana como todos sabemos. Mas não se assustem porque tudo irá decorrer na melhor das democracias e com a Constituição em pano de fundo. Eu explico:
- Oficializada a crise, o chamado governo socialista propôe-se ajudar ‘todos os que precisam’, e não temos dúvidas que saberá escolher criteriosamente os alvos de tamanha generosidade.
Em primeiro lugar vem a absoluta garantia de emprego na função pública, adiando assim o necessário emagrecimento do Estado. Com esta medida acentua a desigualdade entre os portugueses mas garante a vitória nas próximas eleições. E, não menos importante, esvazia a contestação à sua esquerda.
Em segundo lugar, e pelo efeito ‘Pai Natal’, o Partido Socialista vai conquistar fácilmente ‘a direita que temos’, deixando o PSD e o CDS a ver jogar.
Nestas circunstãncias, conhecendo a artificialidade das formações partidárias e o carácter adesivo do indígena, não custa adivinhar o definhamento geral em favor da ‘união nacional socialista’. Sócrates poderá ser então uma espécie de Salazar sem botas, sem ideias, mas com alfaiate de marca.
Nesta harmónica previsão subsiste no entanto um problema, a saber: - o que este Governo Socialista pretende distribuir generosamente, não é nosso, nem sequer depende de nós. Sem contar que a pedinchice nacional é uma doença voraz.
A coisa pode não ser suficiente e isto dar para o torto.

Saudações monárquicas.

Sociedade quente e frio

Perguntava a ‘pivot’ de um telejornal qualquer: - então Sara, quanto tempo falta para o ‘pico do frio’? A enviada especial respondeu com toda a seriedade que não sabia ao certo quando o transcendente fenómeno iria ocorrer, e continuou a entrevistar uma população sorridente que saíra à rua para sentir na pele o anunciado frio da televisão!
A juntar à festa o presidente da Junta (!) mandara espalhar sal no pavimento das praças e artérias na iminência do nevão que insiste em atrasar-se!
Isto seria apenas ridículo não fosse o caso de escancarar uma sociedade infantil e robótica, telecomandada à distância.
Não senti frio, senti pena e algum receio quanto ao futuro.

domingo, janeiro 04, 2009

Gestão!

Estávamos em 2007, corria o mês de Maio, mês das flores, e o Interregno dava a notícia – Assaltos na segunda circular”!
Não era notícia, é costume arreigado, aceite, nada mais comum do que utilizar o dinheiro que é de todos para ajudar os amigos, no futebol e no resto. Sem ninguém saber, como manda a melhor caridade! Por isso não percebo a admiração do Correio da Manhã, mas percebo o meu último postal – ‘faltam-me as palavras, perdi-as algures…’!
Ainda assim pareceu-me bem começar este texto por esse vocábulo intraduzível e misterioso – GESTÃO!
Palavra de passe, como nas escritas antigas pode querer dizer tudo e nada ao mesmo tempo, é uma expressão excessiva e os excessos devem ser combatidos. Do que não tenho dúvidas é que no futuro será um insulto, um termo pejorativo.
E já me esquecia do fundo da questão – Benfica e Sporting beneficiados, a Câmara de Lisboa e o Governo sediado na mesma cidade assaltados ou violados, conforme entendam, com a particularidade de haver perfeita sintonia entre assaltantes e assaltados.
Diz o povo – ‘andam ao mesmo’.

sábado, janeiro 03, 2009

2009

Estou sem palavras, perdi-as algures, não sei ao certo, sei apenas que todos os dias inúmeras palavras são gastas a anunciar e a descrever a crise, coisa inelutável, fenómeno fora do nosso alcance ou entendimento! E ninguém se sente verdadeiramente responsável por ele! Os políticos não se enganaram na política, os economistas não se enganaram nas suas apostas, aconteceu e pronto. Um deles alvitrou no entanto que talvez fosse de reintroduzir a disciplina de filosofia nas certezas orçamentais! Aliás, a filosofia é o instrumento essencial de qualquer boa dona de casa! Que o utiliza sábiamente, por exemplo, no empadão do que sobrou ou quando se trata de fazer crescer os sonhos de bacalhau. Mas adiante, o reconhecimento de que nem tudo o que recebemos estava errado já é uma boa notícia.
E a declaração geral de inocência, hino nacional ensaiado a duas vozes em Belém e São Bento (com refrão partidário) também acaba por ser uma boa notícia.
Ficámos a saber que são irresponsáveis (já sabíamos) e que portanto não podemos contar com eles para nada.
Saudações monárquicas.

sexta-feira, dezembro 26, 2008

"S.Cristóvão"

