"Meus amigos,
O que vos vou contar é verdade.
Estava há dias a falar com um amigo meu nova-iorquino, que conhece bem Portugal, e que alguns de vós conheceram no Iate Clube do Porto, que chegou a fazer umas regatas em Leixões no Red Falcon...
Dizia-lhe eu à boa maneira portuguesa de “coitadinhos” : - Sabes, nós os portugueses somos pobres ....
Esta foi a sua resposta:
Manuel, como podes tu dizer que sois pobres, quando sois capaz de pagar por um litro de gasolina mais do triplo do que eu pago?
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Quando vos dais ao luxo de pagar tarifas de electricidade, de telefone móvel 80 % mais caras do que nos custam a nós nos EUA?
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Como podes tu dizer que sois pobres quando pagais comissões bancárias por serviços bancários e cartas de crédito ao triplo que nos custam nos EUA, ou quando podem pagar por um carro que a mim me custa 12.000 dólares o equivalente a 20.000? Como é que podem dar 8.000 dólares de presente ao vosso governo e nós não!
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Não te entendo.
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Nós é que somos pobres: por exemplo em New York o Governo Estatal, tendo em conta a precária situação financeira dos seus habitantes cobra somente 2 % de IVA, mais 4% que é o imposto Federal, isto é 6%, nada comparado com os 20% dos ricos que vivem em Portugal. E não contentes com estes 20% pagais ainda impostos municipais.
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Além disso, são vocês que têm “ impostos de luxo” como são os impostos na gasolina e gás, álcool, cigarros, cerveja, vinhos etc, que faz com que esses produtos cheguem em certos casos até 300 % do valor original; e outros como o imposto sobre a renda, impostos nos salários, impostos sobre automóveis novos, sobre bens pessoais, sobre bens das empresas, de circulação automóvel.
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Um Banco privado vai à falência e vocês que não têm nada com isso pagam outro, uma espécie de casino - o vosso Banco Privado quebra, e vocês protegem-no com o dinheiro que enviam para o Estado.
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Sois pobres onde Manuel?
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Um país que é capaz de cobrar o Imposto sobre Ganhos por adiantado e Bens pessoais mediante retenções, necessariamente tem de nadar na abundância, porque considera que os negócios da nação e de todos os seus habitantes sempre terão ganhos apesar dos assaltos, do saque fiscal, da corrupção dos seus governantes e autarcas. Um país capaz de pagar salários irreais aos seus funcionários de estado e de Empresas ligadas ao Estado.
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Deixa-te de merdas Manuel, sois pobres onde?
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Os pobres somos nós, os que vivemos nos USA e que não pagamos impostos sobre a renda se ganhamos menos de 3000 dólares ao mês por pessoa, isto é mais ou menos os vossos 2000 € . Vocês podem pagar impostos do lixo, sobre o consumo da água, do gás e electricidade. Aí pagam segurança privada nos Bancos, urbanizações, municipais, enquanto que nós como somos pobres nos conformamos com a segurança pública.
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Vocês enviam os filhos para colégios privados, enquanto aqui nos EUA as escolas públicas emprestam os livros aos nossos filhos prevendo que não os podemos comprar.
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Vocês não são pobres, gastam é muito mal o vosso dinheiro.
Que vou responder ao meu amigo americano?
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Por favor dêem-me sugestões."
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. Caro Manuel espero que não leve a mal a indelicadeza de ter publicado esta mensagem, mas penso que o seu amigo americano tem razão e não tem! À cautela, o melhor é continuarmos a sustentar esta corja (e este regime)... a ver se ficamos cada vez mais ricos!
sexta-feira, abril 17, 2009
quarta-feira, abril 15, 2009
O problema da matemática
Para nos distrair da crise nada melhor que a matemática! E se é para distrair ninguém melhor que o nosso presidente. Ele anda preocupado com a matemática que os portugueses não sabem! Diz que não gostamos de matemática desde pequeninos e eu pela minha parte confirmo, sempre fui avesso às grandes certezas que as ciências comportam. Nunca acertei com aquilo, talvez por preguiça mental ou falta de espaço na cabeça… sempre ocupada a sonhar!
Seja como for, se os portugueses não gostam da matemática a verdade é que a matemática também não gosta da maioria dos portugueses! E são inúmeros os exemplos desta má relação. Senão vejamos: - aos que trabalham é atribuído um vencimento mensal, que na realidade vence muito antes do fim do mês, aliás, mal chega para quinze dias! No que toca aos aumentos sabemos que são incertos e, quando acontecem, aumentam a nossa descrença na matemática: - aplicada a regra de ouro percentual, poucos portugueses percebem porque é que o fosso entre os grandes ordenados e os restantes continua a aumentar! A partir daqui por mais explicações que nos dêem é muito difícil encaixar a ideia de que as barrigas de uma minoria são muito maiores que todas as outras juntas!
É claro que esta disfunção matemática tem reflexos em tudo e assim é vulgar que um português médio (mais uma noção matemática!) recuse a realidade e procure um escape para os seus problemas: - por isso não aceita (e discute toda a semana) o resultado do jogo, se o seu clube perdeu; e pela mesma razão joga apaixonadamente no euro milhões mesmo sabendo que as hipóteses matemáticas de acertar na chave vencedora são infinitamente pequenas!
Enfim, sem distracções (como no planeta dos macacos) – o problema não é a matemática, ‘tu é que tá ganhando pouco’!
Quanto ao mais, a vida corre bem aos ‘matemáticos’ deste país.
Seja como for, se os portugueses não gostam da matemática a verdade é que a matemática também não gosta da maioria dos portugueses! E são inúmeros os exemplos desta má relação. Senão vejamos: - aos que trabalham é atribuído um vencimento mensal, que na realidade vence muito antes do fim do mês, aliás, mal chega para quinze dias! No que toca aos aumentos sabemos que são incertos e, quando acontecem, aumentam a nossa descrença na matemática: - aplicada a regra de ouro percentual, poucos portugueses percebem porque é que o fosso entre os grandes ordenados e os restantes continua a aumentar! A partir daqui por mais explicações que nos dêem é muito difícil encaixar a ideia de que as barrigas de uma minoria são muito maiores que todas as outras juntas!
É claro que esta disfunção matemática tem reflexos em tudo e assim é vulgar que um português médio (mais uma noção matemática!) recuse a realidade e procure um escape para os seus problemas: - por isso não aceita (e discute toda a semana) o resultado do jogo, se o seu clube perdeu; e pela mesma razão joga apaixonadamente no euro milhões mesmo sabendo que as hipóteses matemáticas de acertar na chave vencedora são infinitamente pequenas!
Enfim, sem distracções (como no planeta dos macacos) – o problema não é a matemática, ‘tu é que tá ganhando pouco’!
Quanto ao mais, a vida corre bem aos ‘matemáticos’ deste país.
domingo, abril 12, 2009
Páscoa
De ti quero lembrar a nobreza e a beleza que isso tem. A coragem e a desvantagem que isso traz. A vertigem e o perigo que contém. A alegria e a inveja que me faz. A paixão e a certeza da Ressurreição.
De ti hei-de lembrar-me sempre.
De ti hei-de lembrar-me sempre.
terça-feira, abril 07, 2009
Ponte Salazar
O texto é conhecido, e vem publicado numa das obras de Franco Nogueira sobre Salazar, mas vale a pena transcrevê-lo para dele retirar algumas ilações. Especulações de monárquico empedernido e não aquelas que alguns (ou muitos) esperariam.
Sobre o baptismo da ponte disse na altura Salazar:
“Vi num estudo que a Ponte tinha o meu nome. E isso não poderá ser, como expliquei ao senhor ministro das Finanças. Se não há melhor podemos chamar-lhe Ponte de Lisboa.”
Mais tarde e na companhia de Arantes e Oliveira visita a ponte a título privado e vendo o seu nome escrito em letras de bronze, pergunta: - “As letras estão fundidas no bronze ou simplesmente aparafusadas?” Porquê, indaga o ministro?! “É que se estão fundidas no bloco de bronze vão dar depois muito trabalho a arrancar…”.
A seguir à inauguração e perante o facto consumado Salazar ainda comentou: - “Teimosia do Presidente e do Ministro… mas é um erro” explicando – “Acreditem: os nomes de políticos só devem ser dados a monumentos e obras públicas cem ou duzentos anos depois da sua morte. Salvo casos de Chefes de Estado, sobretudo se estes forem reis, porque então se consagra um símbolo da Nação. Mas em se tratando de figuras políticas, como é o meu caso, então há que esperar, há que deixar sedimentar, e se ao fim de duzentos anos ainda houver na memória dos homens algum traço do seu nome ou da sua obra, então até é justo que se lhe preste homenagem.”
E concluiu apontando o indicador para a lápide em gesto de aviso: - “O meu nome ainda há-de ser retirado da ponte e por causa do que agora se fez, os senhores vão ter problemas…”.
Comentário deste interregno: - o verdadeiro Interregno poderia ter terminado se Salazar juntasse à clareza dos seus raciocínios a coerência dos seus actos. Não sendo assim, como diria um pensador que admiro, “falta a verdade de tudo isto”!
Explico: - apesar das reticências a verdade é que Salazar consentiu que a Ponte fosse baptizada com o seu nome. E na mesma linha de pensamento mesmo considerando que os reis são o verdadeiro símbolo da Nação, a verdade é que nada fez para que a Nação tivesse esse símbolo!
Sobre o baptismo da ponte disse na altura Salazar:
“Vi num estudo que a Ponte tinha o meu nome. E isso não poderá ser, como expliquei ao senhor ministro das Finanças. Se não há melhor podemos chamar-lhe Ponte de Lisboa.”
Mais tarde e na companhia de Arantes e Oliveira visita a ponte a título privado e vendo o seu nome escrito em letras de bronze, pergunta: - “As letras estão fundidas no bronze ou simplesmente aparafusadas?” Porquê, indaga o ministro?! “É que se estão fundidas no bloco de bronze vão dar depois muito trabalho a arrancar…”.
A seguir à inauguração e perante o facto consumado Salazar ainda comentou: - “Teimosia do Presidente e do Ministro… mas é um erro” explicando – “Acreditem: os nomes de políticos só devem ser dados a monumentos e obras públicas cem ou duzentos anos depois da sua morte. Salvo casos de Chefes de Estado, sobretudo se estes forem reis, porque então se consagra um símbolo da Nação. Mas em se tratando de figuras políticas, como é o meu caso, então há que esperar, há que deixar sedimentar, e se ao fim de duzentos anos ainda houver na memória dos homens algum traço do seu nome ou da sua obra, então até é justo que se lhe preste homenagem.”
E concluiu apontando o indicador para a lápide em gesto de aviso: - “O meu nome ainda há-de ser retirado da ponte e por causa do que agora se fez, os senhores vão ter problemas…”.
Comentário deste interregno: - o verdadeiro Interregno poderia ter terminado se Salazar juntasse à clareza dos seus raciocínios a coerência dos seus actos. Não sendo assim, como diria um pensador que admiro, “falta a verdade de tudo isto”!
Explico: - apesar das reticências a verdade é que Salazar consentiu que a Ponte fosse baptizada com o seu nome. E na mesma linha de pensamento mesmo considerando que os reis são o verdadeiro símbolo da Nação, a verdade é que nada fez para que a Nação tivesse esse símbolo!
Sobrelevando tudo o resto, as suas palavras revelam um homem certeiro mas profundamente descrente.
Saudações monárquicas
Saudações monárquicas
domingo, abril 05, 2009
Duas ideias patetas
Em época de crise ouvimos dizer que a Europa é pouco solidária, que cada país toma as medidas que entende sem olhar aos interesses da união europeia.
Ora bem, para além da dificuldade em identificar quais são os interesses da dita união, o que os vários governos fazem é básico: - tentam resolver os problemas internos imediatos, com um mínimo de contestação e sem pôr em risco uma futura reeleição. Tudo dentro da lógica do sistema e por isso não vejo qual é a admiração!
Só os europeístas patetas é que podiam imaginar o contrário, ou seja, que um Sócrates (não esquecer o Cavaco) ou um Sarkozy qualquer pensasse primeiro nos outros e só depois olhasse para o seu umbigo!
A segunda ideia pateta (fabricada por uns quantos para consumo universal) ‘pensa’ que a solidariedade se obtém por decreto, a partir daquele processo laborioso a que chamam vontade democrática!
Nada mais errado.
A solidariedade repousa na confiança (no poder político) e a confiança é um sentimento, não é uma ideologia ou uma razão: - existe ou não existe, ponto final.
E a não ser que queiramos produzir solidariedade a foice e martelo, o melhor é concluirmos que a união europeia é (ou foi) um negócio de ocasião.
Saudações monárquicas
Ora bem, para além da dificuldade em identificar quais são os interesses da dita união, o que os vários governos fazem é básico: - tentam resolver os problemas internos imediatos, com um mínimo de contestação e sem pôr em risco uma futura reeleição. Tudo dentro da lógica do sistema e por isso não vejo qual é a admiração!
Só os europeístas patetas é que podiam imaginar o contrário, ou seja, que um Sócrates (não esquecer o Cavaco) ou um Sarkozy qualquer pensasse primeiro nos outros e só depois olhasse para o seu umbigo!
A segunda ideia pateta (fabricada por uns quantos para consumo universal) ‘pensa’ que a solidariedade se obtém por decreto, a partir daquele processo laborioso a que chamam vontade democrática!
Nada mais errado.
A solidariedade repousa na confiança (no poder político) e a confiança é um sentimento, não é uma ideologia ou uma razão: - existe ou não existe, ponto final.
E a não ser que queiramos produzir solidariedade a foice e martelo, o melhor é concluirmos que a união europeia é (ou foi) um negócio de ocasião.
Saudações monárquicas
sábado, abril 04, 2009
Pirex
Enquanto procurava um pirex para aquecer os canelones ía ouvindo o que se passava no novo canal da TVI. Na ementa a habitual mesa redonda sobre o Freeport. Várias vozes e uma que se esganiçava na defesa do primeiro-ministro. Deixei os canelones no forno (trinta a quarenta minutos segundo as instruções) e fui ver… era ela, assanhada e descomposta - o segredo de justiça para aqui, o segredo de justiça para ali – a lenga-lenga do costume quando queremos pôr processos (e investigações) em banho-maria. Fui ver do forno, os canelones pareciam-me bem. Quem não estava bem era a Câncio – fervia de tal maneira com os outros convidados, que vi jeitos de se pegarem!
E termino com Constança: - não lembra ao careca convidar a presuntiva namorada do Sócrates para um programa (de esclarecimento) sobre o Freeport! Nem sobre o Freeport, nem sobre uma data de coisas. Incluindo habilitações académicas.
Está tudo doido! Vou mas é aos canelones que já tenho o estômago a pressionar-me!
E termino com Constança: - não lembra ao careca convidar a presuntiva namorada do Sócrates para um programa (de esclarecimento) sobre o Freeport! Nem sobre o Freeport, nem sobre uma data de coisas. Incluindo habilitações académicas.
Está tudo doido! Vou mas é aos canelones que já tenho o estômago a pressionar-me!
quarta-feira, abril 01, 2009
Um país à pressão!
Não há português que não se sinta pressionado. Desde as altas pressões do anti-ciclone, que há largos anos decidem o sol e a chuva no continente, até às baixas pressões sobre o Freeport, pode dizer-se que Portugal tomou a forma de panela prestes a rebentar! Mas não rebenta porque a malta não quer! E depois, se a pressão acaba o que é que vamos fazer! Como é que a gente se governa?! A fazer desporto?! A selecção do Queiroz está uma miséria; os penalties do Lucílio duram para um mês, se tanto! Restam as maratonas com o Sócrates! Mas daqui até que se faça uma ponte só para maratonas… não me doa a mim a cabeça. E bem precisa era… Por isso a pressão é bem-vinda. E dá de comer a um milhão de portugueses… pelo menos.
segunda-feira, março 30, 2009
Expediente de Março
Abri o calendário no mês de Março e deparei com a seguinte inscrição: - “Só porque alguém não te ama como tu queres, não significa que não te ame com todo o seu ser…”!
Quinze dias de ausência ou ‘cem anos de solidão’ vem dar no mesmo porque Gabriel Garcia Marquez pensava na diferença que nos une e não naquilo que nos separa.
E agora reparo que escrevi o meu último postal nos ‘idos de março’, data imortal que assinala a morte de César às mãos de Brutus, para o bem de Roma (da Roma democrática) segundo se disse na altura.
O calendário renova-se e o mês de Abril incita à vida, à oportunidade da vida…
A verdade é que a vida mudou. Ela muda todos os dias mas só em determinados momentos damos conta disso. Nesses momentos a realidade transforma-se (e transforma-nos) em presente e passado, e assim divididos tentamos prosseguir pelo mesmo caminho. Mas é em vão que o fazemos.
Entretanto o interregno continua, menos optimista é certo, mas continua. E se houve tempos em que vislumbrámos o seu fim (para glória do autor e descanso dos leitores) o que aí vemos não augura nada de bom. Ele há-de continuar, infelizmente, quer eu queira quer não.
E encerro o expediente com notícias do Papa, de quem mais havia de ser! Pois se não há frase que pronuncie ou ideia que exprima, que não lhe caia a ‘cristandade’ em cima! E a coisa é de tal ordem que já surgem textos humorísticos a denunciar a paranóia ocidental, melhor dito, a companhia (leia-se campanha) das judiarias ocidentais: - desta vez Bento XVI pronuncia-se sobre o tempo constatando que estava um belo dia em Roma, o que é normal para a época. Mas porque na mesma altura chovia em Bordéus tanto bastou para ser severamente criticado: - imprevidente (e egoísta), incapaz de olhar o boletim meteorológico como um todo, etc!...
Querem um conselho?!
Façam como eu que subo todos os dias ao mais alto promontório na esperança de avistar a esquadra inimiga! Que finalmente nos reconquiste, que traga um pouco de Fé à Europa e um pouco de ordem ao planeta. Tenho a certeza que os ‘infiéis’ hão-de tratar melhor o sucessor de Pedro que esta cambada ocidental.
Saudações monárquicas.
Quinze dias de ausência ou ‘cem anos de solidão’ vem dar no mesmo porque Gabriel Garcia Marquez pensava na diferença que nos une e não naquilo que nos separa.
E agora reparo que escrevi o meu último postal nos ‘idos de março’, data imortal que assinala a morte de César às mãos de Brutus, para o bem de Roma (da Roma democrática) segundo se disse na altura.
O calendário renova-se e o mês de Abril incita à vida, à oportunidade da vida…
A verdade é que a vida mudou. Ela muda todos os dias mas só em determinados momentos damos conta disso. Nesses momentos a realidade transforma-se (e transforma-nos) em presente e passado, e assim divididos tentamos prosseguir pelo mesmo caminho. Mas é em vão que o fazemos.
Entretanto o interregno continua, menos optimista é certo, mas continua. E se houve tempos em que vislumbrámos o seu fim (para glória do autor e descanso dos leitores) o que aí vemos não augura nada de bom. Ele há-de continuar, infelizmente, quer eu queira quer não.
E encerro o expediente com notícias do Papa, de quem mais havia de ser! Pois se não há frase que pronuncie ou ideia que exprima, que não lhe caia a ‘cristandade’ em cima! E a coisa é de tal ordem que já surgem textos humorísticos a denunciar a paranóia ocidental, melhor dito, a companhia (leia-se campanha) das judiarias ocidentais: - desta vez Bento XVI pronuncia-se sobre o tempo constatando que estava um belo dia em Roma, o que é normal para a época. Mas porque na mesma altura chovia em Bordéus tanto bastou para ser severamente criticado: - imprevidente (e egoísta), incapaz de olhar o boletim meteorológico como um todo, etc!...
Querem um conselho?!
Façam como eu que subo todos os dias ao mais alto promontório na esperança de avistar a esquadra inimiga! Que finalmente nos reconquiste, que traga um pouco de Fé à Europa e um pouco de ordem ao planeta. Tenho a certeza que os ‘infiéis’ hão-de tratar melhor o sucessor de Pedro que esta cambada ocidental.
