sexta-feira, junho 30, 2006

Associação Vale De Acor na primeira linha da recuperação e integração social


Uma entrevista com o Padre Pedro Quintella, responsável pela comunidade que traz esperança de vida a muitos que a demandam.

A Associação Vale De Acor é uma instituição ligada à Igreja de S. Tiago (Almada) e a um grupo de cristãos voluntários, que se dedica à recuperação de pessoas toxicodependentes , com uma comunidade que está instalada na Quinta de S. Lourenço.
Possui a maior estrutura protocolada do país (77 camas) e é dirigida por um sacerdote nascido na freguesia da Trafaria - o padre Pedro Quintella, - que conhece como ninguém a realidade da luta contra este grande flagelo da sociedade: a toxicodependência.

Almada - Visitou as instalações da comunidade e ouviu o Padre Quintella que explicou as fases de intervenção, o modo de funcionamento da instituição, fez considerações à política oficial de combate e falou dos apoios que recebem.

Padre Quintela (P.Q.) - As formas de intervenção estão divididas em três categorias: Primária, Secundária e Terceária. A intervenção primária é evitar que as pessoas consumam drogas. Nós não nos dedicamos a isso, mas sim às pessoas que já caíram nas suas malhas, que não são capazes de superar a situação por si próprias e que vêm aqui pedir ajuda. Portanto situamo-nos na área de intervenção secundária.
Fazemos também alguns trabalhos de intervenção terceária, que é o de procurar devolver á cidadania pessoas que estavam mal, ajudando-as e acompanhando-as no regresso à sociedade e à comunidade.

Almada - Como se processa a intervenção?
P.Q. - Fazemos uma recuperação que não tem compensação química. Primeiro: não se substitui uma droga por outras, ou seja, os anti-opiáceos, os inibidores de consumo, substâncias com efeitos psicotrópicas. Segundo: temos uma preparação em internamento, que é a fase mais complexa, uma preparação para uma outra fase mais importante; Terceiro: damos grande importância à família, na qual nos inscrevemos, como os inventores das famílias na fase de integração. Um grande valor é dado à família no processo de reinserção; Quarto: damos grande relevância ao acompanhamento das pessoas na reinserção. Não basta fazer a recuperação. As pessoas regressam ao seu emprego, amigos, família e durante um ano, ano e meio, vamos acompanhando, ajudando-os a afastarem-se de nós. Quinto: as nossas intervenções não são só terapêuticas. Da equipa fazem parte um psiquiatra, psicólogos, sociólogos. O click da nossa intervenção tem a ver com uma preocupação educativa. Não basta que as pessoas não se droguem, não basta que as pessoas tenham um maior conhecimento sobre si próprias, é preciso que as pessoas tenham outros valores, outros objectivos, e possam dar outro sentido e significado à vida . Ao mesmo tempo que se desenvolve um processo terapêutico, passa um processo educativo.

Almada - Tivemos oportunidade de verificar que o horário diário é muito preenchido.
P.Q. - Há aqui um regime puxadíssimo, com um horário muito intenso. Temos aqui técnicas psicológicas que provocam grande tensão. As pessoas são chamadas a dizerem o que pensam e o que sentem, porque o não dito é para nós o princípio da evasão.

Almada - Existe alguma limitação para o ingresso das pessoas ?
P.Q. - Não. À parte de situações dramáticas que vão surgindo e que temos interesse em trabalhar com a Câmara, porque no país não está coberta a situação de adolescentes que já têm consumos pesados de drogas, não é nada saudável que um rapazinho com 15 ou 16 anos seja aqui internado com gente que tem mais de quarenta e por diante. No país não está coberta a faixa da adolescência. Não é que apareça muita gente, mas de facto há uma população de adolescentes e às vezes crianças a injectar-se ou a fumar drogas, com 11, 12 anos... Com heroínas, inclusive. É muito comum, com essas idades, começarem a fumar charros. Mas o grande grosso que nos aparece é da faixa entre os 25 e 30 anos.

Almada - As pessoas que aqui trabalham são voluntárias?
P.Q. - Temos muitos voluntários. Cerca de 50 passam por cá regularmente, médicos voluntários, enfermeiros voluntários... O pessoal que está cá a tempo inteiro não é retribuído pelo valor de mercado. Houve gente que aqui trabalhou, uma série de anos, com formação universitária e nem vou dizer quanto auferiram. Há aqui situações que não têm preço Somos amigos da igreja, ligados uns aos outros.
Consumo e panaceias

Almada - Qual o papel que o Estado assume neste âmbito?
P.Q. - O Estado tem 1300 camas para recuperação, das quais, há uns tempos estavam 500 por ocupar. Um número alucinante. Ouve um tempo em que tudo foi convergindo no sentido de se querer construir estruturas para a recuperação das pessoas, pois agora, depois de uma grande hesitação, enveredou-se por outra direcção e o objectivo da prática do Estado não tem sido recuperar mas sim o sustentar com outra higiene a vida de consumo.