“Mas, naquele esforço supremo toda sua vida se fora. Não podia mais. E já se sentava, exausto, numa rocha, quando o menino lhe murmurou que não parasse, que marchasse ainda, o conduzisse à casa de seu pai. E Cristóvão, arquejando, começou a trepar o íngreme caminho da serra. Uma vaga claridade errava nos altos. E as rochas, os abetos, emergiam da treva densa, que os afogara. Uma frialdade trespassava o ar — e Cristóvão tiritava, com o seu pobre saião de estamenha encharcado, que ia pingando na terra mole. E mais baixo murmurava: «Ah! meu menino! meu menino!...»
Cada vez mais escarpado, entre rochas, se empinava o caminho da serra. E Cristóvão todo curvado, com os seus cabelos caídos sobe a face e pingando, arquejava a cada passo. Subiria ele jamais até a morada do menino? E uma grande dor batia-lhe o coração, no terror de cair sem força, e a criancinha ficar ali, naquele ermo rude, entre as feras, sob a tormenta. A cada instante tinha de arrimar a mão a uma rocha, desfalecido, de se pender à ramagem de um abeto. E a claridade crescia; já, no alto dos montes, ele via palidamente alvejar a neve.
— Oh meu menino, onde é a casa de teu pai?— Mais longe, Cristóvão, mais longe...
E aquele bom gigante, agasalhando os pés do menino na dobra da pele de cabra, que o vento desmanchava, seguia com longos gemidos no caminho infindável, que mais apertava entre rochas, eriçadas de silvas enormes. Por fim, mal podia passar: as pontas das rochas rasgavam-lhe os braços, os longos espinhos atravessados, levavam-lhe a pele rude da face. E seguia! Já das feridas lhe pingava o sangue, e os olhos embaciados mal distinguiam o caminho, que parecia oscilar todo como abalado num tremor de terra. Uma luz, no entanto, mais viva, cor-de-rosa, já subia por trás das linhas dos cerros.
Mas Cristóvão parou, sem poder mais. Com o menino agarrado nos braços, ficou encostado a uma pedra, arquejando.
— Onde é a casa de teu pai?— Muito longe, Cristóvão, mais longe...
Então o bom gigante fez um prodigiosos esforço, e a cada passo, meio desfalecido, os olhos turvos, a cada instante lançando a mão para se arrimar, tropeçando, com grossas gotas de suor que se misturavam a grossas gotas de sangue, rompeu a caminhar, sempre para cima, sempre para cima. Os seus pés iam ao acaso, no desfalecimento que o tomava. Uma grande frialdade invadia todos os seus membros. Já se sentia tão fraco como a criança que levava aos ombros. E parou, sem poder, no topo do monte. Era o fim: um grande Sol nascia, banhava toda a Terra em luz. Cristóvão pousou o menino no chão, e caiu ao lado, estendendo as mãos. Ia morrer. Mas sentiu as suas grossas mãos presas nas do menino — e a terra faltou-lhe debaixo dos pés. Então entreabriu os olhos, e no esplendor incomparável reconheceu Jesus, Nosso Senhor, pequenino, como quando nasceu no curral, que docemente, através da manhã clara, o ia levando para o Céu.”
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(S. Cristovão, Eça de Queiroz, Últimas Páginas)

terça-feira, dezembro 23, 2008

Um jantar de Natal

Nos idos de oitenta começou por ser um almoço circunscrito a alguns amigos que trabalhavam na Vista Alegre e na zona do Cais do Sodré. Mais tarde e com o desmanchar da tenda, tem vindo a aglutinar-se em torno de duas raizes familiares – Pinto Basto e Figueiredo. Mantém-se assim a ressonância da Vista Alegre e reforçaram-se os laços com os Figueiredos sediados em Santo Amaro de Oeiras. Mas convém não esquecer o grande mentor destes encontros, o Francisco Quintella Gaivão, mais a sua Bé-Seguro, que vem determinando a geografia do repasto. Por isso este ano foi escolhido o Varunca, no coração de Santo Amaro, casa aprovada e a repetir no próximo ano.
Feita a história, regresso em rima ao jantar, um verdadeiro teste de amizade duradoura:
- Os temas são sempre iguais, o vinho a abrir e fechar, os piropos entremeiam com conversas de embalar, o jarrinho está vazio, há muita gente a penar! Mas o momento da noite é o Tocas a discursar! Dispara sempre em primeiro para o Quintella Manuel que normalmente devolve para o Bé ripostar. O Gaivão não é de modas e pega-se com o Figueiredo que é rápido a afinar. Entretanto sobram bocas, faltam travessas de resto, batatas e entrecosto, a mesa já está a arder e todos querem malhar! O Mexia puxa a braza, quer saber das novidades! Engulo a isca depressa com medo de me engasgar! O Xavico em meu auxílio, Tocas sobe de tom, os clientes assustam-se, vernáculo de ponta a ponta, até que alguém pede a conta!
Contas boas de fazer, entre amigos é assim, um Bom Natal para todos e não se riam de mim.

quinta-feira, dezembro 11, 2008

“Depois deles, o dilúvio”

“Para que serve este sistema de ensino? Para diminuir as desigualdades, não. Para fazer crescer a riqueza, também não.