Saudações monárquicas.
domingo, março 15, 2009
Vale de Acór
Que este lugar seja para ti
Um caminho novo
Que este caminho faça de ti
Um homem novo
Que este lugar te dê enfim
Paz e bonança
E que esta paz acenda em ti
A luz da esperança
Como o cativo que se liberta
Adormecido e já desperta
Homem caído que se levanta
Que ontem chorava e hoje canta
Água da fonte que não secou
Ou essa flor que não murchou
Homem ausente que diz presente
Se o coração ainda sente
Que o Vale de Acór se faça em ti
Caminho novo
E este caminho faça de ti
Um Homem Novo!
Em 8 de Março de 2009
Lembrança pelos quinze anos do 'Vale de Acór'
Um caminho novo
Que este caminho faça de ti
Um homem novo
Que este lugar te dê enfim
Paz e bonança
E que esta paz acenda em ti
A luz da esperança
Como o cativo que se liberta
Adormecido e já desperta
Homem caído que se levanta
Que ontem chorava e hoje canta
Água da fonte que não secou
Ou essa flor que não murchou
Homem ausente que diz presente
Se o coração ainda sente
Que o Vale de Acór se faça em ti
Caminho novo
E este caminho faça de ti
Um Homem Novo!
Em 8 de Março de 2009
Lembrança pelos quinze anos do 'Vale de Acór'
terça-feira, março 10, 2009
Obama dos Santos
Cada um tem o Obama que merece, ou como na regra de três simples – Obama está para o mundo assim como Eduardo dos Santos está para Portugal. E podíamos seguir a pista republicana recordando a malta de Abril – ‘nem mais um soldado nem mais um tostão para as colónias’. Precisamente o contrário do que afirmou Salazar – ‘para Angola e em força’.
Em que ficamos?
Jerónimos, Camões, Cavaco, discursos… uma grande maçada, um disfarce para escamotear a realidade omnipresente – não passamos sem as colónias e elas não passam sem nós. Se quiserem, ex-colónias… omnipresentes na mesma – nas ruas, no autocarro, nas obras, nos bancos dos hospitais, nos bancos falidos, em todos os subsídios, em número sempre crescente, tudo a assobiar para o lado, e não vêm todos porque não podem… ou não cabem!
Salazar tinha razão - ‘Portugal não é só uma nação europeia e tende cada vez mais a sê-lo cada vez menos’.
Deixemo-nos de conversas, toca a assumir o destino, porque a nossa independência e a independência de Angola dependem afinal uma da outra!
E para quem tem dúvidas sobre independência lembro o incontestável Condestável – “Pátria – é um palmo de terra defendida. A lança decidida risca no chão o tamanho do nosso coração… Eu assim fiz, surdo ás razões da força e da fraqueza… mais difícil era a empresa que a seguir comecei: já sem cota de malha, combater por outro Reino e por outro Rei!”
Em que ficamos?
Jerónimos, Camões, Cavaco, discursos… uma grande maçada, um disfarce para escamotear a realidade omnipresente – não passamos sem as colónias e elas não passam sem nós. Se quiserem, ex-colónias… omnipresentes na mesma – nas ruas, no autocarro, nas obras, nos bancos dos hospitais, nos bancos falidos, em todos os subsídios, em número sempre crescente, tudo a assobiar para o lado, e não vêm todos porque não podem… ou não cabem!
Salazar tinha razão - ‘Portugal não é só uma nação europeia e tende cada vez mais a sê-lo cada vez menos’.
Deixemo-nos de conversas, toca a assumir o destino, porque a nossa independência e a independência de Angola dependem afinal uma da outra!
E para quem tem dúvidas sobre independência lembro o incontestável Condestável – “Pátria – é um palmo de terra defendida. A lança decidida risca no chão o tamanho do nosso coração… Eu assim fiz, surdo ás razões da força e da fraqueza… mais difícil era a empresa que a seguir comecei: já sem cota de malha, combater por outro Reino e por outro Rei!”
terça-feira, fevereiro 17, 2009
A minha vizinha quer casar
Por ter visto muitos filmes de cow boys a minha vizinha quer casar com o cavalo. Não é bem cavalo é uma mula mas a senhora já tem uma certa idade e não liga a esses pormenores.
Tentei dissuadi-la, já lhe expliquei que nos filmes é uma coisa e que a realidade é outra, mas não adianta, insiste, alega que estou a discriminá-la e sem mais explicações levou o assunto à dona fátima e ao seu programa de prós e contras. Que é afinal para isso que ele serve – para debater causas fracturantes, temas que o governo teime em regular e que possam distrair os portugueses dos seus problemas reais.
E assim foi, seguindo o formato habitual, convocaram-se o mesmo número de prós (os defensores do casamento da minha vizinha) e o mesmo número de contras (os que achavam que o estado não devia regular tal materia, mais os que achavam que a televisão pública deveria ter critérios mais rigorosos para gastar o dinheiro dos contribuintes, mais os que pensavam que o estado e a televisão pública deveriam reflectir os valores fundacionais, mais aqueles que acham que o casamento é uma instituição séria, fonte de vida e base da família, e ainda uns quantos que defendiam o internamento da minha vizinha, e acusavam a dona fátima, e a televisão pública, de servirem os interesses eleitoralistas do governo socialista).
Postos os contendores em igualdade de circunstâncias, foi obtido o primeiro desiderato dos defensores da minha vizinha, a saber: o seu caso não era um assunto da esfera privada mas sim um assunto de estado, e que cabia ao mesmo estado regular!
E o que a senhora reivindicava tinha afinal a grandeza dos grandes combates pela liberdade e contra a discriminação! E não faltou quem ousado e solene afirmasse que o direito da minha vizinha poderia pôr em causa, se necessário fosse, os próprios alicerces da comunidade!
Sob a imparcialíssima arbitragem da dona fátima, o debate prosseguiu, equilibrou-se, desiquilibrou-se, até à completa negação da natureza humana – para os erros da natureza cá estamos nós os homens para os corrigir!
E a minha vizinha casou com o cavalo!
Hoje em dia oiço-a relinchar infeliz, e quanto à mula, foi-se embora, disse que não foi feita para aquilo.
Tentei dissuadi-la, já lhe expliquei que nos filmes é uma coisa e que a realidade é outra, mas não adianta, insiste, alega que estou a discriminá-la e sem mais explicações levou o assunto à dona fátima e ao seu programa de prós e contras. Que é afinal para isso que ele serve – para debater causas fracturantes, temas que o governo teime em regular e que possam distrair os portugueses dos seus problemas reais.
E assim foi, seguindo o formato habitual, convocaram-se o mesmo número de prós (os defensores do casamento da minha vizinha) e o mesmo número de contras (os que achavam que o estado não devia regular tal materia, mais os que achavam que a televisão pública deveria ter critérios mais rigorosos para gastar o dinheiro dos contribuintes, mais os que pensavam que o estado e a televisão pública deveriam reflectir os valores fundacionais, mais aqueles que acham que o casamento é uma instituição séria, fonte de vida e base da família, e ainda uns quantos que defendiam o internamento da minha vizinha, e acusavam a dona fátima, e a televisão pública, de servirem os interesses eleitoralistas do governo socialista).
Postos os contendores em igualdade de circunstâncias, foi obtido o primeiro desiderato dos defensores da minha vizinha, a saber: o seu caso não era um assunto da esfera privada mas sim um assunto de estado, e que cabia ao mesmo estado regular!
E o que a senhora reivindicava tinha afinal a grandeza dos grandes combates pela liberdade e contra a discriminação! E não faltou quem ousado e solene afirmasse que o direito da minha vizinha poderia pôr em causa, se necessário fosse, os próprios alicerces da comunidade!
Sob a imparcialíssima arbitragem da dona fátima, o debate prosseguiu, equilibrou-se, desiquilibrou-se, até à completa negação da natureza humana – para os erros da natureza cá estamos nós os homens para os corrigir!
E a minha vizinha casou com o cavalo!
Hoje em dia oiço-a relinchar infeliz, e quanto à mula, foi-se embora, disse que não foi feita para aquilo.
domingo, fevereiro 15, 2009
República de São Valentim
A jovem de seios opulentos que vive na assembleia da república anda perdida de amores por Salazar! É um clássico republicano. Para quem não saiba (e são muitos) a primeira republica (dita democrática!) não descansou enquanto não ergueu (no chão sagrado da Rotunda) uma estátua a um ditador! Ao marquez, pois claro.
Entretanto (e para retribuir o galanteio) a segunda republica sentou o António José de Almeida numa praceta das avenidas.
Mas o que nos interessa agora é este romance a prometer casório por alturas do centenário. Uma festa de família!
Entretanto o noivo aparece em tudo o que é sítio: concursos de televisão que ganha fácilmente; biografias inéditas; na pele de sedutor irresistível! Um dia talvez venhamos a descobrir que era um democrata compulsivo.
Antes assim, não se estragam duas casas.
Saudações monárquicas
Entretanto (e para retribuir o galanteio) a segunda republica sentou o António José de Almeida numa praceta das avenidas.
Mas o que nos interessa agora é este romance a prometer casório por alturas do centenário. Uma festa de família!
Entretanto o noivo aparece em tudo o que é sítio: concursos de televisão que ganha fácilmente; biografias inéditas; na pele de sedutor irresistível! Um dia talvez venhamos a descobrir que era um democrata compulsivo.
Antes assim, não se estragam duas casas.
Saudações monárquicas
quarta-feira, fevereiro 11, 2009
Sócrates resolve a crise
Regionalismo e casamento de homossexuais são a grande receita de Sócrates e do PS para resolverem a crise em Portugal. Uma combinação inovadora, espécie de dois em um, permite responder aos anseios amorosos de muitos portugueses e ao mesmo tempo solucionar a desertificação do interior do país. Bastando para tal encaminhar e fixar os novos casais nessas paragens ignotas. Depois é só esperar pelos frutos.
Mas não há bela sem senão! Provávelmente dessincronizado com o alcance deste projecto, o anterior ministro (socialista) da saúde ter-se-á precipitado ao fechar uma série de maternidades fronteiriças!
E agora?!...
Mas não há bela sem senão! Provávelmente dessincronizado com o alcance deste projecto, o anterior ministro (socialista) da saúde ter-se-á precipitado ao fechar uma série de maternidades fronteiriças!
E agora?!...
segunda-feira, fevereiro 09, 2009
O programa da cidade
Desceu hesitante pelo túnel em caracol, foi o cabo dos trabalhos para alcançar o ticket do parque de estacionamento, esticou-se, quase que saiu pela janela, estacionou finalmente e respirou fundo! Durante todo este percurso ela azucrinou-lhe os ouvidos – mais depressa… para onde é que tu vais?! Em frente. Chega-te ao parquímetro. Não há pachorra para um homem assim… Há quanto tempo não vens a Lisboa?!
Meio estonteado saiu do carro e seguiu-a até ao elevador apinhado. Subiu ao colo de desconhecidos, recompôs-se, saltou barreiras de gente, conquistou o bilhete e viu-se num filme indiano!
Antigamente era impensável ver um filme indiano! Passavam no Odeon, anunciados em grandes cartazes e contavam histórias de amor impossível. Agora já não existem filmes indianos mas filmes sobre a Índia. Onde o amor se tornou impossível!
Quem quer ser milionário?!
Este concurso universal serve de pretexto para visitarmos a realidade indiana, os tremendos contrastes de uma sociedade milenarmente estratificada, a miséria e o luxo lado a lado, onde o progresso acentuou disparidades e clivagens.
Em Munbai ou Bombaim, que foi dote oferecido aos ingleses, a vida continua incompreensível aos olhos de um ocidental! E o realizador não poupa os espectadores ao realismo da condição de milhões de seres humanos que habitam em intermináveis lixeiras como se fossem casas. E que apesar de tudo sorriem e amam. E trocariam um prémio milionário pelo sim da sua amada!
Um bom filme que escusava de acabar em arremedo de West Side Story. Mas está bem, afinal sempre é um filme indiano.
A parelha improvável ficou mesmo ao meu lado. E ela, bem mais tolerante, aconchegou-se.
Meio estonteado saiu do carro e seguiu-a até ao elevador apinhado. Subiu ao colo de desconhecidos, recompôs-se, saltou barreiras de gente, conquistou o bilhete e viu-se num filme indiano!
Antigamente era impensável ver um filme indiano! Passavam no Odeon, anunciados em grandes cartazes e contavam histórias de amor impossível. Agora já não existem filmes indianos mas filmes sobre a Índia. Onde o amor se tornou impossível!
Quem quer ser milionário?!
Este concurso universal serve de pretexto para visitarmos a realidade indiana, os tremendos contrastes de uma sociedade milenarmente estratificada, a miséria e o luxo lado a lado, onde o progresso acentuou disparidades e clivagens.
Em Munbai ou Bombaim, que foi dote oferecido aos ingleses, a vida continua incompreensível aos olhos de um ocidental! E o realizador não poupa os espectadores ao realismo da condição de milhões de seres humanos que habitam em intermináveis lixeiras como se fossem casas. E que apesar de tudo sorriem e amam. E trocariam um prémio milionário pelo sim da sua amada!
Um bom filme que escusava de acabar em arremedo de West Side Story. Mas está bem, afinal sempre é um filme indiano.
A parelha improvável ficou mesmo ao meu lado. E ela, bem mais tolerante, aconchegou-se.
sábado, fevereiro 07, 2009
A verdade
A verdade histórica não precisa que a guardem, não precisa que a imponham, que a repitam até à exaustão, e sobretudo que a defendam como se fora uma crença, um dogma, um credo. Tudo isto faz mal à verdade.
Aliás a dialéctica ensina-nos que quanto mais encarniçada for a defesa de determinada verdade, quanto mais altos os muros que a protegem, esse é o próprio sinal da sua fraqueza.
Vem a propósito o clamor levantado contra um bispo católico que ousou discordar dos termos em que é relatado o 'holocausto' dos judeus durante a segunda guerra mundial.
Segundo o prelado a dimensão da tragédia tem sido empolada distorcendo assim a verdade histórica. Tanto bastou para ser obrigado a pedir desculpas e há quem peça a sua resignação!
Por este caminho nunca encontraremos a verdade.
Aliás a dialéctica ensina-nos que quanto mais encarniçada for a defesa de determinada verdade, quanto mais altos os muros que a protegem, esse é o próprio sinal da sua fraqueza.
Vem a propósito o clamor levantado contra um bispo católico que ousou discordar dos termos em que é relatado o 'holocausto' dos judeus durante a segunda guerra mundial.
Segundo o prelado a dimensão da tragédia tem sido empolada distorcendo assim a verdade histórica. Tanto bastou para ser obrigado a pedir desculpas e há quem peça a sua resignação!
Por este caminho nunca encontraremos a verdade.
terça-feira, fevereiro 03, 2009
Detergentes da república
Quando a nódoa ameaça deixar marcas indeléveis no regime, conhecidos agentes branqueadores entram em acção e é vê-los todos os dias a ocuparem o espaço mediático, quais glutões do ‘omo lava mais branco’!
Um dos programas de lavagem a seco mais utilizado é o ‘prós e contras’ da dona Fátima! Sempre disponível para limpar e escovar os desastres da república, eternamente grata aos seus egrégios fundadores, abre a lavandaria com gosto e convida os melhores detergentes.
Há falta do ex-Vital comunista (que faz limpezas no Público) convocou o ex-bastonário ribeirinho. Igual a si próprio (lembram-se dele a propósito da Casa Pia?!) de esfregona em punho, denuncia a conspiração, para de seguida desvalorizar a denúncia, e por fim, em desespero de causa, agita o fantasma do próximo Mussolini! Só faltou declamar Luís XV – depois de Sócrates... o dilúvio!
Que lindo!
Mas o nosso detergente está enganado, porque há nódoas que não saem nem se conseguem disfarçar. Neste sentido, a estratégia da ‘paz podre’ apenas adia um desfecho, não o evita. E já todos percebemos que com Sócrates as coisas pioraram onde não podiam piorar – a independência do poder judicial está posta em causa. E a partir daqui tudo se desmorona – ninguém confia, ninguém acredita, ninguém investe no futuro. Uma sociedade destas está condenada, não tem futuro.
Saudações monárquicas.
Um dos programas de lavagem a seco mais utilizado é o ‘prós e contras’ da dona Fátima! Sempre disponível para limpar e escovar os desastres da república, eternamente grata aos seus egrégios fundadores, abre a lavandaria com gosto e convida os melhores detergentes.
Há falta do ex-Vital comunista (que faz limpezas no Público) convocou o ex-bastonário ribeirinho. Igual a si próprio (lembram-se dele a propósito da Casa Pia?!) de esfregona em punho, denuncia a conspiração, para de seguida desvalorizar a denúncia, e por fim, em desespero de causa, agita o fantasma do próximo Mussolini! Só faltou declamar Luís XV – depois de Sócrates... o dilúvio!
Que lindo!
Mas o nosso detergente está enganado, porque há nódoas que não saem nem se conseguem disfarçar. Neste sentido, a estratégia da ‘paz podre’ apenas adia um desfecho, não o evita. E já todos percebemos que com Sócrates as coisas pioraram onde não podiam piorar – a independência do poder judicial está posta em causa. E a partir daqui tudo se desmorona – ninguém confia, ninguém acredita, ninguém investe no futuro. Uma sociedade destas está condenada, não tem futuro.
Saudações monárquicas.
domingo, fevereiro 01, 2009
D. Afonso Henriques
Pai, foste cavaleiro.
Hoje a vigília é nossa.
Dá-nos o exemplo inteiro
E a tua inteira força!
Dá, contra a hora em que, errada,
Novos infiéis vençam,
A benção como espada,
A espada como benção!
‘Mensagem’ de Fernando Pessoa
Hoje a vigília é nossa.
Dá-nos o exemplo inteiro
E a tua inteira força!
Dá, contra a hora em que, errada,
Novos infiéis vençam,
A benção como espada,
A espada como benção!
‘Mensagem’ de Fernando Pessoa
sexta-feira, janeiro 30, 2009
“O filho do meu tio”
A expressão é intrigante
Pois em família tão próxima
Não há primo tão distante!
Mas não é forte o indício
Nem a suspeita fundada
Não se assuste magistrada!
Por feliz coincidência
Seu costume é arquivar
O caso não tem ciência
E a cada rima piora…
Se querem melhor justiça
Tragam juizes de fora.
Pois em família tão próxima
Não há primo tão distante!
Mas não é forte o indício
Nem a suspeita fundada
Não se assuste magistrada!
Por feliz coincidência
Seu costume é arquivar
O caso não tem ciência
E a cada rima piora…
Se querem melhor justiça
Tragam juizes de fora.
quarta-feira, janeiro 28, 2009
A república dos papagaios
Usava suspensórios coloridos
Falava no direito dos arguidos
E deu na TV a garantia:
Não há pedófilos, mas sim pedofilia!
Conversa mais conversa dia e noite
Chegou finalmente aonde queria
Bastonário popular e demagogo
Falava no direito dos arguidos
E deu na TV a garantia:
Não há pedófilos, mas sim pedofilia!
Conversa mais conversa dia e noite
Chegou finalmente aonde queria
Bastonário popular e demagogo
A cabala p’ra salvar a confraria!
República em maré de pouca sorte
Não dispensa servidor tão diligente
Está contra o magistrado do 'freeport'
E ataca no discurso toda a gente!
Pobre terra de papalvos e doutores
De néscios imbecis desenganados
Sempre à espera de um messias salvador
Nascido num escritório de advogados!
República em maré de pouca sorte
Não dispensa servidor tão diligente
Está contra o magistrado do 'freeport'
E ataca no discurso toda a gente!
Pobre terra de papalvos e doutores
De néscios imbecis desenganados
Sempre à espera de um messias salvador
Nascido num escritório de advogados!
sexta-feira, janeiro 23, 2009
Critérios de desempate
Não me vou alongar sobre o ‘goal average’, um critério de desempate como outro qualquer, perfeitamente regulamentado pela FIFA, que já o utilizou (sem dúvidas matemáticas ou existenciais) nas várias provas que organiza. É verdade que entretanto deixou de utilizar aquele critério, mas ninguém pode assegurar que não o venha a reutilizar no futuro. A única certeza que temos nesta matéria é que se a FIFA quiser voltar ao critério de desempate por ‘goal average’ escreverá isso mesmo no regulamento, ou seja – ‘goal average’!