Almada - Refere-se ao uso da metadona?
P.Q. - A metadona pode ser usada em circunstâncias muito específicas , muito controladas. A metadona não pode ser a panaceia dos doentes e muito menos da classe política. Eles perdem muita perigosidade alimentados com a metadona, mas isso não é uma recuperação.

Almada - Não acaba com a dependência?
P.Q. - Não. Não acaba. Eles depois passam a multi-usos. São cidadãos de segunda. Ninguém admite um trabalhador que esteja na metadona... Para nós é importante que o Estado não alimente cidadãos de segunda. A metadona cria uma sociedade «a duas velocidades».

Almada - Quer dizer com isso que a metadona é desaconselhada de todo...
P.Q. - Não é de todo. Há, situações em que é tolerada, por exemplo, nas mulheres grávidas, doentes terminais, situações transitórias. Em 1996, em Setúbal as pessoas começaram com o consumo e ainda hoje «estão» na metadona. Ouvi um técnico do Estado dizer que eram precisos 7 a 8 anos para obter resultados. Isto é uma enormidade. Para nós é importante que a metadona fosse em ordem a um tratamento, neste momento, a prática parece-nos mais que ela seja um estacionamento.

Almada - Voltando à questão do consumo: Acha que tem aumentado?
P.Q. - Sim. Em Portugal tem-se vindo a aumentar insistentemente. Há uma tendência no país de baixar a média de idades de pessoas que consomem heroína. Acabo de ler ontem o relatório da Organização Internacional do Controlo de Estupefacientes (OICS) que funciona no seio das Nações Unidas e nesse relatório dizia-se que: no ano 2000, na Europa, houve um aumento nítido de consumo de cocaína, anfetaminas, extasy, mas também muita heroína. Agora com a crise do Afeganistão é muito provável que venha por aí muita heroína barata. E ela vindo mais barata, as pessoas consomem o que lhes surge. O dependente é propenso à moda que o tráfico inventa.

Almada - As inúmeras campanhas feitas não deveriam ter contribuído para uma eventual diminuição do consumo?
P.Q. - Felizmente, 95% dos jovens não são dependentes de droga, nem tiveram contactos com ela. Não há o perigo da sociedade se tornar toda consumidora, mas há que saber o que é que fazemos com os que consomem, e o que há a fazer para que outros não entrem . Hoje as pessoas estão mais informadas, mas esta informação tem efeitos de tal maneira cínicos, que a pessoa diz: Não vou para a heroína, mas vou para os "shots" alcoólicos. Isto acontece com a gente nova. Já sabem que a heroína rebenta com a pessoa em três anos, então preferem rebentar-se aos bocados. Há aqui efeitos perversos. Deixa de se usar as drogas perigosas e avança-se para outras.

Acompanhamento e apoio da Câmara

Almada - Que apoios têm recebido ?
PQ - Somos uma instituição da Igreja. Católica, que ajudou com verbas. Temos um acordo com o Ministério da Saúde para as despesas fixas; temos o apoio do Banco Alimentar, com uma boa vontade muito grande; e depois temos colaborado, com muita correcção de parte a parte com o Município. Um entendimento muito sério e honesto entre as partes. A senhora Presidente tem-nos visitado com muita regularidade. Nós pensamos que prestamos aqui um serviço que serve o país e o concelho, que o qualifica em termos de solidariedade e com a excelência do trabalho que aqui vai sendo feito.

Almada - As instalações da comunidade são vossas?
P.Q. - Foi também a Câmara que nos pôs em contacto com o IGAHPE e conseguimos um comodato por 50 anos.

Almada - Todo o trajecto seguido até aqui o satisfaz? Que perspectivas para o futuro?
P.Q. - Sim. Faz-me muito bem aquilo que faço aqui: toda a primeira linha do testemunho das coisas grandes e bonitas que Deus faz com os homens. Com a colaboração de todos, com a lealdade de todos, com a generosidade de muita gente. As coisas têm corrido bem. Deus permita que continuem.
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Fonte: Boletim Municipal de Almada.

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