Os professores portugueses não se cansam de nos surpreender. Há uns meses, descobrimos que já não estão à altura de impedir um aluno de usar o telemóvel durante a aula. Nas últimas semanas, porém, ei-los na rua a provar que ainda chegam para fazer recuar um governo.
A questão é inevitável: que pensar de um sistema de ensino onde os professores têm aparentemente mais força para submeter um ministério do que para manter a disciplina nas salas de aula? Que talvez não sirva para aquilo que deveria servir, mas que serve certamente para outras coisas.
Entre o telemóvel de Março e a greve de Dezembro, o actual sistema de ensino deu-se a conhecer em todo o seu esplendor. Os alunos não respeitam os professores porque sabem que, numa escola que se quer "inclusiva" a todo o custo, nada de sério lhes pode acontecer, por pior que seja o seu comportamento. Os professores, pelo seu lado, não respeitam o ministério porque percebem que o objectivo da actual equipa governamental não é transformar o sistema, mas apenas obter mais com o mesmo - e que portanto lhes basta não preencher as fichas, para tudo parar. O presente regime de ensino faz a fraqueza subir pelo sistema acima: os alunos têm a força que falta aos professores, e os professores a força que falta ao ministério. Como já toda a gente compreendeu, porque os representantes dos professores fizeram questão de explicar, a questão não é esta avaliação, mas qualquer avaliação, seja qual for o modelo, que tenha como princípio diferenciar os professores. Os líderes da resistência à avaliação têm uma ideia do que deve ser a classe profissional que dizem representar: uma massa igualitária e anónima, onde ninguém se distingue e ninguém é responsabilizado pelo resultado do seu trabalho. Os alunos abandonam a escola, falham nos exames nacionais e deixam péssima impressão nos testes internacionais? Segundo os delegados da classe docente, nada disso tem a ver com as escolas e os professores, mas com a "sociedade". É uma tese curiosa. O país, através do Estado, gasta o que tem e o que não tem no ensino. E os agentes desse ensino vêm agora confessar, na cara dos contribuintes, sem complexos, que quase não faz diferença: quem tem de aprender, aprende; e quem não tem, não aprende. As estatísticas confirmam: para se garantir êxito escolar, convém ter pais da classe média, viver nas urbanizações do litoral, e frequentar uma escola privada. Para que serve então esse sistema que, conforme nos prometeram, ia distribuir oportunidades a todos e transformar-nos numa Finlândia com sardinha assada? Para diminuir as desigualdades, não. Para fazer crescer a riqueza, também não. Serve para isto, segundo os porta-vozes dos professores: para ajudar mais de 100.000 portugueses a fazer uma experiência sociológica única - uma vida profissional sem hierarquias, sem obrigação de sucesso, e que seria talvez perfeita, não fossem os alunos e os seus telemóveis.
Durante anos, os licenciados da Europa de leste que empregámos como serventes de pedreiro deveriam ter-nos provado que as credenciais académicas, só por si, não salvam ninguém. Os nossos licenciados, porém, só ultimamente começaram a rimar com desempregados. É que, durante muito tempo, o Estado lá os foi encaixando: a uma parte, aliás, como professores. A classe docente, numerosa e relativamente bem paga, é provavelmente ela própria o principal produto do investimento na educação em Portugal: antigos estudantes dos cursos de apontamentos e fotocópias, que o engenho nacional fez multiplicar, e a quem por via do Orçamento do Estado se deu um lugar à mesa da classe média. Subitamente, eis que os Governos diminuem os lugares e o actual ministério vem com exigências que não constavam do contrato original. A tribo, como é compreensível, saiu à rua para zelar pelas suas prerrogativas ancestrais. O sistema é uma grande pescada de rabo na boca, em que a pescada tentou dar ultimamente uma dentada em si própria. A intransigência professoral expressa uma grande tentação: a tentação de todos os instalados nos "sistemas" estatais ou protegidos pelo Estado resistirem a quaisquer mudanças, na esperança de que o regime actual aguente, na forma em que o conheceram, pelo menos até ao momento de poderem escapar-se com a devida pensão de reforma. A maioria, na meia-idade, nem precisa de muito tempo. Depois, que venha tudo, até o dilúvio: já hão-de ser as gerações mais jovens a penar. No caso dos professores, ficarão assim vingados dos alunos que agora os atormentam nas aulas. No que não deixará de haver uma certa justiça.”

Rui Ramos – Historiador

Com a devida vénia in Jornal Público de 10/12/2008.

quarta-feira, dezembro 03, 2008

Asas imensas

'Nas asas de um sonho rasgaste oceanos com génio e coragem,
E num certo sentido tu foste o primeiro no fim da viagem …'

Aqui estou companheiro na hora triste da poesia, para que o poema se cumpra, e floresça lá longe nos campos verdes de esperança.
Aquele a quem fazias questão de tratar por ‘mestre’, numa singular afirmação de nobreza, não esquece as asas imensas que rasgavam os teus sonhos, órfãos, filhos de outro interregno. Lugares escondidos na alma, frases que o tempo caduca, os versos que em vão buscavas, hás-de encontrá-los agora, acabou a tua luta.

Em memória do ‘Paulo Santinho’, amigo e comentador neste interregno.