Porém a questão que me traz a estas linhas é outra, também sobre critérios de desempate, mas aqueles que mais se aplicam em território nacional. São regras não escritas, permitindo um variado leque de interpretações, e derivam todas de um conhecido axioma nacional – na dúvida, a favor dos grandes.
Neste sentido os árbitros portugueses dispõem de um manancial de critérios de desempate que pode ir da grande penalidade marcada ao contrário, ao golo anulado ao adversário, evitando assim o empate!
Para a história ficam aqueles jogos que só terminavam quando os ‘grandes´ conseguiam desempatar!
Saudações azuis
Porém a questão que me traz a estas linhas é outra, também sobre critérios de desempate, mas aqueles que mais se aplicam em território nacional. São regras não escritas, permitindo um variado leque de interpretações, e derivam todas de um conhecido axioma nacional – na dúvida, a favor dos grandes.
Neste sentido os árbitros portugueses dispõem de um manancial de critérios de desempate que pode ir da grande penalidade marcada ao contrário, ao golo anulado ao adversário, evitando assim o empate!
Para a história ficam aqueles jogos que só terminavam quando os ‘grandes´ conseguiam desempatar!
Saudações azuis
quarta-feira, janeiro 14, 2009
Gladiadores
Pão e Circo são expressões da decadência em qualquer época e lugar e a fazer fé na gritaria que por aí vai, estamos a viver um desses momentos.
Afinal não mudámos muito, creio até que recuámos um pouco, e imagino os tempos da ‘aurea mediocridade’, as mesmas estátuas aos vivos, com a curiosidade de um novo mandamento – ‘premiai-vos uns aos outros’!
E as similitudes não se ficam por aqui - hoje, como ontem, o ‘império’ continua a preferir ‘gladiadores’ de raiz ibérica, conhecidos pela sua destreza e coragem nas artes circenses. A fama desses escravos lutadores vem de longe e sabemos que alguns foram idolatrados como deuses!
Por isso não admira que os cinco ‘artistas’ nomeados para o prémio anual da FIFA se entendessem nos dois principais idiomas peninsulares – português e castelhano. Pois não se mudam características culturais com a facilidade que muitos imaginam.
E se isto é verdade para a destreza individual , também é, infelizmente, para a menor aptidão destes povos em se organizarem colectivamente, com as consequências que neste caso se adivinham: - a fuga dos talentos em busca de outros palcos e melhores condições.
Para os conterrâneos sobra a televisão e um sentimento de desforra que Freud poderia explicar.
Eu não.
Afinal não mudámos muito, creio até que recuámos um pouco, e imagino os tempos da ‘aurea mediocridade’, as mesmas estátuas aos vivos, com a curiosidade de um novo mandamento – ‘premiai-vos uns aos outros’!
E as similitudes não se ficam por aqui - hoje, como ontem, o ‘império’ continua a preferir ‘gladiadores’ de raiz ibérica, conhecidos pela sua destreza e coragem nas artes circenses. A fama desses escravos lutadores vem de longe e sabemos que alguns foram idolatrados como deuses!
Por isso não admira que os cinco ‘artistas’ nomeados para o prémio anual da FIFA se entendessem nos dois principais idiomas peninsulares – português e castelhano. Pois não se mudam características culturais com a facilidade que muitos imaginam.
E se isto é verdade para a destreza individual , também é, infelizmente, para a menor aptidão destes povos em se organizarem colectivamente, com as consequências que neste caso se adivinham: - a fuga dos talentos em busca de outros palcos e melhores condições.
Para os conterrâneos sobra a televisão e um sentimento de desforra que Freud poderia explicar.
Eu não.
quarta-feira, janeiro 07, 2009
O partido único
Em política o que parece é, e está-me a parecer que caminhamos rápidamente para o partido único, uma fatalidade republicana como todos sabemos. Mas não se assustem porque tudo irá decorrer na melhor das democracias e com a Constituição em pano de fundo. Eu explico:
- Oficializada a crise, o chamado governo socialista propôe-se ajudar ‘todos os que precisam’, e não temos dúvidas que saberá escolher criteriosamente os alvos de tamanha generosidade.
Em primeiro lugar vem a absoluta garantia de emprego na função pública, adiando assim o necessário emagrecimento do Estado. Com esta medida acentua a desigualdade entre os portugueses mas garante a vitória nas próximas eleições. E, não menos importante, esvazia a contestação à sua esquerda.
Em segundo lugar, e pelo efeito ‘Pai Natal’, o Partido Socialista vai conquistar fácilmente ‘a direita que temos’, deixando o PSD e o CDS a ver jogar.
Nestas circunstãncias, conhecendo a artificialidade das formações partidárias e o carácter adesivo do indígena, não custa adivinhar o definhamento geral em favor da ‘união nacional socialista’. Sócrates poderá ser então uma espécie de Salazar sem botas, sem ideias, mas com alfaiate de marca.
Nesta harmónica previsão subsiste no entanto um problema, a saber: - o que este Governo Socialista pretende distribuir generosamente, não é nosso, nem sequer depende de nós. Sem contar que a pedinchice nacional é uma doença voraz.
A coisa pode não ser suficiente e isto dar para o torto.
Saudações monárquicas.
- Oficializada a crise, o chamado governo socialista propôe-se ajudar ‘todos os que precisam’, e não temos dúvidas que saberá escolher criteriosamente os alvos de tamanha generosidade.
Em primeiro lugar vem a absoluta garantia de emprego na função pública, adiando assim o necessário emagrecimento do Estado. Com esta medida acentua a desigualdade entre os portugueses mas garante a vitória nas próximas eleições. E, não menos importante, esvazia a contestação à sua esquerda.
Em segundo lugar, e pelo efeito ‘Pai Natal’, o Partido Socialista vai conquistar fácilmente ‘a direita que temos’, deixando o PSD e o CDS a ver jogar.
Nestas circunstãncias, conhecendo a artificialidade das formações partidárias e o carácter adesivo do indígena, não custa adivinhar o definhamento geral em favor da ‘união nacional socialista’. Sócrates poderá ser então uma espécie de Salazar sem botas, sem ideias, mas com alfaiate de marca.
Nesta harmónica previsão subsiste no entanto um problema, a saber: - o que este Governo Socialista pretende distribuir generosamente, não é nosso, nem sequer depende de nós. Sem contar que a pedinchice nacional é uma doença voraz.
A coisa pode não ser suficiente e isto dar para o torto.
Saudações monárquicas.
Sociedade quente e frio
Perguntava a ‘pivot’ de um telejornal qualquer: - então Sara, quanto tempo falta para o ‘pico do frio’? A enviada especial respondeu com toda a seriedade que não sabia ao certo quando o transcendente fenómeno iria ocorrer, e continuou a entrevistar uma população sorridente que saíra à rua para sentir na pele o anunciado frio da televisão!
A juntar à festa o presidente da Junta (!) mandara espalhar sal no pavimento das praças e artérias na iminência do nevão que insiste em atrasar-se!
Isto seria apenas ridículo não fosse o caso de escancarar uma sociedade infantil e robótica, telecomandada à distância.
Não senti frio, senti pena e algum receio quanto ao futuro.
A juntar à festa o presidente da Junta (!) mandara espalhar sal no pavimento das praças e artérias na iminência do nevão que insiste em atrasar-se!
Isto seria apenas ridículo não fosse o caso de escancarar uma sociedade infantil e robótica, telecomandada à distância.
Não senti frio, senti pena e algum receio quanto ao futuro.
domingo, janeiro 04, 2009
Gestão!
Estávamos em 2007, corria o mês de Maio, mês das flores, e o Interregno dava a notícia – “Assaltos na segunda circular”!
Não era notícia, é costume arreigado, aceite, nada mais comum do que utilizar o dinheiro que é de todos para ajudar os amigos, no futebol e no resto. Sem ninguém saber, como manda a melhor caridade! Por isso não percebo a admiração do Correio da Manhã, mas percebo o meu último postal – ‘faltam-me as palavras, perdi-as algures…’!
Ainda assim pareceu-me bem começar este texto por esse vocábulo intraduzível e misterioso – GESTÃO!
Palavra de passe, como nas escritas antigas pode querer dizer tudo e nada ao mesmo tempo, é uma expressão excessiva e os excessos devem ser combatidos. Do que não tenho dúvidas é que no futuro será um insulto, um termo pejorativo.
E já me esquecia do fundo da questão – Benfica e Sporting beneficiados, a Câmara de Lisboa e o Governo sediado na mesma cidade assaltados ou violados, conforme entendam, com a particularidade de haver perfeita sintonia entre assaltantes e assaltados.
Diz o povo – ‘andam ao mesmo’.
Não era notícia, é costume arreigado, aceite, nada mais comum do que utilizar o dinheiro que é de todos para ajudar os amigos, no futebol e no resto. Sem ninguém saber, como manda a melhor caridade! Por isso não percebo a admiração do Correio da Manhã, mas percebo o meu último postal – ‘faltam-me as palavras, perdi-as algures…’!
Ainda assim pareceu-me bem começar este texto por esse vocábulo intraduzível e misterioso – GESTÃO!
Palavra de passe, como nas escritas antigas pode querer dizer tudo e nada ao mesmo tempo, é uma expressão excessiva e os excessos devem ser combatidos. Do que não tenho dúvidas é que no futuro será um insulto, um termo pejorativo.
E já me esquecia do fundo da questão – Benfica e Sporting beneficiados, a Câmara de Lisboa e o Governo sediado na mesma cidade assaltados ou violados, conforme entendam, com a particularidade de haver perfeita sintonia entre assaltantes e assaltados.
Diz o povo – ‘andam ao mesmo’.
sábado, janeiro 03, 2009
2009
Estou sem palavras, perdi-as algures, não sei ao certo, sei apenas que todos os dias inúmeras palavras são gastas a anunciar e a descrever a crise, coisa inelutável, fenómeno fora do nosso alcance ou entendimento! E ninguém se sente verdadeiramente responsável por ele! Os políticos não se enganaram na política, os economistas não se enganaram nas suas apostas, aconteceu e pronto. Um deles alvitrou no entanto que talvez fosse de reintroduzir a disciplina de filosofia nas certezas orçamentais! Aliás, a filosofia é o instrumento essencial de qualquer boa dona de casa! Que o utiliza sábiamente, por exemplo, no empadão do que sobrou ou quando se trata de fazer crescer os sonhos de bacalhau. Mas adiante, o reconhecimento de que nem tudo o que recebemos estava errado já é uma boa notícia.
E a declaração geral de inocência, hino nacional ensaiado a duas vozes em Belém e São Bento (com refrão partidário) também acaba por ser uma boa notícia.
Ficámos a saber que são irresponsáveis (já sabíamos) e que portanto não podemos contar com eles para nada.
Saudações monárquicas.
E a declaração geral de inocência, hino nacional ensaiado a duas vozes em Belém e São Bento (com refrão partidário) também acaba por ser uma boa notícia.
Ficámos a saber que são irresponsáveis (já sabíamos) e que portanto não podemos contar com eles para nada.
Saudações monárquicas.
sexta-feira, dezembro 26, 2008
"S.Cristóvão"
“Mas, naquele esforço supremo toda sua vida se fora. Não podia mais. E já se sentava, exausto, numa rocha, quando o menino lhe murmurou que não parasse, que marchasse ainda, o conduzisse à casa de seu pai. E Cristóvão, arquejando, começou a trepar o íngreme caminho da serra. Uma vaga claridade errava nos altos. E as rochas, os abetos, emergiam da treva densa, que os afogara. Uma frialdade trespassava o ar — e Cristóvão tiritava, com o seu pobre saião de estamenha encharcado, que ia pingando na terra mole. E mais baixo murmurava: «Ah! meu menino! meu menino!...»
Cada vez mais escarpado, entre rochas, se empinava o caminho da serra. E Cristóvão todo curvado, com os seus cabelos caídos sobe a face e pingando, arquejava a cada passo. Subiria ele jamais até a morada do menino? E uma grande dor batia-lhe o coração, no terror de cair sem força, e a criancinha ficar ali, naquele ermo rude, entre as feras, sob a tormenta. A cada instante tinha de arrimar a mão a uma rocha, desfalecido, de se pender à ramagem de um abeto. E a claridade crescia; já, no alto dos montes, ele via palidamente alvejar a neve.
— Oh meu menino, onde é a casa de teu pai?— Mais longe, Cristóvão, mais longe...
E aquele bom gigante, agasalhando os pés do menino na dobra da pele de cabra, que o vento desmanchava, seguia com longos gemidos no caminho infindável, que mais apertava entre rochas, eriçadas de silvas enormes. Por fim, mal podia passar: as pontas das rochas rasgavam-lhe os braços, os longos espinhos atravessados, levavam-lhe a pele rude da face. E seguia! Já das feridas lhe pingava o sangue, e os olhos embaciados mal distinguiam o caminho, que parecia oscilar todo como abalado num tremor de terra. Uma luz, no entanto, mais viva, cor-de-rosa, já subia por trás das linhas dos cerros.
Mas Cristóvão parou, sem poder mais. Com o menino agarrado nos braços, ficou encostado a uma pedra, arquejando.
— Onde é a casa de teu pai?— Muito longe, Cristóvão, mais longe...
Então o bom gigante fez um prodigiosos esforço, e a cada passo, meio desfalecido, os olhos turvos, a cada instante lançando a mão para se arrimar, tropeçando, com grossas gotas de suor que se misturavam a grossas gotas de sangue, rompeu a caminhar, sempre para cima, sempre para cima. Os seus pés iam ao acaso, no desfalecimento que o tomava. Uma grande frialdade invadia todos os seus membros. Já se sentia tão fraco como a criança que levava aos ombros. E parou, sem poder, no topo do monte. Era o fim: um grande Sol nascia, banhava toda a Terra em luz. Cristóvão pousou o menino no chão, e caiu ao lado, estendendo as mãos. Ia morrer. Mas sentiu as suas grossas mãos presas nas do menino — e a terra faltou-lhe debaixo dos pés. Então entreabriu os olhos, e no esplendor incomparável reconheceu Jesus, Nosso Senhor, pequenino, como quando nasceu no curral, que docemente, através da manhã clara, o ia levando para o Céu.”
Cada vez mais escarpado, entre rochas, se empinava o caminho da serra. E Cristóvão todo curvado, com os seus cabelos caídos sobe a face e pingando, arquejava a cada passo. Subiria ele jamais até a morada do menino? E uma grande dor batia-lhe o coração, no terror de cair sem força, e a criancinha ficar ali, naquele ermo rude, entre as feras, sob a tormenta. A cada instante tinha de arrimar a mão a uma rocha, desfalecido, de se pender à ramagem de um abeto. E a claridade crescia; já, no alto dos montes, ele via palidamente alvejar a neve.
— Oh meu menino, onde é a casa de teu pai?— Mais longe, Cristóvão, mais longe...
E aquele bom gigante, agasalhando os pés do menino na dobra da pele de cabra, que o vento desmanchava, seguia com longos gemidos no caminho infindável, que mais apertava entre rochas, eriçadas de silvas enormes. Por fim, mal podia passar: as pontas das rochas rasgavam-lhe os braços, os longos espinhos atravessados, levavam-lhe a pele rude da face. E seguia! Já das feridas lhe pingava o sangue, e os olhos embaciados mal distinguiam o caminho, que parecia oscilar todo como abalado num tremor de terra. Uma luz, no entanto, mais viva, cor-de-rosa, já subia por trás das linhas dos cerros.
Mas Cristóvão parou, sem poder mais. Com o menino agarrado nos braços, ficou encostado a uma pedra, arquejando.
— Onde é a casa de teu pai?— Muito longe, Cristóvão, mais longe...
Então o bom gigante fez um prodigiosos esforço, e a cada passo, meio desfalecido, os olhos turvos, a cada instante lançando a mão para se arrimar, tropeçando, com grossas gotas de suor que se misturavam a grossas gotas de sangue, rompeu a caminhar, sempre para cima, sempre para cima. Os seus pés iam ao acaso, no desfalecimento que o tomava. Uma grande frialdade invadia todos os seus membros. Já se sentia tão fraco como a criança que levava aos ombros. E parou, sem poder, no topo do monte. Era o fim: um grande Sol nascia, banhava toda a Terra em luz. Cristóvão pousou o menino no chão, e caiu ao lado, estendendo as mãos. Ia morrer. Mas sentiu as suas grossas mãos presas nas do menino — e a terra faltou-lhe debaixo dos pés. Então entreabriu os olhos, e no esplendor incomparável reconheceu Jesus, Nosso Senhor, pequenino, como quando nasceu no curral, que docemente, através da manhã clara, o ia levando para o Céu.”
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(S. Cristovão, Eça de Queiroz, Últimas Páginas)
(S. Cristovão, Eça de Queiroz, Últimas Páginas)
terça-feira, dezembro 23, 2008
Um jantar de Natal
Nos idos de oitenta começou por ser um almoço circunscrito a alguns amigos que trabalhavam na Vista Alegre e na zona do Cais do Sodré. Mais tarde e com o desmanchar da tenda, tem vindo a aglutinar-se em torno de duas raizes familiares – Pinto Basto e Figueiredo. Mantém-se assim a ressonância da Vista Alegre e reforçaram-se os laços com os Figueiredos sediados em Santo Amaro de Oeiras. Mas convém não esquecer o grande mentor destes encontros, o Francisco Quintella Gaivão, mais a sua Bé-Seguro, que vem determinando a geografia do repasto. Por isso este ano foi escolhido o Varunca, no coração de Santo Amaro, casa aprovada e a repetir no próximo ano.
Feita a história, regresso em rima ao jantar, um verdadeiro teste de amizade duradoura:
- Os temas são sempre iguais, o vinho a abrir e fechar, os piropos entremeiam com conversas de embalar, o jarrinho está vazio, há muita gente a penar! Mas o momento da noite é o Tocas a discursar! Dispara sempre em primeiro para o Quintella Manuel que normalmente devolve para o Bé ripostar. O Gaivão não é de modas e pega-se com o Figueiredo que é rápido a afinar. Entretanto sobram bocas, faltam travessas de resto, batatas e entrecosto, a mesa já está a arder e todos querem malhar! O Mexia puxa a braza, quer saber das novidades! Engulo a isca depressa com medo de me engasgar! O Xavico em meu auxílio, Tocas sobe de tom, os clientes assustam-se, vernáculo de ponta a ponta, até que alguém pede a conta!
Contas boas de fazer, entre amigos é assim, um Bom Natal para todos e não se riam de mim.
Feita a história, regresso em rima ao jantar, um verdadeiro teste de amizade duradoura:
- Os temas são sempre iguais, o vinho a abrir e fechar, os piropos entremeiam com conversas de embalar, o jarrinho está vazio, há muita gente a penar! Mas o momento da noite é o Tocas a discursar! Dispara sempre em primeiro para o Quintella Manuel que normalmente devolve para o Bé ripostar. O Gaivão não é de modas e pega-se com o Figueiredo que é rápido a afinar. Entretanto sobram bocas, faltam travessas de resto, batatas e entrecosto, a mesa já está a arder e todos querem malhar! O Mexia puxa a braza, quer saber das novidades! Engulo a isca depressa com medo de me engasgar! O Xavico em meu auxílio, Tocas sobe de tom, os clientes assustam-se, vernáculo de ponta a ponta, até que alguém pede a conta!
Contas boas de fazer, entre amigos é assim, um Bom Natal para todos e não se riam de mim.
quinta-feira, dezembro 11, 2008
“Depois deles, o dilúvio”
“Para que serve este sistema de ensino? Para diminuir as desigualdades, não. Para fazer crescer a riqueza, também não.
Os professores portugueses não se cansam de nos surpreender. Há uns meses, descobrimos que já não estão à altura de impedir um aluno de usar o telemóvel durante a aula. Nas últimas semanas, porém, ei-los na rua a provar que ainda chegam para fazer recuar um governo.
Os professores portugueses não se cansam de nos surpreender. Há uns meses, descobrimos que já não estão à altura de impedir um aluno de usar o telemóvel durante a aula. Nas últimas semanas, porém, ei-los na rua a provar que ainda chegam para fazer recuar um governo.
A questão é inevitável: que pensar de um sistema de ensino onde os professores têm aparentemente mais força para submeter um ministério do que para manter a disciplina nas salas de aula? Que talvez não sirva para aquilo que deveria servir, mas que serve certamente para outras coisas.
Entre o telemóvel de Março e a greve de Dezembro, o actual sistema de ensino deu-se a conhecer em todo o seu esplendor. Os alunos não respeitam os professores porque sabem que, numa escola que se quer "inclusiva" a todo o custo, nada de sério lhes pode acontecer, por pior que seja o seu comportamento. Os professores, pelo seu lado, não respeitam o ministério porque percebem que o objectivo da actual equipa governamental não é transformar o sistema, mas apenas obter mais com o mesmo - e que portanto lhes basta não preencher as fichas, para tudo parar. O presente regime de ensino faz a fraqueza subir pelo sistema acima: os alunos têm a força que falta aos professores, e os professores a força que falta ao ministério. Como já toda a gente compreendeu, porque os representantes dos professores fizeram questão de explicar, a questão não é esta avaliação, mas qualquer avaliação, seja qual for o modelo, que tenha como princípio diferenciar os professores. Os líderes da resistência à avaliação têm uma ideia do que deve ser a classe profissional que dizem representar: uma massa igualitária e anónima, onde ninguém se distingue e ninguém é responsabilizado pelo resultado do seu trabalho. Os alunos abandonam a escola, falham nos exames nacionais e deixam péssima impressão nos testes internacionais? Segundo os delegados da classe docente, nada disso tem a ver com as escolas e os professores, mas com a "sociedade". É uma tese curiosa. O país, através do Estado, gasta o que tem e o que não tem no ensino. E os agentes desse ensino vêm agora confessar, na cara dos contribuintes, sem complexos, que quase não faz diferença: quem tem de aprender, aprende; e quem não tem, não aprende. As estatísticas confirmam: para se garantir êxito escolar, convém ter pais da classe média, viver nas urbanizações do litoral, e frequentar uma escola privada. Para que serve então esse sistema que, conforme nos prometeram, ia distribuir oportunidades a todos e transformar-nos numa Finlândia com sardinha assada? Para diminuir as desigualdades, não. Para fazer crescer a riqueza, também não. Serve para isto, segundo os porta-vozes dos professores: para ajudar mais de 100.000 portugueses a fazer uma experiência sociológica única - uma vida profissional sem hierarquias, sem obrigação de sucesso, e que seria talvez perfeita, não fossem os alunos e os seus telemóveis.
Durante anos, os licenciados da Europa de leste que empregámos como serventes de pedreiro deveriam ter-nos provado que as credenciais académicas, só por si, não salvam ninguém. Os nossos licenciados, porém, só ultimamente começaram a rimar com desempregados. É que, durante muito tempo, o Estado lá os foi encaixando: a uma parte, aliás, como professores. A classe docente, numerosa e relativamente bem paga, é provavelmente ela própria o principal produto do investimento na educação em Portugal: antigos estudantes dos cursos de apontamentos e fotocópias, que o engenho nacional fez multiplicar, e a quem por via do Orçamento do Estado se deu um lugar à mesa da classe média. Subitamente, eis que os Governos diminuem os lugares e o actual ministério vem com exigências que não constavam do contrato original. A tribo, como é compreensível, saiu à rua para zelar pelas suas prerrogativas ancestrais. O sistema é uma grande pescada de rabo na boca, em que a pescada tentou dar ultimamente uma dentada em si própria. A intransigência professoral expressa uma grande tentação: a tentação de todos os instalados nos "sistemas" estatais ou protegidos pelo Estado resistirem a quaisquer mudanças, na esperança de que o regime actual aguente, na forma em que o conheceram, pelo menos até ao momento de poderem escapar-se com a devida pensão de reforma. A maioria, na meia-idade, nem precisa de muito tempo. Depois, que venha tudo, até o dilúvio: já hão-de ser as gerações mais jovens a penar. No caso dos professores, ficarão assim vingados dos alunos que agora os atormentam nas aulas. No que não deixará de haver uma certa justiça.”
Rui Ramos – Historiador
Com a devida vénia in Jornal Público de 10/12/2008.
Rui Ramos – Historiador
Com a devida vénia in Jornal Público de 10/12/2008.
quinta-feira, dezembro 04, 2008
quarta-feira, dezembro 03, 2008
Asas imensas
'Nas asas de um sonho rasgaste oceanos com génio e coragem,
E num certo sentido tu foste o primeiro no fim da viagem …'
Aqui estou companheiro na hora triste da poesia, para que o poema se cumpra, e floresça lá longe nos campos verdes de esperança.
Aquele a quem fazias questão de tratar por ‘mestre’, numa singular afirmação de nobreza, não esquece as asas imensas que rasgavam os teus sonhos, órfãos, filhos de outro interregno. Lugares escondidos na alma, frases que o tempo caduca, os versos que em vão buscavas, hás-de encontrá-los agora, acabou a tua luta.
Em memória do ‘Paulo Santinho’, amigo e comentador neste interregno.
E num certo sentido tu foste o primeiro no fim da viagem …'
Aqui estou companheiro na hora triste da poesia, para que o poema se cumpra, e floresça lá longe nos campos verdes de esperança.
Aquele a quem fazias questão de tratar por ‘mestre’, numa singular afirmação de nobreza, não esquece as asas imensas que rasgavam os teus sonhos, órfãos, filhos de outro interregno. Lugares escondidos na alma, frases que o tempo caduca, os versos que em vão buscavas, hás-de encontrá-los agora, acabou a tua luta.
Em memória do ‘Paulo Santinho’, amigo e comentador neste interregno.
segunda-feira, dezembro 01, 2008
Independência
Caderno P2
Jornal PÚBLICO - 01 de Dezembro de 2008
Se houver uma grave crise, ninguém acredita que a democracia a resolva
01.12.2008, Autor do texto
A monarquia está mais bem preparada para enfrentar as crises. A república é responsável por um ciclo de instabilidade e atraso no país. O 25 de Abril foi o pior que podia ter acontecido. Criou uma democracia frágil. Se a crise se agravar, o povo não acredita que o actual regime a possa resolver. Numa estranha sintonia com as recentes declarações da líder do PSD, Manuela Ferreira Leite, D. Duarte teme que, se houver falta de combustíveis e de alimentos, as pessoas possam ir para a rua exigir um regime totalitário. Paulo Moura (entrevista) e Daniel Rocha (fotos)
Todos os anos, no 1º de Dezembro, o herdeiro da Coroa portuguesa faz uma comunicação ao país. Hoje, D. Duarte de Bragança falará das oportunidades que a crise económica e financeira traz a Portugal para repensar as opções do regime e as atitudes mentais. É preciso ser menos consumista, dar mais importância à ecologia, à autonomia agrícola, aos valores permanentes. E também à independência nacional. É por isso que o pretendente do trono escolheu o 1º de Dezembro para o seu discurso - porque o Presidente da República não o faz.
.Porque faz sempre um discurso no 1º de Dezembro?
.Quando o meu pai morreu, muita gente me pedia para explicar as minhas posições sociais e políticas. Comecei a fazê-lo no 1º de Dezembro.
.Porquê essa data?
.Criou-se a ideia de que a nossa independência não é necessária. De que podemos depender dos outros, seja da União Europeia, seja dos americanos ou dos espanhóis. E até que seríamos mais bem governados se o fôssemos por outros.
.Isso é uma tendência recente?
.É um pensamento que data de 1910. O núcleo duro da revolução tinha como objectivo a União Ibérica. É por isso que o vermelho da bandeira portuguesa, que representa a Espanha, é maior do que o verde, que representa Portugal. E ainda hoje há quem pense assim, até alguns ilustres escritores, que deveriam ter mais juízo.
.Mas porque cabe aos monárquicos defender o patriotismo?
.Porque não vejo mais ninguém a fazê-lo. As associações dos antigos combatentes celebram o 10 de Junho, o Presidente da República comemora o Ano Novo, e o 25 de Abril, e ainda há alguns que vão ao cemitério do Alto de São João celebrar o 5 de Outubro.
.O Presidente da República deveria fazer um discurso no 1º de Dezembro?
.Sim. Se o fizer, deixo de fazer o meu.
.A monarquia é o último reduto do patriotismo?
.O último não. O Partido Comunista também é muito patriótico.
.O que há de comum entre as duas forças?
.Um certo idealismo próprio de quem adere a movimentos políticos que não dão compensações, que não dão emprego. Se um dia houver em Portugal um referendo e ganhar a causa monárquica, os movimentos monárquicos deixam de existir.
.Quem está nos grandes partidos é sempre por interesse?
.Os partidos deveriam fazer um trabalho de formação doutrinária. Digo muitas vezes aos meus amigos do PS, por exemplo, que é fundamental debater a doutrina. Para que serve hoje em dia o socialismo?
.Acredita no socialismo?
.Acredito no socialismo cooperativista, como era definido no século XIX, por Antero de Quental, ou António Sérgio.
.Poderia ter aplicação hoje em dia?
.Podia. Veja um caso concreto. Qual é hoje o sector bancário que não está em crise? O crédito agrícola. Por ser cooperativista, mutualista. O Montepio é a mesma coisa, não teve crise. São mais abertos, têm muita gente a dar opinião, a acompanhar o que eles fazem. O Crédito Agrícola é propriedade de centenas de caixas agrícolas espalhadas pelo país. Eu sou o presidente da Assembleia-Geral da Caixa Agrícola de Nelas, e temos uma participação na caixa central. Representamos mais de um milhão de portugueses, mas não nos ligam nenhuma, a nível político.
.O PS devia estar mais atento a essa realidade?
.Sim, porque o pensamento socialista original em Portugal era esse. Se o cooperativismo estivesse mais desenvolvido, vários factores beneficiariam muito.
.Mas essas empresas podem ser competitivas?
.Na Holanda, na Áustria, na Suíça, na Alemanha, na Escandinávia, grandes organizações empresariais são cooperativas. O maior banco da Holanda é uma cooperativa. Em França, o maior banco é o Crédit Agricole. Mas estas empresas têm um inconveniente: não dão tachos a ex-ministros. Nem financiam campanhas eleitorais. Por isso não são muito simpáticas.
.Noutros países, é reconhecida outra importância às famílias reais?
.Depende. Em repúblicas como a França tem pouca importância. Na Europa de Leste tem mais, talvez porque se lembrem de que o último período em que tiveram paz e democracia foi com um rei. Na Sérvia e no Montenegro, as famílias reais vivem nos palácios reais.
.De que são proprietários?
.Foram nacionalizados e depois devolvidos à família.Em Portugal não aconteceu assim.Em Portugal não devolveram nada. Vila Viçosa é o caso mais escandaloso, porque pertencia à família desde antes de 1640. Quando D. João IV foi aclamado Rei de Portugal, separou os bens da família dos bens do Estado. Os irmãos e filhos do rei sustentavam-se a partir dos bens da família. Só o rei e a rainha viviam do orçamento de Estado. O Palácio da Ajuda ou de Queluz pertencia aos bens da coroa. Vila Viçosa pertencia aos bens da família. A tomada de posse dessa propriedade pelo Estado, no tempo de Salazar, foi completamente abusiva.
.Quando voltou do exílio, não recuperou nada?
.A Assembleia Nacional votou o fim da lei do exílio e nós voltámos a Portugal, mas o Estado não nos devolveu nada. Durante algum tempo, o meu pai viveu numa casa emprestada pela Fundação de Bragança. Em 1975 foi posto fora.
.Acha que devia ter uma pensão do Estado?
.Não. Isso retirava-me a independência, para a minha acção política. Embora, quando faço missões pelo mundo fora, o faça em colaboração com o Ministério dos Negócios Estrangeiros.
.Que missões são essas?
.Neste momento, tenho um programa de desenvolvimento ambiental agrícola na Guiné-Bissau, outro em Angola, de introdução de novas técnicas de construção civil, outro em Timor. Estou a iniciar um projecto de ensino da língua portuguesa nos países que aderiram agora à lusofonia, como o Senegal, a Guiné Equatorial e as Ilhas Maurícias.
.Como escolhe as missões?
.Quando vejo uma oportunidade que possa ser interessante, proponho ao MNE. São sempre no campo das relações externas, geralmente com países com que Portugal tem relações fracas, como foi o caso da Indonésia, durante algum tempo, ou são hoje os países árabes.
.É respeitado nos países árabes?
.Quando estou numa monarquia árabe sou descendente do profeta Maomé.
.Porquê?
.A rainha Santa Isabel era descendente de um príncipe árabe que era descendente de Maomé. Por isso, a minha posição é completamente diferente da de qualquer embaixador da república portuguesa.
.Isso é reconhecido em todo o mundo árabe?
.É. Mas quando estou em Israel digo que o D. Afonso Henriques era descendente do Rei David. Aliás, aconteceu uma coisa curiosa, nesta última viagem a Jerusalém: o chefe dos sefarditas contou-me que D. Pedro II do Brasil, bisavô da minha mãe, tinha visitado Israel e falava fluentemente o hebreu.
.Esse respeito de que é objecto em todo o lado deve-se a pertencer a uma família aristocrática?
.Não. Não tem nada a ver com aristocracia. É por ser o chefe de uma Casa Real. O imperador do Japão, por exemplo, recebeu-me na biblioteca, coisa que só faz com a sua família.
.Também é da família dele?
.Não. Mas aconteceu uma coisa engraçada. No fim, o imperador veio à porta despedir-se de mim, o que também só faz com parentes. O motorista do táxi viu e foi contar no hotel. Quando cheguei lá, tinha os directores à minha espera, pedindo-me licença para me instalarem numa suite especial, porque viram que o imperador me tinha tratado como família.
.É como se as famílias reais fossem todas uma grande família.
.Sim. É uma família espiritual.
.Mas porque faz essas missões? Não tem obrigação nenhuma.
.Sinto que o facto de ter nascido nesta família me dá uma obrigação moral para com o meu povo.
.Sente isso desde criança?
.Sim. Já o meu pai fazia o mesmo. O próprio D. Miguel, ou D. Manuel II, quando exilado, passou a vida a dedicar-se a Portugal. Foi visitar os soldados portugueses na frente de combate, conduziu, ele próprio, uma ambulância na I Guerra Mundial, em zonas perigosas.
.Mas sente essa obrigação em relação a quem? Aos seus antepassados?
.Acho que é em relação a Deus. Se nasci numa determinada família, tenho perante Deus a obrigação...
.O poder dos reis vem de Deus?
.Há uma grande confusão histórica quanto a isso. Os reis protestantes que quiseram tornar-se chefes das igrejas dos seus países criaram a ideia de que o poder real é de direito divino. A doutrina católica é diferente: todo o poder tem origem em Deus, mas chega-nos através do povo, não é arbitrário. O povo é que delega no rei o poder. É por isso que em Portugal o rei só era rei depois de aclamado pelas cortes.
.No seu caso, não foi aclamado.Pois não.
.Mas considero que o chefe da Casa Real fora do seu cargo continua a ter as obrigações morais que teria se estivesse em funções.
.Ser rei é a sua profissão?
.Tive várias oportunidades de trabalho, mas não aceitei, porque, na minha condição, não poderia ser empregado de ninguém.
.Ofereceram-lhe empregos?
.Sim, propuseram-me cargos de administrador em bancos (ainda bem que não aceitei, senão agora estaria preso). Não aceitei porque perderia a minha independência.
.Ocuparia muito do seu tempo.
.Não foi por causa disso, porque os administradores dos bancos não fazem nada. Mas, na minha posição, se eu trabalhasse numa empresa, como assalariado, as minhas opiniões estariam condicionadas, não teria credibilidade.
.Um assalariado não tem liberdade de expressão?
.Devia ter, mas nem sempre é possível.
.Nunca lhe passou pela cabeça ter uma carreira profissional?
.Cheguei a pensar abrir um hotel na Guiné, ou em Timor. E estive para ficar na Força Aérea, em Angola, nos anos 70. Gostei muito. Poderia ter sido militar de carreira. Provavelmente teria sido saneado no 25 de Abril.
.Ou poderia ter sido um capitão de Abril.
.Sim, mas daqueles que depois foram corridos pelos comunistas.
.Porque não ficou então na Força Aérea?
.Achava errada a forma como as Forças Armadas estavam a ser conduzidas. Fui expulso de Angola em 1972, porque organizei uma lista de candidatos da oposição ao Parlamento português. Muitos dos meus apoiantes eram africanos negros. Se ganhássemos as eleições, teríamos um grupo de deputados na Assembleia Nacional que discordaria do Governo mas seria contra a independência.
.Foi expulso por causa disso?
.Sim, porque o Governo de Marcelo Caetano estava a preparar um golpe de independência em Angola, apoiado pelos EUA e a África do Sul, para obter uma independência tipo Rodésia...
.A sua lista poderia ter ganho?
.Sim. E o impacto internacional teria sido incrível, porque se veria que o verdadeiro movimento de oposição em Angola não são os guerrilheiros independentistas. Querem justiça, desenvolvimento, progresso. A independência, logo se veria. O MPLA e a UNITA achavam que Angola não estava ainda preparada para a independência. Precisavam de mais tempo.
.Os movimentos de libertação teriam desistido da luta?
.Não. Mas tive apoios discretos deles. Se o nosso movimento tivesse tido êxito e a evolução política de Angola tivesse sido positiva, talvez se tivesse chegado a um acordo com esses movimentos. Tornar-se-iam partidos políticos, iriam a eleições....
.E em Portugal não teria havido 25 de Abril.
.Exactamente. Não teria sido preciso.
.Teria havido uma transição pacífica?
Acho que sim. O próprio Marcelo Caetano poderia ter conduzido essa evolução.
.Teria sido benéfico para Portugal?
.O pior que poderia ter acontecido a Portugal foi a revolução. As nacionalizações, as ocupações, a destruição do sistema bancário atrasaram a nossa economia pelo menos 10 anos. Nessa altura, estávamos mais avançados economicamente do que a Espanha. Depois passámos para trás.
.A revolução não foi importante para mudar mentalidades?
.Nas mentalidades, a revolução trouxe a ideia de que todos temos direitos e não temos deveres.
.Ainda não recuperámos disso?
.Temos milhares de pessoas a viverem do Estado sem fazerem nada, temos 25 por cento de pobres.
.Antes da revolução já tínhamos.
.Em termos absolutos era pior. Mas passaram-se 30 anos. Em termos comparativos com o resto da Europa, estávamos melhor do que estamos hoje.
.O atraso que temos é herdeiro do 25 de Abril?
.É sobretudo herdeiro de 1910. Se o rei D. Carlos não tivesse sido assassinado, não teria havido a revolução republicana. A nossa monarquia teria evoluído democraticamente como as outras. A revolução de 1910 atrasou Portugal muitos anos, e teve como consequência a revolução do Estado Novo de 1926.
.É um ciclo de desgraças.
.Sim, de atrasos no desenvolvimento português. E agora, mais uma vez, se houver uma grave crise, ninguém acredita que a democracia a resolva. As pessoas vão dizer que querem um militar que tome conta de nós.
.Isso lembra o que Manuela Ferreira Leite disse recentemente. A grave crise pode, de facto, acontecer? Pode acabar com a democracia?
.A educação democrática em Portugal é muito fraca. As pessoas ainda não perceberam qual é o papel dos partidos e do Parlamento. Se houver uma crise grave, com fome, pilhagens, tudo isto vai por água abaixo. Basta que, por um acto terrorista, não recebamos petróleo, que por causa de greves, ou distúrbios, a importação de produtos alimentares seja suspensa. Somos completamente dependentes. Pode haver centenas de milhares de pessoas a manifestarem-se por uma intervenção totalitária dos militares, ou do Presidente.
.Como é que o regime impede que se chegue a esse ponto?
.É preciso que a democracia seja participativa. Devia haver referendos, a sociedade civil deveria participar das decisões. As pessoas não deveriam apenas depositar o seu voto numa urna (este nome não augura nada de bom. Geralmente, o que está na urna são os mortos). As organizações ecologistas, por exemplo, deveriam ter milhares de colaboradores...
.As monarquias são mais sensíveis à causa ecologista...
.Sim, porque defendem os valores permanentes.As próprias famílias reais são permanentes. No poder as monarquias são mais ecológicas porque estão mais próximas da natureza humana, que é baseada na família.
.As repúblicas são contranatura?
São. As repúblicas são contranatura. Excepto aquelas repúblicas muito tradicionais, como a Suíça, ou os EUA, onde, de algum modo, elegem um rei.
.O Presidente americano é um rei?Sim. Esteve mesmo para ser rei. E tem mais poder do que algum rei tem hoje em dia.
.Hoje não é o poder que faz um rei.
.Não, mas é um rei dos antigos.
.Em Portugal as pessoas também querem que o Presidente seja um rei?
.Querem. Ramalho Eanes, quando terminou o mandato, disse: tentei agir como um rei constitucional, porque é assim que os portugueses querem a chefia de Estado.
.Estar acima dos partidos, representar o povo directamente, ser conciliador...
.Exactamente. Representar os valores permanentes.
.O Presidente em Portugal é um rei disfarçado? A verdadeira república deveria ser parlamentarista?
.Sim. Mas o Parlamento é que decidiu ter um chefe de Estado que fizesse aquilo que o rei fazia antigamente.Mas sempre que o Presidente faz alguma coisa, discute-se quais devem ser os seus poderes. Quando Jorge Sampaio dissolveu a Assembleia, chegou a dizer-se que o fez para justificar a existência de um Presidente.Fez aquilo de uma maneira completamente abusiva. Tinha uma maioria estável no Parlamento. Só o fez porque o seu partido tinha uma posição confortável nas sondagens. Nenhum rei teria dissolvido a Assembleia.
.O Presidente tem ele próprio uma legitimidade eleitoral.
.Há um choque entre duas legitimidades. Essa é a razão da instabilidade das repúblicas. O Presidente representa sempre um partido, ou grupos de interesses. Só um rei está acima disso. Por isso nas monarquias há muito menos corrupção. Um rei não está pressionado. Não precisa.
Jornal PÚBLICO - 01 de Dezembro de 2008
Se houver uma grave crise, ninguém acredita que a democracia a resolva
01.12.2008, Autor do texto
A monarquia está mais bem preparada para enfrentar as crises. A república é responsável por um ciclo de instabilidade e atraso no país. O 25 de Abril foi o pior que podia ter acontecido. Criou uma democracia frágil. Se a crise se agravar, o povo não acredita que o actual regime a possa resolver. Numa estranha sintonia com as recentes declarações da líder do PSD, Manuela Ferreira Leite, D. Duarte teme que, se houver falta de combustíveis e de alimentos, as pessoas possam ir para a rua exigir um regime totalitário. Paulo Moura (entrevista) e Daniel Rocha (fotos)
Todos os anos, no 1º de Dezembro, o herdeiro da Coroa portuguesa faz uma comunicação ao país. Hoje, D. Duarte de Bragança falará das oportunidades que a crise económica e financeira traz a Portugal para repensar as opções do regime e as atitudes mentais. É preciso ser menos consumista, dar mais importância à ecologia, à autonomia agrícola, aos valores permanentes. E também à independência nacional. É por isso que o pretendente do trono escolheu o 1º de Dezembro para o seu discurso - porque o Presidente da República não o faz.
.Porque faz sempre um discurso no 1º de Dezembro?
.Quando o meu pai morreu, muita gente me pedia para explicar as minhas posições sociais e políticas. Comecei a fazê-lo no 1º de Dezembro.
.Porquê essa data?
.Criou-se a ideia de que a nossa independência não é necessária. De que podemos depender dos outros, seja da União Europeia, seja dos americanos ou dos espanhóis. E até que seríamos mais bem governados se o fôssemos por outros.
.Isso é uma tendência recente?
.É um pensamento que data de 1910. O núcleo duro da revolução tinha como objectivo a União Ibérica. É por isso que o vermelho da bandeira portuguesa, que representa a Espanha, é maior do que o verde, que representa Portugal. E ainda hoje há quem pense assim, até alguns ilustres escritores, que deveriam ter mais juízo.
.Mas porque cabe aos monárquicos defender o patriotismo?
.Porque não vejo mais ninguém a fazê-lo. As associações dos antigos combatentes celebram o 10 de Junho, o Presidente da República comemora o Ano Novo, e o 25 de Abril, e ainda há alguns que vão ao cemitério do Alto de São João celebrar o 5 de Outubro.
.O Presidente da República deveria fazer um discurso no 1º de Dezembro?
.Sim. Se o fizer, deixo de fazer o meu.
.A monarquia é o último reduto do patriotismo?
.O último não. O Partido Comunista também é muito patriótico.
.O que há de comum entre as duas forças?
.Um certo idealismo próprio de quem adere a movimentos políticos que não dão compensações, que não dão emprego. Se um dia houver em Portugal um referendo e ganhar a causa monárquica, os movimentos monárquicos deixam de existir.
.Quem está nos grandes partidos é sempre por interesse?
.Os partidos deveriam fazer um trabalho de formação doutrinária. Digo muitas vezes aos meus amigos do PS, por exemplo, que é fundamental debater a doutrina. Para que serve hoje em dia o socialismo?
.Acredita no socialismo?
.Acredito no socialismo cooperativista, como era definido no século XIX, por Antero de Quental, ou António Sérgio.
.Poderia ter aplicação hoje em dia?
.Podia. Veja um caso concreto. Qual é hoje o sector bancário que não está em crise? O crédito agrícola. Por ser cooperativista, mutualista. O Montepio é a mesma coisa, não teve crise. São mais abertos, têm muita gente a dar opinião, a acompanhar o que eles fazem. O Crédito Agrícola é propriedade de centenas de caixas agrícolas espalhadas pelo país. Eu sou o presidente da Assembleia-Geral da Caixa Agrícola de Nelas, e temos uma participação na caixa central. Representamos mais de um milhão de portugueses, mas não nos ligam nenhuma, a nível político.
.O PS devia estar mais atento a essa realidade?
.Sim, porque o pensamento socialista original em Portugal era esse. Se o cooperativismo estivesse mais desenvolvido, vários factores beneficiariam muito.
.Mas essas empresas podem ser competitivas?
.Na Holanda, na Áustria, na Suíça, na Alemanha, na Escandinávia, grandes organizações empresariais são cooperativas. O maior banco da Holanda é uma cooperativa. Em França, o maior banco é o Crédit Agricole. Mas estas empresas têm um inconveniente: não dão tachos a ex-ministros. Nem financiam campanhas eleitorais. Por isso não são muito simpáticas.
.Noutros países, é reconhecida outra importância às famílias reais?
.Depende. Em repúblicas como a França tem pouca importância. Na Europa de Leste tem mais, talvez porque se lembrem de que o último período em que tiveram paz e democracia foi com um rei. Na Sérvia e no Montenegro, as famílias reais vivem nos palácios reais.
.De que são proprietários?
.Foram nacionalizados e depois devolvidos à família.Em Portugal não aconteceu assim.Em Portugal não devolveram nada. Vila Viçosa é o caso mais escandaloso, porque pertencia à família desde antes de 1640. Quando D. João IV foi aclamado Rei de Portugal, separou os bens da família dos bens do Estado. Os irmãos e filhos do rei sustentavam-se a partir dos bens da família. Só o rei e a rainha viviam do orçamento de Estado. O Palácio da Ajuda ou de Queluz pertencia aos bens da coroa. Vila Viçosa pertencia aos bens da família. A tomada de posse dessa propriedade pelo Estado, no tempo de Salazar, foi completamente abusiva.
.Quando voltou do exílio, não recuperou nada?
.A Assembleia Nacional votou o fim da lei do exílio e nós voltámos a Portugal, mas o Estado não nos devolveu nada. Durante algum tempo, o meu pai viveu numa casa emprestada pela Fundação de Bragança. Em 1975 foi posto fora.
.Acha que devia ter uma pensão do Estado?
.Não. Isso retirava-me a independência, para a minha acção política. Embora, quando faço missões pelo mundo fora, o faça em colaboração com o Ministério dos Negócios Estrangeiros.
.Que missões são essas?
.Neste momento, tenho um programa de desenvolvimento ambiental agrícola na Guiné-Bissau, outro em Angola, de introdução de novas técnicas de construção civil, outro em Timor. Estou a iniciar um projecto de ensino da língua portuguesa nos países que aderiram agora à lusofonia, como o Senegal, a Guiné Equatorial e as Ilhas Maurícias.
.Como escolhe as missões?
.Quando vejo uma oportunidade que possa ser interessante, proponho ao MNE. São sempre no campo das relações externas, geralmente com países com que Portugal tem relações fracas, como foi o caso da Indonésia, durante algum tempo, ou são hoje os países árabes.
.É respeitado nos países árabes?
.Quando estou numa monarquia árabe sou descendente do profeta Maomé.
.Porquê?
.A rainha Santa Isabel era descendente de um príncipe árabe que era descendente de Maomé. Por isso, a minha posição é completamente diferente da de qualquer embaixador da república portuguesa.
.Isso é reconhecido em todo o mundo árabe?
.É. Mas quando estou em Israel digo que o D. Afonso Henriques era descendente do Rei David. Aliás, aconteceu uma coisa curiosa, nesta última viagem a Jerusalém: o chefe dos sefarditas contou-me que D. Pedro II do Brasil, bisavô da minha mãe, tinha visitado Israel e falava fluentemente o hebreu.
.Esse respeito de que é objecto em todo o lado deve-se a pertencer a uma família aristocrática?
.Não. Não tem nada a ver com aristocracia. É por ser o chefe de uma Casa Real. O imperador do Japão, por exemplo, recebeu-me na biblioteca, coisa que só faz com a sua família.
.Também é da família dele?
.Não. Mas aconteceu uma coisa engraçada. No fim, o imperador veio à porta despedir-se de mim, o que também só faz com parentes. O motorista do táxi viu e foi contar no hotel. Quando cheguei lá, tinha os directores à minha espera, pedindo-me licença para me instalarem numa suite especial, porque viram que o imperador me tinha tratado como família.
.É como se as famílias reais fossem todas uma grande família.
.Sim. É uma família espiritual.
.Mas porque faz essas missões? Não tem obrigação nenhuma.
.Sinto que o facto de ter nascido nesta família me dá uma obrigação moral para com o meu povo.
.Sente isso desde criança?
.Sim. Já o meu pai fazia o mesmo. O próprio D. Miguel, ou D. Manuel II, quando exilado, passou a vida a dedicar-se a Portugal. Foi visitar os soldados portugueses na frente de combate, conduziu, ele próprio, uma ambulância na I Guerra Mundial, em zonas perigosas.
.Mas sente essa obrigação em relação a quem? Aos seus antepassados?
.Acho que é em relação a Deus. Se nasci numa determinada família, tenho perante Deus a obrigação...
.O poder dos reis vem de Deus?
.Há uma grande confusão histórica quanto a isso. Os reis protestantes que quiseram tornar-se chefes das igrejas dos seus países criaram a ideia de que o poder real é de direito divino. A doutrina católica é diferente: todo o poder tem origem em Deus, mas chega-nos através do povo, não é arbitrário. O povo é que delega no rei o poder. É por isso que em Portugal o rei só era rei depois de aclamado pelas cortes.
.No seu caso, não foi aclamado.Pois não.
.Mas considero que o chefe da Casa Real fora do seu cargo continua a ter as obrigações morais que teria se estivesse em funções.
.Ser rei é a sua profissão?
.Tive várias oportunidades de trabalho, mas não aceitei, porque, na minha condição, não poderia ser empregado de ninguém.
.Ofereceram-lhe empregos?
.Sim, propuseram-me cargos de administrador em bancos (ainda bem que não aceitei, senão agora estaria preso). Não aceitei porque perderia a minha independência.
.Ocuparia muito do seu tempo.
.Não foi por causa disso, porque os administradores dos bancos não fazem nada. Mas, na minha posição, se eu trabalhasse numa empresa, como assalariado, as minhas opiniões estariam condicionadas, não teria credibilidade.
.Um assalariado não tem liberdade de expressão?
.Devia ter, mas nem sempre é possível.
.Nunca lhe passou pela cabeça ter uma carreira profissional?
.Cheguei a pensar abrir um hotel na Guiné, ou em Timor. E estive para ficar na Força Aérea, em Angola, nos anos 70. Gostei muito. Poderia ter sido militar de carreira. Provavelmente teria sido saneado no 25 de Abril.
.Ou poderia ter sido um capitão de Abril.
.Sim, mas daqueles que depois foram corridos pelos comunistas.
.Porque não ficou então na Força Aérea?
.Achava errada a forma como as Forças Armadas estavam a ser conduzidas. Fui expulso de Angola em 1972, porque organizei uma lista de candidatos da oposição ao Parlamento português. Muitos dos meus apoiantes eram africanos negros. Se ganhássemos as eleições, teríamos um grupo de deputados na Assembleia Nacional que discordaria do Governo mas seria contra a independência.
.Foi expulso por causa disso?
.Sim, porque o Governo de Marcelo Caetano estava a preparar um golpe de independência em Angola, apoiado pelos EUA e a África do Sul, para obter uma independência tipo Rodésia...
.A sua lista poderia ter ganho?
.Sim. E o impacto internacional teria sido incrível, porque se veria que o verdadeiro movimento de oposição em Angola não são os guerrilheiros independentistas. Querem justiça, desenvolvimento, progresso. A independência, logo se veria. O MPLA e a UNITA achavam que Angola não estava ainda preparada para a independência. Precisavam de mais tempo.
.Os movimentos de libertação teriam desistido da luta?
.Não. Mas tive apoios discretos deles. Se o nosso movimento tivesse tido êxito e a evolução política de Angola tivesse sido positiva, talvez se tivesse chegado a um acordo com esses movimentos. Tornar-se-iam partidos políticos, iriam a eleições....
.E em Portugal não teria havido 25 de Abril.
.Exactamente. Não teria sido preciso.
.Teria havido uma transição pacífica?
Acho que sim. O próprio Marcelo Caetano poderia ter conduzido essa evolução.
.Teria sido benéfico para Portugal?
.O pior que poderia ter acontecido a Portugal foi a revolução. As nacionalizações, as ocupações, a destruição do sistema bancário atrasaram a nossa economia pelo menos 10 anos. Nessa altura, estávamos mais avançados economicamente do que a Espanha. Depois passámos para trás.
.A revolução não foi importante para mudar mentalidades?
.Nas mentalidades, a revolução trouxe a ideia de que todos temos direitos e não temos deveres.
.Ainda não recuperámos disso?
.Temos milhares de pessoas a viverem do Estado sem fazerem nada, temos 25 por cento de pobres.
.Antes da revolução já tínhamos.
.Em termos absolutos era pior. Mas passaram-se 30 anos. Em termos comparativos com o resto da Europa, estávamos melhor do que estamos hoje.
.O atraso que temos é herdeiro do 25 de Abril?
.É sobretudo herdeiro de 1910. Se o rei D. Carlos não tivesse sido assassinado, não teria havido a revolução republicana. A nossa monarquia teria evoluído democraticamente como as outras. A revolução de 1910 atrasou Portugal muitos anos, e teve como consequência a revolução do Estado Novo de 1926.
.É um ciclo de desgraças.
.Sim, de atrasos no desenvolvimento português. E agora, mais uma vez, se houver uma grave crise, ninguém acredita que a democracia a resolva. As pessoas vão dizer que querem um militar que tome conta de nós.
.Isso lembra o que Manuela Ferreira Leite disse recentemente. A grave crise pode, de facto, acontecer? Pode acabar com a democracia?
.A educação democrática em Portugal é muito fraca. As pessoas ainda não perceberam qual é o papel dos partidos e do Parlamento. Se houver uma crise grave, com fome, pilhagens, tudo isto vai por água abaixo. Basta que, por um acto terrorista, não recebamos petróleo, que por causa de greves, ou distúrbios, a importação de produtos alimentares seja suspensa. Somos completamente dependentes. Pode haver centenas de milhares de pessoas a manifestarem-se por uma intervenção totalitária dos militares, ou do Presidente.
.Como é que o regime impede que se chegue a esse ponto?
.É preciso que a democracia seja participativa. Devia haver referendos, a sociedade civil deveria participar das decisões. As pessoas não deveriam apenas depositar o seu voto numa urna (este nome não augura nada de bom. Geralmente, o que está na urna são os mortos). As organizações ecologistas, por exemplo, deveriam ter milhares de colaboradores...
.As monarquias são mais sensíveis à causa ecologista...
.Sim, porque defendem os valores permanentes.As próprias famílias reais são permanentes. No poder as monarquias são mais ecológicas porque estão mais próximas da natureza humana, que é baseada na família.
.As repúblicas são contranatura?
São. As repúblicas são contranatura. Excepto aquelas repúblicas muito tradicionais, como a Suíça, ou os EUA, onde, de algum modo, elegem um rei.
.O Presidente americano é um rei?Sim. Esteve mesmo para ser rei. E tem mais poder do que algum rei tem hoje em dia.
.Hoje não é o poder que faz um rei.
.Não, mas é um rei dos antigos.
.Em Portugal as pessoas também querem que o Presidente seja um rei?
.Querem. Ramalho Eanes, quando terminou o mandato, disse: tentei agir como um rei constitucional, porque é assim que os portugueses querem a chefia de Estado.
.Estar acima dos partidos, representar o povo directamente, ser conciliador...
.Exactamente. Representar os valores permanentes.
.O Presidente em Portugal é um rei disfarçado? A verdadeira república deveria ser parlamentarista?
.Sim. Mas o Parlamento é que decidiu ter um chefe de Estado que fizesse aquilo que o rei fazia antigamente.Mas sempre que o Presidente faz alguma coisa, discute-se quais devem ser os seus poderes. Quando Jorge Sampaio dissolveu a Assembleia, chegou a dizer-se que o fez para justificar a existência de um Presidente.Fez aquilo de uma maneira completamente abusiva. Tinha uma maioria estável no Parlamento. Só o fez porque o seu partido tinha uma posição confortável nas sondagens. Nenhum rei teria dissolvido a Assembleia.
.O Presidente tem ele próprio uma legitimidade eleitoral.
.Há um choque entre duas legitimidades. Essa é a razão da instabilidade das repúblicas. O Presidente representa sempre um partido, ou grupos de interesses. Só um rei está acima disso. Por isso nas monarquias há muito menos corrupção. Um rei não está pressionado. Não precisa.
quinta-feira, novembro 27, 2008
Avariado
Tive o disco avariado, felizmente consertado, bem virado e revirado para tocar a mesma música. Entretanto ando arredado da política do país, da notícia do jornal e nem a crise geral me acordou para a vida, oiço apenas uns zuns zuns que confirmam os rumores que o interregno alertou e que passo a resumir: - o regime já pifou!
.
Exemplos temos aos montes:
1. O tic tac não muda, é novela nacional, agora são os banqueiros, escolhem um deles e então, tentam provar à nação que ninguém escapa à justiça! É mentira digo eu, escapam laicos e maçons, republicanos de gema, com eles escapa o regime, e se alguém é chamuscado logo acorre em seu auxílio o processo salvador, o incidente matreiro, assim haja advogado e muito, muito dinheiro;
2. O Cavaco também não – imaginem o coitado que deposita onde pode, onde rende pois claro, e a inocência era tanta que pensei na Dona Branca;
3. A educação manifesta-se, não quer ser avaliada, nunca foi, porquê agora?! Aconteceu alguma coisa?!
4. A Manelinha faz contas mas não sabe matemática, ditaduras de seis meses são fruto da imaginação! O povo quer mais que isso e vai falando (e rezando) no santo de Comba Dão!
No meio da confusão o interregno pergunta: mas o regime não conta para encontrar solução?!
Saudações monárquicas
Exemplos temos aos montes:
1. O tic tac não muda, é novela nacional, agora são os banqueiros, escolhem um deles e então, tentam provar à nação que ninguém escapa à justiça! É mentira digo eu, escapam laicos e maçons, republicanos de gema, com eles escapa o regime, e se alguém é chamuscado logo acorre em seu auxílio o processo salvador, o incidente matreiro, assim haja advogado e muito, muito dinheiro;
2. O Cavaco também não – imaginem o coitado que deposita onde pode, onde rende pois claro, e a inocência era tanta que pensei na Dona Branca;
3. A educação manifesta-se, não quer ser avaliada, nunca foi, porquê agora?! Aconteceu alguma coisa?!
4. A Manelinha faz contas mas não sabe matemática, ditaduras de seis meses são fruto da imaginação! O povo quer mais que isso e vai falando (e rezando) no santo de Comba Dão!
No meio da confusão o interregno pergunta: mas o regime não conta para encontrar solução?!
Saudações monárquicas
terça-feira, novembro 18, 2008
A ode do contentor
"Sózinho no cais deserto, naquela manhã de Verão..."
.
Entretanto interrompida
Pela pressa do governo
A febre dos contentores
A habitual concessão
Em Alcântara onde nasci
Destroçada pela ponte
Onde o Prior se bateu
Contra o Alba que venceu
Querem encher a ribeira
No vai e vem das marés
Os sete rios que ali correm
Com projectos de alcatrão
E nada demove esta gente
Fiel ao deus financeiro
Abusadores impolutos
Navegadores de caneiro.
sexta-feira, outubro 31, 2008
Dois Magalhães para Espanha
A história é conhecida, Sócrates resolveu aproveitar a Cimeira ibero-americana, a decorrer em El Salvador, para oferecer um computador Magalhães a cada um dos participantes.
Ora bem, sabendo que são 22 os países representados, e sabendo também que Portugal não ofereceu nenhum computador a si próprio, apetece lançar daqui uma adivinha – afinal quantos computadores ofereceu Sócrates?
Fiz a mesma pergunta no centro educativo onde trabalho e a resposta veio óbvia mas errada. Todos responderam 21. Claro que Sócrates ofereceu 22 computadores, tal como Lula o teria feito se fosse ele o ofertante. O vigésimo segundo computador, decerto o primeiro, foi naturalmente entregue ao Rei de Espanha. Zapatero recebeu um computador pela representação dos interesses da Espanha na conjuntura; o rei, que torna compreensível a Cimeira, recebeu o Magalhães da História.
Fácil de entender.
E nós? Nós que somos o outro país ibérico colonizador, onde deixámos o nosso representante?! Aquele que justifica a participação?!
Triste e inutilmente, lá fomos em duplicado, mas a léguas de distância da representação inteira, cabal, com que a Espanha sempre se apresenta!
A história anda de facto à nossa procura… mas a gente tem vergonha… e esconde-se!
Ora bem, sabendo que são 22 os países representados, e sabendo também que Portugal não ofereceu nenhum computador a si próprio, apetece lançar daqui uma adivinha – afinal quantos computadores ofereceu Sócrates?
Fiz a mesma pergunta no centro educativo onde trabalho e a resposta veio óbvia mas errada. Todos responderam 21. Claro que Sócrates ofereceu 22 computadores, tal como Lula o teria feito se fosse ele o ofertante. O vigésimo segundo computador, decerto o primeiro, foi naturalmente entregue ao Rei de Espanha. Zapatero recebeu um computador pela representação dos interesses da Espanha na conjuntura; o rei, que torna compreensível a Cimeira, recebeu o Magalhães da História.
Fácil de entender.
E nós? Nós que somos o outro país ibérico colonizador, onde deixámos o nosso representante?! Aquele que justifica a participação?!
Triste e inutilmente, lá fomos em duplicado, mas a léguas de distância da representação inteira, cabal, com que a Espanha sempre se apresenta!
A história anda de facto à nossa procura… mas a gente tem vergonha… e esconde-se!
.
Saudações monárquicas.
Saudações monárquicas.
quinta-feira, outubro 30, 2008
Eleições na América
É o assunto obrigatório, quem será o novo César!
E os portugueses andam preocupados com isso, parecem dependentes do respectivo resultado! Mas há excepções. Por exemplo, a minha cadela (que se chama ‘Bolacha’) está-se borrifando para as eleições americanas. Tem lá a sua vidinha e desde que não falte a ração tanto lhe faz que o próximo presidente seja o incolor Obama ou o candidato republicano mais a sua vice miss Alasca. É-lhe completamente indiferente. E eu nestas coisas até a compreendo – toda esta esperança nasce afinal de uma ficção política muito conhecida e que se repete entre nós a cada eleição presidencial, a saber : - o candidato vencedor gosta de dizer no seu primeiro discurso que é ‘o presidente de todos os portugueses’! A cadela não acredita nisto, e eu também não.
Mas muitos acreditam e transportam esta ficção para as eleições americanas pensando tratar-se da eleição do presidente do mundo e não do presidente dos Estados Unidos da América! E aqui começa o enredo e o engano – a verdade é que seja quem for o eleito também ele se estará borrifando para os interesses alheios, pois tem a sua própria agenda e escala de prioridades, que não anda muito longe disto: em primeiro lugar terá de satisfazer os interesses de quem lhe pagou a campanha; depois virão os interesses da potência imperialista que vem explorando e submetendo o planeta à sua voracidade; finalmente, conta com aliados submissos que lhe sirvam de escudo contra os inimigos que crescem ao ritmo das suas ‘proezas’.
Por isso, não espero nada de César, o que tivermos que fazer em prol da comunidade a que pertencemos terá de ser feito por nós, portas adentro. Quanto à minha vidinha (e da cadela) também terei de ser eu a olhar pelos dois.
Saudações.
Mas muitos acreditam e transportam esta ficção para as eleições americanas pensando tratar-se da eleição do presidente do mundo e não do presidente dos Estados Unidos da América! E aqui começa o enredo e o engano – a verdade é que seja quem for o eleito também ele se estará borrifando para os interesses alheios, pois tem a sua própria agenda e escala de prioridades, que não anda muito longe disto: em primeiro lugar terá de satisfazer os interesses de quem lhe pagou a campanha; depois virão os interesses da potência imperialista que vem explorando e submetendo o planeta à sua voracidade; finalmente, conta com aliados submissos que lhe sirvam de escudo contra os inimigos que crescem ao ritmo das suas ‘proezas’.
Por isso, não espero nada de César, o que tivermos que fazer em prol da comunidade a que pertencemos terá de ser feito por nós, portas adentro. Quanto à minha vidinha (e da cadela) também terei de ser eu a olhar pelos dois.
Saudações.
quinta-feira, outubro 23, 2008
Ajudar a república
Vamos lá ajudar o regime a sair da crise, do beco sem saída em que se meteu, mas para isso é preciso acabar com este ‘jogo do empurra’, que consome e arrasa a nação, um jogo infantil em que as sucessivas repúblicas se vão justificando umas à outras – a terceira a garantir que nos libertou da ditadura da segunda, as saudades da segunda a reclamarem o fim da balbúrdia da primeira. Temos que acabar com isto rápidamente, porque não tarda virá uma quarta república (já se ouvem aliás os seus tambores) que dirá que nos vem libertar das crises internacionais que importamos e com as quais nos desculpamos! E terá por certo razão, como todas as outras, basta-lhe para tanto invocar a realidade insofismável – o fosso entre ricos e pobres não cessa de aumentar, e nesta matéria ocupamos as piores posições em todos os rankings!
Portanto o que há a fazer é o seguinte: em primeiro lugar temos que ser capazes de realizar um referendo, um acto terapêutico que nos liberte dos fantasmas do passado, e que ao mesmo tempo responsabilize os portugueses pelo regime que têm e que afinal escolheram. Não está em causa a vitória da república, que será natural, até esmagadora, o importante será o próximo passo – o que fazer com essa vitória?!
Assim responsabilizados, sem mais desculpas, governantes e governados serão obrigados a olhar para o futuro e se houver alguma lucidez (e humildade) estaremos em condições de nos reconciliarmos com a história, com a nossa história, feita de erros e virtudes, como é uso entre os homens.
Talvez então se imponham (a todos) algumas alterações na estrutura representativa, a benefício de Portugal, como por exemplo: atribuir a um rei e a uma dinastia a representação do vínculo histórico que nos une; incluir nessa representação as várias repúblicas (regiões autónomas que já existem e aquelas que poderão vir a existir) que compõem o universo lusófono; e de uma maneira geral seguir a lógica representativa dos valores que em determinada época se consideram permanentes.
Ao chefe de estado republicano caberia a restante representação, nomeadamente aquela que faz sentido corresponder aos anos do respectivo mandato.
E quem sabe se não descobriríamos (por alguma razão fomos descobridores!) que existe uma duplicação inútil no nosso sistema representativo (onde primeiro-ministro e chefe de estado concorrem na mesma legitimidade) e não suprimíamos um dos cargos!
Uma hipótese para o futuro, um futuro sem preconceitos políticos colectivos nem complexos de inferioridade individuais.
Saudações.
Portanto o que há a fazer é o seguinte: em primeiro lugar temos que ser capazes de realizar um referendo, um acto terapêutico que nos liberte dos fantasmas do passado, e que ao mesmo tempo responsabilize os portugueses pelo regime que têm e que afinal escolheram. Não está em causa a vitória da república, que será natural, até esmagadora, o importante será o próximo passo – o que fazer com essa vitória?!
Assim responsabilizados, sem mais desculpas, governantes e governados serão obrigados a olhar para o futuro e se houver alguma lucidez (e humildade) estaremos em condições de nos reconciliarmos com a história, com a nossa história, feita de erros e virtudes, como é uso entre os homens.
Talvez então se imponham (a todos) algumas alterações na estrutura representativa, a benefício de Portugal, como por exemplo: atribuir a um rei e a uma dinastia a representação do vínculo histórico que nos une; incluir nessa representação as várias repúblicas (regiões autónomas que já existem e aquelas que poderão vir a existir) que compõem o universo lusófono; e de uma maneira geral seguir a lógica representativa dos valores que em determinada época se consideram permanentes.
Ao chefe de estado republicano caberia a restante representação, nomeadamente aquela que faz sentido corresponder aos anos do respectivo mandato.
E quem sabe se não descobriríamos (por alguma razão fomos descobridores!) que existe uma duplicação inútil no nosso sistema representativo (onde primeiro-ministro e chefe de estado concorrem na mesma legitimidade) e não suprimíamos um dos cargos!
Uma hipótese para o futuro, um futuro sem preconceitos políticos colectivos nem complexos de inferioridade individuais.
Saudações.
sexta-feira, outubro 17, 2008
Mudar de vida
Prometo, não toco em nada, na crise que todos falam, prometo passar ao largo, mas se é global como dizem, se não vem da natureza, terei também que assumir a quota parte de culpa que me cabe neste transe, nesta parcela que habito, onde vivo e onde voto, nas coisas que não preciso e que compro sem poder, muitas vezes a dever, mas o pior é que faço do consumo a minha regra, e aumento sem saber a perversão que hoje existe, sem horizonte ou remédio, desligada da memória, desligados uns dos outros, recurvados no umbigo, perdeu a vida o sentido e moralista não sou.
Para obviar ao que digo vou olhar o firmamento, contar as estrelas do céu, descobrir nas madrugadas o cheiro que a terra tem e agradecer a beleza bem criada por Alguém! Faço parte deste todo, sozinho não sou ninguém. Para conseguir tudo isto eu só vejo uma saída – vamos ter que mudar de vida.
Para obviar ao que digo vou olhar o firmamento, contar as estrelas do céu, descobrir nas madrugadas o cheiro que a terra tem e agradecer a beleza bem criada por Alguém! Faço parte deste todo, sozinho não sou ninguém. Para conseguir tudo isto eu só vejo uma saída – vamos ter que mudar de vida.
sexta-feira, outubro 10, 2008
A bolsa ou a vida!
Assim de repente, o mundo reduzido a uma escolha tão simples, nem sei que lhes diga, talvez a bolsa! Talvez a vida!
Não tive escolha, como não tinha bolsa tive que dar a vida! Depois levaram-me ao cimo de um monte e ofereceram-me a resignação. Lembro-me bem, estávamos nesse tempo a celebrar as exéquias do comunismo, o muro tinha caído, e diziam-nos que o mercado era a porta da felicidade. Não acreditei, mas já era tarde, executivos e gestores irromperam pela sala, apresentaram-me os números e fizeram-me sentir o inútil que sou. Estava a mais, e por mais contas que fizessem estava sempre a mais! Reagi, falei na produção, que a empresa era antiga e já tinha passado por outras tormentas… Meu Deus, o que eu fui dizer! Alvejado com nova rajada de números ouvi a temível previsão – a continuarmos assim estamos perdidos.
Saí com a noção patriótica de que se não saísse a empresa não se salvava.
Num último gesto de solidariedade despedi-me da telefonista prestes a ser substituída por um gravador de voz.
O mundo girou entretanto, a engenharia e euforia financeiras instalaram-se, os executivos foram enriquecendo mas a empresa foi empobrecendo.
Hoje está mal, não se recomenda. E, como as demais, espera ansiosamente por uma ‘mãozinha’ do Estado!
Não tive escolha, como não tinha bolsa tive que dar a vida! Depois levaram-me ao cimo de um monte e ofereceram-me a resignação. Lembro-me bem, estávamos nesse tempo a celebrar as exéquias do comunismo, o muro tinha caído, e diziam-nos que o mercado era a porta da felicidade. Não acreditei, mas já era tarde, executivos e gestores irromperam pela sala, apresentaram-me os números e fizeram-me sentir o inútil que sou. Estava a mais, e por mais contas que fizessem estava sempre a mais! Reagi, falei na produção, que a empresa era antiga e já tinha passado por outras tormentas… Meu Deus, o que eu fui dizer! Alvejado com nova rajada de números ouvi a temível previsão – a continuarmos assim estamos perdidos.
Saí com a noção patriótica de que se não saísse a empresa não se salvava.
Num último gesto de solidariedade despedi-me da telefonista prestes a ser substituída por um gravador de voz.
O mundo girou entretanto, a engenharia e euforia financeiras instalaram-se, os executivos foram enriquecendo mas a empresa foi empobrecendo.
Hoje está mal, não se recomenda. E, como as demais, espera ansiosamente por uma ‘mãozinha’ do Estado!
segunda-feira, outubro 06, 2008
Estranha sensação
Para que serve um blog?! Pergunta mil vezes repetida, com múltiplas respostas, eu respondo por mim: - serve para isto, para partilhar sentimentos com o desconhecido e alguns conhecidos, serve para falar sozinho, sem grandes esperanças e também sem grandes ilusões…
Dirão os mais argutos e graciosos: - serve para escrever disparates.
Ontem tentei seguir o diálogo na ‘câmara clara’ entre um monárquico e um republicano. Via um bocadinho e desistia, mudava de canal, voltava mais tarde e voltava a desistir, não que a conversa não merecesse atenção, eram dois historiadores que se conheciam bem, a troca de opiniões situava-se num nível intelectual elevado, em clima ameno, e pareceu-me que no essencial estavam de acordo – estas celebrações do centenário da república (ou da implantação da república) deveriam servir para pensar. O republicano queria pensar no que falhou na primeira república e o monárquico talvez quisesse pensar no que falhou na monarquia.
Mas eu desistia porque aquilo era triste e porque o tom desencantado de ambos confirmava os meus sentimentos. A verdade é que falhámos e as celebrações tratam disso mesmo – de um país falhado.
E andamos a justificar, a desculpar, a esconder algo que incomoda e nos separa irremediávelmente uns dos outros. Por isso, as palavras mansas já não me alegram, cavada no fundo da alma fica uma estranha sensação de distãncia de todo este aparato.
Repito, a data é triste, divide, e qualquer festejo é mais um passo no sentido contrário de Portugal.
Dirão os mais argutos e graciosos: - serve para escrever disparates.
Ontem tentei seguir o diálogo na ‘câmara clara’ entre um monárquico e um republicano. Via um bocadinho e desistia, mudava de canal, voltava mais tarde e voltava a desistir, não que a conversa não merecesse atenção, eram dois historiadores que se conheciam bem, a troca de opiniões situava-se num nível intelectual elevado, em clima ameno, e pareceu-me que no essencial estavam de acordo – estas celebrações do centenário da república (ou da implantação da república) deveriam servir para pensar. O republicano queria pensar no que falhou na primeira república e o monárquico talvez quisesse pensar no que falhou na monarquia.
Mas eu desistia porque aquilo era triste e porque o tom desencantado de ambos confirmava os meus sentimentos. A verdade é que falhámos e as celebrações tratam disso mesmo – de um país falhado.
E andamos a justificar, a desculpar, a esconder algo que incomoda e nos separa irremediávelmente uns dos outros. Por isso, as palavras mansas já não me alegram, cavada no fundo da alma fica uma estranha sensação de distãncia de todo este aparato.
Repito, a data é triste, divide, e qualquer festejo é mais um passo no sentido contrário de Portugal.
sexta-feira, outubro 03, 2008
A casa da república
Lavra forte estupefacção pelo país surpreendido que ficou com os critérios de distribuição de casas que a Câmara de Lisboa vem efectuando, pelo menos, ao longo destes últimos vinte anos. Eu tenho menos dúvidas porque sei perfeitamente onde vivo e o que a casa gasta.
Com efeito, se recuarmos um pouco no tempo começamos a compreender que a Câmara de Lisboa é uma herança do partido republicano (e da maçonaria) que a conquistou em 1908 através de eleições livres e democráticas ainda na vigência da monarquia constitucional.
Foi a partir da Câmara que ‘treparam’ depois até à república própriamente dita, (os métodos são conhecidos) e foi do seu varandim que no dia 5 de Outubro de 1910 acenaram à multidão de ‘adesivos’ que acorreu à Praça do Município para saudar o novo regime.
De então para cá e especialmente depois de Abril de 1974 a Câmara voltou a ser trampolim ou via verde para o acesso a Belém, o que vem confirmar que continuou a ser ocupada (com as naturais excepções) por pessoas da mesma estirpe.
Portanto é lógico que os actuais herdeiros se sintam proprietários da Câmara e como qualquer proprietário agem em conformidade. Não têm que definir critérios, aquilo é deles e distribuem as casas a quem muito bem entendem. É costume, é legal e ponto final.
Como por outro lado também são proprietários da ética – a célebre ética republicana – não existe mais nada a acrescentar.
Saudações monárquicas.
Com efeito, se recuarmos um pouco no tempo começamos a compreender que a Câmara de Lisboa é uma herança do partido republicano (e da maçonaria) que a conquistou em 1908 através de eleições livres e democráticas ainda na vigência da monarquia constitucional.
Foi a partir da Câmara que ‘treparam’ depois até à república própriamente dita, (os métodos são conhecidos) e foi do seu varandim que no dia 5 de Outubro de 1910 acenaram à multidão de ‘adesivos’ que acorreu à Praça do Município para saudar o novo regime.
De então para cá e especialmente depois de Abril de 1974 a Câmara voltou a ser trampolim ou via verde para o acesso a Belém, o que vem confirmar que continuou a ser ocupada (com as naturais excepções) por pessoas da mesma estirpe.
Portanto é lógico que os actuais herdeiros se sintam proprietários da Câmara e como qualquer proprietário agem em conformidade. Não têm que definir critérios, aquilo é deles e distribuem as casas a quem muito bem entendem. É costume, é legal e ponto final.
Como por outro lado também são proprietários da ética – a célebre ética republicana – não existe mais nada a acrescentar.
Saudações monárquicas.
terça-feira, setembro 30, 2008
O lado sombrio do centenário
A conferência de imprensa foi ontem na ‘York House’ cabendo a João Távora e Carlos Bobone, muito bem secundados por Inês Dentinho, apresentarem a plataforma monárquica para o centenário da República – um site e um blog para ajudar a restabelecer a verdade sobre este período da história portuguesa.
Dois espaços na internet cuja leitura recomendo, apesar de ser parte interessada.
Saudações monárquicas.
Dois espaços na internet cuja leitura recomendo, apesar de ser parte interessada.
Saudações monárquicas.
domingo, setembro 28, 2008
"Eu já vivi o vosso futuro"
Declarações do escritor, dissidente soviético, Vladimir Bukovsky sobre o Tratado de Lisboa
É surpreendente que após ter enterrado um monstro, a URSS, se tenha construído outro semelhante: a União Europeia (UE). O que é, exactamente a União Europeia? Talvez fiquemos a sabê-lo examinando a sua versão soviética.
A URSS era governada por quinze pessoas não eleitas que se cooptavam mutuamente e não tinham que responder perante ninguém. A UE é governada por duas dúzias de pessoas que se reúnem à porta fechada e, também não têm que responder perante ninguém, sendo politicamente impunes.
Poderá dizer-se que a UE tem um Parlamento. A URSS também tinha uma espécie de Parlamento, o Soviete Supremo. Nós, (na URSS) aprovávamos, sem discussão, as decisões do Politburo, como na prática acontece no Parlamento Europeu, em que o uso da palavra concedido a cada grupo está limitado, frequentemente, a um minuto por cada interveniente.
Na UE há centenas de milhares de eurocratas com vencimentos muito elevados, com prémios e privilégios enormes e, com imunidade judicial vitalícia, sendo apenas transferidos de um posto para outro, façam bem ou façam mal. Não é a URSS escarrada?
A URSS foi criada sob coacção, muitas vezes pela via da ocupação militar. No caso da Europa está a criar-se uma UE, não sob a força das armas, mas pelo constrangimento e pelo terror económicos.
Para poder continuar a existir, a URSS expandiu-se de forma crescente. Desde que deixou de crescer, começou a desabar. Suspeito que venha a acontecer o mesmo com a UE. Proclamou-se que o objectivo da URSS era criar uma nova entidade histórica: o Povo Soviético. Era necessário esquecer as nacionalidades, as tradições e os costumes. O mesmo acontece com a UE parece. A UE não quer que sejais ingleses ou franceses, pretende dar-vos uma nova identidade: ser «europeus», reprimindo os vosso sentimentos nacionais e, forçar-vos a viver numa comunidade multinacional. Setenta e três anos deste sistema na URSS acabaram em mais conflitos étnicos, como não aconteceu em nenhuma outra parte do mundo.
Um dos objectivos «grandiosos» da URSS era destruir os estados-nação. É exactamente isso que vemos na Europa, hoje. Bruxelas tem a intenção de fagocitar os estados-nação para que deixem de existir.
O sistema soviético era corrupto de alto a baixo. Acontece a mesma coisa na UE. Os procedimentos antidemocráticos que víamos na URSS florescem na UE. Os que se lhe opõem ou os denunciam são amordaçados ou punidos. Nada mudou. Na URSS tínhamos o «goulag». Creio que ele também existe na UE. Um goulag intelectual, designado por «politicamente correcto». Experimentai dizer o que pensais sobre questões como a raça e a sexualidade. Se as vossas opiniões não forem «boas», «politicamente correctas», sereis ostracizados. É o começo do «goulag». É o princípio da perda da vossa liberdade. Na URSS pensava-se que só um estado federal evitaria a guerra. Dizem-nos exactamente a mesma coisa na UE. Em resumo, é a mesma ideologia em ambos os sistemas. A UE é o velho modelo soviético vestido à moda ocidental. Mas, como a URSS, a UE traz consigo os germes da sua própria destruição. Desgraçadamente, quando ela desabar, porque irá desabar, deixará atrás de si um imenso descalabro e enormes problemas económicos e étnicos. O antigo sistema soviético era irreformável. Do mesmo modo, a UE também o é. (…)
Eu já vivi o vosso «futuro»…
É surpreendente que após ter enterrado um monstro, a URSS, se tenha construído outro semelhante: a União Europeia (UE). O que é, exactamente a União Europeia? Talvez fiquemos a sabê-lo examinando a sua versão soviética.
A URSS era governada por quinze pessoas não eleitas que se cooptavam mutuamente e não tinham que responder perante ninguém. A UE é governada por duas dúzias de pessoas que se reúnem à porta fechada e, também não têm que responder perante ninguém, sendo politicamente impunes.
Poderá dizer-se que a UE tem um Parlamento. A URSS também tinha uma espécie de Parlamento, o Soviete Supremo. Nós, (na URSS) aprovávamos, sem discussão, as decisões do Politburo, como na prática acontece no Parlamento Europeu, em que o uso da palavra concedido a cada grupo está limitado, frequentemente, a um minuto por cada interveniente.
Na UE há centenas de milhares de eurocratas com vencimentos muito elevados, com prémios e privilégios enormes e, com imunidade judicial vitalícia, sendo apenas transferidos de um posto para outro, façam bem ou façam mal. Não é a URSS escarrada?
A URSS foi criada sob coacção, muitas vezes pela via da ocupação militar. No caso da Europa está a criar-se uma UE, não sob a força das armas, mas pelo constrangimento e pelo terror económicos.
Para poder continuar a existir, a URSS expandiu-se de forma crescente. Desde que deixou de crescer, começou a desabar. Suspeito que venha a acontecer o mesmo com a UE. Proclamou-se que o objectivo da URSS era criar uma nova entidade histórica: o Povo Soviético. Era necessário esquecer as nacionalidades, as tradições e os costumes. O mesmo acontece com a UE parece. A UE não quer que sejais ingleses ou franceses, pretende dar-vos uma nova identidade: ser «europeus», reprimindo os vosso sentimentos nacionais e, forçar-vos a viver numa comunidade multinacional. Setenta e três anos deste sistema na URSS acabaram em mais conflitos étnicos, como não aconteceu em nenhuma outra parte do mundo.
Um dos objectivos «grandiosos» da URSS era destruir os estados-nação. É exactamente isso que vemos na Europa, hoje. Bruxelas tem a intenção de fagocitar os estados-nação para que deixem de existir.
O sistema soviético era corrupto de alto a baixo. Acontece a mesma coisa na UE. Os procedimentos antidemocráticos que víamos na URSS florescem na UE. Os que se lhe opõem ou os denunciam são amordaçados ou punidos. Nada mudou. Na URSS tínhamos o «goulag». Creio que ele também existe na UE. Um goulag intelectual, designado por «politicamente correcto». Experimentai dizer o que pensais sobre questões como a raça e a sexualidade. Se as vossas opiniões não forem «boas», «politicamente correctas», sereis ostracizados. É o começo do «goulag». É o princípio da perda da vossa liberdade. Na URSS pensava-se que só um estado federal evitaria a guerra. Dizem-nos exactamente a mesma coisa na UE. Em resumo, é a mesma ideologia em ambos os sistemas. A UE é o velho modelo soviético vestido à moda ocidental. Mas, como a URSS, a UE traz consigo os germes da sua própria destruição. Desgraçadamente, quando ela desabar, porque irá desabar, deixará atrás de si um imenso descalabro e enormes problemas económicos e étnicos. O antigo sistema soviético era irreformável. Do mesmo modo, a UE também o é. (…)
Eu já vivi o vosso «futuro»…
.
.
.Recebi este depoimento através de pessoa amiga e hoje é um bom dia para o publicar. Especialmente para quem se lembra dos acontecimentos de outro 28 de Setembro onde os abrilistas que nos governam se barricaram para, de punho erguido, "travarem o passo à reacção"! Infelizmente travaram o passo a Portugal.
Para quem não se lembra também não faz mal, porque a história repete-se, como bem lembra Vladimir Bukovsky.
quinta-feira, setembro 25, 2008
Sequência Filipina
Não é a prometida prova de vida, é um mero atestado, afinal o coração ainda bate, do mal o menos, como diria uma visita mais atenta desta casa. Aliás, salvo a ‘excitação Magalhães’ nem me parece que exista muita coisa para escrever! E à cautela vou esperar pelos ‘albuquerques’, computadores de outra geração, menos internacionais mas mais próximos do meu feitio.
Mas voltando à ‘sequência filipina’ - não se assustem, não é a má, é a boa, que foi anterior à má e muito anterior à próxima, que voltará a ser má – estou a falar dos versos escritos na sub-cave que evocam a rainha portuguesa que deu origem a isto tudo, inclusivé aos Magalhães. Está na hora de os fazer subir aos salões para ver se respiram um bocadinho. Uma versão para fado, fado português, nosso fado e meu fado:
Ah, és tu….
Rosa vermelha encarnada
Que um dia aqui aportaste
Vinda nas brumas do mar
Humano ventre chamada
Do Império que geraste...
Perdeste o fio à meada
Já não sabes navegar
Ah, és tu…
À procura de outra sorte
Outro rumo, outro norte
Que valha a pena alcançar
Sim, és tu…
Flor da roseira bravia
Rosa vermelha tardia
Porque chegaste tão tarde!…
Saudações.
Mas voltando à ‘sequência filipina’ - não se assustem, não é a má, é a boa, que foi anterior à má e muito anterior à próxima, que voltará a ser má – estou a falar dos versos escritos na sub-cave que evocam a rainha portuguesa que deu origem a isto tudo, inclusivé aos Magalhães. Está na hora de os fazer subir aos salões para ver se respiram um bocadinho. Uma versão para fado, fado português, nosso fado e meu fado:
Ah, és tu….
Rosa vermelha encarnada
Que um dia aqui aportaste
Vinda nas brumas do mar
Humano ventre chamada
Do Império que geraste...
Perdeste o fio à meada
Já não sabes navegar
Ah, és tu…
À procura de outra sorte
Outro rumo, outro norte
Que valha a pena alcançar
Sim, és tu…
Flor da roseira bravia
Rosa vermelha tardia
Porque chegaste tão tarde!…
Saudações.
sexta-feira, setembro 05, 2008
Lembranças da Casa Pia…
Este título tem ressonâncias com outro que fez cartaz num filme de César Monteiro, mas é essa a única semelhança. No mais, fica a memória de uma previsão anedótica feita no início do processo – as vítimas da Casa Pia ainda responderão em tribunal pelas suas queixas!
O óbvio num país onde existem pessoas acima de qualquer suspeita, onde a impunidade tem força de lei escudada nos enredos de um processo feito à medida dos poderosos. A originalidade de haver crime sem criminosos!
Mas isto é latim e ninguém está interessado nesta lenga- lenga, muito embora esbraceje todos os dias contra a insegurança em vigor, sem perceber (porque não lhe convém) a ligação entre uma coisa e outra. Mas ela existe, porque um poder fragilizado no compadrio transmite à população um mau exemplo, acabando por legitimar a transgressão permanente.
Não temos portanto um problema de leis ou de penas, mas temos um problema de coragem para aplicar as leis e as penas que já existem.
Post-Scriptum: Veja-se um exemplo de impunidade e compadrio ao nível mais rasca: - parece que se ‘esqueceram’ de levar à presença de um juiz o adepto do Benfica que invadiu o campo e apertou o pescoço ao fiscal de linha! Em resultado não houve quaisquer consequências para o homenzinho. Terá sido para branquear a violência no futebol?! Foi para não dar má imagem dos adeptos do Benfica?! Ou por outra razão ainda mais ridícula?!
Claro que a partir de agora ninguém tem legitimidade para punir actos semelhantes, encorajando assim os infractores. E quando acontecer alguma coisa mais grave gritam todos - aqui d’El Rei… e eu é que sou monárquico!
O óbvio num país onde existem pessoas acima de qualquer suspeita, onde a impunidade tem força de lei escudada nos enredos de um processo feito à medida dos poderosos. A originalidade de haver crime sem criminosos!
Mas isto é latim e ninguém está interessado nesta lenga- lenga, muito embora esbraceje todos os dias contra a insegurança em vigor, sem perceber (porque não lhe convém) a ligação entre uma coisa e outra. Mas ela existe, porque um poder fragilizado no compadrio transmite à população um mau exemplo, acabando por legitimar a transgressão permanente.
Não temos portanto um problema de leis ou de penas, mas temos um problema de coragem para aplicar as leis e as penas que já existem.
Post-Scriptum: Veja-se um exemplo de impunidade e compadrio ao nível mais rasca: - parece que se ‘esqueceram’ de levar à presença de um juiz o adepto do Benfica que invadiu o campo e apertou o pescoço ao fiscal de linha! Em resultado não houve quaisquer consequências para o homenzinho. Terá sido para branquear a violência no futebol?! Foi para não dar má imagem dos adeptos do Benfica?! Ou por outra razão ainda mais ridícula?!
Claro que a partir de agora ninguém tem legitimidade para punir actos semelhantes, encorajando assim os infractores. E quando acontecer alguma coisa mais grave gritam todos - aqui d’El Rei… e eu é que sou monárquico!
sexta-feira, agosto 22, 2008
Trégua olímpica
O interregno respeita a trégua milenar razão porque desvaloriza o conflito no Cáucaso, o regresso em força dos talibans ou a onda de insegurança que varre Portugal de norte a sul!
É verdade, vamos respeitar os jogos e assim continuaremos até que nos roubem a vida ou os bens, nomeadamente o computador que serve de instrumento de escrita.
E a trégua tem razão de ser pois tal como previ o triplo salto de Nelson Évora redimiu a nação!
O presidente já não se demite, os atletas deram o máximo para quem ganha tão pouco e afinal somos só onze milhões… mais os imigrantes, mais o império invisível que continuamos a carregar sobre os ombros.
A insegurança também não é assim tão grande, e se for, o governo há-de encontrar alguma solução estatística. Nada de alarmismos portanto.
Pior do que nós, coitados, estão aqueles que ainda não ganharam nenhuma medalha de ouro.
É verdade, vamos respeitar os jogos e assim continuaremos até que nos roubem a vida ou os bens, nomeadamente o computador que serve de instrumento de escrita.
E a trégua tem razão de ser pois tal como previ o triplo salto de Nelson Évora redimiu a nação!
O presidente já não se demite, os atletas deram o máximo para quem ganha tão pouco e afinal somos só onze milhões… mais os imigrantes, mais o império invisível que continuamos a carregar sobre os ombros.
A insegurança também não é assim tão grande, e se for, o governo há-de encontrar alguma solução estatística. Nada de alarmismos portanto.
Pior do que nós, coitados, estão aqueles que ainda não ganharam nenhuma medalha de ouro.
sábado, agosto 16, 2008
Diário Olímpico
“Peço desculpa aos portugueses porque estiveram a pagar para eu vir ao Jogos” – assim falou Obikwelu após ter falhado a presença na final dos 100 metros!
Este nigeriano que, recorde-se, trabalhava nas obras quando alguém se lembrou de o levar ao Belenenses, revelou nestas declarações a massa de que se fazem os campeões!
Que diferença de mentalidade em relação ao habitual!
Parabéns Obikwelu, não por teres perdido, mas porque és educado!
Saudações azuis.
Este nigeriano que, recorde-se, trabalhava nas obras quando alguém se lembrou de o levar ao Belenenses, revelou nestas declarações a massa de que se fazem os campeões!
Que diferença de mentalidade em relação ao habitual!
Parabéns Obikwelu, não por teres perdido, mas porque és educado!
Saudações azuis.
sexta-feira, agosto 15, 2008
De manhã, caminha…
Vamos pôr isto em bom português: eu caminho, tu caminha, estamos em Pequim e de manhã o corpo pede caminha. Melhor seria: vamos a caminho de Caminha que ainda é minha porque fica no Minho?! Consultar para o efeito o tratado de Tuy.
Seja o que for, a olimpíada portuguesa continua em alta: - os malandros dos árbitros; eram só oito setas…; foi por centésimos…; estou a gostar muito; esta viagem é um prémio; a égua assustou-se com a televisão!
A mentalidade anti-competitiva (quantas vezes já me referi a isto!) a funcionar - desde pequenino a não torcer o pepino – perder é uma vergonha, foi assim que te ensinaram, não foi meu rico menino?!
Vergonha e medo, por isso não és do Belenenses, diz a verdade, o teu pai (ou o teu tio) ainda eram, mas tu já não tens coragem de ser.
Não procurem razões (nem escutem os entendidos) porque aqui está a razão porque no futebol (e no resto) só há adeptos de três clubes… e com tendência minguante. Que isto de ser ‘região de Bruxelas/Madrid’ tem os seus inconvenientes, como por exemplo deixar de ser País. E nas regiões não se organizam campeonatos nacionais. Estão a ver?!
Bem, mas estávamos nós na caminha em Pequim onde se fala mandarim que vem do nosso verbo mandar. “Quando ainda tínhamos verbos…”!*
Seja o que for, a olimpíada portuguesa continua em alta: - os malandros dos árbitros; eram só oito setas…; foi por centésimos…; estou a gostar muito; esta viagem é um prémio; a égua assustou-se com a televisão!
A mentalidade anti-competitiva (quantas vezes já me referi a isto!) a funcionar - desde pequenino a não torcer o pepino – perder é uma vergonha, foi assim que te ensinaram, não foi meu rico menino?!
Vergonha e medo, por isso não és do Belenenses, diz a verdade, o teu pai (ou o teu tio) ainda eram, mas tu já não tens coragem de ser.
Não procurem razões (nem escutem os entendidos) porque aqui está a razão porque no futebol (e no resto) só há adeptos de três clubes… e com tendência minguante. Que isto de ser ‘região de Bruxelas/Madrid’ tem os seus inconvenientes, como por exemplo deixar de ser País. E nas regiões não se organizam campeonatos nacionais. Estão a ver?!
Bem, mas estávamos nós na caminha em Pequim onde se fala mandarim que vem do nosso verbo mandar. “Quando ainda tínhamos verbos…”!*
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*Lamento de Teodoro a caminho da China - ‘ O Mandarim’ de Eça de Queiroz.
*Lamento de Teodoro a caminho da China - ‘ O Mandarim’ de Eça de Queiroz.
quarta-feira, agosto 13, 2008
Olimpíadas na segunda circular
As bandeiras estão içadas dos dois lados, o estádio ninho de pássaro existe, por ali não faltam terrenos para dar e vender, tudo se conjuga para que as próximas olimpíadas se realizem em torno daqueles dois baluartes do desporto nacional!
Não vamos dar importância aos pormenores – esqueceram-se de construir uma pista de atletismo?! Não há problema, os atletas vão treinar a Espanha, em última análise pede-se mais um sacrifício ao orçamento de estado. O que é preciso é que o atleta apareça na fotografia com a camisola e o emblema do ‘baluarte’.
E quando não existem nem secção nem atleta também não há problema – adquirimos o atleta nos pequenos clubes dedicados á formação. A publicidade e os impostos dos portugueses encarregam-se do resto.
E isso resulta? Não, mas o povo gosta disso.
Noutro registo - enviámos a Pequim a maior representação de sempre a uns Jogos Olímpicos e não é preciso ser adivinho para perceber que será também a maior frustração de sempre em termos de resultados. Não estou a falar de medalhas mas da simples expectativa que os atletas superem (ou ao menos igualem) as suas melhores marcas.
Infelizmente será mais do mesmo, com dois ou três super dotados a conseguirem o ouro e a prata que escondem a verdade do nosso desporto olímpico. E a verdade é amarga, pois tal como na política, os resultados desportivos não enganam - continuamos a divergir da Europa. E não é por falta de apoios estatais nem de propaganda!
Então porque será?!
A primeira parte deste escrito dá uma pista (olímpica) – e que tal apoiar fortemente o desporto escolar em vez de esbanjar dinheiro em clubes profissionais de futebol que, pese a boa vontade de alguns carolas, são aquilo que são – clubes profissionais de futebol.
O eclectismo de antigamente já não existe, nem pode existir. O que existe nos outros países europeus é um desporto escolar bem organizado, e a jusante, clubes por modalidade, onde os mais aptos podem desenvolver os seus dotes, sem estarem sujeitos aos interesses da indústria do futebol, e não só.
Assim talvez se inverta o nosso fado.
Não vamos dar importância aos pormenores – esqueceram-se de construir uma pista de atletismo?! Não há problema, os atletas vão treinar a Espanha, em última análise pede-se mais um sacrifício ao orçamento de estado. O que é preciso é que o atleta apareça na fotografia com a camisola e o emblema do ‘baluarte’.
E quando não existem nem secção nem atleta também não há problema – adquirimos o atleta nos pequenos clubes dedicados á formação. A publicidade e os impostos dos portugueses encarregam-se do resto.
E isso resulta? Não, mas o povo gosta disso.
Noutro registo - enviámos a Pequim a maior representação de sempre a uns Jogos Olímpicos e não é preciso ser adivinho para perceber que será também a maior frustração de sempre em termos de resultados. Não estou a falar de medalhas mas da simples expectativa que os atletas superem (ou ao menos igualem) as suas melhores marcas.
Infelizmente será mais do mesmo, com dois ou três super dotados a conseguirem o ouro e a prata que escondem a verdade do nosso desporto olímpico. E a verdade é amarga, pois tal como na política, os resultados desportivos não enganam - continuamos a divergir da Europa. E não é por falta de apoios estatais nem de propaganda!
Então porque será?!
A primeira parte deste escrito dá uma pista (olímpica) – e que tal apoiar fortemente o desporto escolar em vez de esbanjar dinheiro em clubes profissionais de futebol que, pese a boa vontade de alguns carolas, são aquilo que são – clubes profissionais de futebol.
O eclectismo de antigamente já não existe, nem pode existir. O que existe nos outros países europeus é um desporto escolar bem organizado, e a jusante, clubes por modalidade, onde os mais aptos podem desenvolver os seus dotes, sem estarem sujeitos aos interesses da indústria do futebol, e não só.
Assim talvez se inverta o nosso fado.
terça-feira, agosto 05, 2008
Sem título
Há dias assim em que apetece escrever sem motivo ou reflexão levado na corrente das ideias até que o pensamento retenha uma palavra um nome…
Soljenitsine é um nome difícil de pronunciar mais difícil porém foi sobreviver com esse nome!
Depois do exílio depois do livro que desmascarou o paraíso soviético depois de um longínquo ‘gulag’ reservado a dissidentes morreu pacificamente na sua terra.
Morreu sem alarido e nem depois da morte se desvendam os segredos que a mãe Rússia guarda em silêncio – o escritor não reconhecia a sua Pátria nas vestes de um modelo importado, advogava o regresso do Czar, o reencontro com a tradição, mas disso não interessa falar.
Para a posteridade Alexandre Soljenitsine.
Soljenitsine é um nome difícil de pronunciar mais difícil porém foi sobreviver com esse nome!
Depois do exílio depois do livro que desmascarou o paraíso soviético depois de um longínquo ‘gulag’ reservado a dissidentes morreu pacificamente na sua terra.
Morreu sem alarido e nem depois da morte se desvendam os segredos que a mãe Rússia guarda em silêncio – o escritor não reconhecia a sua Pátria nas vestes de um modelo importado, advogava o regresso do Czar, o reencontro com a tradição, mas disso não interessa falar.
Para a posteridade Alexandre Soljenitsine.
sexta-feira, agosto 01, 2008
A crise republicana
A guerra surda entre a república (unitária) e as autonomias regionais produziu ontem mais um episódio insólito – numa inesperada comunicação ao país Cavaco Silva queixou-se do novo estatuto dos Açores (aprovado por unanimidade) alegando que lhe estavam a reduzir os poderes presidenciais.
Foi rápidamente secundado pelos partidos e personagens do costume e com as cambiantes conhecidas: - em romagem de saudade comunistas e centristas vieram em seu auxílio; no PSD fez-se um silêncio religioso; Sócrates pôs água na fervura; e o Bloco disfarçou com coisas mais importantes!
Porém não adianta desvalorizar o assunto porque estamos a falar do regime e da sua incapacidade para lidar com as autonomias regionais. Agora já não é o Governo que está no centro do conflito, é o próprio órgão Presidente da República que se ergue como força de bloqueio ao aprofundamento da autonomia e ao desenvolvimento regional!
Nestes termos não há que enganar - para um açoreano médio Cavaco Silva é um ‘inimigo’ dos Açores! E pela mesma bitola serão julgados os partidos que alinharem com o Presidente da República nas restrições à autonomia do arquipélago.
Foi rápidamente secundado pelos partidos e personagens do costume e com as cambiantes conhecidas: - em romagem de saudade comunistas e centristas vieram em seu auxílio; no PSD fez-se um silêncio religioso; Sócrates pôs água na fervura; e o Bloco disfarçou com coisas mais importantes!
Porém não adianta desvalorizar o assunto porque estamos a falar do regime e da sua incapacidade para lidar com as autonomias regionais. Agora já não é o Governo que está no centro do conflito, é o próprio órgão Presidente da República que se ergue como força de bloqueio ao aprofundamento da autonomia e ao desenvolvimento regional!
Nestes termos não há que enganar - para um açoreano médio Cavaco Silva é um ‘inimigo’ dos Açores! E pela mesma bitola serão julgados os partidos que alinharem com o Presidente da República nas restrições à autonomia do arquipélago.
E tudo isto com eleições à porta!
'Os dados estão (assim) lançados' e não foi por acaso que esta semana o ideólogo do regime (o ex-Vital comunista) se empenhava tanto em lembrar a quinta república francesa, uma espécie de visão de um presidencialismo redentor!
Mas que o caso é grave, é sim senhor.
'Os dados estão (assim) lançados' e não foi por acaso que esta semana o ideólogo do regime (o ex-Vital comunista) se empenhava tanto em lembrar a quinta república francesa, uma espécie de visão de um presidencialismo redentor!
Mas que o caso é grave, é sim senhor.
Talvez seja o fim do Interregno...
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Saudações monárquicas.
Saudações monárquicas.
terça-feira, julho 29, 2008
Idade perigosa
Há uma idade perigosa para os homens, já não é aos quarenta, é mais tarde, quando querem afirmar uma juventude que lhes escapa inexoravelmente. Nesta fase, enquanto uns procuram no alterne a julieta dos seus sonhos, outros arvoram-se nos revolucionários que nunca foram e emitem pareceres em conformidade.
Começam aqui os problemas para o próprio, mas especialmente para quem os rodeia, surpreendidos pelo insólito comportamento destes eternos jovens!
Por exemplo, aplicada ao futebol a ‘doutrina Freitas’ era assim: - o árbitro resolve expulsar um jogador pelas razões (certas ou erradas) que entende; o jogador não se conforma, revolta-se contra a decisão e recorre ali mesmo para o plenário dos jogadores; o plenário decide então manter o jogador em campo e aproveita a oportunidade para suspender e substituir o árbitro!
O mesmo exemplo pode servir para ilustrar como funcionaria a ‘doutrina Freitas’ no caso do árbitro decidir encerrar o encontro invocando não haver condições para o mesmo prosseguir: nesta situação o capitão da equipa que estava a perder (ou a ganhar) reclamava para o plenário de jogadores, que suspendiam o árbitro e prolongavam a partida.
Portanto escusa o professor Freitas de escrever um livro, basta-lhe uma folha A4 para esclarecer o seguinte: o presidente do Conselho de Justiça da FPF tem ou não tem poderes próprios?! E nesses poderes incluem-se ou não dar início e pôr fim às reuniões por ele convocadas?! Assim como declarar o impedimento de um qualquer conselheiro?!
Começam aqui os problemas para o próprio, mas especialmente para quem os rodeia, surpreendidos pelo insólito comportamento destes eternos jovens!
Por exemplo, aplicada ao futebol a ‘doutrina Freitas’ era assim: - o árbitro resolve expulsar um jogador pelas razões (certas ou erradas) que entende; o jogador não se conforma, revolta-se contra a decisão e recorre ali mesmo para o plenário dos jogadores; o plenário decide então manter o jogador em campo e aproveita a oportunidade para suspender e substituir o árbitro!
O mesmo exemplo pode servir para ilustrar como funcionaria a ‘doutrina Freitas’ no caso do árbitro decidir encerrar o encontro invocando não haver condições para o mesmo prosseguir: nesta situação o capitão da equipa que estava a perder (ou a ganhar) reclamava para o plenário de jogadores, que suspendiam o árbitro e prolongavam a partida.
Portanto escusa o professor Freitas de escrever um livro, basta-lhe uma folha A4 para esclarecer o seguinte: o presidente do Conselho de Justiça da FPF tem ou não tem poderes próprios?! E nesses poderes incluem-se ou não dar início e pôr fim às reuniões por ele convocadas?! Assim como declarar o impedimento de um qualquer conselheiro?!
É que se tem poderes próprios pode naturalmente exercê-los com certeza ou erro, e das suas decisões (e enquanto durar a reunião) não cabe recurso para o plenário do Conselho de Justiça.
Se isto não é assim, então o presidente do CJ (ou de qualquer outro órgão similar) não tem poderes próprios e até o início dos trabalhos tem que ser votado pelo plenário dos conselheiros!!!
Se isto não é assim, então o presidente do CJ (ou de qualquer outro órgão similar) não tem poderes próprios e até o início dos trabalhos tem que ser votado pelo plenário dos conselheiros!!!
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Enfim… incongruências da idade.
Enfim… incongruências da idade.
sexta-feira, julho 18, 2008
Bem comum
Segunda-feira passada, no ‘prós e contras’, um belga que por cá casou e ficou (a ensinar filosofia), exaltava as nossas qualidades como povo mas admirava-se com a ausência de sentido do ‘bem comum’ entre os portugueses. E exemplificava com a resistência dos condóminos em contribuírem para as partes comuns do condomínio!
Sabendo-se que a noção de ‘bem comum’ é o cimento (e o impulso) que constrói as pátrias e que a sua ausência ou desvalorização, conduzem à extinção ou à dissolução das mesmas, não pude deixar de prestar atenção a tal depoimento, ainda por cima vindo de um observador privilegiado.
E digo observador privilegiado porque a existência da Bélgica só se compreende apelando à noção de ‘bem comum’, uma vez que estamos perante um estado constituído (fundamentalmente) por duas comunidades, flamengos e valões, com origens e idiomas muito diferentes, em tudo propensas à separação.
Esta separação não acontece (não aconteceu até agora) porque a noção de ‘bem comum’ prevalece, e prevalece, em minha opinião, porque tem uma representação política adequada. Na Bélgica, como se sabe, quem representa e garante o ‘bem comum’ é a monarquia, ou se quiserem, ‘o rei dos belgas’.
Aqui chegados, lembro-me que no referido programa, Fátima Campos Ferreira não resistiu e leu uma conhecida crónica de Eça de Queiroz onde este descreve o ‘estado da nação’ à época (finais do séc. XIX e finais da monarquia), retrato em tudo semelhante ao tempo presente. A mesma crise social, igual descrédito na política, na justiça, a desconfiança generalizada, com toda a gente a dizer mal de tudo e de todos.
E vivíamos ainda em monarquia, exclamarão (satisfeitos) os republicanos!
Dando de barato que o regime era monárquico, eu chamar-lhe-ía antes uma ‘república coroada’, torna-se necessário admitir que a noção de ‘bem comum’ é uma coisa e a respectiva representação política é outra. Normalmente (e de forma natural) coincidem em monarquia e só excepcionalmente (por períodos de tempo limitado) podem coincidir em república. Nunca coincidem, digo eu, quando as elites que detêm o poder impõem à população usos e costumes estranhos às suas origens e cultura. O ataque à Igreja Católica e ao catolicismo é neste aspecto recorrente.
Era portanto lógico que o divórcio entre o povo e a ‘elite afrancesada’ que chegou ao poder em 1820, se fosse aprofundando atingindo mais tarde por ricochete a própria instituição real. Hoje todos os historiadores vão nesse sentido, nomeadamente quando tentam explicar as causas do regicídio.
Podemos assim concluir que a noção de bem comum se fortalece nos caminhos da tradição, e esmorece sempre que o estado se afasta desses caminhos. Nesta ordem de ideias compreende-se que tenha sofrido forte abalo no período filipino; e que tenha recuperado com a restauração; também não foi bem tratada durante as razias de Pombal e decaíu muito no liberalismo; mas a machadada final no bem comum quem a deu foram os jacobinos republicanos, e curiosamente... invocando sempre o bem comum!
Sabendo-se que a noção de ‘bem comum’ é o cimento (e o impulso) que constrói as pátrias e que a sua ausência ou desvalorização, conduzem à extinção ou à dissolução das mesmas, não pude deixar de prestar atenção a tal depoimento, ainda por cima vindo de um observador privilegiado.
E digo observador privilegiado porque a existência da Bélgica só se compreende apelando à noção de ‘bem comum’, uma vez que estamos perante um estado constituído (fundamentalmente) por duas comunidades, flamengos e valões, com origens e idiomas muito diferentes, em tudo propensas à separação.
Esta separação não acontece (não aconteceu até agora) porque a noção de ‘bem comum’ prevalece, e prevalece, em minha opinião, porque tem uma representação política adequada. Na Bélgica, como se sabe, quem representa e garante o ‘bem comum’ é a monarquia, ou se quiserem, ‘o rei dos belgas’.
Aqui chegados, lembro-me que no referido programa, Fátima Campos Ferreira não resistiu e leu uma conhecida crónica de Eça de Queiroz onde este descreve o ‘estado da nação’ à época (finais do séc. XIX e finais da monarquia), retrato em tudo semelhante ao tempo presente. A mesma crise social, igual descrédito na política, na justiça, a desconfiança generalizada, com toda a gente a dizer mal de tudo e de todos.
E vivíamos ainda em monarquia, exclamarão (satisfeitos) os republicanos!
Dando de barato que o regime era monárquico, eu chamar-lhe-ía antes uma ‘república coroada’, torna-se necessário admitir que a noção de ‘bem comum’ é uma coisa e a respectiva representação política é outra. Normalmente (e de forma natural) coincidem em monarquia e só excepcionalmente (por períodos de tempo limitado) podem coincidir em república. Nunca coincidem, digo eu, quando as elites que detêm o poder impõem à população usos e costumes estranhos às suas origens e cultura. O ataque à Igreja Católica e ao catolicismo é neste aspecto recorrente.
Era portanto lógico que o divórcio entre o povo e a ‘elite afrancesada’ que chegou ao poder em 1820, se fosse aprofundando atingindo mais tarde por ricochete a própria instituição real. Hoje todos os historiadores vão nesse sentido, nomeadamente quando tentam explicar as causas do regicídio.
Podemos assim concluir que a noção de bem comum se fortalece nos caminhos da tradição, e esmorece sempre que o estado se afasta desses caminhos. Nesta ordem de ideias compreende-se que tenha sofrido forte abalo no período filipino; e que tenha recuperado com a restauração; também não foi bem tratada durante as razias de Pombal e decaíu muito no liberalismo; mas a machadada final no bem comum quem a deu foram os jacobinos republicanos, e curiosamente... invocando sempre o bem comum!
segunda-feira, julho 14, 2008
Restos de família
Não procurem aqui a verdade das ciências ou a fé das religiões, isto é um diário de emoções, são os instintos à solta e algumas necessidades cartesianas - opino, logo existo. Nada mais. Hoje preciso de falar na família, no conceito que herdei, que me dá jeito, e que Sócrates (o primeiro-ministro) também parece defender! Quem diria. Foi sem querer, eu sei, serviu apenas para denunciar a opositora, que não deu pelo anzol que o liberalismo mordeu e onde ainda se debate.
Manuela e Sócrates não se distinguem neste aspecto, filhos dilectos de Rousseau, ambos se conjuraram para destruir a família patriarcal, onde a comunhão e a solidariedade estavam presentes para além da consanguinidade. Para além da procriação. Era um conceito inclusivo e abrangente, não tinha a ver com os valores efémeros de cada época, consubstanciava uma realidade duradoura. Porém, a miragem do homem anjo, pré-familiar (!), as necessidades (comerciais) de conquista do poder pela burguesia, destronaram a família real - arquétipo e representação política familiar - e nesta contingência todas as famílias se desmoronaram.
Entre os escombros subsistem os restos do antigo agregado mas a confusão está instalada – a (avó) Manuela aprisiona a família na procriação enquanto Sócrates insinua abrangência para a contrariar! Mas não têm (não temos) sorte nenhuma, o mais certo é acabarmos a vida num lar, sem família por perto… sanguínea, ou outra.
Manuela e Sócrates não se distinguem neste aspecto, filhos dilectos de Rousseau, ambos se conjuraram para destruir a família patriarcal, onde a comunhão e a solidariedade estavam presentes para além da consanguinidade. Para além da procriação. Era um conceito inclusivo e abrangente, não tinha a ver com os valores efémeros de cada época, consubstanciava uma realidade duradoura. Porém, a miragem do homem anjo, pré-familiar (!), as necessidades (comerciais) de conquista do poder pela burguesia, destronaram a família real - arquétipo e representação política familiar - e nesta contingência todas as famílias se desmoronaram.
Entre os escombros subsistem os restos do antigo agregado mas a confusão está instalada – a (avó) Manuela aprisiona a família na procriação enquanto Sócrates insinua abrangência para a contrariar! Mas não têm (não temos) sorte nenhuma, o mais certo é acabarmos a vida num lar, sem família por perto… sanguínea, ou outra.
sábado, julho 12, 2008
"O Estado da Nação"
O "Estado da Nação"? Basta olhar para a Assembleia, quieta e calada, para se perceber o "Estado da Nação". Em nenhum parlamento da "Europa" subsiste um partido como o Partido Comunista Português, que não deixou ainda a "guerra fria" e vê Portugal como o via em 1960. Com uma certa razão. O PCP não é, por assim dizer, o artifício de um fanatismo inexplicável e ridículo: é o produto arcaico de uma economia arcaica e de um Estado autoritário e monstruoso. Num país moderno não existiria; na eterna "modernização" de Portugal prospera.
Exactamente como o Bloco, que vem do mundo dúbio da heterodoxia marxista e se alimenta da pobreza letrada e de uma velha história, que só neste ermo, esquecido e miserável, continua. O PC e o Bloco são, segundo as sondagens, 20 por cento do eleitorado.
Fora isto, que já chega, há o "debate" entre os presuntivos representantes da democracia "burguesa". De facto, não há debate - de qualquer espécie. A oposição fala do atraso e da insuficiência do país, que naturalmente quase não varia, e atribui ao Governo a culpa dessa interminável desgraça. O Governo devolve a culpa à oposição, que já foi governo, e gaba os méritos das duas ou três coisas, que no meio da balbúrdia conseguiu fazer. Nunca, em tempo algum, se sai daqui. Assistir a uma sessão é assistir a todas. Nem as personagens mudam; e a realidade, essa, não penetra em S. Bento. Para os participantes neste ritual, a substância de uma questão ou de um argumento não contam. "Ganhar" é a afirmação de uma simples superioridade teatral ou da "esperteza" bronca e bruta, que "apanha" o próximo e que o indígena tanto estima.
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Em 1975, a Assembleia ainda sabia gramática e usava com alguma eficiência a língua portuguesa. Hoje papagueia sem vergonha os lugares-comuns da propaganda partidária ou perora num calão administrativo e "técnico", que se destina habilidosamente a esconder a verdade ou o vácuo. A tradição oratória, até a salazarista, desapareceu. Não há memória de um discurso organizado e claro, que tenha tido sobre a opinião pública um efeito profundo e duradouro. A Assembleia é um clube privado que, de quando em quando, a televisão mostra a um país mais do que indiferente.
O "debate" sobre o "Estado da Nação" da última quinta-feira exibiu involuntariamente o país como ele é: a indigência intelectual, a mesquinhez de propósito, a irresponsabilidade política. Daquela gente não se pode esperar nada.
.Com a devida vénia - Vasco Pulido Valente in jornal Público de 12 de Julho 2008.
O meu estado
Estou melhorzinho obrigado mas não foi o ‘pacote dos combustíveis’ que me aliviou. Posso até dizer que me passou completamente ao lado! Sabe vizinha o tempo da escola e do passe escolar já lá vai... Vivo em casa alugada, o IMI portanto não me diz nada. E pelos mesmos motivos não beneficio do aumento das deduções no IRS. Mas acabo por ter sorte: imagine a vizinha se eu era accionista daquela empresa que foi assaltada pelo Robin dos Bosques!
Visto assim, não foi chito!
Visto assim, não foi chito!
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